eric voegelin - hegel

Download Eric Voegelin - Hegel

Post on 17-Dec-2015

22 views

Category:

Documents

5 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Eric Voegelin - Hegel

TRANSCRIPT

HEGEL

HEGEL ERIC VOEGELIN Order and History, Louisiana State U. Press, Vol. 5, pp.48-54

1.A REVOLUO ALEM DA CONSCINCIA

Os pensadores [idealistas] alemes tinham uma inteno formativa. Em ordem a recuperar a base experiencial da conscincia, pretendiam remover as camadas de incrustraes progressivas, acumuladas ao longo de sculos de pensamento com a atitude intencionalista sujeito-objecto. No sc. XVIII, esta atitude culminara numa nova vaga de sistematizaes proposicionais, definitrias da metafsica, da ontologia e da teologia que tornaram convincentemente desconvincente o mtodo intencionalista de lidar com as estruturas da conscincia. O alvo explicitamente atacado por Hegel na sua Wissenschaft der Logik era a deformao de conscincia atravs da "metafsica" e da "ontologia". Mas a tentativa de recuperao foi muito prejudicada pela fora da tradio, resultante do hbito de pensar em termos de realidade-coisificada, tradio ademais fortalecida na poca pelo xito das cincias naturais, pelo prestgio da fsica newtoniana e, com especial importncia para os pensadores alemes, pela legitimao da fsica como o modelo de "experincia" na Crtica da razo Pura de Kant. A posio ambivalente e a funo da Crtica tm de ser salientadas neste contexto. Ao esclarecer o significado da existncia espacio-temporal, certo que a Crtica no deixara dvidas que a razo importava em algo mais que em fsica: a rea da realidade-mesma fra, seno restabelecida, pelo menos realada de novo como a rea da "razo" que no poderia ser adequadamente expressa mediante a aplicao do "natrliche Erkenntnis," [conhecimento natural] do pensar com categorias sujeito-objecto. Mas precisamente a caracterizao do modo sujeito-objecto como "natrliche Erkenntnis" inquestionvel e dominante e o sentimento agudizado que a recuperao de uma base experiencial "no-natural" era uma revoluo de propores copernicianas, mostra a fora da tradio a ultrapassar. Nesta situao filosfica deteriorada,no surpreende que Kant tivesse dificuldades em encontrar uma linguagem altura do seu esforo revolucionrio. De facto, para denotar o "mais que a fsica" que se encontra na "razo", no pde fazer melhor do que cunhar o smbolo Ding-an-sich. Como, tanto quanto alcano, ainda hoje no se compreende suficientemente a confuso interna deste smbolo, no deslocado salientar que, "em-si", a coisa no uma "coisa" mas a estrutura da realidade-mesma na conscincia. Contudo, os problemas tcnicos gerados pelo smbolo no constituem a nossa preocupao presente; o que se deve pesquisar o carcter do smbolo como sintoma das presses que permitiram que a tentativa de recuperar a experincia remetesse a conscincia existencial posio de uma "coisa".

O predomnio da realidade-coisificada na imaginao simbolizante da poca determinou a forma dos problemas que emergiram no processo de recuperao da estrutura da conscincia. Se os "factos da conscincia", o ponto de partida da Wissenschaftslehre de Fichte em 1794, eram um objecto a investigar, teria que haver um sujeito que levasse a cabo a investigao, e se existisse tal sujeito teria que ter uma conscincia a reflectir na conscincia. Qual era ento a relao entre a conscincia do sujeito e os "factos da conscincia" que explorava ? O problema da dimenso reflexiva da conscincia fra reduzido ao da relao entre dois actos da conscincia. Contudo, a simples construo de um acto reflexivo por parte do sujeito seria uma soluo inadequada para este problema, porque, com este suposto, o acto de reflexo tornar-se-ia um facto mais da conscincia a ser reflectido por mais um acto de mais um sujeito. A construo puramente intencionalista dissolveria a integralidade da conscincia existencial numa cadeia ilimitada de actos subjectivos. Se a integralidade tivesse de ser preservada, as condicionantes intencionalistas sob as quais o problema fra formulado, exigiriam a identificao do sujeito reflectante, o Eu (Ich) do homem, com o Eu (Ich) da conscincia existencial. Este Eu (Ich) idntico a si mesmo j no era ento imaginado como mais um facto da conscincia mas antes como a forma transcendental da conscincia, imediatamente evidente num acto, no de "experincia" mas de "intuio intelectual". Porm, dado que nesta identificao dos dois Eus, a tnica da construo recara no sujeito reflectante e dado que o acto reflexivo fra concebido por Reinhold, o antecessor de Fichte em Jena, na obra Princpio da Conscincia (Satz der Bewutseins) sob o modelo sujeito-objecto, o intencionalismo no-participativo do acto reflectante poderia usurpar a autoridade da conscincia participativa.

Para designar este novo tipo de conscincia deformada, os pensadores alemes desenvolveram o smbolo "especulao". O processo histrico da conscincia com a sua autoridade interiormente cognitiva foi substitudo por uma especulao autorizada do exterior que permitia ao pensador ocupar um lugar imaginativo num acto reflectivo-especulativo, situado alm do processo. A tenso da existncia na metaxy fra eclipsada. O que Plato referira como o alm, caracterstico da realidade divina, incarnara no "alm" da imaginao do especulador. Em consequncia, a especulao poderia autoproclamar-se como a revelao derradeira da conscincia existencial e, nesta capacidade, como a fora que determinaria toda a histria futura. A histria da ordem fra transformada numa ordem da histria cuja verdade era inteligida pelo esforo do especulador e, dado que a sua verdade se tornara inteligvel, poderia ser levada at concluso na realidade, de acordo com o sistema de cincia do especulador. A realidade experimentada e simbolizada por cada existncia consciente particular deveria ser substituda pela segunda realidade da especulao: o comeo histrico do sistema especulativo seria o verdadeiro comeo que conduziria ao verdadeiro fim da histria. As questes acerca da estrutura da prpria conscincia do especulador, as questes acerca da verdade nela incorporadas em termos de recordao e esquecimento, no eram permitidas. Karl Marx ergueu ao nvel de postulado explcito esta ltima exigncia, necessria para proteger os esforos especulativos contra questes demasiado bvias.A criao da imaginao especulativa como a nova fonte de verdade na histria foi, efectivamente, um acto revolucionrio. Como sabemos atravs de numerosos afirmaes de Reinhold, Fichte, Schelling, Hegel, Friedrich Schlegel e Schiller, os protagonistas do acontecimento interpretaram-no como a variante alem da revoluo generalizada que estava a ocorrer ao nvel pragmtico na Amrica, Frana, e Holanda (Repblica Batvia de 1795). E derivaram a intensidade do seu fervor do sentimento de participarem numa revoluo histrica mundial da conscincia. Ademais, acrescentando uma tonalidade nacionalista a este fervor, os pensadores alemes estavam convencidos que a sua prpria "revoluo do esprito" era superior s revolues pragmticas paralelas, uma vez que penetrava mais profundamente no mago da conscincia e assim, a longo prazo, teria uma efeito pragmtico mais duradouro. Numa carta de 28 de Outubro 1808, Hegel escreveu ao seu amigo Niethammer que, cada dia que passava o convencia mais que o trabalho terico consegue realizar mais que o trabalho prtico - "uma vez que o reino da compreenso (Vorstellung) esteja revolucionado, a realidade no se pode sustentar". E Heinrich Heine, um dos mais astutos observadores do acontecimento, antecipou na Histria da Religio e da Filosofia na Alemanha que a "revoluo do esprito" seria seguida por "uma idntica revoluo no reino dos fenmenos". O pensamento, continua, "precede o acto tal como o relmpago precede o trovo"; o trovo tardar a chegar porque os alemes se movem lenta e penosamente; "mas um dia, quando ouvirdes o seu estrondo como jamais ribombou na histria mundial, sabereis isto: chegou o trovo alemo".

Embora o acontecimento seja historiograficamente bem conhecido at ao mais nfimo detalhe, a anlise crtica do mesmo ainda deixa muito a desejar. , alis, to insuficiente que nem sequer dispomos de um termo consensual para caracterizar a estrutura do acontecimento, e com ela o seu alcance, e continuamos a flutuar nos smbolos lingusticos criados pelo prprio acontecimento. Tradicionalmente referimo-lo como a filosofia do eu (Ichphilosophie) ou filosofia da identidade (Identittsphilosophie) ou como a lgica dialctica do ser, desenvolvida por Hegel como o "Mtodo", escrito com maisculas; e h justificao para usar estes termos enquanto tivermos conscincia que pertencem auto-interpretao dos grandes pensadores alemes. Contudo, o seu uso j parecer menos justificado se nos lembrarmos que est em jogo precisamente a validade analtica dos termos surgidos nas polmicas internas do acontecimento e que se invalidam parcialmente uns aos outros. No ficaremos em melhor situao se utilizarmos a auto-caracterizao abrangente de "idealismo transcendental" porque o uso convencional do termo 'idealismo' excluiria do acontecimento o "materialismo" de Karl Marx. Se, contudo, o sistema marxiano tiver de ser incluido - talvez como o primeiro estrondo do trovo metafrico de Heine - a linguagem dos ismos torna-se irrelevante, e com ela o grande conflito de "idealismo" e "materialismo". A relevncia analtica deslocar-se-ia ento para os jogos com o smbolo "ser". Teramos de compreender as tcticas marxianas que identificam o ser que determina a histria com as condies de produo (Produktionsverhltnisse), o que colocaria assim de ps no cho o ser especulativo idealstico de Hegel, como um jogo intelectual possibilitado pela utilizao muito discutvel que Hegel faz do smbolo ser como o princpio do seu sistema. E se, para efeitos de anlise, admitirmos a estrutura do acontecimento como um certo tipo de jogo empreendido com o smbolo "ser", de que o caso marxiano uma instncia, ento podemos notar com interesse renovado que, no sculo XX, um pensador alemo da estatura de Martin Heidegger, pde, pelo menos temporariamente, deliciar-se na fantasia de forar o "ser" a uma nova parousia na realidade, mediante a erupo nacional de um movimento populista racista. Ora se temos

Recommended

View more >