fazendo 99

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  • 9 9 01 FAZENDO ***

    FAZENDO 99o boletim do que por c se faz

    misturemo-nos

    gratuito abril 2015

  • 9 9 0 2FAZENDO * **

    Sumrio Ficha Tcnica

    literaturadias de melo por maria eduarda rosa.9904

    Histriapapadiamantespor jos luis neto e paulo alexandre monteiro.9906

    Cincia cincia em trs minutospor slvia lino.9809

    Cinemabaleias e baleeirospor fernando nunes.9910

    Intervenocelebrar o 25 de abrilpor jorge bruno.9916

    Crnicatres hombrespor fernando nunes.9923

    Directoresaurora ribeiro

    toms melo

    Colaboradoresalbino pinho

    fernando nunesjorge bruno

    jos lus netohelena krug

    maria eduarda rosapaulo alexandre monteiro

    paulo bicudopaulo vilela raimundo

    pedro rosaslvia lino

    Revisosara soares

    Capaduarte martins

    Paginaoraquel vila

    Projecto GrficoilhasCook

    p r o p r i e d a d e assoc cultural fazendos e d e rua conselheiro medeiros n 19

    9900 hortap e r i o d i c i d a d e mensal

    t i r a g e m 500 exemplaresi m p r e s s o o telgrapho

    registado na erc com o n125988

    Errata: na edio 98 faltou a autoria da fotografia das pginas 10 e 11: Gni Jorge

    ilustrao Raquel Vila

  • 9 9 0 3 FAZENDO ***

    Duarte Martins 1999

    O nmero 99 o nono dgito repetido, conhecido por ser um nmero de sorte. a soma dos divisores dos primeiros onze nmeros inteiros positivos. 99 tambm a soma dos cubos de trs nmeros inteiros con-secutivos: 99=8+27+64. nesse ano do sculo passado que o velejador Genuno Madruga adquire na Alemanha um veleiro em fibra de vi-dro com 11,1 metros, baptizando-o de Hemingway. D-se a erupo vulcnica submarina da Serreta, ilha Terceira, e ocorre o trgico aci-dente de um avio da SATA, na Ilha de So Jorge, e em que nenhum dos 35 tripulantes sobrevive. O Instituto Aoriano de Cultura (IAC) publica Zapp: esttica pop rock, do etnomusiclogo Jorge Lima Bar-reto. A poetisa Natlia Correia edita a Antologia de Poesia Portuguesa Ertica e Satrica. O cineasta Joo Csar Monteiro estreia o filme As Bodas de Deus no Festival de Cannes, em Frana, na seleco Oficial, Un Certain Regard, e Ana Moreira vence o prmio de melhor actriz no Festival de Roma, com o filme Mutantes, da realizadora Teresa Villaverde. A cantora alem Nena decide cantar 99 Luftballons (em alemo Neunundneunzig Luftballons e em portugus 99 bales), e transforma-se numa cano de protesto anti-nuclear e anti-guerra. A conhecida Aspirina completa 100 anos, um sculo a subtrair dores de cabea e demais maleitas cerebrais. Curiosamente o anunciado bug do fim do milnio revela-se de todo andino e inofensivo. Pedro da Silveira edita Poemas Ausentes, pela editora Mirante. A Direco Regional da Cultura edita um volume inaugural da obra deste poeta florentino com o ttulo: Fui ao mar buscar laranjas, e onde se l o po-ema Ilha de 1952: S isto: /O cu fechado, uma ganhoa/ pairando. Mar. E um barco na distncia: /olhos de fome a adivinhar-lhe proa/ Califrnias perdidas de abundncia.

    ele chegou descontradocaminhando sozinho.devagar se vai ao longedevagar eu chego lmostra -me o teu rostomenina mulher da pele pretacombinao de coresperfeio tropicalaqui onde esto os homenseu vou torcer pela paz, alegria e amor.j consultei os astrospode -se voar sozinho at s estrelasao sair da ilhauma cabanapeixe fogo crufigo soa obra solar est completae a fora toda a foraponta de diamanteglria do mundoo que que eu quero maisse eu sei que a vida bela e linda.saudade at que bommelhor que caminhar sozinhoo simples pode ser beloe o belo pode ser simpleso certo muito verdadeiroe em todo o mundo se vive

    Fernando Nunes

    FAZENDO 99

    tri.atlnticoilu

    stra

    o

    Lus

    Bru

    m

    Capa

  • 9 9 0 4FAZENDO * **

    No dia 8 de abril fez 90 anos que nasceu no Pico o escritor Dias de Melo.

    Quem o conheceu e dele foi amigo no o esquecer, mas o mais importante no esquecer a mensagem que nos deixou atravs da sua obra literria de cerca de 30 volumes.

    Ler a obra de Dias de Melo ouvir a voz do povo a quem ele dedicou a vida, penetrar nas razes culturais desse povo, que se alimentam de gua e de pedra, apreciar a linguagem literria do escritor que, no querendo ser conscientemente demasiado erudito para poder ser lido por esse mesmo povo que tanto estimava,

    no 90 aniversrio do seu nascimento

    Dias de Melo

    consegue deslumbrar o leitor com descries poticas e de pormenor de grande valor.

    Escrevi trs vezes neste pargrafo a palavra povo, de propsito, porque falar de Dias de Melo o mesmo que falar do povo, com a sua riqueza lingustica, a sua alegria de viver, as suas tradies, a sua sabedoria.

    Basta abrir um qualquer dos seus muitos livros para se confirmar o que atrs foi dito.

    Eis alguns exemplos:

    Logo na introduo do Livro I, volume I da coletnea Na Memria das Gentes, de 1985, (recolha de estrias de pessoas do Pico compiladas em trs volumes) em que d voz s gentes das Lajes do Pico, do Cais do Pico, de S. Mateus e da Madalena, l-se, sobre o Morro do Castelete nas Lajes: a crista vermelha do galo altaneiro de razes enfiadas no mar; ou sobre a Ribeira do Meio: viveiro de baleeiros; ou ainda sobre a magnfica montanha, alm de outros adjetivos: a montanha orgulhosa

    Maria Eduarda Rosa

  • 9 9 0 5 FAZENDO ***

    da apresentao do livro Milhas Contadas, obra que deveria ter sido apresentada por este professor universitrio em S. Miguel e no Pico, no tivesse a morte feito das suas

    So poucas as vozes que se tm feito ouvir, apelando leitura e discusso da obra de Dias de Melo. Uma delas de Luiz Fagundes Duarte que considera Dias de Melo uma figura da Histria da Cultura nos Aores de quem todos ns precisamos e a quem todos ns muito devemos (introduo ao livro de Dias de Melo, O autgrafo, Ed. Salamandra, col. Garajau, 1999).

    Chegou-nos a notcia (muito vaga e sem confirmao) de que no Pico tinham representado uma pea de teatro da sua autoria (ter sido Cano do Baleeiro?). Os boatos costumam trazer alguma coisinha de verdade

    Foi com muito agrado que recebemos a informao de que a Universidade de York emToronto onde a obra de Dias de Melo estudada, tinha institudo o prmio Pedras Negras, ttulo de um emblemtico livro deste autor, publicado em 1964.

    Do seu livro de poemas Toadas do Mar e da Terra cuja 1 edio de 1954, deixamos o leitor com a primeira quadra do soneto Contraste, (p. 61 da 2 edio do livro sado na Frum Culturas, 2004, seu 50 aniversrio) de boas vindas primavera:

    no 90 aniversrio do seu nascimento

    Dias de Melo

    Primavera. Ajoelhado neste

    cho,Quero beijar a

    Terra negra e quente,

    Onde passa o arado

    lentamente- a Terra em que germina e cresce

    o Po!

    Retiro da estante sorte outro livro: Reviver: na Festa da Vida a Festa da Morte (edies Salamandra, 2000) e logo no incio aparecem duas pginas e meia de vocabulrio com arcasmos e palavras que se usam nos Aores mas no se encontram no dicionrio, o que comprova a preocupao do escritor em fazer entender a sua mensagem. Com a globalizao e franco empobrecimento da linguagem, poder-se-ia acrescentar a lista. Por exemplo: gado alfeiro (p. 63) (esta expresso ainda se encontra no dicionrio, mas quem a utiliza?) o cho lavado pela Tia Augusta fica to limpo, escarolado, fresco, que d vontade o beijar (p. 24), arrobas aventadas pelo parceiro (p. 256), a rabeca ladinava (p. 256) e muito mais. Este livro que contm descries exaustivas de pormenor como a atafona (p.22) vem trazer a conscincia de que comeamos a morrer no momento em que nascemos (p. 52) e h que preservar a memria. Quantas vivncias do povo volta da tradicional matana do porco que, no dizer do Tio Jorge (o rei das folias, p. 259), o porco por dentro o retrato da gente (p. 201) desde a folga com a chamarrita (p. 299), os ranchos das morcelas (p. 291) com as cantigas das salvas (p. 293), muitas brincadeiras e jogos e tambm, claro, os amores

    Voltando estante, a mo pousou desta vez no Poeira do Caminho (Campo das Letras, 2004). Escrito de forma epistolar, durante a segunda metade de 2002 (de 2-6-2002 a 10-12-2002), cartas dirigidas a uma velha e querida Amiga, Dias de Melo define, logo no incio, o projeto deste livro como um dirio de memrias, onde os amigos mantm os nomes (Manuel Toms e Toms Duarte da Madalena; Mrio, Maria Eduarda e Francisco do Faial; os escritores Cristvo de Aguiar (p. 43) e Onsimo Teotnio de Almeida (p. 239), et cetera). O livro termina com uma carta ao amigo escritor Jos Martins Garcia, onde deixa registado o encontro dos dois, nascidos em extremos opostos da Ilha Maior (esta designao de um poema de outro escritor, nascido no Alentejo, tambm ligado ao Pico, Almeida Firmino) e onde se fica a saber das colaboraes em jornais e do currculo do conterrneo acadmico, bem como da sua morte (3 de novembro de 2002) pouco antes

    Falar de Dias de Melo o mesmo que falar do povo

    literatura

  • Diz-nos Francisco Gomes, em A ilha das Flores: Da desco-berta atualidade, que: Na madrugada de 22 de dezem-bro de 1965, encalhou a 300 metros da Faj Grande o cargueiro liberiano Papadiamantis, de 14130 toneladas, comandado por Constantino Paulis, 38 anos de idade. O barco, que viajava de New Orleans para Hamburgo, com um carregamento de milho, trigo e feijo, perdeu-se com-pletamente. Em Santa Cruz desembarcaram 28 nufra-gos, tendo os restantes trs seguido para Frana a bordo de um navio que os auxiliara. (Gomes: 2003, 450)

    Os destroos deste enorme navio, reconhecido pela Flores Dive Center e pela Direo Regional da Cultura em agosto de 2014, encontram-se entre as profundidades -25 a -45 me-tros. Os vestgios so numerosos, numa rea extensa, sendo muitos deles de carter monumental. Tratava-se de uma embarcao de grandes dimenses, construda pela Kaiser Company Inc., localizada em Swan Island Yard, Por