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boletim do que por cá se faz

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  • No regresso escola, os gaiatos quase-felizes de Cristina Lourido + valter hugo me em entrevista por Fernando Nunes + Exposio de fotografia Plsticos de Pedro Escobar + Festival Walk & Talk contado per quem l andou e falou + A cura para o cancro no mar dos Aores por Slvia Lino + e muito mais novidades: lugares aorianos, nobelirquicos, interveno, 20 cantigas dos aores, diferenas...

    a curiosidade salvou o gato*

    O BOLETIM DO QUE POR CA DE FAZQUINZENAL 24 SET A 6 OUT 2011 DISTRIBUIO GRATUITA

    65

  • O Walk&Talk foi o primeiro festival de arte urbana dos Aores, invadiu as ruas de Ponta Delgada com intervenes de trs dezenas de artistas portugueses e estrangeiros. Este festival indito prope a reflexo sobre a dicotomia do espao pblico, desafiando os artistas e a populao local a contriburem para a transformao da capital insular num museu ao ar livre, global e onde todos participam e comunicam.O espao pblico o local privilegiado para a apresentao, discusso e interpretao de novas problemticas e paradigmas scio-culturais por estar acessvel a todos, independentemente do gnero, raa, etnia, idade ou status. Quando nos oferece razes para aguar o nosso sentido critico, acabamos por ser envolvidos num

    processo criativo que indica novas perspectivas. Numa sociedade que pouco se pronuncia e que no participa na dinmica social, preciso haver confronto.Da o WALK&TALK, um movimento para a fim das paredes brancas e do povo mudo. A ideia surgiu desse pressuposto. Queramos provar que possvel descentralizar a cultura dos grandes centros urbanos, mas tambm cativar novos

    pblicos e desmistificar a velha dicotomia arte/vandalismo. Principalmente nos Aores onde a arte tende e ter dois extremos: o popular e o elitista. Faltava um meio termo, algo que atingisse de diferentes formas um publico mais vasto. Quando no somos obrigados a determinada situao usufrumos muito mais dela, da a insistncia em criar um museu ao ar livre onde as pessoas so confrontadas com a arte de uma forma ocasional. Com o importante apoio da DRJ | DRT e de mais 40 entidades e indivduos, demos inicio contribuio e mobilizao por uma

    cidade com mensagem. 30 artistas de todo a parte ofereceram a sua arte s ruas e ajudaram a criar o museu.No final, a receptividade da populao local foi surpreendente. Gerou-se uma conversa muito saudvel volta da arte urbana, dos artistas preferidos, das intervenes pela cidade, da exposio colectiva e das interpretaes artsticas.

    Houve um dilogo no espao pblico e a sociedade sentiu que podia participar nessa

    conversa. sinal que no somos to amorfos quanto isso. Para o ano h mais WALK&TALK e novas intervenes. Mais info em www.facebook.com/walktalkmovementPromotor: ANDA&FALA Interpretao Cultural www.walktalkazores.govJesse James Moniz e Diana Sousa

    Walk

    ,ar

    tes

    plas

    tica

    s

    &Talk

    Estamos no incio de setembro, a viagem feita num barco que

    faz a travessia do canal sem grandes demoras, sem temperatura nem ziguezague para alvoroo e com velocidade de cruzeiro. O mar est calmo e o cu encoberto. De um lado est So Jorge, recortado pelas suas fajs, estendido no seu manto verde, recolhido na sua ondulao horizontal. Quem avista repentinamente o Cais do Pico depara-se com um conjunto de edifcios virados para o mar, casas de forte personalidade caiadas de branco, com varandas de madeira enfeitadas, onde sobressaem as molduras dos vos e os socos em pedra. So Roque do Pico caracteriza-se pelo seu combinado erudito, vetusto complexo edificado ao longo da sua marginal, pontuada pelo edifcio da Casa de Despacho e pela Casa das Barcas. A onomstica da toponmia anuncia tambm um passado bravio o beco dos baleeiros, a rua do poo, surgindo no horizonte uma muralha de pedra com conversadeiras (banquetas), para alm da rampa onde est situada uma esttua do rei Dom Dinis, inaugurada a dia 16 de Agosto de 1940, em dia de avio com lanamento de hortnsias pelo concelho. Fernando Nunes

    aorianoslugares

    Luna, a um tempo no-mundo e fora-do-mundoEstreante na Escola dos Flamengos, 6 anos.Flamengos uma das freguesias mais sofridas no sismo de 98, atingiu o tringulo Faial-Pico-S.Jorge. Nenhuma casa ficou inteira, nenhuma casa ficou de p. Foi apenas h 10 anos. Estive presente nas memrias de dor e susto, arrepia ouvir os testemunhos. As casas recomearam, novas. Assim tambm: a escola, a junta de freguesia, o salo, o campo de jogos; permanece fendida a Igreja e o Farol, deus manco e a marinha falida.A Luna desenha divinalmente bem, utiliza perspectiva, ponto de fuga, sombra; to real que inadvertidamente toco o papel para sentir a textura, o alto-relevo e acreditem (quase) tem. No recreio questiona-me sobre a constituio das plantas, a resistncia dos muros verdadeiro esprito cientfico; mas nas outras reas de estudo p-coxeia como quando joga Macaca.Associal, autnoma e independente excluda pelos/as parceiros/as e sub-compreendida pelos/as profs. Sugeri uma observao especializada para despistagem de um provvel talento-extra, anuram. Enquanto esperamos a Luna derrete-se no seu mundo mgico, alheia trivialidade quotidiana. Tem um incrvel sentido de justia: s chora se despeitada, no pela violncia fsica da agresso, nunca acusa os/as colegas explica neutralmente a ocorrncia. Que lio de dignidade! difcil olharmos o mundo de frente se tivermos os olhos constantemente abertos.

    Flamengos (Faial), Nov. 10

    Estado de Direito Precisa-seCaro cidado, pela sua legtima defesa pessoal, e consequentemente a legtima defesa do pas, fazemos-lhe um convite ocultao e manipulao de quaisquer dados relativos aos seus rendimentos que o faam pagar menos impostos e receber a maior quantia possvel ao final do ano. Caso algum agente da autoridade ou do ministrio pblico o abordar reaja com: (1) Uma gargalhada (2) Uma

    foto do actual Presidente da Regio da Autnoma da Madeira.

    Xnio, o justo-e-o-injusto Mido de cerca-de-8-anos, garoto com menos de 4000 dias, puto que no viveu ainda 100 mil horas; frequenta o 1 ano na Escola da Montanha. Famlia de problemas exponencialmente complicados. Pais separados: pai impedido pelo tribunal de se aproximar dele, da casa, da escola; me, pelo mesmo tribunal, em situao de perder a custdia do Xnio.Filho/a sobra, quase sempre, muito.De 2 a 6 feira o Xnio estaciona numa instituio para crianas rfs, aos fins-de-semana a carreira devolve-o a casa. Mas mesmo s casa: paredes, cadeiras, , as pessoas evaporadas; e quando esto o Xnio v coisas que-no-so-no-podem-ser-verdadeiras, os prprios ps a querer fugir dali para fora.Este rapaz passa do estado de semi-graa em desgraa para semi-graa em desgraa para ; todas as semanas, cansadamente h pelo menos 6 meses; vomita injria atrs de injria, os lbios desacostumados de sorrir h-que-tempos. No fatalidade, talvez lentidozinha dos servios, do sistema. Felicidade de gente estagna em saldo, em salga, at desenferrujarem as instituies de apoio e depois, , depois fica-se hipotecado, resistindo na margem da folha, espera da hora de voltar a Ser, desejando ter sido querido.Na escola v-lo correndo com vento e bola, fazendo rampas incrveis de skate, rebolando nos relvados e pelados, empinando outros/as meninos/as; tambm pirateia zanga, bate, graffita paredes e descansa.Porra de vida ser rfo/ de pais/mes-vivos/as.

    Ribeirinha (Pico), Fev. 11Cristina Lourido

    quaseEstrias de gaiatos

    felizes

    ,CRONICA

    Gato caseiro, matreiro, useiro, mia enrolado, pede biqueiro. Exige afecto, o cho, o tecto e deixa o dejecto fora da caixa. Mando-o pra rua que nua, que crua mas ele recua. Prefere o div, a manta de l, a lata aberta, comida que certa e nunca lhe falta. E assim ficou e o ano passou, outro e mais outro at que pensou: tudo igual, normal, banal. S sei dormir, pedir, existir. Olhou para porta, que torta, que morta e a Curiosidade gritou: Anda pra fora, Vai-te embora! O gato assustado negou o recado. Que gatos, que patos, que cactos conheces? Casas, estradas, ruas, pessoas? E outras tantas coisas boas! A porta fechou-se e o gato pensou no que se passou. Dormiu sobre o assunto. Acordou, comeu presunto. Saiu para a rua e no voltou. Pensa-se que a curiosidade o matou, mas a verdade que ela o salvou. Lia Goulart

    *

    O Fazendo - um conjunto de 8 pequenas folhas e, quem diria, com estatuto de Sr. jornal, publicado quinzenalmente e impresso apenas 400 vezes por edio para uma populao mundial de 6 bilies de leitores - tem, apesar da sua aparente pequenez, tendncia para a elaborao de planos megalmanos, irracionais e de incrvel ousadia. Ilustremos com um exemplo: o Fazendo pensa que os Aores so uma s ilha. Imaginem ento o espanto de qualquer um quando o Fazendo diz que os barcos servem apenas para andar roda. Perguntam-lhe: ouviste falar da viagem terrvel do cruzeiro do canal quando este ia do Faial para o Pico? O Fazendo fica confuso porque sempre que olha para o Pico no v mar e, quando olha para o cruzeiro do canal, est sempre encalhado. O paradoxo, explica-se, reside na raiz do conceito de distncia entre uma coisa e outra. As pessoas pensam que distncia se mede em metros, quilmetros ou milhas mas no bem assim. A distncia entre uma e qualquer outra coisa relativa: depende da vontade. Se a vontade pouca h mais mar e menos terra e se a vontade muita h mais terra e menos mar. por isso que o Fazendo diz, de quando a quando, que um dia, durante uma travessia do Faial ao Pico, os 400 metros de profundidade do canal se vo reduzir a 10 centmetros, o cruzeiro vai encalhar sem o mestre Almeida entender bem porqu e as pessoas vo calar as suas melhores botas de cano ou montar as suas vacas mais robustas e continuar a travessia at ao Pico. Ainda assim, mais tarde aparece um espertalho que exclama: a distncia pode reduzir-se mas cada ilha continuar pintada da mesma cor. verdade, a cada ilha a sua cr: o Faial azul, a Graciosa branca, o Pico cinzento o probl