o livro dos sbios - eliphas levi

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O Livro Dos Sábios - Eliphas Levi

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  • O Livro dos Sbios

    por

    Eliphas Levi introduo

    Publicar o "LIVRO DOS SBIOS", expressa grande reverncia ao Mestre que, pelo ano de 1850, comeou a era da ampla e conhecida divulgao dos mistrios iniciticos reais, os quais no haviam sido jamais publicados na Europa de forma to clara, metdica e completa; tanto assim que, Papus, proclama com respeito e jbilo, sua admirao por Eliphas Levi, quem depois de ter verificado toda a tradio oriental, judaico-cabalstica e crist, pe de manifesto em suas obras, a identidade absoluta dos ensinamentos tradicionais, demonstra a realidade da realizao mgica e deixa na mais absoluta evidncia o funcionamento das leis do mundo e da relao de todos os seres: naturais, humanos e celestes, dando at o detalhe das conseqncias morais, sociais e teolgicas que resultam de to admirvel explanao.

    As obras de Eliphas Levi causaram, no somente um movimento de interesse nos estudos da verdade esotrica, se no que, at os Rosa-cruzes da Inglaterra, aos quais Eliphas Levi estava afiliado, "protestaram", por achar que ele havia sido demasiado claro nas suas revelaes. O que o pblico no soube ento e que, ainda hoje, poucos sabem, que Eliphas Levi iniciava assim a ao que, alguns lustros depois, Papus comentaria com as seguintes palavras: "Sempre pode-se dizer tudo, porque somente compreender quem deve compreender". O "Livro dos

  • Sbios", verdadeira Sntese de toda a realizao de Eliphas Levi, precisamente isso:

    "Um Verbo Humano claro, preciso como um teorema, honesto como uma lei natural em ao, belo como uma elegia expontnea, vibrante como um hino de amor ao Criador e as suas mltiplas manifestaes. Um Verbo Humano que chega a unir-se em tal forma ao Verbo Manifesto que reflete a sua Verdade, com Sua modstia e Sua beleza."

    Discpulos reverentes de Eliphas Levi e de Papus, hoje, no poderamos deixar de por em primeiro plano e de publicar em primeiro plano a obra do Mestre que, podendo ter sido um Prncipe da Igreja Romana preferiu ser o modesto, quase miservel dono de uma banca de verduras, com cuja ocupao sintetizava a dupla condio de humildade e sacrifcio, e de ocultar com anteface simblica, sob o "homem" esquecido por todos, o SER luminoso colocado servio da Verdade; o Hierofante Secreto, cuja ao perdura, multiplicando-se no silncio, como a Pedra Filosofal. Colocamos a disposio dos Homens de Desejo esta jia do saber e da devoo.

    PREFCIO DA EDIO FRANCESA DE 1912 (Chez Charconac - 11 Quai Saint-Michel - Paris) "Dedicado ao meu amigo, o Baro Spedalieri"

    Este livro contm os princpios e os elementos dessa terceira revelao, que o conde Joseph de Maistre dizia ser necessrio para o mundo.

    Esta terceira revelao no pode ser seno a explicao e a sntese das outras duas.

    Ela deve conciliar a cincia e o dogma, a autoridade e a liberdade, a razo e a f.

    Ns preparamos a semente, outros a semearo.

    Quem escreveu estas pginas est longe de achar-se um profeta. V a verdade e a escreve.

  • Sua autoridade a evidncia, e sua fora a razo.

    Fala para os sbios e espera o escrnio e o desdm dos loucos.

    Escreve para os fortes e no ser lido pelos fracos, aos quais inculcar o medo s suas doutrinas.

    Este livro est dividido em duas partes; a primeira, contm dilogos que renem toda a polmica religiosa e filosfica do presente sculo.

    A segunda, contm definies e aforismos.

    No h aqui nem flores de retrica, nem frases. H duas coisas eternas, e s elas, tem preocupado o autor: a justia e a verdade.

    ELIPHAS LEVI

    DISCUSSO EM FORMA DE DILOGO PRIMEIRO DILOGO

    UM CLRIGO e ELIPHAS LEVI

    O CLRIGO - Tuas pretensas cincias vm do inferno e tuas razes so blasfmias.

    ELIPHAS LEVI - No sei se tua ignorncia vem do cu, porm, tuas razes assemelham-se muito s injrias.

    O CLRIGO - Eu chamo as coisas pelo seu nome; pior para ti se estes nomes te resultam injuriosos. Como tu, que tendo sado da Igreja, que procurando ajudar a impiedade a minar em sua base seu edifcio eterno, tens o louco orgulho de crer que ela vacila sob os golpes de teus semelhantes; e para o cmulo do ultraje, estendes, para sustent-la, tua mo sacrlega?

    No temas a sorte de Oza, a quem Deus castigou mortalmente, porque, com inteno melhor que a tua e com mos talvez mais puras, quis sustentar a arca Santa?

    ELIPHAS LEVI - Detenho-te aqui, Senhor; citas a Bblia sem compreende-la e preferiria em teu lugar, compreend-la sem

  • cit-la. A morte de Oza, da qual me falas, assemelha-se um pouco ao trgico fim dos quarenta e dois meninos devorados pelos ursos por terem-se rido do profeta Eliseu, que era calvo. Felizmente, diz Voltaire este respeito, no existem ursos na Palestina.

    O CLRIGO - Ento a Bblia um tecido de mentiras e ris dela como Voltaire?

    ELIPHAS LEVI - A Bblia um livro hiertico, ou seja, sagrado; est escrita em estilo sacerdotal, misturado com histrias e alegorias.

    O CLRIGO - Somente a Igreja tem o direito de interpretar a Bblia. Crs na sua infalibilidade?

    ELIPHAS LEVI - Sou da Igreja e no tenho dito e nem escrito nada que seja contrrio aos meus ensinamentos.

    O CLRIGO - Admiro tua desenvoltura. No s um livre pensador? No crs no progresso? No admites as temeridades da cincia moderna que d todos os dias desmentidos Santa Escritura? No acreditas na antigidade indefinida do mundo e na diversidade, seja simultnea, seja sucessiva das raas humanas? No consideras como mito ou fbula, o que a mesma coisa, a histria da ma de Ado, sobre a qual fundamenta-se o dogma do pecado original? Porm, tu sabes bem que ento tudo se derruba, no mais revelao nem encarnao, pois todo o cristianismo no tem sido mais que um longo erro; a Igreja no pode se manter seno prescrevendo o bom senso e propagando a ignorncia? Admites isto e ousas chamar-te catlico?

    ELIPHAS LEVI - Que quer dizer a palavra catlico? No quer dizer universal? Creio no dogma universal e me cuido das aberraes de todas as seitas particulares. Suporto-as porm, na esperana de que o progresso se cumprir e de que todos os homens se reuniro na f das verdades fundamentais; o que tem-se cumprido j naquela sociedade conhecida em todo o mundo, chamada franco-maonaria.

  • O CLRIGO - nimo Senhor, tiras a mscara por fim, completamente; s sem dvida Franco Maom e sabes perfeitamente, que os Franco-Maons acabam de ser excomungados recentemente, pelo Papa.

    ELIPHAS LEVI - Sim, o sei; e, desde ento, tenho deixado de ser Franco-Maom, porque os Franco-Maons excomungados pelo Papa, no acreditavam que deviam tolerar o catolicismo. Tenho me separado deles, para resguardar a minha liberdade de conscincia e para no me associar as suas represlias, talvez desculpveis, se no legtimas; porm, seguramente inconseqentes, j que a essncia da Maonaria a tolerncia todos os cultos.

    O CLRIGO - Queres dizer, a indiferena em matria de religio?

    ELIPHAS LEVI - Dizes em matria de supersties.

    O CLRIGO - Oh! Sei que para ti, a Religio e a superstio so uma s e mesma coisa.

    ELIPHAS LEVI - Creio, pelo contrrio, que so duas coisas opostas e inconciliveis, tanto que, aos meus olhos, os supersticiosos so mpios. Quanto religio, no h mais que uma. E no tem havido nunca, seno uma verdadeira. a esta que chamo verdadeiramente de Catlica ou universal. Um muulmano pode pratic-la como o tem demonstrado muito bem o emir Abd-el-Kader, quando salvou os Cristos de Damasco. Esta religio a Caridade; o smbolo da caridade a Comunho; e o oposto da comunho excomunho; comungar evocar a Deus, excomungar evocar ao diabo.

    O CLRIGO - por isto que tens o diabo no corpo, pois com certeza, semelhantes doutrinas fazem de ti um excomungado.

    ELIPHAS LEVI - Se eu tivesse o diabo, serias tu quem me o teria dado, e eu no seria, por certo, bastante mau para devolv-lo a ti; trat-lo-ia como os comerciantes tratam as falsas moedas, que pregam-nas no seu balco para retir-las de circulao.

  • O CLRIGO - No quero escutar-te mais. s um extravagante e um mpio.

    ELIPHAS LEVI - (Rindo). Sabes tudo a meu respeito! E falas coisas das quais estou longe de suspeit-las em mim; no sou to sbio e no direi o que s. Fao-te observar, somente que o que me dizes, no nem caritativo nem corts.

    O CLRIGO - s um dos mais perigosos inimigos da Igreja.

    ELIPHAS LEVI - o senhor de Mirville que tem dito isto. Porm, eu responderei ele, como ti, com estes versos do nosso bom e grande La Fontaine:

    NADA MAIS PERIGOSO DO QUE UM AMIGO IMPRUDENTE;

    MAIS VALERIA UM INIMIGO SBIO SEGUNDO DILOGO

    UM FILSOFO e ELIPHAS LEVI

    O FILSOFO - (Entrando) - Que fazias com aquele energmeno?

    ELIPHAS LEVI - Nada muito bom, creio; teria apreciado poder acalm-lo, no entanto, s consegui enraivec-lo ainda mais.

    O FILSOFO - Tambm, que tens a fazer com semelhante gente? E porque obstinas em declarar-te ainda catlico? Alijas-te de ti os livres pensadores e os catlicos te desprezam.

    ELIPHAS LEVI - um mal entendido.

    O FILSOFO - Do qual s a causa. Porque te obstinas em dizer "cachorro" quando se trata de "gato"?

    ELIPHAS LEVI - No creio ter me permitido semelhantes excentricidades de linguagem; chamo as coisas pelo seu nome, porm tem me acontecido ver cachorros e gatos que se entendem maravilhosamente.

  • O FILSOFO - Isto nada prova em favor de teu sonho que um acordo impossvel entre a religio e a cincia, entre a autoridade dogmtica e a liberdade de exame.

    ELIPHAS LEVI - Porque impossvel?

    O FILSOFO - Porque a religio o sonho que quer fazer a lei para a razo; o absurdo que se impe com a obstinao da loucura; o orgulho da ignorncia que, para se crer sobrenatural, inventa virtudes contra a natureza; Alexandre VI posto no lugar de Deus; a chave do cu colocado nas mos sangrentas dos inquisidores.

    ELIPHAS LEVI - No, a religio no nada