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  • 84 InterScientia, Joo Pessoa, v.1, n.2, p. 84-99, maio/ago. 2013

    O SERTO DA PARABA NO SCULO XVIII: representaes espacial e imagtica

    Maria Simone Morais Soares* Maria Berthilde Moura Filha**

    RESUMO

    O presente trabalho integrante da pesquisa em andamento intitulada "Histria Urbana do Serto da Paraba nos sculos XVIII e XIX", desenvolvida com estudantes do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitrio de Joo Pessoa - UNIP, em parceria com o Laboratrio de Pesquisa Histria e Memria (LPPM) da Universidade Federal da Paraba - UFPB, que tem por objetivo geral analisar a gnese e estruturao de ncleos urbanos no Serto da Paraba nos sculos XVIII e XIX. Assim, para cumprir com tal desiderato, entende-se que o primeiro passo consiste em analisar o que se entendia por Serto da Paraba no sculo XVIII, perodo no qual ocorreu a gnese do urbano. Portanto, este artigo tem por objetivo compreender as representaes espacial e imagtica associadas ao Serto da Paraba no sculo XVIII. Para tanto, recorreu-se a dois procedimentos metodolgicos essenciais a toda pesquisa em histria urbana: anlise historiogrfica e investigao em documentos primrios.

    Palavras-chave: Serto da Paraba. Representao Espacial.

    Representao Imagtica. Sculo XVIII.

    .

    rela

    tos

    de

    pe

    squ

    isa

    *Graduao e Mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Paraba - UFPB. Professora do Centro Universitrio de Joo Pessoa UNIP. E-mail: msimonems@yahoo. com.br. **Doutora em Histria da Arte pela Universidade do Porto. Professora adjunta da Universidade Federal da Paraba. Docente permanente do PPGAU/UFPB. E-mail: berthilde16@ yahoo.com.br.

    1 INTRODUO

    O presente trabalho integrante da

    pesquisa em andamento intitulada

    "Histria Urbana do Serto da Paraba

    nos sculos XVIII e XIX", desenvolvida

    com estudantes do curso de Arquitetura e

    Urbanismo do Centro Universitrio de

    Joo Pessoa - UNIP, em parceria com o

    Laboratrio de Pesquisa Histria e

    Memria (LPPM) da Universidade Federal

    da Paraba - UFPB, que tem por objetivo

  • Maria Simone Morais Soares, Maria Berthilde Moura Filha

    InterScientia, Joo Pessoa, v.1, n.2, p. 84-99, maio/ago. 2013 85

    geral analisar a gnese e estruturao de

    ncleos urbanos no Serto da Paraba

    nos sculos XVIII e XIX. Tal espao

    compreende a rea banhada pelo Rio

    Piranhas e seus afluentes, cujos principais

    so: Pianc, Peixe, Serid, Espinharas e

    Sabugy. A delimitao a partir dos

    referidos rios se faz devido ao fato deles

    terem sido utilizados como vetores de

    ocupao pelos agentes de colonizao,

    sendo exaustivamente referenciados na

    documentao do perodo.

    Sabe-se que a gnese dos ncleos

    urbanos no espao estudado resultado

    do povoamento pelos agentes de

    colonizao, ou seja, a Coroa portuguesa,

    a igreja e os proprietrios rurais, bem

    como pelo despovoamento dos povos

    indgenas existentes no espao analisado.

    A historiografia paraibana aponta que o

    referido processo teve incio a partir da

    expulso dos holandeses do territrio, em

    1654, intensificando-se durante o sculo

    XVIII e XIX, diante de uma srie de

    conjunturas econmicas, polticas, sociais

    e culturais.

    Diante do exposto, aponta-se que o

    primeiro problema que gira em torno da

    pesquisa em desenvolvimento , sem

    dvida, saber o que era tratado por Serto

    da Paraba no sculo XVIII, quando nele

    ocorreu a gnese do urbano. Porm, no

    se pode responder a essa pergunta sem

    antes tratar de outra questo: o que se

    entendia pela palavra Serto no sculo

    XVIII? Portanto, este artigo busca

    apresentar algumas consideraes para

    elucidar tais questes, tendo por objetivo

    compreender as representaes espacial

    e imagtica associadas ao Serto da

    Paraba no sculo XVIII. Para tanto,

    recorreu-se a dois procedimentos

    metodolgicos essenciais a toda pesquisa

    em histria urbana: anlise historiogrfica

    e investigao em documentos primrios.

    A anlise historiogrfica foi feita a

    partir de obras principais que tratam do

    conceito de serto e de suas conotaes

    espacial e imagtica. J a investigao

    documental ocorreu principalmente nos

    documentos (requerimentos, cartas,

    ofcios, cartas rgias, cartas de doaes

    de sesmarias, entre outros) encontrados

    principalmente nos Manuscritos Avulsos

    Referentes Capitania da Paraba

    existentes no Arquivo Ultramarino de

    Lisboa (disponvel em CD-ROM), no

    levantamento apresentado por Joo de

    Lyra Tavares (1982), presente no livro

    "Apontamentos para a histria territorial

  • O Serto da Paraba no sculo XVIII: representaes espacial e imagtica

    86 InterScientia, Joo Pessoa, v.1, n.2, p. 84-99, maio/ago. 2013

    da Parahyba", o qual contm um

    inventrio de todas as datas de sesmarias

    relativas ao Serto de Piranhas no sculo

    XVIII.

    Tal anlise aponta que as

    conotaes do Serto no sculo XVIII so

    resultantes de um conceito formulado

    desde o incio da colonizao do Brasil,

    no sculo XVI, estando relacionada a uma

    rea desconhecida, pouco povoada e

    distante do litoral, tido como conhecido e

    colonizado. Alm disso, associava-o aos

    povos indgenas que habitavam a regio,

    caracterizando-o como um ambiente de

    brbaros perigosos. E, por ltimo,

    representava-o como lugar para o

    enriquecimento daquelas pessoas que

    no encontravam espao nas zonas de

    produo da cana-de-acar.

    2 REPRESENTAO ESPACIAL DO SERTO DA PARABA NO SCULO XVIII

    Antes de adentrar especificamente

    sobre o Serto da Paraba, buscou-se o

    significado da representao espacial da

    palavra serto, enquanto um espao

    fsico. Trata-se de um espao definvel,

    mas no delimitvel, conforme se

    demonstrar. Definvel atravs da

    dicotomia relacionada representao

    que os portugueses possuam acerca

    dele, como oposio ao litoral. No

    delimitvel, porque no havia limites e

    fronteiras precisos a ele associados.

    Sabe-se que as fronteiras e os

    limites dos territrios administrativos e das

    regies do Brasil s foram definidos no

    sculo XIX, o que leva indicao da

    impreciso desses marcos no Brasil

    Colonial, principalmente se relacionados a

    espaos como o aqui tratado. Assim

    sendo, a representao espacial da

    totalidade do serto estava mais

    relacionada a um conceito e a uma

    representao simblica do que a um

    espao fsico delimitado. Esse conceito,

    disseminado desde os primeiros tempos

    da colonizao, faz referncia a um local

    desconhecido que se opunha ao litoral, e

    tem sido analisado por pesquisadores,

    principalmente historiadores. Eles buscam

    entend-lo a partir das fontes dos

    cronistas e viajantes do Perodo Colonial

    que, a fim de justificar essa acepo,

    citam comumente a Carta de Pero Vaz de

    Caminha, primeiro documento sobre o

    Brasil, escrito em 1500, no qual j

    aparece o vocbulo, como demonstrado

    no trecho que segue:

    Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, at outra ponta que contra o norte vem, de que ns

  • Maria Simone Morais Soares, Maria Berthilde Moura Filha

    InterScientia, Joo Pessoa, v.1, n.2, p. 84-99, maio/ago. 2013 87

    deste porto houvemos vista, ser tamanha que haver nela bem vinte ou vinte e cinco lguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda ch e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta toda praia... muito ch e muito formosa. Pelo serto nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, no podamos ver seno terra e arvoredos -- terra que nos parecia muito extensa (CAMINHA, 1943, p. 239).

    A observao de Caminha

    representativa do olhar de um agente

    situado no litoral e reluz a ideia de espao

    desconhecido. Como foi feita no incio do

    sculo XVI, pode-se afirmar que o

    colonizador portugus j utilizava a

    palavra, provavelmente desde a Idade

    Mdia, como assim atesta Rodrigues:

    a palavra serto advm do termo latino desertanum, desertum. no portugus antigo se falava deserto para designar lugar desconhecido, solitrio, seco e no entrelaado ao conhecimento. imaginou-se serto tambm como a terra apartada do mar, mediterrnea, continental no sentido em que se empregava a palavra em portugal no final da idade mdia: era a terra para l das costas ao longo das quais se navegava (rodrigues, 2003, p.266).

    O sentido da descrio feita por

    Rodrigues permaneceu at o sculo XVIII,

    ora estudado. Uma evidncia a

    definio do vocbulo nos dicionrios

    deste perodo. No primeiro dicionrio da

    lngua portuguesa, intitulado Vocabulrio

    portuguez e latino, datado de 1713, de

    autoria do Padre Raphael Bluteau (1638-

    1734), serto aparece como sendo [...]

    o interior, o corao das terras, oppes-se

    ao martimo, e costa. [...] O serto toma-

    se por mato longe da costa. O serto da

    calma i.e. o lugar onde ella He mais

    ardente [...] (BLUTEAU, 1713, p. 613). A

    mesma conotao permanece na prpria

    reviso do ref

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