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Lnguas e Instrumentos Lingutiscos N 36 jul-dez 2015 245

AS MIGRAES E AS LNGUAS, AS

RELAES ENTRE O PORTUGUS E O

FRANCS NA SUA: UM ESTUDO DO

ESPAO DE ENUNCIAO

Andr Stefferson M. Stahlhauer

UEHPOSOL/UFSCar/FAPESP 2010/15546-0

Soeli Maria Schreiber da Silva

UEHPOSOL/UFSCar

Resumo: Devido aos inmeros movimentos migratrios, a Sua tem

se tornado cada vez mais heterognea em sua configurao

populacional e lingustica. Graas aos acordos de livre circulao

entre os europeus, crise poltico-econmica em Portugal e

crescente oferta de mo de obra, a Sua tornou-se um bom lugar

para os portugueses trabalharem. Eles representam a terceira maior

comunidade (de lngua) estrangeira neste pas, atrs somente dos

alemes e italianos. Nosso objetivo nessa discusso observar os

processos enunciativos envolvidos na produo dos sentidos sobre a

lngua portuguesa em relao s outras da e na Sua e de seus

falantes, enquanto categorias do simblico. Predicados como

trabalhadores discretos, os portugueses, as suas falas e as falas

sobre eles podem ser notadas em materiais oficiais, produtos

alimentcios, slogans e fachadas de lojas e armazns ou em tantos

outros ambientes. Ou seja, fala-se o portugus na Sua e tal gesto

significa em um espao j tomado por outras lnguas, por outras

identidades e divises sociais.

Abstract: Due to numerous migratory movements, Switzerland has

become increasingly heterogeneous in population and language

configuration. Because of the free movement across Europe

agreement, the political and economic crisis in Portugal along with

the increasing of manpower supply, Switzerland has become a good

place for Portuguese people opportunities. They are the third largest

foreign community (of language) in this country, being found only

behind Germans and Italians. Our goal at the present work is to

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observe the enunciative processes involved in the production of

meanings about the Portuguese language in relation to the other of

and from Switzerland and their speakers as symbolic categories.

Named as "discrete workers", Portuguese speakers, together with

their speeches and the speeches about them can be noted in official

materials, food products, and slogans storefronts and warehouses as

well as in many other environments. In this way, Portuguese language

is spoken in Switzerland, supporting the idea that this is a place

already taken by other languages, other identities and social

divisions.

1. Introduo

Apresentamos, neste trabalho1, uma reflexo sobre a relao entre

lnguas no que estamos considerando como o espao enunciativo da

Sua. Mostramos como se d a abertura de um espao de significao

da lngua portuguesa na Sua, a partir da imigrao, a fim de entender

a configurao da relao entre a lngua portuguesa e a lngua francesa

no espao de enunciao da Sua.

Sob a tica da Semntica do Acontecimento, tal como

desenvolvida por Eduardo Guimares (2002), realizamos um debate

sobre as relaes entre lnguas, que se do nos enunciados, nossa

unidade de anlise, das nomeaes e das predicaes de

estabelecimentos comerciais, produtos de supermercados (em rtulos),

para poder interpretar como esses processos ressignificam um espao

j afetado por outras lnguas, no caso especfico desses dados, o

francs, uma das lnguas oficiais e nacionais na Sua. Dito de outro

modo, interessa-nos o modo como o portugus (lngua e falante) fala

nesse espao-outro. O que se nota que a partir da imigrao, o

portugus aparece afetado, redividido a partir dos agenciamentos

desse espao-outro, para alm dos pases cuja lngua oficial e nacional

a portuguesa, e que essas enunciaes em portugus e francs

particularizam o espao de funcionamento dessa(s) lngua(s).

Da imigrao, desse movimento, aparecem suas locues:

portugueses que falam, que significam, do margens para outros

delineamentos em lngua portuguesa. Sua lngua os presentifica,

mostra que ali eles esto, a falar (ou falando), ou, de certo modo,

cedendo a palavra, sendo afetados por outras, em outras lnguas, e isso

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produz sentidos e os identifica. Pretendemos, com isso, melhor

vislumbrar de que maneira se configuram as relaes entre as lnguas,

os seus falantes e seus espaos.

2. O espao de enunciao da Sua

Factualmente, no campo da poltica, a Confederao Helvtica2

reconhecida por seu xito democrtico. Relativamente s lnguas,

segundo Franois Grin (2000, p. 258-259), h trs instrumentos

principais da gesto das lnguas na Sua: 1) a territorialidade, 2) a

liberdade da lngua, 3) a subsidiaridade, que servem de modelo para a

sua repartio nos cantes. Este modelo que se verse et renverse3

sobre o unilingusmo ou sobre o monolingussimo (GRIN, 1999, p.

259-260) regulado por uma prtica monolngue, pois opcional ao

canto o ensino de alemo, a lngua majoritria, embora o alemo

padro (Hochdeutsch) e o ingls sejam ensinados em todo o territrio.

Sem nos atermos em definies com nmeros e estatsticas

exaustivas, o que nos interessa neste espao de enunciao sua

especificidade: 4 lnguas oficiais e nacionais, repartidas em 26

cantes. Oficialmente so dezenove cantes germanfonos, quatro

cantes francfonos, trs bilngues (francs e alemo), Valais,

Friburgo e Berna; um canto trilingue: fala-se italiano, alemo e reto-

romance nos Grises. Essas regies lingusticas mais o ltimo canto

deram origem aos trs outros agrupamentos lingusticos que compem

a atual Confederao de Estados: I. Sua romnica, II. Sua alem e

III. Sua italiana. Essas so designadas como as trs macrorregies

que se caracterizam por suas diferentes constituies lingustico-

identitrias:

I. A Sua que fala lnguas romnicas

II. A Sua que fala alemo

III. A Sua que fala italiano

A identidade da lngua coincide com a identidade da regio e do

territrio, onde se fala tal ou tal lngua. Para alm desse

funcionamento oficial, outras divises dessas lnguas nos interessam

nesses espaos, como os funcionamentos que extrapolam o das lnguas

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oficiais e nacionais, o que os reorganizam de outro modo, para alm

de seu funcionamento normativo e oficial.

Devido aos inmeros movimentos migratrios, a Sua tem se

tornado cada vez mais heterognea em sua configurao populacional.

Devido ao acordo de livre circulao entre os europeus, crise

poltico-econmica em Portugal e crescente oferta de mo de obra,

a Sua tornou-se um bom lugar para os portugueses trabalharem e

migrarem. Predicados como trabalhadores discretos4, segundo

publicaes oficiais, eles so mal integrados. Os portugueses

representam a terceira maior comunidade (de lngua) estrangeira neste

pas, atrs somente dos alemes e italianos, configurando, portanto, a

terceira comunidade estrangeira em nmero e que no fala

inicialmente uma lngua nacional ou oficial da Sua. A imigrao

mais expressiva nas regies metropolitanas de Zurique, em algumas

localidades do canto do Valais, mais precisamente em Tsh5,

prximo capital Zermat ou na Romandie, na Sua francfona, onde

vivem cerca de quarenta mil portugueses. Suas locues mostram sua

presena em inmeros pontos desses lugares: trens, metrs, banners,

fachadas, creperias, padarias, nos produtos de supermercados e,

sobretudo, nas cafeterias, guaritas de prdio e nos canteiros de obras.

Os portugueses so trabalhadores na Sua.

O espao de enunciao, tal como definido por Guimares

(2002), um espao poltico, no qual se articulam a poltica e o

poltico. A primeira a instncia do jurdico, da normatividade e o

segundo a contradio dessa normatividade. A tenso que determina

o que diz um Locutor afetado por uma lngua j recortada por outras

significaes que definem seus sentidos. Ou seja, falar em portugus

diferente de falar em francs medida que esses idiomas identificam

falantes, e falar portugus na Sua um gesto poltico. Nosso

trabalho ser mostrar como se constitui esse gesto no funcionamento

enunciativo.

Em Guimares (2002, p.13), encontramos explicitada a noo de

espao de enunciao:

[...] so espaos de funcionamento de lnguas, que se dividem,

redividem, se misturam, desfazem, transformam por uma

disputa incessante. So espaos habitados por falantes, ou

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seja, por sujeitos divididos por seus direitos ao dizer e aos

modos de dizer. So espaos constitudos pela equivocidade

prpria do acontecimento: d