fazendo nº80

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O Boletim do que por cá se faz

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  • #80 DEZEMBRO 12 O BOLETIM DO QUE POR C SE FAZMENSAL / DISTRIBUIO GRATUITA

    No somos os nicos

  • 1 Lugar - Antnio Viana 2 Lugar - Catarina Krug 3 Lugar - Margarida Madruga

    Fazendo Editorial

    Capas

    2.

    Fazendo - DirecoAurora RibeiroToms Melo

    CoordenadoresAlbino Carla Cook Carlos Alberto Machado Fernando Nunes Filipe Porteiro Helena Krug Ldia Silva Pedro Gaspar Pedro Afonso

    CapaAntnio Viana

    Colaboradores Ana CorreiaColectivo dos CedrosCristina LouridoGonalo TochaLia GoulartLdia SilvaLus HenriquesMiguel ValenteOrlanda AndrRuth BartenschlagerVictor Rui Dores

    Design e GrafismoMauro Santos Pereirawww.comunicaratitude.pt

    RevisoAurora Ribeiro

    Propriedade Associao Cultural Fazendo

    Sede Rua Conselheiro Medeirosn 19 9900 Horta

    Periodicidade Mensal

    Tiragem 500 exemplares

    Impresso Grfica O Telgrapho

    As opinies expressas nesta edio so dos autores e no necessariamente da direco do Fazendo

    Este Fazendo comea logo por pr os olhos no cu. Dezembro , de todos os meses, o mais noctur-no que h. O cu metade da nossa envolvente. A metade superior, a mais vasta e a menos conheci-da. Dantes, muitas das coisas boas e das ms vinham do cu. Agora a maior parte delas vm por fibra p-tica. O Fazendo uma dessas coisas que vos pode chegar por fibra ptica. Ou ento escarrapachadi-nho em papel, para ler debaixo de tecto ou debaixo do cu.

    Se no nos virmos antes, Bom Fim do Mundo!

    A oito de Dezembro dos idos anos oitenta do scu-lo passado, John Lennon era assassinado em Nova Iorque, tinha apenas quarenta anos. Na Ilha Terceira deu-se um enorme terramoto que arrasou com a ci-dade de Angra do Herosmo e com uma das suas mais emblemticas igrejas, Catedral da S, que teria novo episdio alguns meses mais tarde com a ocorrncia de um incndio que destruiria a talha dourada. A ci-dade seria reconstruda na sua forma original e reco-nhecida enquanto patrimnio mundial pela UNESCO. O Nobel da Literatura desse ano foi para o polaco Czeslaw Milosz e ainda nos despedimos de Vinicius de Moraes, poeta, compositor e diplomata brasileiro, de quem Alexandre ONeill disse um dia quem tem vcios tem Vinicius.

    80

    Editorial

    Resultado do concurso de Natal

  • Aores segundo uma menina que j no existe

    .3

    Fazendo Crnica

    #80 DEZEMBRO 12

    H 30 anos, eu era pequena e os Aores eram com-pletamente diferentes do que so hoje.

    De quando era criana, recordo uns Aores muito rurais, onde s vezes passavam cavalos a par dos car-ros, pois na poca esse era o meio de transporte dos lavradores que vinham cidade tratar de afazeres.

    Para todo o lado que fssemos, encontrvamos vacas. Era impossvel ir dar um passeio ao campo (pomposo nome com que se designavam as fregue-sias) sem ter de parar o carro por causa das vacas no meio da estrada; passava-se ali tanto tempo como num engarrafamento.

    As bolachas e rosquilhas feitas em casa eram prtica semanal para muitas famlias; outras coziam massa sovada e bolo ou po de milho e outros tor-ciam alfenim (tudo dependia da ilha onde se tinha nascido). Esses acepipes hoje servidos aos turistas como delcias tradicionais eram coisas corriqueiras.

    O padeiro andava de porta em porta; o leiteiro tambm. Vinham de manh, numas motas com caixa larga atrs, e foi assim que aprendi a fazer as primei-ras contas. Era uma poluio sonora sem par, o leite era leite do dia em saquinhos e o po s tinha duas variedades no se conheciam todos estes pes com passas, cereais, sementes e ningum se preo-cupava em comer po integral.

    Nas festas com arraiais, era normal comer bom-bons de acar, daqueles que se vendem na rua. Hoje, as mes dizem credo, que nojo, isso s por-caria! e fazem a conta glicmia.

    Havia loicinhas de barro para as crianas, a dita loia da Vila. Hoje, os artesos da loia da Vila de-sapareceram porque se dermos loicinha de barro s crianas somos acusados de termos fornecido brin-quedos no homologados pelas normas da Unio

    Europeia. De facto, de acordo com as normas de hoje em dia, ser criana h 30 anos era to perigoso que um milagre termos escapado razoavelmente inteiros.

    A educao era, sem dvida, diferente. Pessoal-mente, como fui criada pelos meus avs e tive a in-vulgar sorte de ter a mesma professora e a mesma turma nos 4 anos da Primria, tenho uma lembrana muito viva, alimentada pelas conversas que ain-da hoje mantenho com estes colegas quando nos juntamos. Contrariamente aos dias correntes, po-damos no passar de classe se no soubssemos o suficiente, a professora tinha o direito de nos bater nas mos com rgua e de nos castigar. A escola era uma instituio: trocavam-se roupas, brinquedos e alguns fugiam de famlias onde viviam vidas de fa-zer corar argumentistas dramticos.

    Na escola, tnhamos de cantar canes religio-sas e rezar imagem da Virgem Maria. Os que no eram catlicos estavam dispensados de rezar; mas a influncia das outras crianas era to grande que todos acabvamos por rezar na mesma. Foi um tru-que que deu resultado pois hoje sei mais sobre o Ca-tolicismo do que muitos catlicos.

    Na escola primria, decorvamos rios e distritos do nosso pas, sendo que nas nossas ilhas no havia rios nem distritos, nem to pouco zonas de gado ovino e cavalar (Baixo Alentejo e Santarm ainda recordo ter falhado esta pergunta na terceira classe).

    Ainda no havia whale-watching. Matar baleias no era crime e ningum achava que o mar era um parque de diverses. A tourada ainda no era um problema, era s tradio. Ningum precisava de guia para subir o Pico. Ningum reciclava o lixo e as fraldas no eram descartveis.

    Os romeiros no suscitavam reportagens de TV; apenas respeito. Relembro um intercmbio que a Primria do Nordeste de S. Miguel fez connosco e foi como se estivssemos recebendo uma delegao estrangeira, to longe essa terra era e to desloca-dos estavam de tudo.

    As Lagoas das Sete Cidades eram claramente uma verde e outra azul e eram lindssimas. Hoje, so ambas verdes, plenas de limos, mas continua-se a vender o produto turstico como se nada tives-se mudado. A beleza desapareceu embora todos finjam que no e at a considerem uma Maravilha de Portugal. O tempo tudo muda mas o ser humano, cegamente teimoso, vai preservando a ideia quando a realidade j morreu.

    No Natal, havia laranjas e gros que germinavam em tigelinhas. O So Nicolau bem depressa passou a Pai Natal. O bacalhau entrou na tradio no sei bem como, porque em minha casa comia-se frango

    Com 5 anos, eu tive infncia nestes Aores. Hoje, so outra verdade. O Hospital onde nasci j no exis-te um grande edifcio vazio e intil. As casas onde morei so prdios de apartamentos onde vivem uni-versitrios que ignoram que ali havia rvores. Mas, certamente, hoje reciclam o lixo. Certamente, hoje, a vida melhor nestes Aores. Sucede que, porm, j no so a minha terra nem eu sou essa menina.

    Por isso, em certos dias, apetece dizer como Ne-msio quando regressou Terceira e, olhando-a, j no a reconheceu como sua: Comeamos a ser es-trangeiros onde nascemos, ou como?!

    Carla Cook

  • Uma ilha comprida e uma menina atleta

    Fazendo agora no Faial

    Fazendo agora no Pico

    A Brasa Voltou?4.#80 DEZEMBRO 12

    O avio Amadeu Souza Cardoso da Tap air Portu-gal transportou-me de Lisboa at ilha do Faial no incio de Novembro para um fim de semana sur-preendente: desde o concerto dO Experimentar na mincomoda ( Pedro, no percas tempo, faz j ou-tro!) ao teatro dos Palmilha Dentada (como bom ter um ministro vtima de um ataque terrorista com quem parodiar), j para no falar do magusto ofe-recido no Mercado Municipal da Horta, com direito a assador e castanhas podendo nas bancas e lojas do mercado adquirir a bons preos os melhores nc-tares e sandes de albacora da regio e continente.

    Eis-me, portanto, de regresso ao grupo central, to capital nessa apreenso do mundo como o epi-sdio que narrarei a seguir. No domingo, terminado o priplo na cidade da Horta, dirigia-me muito bem acompanhado at ao aeroporto, preparando-me assim para mudar de ilha pela terceira vez, quando fui atacado por uma viso rubra, quase hipntica, to avassaladora que pedi para estacionarem o car-ro mesmo ali. Mas, enquanto o carro se encontrava estacionado, imobilizado, no meio da rotunda, li no

    Maria Joo Silva tem uns olhos-grandes-grandes que parecem azeitonas. Uns olhos de ver mundo. Maria tem cabelo ao vento, ocasionalmente espeta-do como antenas. Para ouvir mundo. Maria no gosta de vestidos, mas tem um de todas as cores, uma de cada vez.

    De entre as amigas da Maria h uma muito viva, alegre a valer. Essa amiga chama-se Carla Toms e tambm amiga da gente. Com ela aprendi a repa-rar no mundo das coisas frgeis e impossveis, como os sonhos realizveis.

    A atleta Maria Joo Silva natural da Calheta do Nesquim (Pico), vive e treina no Centro de Activida-des Ocupacionais para jovens deficientes, da Santa Casa da Misericrdia, na Madalena. a actual bicam-pe mundial de atletismo adaptado (sndrome de Down), tendo ganho em Maio deste ano 3 medalhas de ouro e respectivos recordes nas especialidades de 1500m, 800m e 4x400m planos, marcha.

    O Campeonato do Mundo de Atletismo Adapta-do 2012 decorreu em Angra do Herosmo (Tercei-

    mupi publicitrio de grandes dimenses: A brasa est de volta. Um bom churrasco ao alcance de to-dos. Escrito num placard enorme com uma jovem mulher vestida de vermelho, de braos destapados e com as cores corporais de um vero passado junto do mar. Subitamente depreendi que o seu nome no seria Brasa, aparentemente, pois pouco sabemos alm da sua existncia de rotunda, a no ser que ela est de volta, por sinal, ao braseiro, ao grelhador, de qualquer churrasco caseiro. Subitamente indignei-

    -me: logo agora que entra o Inverno eu partirei com a chegada da brasa ao churrasco!?! Rapidamente e, como quem no quer a coisa, me apercebo