gÊnero e sexualidade nas pedagogias culturais: implicaÇÕes para a educaÇÃo infantil

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  • GNERO E SEXUALIDADE NAS PEDAGOGIAS

    CULTURAIS: IMPLICAES PARA A

    EDUCAO INFANTIL

    Jane Felipe de Souza

    O presente trabalho tem por objetivo problematizar as relaes existentes entre

    Pedagogia, gnero e sexualidade na educao infantil, a partir da perspectiva dos Estudos

    Culturais e dos Estudos Feministas, tendo como marco terico a abordagem ps-

    estruturalista de anlise. Isto implica em considerar a Pedagogia no como um mero

    domnio de habilidades ou tcnicas, mas como um modo de produo cultural diretamente

    envolvido na forma como o poder e o significado so utilizados na construo e na

    organizao do conhecimento. Assim a pedagogia e o currculo devem ser compreendidos a

    partir de sua intrnseca relao com as questes histricas, polticas e culturais, todas elas

    envolvidas nas tramas do poder, no sentido que lhe confere Foucault (1992).

    Para Giroux e McLaren (1995:144) a pedagogia est presente em qualquer lugar em

    que o conhecimento seja produzido, em qualquer lugar em que existe a possibilidade de

    traduzir a experincia e construir verdades, mesmo que essas verdades paream

    irremediavelmente redundantes, superficiais e prximas ao lugar-comum.

    Da mesma forma, podemos dizer que o currculo, assim como as demais prticas

    e/ou objetos culturais trabalha no sentido de produzir os sujeitos. Segundo Tomaz Tadeu da

    Silva (1995:195)

    O currculo no , assim, uma operao meramente cognitiva, em quecertos conhecimentos so transmitidos a sujeitos dados e formados deantemo. O currculo tampouco pode ser entendido como umaoperao destinada a extrair, a fazer emergir, uma essncia humanaque pr-exista linguagem, ao discurso e cultura. Em vez disso, ocurrculo pode ser visto como um discurso que, ao corporificar asnarrativas particulares sobre o indivduo e a sociedade, nos constituicomo sujeitos e sujeitos tambm muito particulares.

  • Este autor prossegue em sua argumentao afirmando que as narrativas contidas no

    currculo, de maneira explcita ou no, corporificam noes muito particulares sobre o

    conhecimento, as formas de organizao da sociedade e diferentes grupos sociais,

    estabelecendo, por exemplo, qual o conhecimento que pode ser considerado legtimo, quais

    as formas de conhecer que so vlidas, etc. Tais narrativas contidas no currculo trazem

    embutidas noes sobre quais os grupos sociais legitimados, a ponto de poderem

    representar a si e aos outros ou ainda quais os grupos sociais que so apenas representados

    ou at mesmo totalmente excludos de qualquer representao.

    Dentro deste processo encontram-se as relaes de gnero e a sexualidade, que

    embora nem sempre contempladas nos currculos das escolas e nos cursos de formao de

    professores/as como objeto de discusso e anlise, esto presentes na sociedade, sendo

    constantemente acionadas nas diversas relaes sociais e institucionais.

    O Feminismo e a emergncia do conceito de gnero

    O Feminismo foi, sem dvida, um importante movimento social que comeou a ter

    visibilidade no final do sculo XIX com o sufragismo.1 Posteriormente (final da dcada de

    60) o movimento, no processo que passou a ser considerado como segunda onda do

    feminismo, se expandiu para alm do seu sentido reivindicatrio, no s exigindo a

    igualdade de direitos, em termos polticos e sociais, mas constituindo-se tambm em crtica

    terica. Obviamente este no foi um movimento isolado, mas somou-se a outros

    movimentos igualmente importantes, como os movimentos estudantis, negros e outros,

    principalmente nos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e Frana.

    Stuart Hall (1997:49-50) mostra que o Feminismo introduziu aspectos inteiramente

    novos na sua luta de contestao poltica, na medida em que abordou temas como famlia,

    sexualidade, trabalho domstico, o cuidado com as crianas, etc. Alm disso

    1 O sufragismo, movimento no qual as mulheres reivindicavam o direito ao voto, considerado por muitosautores e autoras como a primeira onda do feminismo. Sobre a histria dos debates em torno das questesfeministas, ver o artigo de YANNOULAS, Silvia, Iguais mas no idnticos. Estudos Feministas, Rio deJaneiro, n. 1, 1994. Sobre a pesquisa feminista em seus aspectos metodolgicos, ver: HARDING, Sandra.Feminism and Methodology. Indiana. Indiana University Press, 1987.

  • enfatizou, como uma questo poltica e social, o tema da forma comosomos formados e produzidos como sujeitos generificados. Isto , elepolitizou a subjetividade, a identidade e o processo de identificao(como homens/mulheres, mes/pais, filhos/filhas)....aquilo quecomeou como um movimento dirigido contestao da posio socialdas mulheres, expandiu-se para incluir a formao das identidadessexuais e de gnero.

    O conceito de gnero surgiu entre as estudiosas feministas para se contrapor idia

    de essncia, recusando assim qualquer explicao pautada no determinismo biolgico, que

    pudesse explicar os comportamentos de homens e mulheres, empreendendo desta forma,

    uma viso naturalizada, universal e imutvel dos comportamentos. Tal determinismo serviu

    muitas vezes para justificar as desigualdades entre ambos, a partir de suas diferenas

    fsicas. O que importa, na perspectiva das relaes de gnero, discutir os processos de

    construo ou formao histrica, lingustica e social, institudas na formao de mulheres

    e homens, meninas e meninos.

    Os Estudos Feministas sempre estiveram preocupados com as relaes de poder

    entre mulheres e homens. A princpio, tais estudos procuravam chamar a ateno para as

    condies de explorao e dominao a que as mulheres estavam submetidas. Como refere

    Guacira Louro (1995), alm de uma ferramenta terica potencialmente til para os estudos

    das cincias sociais, o gnero despontava como uma importante categoria analtica para a

    Histria, em especial para a Histria da Educao. O carter poltico destes estudos pode

    ser considerado uma de suas marcas mais significativas:

    Objetividade e neutralidade, distanciamento e iseno, que haviam seconstitudo, convencionalmente, em condies indispensveis para ofazer acadmico, eram problematizados, subvertidos, transgredidos.Pesquisas passavam a lanar mo, cada vez com mais desembarao, delembranas e de histrias de vida; de fontes iconogrficas, de registrospessoais, de dirios, cartas e romances. Pesquisadoras escreviam naprimeira pessoa. Assumia-se, com ousadia, que as questes eraminteressadas, que elas tinham origem numa trajetria histricaespecfica que construiu o lugar social das mulheres e que o estudo detais questes tinham (e tem) pretenses de mudana (Louro, 1997:19).

  • preciso considerar, porm, que grande parte da produo brasileira vinculada aos

    Estudos Feministas nos ltimos anos se concentrou no estudo das mulheres. Questes

    ligadas feminizao do magistrio, bem como outras ocupaes vinculadas ao trabalho

    feminino, compuseram o maior nmero das pesquisas.2 Muitos destes trabalhos procuraram

    descrever a situao da mulher em termos de opresso e desigualdade social. No entanto,

    atualmente as pesquisas neste campo tm se voltado para o carter relacional dos gneros,

    entendendo que mulheres e homens, meninas e meninos so formados em relao - uns

    com os outros e tambm no entrecruzamento de outras categorias, como classe social,

    religio, etnia, nacionalidade, gerao (Louro, 1997; Meyer, 1998; Felipe, 1997). Os

    estudos de gnero no se limitam, portanto, aos estudos de/sobre mulheres mas incluem

    tambm a discusso em torno da construo das masculinidades, problematizando de que

    forma elas tm sido colocadas em discurso, como apontam os trabalhos de Connel (1995),

    Corrigan, Connel e Lee (1985), Heward (1988), Messner (1992 b), Morrel (1994), Kibby

    (1997), Louro (1995) e Peres (1995), entre outros.

    No entanto, o conceito de gnero tem sido utilizado de diversas maneiras, s vezes

    de forma equivocada ou mesmo banalizada, como argumenta Maria Jess Izquierdo (1994).

    Alguns trabalhos, por exemplo, apresentam enfoques neutralizantes e fixos, colocando o

    conceito de gnero como sinnimo de papis sexuais, esteretipos sexuais ou de

    identidades sexuais. o caso do Referencial Curricular Nacional para a Educao Infantil,

    em seu volume 2 (Brasil, 1999, p. 17-20) , ao afirmar que por volta dos cinco e seis anos a

    questo de gnero ocupa papel central na construo da identidade e que ocorre uma

    separao espontnea entre meninos e meninas. Pode-se perceber nesta afirmao um

    enfoque essencialista, atravs da naturalizao dos comportamentos de meninos e meninas,

    desconsiderando assim as construes histricas, sociais e culturais que levam a este tipo de

    situao. Desta forma o documento parece no estar preocupado em contemplar as

    discusses mais recentes na rea dos estudos de gnero, uma vez que se refere ao conceito

    de papis, esteretipos, identidade sexual e gnero sem a devida problematizao:

    2 Algumas pesquisas sobre magistrio feminino, das seguintes autoras: Cybele Almeida, Maria TherezaBernardes, Eliane Lopes, Maria Eliana Novaes, bem como pesquisas relativas ao trabalho feminino, deautoria de Eva Blay, Cristina Bruschini, entre outras, esto referidas no trabalho de ROSEMBERG, Fulvia eoutras. Mulher e educao formal no Brasil: estado da arte e bibliografia, 1994.

  • Mesmo quando o ambiente flexvel quanto s possibilidades deexplorao dos papis sociais, os esteretipos podem surgir entre asprprias crianas, fruto do meio em que vivem, ou reflexo da fase emque a diviso entre meninos e meninas torna-se uma forma de seapropriar da identidade sexual (Brasil, 1999: 42).

    Muitas autoras e autores tm afirmado a limitao do conceito de papis, pois os

    mesmos no permitem uma discusso mais ampla a respeito de poder, violncia e

    desigualdade (Scott, 1995; Louro, 1997, Costa, 1994). Um dos problemas relacionados

    abordagem de papis, que estes se restringem a formas muito especficas (como por

    exemplo, o papel de esposa, de me), sendo usados para se referir a um ideal normativo de

    comportamento ou mesmo designar esteretipos de papis em relao ao homem e

    mulher. Lia Zanota Machado (1992:26) observa que o conceito de gnero supera o de

    papel sexual, por sua demarcao mais frontal contra o determinismo biolgico.

    O mesmo pode ser dito em relao ao conceito de esteretipo, pois como assinala

    Tomaz Tadeu da Silva (1997: 21) em seu artigo A potica e a poltica do currculo como

    representao

    a noo de esteretipo, ao contrrio da noo de representaoenfatizada pela anlise cultural, est focalizada na representaomental. Nesse movimento individualizante, deixa-se de focalizar,precisamente, aquilo que na anlise cultural central: a cumplicidadeentre representao e poder... Nessa perspectiva, o esteretipo combatido por uma teraputica da atitude. Sem negar que a mudanade atitude possa ter algum papel numa estratgia poltica global, ointeresse da anlise cultural est centrado nas dimenses discursivas,textuais, institucionais da representao e no nas suas dimensesindividuais, psicolgicas.

    importante assinalar que a categoria gnero tem passado por significativas

    transformaes, possibilitando-lhe assim um carter mais dinmico. A princpio, vinculada

    a uma varivel binria arbitrria, que reforava dicotomias rgidas, passou a ser

    compreendida como uma categoria relacional e contextual, na tentativa de contemplar as

    complexidades e conflitos existentes na formao dos sujeitos. No entanto, ao invs de ser

    encarada como uma desvantagem, estas resignificaes do conceito, extremamente

  • necessrias, trazem uma maior vitalidade para a compreenso das relaes de gnero. Para

    Sandra Harding (1993:11)

    possvel aprender a aceitar a instabilidade das categorias analticas,encontrar nelas a desejada reflexo terica sobre determinadosaspectos da realidade poltica em que vivemos e pensamos, usar asprprias instabilidades como recurso de pensamento e prtica... Ascategorias analticas feministas devem ser instveis - teorias coerentese consistentes em um mundo instvel e incoerente so obstculos tantoao conhecimento quanto s prticas sociais.

    Tal instabilidade nos remete tambm ao conceito de identidade, pois este tem sido

    formulado a partir de diferentes abordagens tericas. Algumas interpretaes que buscam

    explicar como se produzem as identidades de gnero ou mesmo as identidades sexuais, se

    baseiam em estruturas de interao muito restritas (a esfera familiar, por exemplo),

    ignorando o fato de que as relaes de gnero esto conectadas a outros sistemas sociais,

    econmicos, polticos ou de poder, como salienta Joan Scott (1995).

    Gnero e educao infantil: uma articulao possvel e necessria

    Os estudos voltados para a educao da criana pequena tm aumentado

    consideravelmente nos ltimos anos, porm grande parte deles remete-se principalmente s

    questes de desenvolvimento motor, afetivo e cognitivo da criana, bem como a questes

    mais ligadas formao de profissionais, propostas pedaggicas e curriculares e polticas

    pblicas para a faixa etria de zero a seis anos. Muitos desses trabalhos so relatos de

    experincias vivenciadas no cotidiano das escolas infantis, porm no chegam a tratar das

    relaes de gnero ali presentes. Nota-se, portanto, que a produo acadmica brasileira

    carece de estudos nesta rea. Como refere Fulvia Rosemberg (1990, 1994), pouco se

    escreveu sobre a educao de meninos e meninas, principalmente na educao infantil. Ela

    observa que alguns trabalhos tm se limitado a discutir a relao professor/a-aluno/a ou

    ento o sexismo nos livros didticos.

    No entanto, importantes estudos tm sido feitos em outros pases, abordando as

    relaes de gnero na infncia, em especial nas escolas, como os trabalhos de Marina

    Subirats (1988; 1995), Valerie Walkerdine (1989, 1995), Naima Browne e Pauline France

  • (1988) e Lilian Fried (1989) . Destacam-se ainda vrios estudos etnogrficos realizados em

    escolas, com o objetivo de pesquisar as questes de gnero entre crianas escolarizadas,

    como os estudos de Julia Stanley (1995), Elizabeth Grugeon (1995) e Barrie Thorne (1993),

    entre outros.

    Marina Subirats (1988, 1995) observou que na Espanha h poucos estudos sobre

    relaes de gnero na escola. Ao pesquisar turmas de crianas entre 4 e 6 anos de idade,

    procurou mostrar que, desde a escola infantil, a criana aprende a desvalorizar todos as

    atividades consideradas femininas. Atravs da anlise dos registros verbais das professoras,

    constatou que o gnero feminino era afetado por uma negao constante, desde a linguagem

    utilizada, referindo-se s crianas sempre no masculino, at mesmo negao sistemtica

    de toda e qualquer conduta que pudesse ser identificada com comportamentos considerados

    femininos. Ela concluiu que a suposta igualdade existente na escola no surgia pela

    integrao das caractersticas presentes em ambos os gneros, mas pela negao ou

    excluso de um deles. A autora afirma que preciso aguar o olhar para perceber novas

    formas de discriminao, que tm se tornado cada vez mais sutis.

    Os estudos de Naima Browne e Pauline France (1988), desenvolvidos na Inglaterra,

    enfatizam o quanto sexismo e racismo se manifestam nas aes, na representao visual dos

    sexos e na utilizao da linguagem. Browne, por exemplo, analisa a histria do

    atendimento s crianas desde o sculo XIX at a dcada de 70, procurando demonstrar

    como algumas teorias cientficas tm se preocupado em explicar as diferenas entre pessoas

    ou grupos tomando como base a herana biolgica ou o ambiente. Elas observam ainda que

    desde o berrio as crianas so tratadas de forma diferente em funo do sexo, listando

    uma srie de reas ou situaes em que isto se d. Em relao ao choro, por exemplo, as

    autoras observam que os bebs masculinos so atendidos mais rapidamente quando choram,

    uma vez que muitas atendentes acham que meninos no devem/podem chorar, tratando,

    desta forma, de suprir as suas necessidades. J o choro das meninas, ao contrrio, mais

    tolerado.

    Valerie Walkerdine (1989, 1995) tambm traz uma importante contribuio para o

    entendimento das questes de gnero e poder presentes nas escolas infantis. Em sua anlise,

    feita em algumas escolas inglesas, observou que os meninos costumavam assumir, atravs

    da linguagem, uma posio de autoridade frente s meninas, e tambm entre eles, atravs

  • da competitividade. Estes estudos nos permitem observar o quanto os compartamentos so

    construdos a partir das concepes presentes numa dada sociedade, determinando assim

    efeitos de verdade que vo constituir os indivduos.

    Construindo identidades de gnero e identidades sexuais

    Alguns autores e autoras que se aproximam dos Estudos Feministas e dos Estudos

    Culturais, tm concebido a identidade de forma mais ampla, como um processo flexvel,

    plural. Stuart Hall (1997:13) critica o conceito de identidade marcadamente fixa, unificada

    e estvel, ao dizer que

    o sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos,identidades que no so unificadas ao redor de um eu coerente.Dentro de ns h identidades contraditrias, empurrando em diferentesdirees, de tal modo que nossas identificaes esto sendocontinuamente deslocadas.

    Este mesmo autor observa que tais concepes remetem ao fato de que no existe

    uma identidade prvia, inata, mas processos identificatrios que vo se construindo ao

    longo da existncia. Tais processos so influenciados pelos diversos atravessamentos que

    constituem os sujeitos - classe social, raa, etnia, religio, gnero, etc. Por estar sempre em

    formao, a identidade caracteriza-se pela incompletude. No entanto, mesmo estando todo

    o tempo em processo, a tendncia de imagin-la como resolvida, acabada, unitria .

    Esta fantasia em relao identidade (Hall, 1997:41)

    Surge no tanto da plenitude da identidade que j est dentro de nscomo indivduos, mas de uma falta de inteireza que preenchida apartir de nosso exterior, pelas formas atravs das quais nsimaginamos ser vistos por outros. Psicanaliticamente, ns continuamosbuscando a identidade, e construindo biografias que tecem asdiferentes partes de nossos eus divididos numa unidade porqueprocuramos esse prazer fantasiado da plenitude.

    Com relao identidade de gnero e identidade sexual tambm possvel

    entender que estas so plurais e esto em constante transformao. Tais identidades,

  • embora intimamente relacionadas, no so uma s coisa. Para Guacira Louro (1997),

    enquanto a identidade de gnero liga-se identificao histrica e social dos sujeitos, que

    se reconhecem como femininos ou masculinos, a identidade sexual est relacionada

    diretamente maneira com que os indivduos experenciam seus desejos corporais, das mais

    diversas formas: sozinhos/as, com parceiros do mesmo sexo ou no, etc. Dbora Britzman

    (1996:74) mostra que as identidades sexuais no so fixas, nem se instalam de forma

    automtica nos indivduos, mas vo se construindo ao longo da vida, pois, segundo esta

    autora,

    a identidade sexual est sendo constantemente rearranjada,desestabilizada e desfeita pelas complexidades da experincia vivida,pela cultura popular, pelo conhecimento escolar e pelas mltiplas emutveis histrias de marcadores sociais como gnero, raa, gerao,nacionalidade, aparncia fsica e estilo popular.

    Tanto as identidades de gnero quanto as identidades sexuais podem ser

    caracterizadas pela instabilidade, sendo, portanto, passveis de transformaes. Desta

    forma, torna-se temerrio estabelecer um momento determinado para que as identidades de

    gnero e as identidades sexuais sejam instaladas ou assentadas nos indivduos (Louro,

    1997). Desde que nascemos, estamos nos constituindo como sujeitos, com mltiplas

    identidades (de gnero, de etnia, religiosas, sexuais, etc), embora muitas vezes estes

    aspectos sejam ignorados, sendo vistos apenas sob a perspectiva essencialista.

    A sexualidade,3 por exemplo, tem sido colocada como central nossa existncia,

    como possvel depreender do Referencial Curricular Nacional para a Educao Infantil,

    ao afirmar que ela tem grande importncia no desenvolvimento e na vida psquica das

    pessoas, pois independentemente da potencialidade reprodutora, relaciona-se com o prazer,

    necessidade fundamental dos seres humanos (Brasil, 1998:17).

    Esse discurso naturalizante e universal em torno da sexualidade tem produzido

    poderosos efeitos de verdade. No entanto, Jeffrey Weeks (no prelo) observa que a

    sexualidade, embora tendo como suporte um corpo biolgico, deve ser vista como uma

    3 O termo sexualidade ser aqui usado no sentido de Weeks, como uma descrio geral para a srie de

    crenas, comportamentos, relaes e identidades socialmente construdas e historicamente modeladas que se

    relacionam com o que Michel Foucault (1979) denominou o corpo e seus prazeres (Weeks, no prelo).

  • construo social, uma inveno histrica, pois o sentido e o peso que lhe atribudo so

    modelados em situaes sociais concretas. A sexualidade tida como a verdade

    definitiva sobre ns mesmos e sobre nossos corpos: ao invs disso, ela nos diz algo mais

    sobre a verdade da nossa cultura (grifo meu).

    A sexualidade tem sido alvo de constante controle por parte da famlia, da escola e

    dos diversos aparatos culturais, incluindo-se aqui os livros didticos e para-didticos, como

    nos mostra o exemplo a seguir:

    Meninos de pr-escola que apresentam comportamento feminino, ouque s gostam de brincar com as meninas, devem ser incentivados demaneira gentil mas firme a participar das atividades tipicamentemasculinas... Os meninos que apresentam trejeitos femininos muitoacentuados, alm das atitudes tomadas pela escola, devem serencaminhados para tratamento psicolgico (Suplicy, 1990:77)

    possvel observar que mesmo tendo sido colocada em discurso de forma to

    intensa nas ltimas dcadas, ela mais do que nunca tem sido vigiada e controlada (Felipe,

    1998). Em relao escola, por exemplo, muitas/os educadoras/es tm tomado para si a

    responsabilidade de atuarem como vigilantes da sexualidade infantil, na tentativa de

    moldarem os comportamentos que consideram mais apropriados para meninos e meninas.

    O que nos cabe como educadoras/es?

    Dentro da perspectiva dos Estudos Culturais, cabe s professoras e professores

    ultrapassar seus papis de meros transmissores/as de informao, uma vez que elas/es so

    produtores/as culturais profundamente implicados/as nas questes pblicas, como tem

    afirmado Giroux (1995) . necessrio, pois, ampliar a definio de pedagogia e currculo,

    no se limitando simplesmente ao domnio de tcnicas e metodologias.

    Outro ponto importante reside no fato de que a linguagem deve ser estudada no

    como um mero dispositivo de expresso mas como uma prtica histrica contigente,

    ativamente envolvida na produo, organizao e circulao de textos e poderes

  • institucionais (Giroux, 1995: 95). importante analisar como a linguagem funciona para

    incluir ou excluir significados, assegurar ou marginalizar formas particulares de

    comportamentos. Neste sentido, os textos no podem ser entendidos fora de seu contexto de

    produo histrica, social e cultural.

    preciso ainda considerar que estas questes tm sido muito pouco discutidas nas

    escolas, nos cursos de Pedagogia e nos cursos de formao de professoras/es em geral.

    Segundo Giroux (1995:100) a pedagogia deve ser responsabilizada tica e politicamente

    pelas estrias que produz, pelas asseres que faz sobre as memrias sociais e pelas

    imagens do futuro que considera legtimas.

    Shirley Stainberg (1997) aponta para a necessidade de que pais, mes,

    professoras/es, psiclogas/os infantis e demais profissionais voltados para o

    cuidado/educao de crianas tenham uma viso de infncia/criana que d conta dos

    efeitos da cultura popular em suas auto-imagens e suas vises de mundo. Examinar os

    materiais didticos e pra-didticos voltados para as crianas pequenas, bem como os

    diversos objetos culturais - brinquedos, filmes, etc, so fundamentais para perceber de que

    forma eles trazem concepes de gnero, sexualidade, raa/etnia, gerao, nacionalidade,

    pautadas muitas vezes pela desigualdade. Em um mundo marcado pela diversidade,

    fundamental no compactuarmos com a idia de que as diferenas sejam transformadas em

    desigualdades.

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