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o negro revoltado

"Eu me revolto, logo ns somos"Albert Camus: L'Homme Rvolt

o presente volume rene vrios trabalhos apresentados ao I Con-gresso do Negro Brasileiro, promovido pelo Teatro Experimentaldo Negro, no Rio de Janeiro, entre 26 de agosto e 4 de setembrode 1950. Alm das teses, indicaes, depoimentos e contribuiesdiversas, o que marca a sua originalidade e a sua fora a pre-sena do prprio negro em ativa participao. O registro taqui-grfico revelar que o negro brasileiro no aceita nem paternalis-mo nem intermedirios para suas reivindicaes. Dialogando compessoas de quaisquer origens raciais e pertencentes a classes sociaisas mais diversas, ele firmou seus princpios, sua ttica e estratgia,recusou a tutela ideolgica. O texto que se segue a fixao aovivo do que o negro pensa, sofre, aspira, reivindica e combate.Nesse conclave houve liberdade plena e total a todas as manifes-taes pertinentes aos temas em debate. Isso deu ensejo a que asvrias orientaes que, ao longo dos anos, vinham se configurandoa respeito dos estudos e do comportamento do homem de corviessem tona e mesmo se radicalizassem. Duas correntes maissignificativas sobressaram: de um lado, a maioria, constituda dopovo negro, pessoas destitudas de ttulos acadmicos ou honor-ficos; e, de outro, os que se auto-intitulavam 'homens de cincia'.A camada popular e o grupo dos 'cientistas', ao final do Congresso,se chocaram violentamente. Foi quando estes ltimos tentaram, apsa assemblia haver aprovado a "Declarao Final do PrimeiroCongresso do Negro Brasileiro", fazer aprovar uIpa outra "Decla-rao", esta assinada somente pelos 'cientistas'. Ocorria que, nose deixando manipular pelos que se julgavam autoridades no as-sunto, a camada popular impediu aos 'cientistas', naquele ato derecusa sua "Declarao", que os resultados do Congresso fossem

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por eles domesticados e desvirtuados. O povo negro venceu a su-tileza daquele tipo de intelligentzia, alienada de seus problemas.

Artur Ramos havia dito certa vez competir "a uma elite ne-gra, com seus lderes, traar normas, diretrizes, para o futuro deseu povo de cor". Foi ainda um ilustre professor da Sorbonne,de Paris, o socilogo Roger Bastide, quem, numa das sesses maisvibrantes do Congresso, proferiu:

"Acho que o Congresso do Negro Brasileiro no deveser unicamente um congresso de estudos afro-brasileiros, masdeve distinguir-se pelo seu trabalho de ao. : um congres-so onde se discutem idias por um Brasil maior. Estou feliz,porque neste congresso ningum dorme. Todos discutem,dando bom exemplo de democracia social e poltica."

Infelizmente o comportamento dos 'cientistas' impediu quese concretizasse o 'bom exemplo' preconizado por Roger Bastidee Artur Ramos. E tal foi o abismo que se abriu entre as duascorrentes que se viram i.rremediavelmente afetados os resultadosdo Congresso. Sobretudo prejudicou a divulgao dos Anais naocasio oportuna, assim como o cumprimento das recomendaesda Assemblia. Vrias teses, pareceres, discursos e atas, por exem-plo, foram, em confiana, emprestados ao Sr. L. A. Costa Pintoque, na poca, realizava um trabalho para a Unesco sobre o ne-gro no Rio de Janeiro. A maior parte do material emprestado ja-mais me voltou s mos. O extravio desses documentos foi de-nunciado por Guerreiro Ramos em artigo no O lornal (17-1-54)ao analisar a autoridade cientfica do Sr. L. A. Costa Pinto:

" . " confirma no livro que acaba de publicar - ONegro no Rio de laneiro - a sua incompetncia em matriade sociologia e a sua falta de probidade, j reveladas emtrabalhos anteriores. ( ... ) Lutas de Famli , assim, umailustrao do primarismo sociolgico e da desonestidade emtodos os sentidos [o grifo meu] ( ... ) vai ficar na histriada sociologia no Brasil como o autor da maior chantagemocorrida em tal domnio."

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Alis, Gilberto Freire tambm se refere a "antroplogos esocilogos, alguns talvez tendenciosos [o grifo meu], encarrega-dos pela Unesco de realizar no Brasil um inqurito sobre relaesde raa" ("Prefcio" a Religio e Relaes Raciais, de Ren Ri-beiro), o que naturalmente no se aplica nem a Ren Ribeiro(Pernambuco) nem a Roger Bastide e Florestan Fernandes (SoPaulo), cujos trabalhos em suas respectivas reas mereceram orespeito de todos. No que se refere parte carioca da pesquisa,alm de Guerreiro Ramos, outras pessoas se manifestaram con-denando a tendenciosidade 'cientfica' do livro do Sr. L. A. CostaPinto, entre eles o assistente social Sebastio Rodrigues Alves que,em conferncia pronunciada na ABI, disse:

"Tudo leva a crer que esses aventureiros tm prop-sitos de achincalhar o negro e de permanecer na sua cos-tumeira posio de 'senhores'. Essa industrializao dos es-tudos afro-brasileiros e relaes de raas uma atividademuito rendosa, no s no mbito econmico-financeiro,como tambm na ascenso dos 'estudiosos' que se tornamdonos do problema do negro e se lanam numa aventuraperniciosa, afirmando, erroneamente, que o negro tem taiscomplexos, tais e tais comportamentos, e reagem desta oudaquela forma. ( ... ) Andou manuseando as atas e tesesdiscutidas no Congresso, tirando ali algo para suas pre-sunosas e impostoras alegaes . .e: to capcioso esse pseu-docientista que tem a desfaatez de afirmar estar dandoum aspecto novo aos estudos do negro no Rio de Janeiro.( ... ) realmente uma forma usurpadora e medocre dese aproveitar do trabalho alheio. ( ... ) Os 'cientistas' c'estudiosos' tm procurado transformar nosso trabalho emarapuca ideolgica".

Ao que o Sr. L. A. Costa Pinto contesta referindo-se gene-ricamente aos negros que, tanto no Congresso ou fora dele, re-cusaram sua 'cincia':

"Duvido que haja biologista que depois de estudar,digamos, um micrbio, tenha visto esse micrbio tomarda pena e vir a pblico escrever sandices a respeito do es-

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tudo do qual ele participou como material de laboratrio."(O Jornal)

Recentemente procurei ];;dison Carneiro (co-organizador doCongresso comigo e Guerreiro Ramos) e indaguei se ele por acasono teria em seu poder as atas e outros documentos emprestadosao Sr. L. A. Costa Pinto. A resposta foi negativa. Em conse-qncia, este volume no tem a responsabilidade dos demais mem-bros co-organizadores, mas somente a minha, de secretrio-exe-cutivo do Congresso e de diretor do Teatro Experimental do Ne-gro, entidade promotora do certame.

NA ROTA DO PRECONCEITO

Certa a colocao de Martin Luther King: "A compreensosuperficial das pessoas de boa vontade mais nociva do que aincompreenso absoluta das pessoas de m vontade." Nos dias quecorrem, a situao racial no Brasil est obnubilada por tal crostade estereotipias, clichs e condicionamentos estratificados que so-mente atravs de um choque traumtico - grito pattico de re-volta - talvez fosse possvel arrancar a conscincia brasileira dohbito e do torpor. Lembrando Scrates, o lder negro norte-ame-ricano da no-violncia advoga, ent:etanto, a tenso de espritocomo forma de supresso da escravido a mitos e meias-verdades.Possivelmente usando tal instrumento catrtico, a classe de bran-cos e brancides - detentores dos privilgios econmicos e so-ciais - se sensibilizaria marginalizao do negro, sua dorsecular, ao seu inconformismo submetido, mas no aniquilado detodo.

Teriam as classes dirigentes deste pas uma irremedivel in-capacidade de sentir, com Joaquim Nabuco, pelo menos, "a dormaior - a do Brasil ultrajado e humilhado; os que tm a altivezde pensar - e a coragem de aceitar as conseqncias desse pen-samento - que a ptria, como a me, quando no existe paraos filhos mais infelizes, no existe para os mais dignos?"

Ou estaremos exagerando? Seremos os criadores de um pro-blema artificial, inexistente neste pas, conforme somos freqen-temente acusados?

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Recordemos algumas incriminaes desse tipo. Por ocasio doconcurso de artes plsticas do Cristo Negro, uma cronista do Jor-nal do Brasil, em 26-6-55, dizia:

"Pelo seu exemplo de abnegao, de renncia, de bon-dade, a Me-Negra, que nos embalou o sono, que nos deuseu leite, foi a grande formadora do nosso corao. ( ... )Essa exposio que se anuncia deveria ser proibida comoaltamente subversiva. Tal acontecimento realizado s vspe-ras do Congresso Eucarstico foi preparado adrede para ser-vir de pedra de escndalo e motivo de repulsa. O nosso des-controle moral, a nossa grande falta de respeito e de bomgosto, o nosso triste estado d'alma, no podem ser dadosem espetculos aos que nos visitam. Damos daqui nosso bra-do de alarma. As autoridades eclesisticas devem, quantoantes, tomar providncias para impedir a realizao desseatentado feito Religio e s Artes. O prprio povo brasi-leiro se sentir chocado pela afronta feita."

Conforme se percebe facilmente, a articulista convoca o p0-der policial a fim de impedir uma manifestao de arte e cultura,na qual, alis, participaram em grande maioria os artistas brancos.Estes compreenderam que uma arte brasileira, para ser autntica,precisa incorporar a ela o canon negro que permeou nossa for-mao desde os primeiros dias. Para desgosto da cronista, ocardeal D. Jaime Cmara e o bispo D. Hlder Cmara deramseu apoio e patrocinaram o Cristo de Cor.

A atitude cautelosa de certas pessoas outra forma de ma-nifestar incompreenso. Por exemplo, J. Etienne Filho, na Tribunada Imprensa, de 14-1-1950:

"O problema no consiste em isolar o negro, mas emassimil-lo. Uma revista, um teatro, um clube, exclusivamen-te para o elemento negro, no corre o perigo de hipertrofiarum sentimento de grupo? O problema no de assimilao,antes que de segregao? ( ... ) Por isso, tememos que ini-ciativas louvveis como o Quilombo ou o TEN possam sercontraproducentes, isto , consigam o aplauso daqueles queo dariam, de qualquer modo, a qualquer medida anti-racista,

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mas, por outro lado, afastem aqueles que nisto podem verum excelente pretexto para o desenvolvimento de. suas teo-rias de sangue puro ou de supremacia de raas."

Sempre o r