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  • As Ondas [Virginia Woolf]

  • Coleco Mil Folhas - 17 PBLICO Digitalizao e Arranjo Agostinho Costa "Eu passarei como uma nuvem por cima das ondas", escreveu uma vez Virginia Woolf. No foi a nica referncia que deixou sobre o mar, elemento que mais a atraa. Nem foi casual o ttulo da obra qual dedicou mais tempo e reflexes que s outras. Com As Ondas, Woolf sabia que mergulhava nas profundezas do ser humano. F-lo com um manejo da lngua quase potico. Exps a anlise pessoal em monlogos elaborados. Queria que fosse uma obra perfeita, e conseguiu-o, em muitos sentidos. As Ondas narra as vivncias de um grupo de seis pessoas atravs do tempo. Elas crescem, amadurecem e envelhecem, num processo visto de uma perspectiva interior. So indivduos que arrastam as suas caractersticas, os seus medos e as suas solides, e os comunicam entre si. Seis mundos que formam um s. Atravs das personagens, Woolf expe os temas que constituem a sua preocupao constante: a passagem do tempo, o sentido da existncia humana, a realidade das coisas e a morte. Estas questes metafsicas tomam forma nos membros do grupo de amigos que protagonizam a obra. Bernard, curioso e verbalmente criativo; Susan, interessada na unidade familiar; Rhoda, insegura e temerosa; Jinny, sensual e superficial; Neville, com a sua obsesso pela ordem e rigor intelectuais; Louis, com o seu complexo de inferioridade. Os seis admiravam Percival, personagem fundamental que no tem voz no romance e cuja morte marca um ponto crucial. Todos temos um pouco de cada um destes amigos. Sofremos os seus problemas e as suas dvidas; vivemos a nossa prpria solido no meio dos outros. A mestria de Woolf est em ter chegado a esses fugidios cantos do esprito humano. Como as ondas. Virginia Woolf (Adeline Virginia Stephan, nome de solteira) nasceu em Londres em 1882 e suicidou-se em Lewes, em 1941. O seu pai, Leslie Stephan, era historiador e filsofo, tendo ela crescido num ambiente de intelectuais. Viveu com a sua irm no bairro de Bloomsbury, foco da vida cultural inglesa durante muitos anos. Em 1912 casou com Leonard Woolf, com quem fundou a editora Hogarth Press. Woolf dominou a tcnica do denominado "fluxo de conscincia", em que a personagem expe os seus mais profundos sentimentos; manejou o idioma com destreza e penetrou nas dvidas existenciais do ser humano. A Viagem (1915) e Noite E Dia (1919), os seus primeiros romances, passaram despercebidos. Comeou a ser conhecida com O Quarto de Jacob (1922) e Mrs. Dalloway (1925). Rumo Ao Farol (1927) foi elogiado pela sua originalidade, consagrando-se definitivamente com Orlando. Uma biografia (1928), As Ondas

  • (1931) e Entre Os Actos (1941). Distinguiu-se pelos seus estudos sobre a condio feminina, como se pode comprovar em Um Quarto Que Seja S Seu (1929) e Os Trs Guinus (1938). "Sinto que at mesmo para mim a onda se eleva. Incha; dobra-se. Tomo conscincia de um novo desejo, de qualquer coisa que se ergue em mim como um cavalo orgulhoso, cujo montador esporeou antes de obrigar a parar. Que inimigo vemos avanar em direco a ns, tu, a quem agora monto enquanto deso este caminho? a morte. ela o inimigo."

    Ttulo original: The Waves

    Traduo: Luclia Rodrigues 2002 BIBLIotex, S.L. para esta edio Promoway Portugal Comrcio de Produtos Multimdia, Ltda. PBLICO COMUNICAO SOCIAL SA Rua Joo de Barros 265 4150-414 Porto Data de impresso Agosto de 2002 Este livro vendido exclusivamente com o Jornal Pblico

  • O Sol ainda no nascera. Era quase impossvel distinguir o cu do mar, mas este apresentava algumas rugas, como se de um pedao de tecido se tratasse. Aos poucos, medida que o cu clareava, uma linha escura estendeu-se no horizonte, dividindo o cu e o mar. Ento, o tecido cinzento coloriu-se de manchas em movimento, umas sucedendo-se s outras, junto superfcie, perseguindo-se mutuamente, sem parar. Quando se aproximavam da praia, as barras erguiam-se, empilhavam-se e quebravam-se, espalhando na areia um fino vu de gua esbranquiada. As ondas paravam e depois voltavam a erguer-se, suspirando como uma criatura adormecida, cuja respirao vai e vem sem que disso se aperceba. Gradualmente, a barra escura do horizonte acabou por clarear, tal como acontece com os sedimentos de uma velha garrafa de vinho que acabam por afundar e restituir garrafa a sua cor verde. Atrs dela, o cu clareou tambm, como se os sedimentos brancos que ali se encontravam tivessem afundado, ou se um brao de mulher oculto por detrs da linha do horizonte tivesse erguido um lampio e este espalhasse raios de vrias cores, branco, verde e amarelo (mais ou menos como as lminas de um leque), por todo o cu. Ento, ela levantou ainda mais o lampio, e o ar pareceu tornar-se fibroso e arrancar, daquela superfcie verde, chispas vermelhas e amarelas, idnticas s que se elevam de uma fogueira. Aos poucos, as fibras da fogueira foram-se fundindo numa bruma, uma incandescncia que levantou o peso do cu cor de chumbo que se encontrava por cima, transformando-o num milho de tomos de um azul suave. O mar foi, aos poucos, tornando-se transparente, e as ondas ali se deixavam ficar, murmurando e brilhando, at as faixas escuras quase desaparecerem. 5 Devagar, o brao que segurava a lanterna elevou-se ainda mais, at uma chama brilhante se tornar visvel; um arco de fogo ardendo na margem do horizonte, cobrindo o mar com um brilho dourado. A luz atingiu as rvores do jardim, tornando, primeiro, esta folha transparente, e s depois aquela. L no alto, uma ave chilreou; seguiu-se uma pausa; mais abaixo, escutou-se outro chilreio. O sol definiu os contornos das paredes da casa, e, semelhante ponta de um leque, um raio de luz incidiu numa persiana branca, colocando uma impresso digital azulada por baixo da folha da janela do quarto. A persiana estremeceu ligeiramente, mas l dentro tudo se mostrava fosco e inconsistente. C fora, os pssaros cantavam uma melodia sem sentido. - Vejo um anel - disse Bernard - suspenso por sobre mim. Est suspenso num lao de luz e estremece. - Vejo uma lmina de um amarelo plido - disse Susan -, espalhando-se at encontrar uma risca prpura. - Ouo um som - disse Rhoda -, piu, piu, piu, piu, a subir e a descer. - Vejo um globo - disse Neville - suspenso numa gota que cai de encontro encosta de uma enorme montanha. - Vejo uma borboleta escarlate - diss Jinny --, tecida com fios de ouro. - Ouo cascos a bater - disse Louis. - Est preso um animal bastante grande. Bate os cascos, bate e bate. - Reparem na teia de aranha ao canto da varanda - disse

  • Bernard. - Est cheia de contas de gua, de gotas de luz. - As folhas juntaram-se em torno da janela como se fossem orelhas pontiagudas - disse Susan. - H uma sombra no caminho -- disse Louis. - Parece um cotovelo dobrado. - A erva est cheia de linhas luminosas - disse Rhoda. - De certeza que caram das rvores. - Nos tneis existentes entre as folhas, podem ver-se olhos brilhantes. So de pssaros - disse Neville. - As hastes esto cobertas de plos curtos e duros - disse Jinny - e as gotas de gua ficam presas neles. - Uma lagarta enroscou-se e parece um anel de onde saem muitos ps verdes - disse Susan. - Um caracol cinzento vem a descer o caminho, alisando as ervas atrs dele - disse Rhoda. - E as luzes das janelas reflectem-se aqui e ali na relva - disse Louis. - As pedras fazem-me ficar com os ps frios - disse Neville. - Sinto-as a todas, uma a uma, redondas e pontiagudas. - Tenho as costas das mos quentes - disse Jinny-, mas as palmas esto pegajosas e hmidas por causa do orvalho. -Agora, o galo est a cantar e lembra um esguicho de gua avermelhada numa corrente branca - disse Bernard. - Os pssaros no param de cantar nossa volta e por todo o lado - disse Susan. - O animal bate as patas; o elefante com a perna presa; o enorme animal que est na praia bate os cascos - disse Louis. - Reparem na casa - disse Jinny -, com todas as janelas e persianas brancas. - A gua fria comea a correr na torneira da cozinhadisse Rhoda -, caindo no peixe que est na bacia. - As paredes esto cheias de rachas douradas - disse Bernard -, e por baixo das janelas h muitas sombras azuis em forma de dedos. -Agora, Mrs. Constable est a colocar as suas meias escuras e grossas - disse Susan. - Quando o fumo se elevar na chamin, o sono escapar-se- pelo telhado como uma nvoa muito fina - disse Louis. - Os pssaros comearam por cantar em coro - disse Rhoda. - Agora, a porta da cozinha j no est trancada. E l vo eles a voar. E l vo eles pelos ares como uma mo-cheia de sementes. Mesmo assim, h um que continua a cantar junto janela do quarto. - Formam-se bolhas no fundo da frigideira - disse Jinny - Depois, elevam-se, cada vez mais rpidas, at formarem uma cadeia prateada que chega ao topo. - Agora, o Billy est a escamar o peixe com uma faca - disse Neville. 6 - 7 - A janela da casa de jantar agora azul-escura - disse Bernard -, e o ar ondula por cima das chamins. - Uma andorinha est empoleirada no fio elctrico - disse Susan. - E a Biddy poisou o balde com fora nas lajes da cozinha. - Aquilo era a primeira badalada do relgio da igreja - disse Louis. - A seguir vm as outras; uma, duas; uma, duas. - Olhem para a toalha, muito branca, a voar para cima da mesa - disse Rhoda. - Vem-se, agora, os crculos de porcelana

  • branca e faixas prateadas ao lado dos pratos. - De repente, uma abelha zumbe ao meu ouvido - disse Neville. - Est aqui; j se foi embora. - Estou a ferver. Tenho frio - disse Jinny. - Ou estou ao sol ou sombra. - J se foram todos embora - dis