2230629 john-zerzan-futuro-primitivo

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  • 1. FUTURO PRIMITIVO John Zerzan

2. Revolte-se, liberte o conhecimento: HTTPS://WWW.SABOTAGEM .REVOLT.ORG Autor: John ZerzanTtulo: Futuro Primitivo Ttulo original: Primitive Future Data da Digitalizao: 1994 Data Publicao Original: 1999Esta obra foi digitalizada, formatada, revisada e liberta das excludentes convenesmercantis pelo Coletivo Sabotagem. Ela no possui direitos autorais pode e deve serreproduzida no todo ou em parte, alm de ser liberada a sua distribuio, preservandoseu contedo e o nome do autor. 2 3. Sobre o AutorJohn Zerzan (nascido em 1943) anarquista americano que se destaca nasegunda metade da dcada de 1980 enquanto filosofo e escritor de aspiraesprimitivistas. Seus trabalhos focam a civiliza o (agrcola) e s u a inerenteopressividade, defendendo formas inspiradas no modo de vida das sociedadeshumanas pr-histricas como modelos de sociedades plenas de liberdade.Algumas de suas crticas mais desafiadoras s e e stendem ao processo dadomesticao, linguagem, ao pensamento simblico (como matemtica e arte) e conceituao de tempo. Seus escritos mais conhecidos s o Elementos daRejeio (1988), Futuro Primitivo (1994), Contra a Civilizao: Um Leitor (1998) eCorrendo no Vazio (2002).3 4. Futuro PrimitivoA diviso do trabalho, que tanto contribuiu para nos submergir na criseglobal de nosso tempo, atua cotidianamente para impedir-nos de compreender aorigem do horror atual. Mary Lecron Foster (1990) e outros acadmicos afirmam,com muito eufemismo, que, hoje em dia, a antropologia est "ameaada por umafragmentao grave e destrutiva". A voz de Shanks e Tilley (1987) faz eco de umproblema similar "o objetivo da arqueologia no somente interpretar o passado,seno transformar a maneira em como interpretado em benefcio dareconstruo social atual". Evidentemente, as cincias sociais, por si mesmas,limitam a perspectiva e a profundidade da viso necessria que permitiriam umareconstruo como esta. Em termos das origens e do desenvolvimento dahumanidade, o leque de disciplinas e sub-disciplinas cada dia mais ramificado -antropologia, arqueologia, paleontologia, etno l o g i a , paleobotnica, e t n o -antropologia, etc., etc. refletem a restrio, o efeito mutilador que a civilizaopersonificou desde o seu comeo.A literatura especializada pode, apesar de tudo, proporcionar uma idiaaltamente aprecivel, com a condio de abord-la com mtodo e conscinciaapropriada, com a condio de deter a deciso de ultrapassar seus limites. De fatoas deficincias no pensamento ortodoxo correspondem s exigncias de umasociedade cada vez mais frustrante. A insatisfao com a vida contempornea setransforma em desconfiana frente s mentiras oficiais que servem para justificarestas condies de existncia: esta desconfiana permite assim mesmo esboarum quadro mais fiel do desenvolvimento da humanidade.Explicou-seexaustivamente a renncia e a submisso que caracterizam a vida moderna pela"natureza humana". Assim mesmo, o limite de nossa existncia pr-civilizada, feitade privaes, de brutalidade e de ignorncia acaba por fazer aparecer aautoridade como um benefcio que nos salva da selvageria. Ainda se invoca ao 4 5. "homem das cavernas" e Neanderthal" para nos lembrar onde estaramos sem areligio, o Estado e os trabalhos forados.Porm, esta viso ideolgica de nosso passado foi radicalmente modificadano curso das ltimas dcadas graas ao trabalho de universitrios como RichardLee e Marshall Sahlins. Tm-se assistido a uma mudana quase completa naortodoxia antropolgica de importantes conseqncias. Admite-se a partir deagora que antes da domesticao, antes da inveno da agricultura, a existnciahumana passava essencialmente no cio, que descansava na intimidade com anatureza, sobre uma sabedoria sensual, fonte de igualdade entre sexos e de boasade corporal. Isso foi nossa natureza humana, por durante aproximadamentedois milhes de anos, antes de nossa submisso aos sacerdotes, reis e patres.Recentemente se fez outra revelao surpreendente, ligada primeira edando-lhe outra amplitude, que mostra quem fomos e o que ns poderamos ser.O principal motivo de rejeio s novas descries da vida dos caadores -recolhedores consiste, em considerar este modo de vida com condescncia, comoo mximo a que podia chegar a espcie nos primeiros estgios de sua evoluo.Assim, os que ainda propagam esta viso consideram que teria um longo perodode graa e de existncia pacfica, mas dizem que os humanos simplesmente notinham a capacidade mental para mudar sua simplicidade por complexidade sociale realizao tecnolgica.Em um golpe fundamental civilizao, agora aprendemos que no s foi avida das pessoas uma vez, e para to muito tempo, um estado que no sabia aalienao ou a dominao, mas como as investigaes desde os anos 80 porarquelogos John Fowlett, Thomas Wynn, e os outros mostraram, aqueles sereshumanos possuram uma inteligncia pelo menos igual a nossa prpria. A antigatese da "ignorncia" foi apagada de uma vez, e ns contemplamos nossas origenscom uma luz nova.Com a finalidade de colocar a questo de nossa capacidade mental em seucontexto, til rever as diversas interpretaes (com freqncia carregadas deideologia) das origens e do desenvolvimento da humanidade. Robert Ardrey(1961,1976) pinta um quadro patriarcal e sanguinrio da pr-histria, como fizeram 5 6. num grau ligeiramente menor, Desmond Morris e Lionel Tiger. Na mesma direo,Sigmund Freud e Konrad Lorenz descreveram a depravao inata da espcie,contribuindo assim com uma pedra no edifcio da aceitao da hierarquia e dopoder no presente. Felizmente, um panorama muito mais plausvel acabou por emergir,correspondendo a um conhecimento geral da vida paleoltica. O compartilhar erepartir os alimentos foram finalmente considerados como um aspecto importantena vida das primeiras sociedades humanas (i.e. Washburn and DeVore, 1961).Jane Goodall (1971) e Richard Leakey (1978), entre outros, chegaram conclusoque isso foi um dos elementos chave no acesso ao estgio de Homo ao menos hdois milhes de anos. Esta teoria avanada nos incios dos anos 70 por Linton,Zihiman, Tanner e Isaac, da tese de cooperao, acabou por ser a dominante. Umdos elementos convincentes a favor da tese da cooperao, contra a da violnciageneralizada e da dominao dos machos, a da diminuio, j nos primeirosestgios da evoluo, da diferena de tamanho e peso entre machos e fmeas. Od i m o r f i s m o s e x u a l e r a i n i c i a l m e n t e m uito pronunciado, incluindo taiscaractersticas como caninos proeminentes ou "dentes de combate" entre osmachos e caninos muito menores entre as fmeas. O desaparecimento dosgrandes caninos entre os machos aponta a tese segundo a qual a fmea daespcie operou uma seleo a favor dos machos sociveis, que compartilhavammais. A maior parte dos smios atuais, na ausncia da capacidade da fmea deescolha, tm os caninos significantemente mais longos e grossos entre os machosque entre as fmeas. (Zihiman 1981, Tanner 1981). A diviso sexual do trabalho outra questo fundamental nos princpios dahumanidade, aceita quase sem discusso e inclusive expressada pela ordemmesmo da expresso caadores recolhedores. Atualmente se admite que a coletade alimentos vegetais, que durante muito tempo se considerou um domnioexclusivo das mulheres e de importncia secundria frente caa,supervalorizada como atividade masculina, constitua a principal fonte dealimentos (Johansen e Shreeave 1989). Sendo assim, as mulheres nodependiam, de maneira significativa dos homens para se alimentar (Hamilton 6 7. 1984), parece provvel que, ao invs de toda diviso do trabalho, a flexibilidade ea partilha era a regra (Bender 1989). Como mostra Zihiman (1981), umaflexibilidade geral de comportamento teria sido a caracterstica principal dosprimeiros tempos da espcie humana. Joan Gero (1991) demonstrou que osutenslios de pedra podiam ter sido feitos tanto por homens como por mulheres, ePoirier (1987) nos lembra que "nenhuma prova arqueolgica apia a teoriasegundo a qual os primeiros humanos praticaram a diviso sexual do trabalho".No parece que a procura de alimento tenha obedecido a uma diviso do trabalhosistemtica (Slocum 1975), e muito provvel que a especializao por sexo sefizesse muito tarde no curso da evoluo humana (Zihiman 1981, Crader e Isaac1981). Assim, se a primeira adaptao de nossa espcie se centrou na coleta,quando apareceu a caa? Binford (1984) sustenta que nenhum sinal de prticascarnvoras indica o uso de produtos animais (i.e. evidncia de prticas desacrifcio) at a apario, relativamente recentes, de humanos anatomicamentemodernos. O exame ao microscpio eletrnico de fsseis de dentes encontradosna frica Oriental (1984) indicam uma dieta essencialmente composta por frutos,igualmente o exame similar de utenslios de pedra provenientes de Koobi Fora,Qunia, de 1,5 milhes de anos, (Keeley and Toth 1981) mostram que elesusavam para cortar os vegetais. O pouco de carne na dieta no incio do Paleolticoera mais provavelmente encontrada do que particularmente caada (Ehrenberg1989b). A condio "natural" da espcie evidentemente a de uma dieta formadaem grande parte por alimentos vegetais ricos em fibra, ao contrrio da alimentaomoderna de alto contedo em matrias gordurosas e protenas animais com suaseqela de desordens crnicas (Mendeloff 1977). Nossos primeiros antepassadosutilizavam "seu conhecimento detalhado do meio, numa espcie de cartografiacognitiva" (Zihiman 1981) na atividade de coletar as plantas que serviam a suasubsistncia, as evidncias arqueolgicas da existncia de caa no aparecemseno muito lentamente ao longo do tempo (Hodder 1991). 7 8. Entretanto, muitos elementos vm contradizer a tese de que a caa estavamuito estendida durante os tempos pr-histricos. Por exemplo, as pilhas deossadas nas quais antes se via uma prova de matanas em massa de mamferos,ao examin-las resultaram em vestgios de inundaes ou de refgio de animais.Em Were There Elephant Hunters at Tooralba?, Lewis Binfords (1989) duvidaque as primeiras caadas significativas teriam aparecido antes de 200.000 anos,ou mais cedo. Adrienne Zihiman (1981), chegou conc