dv ibase 44_cultura(66-77)fsm

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  • 1. c u lt c u lt u r acndido GrzybowskiSocilogo, diretor do Ibase Frum Social Mundial, a construo de um outro mundo possvel66 Democracia ViVa N 44

2. uraSAMuEl toStA Em fins de janeiro de 2001, na cidade de Porto Alegre, realizou-se a primeira edio doFrum Social Mundial (FSM). Surgiu com marca de ousadia e inovao, contestando ahegemonia do pensamento neoliberal simbolizado pelo Frum Econmico Mundial, emDavos, na mesma data, reunia os autoproclamados senhores e donos do mundo. De umlado, a surpresa, a festa barulhenta de encontros e desencontros, em uma verdadeirapraa da democracia, de identidades e lnguas diversas, e a constatao de que, afinal,no somos to poucos os que acreditam que outro mundo possvel, a expressoagregadora do FSM. Do outro lado, o hotel de luxo da estao de esqui, misto de cele-brao retrica das benesses do mercado de um capitalismo globalizado, sem fronteiras,e de pura negociao em vista de mais e mais lucros, sem amarras.Assim comeou o FSM: um espao aberto que, sem negar a marca de origem con-testadora do neoliberalismo, quer ser uma espcie de recarregador de baterias da cidadaniaativa, agora, necessariamente de dimenses planetrias, pois dela que depende a soluoJaNeiro 2010 67 3. c u lt u r a contradies deste capitalismo levado ao seucontradies e dos limites sob as quais o capi- extremo. Surgido como um evento, o FSM de-talismo globalizado submete a humanidade e sencadeou uma onda que, ao longo dos ltimosa sustentabilidade da prpria vida no planeta. anos, foi ganhando fora, com realizaes deHoje, outro mundo possvel torna-se uma fruns mundiais, continentais e regionais, nacio- urgncia e uma necessidade inadivel. nais, locais, temticos. Perdeu-se a conta, e elaQuero pensar, por isso, nos desafios daqui ainda no acabou. Agora, em 2010, j iniciamospara diante, para alm do FSM. No estou pro- o dcimo ano desse processo que vai penetrandopondo uma mudana da iniciativa em si, pois, no mundo e alimentando a esperana. penso que deve continuar a tarefa inspiradorao Frum j conferiu fundamental contri-que sua marca. os encontros do FSM ainda buio para a emergncia de uma cultura cidadalimentam o sonho e a esperana para muitos em escala mundial. Hoje, um processo quemundo afora. E o mundo ainda enorme para as segue seu prprio curso, apropriado por orga- dimenses reais que o processo de realizaes do nizaes de cidadania ativa, movimentos sociais FSM conseguiu at agora. Muita semente precisa e redes em diferentes partes do mundo. Inspiraser espalhada por diferentes territrios de nosso um modo de tentar construir uma intelignciaplaneta e fazer ressurgir a vontade de mudana. poltica coletiva sobre os problemas, os desafios Que o FSM siga o seu curso e sua capacidade e as possibilidades das lutas que empreendemosmobilizadora, especialmente cativando as jovens cada qual a seu modo no lugar onde nos en-geraes, como vimos em janeiro de 2009, em contramos no planeta, mas que, pelas circunstn-Belm. Sou dos que pensam que ningum segura cias, nos tornam interdependentes, obrigados aessa onda de cidadania, pois o FSM j em nada compartir um mesmo mundo para dele fazer umdepende do nosso bando de velhos cmplices outro mundo. Para a nossa grande diversidade quase todos homens, alm do mais. o FSM de identidades e culturas, a nossa pluralidadepoder mudar muito, como, alis, mudou a cada de vises e perspectivas, todas legtimas, masano, mas erra quem decreta seu fim. Hoje um sempre negadas, o FSM nos oferece um espao patrimnio da humanidade. ela que necessita de aberto uma espcie de usina para nova cultura um espao aberto como o FSM para se repensar. poltica para que nos reconheamos iguais como Como a minha reflexo est ainda em humanidade e parte do mesmo e nico sistema elaborao, fao apenas uma espcie de guia planetrio para compartir entre todas e todos.para minha atuao como diretor do Ibase, para SAMuEl toStANo pretendo relatar aqui a histria dodentro e para fora, aqum e alm do FSM, e FSM. Deixo a histria para a histria. Mas mudouuma contribuio aberta aos parceiros e parcei- muito o contexto cultural, poltico e econmi-ras em redes, articulaes e lutas democrticas co do mundo de 2001 a 2010. As mltiplas eque, juntos, empreendemos. articuladas crises recentes so expresses das 368 Democracia ViVa N 44 4. Frum Social muNDial, a coNStruo De um outro muNDo poSSVel O FSM como inspirao e como limite A contribuio mais evidente do FSM foiIEr FErrEIrA reacender uma fora galvanizadora ao se contrapor a Davos e simplesmente afirmar que outro mundo possvel. Isso foi possi- bilitado ao deslocar o foco quase exclusivo no Estado e na economia para a capacidade de ao transformadora dos mltiplos e diversos sujeitos coletivos, organizados em entidades, movimentos, redes, coalizes e alianas, que resistem, formulam propostas concretas e vo luta por sua concretizao. Em certo sentido, no o FSM que ins- pira, simplesmente, um convite a uma reflexo compartilhada de experincias e saberes que se desenvolvem na prtica, nas mais diversas situaes, para, com abertura ao mundo, potencializar a prpria ao, segundo as pos- sibilidades de cada sujeito e em cada contexto. o FSM cria bases de uma nova cultura poltica de transformao exatamente por estabelecer como um imperativo o dilogo planetrio horizontal, sem protagonismos, racismos ou patriarcalismos, dilogo intra e inter sujeitos, uns e umas reconhecendo os outros e as outras igualmente como sujeitos. A nova cultura poltica no uma inven- o do FSM, mas ele um grande propulsor e indutor. Por seu carter de espao aberto diversidade e pluralidade como definido na Carta de Princpios , o FSM tem conseguido se tornar uma referncia de encontros e trocas, sem hierarquias ou prioridades. No seu interior, forjam-se legtimos consensos e dissensos (na verdade, outros consensos), extraindo, assim, da diversidade social e cultural, do encontros e desencontros, e da pluralidade poltica a energia que o mantm como referncia de uma nova cultura poltica de carter planetrio. Foroso reconhecer que, se bem uma nova cultura poltica que est presente no FSM,protagonizam os sujeitos, o que no FSM, muitas apenas algo emergente, em construo. Nsvezes, manifesta-se na ocupao do territrio e todos e todas trazemos ao FSM nossas estru-na disposio de atividades. turas mentais, nossos valores e nossas prticas, Apesar da massiva presena de organi- com todas as suas contradies. Comeandozaes e movimentos feministas, o machismo pelo mais simples: confundimos diversidade encrustado nas relaes no confere s mulhe- com cada qual fazer o que quer, mesmo que seja res a devida relevncia nos dilogos e trocas. uma atividade para os seus pares, dificultando lngua e diversidade cultural so patrimnios aglutinaes, fuses e buscas coletivas, razo e riquezas a preservar, mas no sabemos lidar de ser do espao FSM. No nos iludamos com o com o problema da traduo, apesar das tecno- tamanho da tarefa pela frente. Nosso modo de logias de informao e comunicao ao nosso pensar e agir de esquerda no seio do capitalismo alcance. Isso, talvez, porque est na traduo ainda vem carregado por determinismos concei- no sentido que Boaventura Souza Santos tuais e polticos que priorizam, hierarquizam elhe d o bsico para aceitar e reconhecer osJaNeiro 2010 69 5. c u lt u r aoutros e as outras como detentores de saberesMas a vem os limites. No d para ig-to ou mais importantes que os nossos, emnorar que o modo de acontecer do FSM comodilogo com os quais, como dizia Paulo Freire, espao aberto, centrado em eventos como suapoderemos, juntos, criar um novo saber, sobregrande realizao, o que : um processo dens mesmos, a sociedade, o mundo. Enfim, eventos que vem despertando conscincias esem ser exaustivo, assinalo esses problemasvontades para um novo fazer. Contudo, aindas para acentuar o carter ainda incipiente da no o fazer de um outro mundo. apenasnova cultura poltica. um passo, um comeo fundamental, um abrir um aspecto, que considero o grandede portas. o FSM uma condio necessrialegado do FSM, at aqui, o resgate e a valo- mas insuficiente do novo, no meu modo de ver.rizao da poltica como a arena por excelnciaPara surgirem foras transformadoras do que ada construo de outro mundo e da ao cidadest, ser preciso fazer um caminho para almcomo fora transformadora. Em um mundo ca- do FSM, no mais como Frum, e sim comopitalista, cada vez mais dominado por grandesinveno de sujeitos que acordam entre si aescorporaes de negcios, cada vez mais privati-concretas de incidncia que julgarem adequadaszado, mais mercantilizado, mais cnico e violento, nas diferentes situaes e conjunturas, sobrede um consumismo desenfreado, destruidor dorelaes, estruturas e processos de poder empatrimnio comum da vida, criador de excluses crise, mas ainda muito vivos e dominadores. ose acentuada desigualdade social, o FSM res-desafios se vislumbram e ecoam no FSM. Seusignifica o pblico e a poltica e traz ao centroenfrentamento, porm, exige uma nova criati-os princpios e os valores ticos para pensar avidade polticocultural. A reside o dilema:natureza, a vida, a economia e o poder.como espao, penso que o FSM Considero trs os pontos fortes do FSMindispensvel ainda, mas por causacomo inspirao: reacender a esperana e re- do prprio Frum, sinto-mecolocar a histria no seu lugar, como produo empurrado a iniciativashumana e no determinao metafsica; pr em para alm dele, iniciativasquesto os determinismos e protagonismos pr-de incidncia do plano localprios da cultura de esquerda; valorizar a energiaao mundial, construindo asda diversidade de sujeitos coletivos.articulaes necessrias.SAMuEl toStA 70 Democracia ViVa N 44 6. 8Frum Social muNDial, a coNStruo De um outro muNDo poSSVel Elementos para uma agenda alm FSM o ponto de partida repolitizar a vida, a relao No sendo o FSM o objetivo da ao com a biosfera, o poder, a cultura e a economiapoltica transformadora, mas apenas um meio e agir com uma perspectiva planetria e cos- de fortalec-la, a questo da agenda poltica mopolita