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i PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Sonia Regina Longhi Ninomiya Estruturação temática na tradução de textos literários da língua japonesa para a língua portuguesa: um enfoque Sistêmico- Funcional DOUTORADO EM LINGÜÍSTICA APLICADA E ESTUDOS DA LINGUAGEM SÃO PAULO 2012

Author: vandien

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  • i

    PONTIFCIA UNIVERSIDADE CATLICA DE SO PAULO PUC-SP

    Sonia Regina Longhi Ninomiya

    Estruturao temtica na traduo de textos literrios da lngua japonesa para a lngua portuguesa: um enfoque Sistmico-

    Funcional

    DOUTORADO EM LINGSTICA APLICADA E ESTUDOS DA LINGUAGEM

    SO PAULO

    2012

  • ii

    PONTIFCIA UNIVERSIDADE CATLICA DE SO PAULO PUC-SP

    Sonia Regina Longhi Ninomiya

    Estruturao Temtica na traduo de textos literrios da lngua japonesa para a

    lngua portuguesa: um enfoque Sistmico-Funcional

    DOUTORADO EM LINGSTICA APLICADA E ESTUDOS DA LINGUAGEM

    Tese apresentada Banca Examinadora da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo, como exigncia parcial para obteno do ttulo de Doutor em Lingstica Aplicada e Estudos da Linguagem sob a orientao da Prof. Dr. Sumiko Nishitani Ikeda.

    SO PAULO 2012

  • iii

    Banca Examinadora

    ____________________________________________

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  • iv

    AGRADECIMENTOS

    Ao meu Senhor, pela graa da perseverana e da busca constantes.

    A minha orientadora, Prof. Dr. Sumiko Nishitani Ikeda, pela infinita pacincia

    com que entendeu meu tempo, minhas limitaes e pela generosidade de repartir

    seus imensurveis conhecimentos.

    s Prof.s Dr.s Ftima Beatriz de Benedictis Delphino, Tae Suzuki, Eliza

    Tashiro-Perez e Leiko Matsubara Morales, pelas contribuies nos exames de

    qualificao.

    s Prof.s Dr.s Eliza Tashiro-Perez e Leiko Matsubara Morales, Angela B. C.

    T. Lessa e Flamnia M. M. Lodovici pela gentileza com que aceitaram compor a

    Banca Examinadora de minha defesa.

    A Maria Lcia e a Mrcia, funcionrias do LAEL, que sempre me atenderam

    com disposio e carinho.

    Aos colegas de classe, que me tocaram com sua juventude, com seu

    conhecimento, com sua energia e que me incentivaram carinhosamente a chegar

    at aqui.

    Lindinalva, amiga de primeira hora, que repartiu comigo, generosamente,

    seus conhecimentos tericos e de vida. Uma parceria to bem posta por nosso

    colega Marcelo Saparas como: a fava e a ervilha.

    Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ao

    Departamento de Letras Orientais e Eslavas, pela licena e pelo incentivo.

    Prof. Dr. Elza Taeko Doi pelo incentivo e pelo apoio. Sem eles eu no

    teria cogitado em doutoramento.

    A Luiza, irm cuidadora, pelo carinho, pelo incentivo e por ter assumido meus

    filhos e a casa enquanto eu estudava.

    Ao Masanori, ao Masayoshi e ao Masaki, filhos queridos, pela compreenso

    das ausncias e pelos momentos troviscosos.

    Ao Masato, pessoa daquelas que espalha sementes, planta e floresce o

    mundo, agradeo pelo incentivo, pela pacincia e por ter tornado possvel a

    germinao de mais essa semente.

  • v

    Aos meus pais, que me ensinaram a lngua. A minha sogra, que poliu meu japons.

    A minha famlia, que me ajuda a estudar.

  • vi

    lngua... d estrutura experincia e ajuda a determinar nosso modo de ver as coisas de tal forma que necessrio algum esforo intelectual para vermos as coisas de uma maneira diversa daquela que nossa lngua nos sugere.

    Halliday (1970, p.143)

  • vii

    RESUMO

    A estrutura temtica a que imprime orao o seu carter de mensagem

    (HALLIDAY 1994). Essa estrutura composta de Tema, o ponto de partida da

    mensagem que d proeminncia aos elementos que a compem, estabelecendo a

    base de interpretao para o restante da orao, denominado de Rema. Essa

    questo tem merecido a ateno de alguns pesquisadores em trabalhos sobre a

    traduo, mostrando que escolhas lingusticas para realizar o Tema geram

    implicaes comunicativas (e.g. MATHIESSEN 2001; LIROLA; SMITH 2006). Outros

    tm analisado a estruturao temtica em tradues literrias e sugerido que as

    mudanas temticas interferem na interpretao da mensagem e, muitas vezes,

    creditam essas mudanas ao estilo do tradutor (e.g. BAKER 1992; PAGANO 2005;

    FIGUEREDO 2006). J em 1995, Ventola se referia s poucas pesquisas

    interessadas na estrutura temtica e no padro de progresso temtica de um texto

    quando submetido ao processo tradutrio. No Brasil, os trabalhos tm analisado a

    questo comparando a lngua portuguesa com a lngua inglesa ou espanhola e pelo

    que nos consta no h nenhum trabalho que contraste o portugus com a lngua

    japonesa, como o caso desta pesquisa. Buscando contribuir para o estudo dessa

    questo, esta pesquisa examina trs contos da literatura japonesa moderna e suas

    tradues para o portugus, a fim de analisar como se d a realizao da estrutura

    temtica, as diferenas da advindas e a interferncia dessas na interpretao da

    mensagem no texto traduzido. Para este estudo, utilizo o suporte terico-

    metodolgico dos pressupostos da Lngustica Sistmico-Funcional (HALLIDAY

    1994), de sua extenso para a lngua japonesa por Teruya (2007), dos estudos de

    Barbara e Gouveia (2004) na sua extenso para a lngua portuguesa e das

    contribuies dos Estudos de Traduo. As anlises mostram que as diferenas na

    estruturao nem sempre so motivadas pela tipologia lingustica, mas devidas a

    escolhas do tradutor, j que existiam outras possibilidades de retextualizao. Em

    funo dessas diferenas, nova perspectiva se delineia para a interpretao da

    mensagem e para a apreenso de caractersticas literrias da obra.

    Palavras-chave: Traduo. Estrutura temtica. Japons. Portugus. Lingustica

    Sistmico-Funcional.

  • viii

    ABSTRACT

    Thematic structure gives a clause its character of message (HALLIDAY 1994). This

    structure is composed of Theme, the starting point of the message that lends

    prominence to the elements that compose it, thus establishing the base to interpret

    the remainder of the clause, named Rheme. This question has been the object of

    attention on the part of some researchers, and their papers show that linguistic

    choices made to realize Theme generate communicational implications (e.g.

    MATTHIESSEN 2001; LIROLA; SMITH 2006). Others have analyzed thematic

    structure in literary translation and suggested, thus displaying didactic concerns, that

    Theme changes in translation interfere in the interpretation of the message and often

    ascribe such changes to the translators style (e.g. BAKER 1992; PAGANO 2005;

    FIGUEREDO 2006). In 1995, Ventola already had referred to the sparse amount of

    research studies focused on theme structure and on the pattern of Theme

    progression within a text that undergoes a translation process. In Brazil, researchers

    have analyzed this matter by comparing the Portuguese language to English or

    Spanish and, as far as we know, there is no researches contrasting Portuguese with

    the Japanese language, which is the case here. As it seeks to contribute to studies

    involving these questions, this thesis examines three short stories taken from modern

    Japanese literature and their translations into Portuguese with the aim of analyzing

    how thematic structure is realized, their different forms and how the latter interfere in

    the interpretation of the message within the translated text. This thesis is theoretical

    and methodologically supported by the premises of Systemic-Functional Linguistics

    (HALLIDAY 1994), to the Japanese language by Teruya (2007), on the studies by

    Barbara and Gouveia (2004) to the Portuguese language and on contributions by

    Translation Studies. The analyses show that differences occur not always due to the

    linguistic typology, but owing to choices made by the translator, given that there were

    other possibilities of retextualization. As a result, a new perspective for interpreting

    the message and apprehending the literary characteristics of the work is outlined.

    Key words: Translation. Thematic structure. Japanese. Portuguese. Systemic-

    Functional Linguistics.

  • ix

    LISTA DE QUADROS

    QUADRO 1 - AS TRS METAFUNES ........................................................................... 23 QUADRO 2 - TIPOS DE TEMAS ......................................................................................... 33 QUADRO 3 - TIPO SE TEMAS NA LNGUA JAPONESA ................................................... 55 QUADRO 4 - REALIZAES TEMTICAS EM PE ............................................................ 57 QUADRO 5 - ESPECIFICIDADES DE TEMA NA LNGUA PORTUGUESA........................ 59 QUADRO 6 - TEMA: CONCEITO E CRTICAS.................................................................... 59 QUADRO 7 - REALIZAES DE TEMA.............................................................................. 60 QUADRO 8 - CORPUS DO ESTUDO.................................................................................. 71 QUADRO 9 - TEMA NA LNGUA PORTUGUESA............................................................... 81 QUADRO 10 - TEMA NA LNGUA JAPONESA.................................................................... 81 QUADRO 11 - CATEGORIAS DE ANLISE......................................................................... 81 QUADRO 12 - EXEMPLOS DAS DIFERENAS NA ESTRUTURA TEMTICA DE

    AMAGASA/O GUARDA-CHUVA ...................................................................

    88 QUADRO 13 - EXEMPLOS DAS DIFERENAS NA ESTRUTURA TEMTICA DE KAMI/O

    CABELO ........................................................................................................

    102 QUADRO 14 - EXEMPLOS DAS DIFERENAS NA ESTRUTURA TEMTICA DE

    BUTKAI/O BAILE........................................................................................

    127 QUADRO 15 - TEMAS IGUAIS COM REALIZAO SEMNTICA DIVERSA ..................... 128

  • x

    LISTA DE TABELAS

    Tabela 1 - Total de palavras do corpus....................................................... 71 Tabela 2 - Diferenas Temticas na traduo de Amagasa/O guarda-

    chuva ......................................................................................... 97

    Tabela 3 - Tipos de Tema em Amagasa/O guarda-chuva........................... 97 Tabela 4 - Diferenas Temticas na traduo do conto Kami/O

    cabelo......................................................................................... 111

    Tabela 5 - Tipos de Tema em Kami/O cabelo 112 Tabela 6 - Diferenas Temticas na traduo do conto Butkai/O Baile..... 135 Tabela 7 - Tipos de Tema em Butkai/O baile 136 Tabela 8 - Temas e diferenas temticas nas tradues dos

    contos.......................................................................................... 137

    Tabela 9 - Tipos de diferenas temticas na traduo................................. 137

  • xi

    LISTA DE FIGURAS

    Figura 1 Tema maximamente estendido................................................... 29 Figura 2 Possibilidades de anlise de Tema segundo interpretao

    congruente ou metafrica............................................................

    34 Figura 3 Comparao da estrutura lingstica do portugus com o

    japons.........................................................................................

    45

  • xii

    SUMRIO

    1 INTRODUO ............................................................................... 14 2 FUNDAMENTAO TERICA...................................................... 19 2.1 A escola de Praga e a Perspectiva Funcional da Sentena ..... 19 2.2 A Lingstica Sistmico-Funcional ............................................. 21 2.2.1 Tema na Lingustica Sistmico-Funcional....................................... 26 2.2.1.1 Outros tipos de Tema...................................................................... 31 2.2.1.2 No constituem Tema..................................................................... 33 2.2.2 A metfora gramatical..................................................................... 34 2.3 A estrutura temtica e a inteno comunicativa........................ 34 2.4 A estrutura informacional: o Dado e o Novo.............................. 36 2.4.1 Tema e Rema Dado e Novo......................................................... 37 2.5 Organizao da mensagem e Progresso Temtica................. 38 2.6 O determinismo lingustico.......................................................... 41 2.6.1 O nvel lexical.................................................................................. 42 2.6.2

    O nvel gramatical............................................................................ 44

    2.7 Tipologia lingustica...................................................................... 44 2.8 Tema: diversidade de opinies.................................................... 46 2.9 Tema na lngua japonesa ............................................................. 51 2.9.1 O Sujeito na lngua japonesa.......................................................... 55 2.10 Tema na lngua portuguesa ......................................................... 55 2.11 Estudos de Traduo 61 2.12 Estrutura temtica e traduo...................................................... 64 3 METODOLOGIA ........................................................................... 71 3.1 Tratamento e segmentao do corpus ....................................... 71 3.2 Descrio do Corpus ................................................................... 73 3.2.1 Contexto de Cultura: o conto como gnero..................................... 73 3.2.2 Contexto de Situao: campo, relao e modo nos contos

    analisados....................................................................................... 76

    3.2.2.1 O campo dos contos e as relaes entre os participantes............. 76 3.2.2.2 O modo nos contos......................................................................... 78

  • xiii

    3.3 Procedimentos analticos ............................................................ 79 4 ANLISE DOS DADOS E DISCUSSO DOS RESULTADOS ..... 82 4.1 Estrutura temtica do conto Amagasa/O guarda-chuva........... 83 4.1.1 Contos na ntegra: original e traduo............................................ 83 4.1.2 Anlise............................................................................................. 85 4.1.3 Discusso........................................................................................ 88 4.2 Estutura temtica no conto Kami/O cabelo ............................... 98 4.2.1 Contos na ntegra: original e traduo............................................ 98 4.2.2 Anlise 100 4.2.3 Discusso........................................................................................ 102 4.3 Estrutura temtica no conto Butkai/O baile ............................ 112 4.3.1 Contos na ntegra: original e traduo............................................ 113 4.3.2 Anlise............................................................................................. 121 4.3.3 Discusso........................................................................................ 127 4.4 Resultados..................................................................................... 136 5 CONSIDERAES FINAIS ........................................................... 146 6 REFERNCIAS .............................................................................. 150 ANEXOS......................................................................................... 161

  • 14

    ESTRUTURAO TEMTICA NA TRADUO DE TEXTOS LITERRIOS DA LNGUA JAPONESA PARA A LNGUA PORTUGUESA: UM ENFOQUE

    SISTMICO-FUNCIONAL

    1 INTRODUO

    A traduo tem sido objeto de pesquisa nos estudos da linguagem, cujo teor

    se estende nas reas de Lingustica e Letras, especificamente da Literatura

    Comparada. Recentemente, a traduo tem se servido da Lingustica Sistmico-

    Funcional (LSF) como metodologia de anlise e alcanado interessantes resultados

    que ajudam a compreender como os originais e as tradues podem criar mundos

    diferentes (PAGANO; VASCONCELLOS 2005).

    A representao do mundo que fazemos, segundo a LSF (HALLIDAY 1994),

    realizada pela metafuno textual que organiza o discurso enquanto mensagem e

    esse carter de mensagem da orao est estruturado em Tema e Rema. Segundo

    Halliday (1994, p. 37), "Theme is the element which serves as the point of departure

    of the message; it is that with which the clause is concerned" ( o ponto de partida da

    mensagem; aquilo sobre o que se refere a orao). Essa aposio de critrio

    sinttico com o semntico deu motivo a vrias crticas, principalmente quando a

    teoria foi aplicada a diferentes lnguas com diferentes tipologias. Assim, se as

    lnguas japonesa e portuguesa pertencem a tipologias diferentes (SOV e SVO

    respectivamente), pareceu-me estar a uma questo: a diferena de ordem poderia

    acarretar escolhas diferentes de Tema e, assim, influir na interpretao do

    significado.

    Sabe-se que os termos Tema e Rema, embora usados com frequncia, ainda

    no foram definidos satisfatoriamente. H diversas opinies sobre essa controvertida

    dupla, que se relaciona no apenas sintaxe e semntica da sentena, mas

    tambm ao fluxo de informao que nela imposto pela ordem das palavras. E,

    quando a questo envolve o processo tradutrio, as implicaes se tornam ainda

    mais complexas.

    Foi Vilm Mathesius (1939, apud FIRBAS 1974, p. 28), influenciado pelas

    idias de H. Weil (1844)1 quem comeou a estudar, na lngua tcheca, a questo de

    1 WEIL, H. De lordre des mots dans les langues anciennes compares aux langues moderns. 1844.

  • 15

    que o modo como um contedo expresso pode interessar mais do que o prprio

    contedo, ou seja, a informao. Em seu conhecido artigo de 19392, Mathesius

    define o "ponto de partida do enunciado (vchodisko)" como "o que conhecido ou

    pelo menos bvio em uma dada situao e do qual o falante parte", enquanto "o

    ncleo do enunciado (jdro)" como "o que o falante afirma a respeito do ponto de

    partida do enunciado". Ele define (em 1942) "a base do enunciado (zklad, tma)"

    como aquilo "sobre o que se fala na sentena", e "o ncleo (jdro)" (o Rema) como o

    que se fala sobre o Tema3. Mas, antes de Mathesius, outros estudiosos tchecos j

    faziam sentir a importncia da ordem de palavras na sentena, no fenmeno que

    veio a se chamar em ingls Functional Sentence Perspective (FSP)4. Posteriormente,

    Mathesius denomina o ponto de partida do enunciado de Tema e o seu ncleo de

    Rema.

    Alguns pesquisadores tm se debruado sobre a questo da estruturao

    temtica na traduo e mostrado que certas escolhas lingsticas para realizar Tema

    geram implicaes comunicativas (e.g. LIROLA; SMITH 2006). Outros tm analisado

    a estruturao temtica em tradues literrias e sugerido, com preocupaes

    didticas, que as mudanas temticas na traduo alteram a funo comunicativa e

    muitas vezes creditam essas mudanas ao estilo do tradutor (e.g. DOURADO; GIL;

    VASCONCELLOS 1995; RODRIGUES 2005; PAQUILIN 2005; PAGANO 2005;

    FIGUEREDO 2006; 2011, dentre outros). Figueredo (2006), baseando-se em

    Halliday e Matthiessen (2004), cuja teoria atribui organizao textual a

    responsabilidade principal pelo desenvolvimento da informao, examina estruturas

    da organizao textual em um conto de fico cientfica, enfocando sua estrutura

    temtica e macrotemtica (MARTIN; ROSE, 2003), buscando entender como autor e

    tradutor constroem a mensagem. Para Figueredo, mudanas temticas, em especial,

    interferem na interpretao da mensagem. A propsito, Ventola (1995) j se referia

    s poucas pesquisas interessadas na estrutura temtica e no padro de progresso

    temtica de um texto quando submetido ao processo tradutrio. No encontrei,

    contudo, consideraes sobre o que muda em termos de interpretao da

    2 MATHESIUS, V. O tak zvanm aktulnm clenen vetnm [On the so called actual bipartition of the sentence]. SaS. n. 5, p. 171-174, 1939. 3 O conceito de tema antigo. Segundo Halliday (1977), o conceito remonta aos sofistas.

    4 Givn (1983) prefere no estabelecer primazia, citando trs fontes mais reconhecidas do assunto: Escola de Praga (Cf. Firbas 1966a; 1966b); a tradio Firthiana (Cf. Halliday 1967) ou Bolinger (1952, 1954).

  • 16

    mensagem com outras escolhas feitas pelo tradutor, mormente quando essas

    mudanas no so determinadas por restries sintticas das lnguas contrastadas.

    Os estudos sobre traduo so, geralmente entre lnguas de origem indo-

    europia, tais como ingls, espanhol, portugus, ou o holands que, embora

    apresentem caractersticas especficas no que se refere estrutura temtica, ainda

    assim, no diferem tanto quanto o portugus e o japons, lnguas de tipologias

    espelhadas. As pesquisas que envolvem o japons, tambm, o contrastam com o

    ingls, nada tendo sido encontrado em relao s lnguas japonesa e portuguesa

    nesse contexto.

    Sendo professora de lngua e literatura japonesa e tambm tendo traduzido

    literatura japonesa, sempre tive vrias dvidas sobre esse processo, em especial,

    porque, devido, ao que me parecia relacionado a diferenas lxico-gramaticais

    existentes entre as duas lnguas, eu era, por vezes, levada a interferir no significado

    do texto original. Sei que no h traduo perfeita porque a lngua est sempre

    ligada cultura de um povo, que no foge aos seus usos e costumes que, por sua

    vez, so ditados por variados fatores inerentes a cada povo, sua localizao

    geogrfica, a natureza que o envolve etc. Assim, ao entrar em contato com a

    proposta terica de Halliday (1994), percebi que havia a a possibilidade de

    comparar as duas lnguas de tipologias diferentes atravs do sistema de Tema e

    Rema, da metafuno textual, e buscar linguisticamente reconhecer as implicaes

    discursivas que eventuais mudanas temticas possam acarretar para a

    interpretao do texto traduzido em face do original.

    Diante disso, o objetivo desta tese examinar a estrutura temtica em contos

    japoneses e em suas tradues para o portugus, a fim de verificar especificidades

    nesses textos e, por extenso, sua interferncia em interpretaes que se

    distanciam da verso original. Para tanto, deve responder s seguintes perguntas:

    (a) que diferenas, na estrutura temtica, resultam das tradues em

    portugus de contos originalmente escritos em japons?

    (b) qual a influncia dessas diferenas na interpretao da mensagem

    no texto traduzido do japons para o portugus?

    Sobre a metafuno textual, diz Halliday que possvel que em todas as

    lnguas a orao tenha um carter de mensagem: ela tem uma forma de

  • 17

    organizao que lhe d o status de um evento comunicativo, que pode ser atingido

    atravs de diferentes modos. A orao organizada como uma mensagem porque

    tem um status especial atribudo a uma de suas partes: um elemento da orao

    enunciado como Tema - o ponto de partida da mensagem - que ajuda a estruturar o

    discurso e a dar proeminncia aos elementos que o compe; o Tema, ento,

    combina-se com o resto da orao, o Rema, de tal modo que as duas partes juntas

    constituem uma mensagem.

    Goutsos (1997), por outro lado, afirma que nem todas as propriedades do

    Tema, de Halliday, podem ser aceitas (FRIES; FRANCIS 1992; HUDDLESTON

    1991), como acontece nas lnguas em que os verbos aparecem tanto quanto outros

    elementos no comeo de todos os tipos de orao. Um argumento que parece

    decisivo para tanto o fato citado por van Oosten (1984) de ser inconcebvel que os

    falantes de uma lngua (as iniciadas por verbos) consistentemente tivessem verbos

    como tpicos oracionais e falantes de outras consistentemente tivessem

    substantivos. A propsito, o estudo de Gouveia e Barbara (2004) sobre Tema na

    lngua portuguesa esclarece vrias situaes em que a escolha do Tema contraria

    as afirmaes de Halliday, como veremos.

    Baker (1992, p. 172) postula que a organizao de um texto

    especificamente dependente da lngua e da cultura em questo o que leva a aceitar

    que haja na traduo mudanas inevitveis, mas, segundo a autora, fundamental

    que esse processo seja consciente da fora funcional exercida pela Estrutura

    Temtica, responsvel pela inteno do autor na construo de sua mensagem.

    Segundo a autora, parece comum tradutores no conhecerem a importncia da

    estrutura temtica e fazerem mudanas aleatrias nos Temas sem se darem conta

    de que esto afetando a interpretao da mensagem proposta pelo texto original.

    Ela ressalta, ainda, que no apenas a gramaticalidade que responde pela

    coerncia do texto: aceitabilidade e naturalidade dependem muito mais de como a

    estruturao temtica se desenvolve no ambiente textual.

    Nessa perspectiva, fundamento minha pesquisa na Lingustica Sistmico-

    Funcional (HALLIDAY 1994; FRIES 1995; HALLIDAY; MATTHIESSEN 2004), uma

    teoria que concebe a lngua como um processo social e uma metodologia que

    permite uma descrio detalhada e sistemtica dos padres lingusticos. Utilizo

    tambm os estudos de Teruya (2007), que propem metodologias para a descrio

  • 18

    da estrutura temtica na lngua japonesa; dos estudos de Barbara e Gouveia (2002,

    2004) sobre a lngua portuguesa; alm da contribuio dos Estudos de Traduo.

    A propsito, esta pesquisa est inserida em trs grandes projetos

    desenvolvidos na Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo: o projeto

    "DIRECT": em direo linguagem dos negcios, que investiga a linguagem no

    contexto dos negcios, nos contextos profissionais em que o ingls (como lngua

    estrangeira) e o portugus (como lngua materna) so utilizados, nas situaes bem

    sucedidas, bem como as causas de possveis problemas de comunicao; o projeto

    "Recursos para a realizao do ato de fala indireto: suas implicaes no trabalho de

    face e na persuaso atravs da avaliao explcita", que investiga o trabalho de face

    e a questo da persuaso implcita que se faz de maneira cumulativa no decorrer do

    texto, atravs de escolhas lxico-gramaticais (como a metfora e a linguagem

    figurada) que camuflam o posicionamento do autor (crypto-argumentao), e o

    projeto "Anlise Crtica e Lingustica Sistmico-Funcional" (ACLISF), que estuda o

    discurso em suas diversas facetas, trazendo para o nvel da conscincia os padres

    de crenas e valores que esto codificados na lngua, mas que permanecem

    subjacentes informao, para quem aceita o discurso como 'natural'.

    Este estudo est organizado da seguinte forma: o captulo Fundamentao

    Terica apresenta o conceito de Tema e Rema e divergncias sobre esse conceito;

    a tipologia lingustica; o Tema e Rema nas lnguas japonesa e portuguesa; a

    variao de Tema nas lnguas; o processo de traduo lingustica; o captulo

    Metodologia descreve o corpus utilizado, sua segmentao; a caracterizao do

    corpus pelos contextos de cultura e de situao; e os procedimentos utilizados na

    anlise dos dados; o captulo Anlise e Discusso dos Resultados mostra a anlise

    das estruturas e discute os resultados, categorizando as mudanas temticas

    encontradas nos dados. Finalmente, so apresentadas as Consideraes Finais, as

    Referncias utilizadas e o Anexo, com a apresentao das notaes e do sistema de

    transcrio do japons para o alfabeto latino, dos contos analisados, bem como dos

    quadros integrais das anlises.

  • 19

    2 FUNDAMENTAO TERICA

    Neste captulo, apresento a teoria que embasa esta pesquisa. So mostradas

    consideraes gerais sobre a Escola de Praga e a Perspectiva Funcional da

    Sentena, sobre a Lingustica Sistmico-Funcional e as noes de Tema e de Rema

    (HALLIDAY 1994; EGGINS 1994; FRIES 1994; 1995; FIRBAS 1996; THOMPSON

    1996; HALLIDAY; MATTHIESSEN 2004); e sobre divergncias quanto ao

    posicionamento de Halliday (1994) sobre o assunto (DOWNING 1991; THOMPSON

    1996; GOUTSOS 1997; GMEZ-GONZLES 1997; 2000; LEONG PING 2000;

    2005; CORNISH 2004; FETZER 2009; GUIJARRO; ZAMORANO 2009). Alm disso,

    apresento as caractersticas tipolgicas das lnguas japonesa e portuguesa e as

    estruturas temticas nas duas lnguas (TERUYA 2007; GOUVEIA; BRBARA 2004;

    PAGANO; VASCONCELLOS 2005). A seguir trato do processo tradutrio,

    relacionando-o estrutura temtica (van LEUVEN-ZWART 1989; 1990; LUCAS

    1991; VASCONCELLOS 1992; BAKER 1992; DOURADO; GIL; VASCONCELLOS

    1995; VENTOLA 1995; VASCONCELLOS 1997; MUNDAY 1998; NAGANUMA 2000;

    SIQUEIRA 2000; ARS HITA 2004; RODRIGUES 2005; PAQUILIN 2005; PAGANO

    2005; FIGUEREDO 2006).

    Inicio este captulo com as idias devidas Escola de Praga, que foi uma das

    inspiraes para a noo de Tema para Halliday (1994). A questo do Dinamismo

    Comunicativo, de Firbas (1974), tambm de interesse para a minha pesquisa.

    2.1 A Escola de Praga e a Perspectiva Funcional da Sentena

    Mathesius (1939) postula que a Perspectiva Funcional da Sentena (PFS) o

    princpio por excelncia do sistema de ordenao de palavras, cuja ordem

    tema^transio 5 ^rema a ordem no-marcada (no-emotiva) e a ordem

    rema^transio^tema a marcada (emotiva) da orao. Segundo o autor, o lxico e

    a gramtica esto, tambm, a servio dos objetivos do falante na comunicao.

    Portanto, as unidades lexicais vo adquirir significados especficos e a orao tem

    uma estrutura bipartite: Tema e Rema, organizando, assim, contextualmente o 5 elemento do rema, mas como perifrico, considerado um elemento de transio entre tema e

    rema.

  • 20

    discurso do falante. Mas o que se convencionou chamar de abordagem tripla da

    sintaxe nvel semntico, gramatical e contextual se deve a Dane (1957) e a

    Dokulil (1958), mas Dane aponta que, j em 1926, Ertl fazia a distino de trs

    tipos de sujeito: o gramatical, o lgico e o psicolgico. Assim, por exemplo, Pedro

    escreveu um livro pode funcionar como um enunciado segundo a perspectiva

    semntica (agente-ao-meta), segundo a perspectiva gramatical (sujeito-verbo-

    objeto) e a perspectiva comunicativa (tema-transio-rema).

    Contudo, Firbas (1974) diz que, alm da PFS, h outros princpios envolvidos

    na organizao das palavras na orao, tais como os do ritmo, da gramtica e da

    coerncia dos elementos oracionais e que cada ordem seria o resultado da interao

    de vrios princpios. Por exemplo, o grau de Dinamismo Comunicativo (DC) que

    sinalizado pelas estruturas contextuais e semnticas. Considerando os exemplos:

    (1) A girl came into the room.

    (2) Into the room came a girl.6

    nos termos de Mathesius, em (1), pode-se considerar que a ordem no-marcada da

    orao no suscetvel PFS, pois a sua forma mais natural de expresso

    apresenta a ordem rema-transio-tema. A estrutura semntica de (1) contem o

    verbo came que expressa a noo de surgimento em cena, o adjunto adverbial into

    the room que expressa a cena em si e o Sujeito a girl, que indica uma informao

    nova. Nesse contexto, o adjunto adverbial carrega o maior grau de informao,

    quando na verdade, informao j conhecida e, portanto, dependente de contexto.

    A ordem marcada que se v em (2), mesmo no sendo frequente, seria mais

    naturalmente interpretada como tema-transio-rema.

    Para Firbas (1974), tanto a orao (1) quanto a (2) dependem de contexto e o

    adjunto adverbial oferece uma contribuio mnima para o desenvolvimento da

    comunicao, isto , tem o menor grau de DC. O verbo, elemento meramente

    anunciativo do aparecimento tem um grau intermedirio de DC e o Sujeito, elemento

    com a maior independncia do contexto reforado pelo uso do artigo indefinido

    comunicativamente o elemento de maior grau de DC.

    A distribuio de graus de DC pelos elementos da sentena, que faz a

    estrutura gramtico-semntica funcionar em uma determinada perspectiva, resulta 6 (1) Uma menina entrou na sala. (2) Na sala entrou uma menina.

  • 21

    de uma tenso/interao entre a tendncia de distribuio bsica de DC de um lado

    e a estrutura contextual e semntica de outro. A distribuio bsica de DC, que

    segundo Weil, refletiria o movimento da mente, efetivada por uma srie de

    elementos, iniciada pelo elemento que carrega menor grau e passando,

    gradativamente, para o elemento que carrega maior grau de DC. As estruturas

    contextuais e semnticas podem operar na mesma direo ou contra essa

    distribuio bsica. Na ordem padro, contextualmente independente, o verbo

    carrega menor grau de DC que o Objeto, mas maior grau que o Sujeito, pois o

    agente conhecido ou no parece ser comunicativamente menos importante do que

    uma ao ou um efeito desconhecido. No caso de dois objetos linearmente

    dispostos, contextualmente independentes, o que carrega maior grau de DC o que

    vem em posio mais posterior na orao.

    Na Lingustica Sistmico-Funcional, proposta por Halliday (1994), a

    informao colocada em posio inicial na orao tem a funo especfica de

    orientao e, por conseguinte, a constituio de um pano de fundo para a

    interpretao do Rema. Portanto a escolha temtica sempre portadora de

    significado. Nesse sentido, a proposta de Fries (1995a) de mtodo de

    desenvolvimento (MD) diz respeito dinmica engendrada pela informao cont ida

    no Tema de um dado texto ou de um dado segmento de texto.

    A seguir, para tratar da noo de Tema nessa teoria, apresento as propostas

    da Lingustica Sistmico-Funcional, de Halliday (1994) e seus colaboradores.

    2.2 A Lingstica Sistmico-Funcional

    A Lingustica Sistmico-Funcional (LSF) uma teoria iniciada por Halliday

    (1994), linguista britnico, e seus colaboradores (FRIES 1994, 1995; EGGINS 1994;

    MARTIN 1992). Uma descrio sistmica tenta interpretar simultaneamente tanto o

    cdigo quanto o comportamento, para especificar os sistemas dos quais se deriva

    um item lingustico (HALLIDAY; MARTIN 1993). Assim, os sistemicistas entendem

    que, ao analisarmos instncias da lngua em um texto, seja oral, seja escrito,

    correlacionamos simultaneamente diversos sistemas da lngua para fornecer um

    tratamento compreensvel dos fenmenos lingusticos em funcionamento. Isso

    porque, para a LSF, os usurios da lngua no interagem apenas para trocar sons

  • 22

    uns com outros, nem palavras ou sentenas, mas para construir significados. Esses

    significados, ou metafunes, so trs:

    (i) metafuno ideacional: refere-se informao apresentada no texto;

    (ii) metafuno interpessoal: refere-se s relaes entre os interlocutores;

    (ii) metafuno textual: refere-se maneira como as pessoas organizam a fala

    e a escrita de acordo com seu propsito e as exigncias do meio scio-

    histrico-cultural.

    Essas metafunes agem simultaneamente: tudo o que expressamos

    linguisticamente quer, sempre, dizer trs coisas: alguma informao (ideacional) dita

    a algum (interpessoal) de algum modo (textual). Para a LSF, a lxico-gramtica,

    um nvel intermedirio de codificao, que possibilita lngua construir trs

    significados concomitantes, e que entram no texto atravs das oraes. Da porque

    Halliday dizer que a descrio gramatical essencial anlise textual. Por outro

    lado, a noo de escolha cara LSF: quando se faz uma escolha no sistema

    lingustico, o que se escreve ou o que se diz adquire significado contra um fundo em

    que se encontram as escolhas que poderiam ter sido feitas.

    Para Matthiessen (1995), um sistema por escolhas um sistema criado por

    opes no sistema lxico-gramatical geral conforme o texto se desenrola; o

    produto da logognese a criao de significados atravs de escolhas no sistema

    no texto. Do ponto de vista do falante, um sistema por escolhas o sistema de

    seleo que ele tem de fazer ao produzir o texto; do ponto de vista do ouvinte, um

    sistema por escolhas o sistema que ele pode criar baseado na interpretao do

    texto em desenvolvimento. Um sistema por escolhas parcialmente uma cpia de

    parte do sistema geral, mas ele tambm incorpora novas configuraes de

    significados. Sistemas por escolhas desenvolvem-se dentro das trs metafunes.

    Ao interpretar essa situao luz da expanso da logognese dos sistemas

    ideacionais por escolhas, diz Matthiessen (1995), pode se observar que, atravs do

    Tema, a metafuno textual valoriza algum termo do sistema, como sendo o ponto

    atual de expanso ou crescimento.

    Um exemplo analisado com base nas metafunes apresentado no Quadro

    1: 'Certamente, ele estudou ingls no passado':

  • 23

    METAFUNES Certamente ele estud- -ou ingls no passado

    Ideacional Ator processo Material Meta Circunstncia

    Interpessoal

    Mood Resduo Mood Resduo

    Finito

    [Modalizao]

    Sujeito Predicador Finito

    [Tempo]

    Complemento Adj. adverbial

    Textual Tema Rema QUADRO 1 - AS TRS METAFUNES. Fonte: Halliday (1994)

    Na metafuno ideacional, o verbo estudar expressa um processo material;

    ele um Participante Ator; ingls um Participante Meta; e no passado uma

    Circunstncia de tempo. Esses elementos representam a transitividade da orao.

    Na metafuno interpessoal, uma sentena declarativa, na qual o mood

    realizado pelo Sujeito ele, e pelo Finito: (i) pela terminao -ou (flexo do pretrito

    perfeito); (ii) pela Modalizao 'certamente'. O restante da frase forma o Resduo. Na

    metafuno textual, ele realiza o Tema da orao, aquilo de que se fala no Rema,

    que constitui o restante da orao. Na presente pesquisa, vou ater-me

    considerao da metafuno textual.

    O significado ideacional definido por Halliday (1985, p. 53) como a

    representao da experincia: nossa experincia do mundo que existe em nosso

    entorno e tambm dentro de ns, o mundo da nossa imaginao. significado no

    sentido de contedo. Assim, a estrutura semntica ideacional da orao

    constituda de um Processo, do Participante em um Processo e de uma

    Circunstncia relativa ao Processo.

    Quanto ao termo ideacional, devemos fazer a seguinte observao. Segundo

    Halliday (1994), o significado ideacional comporta dois aspectos metafuncionais, o

    experiencial e o lgico. O experiencial representa a linguagem como expresso de

    um Processo ou outro fenmeno do mundo exterior. O lgico representa a

    linguagem como expresso de relaes lgico-semnticas. O terico baseia a

    especificidade da funo lgica nas estruturas que realizam a modificao do ncleo

    nominal ou da orao. Contudo, em trabalhos mais recentes, Halliday (1994,

    HALLIDAY; MATTHIESSEN 2004) no estabelece a diferena entre lgico e

  • 24

    experiencial, usando de maneira geral o termo ideacional, a no ser quando trata

    da estrutura semntica interna de grupos nominais, verbais ou das relaes lgico

    semnticas entre proposies.

    Halliday (1985) define o significado interpessoal como o significado enquanto

    forma de ao e Eggins (1994, p.12) o considera uma marca que perpassa todo o

    texto e que expressa a relao do autor com o leitor e a sua atitude frente ao

    assunto tratado7. Pode-se dizer, ento, que o significado interpessoal da ordem da

    perspectiva adotada pelo escritor/falante para a configurao ideacional da orao.

    E, por se constituir na interao, o significado interpessoal realizado por escolhas

    lexicais, tanto de verbos e de modos e tempos verbais, quanto de substantivos e

    adjetivos com carga semntica conotativa. Podemos dizer, tambm, que o

    escritor/falante deixa sua marca na interao pela organizao sinttica e pela

    entoao (EGGINS 1994, p.192-196). O significado interpessoal frequentemente

    realizado por adjuntos modais em primeira posio e incide sobre toda a proposio:

    (3) Provavelmente, Fumiko Hayashi preferisse poesia. (4) Realmente ela publicou seu primeiro romance tardiamente. (5) Infelizmente, conheo apenas as poesias de Fumiko Hayashi.

    Os adjuntos modais, funcionando como Tema, nos trs exemplos citados,

    agregam predicao o significado de provvel, de confirmao e de apreciao,

    respectivamente.

    O significado interpessoal pode se realizar a partir de um ponto de vista que o

    escritor/falante seja prprio, seja de outrem quer imprimir mensagem, conforme

    o exemplo seguinte:

    (6) Para mim, o melhor de Fumiko Hayashi so as poesias. (7) Segundo Halliday, a lngua est estruturada para realizar, simultaneamente, trs significados.

    O significado textual tem um estatuto especial sobre os significados

    ideacional e interpessoal, pois o significado que organiza o dito como mensagem.

    Halliday (1985, p. 97) se lhe refere como enabling function. , ento, o elemento

    textual que possibilita linguagem exprimir seus significados ideacionais e

    interpessoais. Para Eggins (1994, p. 273), o significado textual, no acrescenta uma 7 meaning as a form of action (HALLIDAY 1985, p. 53). a strand of meaning running throughout the text which expresses the writers role relationship with the reader, and the writers attitude towards the subject matter (EGGINS 1994, p.12).

  • 25

    nova realidade, nem altera as dimenses interpessoais da orao, ele tem a ver com

    o potencial que a orao oferece aos seus constituintes de serem organizados de

    vrias maneiras para atingir diferentes propsitos.

    Temas textuais em lngua portuguesa so realizados por Conjunes e

    adjuntos conjuntivos:

    (8) Finalmente, pai e filho se entenderam. (9) Quando o barco aportou, os pescados j estavam passados. (10) Primeiro passamos na farmcia, depois na padaria. (11) Agora, no podemos deixar de lado a formao terica do professor.

    (12) Em outras palavras, com bom humor podemos superar toda forma de intolerncia, preconceito e violncia.

    Nos exemplos acima, os adjuntos conjuntivos em posio temtica imprimem

    mensagem um significado temporal (8 e 9) ou adversativo (11). Em (11),

    realizao tpica da oralidade, agora tem o trao adversativo de mas, embora

    indique que o que introduz seja uma continuao do assunto em pauta com outra

    perspectiva como se (11) fosse um turno de fala em resposta a uma fala anterior

    que privilegiasse a formao pedaggica do professor. Em (9) temos em posio

    temtica uma conjuno subordinativa que indica uma relao de temporalidade

    para com a principal e em (12) o adjunto conjuntivo estabelece com o restante do

    perodo uma articulao anafrica com o cotexto, configurando um Tema textual

    metafrico.

    Para Matthiessen (1995), as metafunes interpessoal e ideacional tratam de

    domnios de fenmenos que existem fora da lngua. Por meio da metafuno

    ideacional, podemos construir significados da nossa experincia oriundos de

    fenmenos fsicos, biolgicos e sociais; e a da metafuno interpessoal, que nos

    possibilita construir significados de papis e relaes sociais. Em ambos os modos,

    ideacional e interpessoal, criam-se significados; mas o significado um fenmeno

    de ordem mais alta do que fenmenos fsicos, biolgicos e sociais: o trao

    distintivo dos sistemas semiticos.

    J a terceira metafuno, a textual, constri os significados ideacionais e

    interpessoais, para que a informao possa ser compartilhada pelo falante e seu

    interlocutor, proporcionando os recursos para guiar a permuta dos significados no

    texto. Podemos falar em 'guia' do ponto de vista do ouvinte, que projetado pelo

    falante nas suas escolhas textuais. Assim, as condies textuais, tais como,

  • 26

    tematicidade, novidade, continuidade, contraste e recuperabilidade so viabilizadas

    por sistemas textuais. Elementos como Tema, foco informacional, elipse-substituio

    e referncia fazem contribuies complementares, guiando os ouvintes no processo

    de construir sistemas instanciais a partir do texto (MATTHIESSEN 1995).

    2.2.1 Tema na Lingustica Sistmico-Funcional

    Apresento a noo de Tema, segundo Halliday (1994), que, em termos gerais

    tem sido seguida at ento na LSF, complementada, contudo, com algumas

    ressalvas, nos casos conflitantes ou naqueles no previstos pelo autor (GOUTSOS

    1997; GMEZ-GONZLEZ 2000; GOUVEIA; BARBARA 2004; LEONG PING 2005;

    TERUYA 2007, dentre outros).

    O Tema tem sido mais estudado que o Rema, e por enquanto, o Rema tem

    sido caracterizado como sendo tudo na orao menos o Tema, segundo as palavras

    de Halliday. Porm, j na Escola de Praga e mais tarde por Fries (1995), foram

    diferenciadas duas noes no interior do Rema, como poder ser visto adiante.

    Segundo Halliday (1994), a orao organizada como uma mensagem

    porque tem um status especial atribudo a uma de suas partes: um elemento da

    orao enunciado como Tema, "o elemento que serve como ponto de partida da

    mensagem; aquilo de que trata a orao (HALLIDAY 1994, p. 37). O resto da

    mensagem, a parte na qual o Tema desenvolvido, chamado de Rema, palavra

    que ele adota da terminologia da Escola de Praga. O Tema ajuda a estruturar o

    discurso e a dar proeminncia aos elementos que o compe; o Tema, ento,

    combina-se com o resto da orao de tal modo que as duas partes juntas constituem

    uma mensagem. Como estrutura de mensagem, portanto, a orao consiste em um

    Tema acompanhado de um Rema; e a estrutura expressa pela ordem na orao

    o que quer que seja escolhido como Tema ser colocado primeiro.

    Assim, segundo Halliday (1994), como um guia geral, o Tema pode ser

    identificado como o elemento que vem em primeiro lugar na orao. Halliday

    enfatiza que a primeira posio no definio de Tema, mas apenas como ele se

    realiza na orao da lngua inglesa. O Tema um elemento em uma configurao

    estrutural que, tomado como um todo organiza a orao como uma mensagem; essa

    a configurao Tema + Rema. Assim, parte do significado de qualquer orao

  • 27

    depende do elemento que escolhido como Tema, conforme exemplos de Halliday

    (1994):

    (13a) The duke has given my aunt that teapot. 8 (13b) My aunt has been given that pot by the duke. (13c) That teapot the duke has given to my aunt.

    No exemplo (13a) a mensagem sobre o duque, em (13b) sobre minha

    tia e em (13c) sobre o bule de ch. Assim, a diferena entre as oraes acima

    temtica e essas oraes constituem mensagens diferentes, nas quais parte do

    significado depende do elemento que escolhido como Tema, solo de onde a

    orao decola (HALLIDAY 1994, p. 38).

    O Tema constitudo por Grupo Nominal (GN), como os dos exemplos acima,

    por Grupo Adverbial (GAdv) ou por Frase Preposicional (FPrep):

    (14a) The smallest English coin is a halfpenny. (GN) (14b) Very carefully she put him back on his feet again. (GAdv) (14c) With sobs and tears, he sorted out those of the largest size. (FPrep)

    Em ingls, o Tema pode, tambm, ser introduzido por expresses temticas

    como as for... (quanto a), with regard to... (em relao a), about... (a cerca de,

    sobre), geralmente encabeando um GN que retomado mais adiante por um

    pronome.

    (15) As for my aunt, the Duke has given her that teapot.

    O Tema de uma orao marcado na fala, geralmente, pela entoao,

    constituindo um grupo tonal separado. Um grupo tonal corresponde a uma unidade

    de informao e segundo Halliday (1994, p. 39), se a orao estiver organizada em

    duas unidades de informao, o limite entre as duas cair, em geral, na juno do

    Tema e do Rema.

    O Tema da orao um elemento estrutural nico: GN, GAdv e GPrep ou

    FPrep, que pode ser constitudo por apenas uma unidade desses elementos ou por

    um complexo deles. Em ambos os casos, o Tema ser sempre Tema simples, como

    nos exemplos: 8 Nesta seo, por ser a teoria da LSF baseada na lngua inglesa, os exemplos de autores sero reproduzidos na lngua fonte, para melhor demonstrar a teoria. Exemplos em lngua japonesa sero acompanhados de traduo.

  • 28

    (16a) On the ground, or in the air, small creatures live and breathe. (16b) The Walrus and the Carpenter were walking close at hand.

    O Tema no-marcado quando coincide com o Sujeito da orao e

    marcado nos demais casos. O Tema marcado, segundo Goatly (2008) mais

    temtico que o no-marcado.

    Tema no tanto um constituinte, mas um movimento do comeo da orao,

    cujo efeito culminativo. Dependendo do que se coloca no Tema, a fora desse

    efeito vai se abrandando, resultando em combinaes de elementos frequentes,

    menos frequentes ou mesmo improvveis.

    Halliday (1994) prope trs tipos de Tema com base nas metafunes:

    Tema experiencial ou topical, que pode ser o elemento Participante, o

    Processo ou a Circunstncia, do Sistema de Transitividade da metafuno

    ideacional;

    Tema interpessoal, que pode ser: (i) vocativo; (ii) adjunto modal e (iii)

    marcador de mood (o tradicional modo verbal: declarativo, interrogativo e

    imperativo, ou seja, um operador verbal Finito, o interrogativo QU- e em ingls

    o "let's", respectivamente);

    Tema textual, que pode ser: (i) continuativo [sim, no, bem, oh, agora]; (ii)

    estrutural [obrigatoriamente temticos: conjunes e pronomes relativos]; (iii)

    conjuntivos [adjuntos conjuntivos].

    Halliday fala tambm em Tema mltiplo para explicar que, algumas vezes, o

    potencial temtico da orao no completamente exaurido pelos elementos do

    Tema topical (ou Circunstncia, ou Participante ou Processo), podendo este ser

    precedido por elementos que tenham funes textual e interpessoal, configurando,

    assim, um Tema mltiplo. A ordem tpica de um Tema mltiplo :

    textual^interpessoal^experiencial, ou seja, o Tema mltiplo se estende e inclui o

    primeiro Tema experiencial; o que se lhe segue ser parte do Rema.

    O Tema Textual configurado por qualquer combinao de continuativo,

    estrutural e conjuntivo. Continuativo se refere a um pequeno grupo de sinalizadores

    discursivos, tais como: sim, no, bem, oh, agora, que sinalizam uma resposta ou um

    novo turno do falante ou a continuao de um turno. O Tema textual estrutural

    configurado pelas conjunes (coordenativas e subordinativas) e pelos relativos

  • 29

    (definidos e indefinidos). Os relativos, por funcionarem como Sujeito, adjunto ou

    Complemento, podem constituir simultaneamente um Tema topical. O Tema textual

    ser conjuntivo quando configurado por um adjunto conjuntivo, tais como: em

    resumo, na verdade, e, mas, ento, da mesma forma.

    O Tema Interpessoal configurado por qualquer combinao de vocativo,

    modal e marca de modo que preceda o Tema topical. Tema interpessoal vocativo

    em geral um nome pessoal; Tema interpessoal modal realizado por adjuntos

    modais, tais como: provavelmente, geralmente, certamente, francamente, por favor,

    como esperado; e o Tema marcador de Modo um operador verbal Finito,

    precedendo um Tema topical ou um interrogativo qu-, ou o imperativo (no caso do

    ingls: lets), no precedido por outro elemento experiencial.

    Como exemplo da estrutura temtica mais estendida possvel, Halliday

    oferece a seguinte orao:

    well but then Ann surely wouldn't the best idea be to join him

    continuativo estrutural conjuntivo vocativo modal finito topical

    Textual Interpessoal Experiencial

    TEMA MLTIPLO REMA Figura 1 - Tema maximamente estendido. Fonte: Halliday (1994, p. 55)

    A seguir, apresento os Temas classificados com base no "mood" 9 . O

    elemento que em geral escolhido para Tema na orao da lngua inglesa, continua

    Halliday (1994), depende da escolha do mood, que o que se entende por modo em

    portugus. As oraes independentes, na lngua inglesa, so expressas no modo

    indicativo ou no modo imperativo. O modo indicativo se desdobra em declarativo

    Ursos comem mel. e interrogativo, sendo que o interrogativo pode ser de dois

    tipos: polar (sim/no) Ursos comem mel? ou de contedo (iniciadas por Qu-)

    O que comem os ursos? . O modo imperativo, em ingls, se expressa com o

    Finito ou com Lets Eat! ou Lets eat!

    (i) Tema em oraes declarativas em orao declarativa, o tpico o Tema

    coincidir com o Sujeito, caso em que o Tema no-marcado. Nos demais

    casos, o Tema ser marcado. Halliday prope, ainda, uma subcategoria para

    9 Vamos manter o termo mood, j que sua traduo no portugus para "modo" causa confuso com

    outro "modo", traduo de mode, variante de Registro, organizado pela metafuno textual.

  • 30

    a orao declarativa, que a exclamativa, cuja estrutura temtica tem como

    Tema um elemento wh-, por exemplo:

    (17) How cheerfully, he seems to grin! (18) What tremendously easy questions you ask!

    (ii) Tema em oraes interrogativas em uma pergunta na qual a polaridade est

    em pauta, o Tema o elemento que incorpora a expresso dessa polaridade,

    isto , na lngua inglesa o verbo finito is/isnt; do/dont; can/cant... Em uma

    pergunta sobre a identidade de algo, o elemento que funciona como Tema o

    elemento que expressa a natureza da informao buscada who, what, when,

    how...

    (19) Can you keep a secret? (20) Who killed Cock Robin?

    (iii) Tema em oraes imperativas no caso do imperativo afirmativo, o Tema

    tpico traz o verbo na posio temtica, sendo essa sua escolha no-marcada.

    Nas oraes imperativas negativas, o Tema no-marcado ser o pr-verbo na

    forma negativa dont e o verbo. Halliday acrescenta que a forma positiva das

    oraes imperativas pode ter uma forma marcada, vista como contrastiva,

    com o pr-verbo do mais o verbo, como nos exemplos:

    (21) Answer all five questions! (22) You kids, keep out of the way. (23) First, catch your fish! (24) Dont leave any belongings on board the aircraft! (25) Dont lets quarrel about it! (26) Lets not quarrel about it! (27) Do take care!

    H, ainda, certos elementos que tm um status especial na estrutura temtica

    na orao. Alguns so obrigatoriamente temticos, como as conjunes e pronomes

    relativos; e outros, no obrigatoriamente, mas so em geral temticos, como os

    adjuntos conjuntivos e modais. Segundo Halliday (1994, p. 49), natural que

    adjuntos conjuntivos e modais venham em primeira posio, pois o falante sempre

    apresenta sua posio sobre determinado assunto ou faz as ligaes necessrias

    com aquilo que disse anteriormente como ponto de partida da sua mensagem.

  • 31

    Embora as conjunes se assemelhem aos adjuntos conjuntivos em

    significado, esses ltimos tambm estabelecem uma relao gramatical e constituem

    uma classe de palavras. J os relativos, no constituem uma classe distinta,

    podendo ser nomes ou advrbios (whose house-GN; however badly-GAdv; for

    whatever reason - FPrep). Assim, podemos dizer que os relativos tm funo dual:

    como as interrogativas wh-, atuam como Sujeito, adjunto ou Complemento ao

    mesmo tempo em que criam alguma forma de dependncia com um sentido geral de

    identidade a ser recuperada em algum lugar (HALLIDAY 1994, p.51).

    2.2.1.1 Outros Tipos de Tema

    (i) Tema equativo o Tema equativo sentena pseudo-clivada (pseudo-cleft

    sentence) o primeiro constituinte unido pelo verbo 'ser' aos demais

    elementos da orao:

    (28a) What the duke gave to my aunt was that teapot. (28b) The one who gave my aunt that teapot was the duke.

    (28c) The one the duke gave that teapot to was my aunt.

    (ii) Tema predicado o Tema predicado a sentena clivada (cleft-sentence)

    um elemento de funo representancional separado da predicao, colocando

    a informao Nova antes da Dada, invertendo, portanto, a ordem mais comum,

    que a informao nova vir depois da dada.

    (29) It was his teacher who persuaded him to continue.

    (iii) Tema deslocado Halliday (1994) define Tema deslocado (displaced Theme)

    como um elemento topical que constituiria um Tema no-marcado, se o Tema

    marcado da orao fosse refraseado como uma orao dependente. Por

    exemplo:

    (30) Apart from a need to create his own identity having been well and truly

    trained and educated and, indeed, used by his father for so long, emotionally and practically, Robert felt ()

    (30a) Besides needing to create his own identity, Robert felt ()

  • 32

    Em (30), h um Tema topical marcado, Apart from a need to create his own identity,

    configurado por uma circunstncia de modo, e um Tema deslocado, Robert, Tema

    topical configurado pelo Experienciador do Processo mental, "felt". O refraseado, em

    (30a), Halliday (1994, p. 66) considera uma maneira mais congruente de expresso

    que tem Robert como Tema no-marcado.

    (iv) Orao como Tema o caso de uma orao complexa, ou seja, uma

    orao composta de uma orao ncleo (dominante) e outra modificadora

    (dependente/hipotaxe), a sequncia tpica delas a da orao modificadora

    seguir a orao ncleo, como em Give that teapot away if you dont like it.

    Contudo, a ordem inversa tambm possvel e a nova estruturao temtica

    indicar o desagrado pelo teapot: If you dont like that teapot, give it away.

    Nas oraes complexas 10 , quando a orao modificadora anteceder a

    principal, Halliday diz que h duas possibilidades: (a) o Tema a orao

    modificadora inteira; (b) o Tema o Tema dessa orao modificadora. Assim em:

    Quando o taxi chegou ao destino, ela j estava recomposta, o Tema pode ser um

    Tema oracional: Quando o taxi chegou ao destino, ou considerando-se duas

    oraes, na primeira um Tema mltiplo: Quando o taxi (textual + topical), e na

    segunda, um Tema simples: ela (topical). Em minha anlise, considerarei Tema a

    orao modificadora inteira.

    Na relao parattica, as oraes so independentes e, portanto, passveis

    de anlise temtica distinta, o que no acontece quando da relao hipottica e

    encaixada (e.g. Pedro estudou muito, mas ele no conseguiu passar no concurso.).

    2.2.1.2 No constituem Tema

    (i) Oraes encaixadas (rankshisfted) as oraes rankshifted11 so includas

    no nome que qualificam, no sendo levadas em conta separadamente na

    anlise. Assim, em: The man who came to dinner..., a orao who came to

    10 Perodo composto por subordinao. 11 Orao subordinada adjetiva restritiva, que pode ser reduzida a um termo da orao: o adjunto adnominal.

  • 33

    dinner analisada juntamente com The man. Embora, Matthiessen (1995)

    no faa essa incluso, considerando as rankshifted separadamente, em

    minha anlise, adoto a posio de Halliday (1994).

    (ii) Oraes menores as oraes menores, sem modo ou estrutura

    transitiva, funcionam como chamados, exclamaes ou cumprimentos e no

    tm estrutura temtica. Exemplos: Good Night!; Well done!

    (iii) Oraes elpticas oraes em que o Tema omitido podem ter: (a) elipse

    anafrica, quando alguma parte da orao pressuposta pela parte j

    enunciada, como, por exemplo, uma resposta a uma pergunta: Yes; All

    right.; ou (b) elipse exofrica, quando a orao no pressupe nada do que j

    foi veiculado, mas sim reflete o contexto: Thristy! (Are you thristy?); A song!

    (Lets have a song!). Essas oraes possuem apenas Rema.

    O Quadro 2 faz um resumo dos tipos de Tema citados acima.

    T E M A

    Quanto ao Significado IDEACIONAL INTERPESSOAL TEXTUAL

    Quanto ao Modo DECLARATIVO INTERROGATIVO IMPERATIVO

    Quanto aos Tipos Equativo Predicado Deslocado Oracional QUADRO 2 - TIPOS DE TEMA Fonte: Halliday (1994)

    A seguir, trato da noo de metfora gramatical, proposta por Halliday (1994),

    e que pode exercer a funo de Tema. O reconhecimento de uma metfora

    gramatical importante, pois contribui para a indicao de um Tema.

    2.2.2 A metfora gramatical

    A metfora gramatical pode levar uma orao a funcionar como Tema. Isso

    ocorre quando uma orao no representada pela sua forma congruente, mas sim

    pela sua forma metafrica. A orao congruente The duke gave my aunt that

    teapot pode ser expressa por uma orao metaforicamente formada, What the

  • 34

    duke gave my aunt was that teapot. Ambas as formas no so gramaticalmente

    sinnimas, h sempre uma feio semntica diferenciando-as. No exemplo acima, a

    metfora gramatical ocorreu no componente ideacional da orao, mas ela pode

    ocorrer no componente interpessoal, tambm. Quando se diz I dont believe that

    pudding ever will be cooked h a orao ncleo expressando a modalidade I don't

    believe" (na minha opinio...no parece que), seguida da orao modificadora. O

    que sinaliza a construo metafrica coloc-la na forma tag question, que seria I

    dont believe that pudding ever will be cooked, will it? (e no do I?, que seria a

    interpretao da forma congruente). Assim, a orao ncleo interpretada como um

    Tema Interpessoal Modal, como mostrado nas duas anlises: (a) enquanto forma

    congruente e (b) enquanto metafrica:

    I don't believe that pudding ever will be cooked

    (a) Tema Rema Tema Rema

    (b) interpessoal (modal) topical

    Tema Rema Figura 2 - Possibilidades de anlise de Tema segundo interpretao congruente ou metafrica Fonte: Halliday (1994, p. 58)

    2.3 A estrutura temtica e a inteno comunicativa

    O que apresento a seguir envolve a aceitao do Tema como o elemento que

    ocupa o primeiro lugar na orao, o que, segundo o que j dito, acontece pelo

    menos no ingls.

    A posio inicial manifesta o modo como uma orao deve ser considerada:

    se se pretende introduzir algo de acordo com a linha de argumentao que est

    sendo conduzida ou se se pretende introduzir uma linha diferente de argumentao

    (HALLIDAY 1994). Assim, pode-se estender a validade do domnio do tpico do

    discurso acrescentando-se mais evidncias para apoiar esse tpico, ou pode-se

    diminuir o domnio com o fornecimento de contra evidncias. Contra esse pano de

    fundo, a construo da coerncia do discurso precisa transcender os limites locais e

    por isso que os tpicos de sentena precisam apresentar coerncia com tpicos

    do discurso, e os temas precisam apresentar coerncia com seus hipertemas

  • 35

    (RAVELLI 2003). Como consequncia, a coerncia do discurso um conceito que

    no nem local, nem global. preciso adotar uma perspectiva parte-todo para dar

    conta da ligao entre domnios locais e globais.

    Nesse sentido, afirma Halliday (1994), Tema uma escolha significativa que

    especifica o ngulo a partir do qual o falante/escritor projeta sua mensagem: o

    que estabelece o cenrio para a prpria orao e a posiciona em relao ao texto

    que se desenrola (HALLIDAY; MATTHIESSEN 2004, p. 66).

    Halliday (1994) distingue entre Tema marcado e no marcado para analisar

    as intenes comunicativas que levam o falante/escritor a mudar de posio um

    constituinte da orao de seu lugar tpico para a posio inicial da orao. O

    falante/escritor no pode usar sempre uma estrutura prototpica, j que, em muitas

    ocasies, a efetivao da mensagem requer uma opo marcada com alguma

    conotao informativa especfica. Nesse sentido, Goatly (2008, p. 61) mostra que

    Temas no marcados so menos propensos a envolver uma escolha deliberada do

    que Temas marcados, e que estes so mais significativos e mais verdadeiramente

    temticos do que os nomarcados.

    O Tema no marcado refere-se a uma organizao textual que funciona de

    forma autnoma e demanda pistas contextuais mnimas para a apreenso do

    sentido, enquanto que Temas marcados colocam em posio temtica pores de

    informao que exigem pistas contextuais que evidenciem o porqu da escolha

    realizada, j que no a escolha cannica (PAGANO 2005).

    A escolha temtica no marcada ou marcada afeta a organizao do fluxo da

    informao, pois possibilita ver na tessitura do texto como o escritor/falante deixa

    clara a natureza de suas preocupaes subjacentes (HALLIDAY; MATTHIESSEN

    2004, p. 105). Temas predicados, por exemplo, so usados para enfatizar, ressaltar

    uma determinada parte da informao ou evidenciar sentimentos ou emoes

    (LIROLA; SMITH 2006, p. 237). Contudo, no marcado/marcado so indicativos de

    estruturao e podem no ser parmetro para uma definio funcional de Tema. A

    propsito, Gouveia e Barbara (2004a) levantam a questo de como se considerar a

    posio inicial do Predicador na lngua portuguesa, j que o Sujeito em portugus

    pode ser elidido sem prejuzo do sentido.

    Por sua vez, Teruya (2007) refere-se ao fato de na lngua japonesa a

    Circunstncia vir, em geral, em primeira posio, antes do Sujeito. Assim sendo, em

    contexto de traduo da lngua japonesa para a portuguesa, mais do que a questo

  • 36

    no marcado/marcado, interessa-me verificar as escolhas lxico-gramaticais

    implicadas no Tema para construir um sentido dentre as possibilidades de escolha.

    2.4 A Estrutura Informacional: o Dado e o Novo

    Muitos linguistas, diz Fries (1994), descrevem o uso do artigo indefinido para

    introduzir um referente que no recupervel a partir do contexto, enquanto que

    artigos definidos seriam usados para introduzir referentes recuperveis a partir do

    contexto. Contudo, para o autor, essa descrio carrega em si uma ambiguidade,

    pois recuperabilidade usada para descrever a diferena entre informao Dada e

    Nova. No caso de identificao de Participante estamos preocupados com

    identidade referencial. J no caso de estrutura informacional, estamos interessados

    com aquilo que considerado notcia.

    Assim, no caso do Novo na estrutura informacional, Fries o designa digno de

    ser notcia (newsworthiness) e adota a nomenclatura de Martin (1992): para

    designar novos referentes no discurso, serve-se de referncia apresentada

    (presenting reference), associada com indefinitude e para designar os Participantes

    j familiares aos leitores/ouvintes, serve-se de referncia presumida (presuming

    reference), associada definitude.

    Fries mostra que, embora haja, aparentemente, uma correlao entre Rema e

    informao Nova e Tema e informao Dada, essa correlao no regra. Para o

    autor, Dado e Novo so orientados para o ouvinte. Trata-se de instrues para o

    ouvinte sobre como interpretar o que est sendo dito e como isso deve ser

    relacionado com aquilo que o ouvinte j conhece. A deciso do que assinalar como

    Dado ou Novo fica com o falante. uma escolha significativa e, portanto, no

    predizvel.

    2.4.1 Tema e Rema Dado e Novo

    Como mencionado, ao contrrio dos pesquisadores da Escola de Praga, que

    combinam o conceito de Tema com foco informacional (Dado e Novo), os dois

    elementos Tema e informao so, segundo Halliday, produtos de dois sistemas

    distintos, cada um construindo uma escolha semntica distinta para o falante e cada

  • 37

    um sendo realizado de modos diferentes. A separao da estrutura Tema e Rema

    da estrutura de Dado e Novo ento justificada no s pela evidncia lxico-

    gramatical, mas tambm pelas suas funes distintas, diz o autor. Em resumo, nem

    sempre o Tema coincide com o Dado.

    Nessa linha de raciocnio, tambm Gmez-Gonzlez (2000) mostra que a LSF

    adota a idia separatista, entendendo que o Tema o elemento da PFS, realizado

    pela posio inicial, e no tem nada a ver com a meno anterior ou com as

    escolhas de Dado e Novo (HALLIDAY 1974, p. 53). A razo mencionada que,

    embora o Dado e o Tema normalmente coincidam em uma palavra, uma vez que as

    lnguas tendem a ater-se ao princpio de Dado antes do Novo, os falantes podem ter

    boas razes para fazer o contrrio.

    Algumas abordagens predizem que, j que os significados de Tema-Rema e

    de Dado-Novo diferem, os dois grupos de categorias respondero a diferentes

    foras e contero diferentes tipos de informao, medida que um texto progride

    atravs de seus vrios estgios. A propsito, Martin (1992, p. 381-492) observa que,

    uma vez que o Tema orientado para o falante (sobre o que o falante fala) e o

    Novo orientado para o ouvinte (Novo para o ouvinte), as duas categorias devem

    produzir diferentes resultados comunicativos. Fries (2002) conclui que as escolhas

    de Novo, olham para trs, juntando os significados que foram acumulados para

    elaborar o Campo de um texto, desenvolvendo o discurso em termos experienciais,

    enquanto as escolhas de Tema se projetam para frente, amparando o texto em

    relao ao seu propsito retrico.

    A posio do Dado antes do Novo evoca a perspectiva funcional da sentena,

    que refraseada como a tendncia a uma forma organizacional da esquerda para a

    direita na unidade de informao, com o Dado geralmente um elemento anafrico

    ou ditico se presente, mapeado no Tema e assim precedendo o Novo, mapeado

    no Rema. Esses padres textuais atribuem picos como ondas ou pulsaes de

    proeminncia no comeo e no fim da orao. O Rema tratado como orientado-

    para-o-ouvinte: ele reala a informao que , de algum modo, Nova. Em oposio,

    o Tema descrito como um tipo especial de elemento orientado-para-o-falante: ele

    marca o ngulo do falante sobre o contedo da mensagem. Escolhas temticas (e

    textuais) so representadas como instrumentais a outras escolhas gramaticais,

    ajudando os textos a serem coerentes em relao a si mesmos, isto , a serem

  • 38

    coesos, e serem coerentes em relao a seus contextos de situao, como

    observado por Halliday (1978, p. 134).

    2.5 Organizao da mensagem e Progresso temtica

    Thompson (1996, p.141) tratando de Tema como elemento organizador da

    mensagem, afirma que o Tema no texto tem quatro funes principais, que podero

    apoiar a anlise das tradues desta pesquisa:

    (i) assinalar a manuteno ou o progresso daquilo de que trata o texto ou um

    determinado trecho do texto. Essa funo realizada pela escolha do Sujeito

    que se mantm nas oraes seguintes ou progride pela escolha de um

    elemento do Rema da orao precedente como Tema da seguinte;

    (ii) especificar ou mudar o enquadre (framework) para a interpretao das

    oraes subsequentes (Cf. FRIES 1995). Essa funo realizada,

    principalmente, pela escolha de adjuntos, equativos temticos ou Temas

    Predicados;

    (iii) assinalar os limites de partes do texto. Essa funo realizada pela escolha

    de Conjuntivos, Continuativos e Circunstanciais; e

    (iv) assinalar que aquilo que o escritor/falante pensa um incio importante, til ou

    vivel para a organizao de sua mensagem.

    Em outro vis, para pensar a construo da estrutura textual, trago a proposta

    de Dane, da Escola de Praga, entre o final da dcada de 1960 e incio da dcada

    de 1970. Em seu artigo Functional Sentence Perspective (PFS) and the

    Organization of the Text, de 1974, Dane expe os resultados de suas pesquisas

    sobre as contribuies da organizao temtica da orao com vistas coeso

    textual.

    A PFS, introduzida por Dane, refere-se ao fluxo de informao no interior de

    um enunciado e que se efetiva atravs da ordem das palavras escolhida pelo falante

  • 39

    ao expor suas ideias. Dane (1974) chama de progresso temtica (PT) a escolha e

    a ordenao dos Temas do enunciado de um texto, que se concatenam e se

    hierarquizam entre si, bem como a sua relao com o hipertema das unidades

    textuais superiores, tais como o pargrafo e o captulo. Tendo por base a anlise da

    estrutura temtica de diversos textos, o autor descreve cinco tipos principais de PT

    que apresento a seguir, como exemplificado por Mira Mateus (2003, p. 118-122),

    configurando T para Tema e R para Rema:

    (a) PT linear simples neste tipo de progresso temtica, o Tema de uma orao

    retoma o Rema imediatamente anterior.

    (31) [] Sou um guardador de rebanhos. O rebanho os meus pensamentos. E

    os meus pensamentos so todos sensaes [...]

    No exemplo citado, o Rema de cada orao [rebanho/os meus pensamentos]

    constitui o Tema da orao subsequente.

    (b) PT com T constante este tipo de PT encontrado em textos cujas oraes

    tm o mesmo Tema .

    (32) Era uma vez trs traos, que viviam sozinhos, um para cada lado. Dois

    grandes e um pequenino. Um dia, andavam eles a passear, tristes da sua solido, quando de repente [] se encontraram. Ah! exclamaram os trs em coro. E [] formaram um A. Os trs tracinhos do A ficaram parados a ver quem passava. [...]

    O Tema da primeira orao ("trs traos") se repete nas oraes seguintes e

    cerca dele so ditas vrias coisas, configurando os Remas dessas oraes.

    (c) PT com Temas derivados de um hipertema este tipo de PT se d nos casos

    cujos Temas oracionais de uma sequncia textual ou de um texto procedem de um

    hipertema, isto , os Temas funcionam como hipotemas de um Tema que englobe

    o pargrafo, a sequncia textual ou mesmo o captulo.

    (33) Os mamferos vivem em geral no meio terrestre. No entanto, alguns mamferos vivem no meio aqutico. Os mamferos aquticos tm os membros anteriores preparados para a natao.

  • 40

    No exemplo (33), o GN os mamferos funciona como um hipertema do qual

    derivam os Temas subseqentes, particularizando o hipertema: mamferos alguns

    mamferos mamferos aquticos.

    (d) PT com Temas derivados de um Rema guardando semelhana com os tipos

    (a) e (c), este tipo de PT caracteriza-se por ter um Rema mltiplo ou que configure

    diversas partes, sendo que cada uma das partes do Rema tematizada na orao

    seguinte.

    (34) A casa da fazenda fica no alto do morro, cercada de casuarinas. O morro

    no muito alto, mas oferece uma bela vista. As casuarinas, quando em plena florescncia, do um toque especial paisagem.12

    Em (34), vemos que cada parte do Rema da primeira orao constitui o Tema

    das oraes subsequentes, desenvolvendo a informao de forma a completar o

    cenrio do texto.

    (e) PT com saltos ou omisses/rupturas temticas este tipo de PT diz respeito

    s alteraes temticas que ocorrem no texto devido eliso de oraes claramente

    implcitas ou mesmo de ruptura na PT com a introduo de novo Tema.

    (35) A: A festa foi tima, divertidssima. Estava l meio mundo. [] Tive imensa

    pena que [] no tivesse querido ir! Como de costume, a Marta esteve divina e o Rui contou histrias engraadssimas daquele embaixador que ...

    B: A minha fome no consegue esperar mais. Minha querida, se [] se arranjasse e [] fssemos almoar?

    O exemplo dado mostra saltos na PT de festa para Participante/ator na

    fala de A e uma ruptura temtica com a intromisso do falante B.

    Dane alerta que esses tipos de PT devem ser tomados como princpios

    abstratos ou modelos e sua realizao em diferentes lnguas depende das

    propriedades da dada lngua. Mas, de qualquer forma, para o terico, a PT um

    fator de coeso textual. A tipologia de PT proposta por Dane tem servido de

    parmetro para inmeros estudos que tratam do desenvolvimento temtico em nvel

    textual (HATIM 1988; HATIM; MASON 1990, dentre outros). 12 Exemplo prprio.

  • 41

    A propsito, Fries (1995a) cita a pesquisa de Francis (1989; 1990), que

    examina o Tema da orao, comparando trs tipos de gnero: noticirio, editorial e

    carta para o editor, e infere que o gnero noticirio apresentou maior nmero de

    progresso temtica com Tema constante. Fries (1981) j havia demonstrado que o

    texto argumentativo tende a apresentar progresso temtica linear, mas que h

    gneros que no apresentam um padro definido de progresso temtica. O autor

    postula, ainda, que se o mtodo de desenvolvimento (MD) se reflete no contedo

    do Tema, a mudana de Tema deve mudar a percepo do leitor sobre o MD.

    Antes de tratar do Tema nas lnguas japonesa e portuguesa, julgo ser

    importante dizer algumas palavras a respeito da chamada hiptese do determinismo

    lingustico, uma tentativa de explicar as diferenas de "viso de mundo", de "recorte

    de mundo", que uma lngua impe ao seu usurio, uma vez criado em determinada

    cultura, segundo Sapir e Whorf (SLOBIN 1980). Ser notado, tambm, que, ao

    menos na comparao dessas lnguas, o Tema est ligado questo da tipologia

    que caracteriza cada uma delas.

    2.6 O Determinismo Lingstico

    A hiptese de que lnguas diferentes influenciam o pensamento de maneiras

    diferentes existe desde o inicio da Filosofia, segundo Slobin (1980). A hiptese da

    Relatividade e Determinismo lingusticos veio a ter o nome de hiptese whorfiana,

    em homenagem a Benjamin Lee Whorf, que devotou grande ateno ao problema

    (WHORF 1956). Comecemos com uma afirmao sobre o problema feita por Edward

    Sapir, o grande linguista que foi professor de Whorf:

    Os seres humanos no vivem isolados no mundo objetivo, nem no mundo da atividade social como ordinariamente se entende, mas esto muito a merc da lngua que se tornou o meio de expresso de sua sociedade. O fato que o "mundo real" , em larga extenso, inconscientemente construdo sobre os hbitos lingusticos do grupo (MANDELBAUM 1958, p. 162).

    Sapir, no princpio, diz que estamos "a merc da lngua" (verso forte do

    determinismo); mais tarde, simplesmente diz que "os hbitos lingusticos [...]

    predispem a certas escolhas de interpretao" (verso fraca do determinismo). Fica

  • 42

    tambm claro dessa afirmao que lnguas diferentes so consideradas como tendo

    efeitos diferentes no pensamento e na experincia. A afirmao de Sapir avana,

    assim, as noes de determinismo lingustico, ou seja, a lngua pode determinar a

    cognio; e de relatividade lingustica, isto , o determinismo relativo Ingua que

    se fala.

    Comeamos a pensar em relatividade lingustica, diz Slobin, quando

    comparamos lnguas e descobrimos quo diferentes podem ser as categorias da

    experincia incorporadas nas vrias lnguas. Como h de se ver logo a seguir, as

    lnguas diferem grandemente, tanto nas categorias que expressam como nos meios

    lingusticos especiais que empregam para a representao das vrias categorias.

    Essas diferenas vo alm do fato to conhecido de que a maioria das palavras no

    tem traduo perfeitamente equivalente, de uma lngua para outra.

    Whorf estava mais interessado em relacionar o lxico e a gramtica

    especialmente a gramtica a Weltanschauung total, a total cosmoviso de uma

    cultura. O tipo de equao proposto por ele foi mais abrangente e, assim, a sua

    abordagem algumas vezes chamada de "hiptese lingustica da Weltanschauung".

    2.6.1 O nvel lexical

    As questes que levaram ao conceito de relatividade lingustica podem ser

    examinadas a partir do nvel lexical.

    (a) Quando se compara duas lnguas, pode-se concluir que uma delas tem

    palavras para as quais no h palavras equivalentes na outra lngua (e.g.

    'pinga'; 'tatami').

    (b) As Inguas tambm diferem no fornecimento de hipernimos para designar

    varias categorias. Por exemplo, 'nut', do ingls no tem traduo para o

    portugus. Os rabes tm muitos termos para as vrias raas de cavalos,

    mas no tm nenhum termo hiperonmico para 'cavalos' em geral.

    (c) As lnguas diferem lexicamente tambm nos modos como seccionam os

    vrios Campos semnticos. As lnguas diferem no nmero de termos para cor,

  • 43

    e no modo como dividem o continuum do espectro solar. A natureza e os

    efeitos da codificabilidade na diviso de alguns campos semnticos podem

    diferir entre as lnguas. Quanto ao primeiro ponto, considere-se o exemplo de

    Whorf (1956) sobre a riqueza do vocabulrio dos esquims no que tange

    neve, ou dos japoneses no que tange chuva. Em cada perodo de uma

    estao do ano a denominao da chuva sofre variao: hisame, kosame,

    harusame, samidare, akisame.

    Isso leva ao segundo ponto: o efeito da codificabilidade. Em francs, um s

    termo, 'conscience', usado para os dois termos ingleses, 'conscience' e

    'consciousness'. Por um lado, isso significa que aqueles que falam francs no tm a

    seu alcance um meio de distinguir as duas noes, como tm os de lngua inglesa.

    Por outro lado, isso significa que eles podem, mais facilmente, estabelecer uma

    relao de identidade parcial entre esses dois termos, o que muito difcil para os

    falantes de ingls. Alguns pensam ser possvel demonstrar que essa identidade

    lingustica levou os pensadores franceses a uma fuso conceitual maior entre os

    conceitos de 'conscience' e 'consciousness', do que o que se d entre os

    pensadores ingleses ou alemes.

    Embora seja um ponto discutvel, Slobin (1980) tende a crer que qualquer

    conceito pode, de algum modo, ser codificado em qualquer lngua, embora

    facilmente em algumas e por meio de circunlquios complexos em outras. Assim,

    quanto ao nvel lexical, ele optaria pela forma fraca da hiptese whorfiana. Essa

    forma traa uma importante distino entre comportamento habitual e potencial. Por

    exemplo, embora todos os homens possam discriminar potencialmente um grande

    numero de cores, a maioria emprega habitualmente apenas poucos termos alusivos

    a cores que lhes sejam usuais.

    2.6.2 O nvel gramatical

    Na discusso do nvel gramatical, a questo do determinismo se torna

    complicada, porque h uma variedade de classificaes obrigatrias incorporadas

    gramtica, s quais geralmente no se presta ateno. Compare-se:

    (36) The stone falls X it stones down

  • 44

    (37) He rode out of the garden X El sali del jardin montando a caballo.

    Em (36), a lngua inglesa considera 'pedra' como um mineral esttico e imvel

    e, assim, trata-o como substantivo; j uma lngua indgena do distrito de British

    Columbia, Canad, o nootka, segundo Slobin, v 'pedra' como um elemento

    dinmico, dotado de movimento, e o trata como verbo. Por outro lado, 'fall' encerra

    em si dois lexemas: movimento + para baixo que se unem ao mineral 'pedra'; j em

    'stones', temos: movimento + mineral, ao que se precisa indicar 'down' (para baixo).

    O mesmo acontece em (37): 'rode out' (mov + adj.adv [a cavalo]) + out (para fora),

    contra: 'sali' (mov + para fora) + adj.adv. Exemplos como estes tornam claro por

    que se tem generalizado a noo de que as categorias gramaticais de uma lngua

    levam, sem que se perceba, a prestar ateno em diferentes atributos das situaes.

    E esse tipo de fenmeno lingustico acontece especialmente em lnguas

    pertencentes protolnguas diferentes, como entre portugus e japons.

    Segundo Slobin, os antroplogos culturais investigam as semelhanas das

    estruturas fundamentais das culturas, e os psiclogos esto saindo da cultura

    ocidental para estudos interculturais, numa tentativa de compreender as leis gerais

    do comportamento e do desenvolvimento humanos. E conclui que, ao mesmo tempo,

    seria perigoso esquecer que lnguas e culturas diferentes podem, na verdade, ter

    efeitos importantes sobre o que crero e faro os homens no futuro.

    2.7 A tipologia lingustica

    A conferncia interdisciplinar pioneira sobre a questo dos universais

    lingusticos, organizada em 1961, por Greenberg, Osgood e Jenkins gerou bastante

    informao a respeito das lnguas do mundo, e veio revelar padres comuns

    surpreendentes (SLOBIN 1980). Todas as lnguas so condicionadas por:

    (a) tendncias humanas a pensar e imaginar de certa maneira;

    (b) exigncias de realizao impostas por um cdigo que se enfraquece

    rapidamente e temporariamente ordenado (seja fala auditiva ou sinal visual);

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    (c) natureza e metas da interao humana.

    Examinando uma extensa e variada amostra das Inguas do mundo,

    Greenberg (1963) e outros depois dele encontraram curiosas lacunas nas

    combinaes possveis dos traos gramaticais que constituem uma lngua. Assim,

    uma lngua que tem a ordem SVO (sujeito-verbo-objeto) usa preposies. Outras,

    que tm a ordem SOV, usam posposies.

    Comparando a lngua portuguesa com a japonesa: a estrutura da lngua

    japonesa do tipo SOV (Sujeito-Objeto-Verbo) e o trao mais forte dessa estrutura

    a posio do verbo no final, como em

    O exrcito no pode capturar o homem que era o lder da guerrilha.

    S auxiliar + V O + modificador

    Guntai wa guerira no riida no otoko o taiho suru koto ga dekinakatta

    S modificador + O V+ auxiliar Figura 3- Comparao da estrutura lingustica do portugus com o japons. Adaptado de Slobin (1980, p. 97)

    Observa-se que, tanto na lngua SVO como na SOV, h a necessidade de

    colocar prximos o verbo principal (V) e o ncleo do objeto (O): VO em portugus e

    OV no japons. E, para que OV ou VO tenham seus elementos colocados juntos, os

    auxiliares do verbo e os modificadores do objeto so obrigados a se deslocarem

    para antes ou para depois desses elementos, sempre na direo oposta se

    consideradas essas lnguas de diferentes tipologias. Essa seria, segundo Slobin

    (1980), uma restrio psicolingustica: a mente humana exige uma sintaxe que

    obedea a esse tipo de restrio, caso contrrio, corre o risco de no conseguir

    process-la.

    As lnguas so, assim, feitas para ajustar-se mais ou menos estritamente a

    um princpio muito simples e humano: "O que est mentalmente junto, coloca-se

    sintaticamente junto, rigorosamente" ["Behagel's First Law" (BEHAGEL 1923, apud

    SLOBIN 1980, p.99)].

    Sobre a ordem dos sintagmas na sentena da lngua japonesa, Martin (2004)

    afirma que:

    Japanese is usually said to have a free word order with respect to the adjuncts. This means that so long as you put the predicate (the nuclear

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    sentence) at the end, where it belongs in a well-planned sentence, you are free to present each of the build-up phrases early or late as you see fit. () (MARTIN 2004, p.35). 13

    Essa ordem, embora, no