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  • 9 5 01 FAZENDO ***

    FAZENDO 95o boletim do que por c se faz gratuito dezembro 2014

    se c no se fizesse fazia-se c ski

  • 9 5 0 2FAZENDO * **

    Sumrio Ficha Tcnica

    CrnicaAntnio Dacostapor carlos bessa.9504

    LiteraturaConjunto Homem, Jcome Armas por pedro lucas.9506

    CinciaCaa Trmitapor orlando guerreiro.9508

    ArquitecturaAuditrio nas Lajes do Picopor rui pinto.9514

    CinemaHistria dos Aorestiago rosas por fernando nunes.9518

    HistriaPatrimnio Baleeiropor francisco henriques.9522

    DanaLeva de Cheiapor tiago valim.9528

    ilustrao: Phlegm

    Directoresaurora ribeiro

    toms melo

    Coordenadoresalbino de pinhofernando nunes

    rita mendessilvia lino

    Colaboradoresana calado

    ana lcia almeidacarlos bessa

    eduardo isidrofrancisco henriques

    gonalo cabaahelder marques da silva

    joel netolus andrade

    miguel macheteorlando guerreiro

    pedro lucasrui pinto

    sara soaressean patontiago valimtiago rosas

    vitor vargas

    Revisosara soares

    Paginaotoms melo

    Projecto GrficoilhasCook

    p r o p r i e d a d e assoc cultural fazendos e d e rua conselheiro medeiros n 19

    9900 hortap e r i o d i c i d a d e mensal

    t i r a g e m 500 exemplaresi m p r e s s o o telgrapho

    registado na erc com o n125988

  • 9 5 0 3 FAZENDO ***

    Editorial

    ilustrao: Happycentro

    1995

    As capas dos jornais tentam moldar a opinio pblica?Ento a capa do Fazendo assim.

    Tal como h diferentes tipos de filmes h tambm diferentes tipos de jornais, desde os documentais aos de fico, passando pelos cmicos e pelos roman-ceados. Se a maioria da imprensa est mais dedicada em desviar as atenes do que realmente importa, no Fazendo procuramos o contrrio, contabilizamos peas de teatro e no furtos de velocpe-des. O Jornal Fazendo procura escrever os Aores aqui e agora.

    Os jornais sempre tentaram moldar o mundo e quase sempre com sucesso. O Fazendo assume-o e sem interesses econmicos vai continuar a ser a voz e a escrita da comunidade e da cultura aoriana.

    Aps treze anos na reitoria da Universi-dade dos Aores, o Professor Doutor An-tnio Manuel Bettencourt Machado Pi-res publica nesse ano do sculo passado o livro: O Homem Aoriano e a Aoria-nidade, escrevendo pargrafos como este: A ilha em que nascemos um eixo do Cosmos, uma pequena-ptria, um mundo de referncias matriciais [...], um ponto de regresso ideal, uma taca em que cada um o Ulisses da sua pr-pria e secreta mitologia. A RTP Aores exibe o telefilme O Feiti-ceiro do Vento de Jos Medeiros. Pedro de Merelim, pseudnimo de Joaquim Gomes da Cunha (So Pedro de Mere-lim, 1913 Angra do Herosmo, 2002), historiador e etngrafo dos Aores, re-edita Os Hebraicos na ilha Terceira, smula anteriormente publicada na

    Os jornais sempre tentaram moldar o mundo e quase sempre com sucesso.Toms Melo

    Fernando Nunes

    FAZENDO 95Tal como nos anos anteriores, o jornal reinventa-se, mudando toda a sua ima-gem, alguma da sua estrutura, no mu-dando nada dos seus ideais.Nesta stima temporada o Fazendo di-minui em tamanho mas aumenta em contedo. Talvez chame menos a aten-o no balco do caf (por ser mais pe-queno) mas o leitor pode dedicar-lhe mais tempo, passar mais pginas, ler mais letras gordas ou mesmo ler o Fa-zendinho em voz alta. Tudo para que possamos dedicar-nos a aprofund-lo, sem nos ficarmos pelas aparncias.

    Aps um legado de vrios extraordi-nrios designers o Fazendo foi agora desenhado pelas ilhasCook que tentam aproximar o jornal do leitor e dos cola-boradores, criando espaos para todos. As ilhasCook so designers multidisci-plinares: filmam, desenham, projectam,

    revista Atlntida (1968) e Csar Gabriel Barreira publica Um Olhar sobre a Cidade da Horta, editado pelo Ncleo Cultural da Horta.Esse tambm o ano em que a ustria, a Sucia e a Finlndia se juntam Unio Europeia, desaparece o conhecido de-senhador Hugo Pratt, e o poeta irlands, Seamus Heaney, vence o prmio Nobel da Literatura.

    A ilha em que nascemos um eixo do Cosmos [...] um ponto de regresso ideal, uma taca em que cada um o Ulisses da sua prpria e secreta mitologia

    escrevem, fotografam, educam. Tm de-senvolvido conceitos, estruturas, objec-tos, espectculos e tudo o que promova a comunicao entre as gentes.A grande novidade o suplemento, o Fazendinho, para os mais novos lerem, desenharem, interagirem.

  • 9 5 0 4FAZENDO * **

    sair da ilha permitiu-lhe entrar em contacto com outras maneiras de pintar, particularmente com artistas que estavam mais ou menos a par de tendncias e correntes novasCarlos Bessa

    olhar, esquecer, esperarno centenrio de

    AntnioDacosta Os jornais enchem-se diaria-mente de ressentimentos e malqueren-as, de queixas e desastres. Mas tambm

    podem ser um repositrio de alegrias, mesmo que breves. Hoje, gostaria de partilhar o meu agrado por dois eventos locais recentes, relacionados com Ant-nio Dacosta (1914-1990), figura maior da arte portuguesa: o lanamento do livro Antnio Dacosta. A Clarividncia da Saudade, de Assuno Melo e a inau-gurao da exposio Antnio Dacosta, um pintor do sculo XX, exemplarmen-te comissariada por Francisco Pedroso Lima, patente ao pblico no Museu de Angra do Herosmo. E gostaria de o fa-zer parafraseando o pintor, quando, ao referir-se (1943) a Mrio Eloy, diz Nada de equvocos. preciso olhar, esquecer e esperar. Porque a expresso parece assentar a Dacosta que nem uma luva. Soube olhar, esquecer e esperar. E nes-se entretanto condensou uma fora que transbordou em pintura e contaminou as ltimas dcadas do sculo passado, dando expresso a um universo pesso-al. Um universo criado, em parte, a par-tir de uma mundividncia local, tercei-rense, que comearia a tomar forma aos

  • 9 5 0 5 FAZENDO ***

    Embora tenha pintado toda a vida, os quadros do perodo entre 1947 e 1975 so escassos, evidenciando uma necessidade interior de maturao

    vinte e poucos anos, depois de ter sado da ilha (1935).

    Partir deixa sempre em ns, portugue-ses, uma espcie de vazio a que chama-mos saudade. Uma saudade carregada de imagens, cheiros e emoes. Dacosta transfigurou-a, pintando a ilha sem re-curso a topos naturalistas, numa poca em que eles eram, ainda, recorrentes no nosso pas. Primeiro, com laivos sur--realizantes, depois com a fora mtica da memria, numa leveza que se abeira do mundo encantado da infncia. Anos mais tarde, poria em verso parte dessas mesmas inquietaes: Tudo verde at ao mar / () A redonda cpula de vidro azul // De sbito / Estas flores o cheiro a pedra queimada / () e j lembrando ao longe / O que agora aqui fresco e ver-de / E amargo como a baga de faia / Que menino meti na boca e trinquei. (A Cal dos Muros, 1994).

    Sair da ilha permitiu-lhe entrar em contacto com outras maneiras de pintar, particularmente com artistas que estavam mais ou menos a par de tendncias e correntes novas. E va-mos encontr-lo ligado ao surrealismo portugus, tendo sido pioneiro desse movimento em Portugal, juntamente com Antnio Pedro, com quem expe, em Lisboa (Ex Poem, 1940). Mau grado o incndio (1944) que levou a maior parte desses quadros, salvaram-se alguns des-se perodo, que nos mostram o contgio entre os dois Antnios, o jovem Dacosta e o maduro Pedro. O bastante, mesmo assim, para deixar entre os que vieram a seguir uma aura, aumentada certa-mente pela sua ida, em 1947, para Paris.

    O surrealismo que nos nossos dias so-cialmente bem remunerado, em parte pelos (e)feitos dalinianos, era, no Portu-gal de ento, uma corrente que entrava em conflito com a esttica dominante. Porque nesse tempo ainda havia disso,

    esttica dominante. Imperava um gosto acadmico, fechado nos processos e mo-dos do sculo XIX, de pendor naturalis-ta, quando no cheio de laivos romnti-cos. Que contaminava no s a pintura como a literatura.

    Que sabia Portugal das vanguardas? Quase nada. De norte a sul, passando pelas ilhas, vivia-se um atraso econ-mico, social e cultural quase atvico, que Ea retratara e ironizara j no sculo XIX e que merecera de Antero um poderoso libelo. Mas, em tirando a gerao do Orpheu, que explodira em Lisboa (1915) com fora de escndalo, o pas no tinha sado da I Guerra Mun-dial rumo ao desenvolvimento, apenas conseguira a censura, o medo, a fome, a polcia.

    Dacosta atraca, em 1935, numa Lisboa em plena afirmao do Estado Novo, que querer glorificar-se atravs de uma bem montada operao de propa-ganda chamada Exposio do Mundo Portugus (1940). Onde, alis, lhe recu-sam colaborao. Felizmente, pde sair e rumar capital das artes. No sem que, antes, o Secretariado de Propaganda Nacional o tivesse colocado na categoria de esperana, como diz ironicamente Mrio Cesariny em A Interveno Sur-realista (1966), ao atribuir-lhe, em 1943, o Prmio Amadeo de Souza-Cardoso.Paris vai, no entanto, exercer nele um efeito restritivo: foi uma desiluso. Pela primeira vez senti-me desterrado. Vivia--se a ressaca da guerra em condies terrveis. Aos poucos, substitui a pintu-ra pela escrita.

    Embora tenha pintado toda a vida, os quadros do perodo entre 1947 e 1975 so escassos, evidenciando uma necessidade interior de maturao. A pintura e o desenho mantiveram-se apenas residualmente, fruto da relao com amigos e parentes. Colabora com

    jornais e deambula pela capital pari-siense, convivendo com artistas e escri-tores, servindo muitas vezes de guia aos compatriotas recm-chegados. A escrita um modo de se manter ligado arte, refletindo quer sobre o que se expunha em Portugal e noutros lugares, quer so-bre as mais variadas manifestaes ar-tsticas. Num registo que tem muito do baudelairiano flneur, ou, como diz Mi-riam Dacosta, Gostava da vida, de uma certa preguia da vida

    Depois, casa-se, divorcia-se, escreve, convive, secretaria, at que conhece Mi-riam e lhe nascem dois filhos. Aos pou-cos, a pintura regressa e com tal inten-sidade