Gatti , Importante

Download Gatti , Importante

Post on 22-Dec-2015

2 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

fdfgf

TRANSCRIPT

<ul><li><p>A formAo iniciAl de </p><p>professores pArA A educAo </p><p>bsicA: As licenciAturAs</p><p>Bernardete A. Gatti</p></li><li><p>REVISTA USP So PAUlo n. 100 P. 33-46 DEZEMBRo/JAnEIRo/FEVEREIRo 2013-201434</p><p>Dossi Educao</p><p>RESUMO</p><p>Este artigo aborda, com fundamento em pesquisas, a questo da formao inicial de professores para a educao bsica em cursos de graduao. So apresen-tados dados quantitativos sobre as ca-ractersticas desses cursos no Brasil. Evi-dencia-se a pouca procura de algumas formaes e a migrao dessa formao para propostas EAD, sobretudo no setor privado, que responsvel pela maioria das matrculas nesses cursos. Discutem--se anlises qualitativas dos currculos das licenciaturas, as quais mostram a fragmentao entre a formao em rea de conhecimento e a formao em edu-cao e prticas de ensino, estas ofere-cidas de modo insuficiente para formar professores. Abordam-se algumas inicia-tivas governamentais intervenientes no mbito dos estgios curriculares. O pa-norama preocupante dada a insuficin-cia da formao oferecida para subsidiar a atuao de um profissional docente na educao bsica.</p><p>Palavras-chave: formao de professo-res; licenciatura; pedagogia; currculo; EAD.</p><p>ABSTRACT</p><p>Grounded on researches, this paper addres-ses the issue of the initial training provided to undergraduate students for teaching in ele-mentary, middle and high school education. We present quantitative data concerning the characteristics of those courses in Brazil. The results demonstrate low interest in some knowledge areas and the migration of tho-se areas to programs of distance learning, mainly in the private sector, which is res-ponsible for most of university enrollments in those courses. This paper also discusses qualitative analyses of curriculums offered in those programs, which show a gap be-tween the training in the knowledge field and the training in education and teaching practices, which is insufficient for training teachers. It addresses some governmental initiatives regarding academic internships. The scenario is worrisome due to the </p><p>Keywords: teacher training; teaching programs; pedagogy; curriculum; distance learning. </p></li><li><p>REVISTA USP So PAUlo n. 100 P. 33-46 DEZEMBRo/JAnEIRo/FEVEREIRo 2013-2014 35</p><p>no Brasil, pas de escolariza-o tardia, a necessidade de incluir nas redes de ensino as crianas e jovens de segmen-tos sociais que at poucas dcadas atrs no eram aten-didas pela educao bsica colocou grandes desafios, um deles a formao de professo-res. Com a grande expanso das redes de ensino em curto espao de tempo e a amplia-o consequente da necessi-</p><p>dade de docentes, a formao destes no logrou, pelos estudos e avaliaes disponveis, prover o en-sino com profissionais com qualificao adequada. Pesam nessa condio no s a urgncia formativa, mas tambm nossa tradio bacharelesca, que leva a no considerar com o devido valor os aspectos didtico-pedaggicos necessrios ao desempe-nho do trabalho docente com crianas e jovens. </p><p>o crescimento populacional, confrontado com o desenvolvimento e a paz sociais, coloca desafios contundentes s sociedades humanas, e a educa-o, por meio dos professores, certamente tem papel decisivo a desempenhar nesse cenrio o da possibilidade de ajudar na construo de uma civilizao humana de bem-estar para todos. Isso coloca um peso considervel na responsabilidade das instituies formadoras de professores uni-versidades, faculdades ou institutos. no mbito dos movimentos das transformaes societrias atuais, a informao e a comunicao ocupam papel cen-tral na vida diria, no trabalho em geral e na vida </p><p>cientfica. na era da comunicao, nada mais es-sencial do que as capacidades de decodificar e in-terpretar informao, o que permite criao. Essas capacidades, para seu desenvolvimento, dependem da iniciao e do domnio da palavra e da escrita, do domnio cultural de reas diversas de saberes, do desenvolvimento de lgicas e capacidade de relacionar, comparar, distinguir, agregar saberes, o que nos reporta imediatamente educao, em especial aquela que inicia as novas geraes nos conhecimentos que foram sistematizados no de-correr da histria humano-social. A chave para o desenvolvimento pleno das capacidades humanas est nos processos educativos. Quem faz educao, e como, torna-se questo central nesses processos. </p><p>A formao dos professores tem sido um gran-de desafio para as polticas educacionais. Inme-ros pases vm desenvolvendo polticas e aes agressivas na rea educacional cuidando, sobretu-do, dos formadores, ou seja, dos professores, que so os personagens centrais e mais importantes na disseminao do conhecimento e de elementos substanciais da cultura. Da Tailndia Frana, do Chile aos Estados Unidos, Inglaterra, Colmbia, Sucia, Finlndia, nigria, Argentina, Equador, entre tantos outros, medidas vm sendo tomadas nas duas ltimas dcadas no sentido de formar de modo mais consistente professores em todos os n-</p><p>BERNARDETE A. GATTI diretora do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundao Carlos Chagas.</p></li><li><p>REVISTA USP So PAUlo n. 100 P. 33-46 DEZEMBRo/JAnEIRo/FEVEREIRo 2013-201436</p><p>Dossi Educao</p><p>veis e de propiciar a esses profissionais carreiras atrativas. Podemos dizer que essa preocupao se tornou mundial. no entanto, quanto formao inicial de professores no ensino superior no Brasil, no tivemos at aqui iniciativa nacional forte o suficiente para adequar o currculo s demandas do ensino, iniciativa que levasse a rever a estrutura dessa formao nas licenciaturas e a sua dinmica, em que pesem algumas resolues do Conselho nacional de Educao a partir do ano 2000. os dados de pesquisa que exporemos abaixo justifi-cariam uma poltica bem diferente para as licen-ciaturas no mbito de seu objetivo, que formar profissionais para o trabalho docente na educao bsica, ou seja, formar professores, o que muito diferente de formar especialistas disciplinares.</p><p>PANORAMA DA FORMAO INICIAL DE PROFESSORES AS LICENCIATURAS</p><p>Quando se tece o panorama sobre a formao dos professores para a educao bsica, atravs de dados de pesquisa disponveis, verificamos que o cenrio geral no muito animador (Gat-ti, Barretto &amp; Andr, 2011; Diniz-Pereira, 2011; libneo, 2010; Gatti &amp; Barretto, 2009; Freitas, 2007). H um acmulo de impasses e problemas historicamente construdos e acumulados na for-mao de professores em nvel superior no Brasil que precisa ser enfrentado. no foco das licenciatu-ras, esse enfrentamento no poder ser feito apenas em nvel de decretos e normas, o que tambm importante, mas processo que deve ser feito tam-bm no cotidiano da vida universitria. Para isso, necessrio poder superar conceitos arraigados e hbitos perpetuados secularmente e ter condies de inovar. Aqui, a criatividade das instituies, dos gestores e professores do ensino superior est sendo desafiada. o desafio no pequeno quando se tem tanto uma cultura acadmica acomodada e num jogo de pequenos poderes, como interesses de mercado de grandes corporaes.</p><p>De um lado, alguns dados da demografia educacional podem sustentar reflexes que per-mitem a tomada de decises para esse cenrio e, de outro, anlises da qualidade dos currculos oferecidos nos cursos de licenciatura podem ser tomadas como ponto de partida para uma reno-vao formativa no que se refere aos profissio-</p><p>nais professores. novos caminhos para a forma-o inicial de docentes ficam na dependncia de atuaes em poltica educacional de modo mais coerente e integrado, e, na condio de executivos e legisladores, de basear-se em pesquisas para a tomada de decises, dentro de uma viso mais ampla de contexto educacional e social. Ficam ainda associados s possibilidades criativas das instituies e pessoas que proveem essa formao. </p><p>Demografia das l icenciaturas</p><p>Conforme os dados apresentados nos resumos tcnicos do Censo da Educao Superior de 2009, 2010 e 2011 disponibilizados pelo MEC/Inep (Bra-sil, 2013a, b e c ltimos dados mais detalhados disponveis), observa-se que a grande maioria dos cursos e das matrculas em licenciaturas est nas instituies privadas de ensino superior, e que o crescimento das matrculas nos cursos que formam professores vem sendo proporcionalmente muito menor do que o crescimento constatado nos de-mais cursos de graduao. no relatrio tcnico de 2011, l-se, na pgina 57, que, em relao a 2010, as matrculas presenciais em 2011, no que se refere s licenciaturas, mostram decrscimo de 0,2% e aumento de 0,8% para licenciatura a distncia, en-quanto os demais cursos de graduao cresceram em torno de 12% (Brasil, 2013c). </p><p>na sequncia temporal 2001-2011 h uma visvel migrao dos cursos de licenciatura para o regime a distncia, o que no ocorre na mesma proporo com outros cursos de graduao. Por exemplo, entre os cursos de bacharelado, 73% eram de oferta presencial em 2011, enquanto ape-nas 17% das licenciaturas assim se caracterizavam. As licenciaturas a distncia oferecidas por institui-es privadas detm 78% das matrculas em cursos de formao de professores. Esse dado notvel, uma vez que, em 2001, havia apenas matrculas em licenciaturas a distncia em instituies p-blicas, e, em 2002, a proporo era de 84% de matriculados em EAD nessas instituies, e 16% nas instituies privadas. A inverso nesses dados, em oito anos, est certamente associada a polticas que favorecem a expanso da EAD nesse segmento de instituies. A reordenao do campo da edu-cao a distncia por parte do poder pblico, a partir de 2005, criou condies para o crescimen-</p></li><li><p>REVISTA USP So PAUlo n. 100 P. 33-46 DEZEMBRo/JAnEIRo/FEVEREIRo 2013-2014 37</p><p>funes diversas e esto procurando alterar sua condio de emprego. Sua provenincia so as escolas pblicas, em maioria. Quanto s conclu-ses nesses cursos, observa-se uma evaso mdia em torno de 80%. Grande parte dos estudos em EAD solitria e demanda proficincia em leitura e interpretao de textos, que contatos virtuais ou tutorias fragilizadas no favorecem. Entram tam-bm as dificuldades com as linguagens de reas especficas, como sociologia, filosofia e cincias. Tambm, nessa modalidade, exigem-se hbitos de estudo que, para os estudantes tardios, j foram esmaecidos, demandando um esforo razovel para sua recuperao. Essas condies so aspec-tos apontados para as desistncias. </p><p>Tambm os estudantes a distncia no so fa-vorecidos com um convvio em cultura acadmica, como o dilogo direto com colegas de sua rea e de outras, com professores no dia a dia, com a partici-pao em movimentos estudantis, debates, e com vivncias diversas que a vida universitria oferece de modo mais intenso. ou seja, ficam os futuros professores carentes de uma socializao cultural no desprezvel. Evidentemente essas caracters-ticas esto associadas forma como as propostas de EAD para a formao de professores se apre-sentam, em sua maioria, no pas. A necessidade de suportes fortes aos estudantes em cursos a dis-tncia requer cuidados especiais, e o custo de um projeto bem formatado, qualificado e consistente alto. A inquietao que vem se revelando entre os educadores diante desse quadro que a insero, nos moldes propostos, de uma modalidade de for-mao docente que oferecida ainda de maneira mais precria que a dos cursos presenciais, em vez de contribuir para a soluo da crise dos processos de formao de professores, poder torn-los mais frgeis e desestabilizar uma larga experincia acu-mulada de formao atravs dessa modalidade, j experimentada no pas em iniciativas pblicas di-versas, por exemplo, nos estados de Mato Grosso, Minas Gerais e So Paulo (Gatti &amp; Barretto, 2009, cap. VI). Essa modalidade, rica em possibilidades, a despeito das crticas que lhe so devidas, requer alternativas que contribuam para fortalec-la e consolid-la. Para tanto, os caminhos atuais tm que ser alterados.</p><p>Essas preocupaes tm fundamento no exame dos dados dos Censos citados. Setenta por cento </p><p>to acelerado do ensino superior nessa modalidade. A equiparao da graduao EAD presencial, a nova legislao para esses cursos e a instituio da Universidade Aberta do Brasil abrem novas perspectivas de expanso da oferta desses cursos (Brasil, 2005; 2006). Mas o monitoramento das condies de oferta, que esto bem definidas nos instrumentos normativos federais (Brasil, 2007), no tem sido realizado com a eficcia necessria (Gatti &amp; Barretto, 2009).</p><p>Por outro lado, h muitos indcios de que a multiplicao de consrcios e polos para a oferta de cursos de licenciatura a distncia ocorre sem que um projeto poltico-pedaggico de formao docente mais adensado no mbito de sua articu-lao nacional e local tenha sido desenvolvido e compartilhado e sem que as estruturas operacio-nais bsicas estejam funcionando adequadamente. A crtica sobre a qualidade dos projetos pedag-gicos desses cursos tambm cabe, como veremos, aos cursos presenciais, mas a questo das estrutu-ras operacionais bsicas, a dos materiais especfi-cos que a EAD requer e a dos ambientes virtuais de aprendizagem que so necessrios reportam a essa modalidade de curso. Barreto (2008), anali-sando o portal da Universidade Aberta do Brasil, evidencia que a arquitetura do programa simples-mente remete ao cumprimento das metas estabe-lecidas no Plano nacional de Educao quanto ao nmero de vagas oferecidas na educao superior, mas a fundamentao pedaggica da proposta no explicitada, limitando-se referncia vaga da metodologia de EAD. Fica-se restrito dimen-so operacional das formulaes. Dourado (2008) lembra que preciso que a centralidade do projeto poltico-pedaggico seja estabelecida e ateno maior seja dada s condies efetivas de ensino--aprendizagem nesses cursos, de forma a romper com a prioridade conferida ao aparato tecnolgico e ao seu uso, subsumidos como responsveis dire-tos pela qualidade do ensino ofertada ou pela sua falta, o que um falso conceito.</p><p>nota-se pelos dados dos Censos, acima refe-ridos, que os alunos de EAD so, em mdia, dez anos mais velhos do que os dos cursos presenciais, o que sinaliza que a formao a distncia nas licen-ciaturas procurada tardiamente pelos segmentos sociais que demandam por esses cursos, os quais, em geral, j se acham no mercado de trabalho em </p></li><li><p>REVISTA USP So PAUlo n. 100 P. 33-46 DEZEMBRo/JAnEIRo/FEVEREIRo 2013-201438</p><p>Dossi Educao</p><p>dos cursos de pedagogia so a distncia: a pro-poro para as licenciaturas em matemtica de 61%; em letras, 55%. Verifica-se que entre os con-cluintes, em 2009, j se constatava que 58% dos formados em pedagogia e 45% dos formados em normal superior fizeram seus cursos a distncia. Esses professores trabalharo com crianas em tenra idade e com a alfabetizao, o que exige uma formao delicada, um aprendizado de relaes pessoais, pedaggicas, didticas, de formas de linguagem especficas. A modalidade a distncia no favorece de forma cabal esse tipo de formao, que implica aspectos psicossociais relacionais. o prprio currculo desses cursos emula o dos cursos presenciais, que no oferecem formao suficiente quanto a metodologias de alfabetizao e ao traba-lho na educao infantil, como adiante se ver por dados de pesquisa. </p><p>Temos problemas com a alfabetizao de crian-as no pas, como mostram as avaliaes nacionais e regionais, e como se evidencia pela preocupao do governo federal lanando a poltica de alfabe-tizao na idade c...</p></li></ul>