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  • 1. O Homem Revoltado Albert Camus Quando foi publicado pela primeira vez em 1951, O Homem Revoltado valeu a Albert Camus um verdadeiro linchamento promovido por intelectuais franceses encabeados pelo romancista e filsofo Jean-Paul Sartre. O ataque de Camus aos crimes perpetrados em nome da revolta repercutiu mal, e ele ainda foi acusado de defender a liberdade de forma simplista, privilegiando a questo individual. Foi assim que, por vrias dcadas, a complexidade de seu pensamento foi reduzida a uma tese de direita. Stlin ainda vivia, muita gente comeava a se desentender com o Partido Comunista, mas apesar disso Camus no podia ser perdoado ao criticar igualmente a violncia e o totalitarismo de direita e esquerda. No se podia aceitar uma crtica to forte contra as prises e os assassinatos perpetrados em nome da revoluo. O novo humanismo de Camus talvez por vezes contraditrio, mas certamente sincero era repudiado radicalmente. A amargura do consagrado autor de O Estrangeiro e A Peste foi canalizada ento em 1956 com A Queda, romance-monlogo de impressionante expressividade e fora.

2. Albert Camus O Homem Revoltado Traduo de VALERIE RUMJANEK 9" EDIO EDITORA RECORD RIO DE JANEIRO SO PAULO 2011 CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Camus, Albert, 1913-1960 C218h Q homem revoltado / Albert Camus; traduo T ed. Valerie Rumjanek. - 9^ ed. - Rio de Janeiro: Record, 2011. 352p. Traduo de: Lhomme rvolt ISBN 978-85-01-04548-5 1. Totalitarismo. 2. Revolues. I. Ttulo. CDD-321. 9 96-1824 CDU-321.6 4 Ttulo original francs LHOMME RVOLT Copyright 1951 by ditions Gallimard Cdigo 04548/4 Capa: Victor Burton Direitos exclusivos de publicao em lngua portuguesa para o Brasil adquiridos pela EDITOR A RECOR D LTDA. Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 2585-2000 que se reserva a propriedade literria desta traduo Impresso no Brasil ISBN 978-85-01-04548-5 3. "E abertamente entreguei meu corao terra sria e doente, e muitas vezes, na noite sagrada, prometi am-la fielmente at a morte, sem medo, com a sua pesada carga de fatalidade, e no desprezar nenhum de seus enigmas. Dessa forma, liguei-me fatalidade por um elo mortal." Hlderlin A morte de Empdocles 4. Sumrio INTRODUO: O absurdo e o assassinato I. O HOMEM REVOLTADO II. A REVOLTA METAFSICA Os FILHOS DE CAiM A NEGAO ABSOLUTA Um homem de letras A revolta dos dandis A RECUSA DA SALVAO A AFIRMAO ABSOLUTA O nico Nietzsche e o niilismo 5. A POESIA REVOLTADA 103 Lautramont e a banalidade 104 Surrealismo e revoluo 111 NIILISMO E HISTRIA 124 III. A REVOLT A HISTRIC A 129 OS REGICIDAS 138 O novo evangelho 141 A execuo do rei 144 A religio da virtude 148 O Terror 152 OSDEICDIOS 161 O TERRORISMO INDIVIDUAL 17 8 A renncia virtude 180 Trs possessos 183 Os assassinos delicados 195 O chigalevismo 204 O TERRORISMO DE ESTADO E O TERROR IRRACIONAL 208 O TERRORISMO DE ESTADO E O TERROR RACIONAL 219 A profecia burguesa 220 A profecia revolucionria 230 O malogro da profecia 244 O reino dos fins 261 Totalidade e julgamento 269 REVOLTA E REVOLUO 282 IV. REVOLTA E ART E 289 Romance e revolta 297 Revolta e estilo 307 6. Criao e revoluo 312 V. O PENSAMENTO MEDITERRNEO 319 REVOLTA E ASSASSINATO 321 O assassinato niilista 325 O assassinato histrico 329 MEDIDA E DESMEDIDA 337 O pensamento mediterrneo 341 ALM DO NIILISMO 346 7. Introduo H crimes de paixo e crimes de lgica. O cdigo penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditao. Estamos na poca da premeditao e do crime perfeito. Nossos criminosos no so mais aquelas crianas desarmadas que invocavam a desculpa do amor So, ao contrrio, adultos, e seu libi irrefutvel: a filosofia pode servir para tudo, at mesmo para transformar assassinos em juizes. Heathcliff, em O morro dos ventos uivanteSy seria capaz de matar a terra inteira para possuir Kathie, mas no teria a idia de dizer (|ue esse assassinato racional ou justificado por um sistema. Ele o cometeria, a termina toda a sua crena. Isso implica a fora do amor e carter Sendo rara a fora do amor, o crime continua excepcional, conservando desse modo o seu aspecto de transgresso. Mas a partir do momento em que, na falta do carter, o homem corre para refugiar-se em uma doutrina, a partir do instante em que o crime racionalizado, ele prolifera como a prpria razo, assumindo todas as figuras do silogismo. Ele, que era solitrio como o grito, ei-lo universal como a cincia. Ontem julgado, hoje faz a lei. No nos indignaremos contra isso. O propsito deste ensaio , uma vez mais, aceitar a realidade do momento, que o crime lgi 8. CO, e examinar cuidadosamente suas justificaes: trata-se de uma tentativa de compreender o meu tempo. Pode-se achar que uma poca que em cinqenta anos desterra, escraviza ou mata setenta milhes de seres humanos deve apenas, e antes de tudo, ser julgada. Mas, tambm necessrio que a sua culpabilidade seja entendida. Nos tempos ingnuos em que o tirano arrasava as cidades para sua maior glria; em que o escravo acorrentado biga do vencedor era arrastado pelas ruas em festa; em que o inimigo era atirado s feras diante do povo reunido, diante de crimes to cndidos, a conscincia conseguia ser firme, e o julgamento, claro. Ma s os campos de escravos sob a flmula da liberdade, os massacres justificados pelo amor ao homem pelo desejo de super-humanidade anuviam, em certo sentido, o julgamento. N o momento em que o crime se enfeita com os despojos da inocncia, por uma curiosa inverso peculiar ao nosso tempo, a prpria inocncia intimada a justificar-se. Este ensaio pretende aceitar e examinar esse estranho desafio. Trata-se de saber se a inocncia, a partir do momento em que age, no pode deixar de matar. S conseguimos agir no nosso prprio tempo, entre os homens que nos cercam. Nada saberemos, enquanto no soubermos se temos o direito de matar este outro que se acha diante de ns ou de consentir que seja morto. J que atualmente qualquer ao conduz ao assassinato, direto ou indireto, no podemos agir antes de saber se, e por qu, devemos ocasionar a morte. O essencial, portanto, no ainda remontar s origens das coisas, mas, sendo o mundo o que , saber como conduzir-se nele. N o tempo da negao, podia ser til examinar o problema do suicdio. No tempo das ideologias, preciso decidir-se quanto ao assassinato. Se o assassinato tem suas razes, nossa poca e ns mesmos estamos dentro da conseqncia. Se no as tem, estamos loucos, e no h outra sada seno encontrar uma conseqncia ou desistir. E nossa tarefa, em todo o caso, responder claramente questo (|ue nos formulada, no sangue e nos clamores do sculo. Pois lazemos parte da questo. H trinta anos, antes de se tomar a deciso de matar, tinha-se negado muito, a ponto de se negar a si mesmo pelo suicdio. Deus trapaceia, todos so trapaceiros como ele, inclusive eu, logo, resolvo morrer: o suicdio era a questo. Atualmente, a ideologia nega apenas os outros, s eles so trapaceiros. E ento que se mata. A cada amanhecer, assassinos engalanados se esgueiram para dentro de uma cela: o crime de morte a questo. Os dois raciocnios se sustentam. O u melhor, eles nos sustentam, 9. e de maneira to urgente que no podemos mais escolher nossos problemas. So eles que, um aps outro, nos escolhem. Aceitemos essa escolha. Este ensaio se prope a prosseguir, diante do assassinato e da revolta, uma reflexo comeada em torno do suicdio e da noo de absurdo. rvias, por ora, esta reflexo s nos oferece uma nica noo, a do absurdo. Esta, por sua vez, s nos traz uma contradio no que se refere ao assassinato. O sentimento do absurdo, quando dele se [iretende, em primeiro lugar, tirar uma regra de ao, torna o crime de morte pelo menos indiferente e, por conseguinte, possvel. Se no se acredita em nada, se nada faz sentido e se no podemos afirmar nenhum valor, tudo possvel e nada tem importncia. No h pr nem contra, o assassino no est certo nem errado. Podemos atiar o fogo dos crematrios, assim como tambm podemos nos dedicar ao cuidado dos leprosos. Malcia e virtude toruam- se acaso ou capricho. Decidir-se- ento no agir, o que implica no mnimo aceitar o assassinato dos outros, apenas deplorando coerentemente a imperfeio dos homens. Pode-se ainda imaginar a substituio da ao pelo diletantismo trgico, e, neste caso, a vida humana no passa de uma parada no jogo. Neste ltimo caso, na falta de um valor mais alto que oriente a ao, dirigir-se- para a eficcia imediata. 10. Se nada verdadeiro nem falso, bom ou mau, a regra ser mostrarse o mais eficaz, quer dizer, o mais forte. O mundo no estar mais dividido em justos e injustos, mas em senhores e escravos. Desta forma, no importa para que lado nos voltemos, no mago da negao e do niilismo, o assassinato tem um lugar privilegiado. Se, portanto, pretendemos nos instalar na atitude absurda, devemos estar preparados para matar, dando assim mais peso lgica do que a escrpulos que consideraremos ilusrios. Certamente, seriam necessrios alguns arranjos. Mas, em suma, menos do que se poder imaginar, se levarmos em conta a experincia. Alm disso, sempre possvel, como se v todos os dias, deixar que os outros matem por ns. Assim, tudo seria acertado em nome da lgica, se a lgica fosse realmente satisfeita. Ma s a lgica no pode encontrar satisfao numa atitude que deixa perceber que o assassinato ora possvel, ora impossvel. Isso porque a anlise absurda, aps ter tornado no mnimo indiferente o ato de matar, na mais importante de suas conseqncias, acaba por conden-lo. A concluso ltima do raciocnio absurdo , na verdade, a rejeio do suicdio e a manuteno desse confronto desesperado entre a interrogao humana e o silncio do mundo.' O suicdio significaria o fim desse confronto, e o raciocnio absurdo considera que ele no poderia endoss-lo sem negar suas prprias premissas. Tal concluso, segundo ele, seria fuga ou liberao. Ma s fica claro que, ao mesmo tempo, esse raciocnio admite a vida como o nico bem necessrio porque permite justamente esse confronto, sem o qual a aposta absurda no enc

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