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  • Lua Nova, So Paulo, 93: 93-138, 2014

    AMITAI ETZIONI E O PARADIGMA COMUNITARISTA: DA SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAES AO COMUNITARISMO RESPONSIVO

    Joo Pedro Schmidt

    O debate sobre comunidade e comunitarismo no Brasil crescente, mas parcela importante dos estudos ainda res-tringe essa corrente de pensamento aos intelectuais envolvi-dos no debate liberais versus comunitaristas (Walzer, Sandel, MacIntyre e Taylor), debate deflagrado a partir da publica-o, em 1971, da obra Uma teoria da justia, por John Rawls. Esse uso restrito do termo no se sustenta: h uma profuso de teorias que conferem centralidade comunidade na vida social e se usa o termo comunitarismo h mais de um sculo e meio, tendo sido cunhado em 1841 por John Goodwin Barmby, com o significado de membro de uma comuni-dade formada para pr em prtica teorias comunistas ou socialistas, e seu significado contemporneo de, perten-cente a ou caracterstico de uma comunidade apareceu no dicionrio Websters, em 1909 (Etzioni, 1998, p. IX).

    Em termos amplos, o comunitarismo pode ser definido como um iderio que confere centralidade comunidade (e no ao Estado ou ao mercado) e inclui um leque de for-mulaes filosficas, sociolgicas, polticas e econmicas, cujas razes esto nas grandes religies (judasmo, cristia-

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    nismo, islamismo e budismo) e na filosofia grega, perpas-sando todo o pensamento ocidental. Alexis de Tocqueville, Charles Fourier, Piotr Kropotkin, Ferdinand Tnnies, Emanuel Mounier, John Dewey, Robert Nisbet, Martin Buber e Amitai Etzioni so alguns dos pensadores dessa vertente de pensamento, que tem diversas matrizes: a tradi-o aristotlica, a tradio judaico-crist, a tradio utpica, o liberalismo, o iderio socialista e anarquista, os estudos sociolgicos sobre comunidade, o pensamento autoritrio, o republicanismo e as teorias do capital social e o comu-nitarismo responsivo. No variado leque dessas teorias um princpio recorrente: a comunidade fundamental para a construo da boa sociedade. Alm desse princpio, pode-se identificar um ncleo de ideias, noes e temas comuns aos diferentes autores comunitaristas, a saber: a comunidade condio ontolgica do ser humano; oposio ao indivi-dualismo e ao coletivismo; oposio ao gigantismo estatal; primazia dos valores pessoais sobre os valores do mercado; subsidiariedade, poder local, associativismo e autogesto; fraternidade, igualdade e liberdade (Schmidt, 2011).

    A atual reflexo acadmica brasileira sobre o tema da comunidade e o comunitarismo vem se desenvolvendo em reas como a filosofia, a teologia, o direito, a sociologia, a educao, a comunicao e o servio social, e se ocupa com maior ateno de tpicos como as repercusses do debate sobre a tese social comunitarista versus a concepo liberal do indivduo (Renn Jr., 2000; Bellah, 1999); o potencial heurstico do comunitarismo em face de outras perspec-tivas filosficas atuais (Lois, 2005; Galuppo, 2007; Trucco, 2008); a justia redistributiva e a concepo comunitarista da moral na esfera jurdica (Cittadino, 2009; Silveira, 2007); o tratamento da diversidade cultural e tnica na perspectiva liberal e comunitarista (Costa e Werle, 1997; Lucas, 2009); o significado poltico do discurso comunitrio na esfera pblica e nas polticas sociais (Gohn, 2004; Macedo, 2005);

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    o sentido da comunidade em tempos de globalizao (Pai-va, 2003; 2007). Enquanto parcela dos estudos destaca a relevncia das contribuies comunitaristas, outra parte aponta fragilidades e insuficincias que tornam discutvel sua relevncia.

    Entre os questionamentos acerca da pertinncia das concepes comunitaristas para a realidade brasileira esto aqueles derivados das pesquisas de cultura poltica. Uma matriz interpretativa respeitada, apoiada em Srgio Buar-que de Holanda, Raimundo Faoro e Roberto DaMatta res-salta as singularidades culturais do cidado brasileiro, como o personalismo, o clientelismo, o patrimonialismo, a des-confiana social e o reduzido grau de associativismo. Essa matriz no proporciona aproximaes fceis com o comu-nitarismo. Para Lucio Renn Jr. (2000), por exemplo, os baixos ndices de associativismo dos cidados e a cultura poltica de desconfiana so fortes obstculos para a imple-mentao de propostas comunitaristas.

    Para contribuir com o debate em curso, este texto apre-senta tpicos centrais do pensamento de Amitai Etzioni1, socilogo israelense radicado nos Estados Unidos. Trata--se de autor de estatura intelectual reconhecida nos meios acadmicos internacionais, com vasta produo biblio-grfica2. Pensador de grande erudio, seus escritos reve-lam a influncia de pensadores clssicos da filosofia e da

    1 Amitai Etzioni nasceu na Alemanha, em 1929, com o nome de Werner Falk. Em face da ameaa nazista sua famlia fugiu para a Palestina. L, viveu sua ado-lescncia e juventude, parte dela em kibbutz, uma experincia comunitria que o marcou profundamente. Ainda em Israel estudou com o filsofo Martin Buber, optando depois por viver nos Estados Unidos, onde estudou, tornando-se mais tarde professor nas universidades de Colmbia, Harvard e George Washington. Intelectual pblico, foi inicialmente uma voz de contestao, assumindo posterior-mente posies politicamente moderadas que o levaram a atuar como assessor da Casa Branca no governo de Bill Clinton.2 A produo intelectual de Etzioni compe-se de mais de 40 livros prprios, 20 li-vros editados ou coeditados, cerca de 350 artigos acadmicos e centenas de textos de opinio divulgados na mdia.

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    sociologia. De Martin Buber, a filosofia do dilogo e a rela-o Eu-Tu. De Weber, os conceitos de poder, autoridade e burocracia. De Marx, o tema dos conflitos do mundo do trabalho. De Freud, as tenses entre indivduo e socieda-de. De Durkheim, a importncia dos valores sociais e laos comuns. De Tnnies, a diferenciao entre comunidade e sociedade. De Parsons, a anlise funcional. De John Stuart Mill, a questo da liberdade individual. De Kant, a concep-o deontolgica da moral. Mas a chave de leitura de suas obras compreend-lo como pensamento situado: os escri-tos referem-se s questes do contexto das ltimas dcadas, especialmente o norte-americano, confrontando, por um lado, o individualismo extremado e, por outro, o conser-vadorismo fundamentalista. particularmente agudo seu confronto com as teorias liberais individualistas da rational choice e da escola econmica neoclssica.

    O que aproxima Etzioni de autores como Taylor, Sandel, Walzer e MacIntyre a relevncia da comunidade e do bem comum, a viso de que o liberalismo no leva em conta suficientemente a importncia da comunidade para a identidade pessoal, o pensamento moral e poltico e os julgamentos acerca de nosso bem-estar no mundo con-temporneo (Bell, 1993, p. 4). Entre os diferenciais que distinguem Etzioni, o primeiro a condio autoassumida de intelectual pblico, o que faz de sua obra a face terica da ao poltica. Ou seja, h uma inteno poltica prtica a percorrer sua obra intelectual, materializada no movimen-to comunitarista responsivo. O segundo o esforo para a construo de um paradigma comunitarista, ou seja, a for-mulao de uma teoria abrangente das dimenses funda-mentais da vida em sociedade, como a poltica, a economia, a educao, a tica e a cultura, com o objetivo de mostrar que o comunitarismo responsivo constitui uma viso alter-nativa de mundo, uma terceira via em relao s concepes focadas no Estado (estatismo) e no mercado (privatismo).

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    O terceiro o carter crtico-propositivo de seus escritos, nos quais a anlise crtica de diferentes posies sobre determinado tema complementada pela apresentao de proposies para a ao. Enquanto o debate liberais versus comunitaristas ocorre em boa parte no plano dos princpios e das teses gerais, Etzioni desce constantemente ao plano das questes polticas e sociais cotidianas.

    A sociologia das organizaesAs obras de Etzioni traduzidas e estudadas no Brasil so as da sua fase inicial (dcadas de 1950 e 1960), voltadas anlise das organizaes. Nessas, pouco se fala de comunidade, no se reala sua importncia na vida social e no h nenhum discurso comunitarista explcito. Em obras como Organiza-es modernas, Organizaes complexas e Anlise comparativa de organizaes complexas, Etzioni parte da constatao de que a sociedade moderna fundamentalmente uma sociedade de organizaes. Organizaes j existiam nas sociedades anti-gas, mas sua relevncia nos tempos modernos outra: Nas-cemos em organizaes, somos educados por organizaes e quase todos ns passamos a vida a trabalhar para organiza-es, considera Etzioni (1974, p. 7), salientando que cons-tituem um meio mais eficiente de satisfazer as necessidades da sociedade atual que a proporcionada pelos agrupamen-tos menores e mais naturais, como a famlia, os amigos e as comunidades.

    As organizaes so tomadas como unidades sociais intencionalmente construdas e reconstrudas, a fim de atingir objetivos especficos (Etzioni, 1976, p. 9). Diferen-temente da literatura da poca, focada nas organizaes pblicas e nas empresas, Etzioni amplia o foco da sociologia organizacional ao desenvolver estudos sobre outros agru-pamentos como escolas, universidades, hospitais e prises, ficando excludas coletividades como tribos, classes, comu-nidades, famlias e grupos tnicos, por no atender trs

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    Amitai Etzioni e o paradigma comunitarista: da sociologia das organizaes ao comunitarismo responsivo

    caractersticas bsicas: divises de trabalho, poder e respon-sabilidade de comunicao

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