A Roupa Dos Orixas

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<p>SOBRE OS SIGNOS DE OMOLU</p> <p>A ROUPA DO SANTO - OMOLU</p> <p>SAMUEL ABRANTES</p> <p>SOBRE OS SIGNOS DE OMOLU</p> <p>RIO DE JANEIRO 1999</p> <p>EDITORA GORA DA ILHA 1</p> <p>SAMUEL ABRANTES</p> <p>Ficha catalogrficaABRANTES, Samuel SOBRE OS SIGNOS DE OMOLU / SAMUEL ABRANTES Rio de Janeiro, agosto de 1999 130 pginas Editora gora da Ilha - ISBN 86854 Sociologia da religio Religies da frica negra CDD - 306.6 299.6</p> <p>COPYRIGHT: SAMUEL ABRANTES</p> <p>RIO DE JANEIRO - RJ. TEL.: (21) 242 5808DIREITOS DESTA EDIO RESERVADOS AO AUTOR. PROIBIDA A REPRODUO TOTAL OU PARCIAL DESTA OBRA SEM AUTORIZAO EXPRESSA DO MESMO.</p> <p>CAPA: Confeco do detalhe artesanal por Edir Gutierrez. RIODE</p> <p>JANEIRO, AGOSTO</p> <p>DE</p> <p>1999</p> <p>EDITOR: PAULO FRANA</p> <p>EDITORA GORA DA ILHA - TEL.FAX: 21 - 393 4212 E-mail pfranca@centroin.com.br</p> <p>2</p> <p>SOBRE OS SIGNOS DE OMOLU</p> <p>Este livro resultado da dissertao apresentada Escola de Belas Artes da UFRJ para obteno do ttulo de mestre. Muitas pessoas foram importantes neste processo. O desenvolvimento deste trabalho no seria possvel sem o estmulo e a orientao do Prof. Dr. Frederico Augusto L. de Ges; o exemplo e a iniciao do olhar antropolgico sobre o assunto da Prof. Liana Silveira e a viso singular e capacidade da Prof. Dr. Tereza Virgnia de Almeida em vislumbrar a temporalidade do tema. Agradeo tambm Prof. Sandra Moreira Portugal, Prof. Lcia Maria Martins e ao Prof. Flvio Bragana, que me estimularam publicao com o entusiasmo com que leram e me fizeram repensar o texto. Ao sr. Amrico, por sua trajetria de luz. Aos amigos, pela credibilidade e alegria do encontro seguinte. Edir Gutierrez, sempre solcita e indispensvel nos bordados. Aos informantes, pela participao ativa e cooperao durante as entrevistas, em especial a Joaquim Motta, que me colocou diante dos mistrios e da possibilidade de transcendncia desses cultos. Sem ele seria impossvel dar sentido a esta escrita. 3</p> <p>SOBRE OS SIGNOS DE OMOLU</p> <p>ApresentaoO leitor que abre Sobre os signos de Omolu deve esperar muito mais do que promete o ttulo. O livro de Samuel Abrantes (reflexo sobre a dissertao de mestrado apresentada Escola de Belas Artes da UFRJ em julho de 1996) cumpre, fato, aquilo que promete. Trata-se da apresentao sria, cuidadosa e reflexiva de pesquisa em torno dos cdigos inscritos na indumentria e nos aparatos, nos materiais ritualsticos utilizados na presentificao de Omolu, o orix filho da terra, nos rituais de Candombl no Brasil. Samuel Abrantes rastrea as origens e os usos de cores, tecidos e objetos, propondo-se explicitamente a preencher uma lacuna nos estudos afro-brasileiros. Ao tratar de indumentria do Candombl, Samuel Abrantes aceita o desafio da instabilidade do objeto estudado. Distintas tradies de casas de santo, variao na disponibilidade de materiais, processos de aculturao e o intercmbio entre a tradio do Candombl e a esttica do Carnaval so variveis que o autor maneja com serena objetividade, atravs de aportes tericos bem direcionados, entrevistas e anlise perpicaz dos dados. Na verdade, Sobre os signos de Omolu faz muito mais do que preencher uma lacuna prvia. O livro constri mltiplas pontes a partir de um entrelugar capaz de cativar os mais diversos leitores ao unir elementos tantas vezes em oposio: seriedade de pesquisa e linguagem popular, cientificidade e f religiosa, conhecimento esttico e prtica de arteso. Estilista teatral e professor universitrio com carreira acadmica 5</p> <p>SAMUEL ABRANTES</p> <p>iniciada na rea de Literatura Grega, Samuel Abrantes hoje grande conhecedor de mitologia africana, estilista teatral premiado e consagrado pela crtica e autor deste trabalho, j aclamado com louvor no espao acadmico.</p> <p>Sobre os signos de Omolu ocupa um lugar singular no cenrio contemporneo e , acima de tudo, um texto que se inscreve sob o signo do ps-moderno. Se arte, cincia e religio se configuraram e institucionalizaram como esferas autnomas ao longo da modernidade, o leitor est diante de uma obra que testemunha a contempornea desconfiana na legitimidade de discursos totalizantes, principalmente os promovidos pelo saber cientfico.Sob o signo do orix da doena e da cura, Sobre os signos de Omolu multiplica olhares ao reunir sem fronteiras o rigor do cientista, a crena do religioso e a sensibilidade do artista. Ax.</p> <p>TEREZA VIRGINIA DE ALMEIDA, doutora pela PUC/RJ e Professora Adjunta de Literatura Brasileira e Teoria Literaria da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianopolis. autora do livro A ausncia lils da Semana de Arte Moderna: o olhar ps-moderno, publicado em 1998 pela Editora Letras Contemporneas, e atualmente desenvolve pesquisa de ps-doutorado no Departamento de Literatura Comparada da Stanford University, nos Estados Unidos.</p> <p>6</p> <p>SOBRE OS SIGNOS DE OMOLU</p> <p>SumrioI - Introduo ................................................................9 II - Consideraes sobre a arte de vestir o santo.............25 III - Atot Obaluay - A dana dos signos - Anlise semiolgica...........................................................................51 IV - Cantando para Obaluay........................................79 IV - A - O uso da palavra: O silncio - A hierarquia ...........79 IV - B - O uso do canto: A evocao...............................87 V - Concluso.............................................................105 VI - Lxico..................................................................111 VII - Referncias bibliogrficas.....................................125</p> <p>IlustraesRoupa de Omolu - Bahia................................................11 Cuscuzeiro.............................................................................17 Possibilidades de uso do pano da Costa........................31 Maneiras de usar o Oj e o pano da Costa.....................35 Diferentes usos do Oj e do pano da Costa.....................39 7</p> <p>SAMUEL ABRANTES</p> <p>Omolu - Joaquim Motta - RJ..........................................43 Roupa de Omolu - Joaquim Motta..................................47 Cabaas......................................................................58 Roupa de Omolu - Joaquim Motta - RJ...........................59 Xaxars...................................................................................63 Mscara africana - culto secreto de Obaluay.................69 Roupa de Omolu - Joaquim Motta..................................83 Proposta de roupa de Omolu - Mercado de Madureira RJ...........................................................................................91 Indumentria de Omolu - Joaquim Motta - RJ..................95 Roupa de Omolu - Joaquim Motta - RJ...........................99 Pintura e bordado - Joaquim Motta - RJ........................115 Aplicao e bordado - Joaquim Motta - RJ....................119 Roupa de Omolu - Joaquim Motta - RJ.........................123</p> <p>8</p> <p>SOBRE OS SIGNOS DE OMOLU</p> <p>I - IntroduoSua cor, marco inicial de rejeio. Mas o tronco logo se espalha... 1</p> <p>Este trabalho o resultado da pesquisa/anlise relacionada com as maneiras e modos de vestir os orixs, que me foram apresentadas pela Prof Liana Silveira, da Escola de Belas Artes da UFRJ. Para tanto, mantive contatos com uma srie de pessoas ligadas aos cultos de candombl e, mais especificamente, ao Il Ax Op Afonj2. Dos encontros, foram registrados vrios questionamentos pertinentes indumentria no Candombl de Ketu. Pretendi analisar, em especial, a vestimenta do orix Obaluay nos rituais de Candombl de tradio Nag ou Candombl de Ketu, atravs do olhar semiolgico sobre sua indumentria e a leitura dos signos e smbolos presentes e veiculados por esta divindade. 9</p> <p>SAMUEL ABRANTES</p> <p>Entrevistei Joaquim Motta (Joaquim DOmolu)3, Ogum Jobi4, Ildsio Tavares5, me Stella (Maria Stella de Azevedo Santos)6 e Carlos Moraes7. Visitei, na Bahia, duas das maiores Casas de Santo de tradio Nag ou Candombl de Ketu: o Il Ax Op Afonj e o Gantois. A essas experincias somou-se a intensificao dos contatos e visitas ao Il Fi Or Sakapata, que teve na figura de seu Babalorix Joaquim DOmolu (Joaquim Motta) o principal informante deste trabalho, devido a sua especial ateno ao universo do orix enfocado. Recorro aos ensinamentos de Jean Baudrillard em O sistema dos objetos, no qual o filsofo trabalha o imenso campo de objetos em que o homem contemporneo vive mergulhado. O estudo semiolgico v os objetos como um conjunto de unidades, de funes e de foras. Baudrillard amplia o sentido que os objetos sintetizam e que permite manipular conceitos organizados culturalmente e ainda apresenta a diferena que existe entre o sistema dos objetos e o da lngua. Ele se utiliza do instrumental lingstico para a abordagem do tema. certo que a dialtica estabelecida entre lngua e fala, entre denotao e conotao, extradas das questes levantadas pelos semilogos, demonstraram que a minha ateno teria de ser redobrada ao querer, mesmo de forma precria, fechar conceitos que poderiam comprometer as questes relacionadas aos objetos presentes no Candombl. Ao apontar para uma rede complexa de especulaes, de prticas e de processos, os problemas relacionados expresso em lngua portuguesa objetivada e a lngua falada nos terreiros, que se expressa atravs de instrumentos e 10</p> <p>SOBRE OS SIGNOS DE OMOLU</p> <p>Roupa de Omolu - Bahia</p> <p>11</p> <p>SOBRE OS SIGNOS DE OMOLU</p> <p>dialetos, foi preciso observar o Candombl como uma prtica em que o princpio a tradio oral. Em cada terreiro os membros formam associaes e estabelecem a hierarquia que funciona em consonncia com as necessidades do grupo. O objetivo manter viva a tradio do culto aos orixs, encadeado, pelos mecanismos automatizados de condicionamento social, com os cdigos desenvolvidos pela sociedade moderna. H uma transparncia em sentido de ambivalncia simblica entre africanismos e brasilidade, decodificvel a partir da compreenso dos sistemas e das organizaes revelados no processo cultural. Os tempos modernos operaram significativas transformaes na veiculao desses ritos que, me parece, escapam observao das pessoas que esto envolvidas com as coisas do santo. Uma profuso de tecidos, materiais, objetos modernos fazem parte dos cultos, atualmente. A comercializao cada vez maior da cultura material das casas de santo evidencia essas transformaes, impostas por uma nova maneira de ver o mundo, o progresso e a evoluo tecnolgica. As ferramentas do santo informam sobre os padres de desenvolvimento/comportamento dos participantes e integrantes de uma determinada comunidade religiosa. Alm do que, caracterizam a sua maneira de adaptao aos tempos atuais, a sua subsistncia, bem como a qualidade de sua leitura visual (o que os outros vo dizer/ver). A propagao de conceitos tradicionais, de foras, de energias e a adaptao aos novos padres impostos pela sociedade moderna, favorecem novas leituras e influncias recprocas dos meios 13</p> <p>SAMUEL ABRANTES</p> <p>que a produzem. Vale lembrar a observao de Ildsio Tavares sobre a visita feita a um candombl no Rio de Janeiro, terreiro todo de azulejos e com um telefone ao lado da cadeira do babala. A cultura material um indicador seguro do desenvolvimento tecnolgico do grupo ou da comunidade. E perfeitamente observvel nas casas de santos a existncia de formas e de conceitos tradicionais convivendo pacificamente com materiais mais elaborados, o que reflete a complexidade deste universo. A evoluo de materiais de usos diversos para a configurao dos rituais de Candombl pode ser observada pelo prisma do desenvolvimento tecno-econmico social. O contedo cognitivo e simblico dos objetos empregados produz leituras que reafirmam a complexidade do estudo dessas categorias religiosas, apontando para as especificidades de sua estrutura scio-econmica, para a vida ritual e para a cosmologia dos ritos. bem recente a preocupao de observar esses objetos como sistema de comunicao e de produo de significados. As formas de comunicao visual veiculam mensagens de naturezas diversas e contribuem para a definio do orix, do rito, da dana ou do jogo. A combinao de materiais diferenciados em cor, textura, tamanho e forma constitui a singularidade de cada casa, grupo ou pessoa. Torna-se o cdigo de ligao entre os componentes de uma determinada comunidade e dos conceitos veiculados pelos rituais, identificando as razes, as famlias, os cls. O que no verbalizado no ritual de Candombl aflora na anlise e no estudo dos aspectos envolvidos nos seus preparativos. Atravs do discurso possvel ir alm do que a simples aparncia indica. A simbologia contida implica em anlise de outras 14</p> <p>SOBRE OS SIGNOS DE OMOLU</p> <p>instncias. Favorece a criao de uma teia de significados. A permanncia de cones confere uma eficcia simbolizao dessas energias/foras veculadas no Candombl. Muitas questes podem ser levantadas ou respondidas quando um culto de orixs enfocado. Preocupado com o estabelecimento de uma metodologia, passvel de responder a indagaes primrias como: onde?, o qu?, por qu?, poderei elaborar uma etnografia dos cultos e uma anlise de seu desempenho junto aos grupos que manipulam, bem como dos contextos sociais em que esto inseridos. Charlotte Otten enfatiza a natureza da memria de um grupo ao afirmar: Nas culturas pr-letradas ou protoletradas, o smbolo artstico se torna o fato, isto , ele representa, define e manifesta, simultaneamente, seus referentes. Nessas culturas, os objetos de arte e os eventos so os meios de resgatar a informao, em lugar dos livros. (1971, Otten, XIV) Atravs da anlise dos objetos rituais, possvel projetar possibilidades e introduzir a ordem religiosa que se oferece para a decodificao. nos objetos que se encontram os elementos passveis de anlise. Eles se referem a dados especficos da indumentria e dos demais signos que cercam o orix. Apesar da aparente arbitrariedade dos rituais e dos cdigos, vivel dotar as vestimentas e os paramentos de sentido. Resgatar a significao implcita do que no dito, mas se faz referente. necessrio ver os objetos com os olhos de l, com os olhos de dentro.</p> <p>15</p> <p>SAMUEL ABRANTES</p> <p>Foi preciso mergulhar no universo mtico-religioso para construir, em meu discurso, os seus objetos. Dot-los dos valores que estes objetos detm no sentido real. Foi um processo semiolgico por natureza, que se desenvolveu na medida em que busquei o tempo prprio dos sistemas, a histria das formas, dos objetos, das coisas. Roland Barthes, em Elementos de semiologia, prope o processo aqui adotado quando articula a possibilidade de produo de um pensamento ou discurso que d conta dessas projees, desses significados. A anlise da indumentria, por exemplo, permite uma leitura interessada nos elementos que compem o vesturio no terreiro e que gera as opes por determinadas formas cores ou texturas, que leva utilizao deste ou daquele objeto ou paramento, cada qual com sua pertinncia, sua sabedoria implcita. Neste sentido, procurei observar na indumentria e nos demais cdigos que cercam o Obaluay, a continuidade do sistema, para registrar sua cincia e a arte de sua execuo e buscar a histria das formas como prope o estudo semiolgico.</p> <p>OrigensNa fr...</p>