berman baudelaire o modernismo nas ruas

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    J

  • 8/18/2019 Berman Baudelaire O Modernismo Nas Ruas

    2/20

    eCE.

    Nas ultimas tres decadas,

    uma

    imensa quantidade de energia foi

    despendida em todo 0 mundo na explorac;ao e deslindamento dos sen

    tidos da modemidade. Muito dessa energia se fragmentou em cami

    nhos pervertidos e autoder rotados. Nossa visao da vida

    modema

    tende

    a se bifurcar em dois niveis, 0 material e 0 espiritual: algumas pessoas

    se dedicam ao

    modemismo ,

    encarado como uma especie de puro

    espirito, que se desenvolve em func;ao de imperativos artisticos e inte

    lectuais autonomos; outras

    se

    situam na orbita da modemizac;ao ,

    urn complexo de estruturas e processos materiais - politicos, economi

    cos, sociais - que, em principio, uma

    vez

    encetados, se desenvolvem

    por conta propria, com pouca ou nenhuma interferencia dos espiritos e

    da alma humana. Esse dualismo, generalizado

    na

    cultura contempo

    ranea, dificulta nossa apreensao de urn dos fatos mais marcantes

    da

    vida modema: a fusao de suas forc;as materiais e espirituais, a inter

    dependencia entre

    0

    individuo e

    0

    ambiente t:J1odemo Mas a primeira

    grande leva de escritores e pensadores que se dedicaram amodemidade

    - Goethe, Hegel e Marx, Stendhal e Baudelaire, Carlyle e Dickens,

    Herzen e Dostoievski - tinha m uma percepc;ao instintiva dessa inter

    dependencia; isso conferiu a suas vis6es uma riqueza e profundidade

    que lamentavelmente faltam aos pens adores contemp oraneos que se

    interessam pela modemidade.

    Este capitulo emont ado em tomo de Baudelaire, que fez mais do

    que ninguem, no seculo XIX, para dotar seus contemporaneos de

    uma

    consciencia de si mesmos enquanto modemos. Modernidade, vida mo

    dema, arte

    modema

    - esses termos ocorrem freqiientemente na obra

    de Baudelaire ; e dois de seus gra n des ensaios, 0 breve Herolsmo da

    Vida Moderna e 0 mais extenso 0 Pintor da Vida

    Moderna

    (1859

    60; publicado em 1863), determinaram a ordem do dia para urn seculo

    129

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    · ,

    inteiro de arte e pensamento. Em 1865, quando Baudelaire experimen

    tava a pobreza, a

    d o e n ~ a

    e a obscuridade, 0 jovem Paul Verlaine tentou

    reavivar 0 interesse em torno dele, encarecendo sua modernidade como

    fonte basica de sua grandeza: "A originalidade de Baudelaire esta em

    pintar, com vigor e novidade, 0 homem moderno ( .. .) como resultante

    dos refinamentos de uma c i v i l i z a ~ a o excessiva, 0 homem moderno com

    seus sentidos a g u ~ a d o s

    e vibrantes, seu espirito dolorosamente sutil,

    seu cerebro satura do de tabaco, seu sangue a quei mar pelo alcoo . ( .. )

    Baudelaire pinta esse individuo sensitivo como urn tipo, urn heroi .' 0

    poeta Theodore de Banville desenvolveu esse tema dois anos mais tarde,

    em um tocante tributo diante do tumulo de Baudelaire:

    Ele aceitou

    0

    homem

    modemo

    em sua plenitude, com suas fraquezas,

    suas

    a s p i r a ~ o e s

    e seu desespero. Foi , assim,

    capaz

    de conferir beleza a

    visoes que nao possuiam beleza em si, nao por faze-las romanticamente

    pitorescas,

    mas por

    trazer aluz a p o r ~ a o de alma humana ali escondida;

    ele pode revelar, assim,

    0

    c o r a ~ a o triste e muitas vezes tragico da cidade

    modema . Epor isso que assombrou, e continuara a assombrar, a mente

    do homem

    modemo,

    comovendo-o, enquanto outros artistas 0 deixam

    frio.2

    A

    r e p u t a ~ a o

    de Baudelaire, ao longo dos cern anos apos sua morte,

    desenvolveu-se segundo as linhas sugeridas por Banville: quanto mais

    seriamente a cuItura ocidental se preocupa com 0 advento da moderni

    dade, tanto mais apreciamos a originalidade e a coragem de Baude

    laire, como profeta e pioneiro. Se tivessemos de

    apontar

    urn primeiro

    modernista , Baudelaire seria sem duvida 0 escolhido.

    Contudo, uma das qualidades mais evidentes dos muitos escritos

    de Baudelaire sobre vida e arte moderna consiste em assinalar que 0

    sentido da modernidade e surpreendentemente vago, diflcil de deter

    minar. Tomemos, por exemplo, uma de suas assertivas mais famosas,

    de 0 Pintor da Vida Moderna": Por 'modernidade' eu entendo 0

    efemero, 0 contingente, a metade da arte cuja outra metade e eterna e

    imutavel".

    0

    pint or (ou romanci sta ou filosofo) da vida moderna e

    aquele que concentra sua visao e energia na sua moda, sua moral,

    suas

    e m o ~ o e s no

    instante que passa e (em) todas as sugest6es

    de

    eternidade que ele con tern" . Esse conceito de modernidad e e concebido

    para romper com as antiquadas f i x a ~ 6 e s classicas que dominam a cul

    tura'francesa. "Nos, os artistas, somos acometidos de uma tendencia

    geral a vestir todos os nossos assuntos com

    uma

    roupagem do pas

    sado". A

    fe

    esteril de que vestimentas e gestos arcaicos produzirao

    ver-

    dades eternas deixa a arte francesa imobilizada em "urn abismo de be

    leza abstrata e indeterminada" e priva-a de " or'iginalidade", que

    so

    13

    .

    c c ~

    ode advir

    do

    "selo que 0 Tempo imprime em todas as g e r a ~ 6 e s . * Per

    cebe-se 0 que move Baudelaire nesse passo; mas esse criterio pura

    mente formal de modernidade - qualquer que seja a peculiaridade de

    urn dado periodo - de fato 0 leva para longe do ponto onde ele pre

    tende chegar. Segundo esse criterio, como diz Baudelaire, "todo mestre

    antigo tern sua propria modernidade", desde que capte a aparencia

    eo

    sentimento de sua propria era. Porem, isso esvazia a ideia de moderni

    dade de todo 0 seu peso espedfico, seu concreto conteudo historico. Isso

    faz de todos e quaisquer tempos tempos modernos"; dispersar a mo

    dernidade

    at

    raves da historia, ironicamente, nos leva a perder de vista

    as qualidades espedficas de nossa propria historia moderna.

    J

    o primeiro imperativo categorico do modernismo de Baudelai re e

    orientar-nos na d i r e ~ a o das for9as primarias

    da

    vida moderna; mas

    Baudelaire nao deixa claro em que consistem essas for9as, nem 0 que

    viria a ser nossa postura diante delas. Contudo, se percorrermos sua

    obra, veremos que ela contem varias vis6es distintas

    da

    modernidade.

    Essas vis6es muitas vezes parecem opor-se violentamente umas as ou

    tras, e Baudelaire nem sempre parece estar ciente das tens6es entre

    elas. Mais do que isso, ele sempre as apresenta com verve e brilho e

    quase sempre as elabora com grande originalidade e profundidade.

    Mais ainda: todas as modernas vis6es de Baudelaire e todas as suas

    contraditorias atitudes criticas em rela9ao

    a

    modernidade adquiri

    ram vida propria e perduraram por longo tempo apos sua morte, ate 0

    nosso proprio tempo.

    Este ensaio COme9ara com as interpreta90es mais simples e acri

    ticas da modernidade, aventadas

    por

    Baudelaire: suas c e l e b r a ~ o e s

    -

    ricas da vida moderna, que criou form as peculi armente modern as de

    pastoral; suas veementes denuncias contra a modernidade, que gerou as

    modernas formas antipastorais. As vis6es pastora is de Baudelaire sobre

    a moderni dade seriam elab oradas em nosso seculo sob 0 nome de "mo

    dernolatria"; suas antipastorais se transformariam naquilo que 0

    se-

    culo

    XX

    chama de "desespe ro cultu ral". Seguiremos adiante,

    na

    maior parte do ensaio, a

    partir

    dessas visoes l imitadas , no encal90 de

    uma

    visao baudelaireana muito mais profunda e mais interessante

    em bora provavelmente menos conhecida e de repercussao mais escas

    (0)

    Marx, na mesma docada, reelamava, em termos surpreendentemente similares aos de

    Baudelaire das c1assicas e antigas f i x a ~ O e s na politica de esquerda t r a d i ~ a o de todas as ge ra·

    ~ i i e s monas pesa como urn sonho mau no cerebro das gera,iies vivas. E exatamente quando pa·

    recem engajados na revolu,ilo, na c r i a ~ i l o de algo inteiramente novo ( .. ), os homens ansiosamente

    conjuram os espiritos do passado, tomam de emprestimo' seuS nomes , seus

    slogans

    de batalha, suas

    fantasia s,

    para

    apresentar a nova

    cena da

    hist6ria mundial sob 0 dis farce de um temp o veneravel

    e sob uma linguagem de emprestimo . ( 0 Dezoito Brumario de Luis Bonaparte . In : MER

    1851·

    52, p. 595) .

    3

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    sa - uma perspectiva dificilmente redutivel a uma formula definitiva,

    estetica ou politica, que

    luta,

    corajosa, com suas

    proprias

    contradi

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    que ele estava produzindo material de propaganda, ele nao tivesse sido

    pago por isso. (Ele teria feito born uso do dinheiro, embora certamente

    se recusasse a fazer isso por dinheiro.) Entretanto, essa especie de pas

    toral desempenha urn importante papel nao so na carreira de Baude

    laire, mas nos cern anos de cultura

    modern

    a entre

    0

    seu e

    0

    nosso

    tempo. Existe urn importante corpus de escritos modernos, com fre

    qi.ii!ncia produzidos

    por

    escritores serios,

    que

    se assemelha

    demasiado

    a

    material de propaganda. Esses escritos veem toda a aventura espiritual

    da modernidade encarnada

    na

    ultima

    moda,

    na

    ultima maquina,

    ou

    - e isso ja

    e mais sinistro - no ultimo modelo de

    regimento

    militar.

    Urn regimento passa, a caminho,

    ao

    que parece, dos confins

    da

    Terra,

    lan

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    Baudelaire tern toda a razao em lutarcontra a confusao entre progresso

    material e progresso espiritual - confusao que persiste em nosso

    seculo e se torna especialmente exuberante em periodos de

    boom

    eco

    nomico. Mas ele se mostra tao estupido quanto aquele espantalho no

    cafe

    quando salta para

    0 p610 oposto e define a arte de modo que esta

    parec;:a nao ter qualquer conexao com

    mundo

    material:

    o

    pobre homem tornou-se tao americanizado pelas filosofias zoocraticas

    e industriais que perdeu toda a

    n ~ o

    da

    diferen

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    7/20

    das ruas, dos cafes, das adegas e mansardas de Paris. Ate mesmo suas

    visoes transcendentais se

    enraizam

    em urn tempo e urn espa

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    amontoam nos subterraneos de uma grande cidade; a Gazette des Tri-

    bunaux e 0 Moniteur provam que tudo 0 que precisamos e abrir os

    olhos para reconhecer nosso heroismo . 0 mundo da mod a ai esta,

    como estara no ensaio sobre Constantin Guys; a penas aparece aqui sob

    uma forma nitidamente nao-pastoral, vinculada ao submundo, com

    seus sombrios desejos e compromissos, seus crimes e castigos; ganha

    assim uma

    profundidade

    humana muito mais arrebatadora

    que

    os pa

    lidos esbo

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    tom ada em seu sentido direto de

    casar-se,

    quer no sentido figurado de

    envolver sens ualmente, trata-se de

    uma

    das mais

    banais

    experi( ncias

    humanas,

    e uma das mais universais: trata-se, como diz a canyao fa

    mosa, daquilo que faz

    0 mundo

    girar. Urn dos

    problemas

    fundamen

    tais do modernismo do seculo XX e que nossa arte ten de a perder con

    tato com a vida cotidiana das pessoas. Isto, e claro, nao e universal

    mente verdadeiro - 0

    Ulisses

    de Joyce talvez seja a mais nobre ex

    ceyao

    -

    mas e verdadeiro 0 suficiente para ser notado por todos quan

    tos

    se

    preocupam

    com a vida mod ern a e a

    arte moderna.

    Para

    Baude

    laire, porem, uma arte que nao

    se

    disponha a epouser as vidas de ho

    mens e mulheres

    na

    muitidao nao merecera ser chamada propriamente

    de arte moderna.

    o mais rico e profundo pensamento de Baudelaire sobre a moder

    nidade comeya a se manifestar logo depois de

    0

    Pintor da Vida Mo

    derna , no inicio dos anos de 1860, e prossegue ate 0

    momenta

    em que,

    pouco antes

    da

    morte, em 1867, ele se torna demasiado enfermo para

    esc rever. Esse

    trabalho

    constitui uma serie de po em as

    em

    prosa que ele

    planejou

    publicar

    sob 0 titulo

    Spleen de Paris.

    Ele

    nao

    viveu

    para

    con

    c1uir a

    serie ou para pubJica-la como urn todo, mas completou cin

    qiienta

    desses poemas, mais urn prefacio e urn epilogo, que vieram a

    luz em 1868, logo apos

    sua

    morte.

    Walter Benjamin, em sua

    serie de

    brilhantes

    ensaios sobre Bau

    delaire e Paris,

    foi

    0 primeiro a se dar conta

    da grande profundidade

    e

    riqueza desses poemas em prosa.1

    Toda a minha reflexao se inscreve

    no caminho aberto por Benjamin, embora eu

    tenha

    encontrado ele

    mentos e componentes diferentes daqueles

    apontados

    por ele.

    Os

    escri

    tos parisienses de Benjamin consti tuem umaperformance notavelmente

    dramatica, surpreendentemente similar ao Ninotchka de Greta Garbo.

    Seu corayao e sua sensibilidade 0

    encaminharam

    de

    maneira

    irresistivel

    para as luzes

    brilhantes

    da cidade, as bel as mulheres, a

    moda,

    0 luxo,

    seu jogo

    de

    superficies deslumbrantes e cenas grandiosas; enquanto

    isso, sua consciencia marxista esforyou-se

    por

    mante-Io a distancia

    dessas tentayoes, mostrou-lhe que todo esse

    mundo

    luminoso

    e

    deca

    dente, oco, viciado, espiritualmente vazio, opressivo em relayao ao pro

    letariado, con dena do pela hist6ria. Ele faz repetidos comentarios ideo

    l6gicos para nao ceder a tentayao parisiense - e para evitar que seus

    leitore6 caiam em tentayao

    -

    todavia nao resiste a lanyar urn ultimo

    olhar ao btilevar ou as arcadas; ele quer ser salvo, porem nao ha pressa.

    Essas contradiyoes internas, acionadas pagina ap6s pagina, dao a obra

    de Benjamin uma luminosa energia e urn

    charme

    irresistivel.

    Ernst

    Lu

    bitsch, diretor e cen6grafo de Ninotchka, tern

    0

    mesmo background

    judaico, burgues e berl inense de Benjamin e

    tam

    bern simpatizou com a

    esquerda; Benjamin decerto teria apreciado

    0

    charme e

    0 drama

    do

    142

    filme,

    mas

    sem duvida

    teria

    conferido a ele urn final mais feliz

    que

    0 E

    seu proprio. Meu

    trabalho

    nesse sentido e menos tocante como drama,

    mas talvez mais coerente como historia. Onde Benjamin oscila entre a

    total imersao do Eu moderno 0 de Baudelaire,

    0

    seu proprio)

    na

    cidade

    moderna

    e 0 total

    alheamento em

    re1a

    y

    ao a ela,

    tento

    recapturar as

    correntes mais con stantes do fluxo metabolico e dialetico.

    Nas

    duas

    seyoes que seguem,

    pretendo

    ler, em detalhes e em pro

    fundidade, dois dos ultimos poem as

    em prosa de

    Baudelaire: Os

    Olhos dos

    Pobres

    (1864) e

    A

    Perda

    do

    Halo

    (1865).19  Veremos de

    imediato, atraves desses poemas, por que Baudelai re e universal mente

    aclamado como urn dos

    grandes

    escritores

    urbanos.

    Em

    Spleen de Pa

    ris, a cidade desempenha urn papel decisivo em seu drama espiritual.

    Com isso, Baudelaire faz por se integrar

    na

    grande tradiyao de escrito

    res parisienses, que

    remonta

    a Villon, passa por Montesquieu e Dide

    rot, Restif de la Bretonne e Sebastien Mercier e chega ao seculo XIX,

    com Balzac, Victor

    Hugo

    e Eugene Sue.

    POrt ri1, ao

    mesmo tempo Bau

    delaire

    representa

    urn rompimento radical com essatradiyao. Seus me

    Ihores escritos parisienses pertencem

    exatamente

    ao periodo

    em

    que,

    sob a autoridade de

    Napoleao e

    adireyao

    deHaussmann, a cidade

    estava sendo remodelada e reconstruida de forma sistematica. En

    quanta

    trabalhava

    em Paris, a tar efa de inodernizayao

    da

    cidade seguia

    seu curso, lado a

    lado

    com ele, sobre

    sua cabeya

    e sob seus pes. Ele

    po de ver-se nao s6 como urn es pectad or, m as como

    participante

    e pro

    tagonista dessa

    tarefa em

    curso; seus escritos parisienses expressam 0

    drama e

    0

    trauma ai implicados. Baudelaire nos

    mostra

    algo que ne

    nhum escritor pode ver com tanta clareza: como a modernizayao da

    cidade simultaneamente inspira e forya a modernizayao da

    alma

    dos

    seus cidadaos.

    importante assinalar

    a fo rma pel a

    qual

    os

    poemas

    em

    prosa

    de

    Spleen e Paris fizeram sua primeira apariyao: os folhetins que Baude

    laire compos para

    a imprensa parisiense de grande circulayao,

    diaria

    ou semanal. 0 folhetim equivalia aproximadamente a urn Op-Ed dos

    jornais de hoje.

    Normalmente

    aparecia

    na

    primeira

    pagina

    ou

    na

    pa

    gina

    central

    do

    jornal,

    logo abaixo ou ao ladci do editorial, a fim de que

    fosse uma das primeiras coisas lidas.

    Em

    geral era escrito

    por

    alguem

    de fora, em urn tom evocativo e reflexivo, para .contrastar com a com

    batividade do editorial - embora 0 seti teor

    pudesse

    ser escolhido para

    reforyar (quase sempre de modo sublimimir) os argumentos polemicos

    do editor. No tempo de Baudelaire, 0 folhetim era urn genero urbano

    popular

    ao extremo, oferecido em cehtenas de

    jornais

    europeus e norte

     0) Op Ed: Optical Editorial.

    materia que ganha destaque.pela posi9ao que ocupa na po'

    gina. N. T.)

    143

    http:///reader/full/prosa.18http:///reader/full/prosa.18http:///reader/full/1865).19http:///reader/full/prosa.18http:///reader/full/1865).19

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    10/20

    americanos . Muitos dos

    gran

    des escritores do seculo XIX usaram essa

    forma

    para

    se

    apresentar

    a urn publico de massa: Balzac, Gogol e Poe,

    na geraC;ao anterior

    a

    de Baudelaire; Marx e Engels, Dickens, Whit

    man e Dostoievski, na

    sua

    geraC;ao.

    E fundamental lembrar

    que

    os

    poemas constantes em Spleen de Paris nao se apresentam oomo versos,

    uma forma de arte estabelecida, mas como prosa, no formato das

    noticias.

    2

    No prefacio a Spleen de Paris, Baudelaire proclama que

    l vie

    moderne exige uma nova linguagem:

    uma

    prosa poetica, musical mas

    sem ritmo e sem rima, suficientemente flexivel e suficientemente rude

    para adaptar-se

    aos impulsos liricos da alma, as modula

  • 8/18/2019 Berman Baudelaire O Modernismo Nas Ruas

    11/20

    tema circulatorio urbano. Tais imagens, lugar-comum hbje, eram alta

    mente revolucionarias

    para

    a vida urbana do seculo XIX. Os novos

    bulevares permitiram ao traJico fluir pelo centro da cidade e mover-se

    em linha reta, de urn extremo a outro - urn empreendimento quixo

    tesco e virtualmen te inimaginavel, ate entao. l t ~ m disso, eles elimina

    riam as habitac;oes miseraveis e abri riam espac;os livres em meio a

    camadas de escuridao e apertado congestionamento. Estimulariam

    uma tremenda expansao de negocios locais, em todos os niveis, e aju

    dariam a custear imensas demolic;Oes municipais, indenizac;oes e novas

    construc;oes. Pacificariam as massas, empregand o dezenas de milhares

    de trabalhadores - 0 que as vezes chegou a urn

    quarto

    da mao-de-obra

    disponivel na cidade - em obras publicas de Iongo prazo, as quais por

    sua vez gerariam milhares de novos empregos no setor privado. Por

    fim , criariam longos e largos corredores at raves dos quais as tropas de

    artilharia poderiam mover-se eficazmente contra futuras barricadas e

    insurreic;oes populares.

    Os bulevares representam apenas

    uma parte do amplo sistema de

    planejamento urbano, que incluia mercados centrais, pontes, esgotos,

    fornecimento de agua, a Opera e outros monumentos culturais, uma

    grande rede de parques. Diga-se, em tributo ao eterno credito do

    barao Haussmann

    - assim

    se

    expressou Robert Moses, seu mais ilus

    tre e notorio sucessor, em 1942

    - que

    ele resolveu de

    uma v l por

    todas, de maneir a firme e segura, 0 problema da modernizac;ao urbana

    em larga escala. 0 empreendimento pas abaixo centenas de edificios,

    deslocou milhares e milhares de pessoas, destruiu bairros inteiros que

    ai tinham existido por seculos. Mas franqueou toda a cidade , pela pri

    meira

    vez

    em sua historia, a totalidade de seus habitantes. Agora, apos

    seculos de vida claustral, em celulas isoladas, Paris

    se

    tornava urn es

    pac;o fisico e humane unificado.*

    0) Em Classes Operarias e Classes Perigosas cilada na nota

    21

    , Louis Chevalier, 0 veneravel

    hisloriador

    de

    Paris, faz urn

    horripilanle

    relato das investidas a que

    loram submetidos

    os velhos

    bairros centrais nas decadas anteriores ao projeto Haussmann: explosan demografica. que dobrou a

    i

    popula

  • 8/18/2019 Berman Baudelaire O Modernismo Nas Ruas

    12/20

    - quanto mais participavam da "familia de olhos" sempre em expan

    sao - rnais rica se tornava sua visao de si mesmos.

    Nesse ambiente , a realidade facilmente se tornava magica e

    so-

    nhadora. As luzes of usc antes da rua e do cafe apenas intensificavam a

    alegria: nas gerayoes seguintes,

    0

    advento

    da

    eletricidade e do neon s6

    faria aumen tar tal intensidade. Ate as mais extremas vulgaridades ,

    como aquelas ninfas do cafe, com as cabeyas ornadas de frutas e gulo

    seimas, tornavam-se adoniveis em seu romantico t splendor. Quem

    quer que

    ja

    tenha estado apaixonado em

    uma

    grancie cidade conhece

    bern a sensayao, celebrada em centenas de canyoes sentimentais. De

    fato , essa alegria privada brota diretamente da modernizayao do es-

    payo publico urbano. Baudelaire nos mostra urn novo mundo, privado

    e publico, no instante exato em que este surge. Desse momenta em

    diante,

    0

    bulevar sera tao

    importante

    como a alcova

    na

    consecuyao do

    amor moderno.

    Contudo, cenas primordiais, para Baudelaire, como mais tarde

    para Freud, nao podem ser idiIicas. Elas devem conter material idilico,

    mas no climax da

    cena

    uma realidade reprimida se interpoe, uma reve

    layao ou descoberta tern lugar:

    urn

    novo bulevar,

    ainda

    atulhado de

    detritos . . .) exibia seus infinitos esplendores". Ao lado do brilho, os

    detritos: as ruinas de

    uma

    duzia de velhos bairros - os mais escuros,

    mais densos, mais deteriorados e mais assustadores bairros da cidade,

    lar de dezenas de milhares de parisienses - se amontoavam no chao.

    Para

    onde iria toda essa gente? Os responsaveis pela demoliyao e re

    construyao nao se preocupavam especialmente . com isso. Estavam

    abrindo novas e amplas vias de desenvolvimento nas partes norte e leste

    da cidade; nesse meio tempo, os pobres fariam, de algum modo, como

    sempre haviam feito. A familia em farrapos, do

    poema

    baudelaireano,

    sai de tras dos detritos, para e se coloca no centro da cena. 0 proble

    ma nao e que eles sejam famintos ou pedintes. 0 probl ema e que eles

    simplesmente nao irao embora. Eles

    tambem

    querem urn lugar sob

    a luz.

    Esta

    cena primordial revela algumas das mais

    profundas

    ironias

    e contradiyoes

    na

    vida

    da

    cidade moderna. 0 empreendimento que

    torna toda essa

    humanidade

    urbana

    uma grande familia

    de olhos",

    em expansao, tam bern poe amostra as crianyas enjeitadas dessa fami

    lia. 4s transformayoes fisicas e sociais que haviam tirado os pobres do

    alcance da visao, agora

    os

    trazem de volta

    diretamente

    a vista de

    cada

    urn. Pondo abaixo as velhas e miseraveis habitayoes medievais, Haus

    smann , de maneira invoiuntaria, rompeu a crosta do mundo ate entao

    hermeticamente selado da tradicional pobreza urbana. Os bulevares,

    abrindo formidaveis buracos nos bairros pobres, permitiram aos po

    bres

    caminhar

    atraves desses mesmos buracos , afastando-se de suas

    8

    vizinhas arruinadas,

    para

    descobrir, pel a primeira vez em suas vidas, ~

    como era 0 resto da cidade e como era a outra especie de vida que ai

    existia. E, a

    medida

    que veem, eles

    tambem

    sao vistos: visao e

    epifania

    fluem nos dois sentidos . No meio dos gran des espayos, sob a luz ofus

    cante, nao

    ha

    como desviar os olhos. 0 brilho ilum ina os detritos e ilu

    mina as vidas sombrias das pessoas a expensas das quais as luzes bri -

    Ihantes resplandecem. Balzac compa rou esses velhos bairros as flores

    tas mais escuras da Africa;

    para

    Eugene Sue, eles epitomizavam

    Os

    Misterios de

    Paris . Os

    bulevares de

    Haussmann transformaram

    0

    exo..

    tico no imediato; a miseria que

    foi

    urn dia misterio e agora urn fato.

    A manifestayao das divisoes de c1asse na

    cidade

    modema implica

    divisoes interiores no individuo moderno. Como

    poderiam os amantes

    olhar os pobres em farrapos, de subito surgidos entre eles? Nesse ponto,

    o

    amor

    moderno perde

    sua

    inocencia. A presenya dos pobres lanya uma

    sombr a inexoravel sobre a cidade i1uminada. 0 estabelec imento da

    quele amor magicamente inspirado desencadeia

    agora

    uma magica

    contraria

    e impele os

    amantes para

    fora do seu enclausuramento ro

    mantico,

    na

    direyao de relacionamentos mais

    amplos

    e menos idilicos .

    Sob essa nova luz, sua felicidade pessoal aparece como privilegio de

    c1asse. 0 buleva r os forya a reagir politicament e. A re sposta do home m

    vi

    bra na

    direyao

    da esquerda

    liberal: ele se sente

    culpado

    em meio

    a

    felicidade, irmanado aqueles que a podem

    ver,porem

    nao podem des

    frutar

    dela; sentimentalmente, ele deseja torna-Ios

    parte

    da familia.

    As

    afinidades da mulher - ao menos nesse instante - estao com a di

    reita, 0 Partido da Ordem: n6s temos algo que eles querem; logo, 0

    melhor e apelar para 0 gerente" , chamar alguem que tenha 0 poder de

    nos tornar livres deles. Por isso. a distancia

    entre

    os

    amantes

    nao e

    apenas uma falha de comunicayao, mas uma radical oposiyao ideol6

    gica e politica. Caso se erigissem barricadas no bulevar - como de fato

    ocorreu em 1871, sete anos depois da apariyao do poema, quatro apos a

    morte de Baudelaire - os amantes poderiam muito bern estar em

    lados opostos. .

    Urn

    par

    amoroso dividido pel a politica e razao suficiente de des

    gosto. Todavia ha outras razoes: talvez, quando ele olhou fundo nos

    olhos dela, tenh a de fato, con forme

    esperava,'

    :'lido m us pensamentos

    ali". Talvez, a despeito de

    afirmar

    nobremente

    sua irmandade

    com a

    (0 )

    Veja·

    se

    0

    comentario de Enge

    ls

    , no panflelo

    Ccntribuit;uo

    ao

    Problema da Habitat;uo

    (1872), a propo

    silO

    do

    m ~ l o d o chamado

    Haussmann' (

    .. ).

    R e f i r o ~ m e

    a

    pralica, hoje generalizada. de

    abrir grandes brechas nas

    v i z i n h a n ~ a s

    operarias das nossas gf indes cidades . especial mente aq uelas

    siluadas nas regi6es cenlrais. (

    ..

    ) 0 resul tado

    0

    mesmo em toda a parte: os becos e alamedas mais

    comprometedores desaparecem. para

    dar

    lugar a a U l o g l o r i f i c a ~ < i da burguesia. com o credito de seu

    tremendo sucesso - mas reaparecem logo adianle. muitas vezes no bairro adjacente"

    Obras

    £ s

    lhidas de Marx e Engels.

    M

    os

    cou.

    195

    5. 2

    vols

    .

    V.

    I. p. 559, 606·9.)

    149

  • 8/18/2019 Berman Baudelaire O Modernismo Nas Ruas

    13/20

    universal familia de olhos, ele partilhe com ela 0 desprezivel desejo de

    negar

    relac;5es com os pobres, de po-los fora do a1cance

    da

    visao e do

    espirito. Talvez ele odeie essa mulher porque os olhos del a Ihe revela

    ram

    uma parte

    de si mesmo que ele se recusa a

    enfrentar.

    Talvez a maior

    divisao nao se de

    entre

    0 narrador e sua amante, mas dentro do pr6prio

    homem. Se assim e, isso nos

    mostra

    como as contradic;5es que animam

    a cidade modern a ressoam na vida interior do homem na rua.

    Baudelaire sabe

    que as

    reaC;6es

    do homem e

    da

    mulher, senti

    mentalismo liberal e rudeza reacionflria, sao igualmente futeis. De urn

    lado, nao hfl como assimilaros pobres no conforto de qualquer familia;

    de outro, nao hfl nenhum tipo de repressao que possa livrar-se deles por

    muito tempo - eles

    sempre

    voltarao. S6 a

    mais

    radical reconstruc;ao da

    sociedade moderna poderia comec;ar a cicatrizar as feridas - feridas

    pessoais e sociais - que

    os

    bulevares trouxeram a luz. Assim mesmo,

    a soluc;ao radical

    muito

    freqiientemente vern a ser dissoluc;ao:

    por

    abai

    xo

    os .bulevares, apagar as luzes brilhantes, expelir e recolocar as pes

    soas, eliminar as fontes de beleza e alegria que a cidade

    moderna

    trouxe

    a existencia. Devemos

    esperar,

    como Baudelaire as vezes esperou, por

    urn futuro em

    que

    a alegria e a beleza, como as luzes

    da

    cidade,

    ve-

    nham

    a ser

    partilhadas por

    todos.

    Mas

    nossa esperanc;a t en de a ser

    diluida pela tristeza auto-ironica que

    permeia 0 ar da cidade de Bau

    delaire.

    I

    I

    4

    0

    LODA AL

    DE

    MACADAME

    Nossa

    pr6xima

    cena

    moderna arquetipica

    se

    encontra

    no poem a

    em prosa

    A Perda

    do

    Halo

    Spleen de Paris, n? 46), escrito em 1865,

    mas rejeitado pela

    imprensa

    e s6 publicado

    ap6s

    a

    morte

    de Baude

    laire. Como

    Os

    Olhos dos

    Pobres ,

    este

    .poema

    e

    ambientado

    no bu

    levar;

    trata

    da confrontac;ao que 0

    ambiente

    imp5e ao sujeito, e ter

    mina, como 0 titulo sugere, com a

    perda da

    inocencia. Aqui, porem, 0

    encontro nao se

    dfl

    entre duas pessoas, ou entre pesSoas de diferentes

    classes sociais, mas, antes, entre urn individuo isolado e as forc;as so-

    ciais,

    abstratas,

    em

    bora concretamente

    ameac;adoras. Aqui,

    0

    am

    biente, as imagens e 0 tom emocional sao enigmaticos e alusivos; 0

    poeta parece interessado em promover 0 desequilibrio dos leitores, e ele

    pr6prio lalvez esteja desequilibrado.

    LA

    Perdado

    Halo

    se desenvolve na forma de difllogo entre urn

    poeta e urn

    homem comum ,

    dialogo que se trava em

    un mauvais

    lieu,

    urn

    lugar

    sinistro ou de rna reputac;ao, talvez urn bordel,

    para

    em

    barac;o de ambos. 0

    homem

    comum, que semp're

    alimentara uma

    ideia

    elevada do artista, sente-se frustrado ao

    encontrar

    urn deles em tal

    lugar:

    15

    ~

    o que voce aqui, meu amigo? voce em urn

    lugar

    como esse? voce, degus

    ( )

    tador de amhrosia e de quintessencias Estou escandalizado

    o

    poeta

    entao

    prossegue, explicando-se:

    Meu amigo, voce sabe como me aterrorizam os cavalos e os veiculos?

    Bern, agora mesmo eu cruzava 0 bulevar,

    'com muita

    pressa, chapi

    nhando na lama , em meio ao caos, com a morte galopando na minha

    d i r ~ a o de todos os lados, quando fiz urn movimento brusco e 0 halo

    despencou de

    minha

    cabec;a

    indo cair

    no lodac;al de

    macadame. Eu

    es

    tava muito assustado para recolhe-lo. Pensei que seria menos desagra

    davel perdm- minha insignia do que ter meus ossos quebrados. Alem

    disso, murmurei para mim mesmo, toda nuvem tern urn forro de

    prata.

    Agora, eu posso andar por ai inc6gnito, cometer baixezas, dedicar-me a

    qualquer especie de atividade crapulosa, como urn simples mortal. As

    sim, aqui estou, tal como voce me

    ve,

    tal como voce mesmo

    o surpreso interlocutor

    insiste, urn

    tanto preocupado:

    Mas voce nao vai colocar urn

    anuncio

    pelo halo? ou notificar a policia?

    Nao: 0

    poeta

    soa

    triunfante naquilo

    que reconhecemos como

    uma

    nova

    autodefinic;ao:

    Que Deus me perdoe Eu gosto disto aqui. Voce e 0 unico que me reco

    nheceu. Arem disso, a dignidade me aborrece. Mais ainda, edivertido

    imaginar algum mau poeta apanhando-o e colocando-o desavergonha

    damente na pr6pria cabec;a. Que prazer poder fazer alguem feliz espe

    cialmente alguem de quem voce pode rir. Pense em X, ou em

    Z

    Voce

    nao percebe como isso vai ser

    divertido?

    urn

    poema estranho,

    e

    podemos

    sentir-nos

    como 0 interlocutor

    sur

    preso,

    que sabe

    que

    alguma

    coisa

    esta

    acontecendo,

    mas nao

    sabe exa

    tamente 0 que seja.

    Urn dos primeiros misterios

    aqui

    e

    0

    pr6prio halo.

    Antes de

    mais

    nada, que faz ele sobre a cabec;a de urn poeta

    moderno?

    Sua func;ao e

    satirizar e

    criticar

    uma

    das

    crenc;as mais apaixoriadas do proprio Bau

    delaire: a crenc;a na

    santidade da

    arte. De fato, podemos detectar uma

    devoc;ao

    quase

    religiosa a

    arte,

    ao longo de

    sua

    poesia e sua prosa.

    Assim, no texto

    de

    1855, ja citado:

    0 artista

    nasce

    apenas

    de si

    mesmo. (.. . ) A unica seguranc;a que ele estabelece e para si mesmo.

    ( .. ) Ele

    morre

    sem

    deixar

    filhos, tendo sido seu

    pr6prio

    rei, seu

    pr6prio

    sacerdote, seu

    pr6prio

    Deus".23  A

    Perda

    do Halo trata

    da queda

    do

    proprio

    Deus

    de Baudelaire.

    Porem,

    e preciso

    lembrar

    que esse

    Deus

    e

    151

    http:///reader/full/Deus%22.23http:///reader/full/Deus%22.23

  • 8/18/2019 Berman Baudelaire O Modernismo Nas Ruas

    14/20

    cultuado nao so

    por

    artist as mas igualmente por homens comuns",

    crentes de que a arte e os artistas existem em urn plano muito acima

    deles

    .. .

    A Perda do

    Halo

    se da em urn ponto para 0 qual convergem 0

    mundo da arte e

    0

    mundo com urn. E nao se trata de urn ponto apenas

    espiritual , mas fisico, urn determinado ponto na paisagem da cidade

    moderna.

    Eo

    ponto em que a hist6ria da moderniza

  • 8/18/2019 Berman Baudelaire O Modernismo Nas Ruas

    15/20

    carruagem ou

    caminhar

    sobre pernas de

    pau .

    5

    Com isso, a vida dos

    bulevares, mais

    radiante

    e excitante que toda a vida

    urbana

    do pas

    sado.

    era

    tambem mais arriscada e ameac;adora para as multidoes de

    homens e mulheres que andavam ape.

    E

    esse, pois,

    0

    palco da cena modern a primord ial de Baudelaire:

    eu cruzava

    0

    bulevar. com muita pressa, chapinhando na lama, em

    meio ao caos, com a mort e galopando na mi nha direc;ao, de todos

    os

    lados . 0 homem moderno arquetipico, como

    0

    vemos aqui, e

    0

    pedes

    tre lanc;ado no turbilhao do triifego

    da

    cidad e mode rn a, urn homem

    sozinho,

    lutando

    contra urn aglomerado de massa e energia pesadas,

    velozes e mortifera s; 0 borbulha nte trafego da rua e do bulevar nao

    conhece fronteiras espaciais ou tempora,is, espalha-se na direc;ao de

    qualquer espac;o urbano, imp6e seu ritmo ao tempo de todas as pes

    soas, tran sforma to do

    0

    ambiente moderno em caos . 0 caos aqui nao

    se refere apenas aos passantes - cavaleiros ou condutores, cada qual

    procurando abrir

    0

    caminho mais eficiente

    para

    si m esm o - mas

    11

    sua

    interac;ao, atotali dade de seus movimentos em urn espac;o' comum . Isso

    faz do bulevar urn perfeito simbolo das contradic;oes interiores do capi

    talismo: racionalidade em cada unidade capitalista individualizada,

    que conduz a irracionalidade anarq uica do sistema social que mantem

    agregadas todas essas unidades.*

    o

    hom em na

    rua

    moderna, lanc;ado nesse turbilhao, se

    ve

    reme

    tido aos seus proprios recursos - freqiientemente recursos que igno

    rava possuir - e forc;ado a explora-los de

    maneira

    desesperada, a fim

    de sob reviver.

    Para

    atravessar

    0

    caos, ele precisa

    estar

    em sintonia,

    precisa adaptar-se aos movimentos do caos, precisa

    aprender

    nao ape

    nas a p6r-se a salvo dele, mas a estar sempre urn passo adiante. Pre

    cisa desenvolver sua habilidade em materia de sobressaltos e

    movi-

    mentos bruscos, em viradas e guinadas subitas,

    abruptas

    e irregulares

    - e nao apenas com as pernas e

    0

    corpo, mas

    tambem

    com a mente e a

    sensibilidade.

    Baudelaire mostra como a vida na cidade moderna for¢a cada urn

    a realizar esses novos movimentos; mas mostr a tam bern como, assim

    procedendo, a cidade mo derna desencadeia novas formas de liberdade.

    Urn homem que saiba mover-se dentro, ao redor e atraves do trHego

    (0) 0 lrafcgo de rua nllo foi. evidenlemenle, 0 linieo lipo de movimenlo organizado conhe·

    po de ir a qualquer p arte, ao longo de qu alquer dos infinitos corredores

    .E

    urbanos onde

    0

    proprio trHego se move livreinente. Essa mobilidade

    abre urn enorme leque de experiencias e atividades

    para

    as massas

    urbanas.

    Moralistas e pessoas cuItas conde narao essa

    popular

    perseguic;ao

    urbana como baixa, vulgar, sordida, vazia de valor social ou espiritual.

    Mas,

    quando

    deixa seu halo cair e continua

    andando, 0

    poeta de Bau

    delaire realiza

    uma grande

    descoberta. Descobre,

    para

    seu espanto,

    que a

    aura

    de pureza e santidade artistica e

    apenas

    incidental e nao

    essencial aarte e que a poesia po de florescer perfeitam ente , talvez me

    lhor ainda, no outro lado do bulevar, naqueles lugares baixos,

    apoe

    ticos , como

    0 mauvais lieu

    onde esse mesmo poema nasceu. Urn dos

    paradoxos

    da

    modernidade, como Baudelaire a ve aqui, e que seus

    poet as

    se tornarao

    mais

    profunda

    e autenticamente

    p o t i ~ o s quanta

    mais se tornarem homens comuns. Lanc;ando-se no caos

    da

    vida coti

    diana do mundo moderno -

    uma

    vida de que

    0

    novo trafego e

    0

    sim

    bolo p rimordial -

    0

    poeta pode apropriar-se dessa vida para a arte.

    o mau poeta ,

    nesse mundo, e

    aqu

    'ele que espera conservar

    intata sua

    pureza, mantendo-se longe das ruas, a salvo dos riscos do trHego. Bau

    delaire deseja obras de arte que brotem do meio do trcifego, de

    sua

    energia anarquica, do incessante perigo e terror de

    estar

    ai, do precario

    orgulho e satisfac;ao do ho mem que chegou a sob reviver a tudo isso.

    Assim, A Perda do Halo' vern a ser

    uma

    declarac;ao de ganho, a

    redestinac;ao dos poderes do poeta a

    uma

    nova especie de arte. Seus

    movimentos bruscos, aquelas sub itas curvas e guinadas, cruciais

    para

    a

    sobrevivencia cotidiana nas rua s

    da

    cidade, vern a ser igualmente fontes

    de poder criativo. No seculo seguinte, esses mcivimentos virao a ser

    gestos paradigma ticos

    da

    arte e do pensamento tnodernistas. *

    As

    ironias proliferam nessa cena

    modema

    primordial, disfarc;a

    das sob as nuanc;as

    da

    linguagem de Baudelaire. Considere-se uma

    frase como

    l

    lange

    de macadam 0

    lodac;al de macadame .

    La

    lange

    em frances, e nao s6 a palavra literal para lode,

    lama,

    mas

    tambem

    a

    palavra figurada

    para

    insidia, baiXeza, torpeZ:1, corrupc;ao,

    d e g r a d a ~

    c;ao,

    tudo quanto seja abominavel e repugnante. Na dicc;ao oratoria e

    poetica

    dassica,

    trata-se

    o

    uma

    forma e1evada de descrever algo

    (0)

    Quarenta anos depois, com

    0 surgimento

    lou melhor, a designa,fto) do, Brooklin Dod

    cido

    no

    seculo XfX

    A

    ferrovia

    fez

    sua

    a p a r i ~ ~ o

    em larga escala, de,de os anos de 1830

    .

    e conslilui

    uma presen,a vilal na literalura europeia, desde Dombey

    and

    Son de Dickens (1846-48). Mas a

    gers (os Dribladores do Brooklin , equipe de beisebol), a cultura popular

    p r o u z i r ~

    sua pr6pria versfto

    ferrovia obedec ia a horarios rigidos e lrafegava em uma rola preestabelecida; assim, por causa de loda

    ir6nica dessa fe modemista . 0 nome traduz 0 meio pelo qual as habilidades necessarias Ii 5Obrevi

    a sua pOlencialidade demoniac., lomou-se urn dos paradigmas da ordem oilocenlista.

    vencia

    urbana

    - especif icamente a habilidade

    para

    se desviar do tratego - podem transcender a

    finalidade pratica e assumir novas form as de significado e valor, no esporte e na arte. Baudelaire teria

    sinais luminosos de lransito. uma inven,Ao desenvolvida nos ESlados Unidos por voila de 1905, slm

    Oeve-se obsefY'ar que a e x p e r i ~ n c i a do caos . m Baudelaire. e anterior ao advento dos

    adorado esse simbolismo,

    como

    aconteceu a muitos de seus suces50res do seculo XX (e. e. cummings,

    I

    ariane Moore).

    bolo maravilho

    so

    das primeiras tentalivas eslatais de regular e racionalizar 0 caos do capitalismo.

    154

    155

  • 8/18/2019 Berman Baudelaire O Modernismo Nas Ruas

    16/20

    "baixo".

    Como tal, envolve toda

    uma

    hierarquia cosmica,

    uma

    estru

    tura de normas e val ores nao apenas esteticos mas metafisicos, eticos,

    politicos.

    Lafange

    pode representar

    0

    nascedourode urn universo mo-

    ral cujo apice e simbolizado pelo "halo". A ironiaesta em que, caindo

    nafange,

    0 halo do poeta nao esta perdido por inteiro, pois, desde que

    a imagem mantenha alguma f o r ~ a e sentido -

    que

    e nitidamente

    0

    caso, no poem a de Baude laire

    - , 0

    velho cosmos hienirquico estara de

    alguma forma present e no

    mundo

    moderno. Todavia presente de modo

    precario. 0 sentido do macadame e radicalmente destrutivo, quer em

    r e l a ~ a o

    ao

    lodarral,

    quer em

    r e l a ~ a o

    ao

    halo :

    ele

    pavimenta por

    igual

    0

    eleva do e

    0

    baixo.

    Podemos ir

    ainda mais fundo no macadame: cabe notar , de ini

    cio, que a palavra nao e francesa. De fato, a palavra deriva de John

    McAdam, de Glasgow,

    0

    inventor setecentista da m0derna superficie

    de p a v i m e n t a ~ a o . Talvez seja a primeira palavra dessa lingua que os

    franceses do seculo XX satiricamente chamarao de Franglais: pavi

    menta 0

    caminho que leva a

    e

    parking

    e

    shopping

    e

    weekend

    e

    drugsiore , e mobile-home

    e muito mais. Essa linguagem e assim vital

    e atraente porque e a linguagem internacional da

    m o d e r n i z a ~ a o .

    S e u ~

    neologismos sao po derosos veiculos de novas form as de vida e movi

    mento. Tais palavras podem parecer dissonantes e excentricas, con

    tudo e tao futil resistir a elas quanto resistir

    a

    propria

    iminencia da

    m o d e r n i z a ~ a u .

    E

    verdade que muitas n a ~ 5 e s e classes dominantes

    se

    sentem - e com razao - a m e a ~ a d a s pel a invasao de novas palavras , e

    objetos, de outras plagas. (Existe uma esplendida e paranoica palavra

    sovietica que expressa esse medo: infiltrazya. Porem, e preciso obser

    var que aquilo que as

    n a ~ 5 e s

    em geral tern feito, dos tempos de Bau

    delaire ate hoje, e, apos uma breve onda, ou d e m o n s t r a ~ a o de resis

    tencia, nao apenas aceitar

    0

    novo objeto, mas criar uma palavra pro

    pria para designa-Io, na e s p e r a n ~ a de eclipsar a memoria e m b a r a ~ o s a

    do subdesenvolvimento. (Apos recusar-se nos anos 60 a admitir e

    parking meter na lingua francesa, a Academia Francesa cunhou e rapi

    damente canonizou

    e

    parcmetre na decada seguinte.)

    Baudelaire

    sabia

    como escrever no mais

    puro

    e elegante frances

    classico. Aqui, porem, em "A Perda do Halo", ele se projeta em uma

    nova e emergente linguagem,

    para

    criar arte a partir das dissonancias e

    incongruencias que permeiam - e paradoxalmente unem - todo 0

    mundo moderno. "Em lugar da velha reclusao e auto-suficiencia nacio

    (OJ No seculo XIX, 0 principal

    tran

    smissor de

    m i z a ~ A o

    foi a

    Inglaterr

    a, no seculo XX

    lem

    ,i

    do os ESlados Unidos . O s

    mapas

    de (lOder m

    udarn

    m, mas a primazia da lingua inglesa

    a menos pu ra. a mais f1ex ivel e

    adapta

    vel das linguas m

    odemas

    - e ma ior do que

    nunc

    a. T alvez

    sobreviva ao declin io do

    imp rio

    amer   ana

    nais", diz 0 Manifesto , a modern a sociedade

    burguesa

    nos traz

    "urn

    _,

    intercambio em ·todas as d i r e ~ 5 e s a universal interdependencia das C;CE

    n a ~ 5 e s .

    Nao apenas na p r o d u ~ a o material, mas tam bern na intelectual.

    As c r i a ~ 5 e s das n a ~ 5 e s se tornarao" - repare-se nessa imagem, para

    doxal no mundo burgues - "propriedade comum". Marx prossegue:

    "A unilateralidade e 0 bitolamento nacionais se

    tornarao

    cada vez mais

    impossiveis, e das numerosas liter aturas locais e nacionais brotara uma

    literatura mundial". 0 l o d a ~ a l de macadame vira a ser urn dos funda

    mentos a partir dos quais

    brotara

    a nova

    literatura

    mundial do se

    culo XX.

    26

    Mas

    ainda

    ha

    outras

    ironias ness a cena primordi al.

    0

    halo que

    cai no

    l o d a ~ a l

    de macadame se ve a m e a ~ a d o

    porem

    nao destruido; ao

    contrario, e carrega do e incorporado ao fluxo geral do trafego. Urn dos

    mais eficazes expedientes

    da

    economia de trocas , explica Marx, e a

    interminavel metamorfose de seus valores de mercado. Nessa econo

    mia, tudo

    0

    que tiver p r e ~ o sobrevivera, e nenhuma possibilidade hu

    mana

    podera

    ser riscada, em definitivo, dos assetltamentos; a cultura

    se

    torna urn enor me entreposto comercial onde tudo e mantido em es

    toque, na

    s p e r a n ~ a

    de que algum dia, em alguIri lugar , encontre com

    prador. Assim,

    0

    halo que

    0

    poeta moderno deixa cair (ou atira fora)

    como obsoleto talvez se metamorfoseie, em virtude de sua

    propria

    obso

    lescencia , em

    urn

    icone, objeto de veneraC;ao nostalgica da

    parte

    da

    queles que , como os

    "maus poetas"

    X e Z estejam tentando fugir

    da

    modernidade. Todavia

    0

    artista - ou

    0

    pensador, ou

    0

    politico - anti

    moderno encontra-se nas mesmas ruas, no mesmo

    l o d a ~ a l

    como

    0

    artis

    ta moderno. Esse ambiente moder no serve como linha de a ~ a o ao mesmo

    tempo fisica e espiri tual- fonte primaria de materia e energia - para

    ambos.

    A

    d i f e r e n ~ a entre

    0 modernista e 0

    antimodernista:

    naquilo que

    importa aqui, e que 0 modernista se sente em casa nesse cenario, ao

    passo que

    0

    antimodernista percorreas ruas aprocura de urn caminho

    para fora delas.

    No

    que diz respeito ao trafego , porem, nao

    ha

    ne

    nhuma d i f e r e n ~ a

    entre

    eles: ambos sao obstaculos e casualidades para

    os cavalos e veiculos cujos caminhos eles

    cruzam

    e

    cujoiivre

    movimento

    impedem.

    Entao,

    nao importa quao

    acirradamente 0

    antimodernista

    possa apegar-se

    a

    sua aura de pureza espirituai;ele tambem tendera a

    perde-Ia, mais provavelmente cedo do que

    tarde,

    pelas mesmas raz6es

    que levaram 0 modernista a perde-Ia: ele sera f o r ~ a d o a se desfazer do

    equilibrio, das mesuras e do decoro e a aprender a

    g r a ~ a

    dos movi

    mentos bruscos para sobreviver. Mais uma vez, nao importa quao

    opostos 0 modernista e 0 antimodernista julguem ser: no l o d a ~ a l de

    macadame e segundo 0 ponto de vista do tratego interminavel, eles sao

    urn so .

    156

    I

    157

  • 8/18/2019 Berman Baudelaire O Modernismo Nas Ruas

    17/20

    Ironias geram mais ironias. 0 poeta de Baudela ire

    se

    arremessa

    de encontro ao

    caos do trMego e se esfon;:a nao apenas por sobre

    viver, mas

    por manter

    a propria dignidade em meio ao esfon;o. Con

    tucio, seu modo de a ~ a o se assemelha ado

    autoderrotado,

    pois adiciona

    outra variavel imprevisivel a uma totalidade ja instavel. Os cavalos e

    seus montadores, os veiculos e seus condutores estao

    tentando

    ao mes-

    mo tempo regular sua propria marcha e evitar 0 choque com os demais.

    Se

    ,

    em

    meio a isso tudo , eles forem

    ainda

    f o r ~ a d o s a esquivar-se dos

    pedestres que, a qualquer momento, podem arremessar-se na rua, seus

    movimentos

    se

    tornarao

    ainda mais incertos e, com isso, mais perigosos

    JI

    que antes. Logo, tentando opor-se ao caos , 0 individuo so faz agravar

    esse mesmo caos.

    Mas essa mesma f o r m u l a ~ a o sugere urn

    caminho

    que talvez con

     

    duza para alem

    da

    ironia

    baudelaireana

    e para fora do proprio caos. 0

    que aconteceria se as multidoes de hom ens e mulheres, aterrorizados

    pelo trMego moderno, aprendessem a enfrenta-lo

    unidas?

    Isso acon

    tecera

    exatamente

    seis anos apos

    A Perda

    de Halo

    (e

    tres anos

    apos a morte de Baudelaire), nos dias

    da

    Comuna em Paris, em 1871,

    e novamente em Petersburgo, em 1905 e em 1917, em Beriim, em

    1918, em Barcelona, em 1936, em Budapeste,

    em

    1956,

    outra

    vez

    em Paris, em 1968, e em dezenas de cidades no mundo todo, do tem

    po de Baudelaire ate hoje:

    0

    bulevar sera

    transformado

    de maneira

    abrupta em cenario de uma nova cena modern a primordial. Esta nao

    sera.

    a especie de cena que Napoleao e Haussmann gostariam de ver,

    nao obstante sera

    uma

    das cenas que a sua forma de urbanismo ajudou

    a criar.

    A medida que relemos velhas historias, mem6rias e novelas, ou

    contemplamos velhas fotos ou noticiarios de cinema, ou encaminhamos

    nossas pr6prias fugitivas memorias a 1968, vemos classes e massas in

    teiras movendo-se na d i r e ~ a o das ruas, unidas. Sera possivel discernir

    duas fases em suas atividades. Primeiro, as pessoas

    param

    e viram de

    roda

    para 0 ar

    os veiculos em seu caminho, deixando os cavalos em

    liberdade: aqui eles se vingam do trMego, decompondo-o em seus iner

    tes elementos originais.

    Em

    seguida, incorporam os

    d e s t r o ~ o s

    resul

    tantes erguendo as barricadas: estao recombinando os elementos iso

    lados, inanimados, em novas e vitais formas artisticas e politicas. Du

    rante urn momento luminoso, as multid6es de solitarios , que fazem da

    cidadE

    moderna

    0

    que ela

    e, se

    reunem, em uma nova forma de encon

    tro , e se tornam povo. As ruas pertencem ao povo : assumem controle

    da materia elementar da cidade e a tornam sua . Por urn breve mo

    mento,

    0

    ca6tico modernismo de bruscos movimentos solitarios cede

    lugar a urn

    ordenado

    modernismo de movimento de massa. 0 he

    ro ismo da vida moderna , que Baudelaire almejou ver , nascera de sua

    158

    cena p r i m o r d ~ a l na rua. Baudelaire nao e s p ~ r a que ~ s t a ?u qualquer 6 >. r .,

    outra, nova vida

    perdure.

    Mas ela renascera e contmuara a renascer

    0

    das

    c o n t r a d i ~ e s

    internas da rua. Essa possibilidade e urn relance vital

    de

    e s p e r a n ~ a

    para 0

    espirito do homem no l o d a ~ a l de

    macadame,

    no

    caos, batendo em retirada.

    5 0 SECULO XX: 0 HALO E A RODOVI

    Por varios motivos,

    0

    modernismo das cenas modernas primor

    diais de Baudelaire e notavelmente fresco e contemporaneo.

    Por o u t r ~

    lado,

    sua rua

    e seu espirito parecem confran gedoramente arcaicos. Nao

    porque nosso tempo

    tenha

    resolvido os conflitos

    que

    conferem vida e

    energia a

    Spleen

    e

    Paris

    - conflitos ideologicos e de classe, confIitos

    emocionais entre pessoas intimas, conflitos entre

    0

    individuo e as

    f o r ~ a s

    sociais, conflitos espirituais dentro do individuo - mas, antes, porque

    nosso

    tempo

    encontrou novos meios de

    mascarat

    e mistificar conflitos.

    Uma das grandes d i f e r e n ~ a s entre os seculos XIX e XX e que 0 nosso

    criou

    toda

    uma rede de novos halos para substituir aqueles de que

    0

    seculo de Baudelaire e

    Marx se

    desfez.

    Em nenhuma parte esse desenvolvimento e mais claro do que no

    ambito do espac;:o urbano. Se tivermos em mente 6s mais recentes com

    plexos espaciais

    urbanos que

    pudermos

    imaginar

    - todos aqueles

    que

    foram implementados, digamos, desde 0 fim da Segunda Grande Guer

    ra, incluindo os novos bairros urbanos e as novas ddades -

    sera dificil

    admitir que os encontros primordiais de Baudelaire possam ocorrer at.

    Isso nao acontece por acaso: de fato, ao longo de

    quase

    todo

    0

    seculo,

    e s p a ~ o s

    urbanos tern sido sistematicamente plahejados e organizados

    para assegurar-nos de

    que

    confrontos e colisoes serao evitados. 0 signa

    distintivo do

    urbanismo

    oitocentista foi

    0

    bulevar,

    uma

    maneira 'de

    reunir explosivas f o r ~ a s materiais e humanas;

    0

    t r a ~ o marcante do ur

    banismo do seculo XX tern sido a rodovia,

    uma

    forma de

    manter

    sepa

    radas essas mesmas f o r ~ a s . Deparamo-nos

    aqui

    com uma estranha

    dialetica, em

    que

    urn tipo de modernismo ao mesmo tempo

    encontra

    energia e se exaure a si mesmo, tentando

    aniquilar

    0

    o u t r ~

    tudo

    em

    nome do modernismo.

    o que faz a arquitetura modernista do seculo XX especialmente

    intrigante para nos e

    0

    preciso ponto baudelaireano

    de que

    ela

    parte

    urn

    ponto

    que ela logo se empenha em apagaLQuero referir-me a Le

    Corbusier, talvez 0 maior arquiteto do seculo XX, com certeza 0 mais

    influente, tal como

    0

    conhecemos em

    L Urbanisme

    (traduzido em in

    gH s com

    0

    sugestivo titulo de

    The City

    of

    Tomorrow,

    A Cidade de

    Amanha ), seu

    grande

    manifest o modernista de 1924. 0 prefac io evoca

    uma

    experiencia concreta a

    partir

    da qual,

    assimele 0

    diz, sua visao se

    159

    I

  • 8/18/2019 Berman Baudelaire O Modernismo Nas Ruas

    18/20

    desenvolveu.27  Nao e

    0

    caso de

    0

    tomarmos ao pe da letra, mas, antes,

    de

    compreender sua narrativa

    como uma

    parabola

    modernista, formal

    mente similar a de Baudelaire. A historia comer;a em urn bulevar _

    especificamente 0

    Champs

    Elysees -

    num

    fim de

    tarde

    do verao de

    1924. Ele havia saido para uma caminhada ao por-do-sol, apenas para

    se ver expulso da rua pelo triifego. Isso acontece meio seculo apos Bau

    delaire,

    eo

    automovel

    tinha

    feito

    sua

    aparir;ao nos bulevares, com forr;a

    total: "foi como se 0

    mundo

    tivesse

    subitamente enlouquecido .

    A cada

    momento, assim sentiu Le Corbusier,

    a

    lUria do triifego crescia. A

    cada

    dia

    sua

    agitar;ao

    aumentava

    . (Aqui a

    moldura temporal

    e a

    in-

    tensidade dramatica sao urn tanto rompidas.) Le Corbusier sentia-se

    diretamente amear;ado e vulneravel: Oeixar nossa casa significava

    que , uma vez cruzilda a soleira da porta, nos estavamos

    em

    perigo e

    podiamos ser mortos pelos carros que passavam . Chocado e desorien

    tado, ele

    compara

    a rua (e a cidade) de entao com a de sua juventude,

    antes da Grande Guerra: Recuo vinte anos, a

    minha

    juventude como

    estudante: a estrada entao nos pertencia; cantavamos nela, discutia

    mos nela, enquanto os cavalos e veiculos passavam suavemente". 0

    grifo e meu.) Isso expressa urn lamento triste e am argo tao velho quanto

    a propria cultura, e urn dos temas eternos

    da

    poesia: U sont les neiges

    d 'antan? (Onde

    estao as neves de outrora?). Porem,

    sua

    percepr;ao das

    texturas do espar;o

    urbano

    e do tempo historico

    torna sua

    nostalgica

    visao fresca e nova. A

    estrada entao nos pertencia.

    A relar;ao dos

    jovens estudantes com a

    rua

    representava a sua relar;ao com

    0

    mundo:

    o mundo era - ou parecia ser - aberto a eles, era deles para que ai se

    movessem avontade, em urn ritmo que podia acolher

    tanto

    as discus

    soes quanto a milsica; homens, animais e veiculos coexistiam pacifica

    mente em uma especie de Eden urbano; as enormes perspectivas de

    Haussmann

    dispersaram tudo isso,

    na

    direr;ao do Arco do Triunfo.

    Agora 0 idilio termin ou, as ruas pertencem ao triifego, e a visao precisa

    desaparecer, pois assim e a vida.

    Como pode

    0

    espirito sobreviver a esse tipo de mudanr;a? Bau

    delaire mostrou urn caminho: transformar os mouvements brusques e

    os soubresauts

    da

    vida

    na

    cidade

    moderna

    nos gestos paradigmaticos

    de uma nova

    arte

    capaz de reunir os homens modernos. No extremo

    limite da imaginar;ao de Baudelaire, divisamos

    outro

    modernismo po

    tencial: 0 protesto revolucionario que

    transforma

    a

    multidao

    de soli

    tariqs urbanos em povo e reivindica a

    rua

    da cidade para vida humana.

    Le Corbusier apresentara uma terceira estrategia que

    conduzira

    a outro

    e

    extremamente

    poderoso tipo de modernismo. Oepois de abrir cami

    nho atraves do trMego, mal tendo sobrevivido, ele

    da

    urn saito subito e

    ousado: identifica-se

    por

    inteiro com as forr;as

    que

    0 estavam pressio

    nando:

    16

    '

    Naquele I? de outubro de 1924, eu assistia ao titanico r e n s ~ i m e n t o d e

    urn novo fenomeno ( .. ), 0 trifego. Carros, carros, rapidos,

    rapidost

    ' . .);:....

    Uns disparam, repletos de entusiasmo e aiegria ( ..), a alegria do po: '

    der. Q simples e ingenuo prazer de

    se

    encontrar

    ern

    meio ao poder, a

    forc;a.

    Qutros participam disso. Qutros fazem

    parte

    dessa sociedade,

    que esta apenas despertando. Qutros confiam nessa sociedade: encon

    trarao a magnifica expressao do seu poder. Qutros acreditam nisso.

    Esse saito de fe orwelliano e tao rapido e desconcertante (como

    0

    tra

    fego)

    que

    Le Corbusier

    mal

    se

    da

    conta de 0 haver executado.

    Num

    momento, ele e 0 nosso conhecido homem

    baudelaireano na rua,

    esqui

    vando-se e lutando contra 0 trMego; no momento seguinte, seu ponto

    de vista sofreu uma guinada tao radical que ele agora vive, se move e

    fala de dentro do triifego. Num momenta ele fala de

    si

    mesmo, de

    sua

    propria vida e experiencia -   Recuo vinte an os ( ...

    ):

    a

    estrada

    entao

    nos pertencia ; no

    momenta

    seguinte a voz pessoal desaparece, dissol

    vida na vaga do processo historico mundial; 0 novo sujeito e 0 impes

    soal on,

    uns ,

    insuflado de vida pelo novo

    poder

    mundial. Agora, em

    vez de sentir-se amear;ado, ele se sente imerso, crente, participante.

    Em

    vez dos mouvements brusques e soubresauts, que Baudelaire viu como

    a essencia da vida

    modern

    a cotidiana, 0

    homem moderno

    de Le Cor

    busier

    fara

    urn movimento gigantesco,

    que

    tornara

    desnecessarios os

    movimentos seguintes, urn

    grande saito

    que sera

    0 ultimo.

    0

    homem na

    rua se incorporara ao novo

    poder

    tornando-se 0

    homem

    no carro.

    A perspectiva do novo homem no carro gerara os paradigmas do

    planejamento e design urbanos do

    s ~ c u l o

    XX 0 novo homem, diz Le

    Corbusier, precisa de outro tipo de rua , que

    sera

    uma maquina para

    o triifego", ou,

    para

    variar a metiifora basica, utha

    fabrica para produ-

    zir triifego". Uma rua verdadeiramente

    o d e r r i ~

    precisa ser bern equi

    pada como uma fabrica".28  Nessa rua, como na

    fabrica

    moderna, 0 mo

    delo mais bern

    equipado

    e 0 mais altamenteautomatizado:

    nada

    de

    pessoas, exceto as

    que

    operam as

    maquinas;

    nada de pedestres desprote

    gidos e desmotorizados para retardar 0 fluxo. Cafes e pontos de recrea

    cy3 0 deixarao de ser os fungos que sugam a paviinentacyao de Paris".29 

    Na cidade do futuro, 0 macadame

    pertE!flCera

    somente ao trafego_

    A partir do relance magico de Le Corbusier nos

    Champs

    Elysees,

    nasce a visao de urn novo mundo: urn mundo

    inteiramente

    integrado de

    torres altissimas,

    circundadas

    de vastas extens5es de grama e espacyo

    aberto

    - a torre no parque

    -

    igado

    por

    super-rodovias aereas, servido

    por garagens e

    shopping-centers

    subterraneos. Essa visao tern urn argu

    mento politico

    muito

    ciaro, expresso nas palavras finais de Towards a

    New Architecture: Arquitetura ou Revoluc;ao. A Revolucyao pode ser

    evitada

    _

    161

    http:///reader/full/desenvolveu.27http:///reader/full/fabrica%22.28http:///reader/full/fabrica%22.28http:///reader/full/Paris%22.29http:///reader/full/desenvolveu.27http:///reader/full/fabrica%22.28http:///reader/full/Paris%22.29

  • 8/18/2019 Berman Baudelaire O Modernismo Nas Ruas

    19/20

    As implicac;oes politicas

    nao

    foram

    inteiramente apreendldas

    no

    momenta

    - e nao se

    sabe

    se Le Corbusier estava de todo atento a

    elas

    -

    mas

    nos

    agora

    temos condic;5es de compreende-las.

    Tese,

    tese

    defendida pela o p u l ~ o urbana, a partir de 1789, ao longo de todo 0

    seculo XIX

    enos gran

    des lev antes revolucionarios do final

    da

    Primeira

    Guerra:

    as

    ruas pertencem

    ao povo.

    Antltese,

    e eis a

    grande

    contribui

    c;ao

    de Le Corbusier: nada de ruas, nada de Povo. Nas

    ruas da

    cidade

    pos-haussmanniana,

    as contradic;oes sociais e

    psiquicas

    fundamentais

    da

    vida

    modern

    a

    continuam atuantes,

    em

    permanente

    ameac;a de erup

    c;ao Contudo,

    se essas

    ruas puderem

    simples

    mente

    ser riscadas do

    mapa

    - Le

    Corbusier

    0

    disse,

    bastante

    claro, em 1929: "Precisamos

    matar a rua!"

    30 -

    talvez essas contradic;oes

    nunca venham

    a nos mo

    lestar. Assim, a arquitetura e 0

    planejamento modernistas criaram uma

    versao

    modernizada da

    pastoral: urn

    mundo espacialmente

    e social

    mente segmentado

    - pessoas

    aqui,

    trafego ali;

    trabalho aqui,

    mora

    dias acola; ricos

    aqui, pobres la adiante;

    no meio,

    barreiras

    de

    grama

    e

    concreto,

    para que

    os halos

    possam

    comec;ar a crescer outra vez sobre

    as cabec;as

    das

    pessoas.

    *

    Essa especie de modernismo deixou

    marcas profundas

    nas nossas

    vidas. 0 desenvol vimento das cidades nos ultimo s quarenta anos,

    tanto

    nos paises capitalistas como nos socialistas,

    combateu

    de forma siste

    matica, e

    em muitos

    casos conseguiu eliminar, 0 "caos" da vida

    urbana

    do seculo

    XIX.

    Nos novos

    ambientes urbanos

    - de Lefrak City a Cen

    tury City, do

    Peachtree

    Plaza, de

    Atlanta, ao

    Renaissance Center, de

    Detro it - a ve lha

    rua moderna, com sua volatil mistura de pessoas e

    trafego,

    negociose

    residencias, ricos e pobres, foi

    eliminada,

    cedendo

    lugar a

    compartimentos

    separados, com

    entradas

    e saidas estritamente

    monitorizadas e controladas, atividade de

    carga

    e descarga

    por

    tras

    da

    cena, de

    modo

    que

    estacionamentos

    e

    garagens subterraneas

    repre

    sentam a {mica mediac;ao possive!.

    Todos esses espac;os e todas as pessoas

    que

    os

    ocupam

    sao bern

    mais organizados e protegidos do

    que qualquer

    espac;o ou pessoa

    na

    cidade de Baudelaire. Uma nova

    onda

    de modernizac;ao,

    apoiada

    em

    uma ideologia

    de modernismo em

    desenvolvimento, neutralizou as for

    (0)

    Le Corbusier nunca chegou a fazer muitos

    v n ~ o s

    em seus infatigaveis

    e s f o ~ o s

    para

    destruir Paris. Mas muitas de suas

    visOes

    mais grotescas

    se

    concretizaram

    na

    era Pompidou. quando

    vias expressas elevadas dividiram a Rive Droite.

    os

    grandes mercados de Les HalJes foram demolidos,

    dezen'as

    de

    i'uas prosperas foram eliminadas e

    bamos

    veneraveis,

    na

    sua totaJidade. se rransfonnaram

    em Ies promoteurs e desaparecera m sem deixar vestigios. Veja·se Nonna Evenson, Paris:

    Um

    Se·

    cufo

    de

    Mudan,a,

    1878-1978 (Yale, 1979); Jane Kramer, "Urn 'lep6rter na Europa: Paris". In:

    The

    New Yorker. 19

    / 6/1978; Rich; rd Cobb,

    0

    Assassinato de Paris". In:

    New York Review

    of

    Books,

    7/

    211980.

    e varios dos ultimos IiIrnes

    de

    Godard, especialmente Duas ou Tres Coisas que eu Sei

    Oela

    (1973).

    162

    I .

    c;as anarquicas

    e explosivas

    que

    a modernizac;ao

    urbana, outrora,

    havia

    .

     

    reunido. Nova

    Iorque e

    hoje uma

    d_as poucas cidades american

    as

    em

    que ainda

    poderiam ocorrer

    as

    cenas primordiais de

    Baudelaire.E essas

    velhas cidades,

    ou

    segmentos

    de

    cidades, guardam pressoes incomen

    suravelmente mais ameac;adoras do que aquelas divisadas por Baude

    laire. Sao cidades economica e politicamente condenadas como obso

    letas, assediadas

    por

    uma deterioraC;ao cr onica,

    minadas

    pelo desinves

    timento, vazias de

    oportunidade

    de crescimentci,

    constantemente

    per

    dendo terreno para areas consideradas

    mais "modernas". A

    tragica

    ironia do urbanismo modernista e que seu triunfo ajudou a destruir a

    verdadeira vida urbana

    que

    ele urn dia almejou Iibertar.

    *

    Em curiosa correspondencia com esse

    achatamento da

    paisagem

    urbana,

    0 seculo XX

    produziu

    tam bern urn desolador

    achatamento

    do

    pensamento

    socia!. 0

    pensamento

    serio sobre

    a vida

    modern a polari

    zou-se

    em duas

    antiteses estereis,

    que podem ser chamadas,

    como su

    geri antes, "modernolatria" e "desespero cultural". Para os moderno

    latras, de Marinetti, Maiakovski e Le Corbusier a Buckminster Fuller,

    o ultimo Marshall

    McLuhan

    e

    Herman Kahn, todas

    as dissonancias

    sociais e pessoais

    da

    vida

    moderna podem ser

    resolvidas

    por

    meios tec

    nol6gicos e administrativos; os meios estao todos

    amao,

    e

    tudo 0 que

    e

    necessario

    sao

    lideres dispostos a usa-los.

    Para

    os visionarios do deses

    pero

    cultural, de

    T. E.

    Hulme, Ezra Pound, Eliot

    e

    Ortega,

    a Ellul,

    Foucault,

    Arendt

    e Marcuse,

    toda

    a vida

    moderna

    parece oca, esteril,

    rasa,

    "unidimensional",

    vazia de possibilidades :

    humanas:

    tudo

    0

    que

    se assemelhe a

    liberdade ou

    beleza e

    na verdade l m

    engodo,

    destinado

    (0)

    Isso pede

    uma

    e x p l i c a ~ o Le Corbusier sOnhou com

    uma

    uItramodernidade capaL

    de

    cicatrizar as feridas

    da

    cidade moderna. Mais tfpico do niovimento

    modernist.

    em arquitetura

    foi 0

    intenso e desquaJificado odio pela cidade e a incansavel

    e s p e r a n ~ a

    de que

    0

    design e

    0

    planejamento

    modemos poderiam risca-Ia do mapa. Urn dos primeiros cliches modemlstas foi a

    c o m p a r a ~ ~ o

    entre a

    metropole e a carruagem ou (depois

    da

    Primeira Grande Guerra)

    0

    cabrloie . Uma tipica

    o r i e n t a c ; : ~ o

    modernist a em r e l a ~ l . o

    a

    cidade pode

    seT

    encontrada em Espa90,

    TemPI:

    e Arquitetura, a obra monu

    mental do disclpulo rnais bern-dot ado de Le Corbusier, 0 livro que, mais do que qualquer outro. foi

    usado

    par duas

    g e r a ~ O e s como 0 canone do modemismo. A edic;:lio original do livro, composto em

    1938-39,

    tennina com a

    e x a i t a ~ l i o

    do novo complexo rodoviltrio urbano, de Robert Moses. que Gie

    dion

    ve

    como

    0

    modelo ideal para

    0

    planejamento e a

    c o n s t r u ~ a o

    do futuro. A rodovia demonstra que

    "nlio

    ha

    mais lugar para a

    rua

    urba na, com trMego pes ado corrend.o entre fileiras de casas; nlio

    se

    pade perrnitir que isso persist

    a"

    (p.

    832).

    Essa ideia

    vern

    diretamente

    de L 'Urbanisme; 0

    que difere. e

    Incomoda,

    eo

    tom. 0 entusia smo IIrico e visionario

    de

    Le Corbusier loi substituido'pela truculent a e

    a m e a ~ a d o r a

    impaciencia do comissario. "Nlio se pode perrnitir que isso

    persist.":

    a polleia

    n ~ o

    faria

    melbor. Ainda rnais ominoso e0 que vern em seguida: 0 comphixo rodoi-iario urbano "aponta para

    urn futuro em que, depois que a necessaria cirurgia for realizada, a cidade artificial sera reduLida a

    ICU

    tamanho

    natural"

    . Essa passagem, que tern

    0

    arrepiante efeito de

    uma

    nota marginal de Mr.

    Kurtz, mostra como a campanha contra a rua, por duas

    g e r a ~ O e s

    de planejadores.

    foi

    apenas uma

    lase

    de uma

    guerra ainda mais ampla, contra a pr6pria cidade moderna :

    o

    antagonismo entre a arquit etura modem a

    e

    a cidade e

    e ~ p l o r a d o

    com sensibilidade por

    Robert Fishman. em

    Utopias Urban

    as

    no Seculo

    (Basic Books,

    1977).

    163

    , .1'

  • 8/18/2019 Berman Baudelaire O Modernismo Nas Ruas

    20/20

    a produzir escr:..viza Yao e horror a   ada mais profundos.

    E

    preciso no· "

    tar, antes de

    mc.is nada,

    que ambas as form as de pensamento passam

    ao largo das divisoes politicas em esquerda e direita; segundo, que

    muita gente aderiu alternadamente a urn e o u t r ~ desses p610s, em dife-

    rentes momentos de suas vidas, e que aiguns tentaram ate mesmo

    ade-

    rir a ambos, simultaneamente. Podemos encontrar ambas as polarida

    des em Baudelaire, que, de fato (conforme sugeri antes), pode reivin

    dicar ter side b inventor de ambas. Mas podemos igualmente ver em

    Baudelaire algq que falta

    a

    maioria dos seus sucessores: a vontade de

    com bater ate a exaust ao as complexidades e contradi'YOes da vida mo-

    dema,

    a fim de

    encontrar

    e criar a si mesmo em meio

    a

    ang6stia e

    a

    beleza do caos.

    E ironico que, tanto na teoria como na pratica, a mistifica'Yao da

    vida modema, bern como a destrui'Yao de algumas das suas mais

    atraentes possibilidades, tenha sido levada a termo em nome do pr6

    prio modernismo em progresso. No entanto, a despeito de tudo, 0 velho

    caos manteve - ou talvez renovou - sua influencia sobre muitos de

    nos.

    0

    urbanismo das duas ultimas decadas conceptualizou e consoli

    dou essa influencia. Jane Jacobs escreveu urn livro profetico sobre esse

    novo urbanis mo: Morte e Vida das Grandes Cidades Norte-americanas,

    publicado em 1961. 0 primeiro, b rilhante, a rgumento de Jacobs e queos

    espa Yos urbanos criados pelo modemismo eram fisicamente limpos e

    ordenados, mas social e espiritualmente mortos; 0 segundo, que foram

    tao-s6 os vestigios

    da

    congestao, do barulho e da dissonancia geral

    do

    seculo XIX que mantiveram viva a vida urbana contemporanea; 0

    ter-

    ceiro, que 0 velho

    "caos"

    urbano na verdade constituia uma ordem

    human a maravilhosam ente rica e complexa, de que os modemistas nao

    se deram cont a apenas por que seus paradigm as de ordem eram meca

    nicos, redutivos e frivolos; por fim, que tudo 0 que passa

    por

    moder

    nismo, em 1960, pode logo

    se

    tomar evanescente e obsoleto.* Nas duas

    (0)

    "£ perturbador pensar que os jovens de hoje, recebendo agora

    0

    treinamento bAsico para

    suas carreiras dev rn aceitar

    t

    na preSunfQO de que estejam dot ndo um pens mento moderno

    c o n c e p ~ O e s sobre cidades e trMego

    que

    sao nAo apenas inviaveis, mas n30 acrescentam

    nada de

    significativo aquilo que se sabia quando seus pais eram c r i a n ~ a s . (Morte e Vida das Grandes Cida·

    des Americanas. Random House

    &

    Vintage, 1961. p. 371. -

    0

    grifo e de Jacobs .) A perspectiva de

    Jacobs e desenvolvida de forma interessante por Richard Sennett, em Os Usos da Desordem: Identi·

    dade Pessoal e Vida

    da

    Cidade (Knopf , 1970), e por Robert Caro, em 0 Corretor Poderoso: Robert

    Moses e a Queda

    de

    Nova /orque (Knopf, 1974). Existe ainda urna rica bibliografia europeia nessa

    d i r ~ a o

    Veja-se, por exemplo,

    A Cidade: Nova Cidade ou Cidade Dormit6ri o,

    de Felizitas Lenz

    Romeiss, de 1970, traduzido do alemAo por Edith Kuestner e Jim Underwood (Praeger, 1973) .

    No ambito profissional da arquitetura. a critica a especie de modernismo de Le Corbusier,

    e das esterilidades do Estilo Internacional, como urn todo, c o m ~ com Robert Venturi, em Comple·

    xidade e ContradifDo

    em

    Arquitetura.

    com i n t r o d u ~ A o de Vincent

    ScuUy

    (Museu de Arte Moderna.

    1966). Na ultima decada isso se tomou nao s6 generalizadamente aceito, como gerou por sua conta

    uma nova ortodoxia. Tudo isso foi coelificado claramente por Charles Jencks, em A Linguagem

    do

    Arquirelura P s -

    modem

    (Rizz.oli, 1977).

    164

    ultimas decadas, essa perspectiva granjeou larga aceita'Yao e entu

    --'

    siasmo, levando milhares de americanos a

    lutar

    de maneira apaixonada

    !

    para salvar seus bairro s e cidades da investida furiosa da modemiza'Yao

    motorizada. Qualquer movimento para interromper a constru'Yao de

    uma rodovia e uma tentativa de fazer que 0 velho caos volte

    a

    vida. A

    despeito de esporadicos exitos locais, ninguem tern demonstrado pos

    suir poder suficiente

    para

    enfrentar 0 vasto poder acumulado do halo e

    d rodovia. Entretanto, tern surgido pessoas em numero suficiente, do

    tadas de bastante paixao e dedica'Yao, para criar uma forte contracor

    rente, capaz de

    dar

    avida

    da

    cidade

    uma

    nova tensao, excita da e como

    vida, enquanto esta durar. E existem indicios de que ela pode

    durar

    bern mais do que qualquer urn - mesmo os que a amam intensamente

    - chegou a imaginar. Em meio receio e s ansiedades da atual crise

    energetica, a pastoral motorizada parece estar se desfazendo.

    A

    me

    dida que isso acontece, 0 caos das nossas modemas cidades do seculo

    XIX parece a

    cada

    dia mais ordenado e mais atuaiizado. Assim, 0 mo

    demismo de Baudelaire, tal como 0 descrevi aqui, talvez se revele

    ainda

    i

    mais relevante em nosso tempo do que 0

    foi

    entao; os homens e mulhe

    res urbanos de hoje talvez sejam aqueles com quem, em sua pr6pria

    imagem, ele esteve desde sempre

    epouse,

    I

    Tudo isso sugere que 0 modemismo contem suas pr6prias contra

    di Yoes e tensoes dialeticas interiores; que determi nadas form as de pen

    samento e visao modemistas podem solidificar-se em ortodoxias dog

    maticas e tomar-se arcaicas; que outras formas de modernismo podem

    ficar submersas por gera'Yoes, sem chegar a ser suplantadas; e que as

    1

    mais fundas feridas sociais e psiquicas

    da

    modernidade podem ser

    indefinidamente tampadas, sem chegar a cicatrizar de fato. A asp ra

    ~ a o contemporanea

    por uma

    cidade que seja abertamente turbulenta

    i

    mas intensamente viva corresponde

    a

    a ~ p i r a ~ a o de voltar a expor

    fe-

    I

    ridas antigas mas especificamente modemas. Ea aspira'Yao de conviver

    abertamente com 0 carater dividido e irrecondliavel de nossas vidas e

    extrair energia do am ago mesmo de nossos

    s f o r ~ o s ,

    onde quer que isso

    .

    nos conduza, no final. Se pudemos aprender, com urn dos modemis

    mos, a 'construir halos em tome de nossos e s p a ~ b s e em tome de n6s

    mesmos, podemos aprender com 0 outro modemismo - urn dos mais

    velhos porem, como acabamos de ver, tambem urn dos mais novos - a

    perder nossos halos e encontrar -nos, outra vez.

    }

    I

    I;

    ' :1

    ' I

    f

    i

    i

    165

    .,