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  • Ravagnani. Intersubjetividade e reconhecimento...

    Rev. Simbio-Logias, V.1 , n. 2, Nov/2008. 1

    INTERSUBJETIVIDADE E RECONHECIMENTO: HONNETH LEITOR DO JOVEM HEGEL

    Herbert Barucci Ravagnani1

    Resumo A fim de dar conta de seu projeto crtico, o qual procura resgatar o conflito como categoria essencial para compreender a lgica das mudanas sociais e a evoluo moral da sociedade, Axel Honneth recorre a Hegel como uma de suas principais fontes tericas, e realiza uma sistemtica anlise de seus escritos de juventude, principalmente sua tese da luta por reconhecimento, vendo nela a intuio necessria para realizao de seu projeto. Nosso trabalho procurar explicitar os pontos principais, relativos a intersubjetividade e ao reconhecimento, da empreitada honnethiana. Palavras-chave: intersubjetividade; reconhecimento; Hegel; Honneth. Introduo

    O Instituto de Pesquisa Social nasce junto Universidade de Frankfurt em 1924 com o

    propsito de construir um grande programa de pesquisa interdisciplinar com fundamentao

    nas obras de Marx e do marxismo, dando incio assim, vertente intelectual chamada de

    Teoria Crtica. Segundo Nobre (2003, pg. 08), Teoria Crtica designa um campo terico

    bem mais amplo do que o termo Escola de Frankfurt surgido na dcada de 50 como uma

    forma de interveno poltico-intelectual no debate pblico da Alemanha do ps-guerra.

    Originariamente identificada com o marxismo por Horkheimer em seu texto Teoria

    Tradicional e Teoria Crtica de 1937, a partir da dcada de 40 a Teoria Crtica passa a se

    distanciar das orientaes puramente marxistas, e j com Adorno e Horkheimer realiza outros

    diagnsticos, sobre a sociedade capitalista, distintos dos daqueles marxistas tradicionais

    (Habermas tambm realiza o mesmo movimento a partir da dcada de 60), fazendo uso tanto

    da crtica da economia poltica e da psicologia oriunda de Freud, como da crtica da cultura

    (HONNETH, 1999, p. 511-512), sem, entretanto, deixar de se pautar pela orientao para a

    emancipao da dominao e pela possibilidade efetiva da construo de uma sociedade de

    mulheres e homens livres e iguais, princpios fundamentais da Teoria Crtica, inspirados em

    Marx, que possibilitam o estabelecimento da Teoria Crtica como uma vertente intelectual

    permanente.

    1 Mestrando do Programa de Ps-Graduao em Filosofia da UNESP/ Marlia, bolsista FAPESP com o projeto Conflito, reconhecimento e justia: uma nova forma Teoria Crtica, sob orientao da Profa. Dra. Cllia Aparecida Martins, do programa de Ps-Graduao em Filosofia da UNESP. E-mail: herbertbarucci@yahoo.com.br.

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    Axel Honneth pode ser includo na tradio da Teoria Crtica pois, assim como

    Habermas, seus trabalhos se caracterizam por produzir uma posio terica contrastante com

    a de seus antecessores, construindo solues a impasses observados na filosofia de Habermas,

    tal como este havia feito com Adorno e Horkheimer. Alm disso, ambos os autores no s

    tentaram suplantar os dficits da teoria crtica anterior como tambm desenvolveram suas

    perspectivas tericas a partir das idias e projetos anteriores2.

    Honneth procura um novo rumo teoria social crtica ao dar nfase aos processos de

    construo da identidade pessoal e coletiva e ao salientar a importncia da luta por

    reconhecimento nestes processos. Da sua teoria social colocar no centro das investigaes

    categorias como conflito social e reconhecimento.

    Para ele a realidade social do conflito estruturante da intersubjetividade, assim como

    a luta por reconhecimento se manifesta por ser o lugar da articulao e constituio da

    subjetividade e identidade individual e coletiva: Para Honneth, a teoria crtica tem de

    procurar dar expresso s experincias de injustia social dos sujeitos portanto para

    desfazer o dficit sociolgico, a sada apontada por Honneth a de desenvolver o

    paradigma da comunicao mais em direo aos pressupostos sociolgicos ligados teoria

    da intersubjetividade nos diz Werle e Melo (2007, pg. 12). A construo da teoria crtica

    para Honneth, ento, tem que colocar na base da interao, o conflito social sendo a sua

    gramtica a luta por reconhecimento. Com essa formulao Honneth procura desfazer o

    carter abstrato que Habermas d sua teoria crtica, subestimando o conflito como agente

    indispensvel no processo de socializao e emancipao humano. A sua busca pelas

    configuraes sociais e institucionais dadas pelos conflitos sociais para posteriormente

    identificar as suas lgicas, e seu intento com isso aproximar a sua teoria social s aplicaes

    empricas das cincias humanas.

    O empreendimento de Honneth, se analisado atentamente, apresenta em linhas gerais

    semelhana com o do jovem Hegel do perodo de Jena no momento de sua insatisfao com a

    idia kantiana de autonomia individual, considerada essencialmente formalista. Hegel se

    preocupava intensamente na poca com os aspectos universalistas de sua filosofia, no entanto,

    no admitia que esses aspectos limitassem o desenvolvimento do indivduo singular; pelo

    contrrio, defendia que as pretenses universalistas deveriam satisfazer por completo o

    desenvolvimento do singular. Tal semelhana entre os dois pensadores no coincidncia.

    2 Habermas viu na mmese de Horkheimer e Adorno uma forma de interao social que ele tentou decifrar por meio da ao comunicativa, e Honneth evidentemente utilizou-se das abordagens habermasianas sobre a filosofia do jovem Hegel, principalmente no captulo Trabalho e interao de Tcnica e cincia como ideologia de 1968.

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    Toda a primeira parte de sua Luta por reconhecimento: a gramtica moral dos conflitos

    sociais (2003a) Honneth dedica a um estudo pormenorizado do jovem Hegel, reconhecendo

    nele a raiz para sua teoria do reconhecimento e para suas reflexes sobre a gramtica moral

    dos conflitos sociais. A normatividade que Honneth procura, ento, est na luta social

    entendida no como busca pela autoconservao fsica ou pelo aumento relativo de poder,

    concepo tradicional tanto na filosofia poltica moderna como na tradio sociolgica, mas

    como forma de reconhecimento de identidades individuais e coletivas, exigncia posta pela

    ocorrncia de aes de desrespeito social. A luta por reconhecimento motivada por uma

    fora moral que promove desenvolvimentos sociais:

    A reconstruo da lgica dessas experincias do desrespeito e do desencadeamento da luta em sua diversidade se articula por meio da anlise da formao da identidade prtica do indivduo num contexto prvio de relaes de reconhecimento. (NOBRE, 2003, pg. 18).

    Honneth pode, ento, estabelecer trs dimenses do reconhecimento: a autoconfiana,

    conquistada pela criana nos primeiros anos de vida juntamente com a me; o auto-respeito,

    que possibilita a escolha racional entre normas, possibilidade que o torna merecedor do

    reconhecimento jurdico; e, por fim, a valorao social que permite o reconhecimento de

    qualidades originais individuais ou diferenciais. com esse aparato que o autor pretende

    extrair os princpios e regras pelos quais a sociedade se desenvolve, ou seja, a normatividade

    prpria do desenvolvimento social e sua configurao moral, colocando no centro de sua

    teoria crtica os conceitos de conflito e reconhecimento.

    Hegel e o enfoque novo da Teoria da Intersubjetividade

    Honneth, ento, recorre a Hegel como uma de suas principais fontes tericas, e essa

    tambm uma das caractersticas metodolgicas fundamentais que o distingue de Habermas, j

    que este desenvolve sua teoria crtica numa linha explicitamente kantiana. por isso que

    Hegel tem importncia basilar em Luta por reconhecimento, dedicado a ele, no incio da obra,

    conforme j exposto, uma sistemtica anlise de seus escritos do perodo de Jena,

    principalmente no que se refere aos aspectos intersubjetivistas contidos nestes escritos e que

    conduzem concepo de reconhecimento como um pano de fundo tico onde se do os

    conflitos. Honneth se utiliza, para seu estudo, fundamentalmente dos textos Maneiras

    cientificas de tratar o direito natural de 1802, Sistema da eticidade3 de 1802/1803, e Sistema

    3 Ou O sistema da vida tica (System der Sittlichkeit) (1991).

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    da filosofia especulativa ou Realphilosophie de 1805/1806, todos do perodo de juventude de

    Hegel. Para os objetivos de nosso trabalho aqui, estritamente necessrio analisar e

    compreender o modo como Honneth interpreta o pensamento do jovem Hegel, e em particular

    os seus conceitos de intersubjetividade, reconhecimento e conflito.

    Segundo Honneth, Hegel se depara com a problemtica do contratualismo num

    contexto bem distinto do de Hobbes e Maquiavel (2003a, pg. 37). Sua familiaridade e

    simpatia pela intersubjetividade da vida pblica contida nos escritos polticos de Plato e

    Aristteles, assim como sua crtica aos pressupostos individualistas da filosofia moral de

    Kant, e a influncia que recebeu da economia poltica inglesa, o fazem reinterpretar o modelo

    de luta social hobbesiano e as abordagens de seu tempo sobre o direito natural, o qual agora

    goza de muito mais importncia visto o aperfeioamento das relaes de

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