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O Boletim do que por cá se Faz Gratuito, comunitário, não lucrativo e independente. Distribuído no Faial, Pico, Terceira e São Miguel.

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  • 1o b o l e t i m d o q u e p o r c s e f a z

    e m a r q u i p l a g o d e c a r r o s q u e m f a z p o n t e s r e i

    91Abril 14 mensAl distribuio grAtuitA

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    irA

    9 1

    g n i j o r g e e j o o b o r b ac a p a

  • 3Vou pedalando entre a Madalena e Santo Amaro, na ilha do Pico. No trago mapa, porque me convenci que o percurso era simples, por j o ter feito de carro vrias vezes. Mas claro que de bicicleta demoro mais, reparo mais, penso mais. Vo-me aparecendo placas com nomes de santos. SantAna, Santo Antnio, Santa Luzia, So Vicente, So Roque (provavelmente a ordem est errada continuo sem mapa). Para So Miguel, talvez por ser Arcanjo, tive que pedir boleia de uma carrinha, que no consegui pedalar debaixo de chuva at s suas celestiais alturas. E por fim Santo Amaro. A toponmia no exclusivamente hagiolgica, tambm h lugares com nomes de outras coisas: Cachorro, Cabrito, Arcos, Prainha.

    O que so nomes? Referncias, mnemnicas, abreviaturas. Um nome uma frmula fcil, simples e indispensvel comunicao humana, para falar de pessoas, coisas, lugares. Chegamos a achar aborrecido que na altura de dar nomes a estas terras no meio do mar, faltasse imaginao aos nossos povoadores. o que nos parece hoje em dia, quando vemos que escolheram invariavelmente nomes de santos para os lugares ou, v l, de caractersticas geogrficas predominantes, caso bvio da ilha a que chamaram Pico esta. E uma coisa que sempre me espantou nos antigos era a capacidade que tinham para, sem ler ou escrever, saber os dias pelos nomes. Dia de So tal e dia de Santa tal. Como que era possvel que soubessem de cor e por ordem mais de trezentos e cinquenta santos (sendo que os santos a mim me pareciam todos iguais uns aos outros)?

    Mudando de assunto para aqui voltarmos depois. Existe uma (existem vrias) aplicao para telemveis e tabletes em que o objectivo identificar o mximo de logtipos possveis. um jogo. Aparece-nos o cone sem as letras ou parte do logtipo total e ns escrevemos o nome da companhia, corporao, empresa, instituio da marca, enfim. Nos primeiros nveis as mais bvias e populares at que nos ltimos j so obscuras companhias e bancos chineses de que (ainda) no ouvimos falar. E sem grandes problemas, digo-vos, qualquer um de ns atinge as vrias centenas de logtipos nomeados sabendo ainda que produto ou servio representam. E neste jogo s estava representada uma companhia portuguesa, por isso a nossa cultura logotpica ainda mais vasta se contarmos com o panorama nacional, regional e local. Ora no ser isto to extraordinrio como saber de cor e por ordem trezentos e sessenta e cinco santos?

    O certo que nomes, como marcas, como smbolos (que os santos tambm os tm), como logtipos, cumprem todos a funo de resumir em pouco o que quer dizer muito mais. Estou a fazer uma comparao simplista entre marcas comerciais e figuras religiosas. J se compararam estrelas de cinema a deuses... E este jogo de comparaes divertido porque as semelhanas esto l: identificamo-nos hoje em dia com marcas como antes nos identificvamos com santos. E mesmo quem ache que no se identifica com nenhuma marca, vai ver que com alguma se identifica: de caf, de computadores, de electrodomsticos, de roupa, de detergentes, de... futebol... de partidos polticos! Marcas comerciais, os partidos polticos? Ora mas se at pases so cotados...

    verdade que no damos nomes de marcas a ilhas hoje em dia. Mas obrigadinha, tambm j no h ilhas por descobrir... Consulto o mapa da geomorfologia submarina dos Aores e saltam-me vista: Lucky Strike, Hard Rock Caf e Trident... O Metro de Lisboa, que j contava com um So Sebastio e depois com uma Santa Apolnia, tambm j tem a PT Bluestation. E h a Meo Arena, houve a Praa Sony... No, no se do nomes de marcas a ilhas e a vilas, mas j faltou mais. Nomes de santos que j ningum vai buscar. E tudo isto para qu? Bom, alm da bvia concluso, para vermos que continuamos a crer e que ainda temos boa memria para aquilo que nos interessa.

    s a n t a i m a g e m d e m a r c ac r n i c a

    verdade que no damos nomes de marcas a ilhas hoje em dia. Mas obrigadinha, tambm j no h ilhas por descobrir...

    A u r o r A r i b e i r o

  • 4Partilha o mais recente documentrio de Tiago Rosas. A caracterstica essencial de Partilha a sua fora e intencionalidade enquanto documento antropolgico ou mesmo lbum de famlia, sobre to curiosa abordagem festa do Esprito Santo no lugar de Joo Bom, Bretanha, Ilha de So Miguel.

    Desta feita, o jovem documentarista filma a festa da partilha, registando os diferentes momentos desse momento celebrativo, que vai desde os preparativos e organizao da festa nomeao do mordomo do prximo ano.

    Neste trabalho documental com a durao de hora e meia, pressente-se desde o incio a preocupao de escutar os envolvidos no processo, acompanhar a organizao e aprestos dessa realizao anual, versando o tema da partilha entre os envolvidos bem como detectar e pressentir as origens dessa celebrao, avivando os primrdios do seu povoamento e aparecimento, j que fica bem no interior da ilha em poiso to recndito.

    p a r t i l h a d e t i a g o r o s a s

    c i n e m a

    Deste modo, a proximidade do realizador do documentrio com os intervenientes foi fundamental (a famlia Pavo concedeu aqui um significativo testemunho), ajudando agora a que este trabalho se desenrolasse e se desenvolvesse de forma afectiva, captando assim os gestos e os sons dessa cerimnia comunitria do princpio at ao final da festa. Constata-se assim que este material visual regista este acontecimento numa combinao do divino e do pago, bem como sagrado e profano.

    , pois, com uma imaginao vigorosa e um musical cuidado que o som presente no filme adquire uma inusitada relevncia mais uma vez o tema principal de Zeca Medeiros!

    Outro pormenor a ausncia de uma narrao clssica e onde se evidencia a leitura dos textos de Vitorino Nemsio, Natlia Correia e Agostinho da Silva, aqui lidos de forma exemplar e enleio potico por Laura Lobo, todos eles relacionados

    com a relevncia das festas do Esprito Santo no arquiplago. A actriz repete duas vezes o excerto do filsofo Agostinho da Silva, denotando assim uma clara misso de destacar esse momento particular de partilha que se vive nas ilhas tal como a coroao dos mais novos o tom maior das festas.

    Uma pequena nota para os momentos do filme com habitante da freguesia de Joo Bom, Joo Medeiros, ainda que difceis de decifrar na sua plenitude, revelam a enorme grandeza e humanidade deste personagem no auge da sua naturalidade, que de to rica e pungente na sua diferena e frescura, nos faz ter inveja das suas oito dcadas de existncia. E que assim viva a festa da Partilha! F e r n A n d o n u n e s

    A verdadeira histria da autonomia aoriana uma histria de normas. Alis est por fazer uma histria do homem na perspetiva das normas.

    O homem normativo EM tudo, de onde vem se no da norma, onde est se no a norma e para onde vai se no a norma que lhe racha o caminho?

    So tudo em tudo normas. As normas internas de cada um. As normas da famlia, no seu seio e na socie-dade. As normas da polis. As normas de COMO lavar as mos e de como fecundar o outrem dando-lhe ao

    mesmo tempo contedo de norma de prazer.A norma de escrever, de pensar. Tudo norma, at para LER.

    Ningum respira livremente, h norma para isso, se no da lei, da sade, ou da diminuio do corpo, ou do espao ou da treta, enfim aglomerado de normas.

    O meu corpo norma. Violo-a porque necessito de cumprir outra norma. A necessidade, pois claro tam-bm outra norma. No necessito SEGUIR a norma porque sou A prpria norma. Tirem-me a norma sem me tirar a VIDA, impossvel, outra norma. Tirem-me a vida sem me retirar a norma, impossvel, sempre a

    norma.Sem ela no sou. Sem ela no vou. Sem ela no estou.

    A r n A l d o o u r i q u e

    c u l t u r a d e n o r m a sPalestra sobre como o homem sobr

    etudo norma, ou ensaio literrio sobre as normas

    Abordagem festa do Esprito Santo no lugar de Joo Bom, Bretanha, Ilha de So Miguel

  • 5A edio anual da revista Atlntida j est disponvel e pode ser adquirida na sede do IAC (Instituto Aoriano de Cultura), sito no Alto das Covas, Angra do Herosmo. A autoria dos desenhos no interior, capa e separadores, do arquitecto/ilustrador Lus Brum. A abrir a contenda est o artigo: Qual o papel da cultura no nosso Portugal contemporneo?, onde se incita reflexo que urge fazer sobre o desinvestimento generalizado nestas coisas culturais e que ter consequncias na desconstruo de todo um sistema complexo e identitrio que caracteriza a nossa sociedade e nos une como um povo com oito sculos de histria. Interessantes so, sem dvida, a conversa que decorre entre Vanessa Rato e o artista Pedro Cabrita Reis bem como o Retrato de Natlia segundo Ana Maria Pacheco do Nascimento. Uma ateno mais do que merecida e especial para A Tourada do Mar: A Baleao Aoriana observada por Mrio Ruspoli e Chris Marker, num texto muito bem escrito e demorado, exemplarmente escrito por Francisco Maia Henriques. Parabns direco do IAC, Paulo Raimundo e Filipa Tavares, por este trabalho de recolha e organizao editorial que s voltar em 2015.

    Houve um tempo que foi simples, demasiado simples at, escrever ou editar um livro em Portugal. Trabalho rduo ser publicar um livro que contenha uma determinada identidade e que possua dentro de si um sentido de comunidade e diversas e intrincadas conexes estticas, isto , que goteje lastro e contamine tudo sua volta num universo visvel de centelha para l de abarcar dentro de si um combinado sensvel de partilha e incluso. Impossvel? Pode ser no!

    O livro h-de f lutuar uma cidade no crepsculo da vida, do jovem micaelense, Leonardo Sousa, uma primeira obra que rene dentro de si uma galxia afectiva de diferentes