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LEITURA, CITAO E APROPRIAO EM PARA TER ONDE IR

Jos Francisco da Silva Queiroz (UFPA)

Resumo: Diversas so as referncias orientais que moldam o substrato imagtico e

filosfico encontrado em Para ter onde ir (1992), um dos ltimos livros de Max

Martins. A leitura de suas obras produzidas na dcada de 1980 refora a percepo de

um longo trabalho de pesquisa que buscou o dilogo com a cultura do Oriente. A

publicao de Para ter onde ir demarca a culminncia de um perodo muito importante

para a poesia de Max Martins, nessa dcada o poeta publicou quatro livros e, entre 1986

e 1989, escreveu os versos que dariam corpo ao seu livro menos conhecido. Esta obra

nasceu do ato da leitura que se apropriou dos ensinamentos depreendidos a partir da

consulta ao orculo chins: I Ching. O processo de composio empregado retomou o

simbolismo expresso pelos hexagramas reutilizando suas metforas para criar grande

parte dos poemas. Nossa proposta investigativa busca compreender os efeitos estticos

das imagens recortadas, dos ensinamentos assimilados e das citaes feitas pelo

poeta luz de um jogo proftico.

Palavras-chave: poesia, leitura, citao.

Parece bvio comentar a conexo existente entre os livros de um poeta, mas no

caso de Para ter onde ir nada to simples. Alm de seus poemas resultarem de um

sofisticado trabalho de citao, apropriao e dilogos intertextuais com a prpria obra

do poeta; podemos identificar uma srie de surpresas e Easter eggs que ajudam a

entender a proposta potica desse livro. Dos vinte e dois poemas que o integram quinze

foram escritos em 1986, um ano muito significativo, pois nele Max Martins completava

60 anos de idade e 35 de atividade potica, ganhando a publicao do livro-homenagem

60/35. A jornada reaparece nesse livro de forma muito particular, respondendo a um

processo de composio inusitado, a viagem to flagrante em outras obras pode aqui

associar-se a consulta-leitura de um livro milenar: o I Ching.

O ttulo Para ter onde ir no conjunto da obra de Max Martins evoca

um assunto recorrente: a jornada. Em livros como Hera e Caminho

de Marahu torna-se evidente, em alguns poemas, a propenso do eu

lrico em recorrer a imagens de caminhos percorridos, descolamentos

e o retorno de certa viagem empreendida. (...) Peregrinar conhecer-

se, conhecendo-se pela linguagem e no trajeto cursado. Como em

nenhum outro livro Para ter onde ir apropria-se da simbologia da

jornada, tornando-se o ttulo claramente temtico. Afinal, a

admoestao repetida em poemas como Ir, Sem abrigo, Em

viagem e A cabana quanto necessidade do ato de deslocar-se,

viajar, partir (QUEIROZ, 2013, p. 99).

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Na dissertao de mestrado de Jos Mariano Klautau de Arajo Filho, A

transformao da Imagem e o Movimento da palavra na poesia de Max Martins (2000),

um dos primeiros trabalhos a abordar Para ter onde ir, o pesquisador teve acesso aos

dirios e ao exemplar do I Ching consultado por Max, podendo estudar o processo

criativo que culminou com um livro feito como agradecimento e fecho de mais um

ciclo dentro de sua produo.

O livro Para ter onde ir nasceu do final de outro, ou melhor, de uma

srie de poemas intitulado 60/35 (...) Ao terminar a srie, o poeta

consulta o I Ching e operando as regras do jogo da sorte oferecidas

pelo orculo chins, pergunta se tinha sido bem sucedido naquela srie

de poemas. Da resposta dada pelo orculo, nasce um poema que acaba

por fechar o referido conjunto e ao mesmo tempo inicia uma outra

fase, desta vez inteiramente apoiada no jogo do I Ching (FILHO,

2000, p. 53 54).

As citaes que Para ter onde ir traz em sua condio de livro acabado

comeam pela capa. Quando atentamos ao ttulo ali impresso podemos notar a curiosa

ausncia das duas letras e que deveriam estar grafadas no verbo ter e no advrbio

onde. Elas foram substitudas por linhas contnuas e descontnuas que sem o devido

olhar cuidadoso podem passar despercebidas ou mesmo serem ignoradas como algum

recurso grfico estilizado. Ao encararmos atentamente ao ttulo perceberemos que a

substituio das letras no foi gratuita, foram utilizados dois hexagramas: o primeiro

de nome Qian, traduzido em portugus como humildade; o segundo nomeado

como L traduziu-se em portugus por viagem; o uso desses hexagramas oferece uma

pista fundamental para iniciarmos o trabalho interpretativo que se prope a entender

Para ter onde ir como a verso potica do I Ching. O procedimento compositivo

utilizado por Max envolveu a consulta ao orculo chins, de sua leitura houve a seleo

de trechos, palavras e metforas que foram posteriormente citadas no corpo dos poemas,

perdendo quase que totalmente a relao com sua origem. As citaes no trazem aspas,

nem qualquer outro recurso que marque o uso do texto alheio; ao leitor que desconhecer

o trabalho de crtica de gentica feito por Jos Mariano Klautau A. Filho somente a capa

poderia sugestionar uma relao entre Para ter onde ir e o I Ching.

Ela (a citao) supe, na verdade, que uma outra pessoa se apodere da

palavra e a aplique a outra coisa, porque deseja dizer alguma coisa

diferente. O mesmo objeto, a mesma palavra muda de sentido segundo

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a fora que se apropria dela: ela tem tanto sentido quantas so as

foras suscetveis de se apoderar dela. O sentido da citao seria, pois,

a relao instantnea da coisa com a fora real que a impulsiona

(COMPAGNON, 2007, p. 48).

Ler o I Ching uma experincia que implica, antes de sua leitura efetiva, aceit-

lo como um livro oracular possuidor de uma mensagem solene que para ser transmitida

precisa por parte do leitor/consulente a disposio para o procedimento ritualstico do

uso de instrumentos (moedas, pedras, varetas...). O leitor deve obedecer s regras que

direcionam a leitura, pois sua observncia um dos requisitos para que se alcance a

revelao, o conhecimento, o aconselhamento. A leitura do I Ching algo particular, a

mensagem obtida com o jogo das moedas (ou a tcnica que seja) fornece um

aconselhamento ntimo. Mas essa experincia foi transposta para o domnio coletivo da

comunicao potica. Para ter onde ir comporta-se como uma obra de aprendizagem e

de ensinamento. Assim, ao retomarmos os hexagramas do ttulo identificamos os

conceitos bsicos desenvolvidos nos poemas: a humildade que um valor a ser

perseguido pelo sbio/poeta e a viagem representando o movimento cclico do

universo.

Max Martins ento se apropriou da imagtica, dos signos e da milenar filosofia

Taosta para produzir um livro que tambm se comporta como obra de instruo e

aprimoramento pessoal, ensinando um caminho (O Tao), propondo que seus poemas

fossem lidos no apenas como uma realizao esttica, mas como textos de

aconselhamento. O aspecto que refora o carter instrutivo dos poemas a marcao

pronominal da 2 pessoa do singular (tu, tua, o sujeito desinencial ests, triunfas etc.), a

fora dos verbos no imperativo e o consequente convite decifrao dos versos. Uma

vez que aceitamos o desafio da leitura iniciamos a jornada em busca do significado,

com essa descoberta estaramos de posse no somente da mensagem potica, teramos

adquirido um pouco mais de autoconhecimento. Estamos diante da poesia que ensina,

questiona e desafia.

O poema que abre o livro, Ir, apresenta o trao admoestativo que ser reiterado

em vrios outros poemas, alm de trazer um de seus temas principais incrustado no

ttulo: a viagem. O poeta reproduz o conselho do Velho Rei, simples e direto, sem

nenhum torneio verbal estranho ao formato potico usado por Max Martins. A figura do

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rei que ri ao aconselhar, ao dizer o quo oportuno prosseguir, ter onde ir, simboliza

a necessidade de mudana que foi percebida pelo Rei Wen, um dos autores do I Ching.

Ir

Ter onde Isto

aconselhvel diz

o Velho Rei

e ri

O hexagrama L alm de trazer entre os seus conselhos a necessidade de

mudana quando se atinge um estado superior de abundncia, adverte sobre os perigos

que podem se abater sobre quem inicia uma jornada. O caminho deve ser percorrido,

mas com cautela, pois que o viajante deve manter a perseverana e a retido. Assim,

haver boa fortuna (I CHING, 2012, p. 438). O momento de tenso existente no processo

de mudana, no itinerrio do Andarilho, deveria ser compensado pela meditao e pelo

estado de alerta.

Sem abrigo. Em viagem

Malevel, reflexivo, cauteloso

viajo no teu tempo

- tempo excessivo

O caminhante ao percorrer o longo trajeto em busca da harmonia perdida

aprenderia a ser paciente, reconheceria que por mais longa que fosse a jornada, por mais

difcil que parecesse o percurso, se mantivssemos a perseverana, chegaramos ao

lugar de repouso, ao descanso merecido, com mais sabedoria do que na partida. A

simbologia Taosta imiscuda aos versos de Para ter onde ir projeta-se em imagens que

tematizam conselhos, palavras que evocam conceitos que ao serem apropriados por Max

perfazem uma dinmica de combinao com trechos recortados dos conselhos de

Confcio, das decises do Rei Wen1