pontifícia universidade católica puc-sp da araujo... · profª drª circe maria fernandes...

of 251/251
Pontifícia Universidade Católica PUC-SP Selma da Araujo Torres Omuro A escolarização da comunidade nipo-brasileira de Registro (1913-1963) Doutorado em Educação: História, Política, Sociedade São Paulo 2015

Post on 10-Feb-2019

225 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

I

Pontifcia Universidade Catlica

PUC-SP

Selma da Araujo Torres Omuro

A escolarizao da comunidade nipo-brasileira de Registro (1913-1963)

Doutorado em Educao: Histria, Poltica, Sociedade

So Paulo

2015

II

Selma da Araujo Torres Omuro

A escolarizao da comunidade nipo-brasileira de Registro (1913-1963)

Doutorado em Educao: Histria, Poltica, Sociedade

Tese apresentada Banca Examinadora da

Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo

como exigncia parcial para obteno do Ttulo de

DOUTOR em Educao: Histria, Poltica,

Sociedade, sob orientao da Prof.(a) Dr.(a) Circe

Maria Fernandes Bittencourt.

So Paulo

2015

III

Banca Examinadora

_______________________________________

Prof Dr Circe Maria Fernandes Bittencourt

Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUC-SP) Orientadora

________________________________________

Prof. Dr. Kazumi Munakata

Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUC-SP)

________________________________________

Prof Dr Zeila Brito de Fabri Demartini

Universidade Metodista de So Paulo (UMSP)

_________________________________________

Prof. Dr. Antonio Simplcio de Almeida

Universidade Federal de So Paulo (UNIFESP)

_________________________________________

Prof. Dr. Daniel Ferraz Chiozzini

Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUC-SP)

IV

Somos o que somos um pouco pelo acaso, um pouco pelas escolhas que fazemos

ao longo de nossas vidas, e muito pelos conhecimentos, valores, decises e experincias

que herdamos daqueles que nos precederam.

Dedico este trabalho memria de algumas pessoas que influenciaram, direta ou

indiretamente, em minha histria e que me inspiraram a desenvolver esta pesquisa:

Joo Teixeira de ARAUJO, meu av e primeiro professor de nossa famlia

Sergio Alusio Homem TORRES, meu pai, mdico que escolheu e foi acolhido

pelo Vale do Ribeira

Naoji OMURO, bisav de meus filhos que ousou atravessar o oceano para

comear uma nova vida no Brasil

Teresa Etsu Osawa, a tia que todos gostariam de ter.

V

Agradecimentos:

A realizao deste trabalho s foi possvel graas ao apoio de muitas pessoas a quem

no posso deixar de agradecer:

Meu esposo, Kenji, e meus filhos, Pedro Ken-iti e Ana Beatriz, pela compreenso, carinho e

apoio tcnico (informtica, udio, fotos, traduo, transcrio, etc)

Minha me, Maria Ignez, pelo apoio de sempre e companhia nos eventos cientficos

ureo (in memorian) e Clara Hisako Martins pela cesso do apartamento em So Paulo

Maria Luiza Itsuko Suguinoshita, pela fora junto turma da Pedagogia UNESP/UNIVESP

Prof. Dr. Vilmar Antonio Rodrigues, Coordenador de Turma da Pedagogia UNESP/UNIVESP e

Prof. Gabriel Marcos Spnula, Dirigente Regional de Ensino de Registro, superiores imediatos

que, sem abrir mo de cobrar minhas responsabilidades profissionais, foram compreensivos com

minhas inevitveis falhas

Meus colegas supervisores de ensino da DER Registro, pelo incentivo e companheirismo de

sempre

Minha orientadora e querida mestra, desde a graduao, Prof Dr Circe Maria Fernandes

Bittencourt, pelas valiosas orientaes, crticas e sugestes.

Aos professores do Programa de Estudos Ps-Graduados em Educao: Histria, Poltica,

Sociedade, pela competncia, seriedade e envolvimento pessoal com que se dedicam docncia

e pesquisa

Sr. Kuniei Kaneko (in memorian), Presidente da Associao Cultural Nipo-Brasileira de

Registro (ACNBR), pelo contato com a maior parte de entrevistados nesta pesquisa.

Prof Tizuko Yoshida, Prof da Escola de Lngua Japonesa da ACNBR, pela traduo das

legendas do AC20

Prof. Kazuoki Fukuzawa, Diretor da Escola de Lngua Japonesa e Presidente da ACNBR, pelas

tradues e consultoria quase permanente

Sr. Rubens Takeshi Shimizu, membro do Conselho Consultivo da ACNBR, por sempre me

envolver nos eventos que envolvem a histria da comunidade nipo-brasileira de Registro

Reverendo Mario Ribas, pelo contato com a comunidade anglicana de Registro

Vernica Fukuda Ribeiro, pela edio e divulgao das Memrias de minha infncia da Sra.

Teresa Etsu Osawa

Todas as pessoas da comunidade nipo-brasileira de Registro que colaboraram nesta pesquisa

Todos os meus professores, da pr-escola ps-graduao, por todo conhecimento adquirido

CAPES, pelo financiamento

VI

Resumo

Trata-se de pesquisa sobre a escolarizao comunidade nipo-brasileira do ncleo

colonial de Registro-SP, entre 1913 e 1963. Essa experincia educacional

desenvolveu-se em um perodo importante da educao brasileira durante o processo

de implantao das polticas de expanso, centralizao e nacionalizao do ensino.

Analisa as verses contraditrias sobre o papel que as escolas japonesas

desempenharam nesse perodo, considerando que h poucos estudos sobre o tema. A

investigao tem como objetivos: 1) conhecer a organizao, o funcionamento e os

objetivos das escolas japonesas; 2) analisar o contexto e o impacto do fechamento

dessas escolas para a comunidade nipnica, 3) contribuir para as discusses

referentes s diferenas culturais que caracterizam a sociedade brasileira. Partiu-se

da hiptese de que a escolarizao dos imigrantes japoneses foi um processo

peculiar que no pode ser reduzido a modelos estereotipados que a classificaram

como plo de difuso do imperialismo japons no Brasil, ou como plo de pura

assimilao a uma cultura nacional homognea. A pesquisa baseou-se em fontes

diversificadas: documentos oficiais da educao pblica paulista (Anurios de

Ensino do Estado de So Paulo), fotografias e documentos da memria oral e escrita

da comunidade nipo-brasileira de Registro. O tratamento das fontes contou com o

referencial terico e metodolgico de autores como Marson (1994), Kossoy (2001),

Leite (2001), Alberti (2005), Pollak (1989), E. P. Thompson (1981), Certeau (2012).

Os estudos realizados permitiram concluir que e escolarizao da comunidade nipo-

brasileira de Registro foi um processo marcado pela diversidade de influenciais

culturais e pela existncia de conflitos que foram minimizados pela histria oficial

da imigrao no municpio estudado. Constatou-se que os nipo-brasileiros acabaram

por se integrar de forma bem sucedida na escola nacional, mas conseguiram

preservar as marcas de sua cultura na localidade estudada.

Palavras chave: Escolarizao de imigrantes, escolas japonesas, nacionalizao do

ensino

VII

Abstract

This research is about the Japanese-Brazilian community schooling in the colonial core

of the city of Registro-SP, between 1913 and 1963. This educational experience has

developed through an important period of Brazilian education during the

implementation process of the policy of expansion, centralization and nationalization of

education. It analyzes contradictory versions about the role that Japanese schools have

performed in that period. The research aims to: 1) understand the organization,

functioning and objectives of Japanese schools; 2) analyze the context and the impact of

closing these schools to the Japanese community, 3) contribute to the discussions

concerning to the cultural differences that characterize Brazilian society. It started from

the hypothesis that the schooling of Japanese immigrants was a unique process that can

not be reduced to stereotypical models that classified it as a center of the dissemination

of Japanese imperialism in Brazil, or as a center of pure assimilation to a homogeneous

national culture. It is also believed that the nationalization of education did not occur as

smoothly as reported by the official versions of the process. The research drew on

diverse sources: official documents of the State of So Paulo public education (Anurio

de Ensino do Estado de So Paulo - Education Yearbooks of the State of So Paulo)

photographs and documents from oral and written memory of the Japanese-Brazilian

community of the city of Registro. The treatment of the sources relied on the theoretical

and methodological framework of authors like Marson (1994), Kossoy (2001), Leite

(2001), Alberti (2005), Pollak (1989), E.P. Thompson (1981) Certeau (2012). The

realized studies allowed us to imply that education of the Japanese-Brazilian community

in Registro was a process marked by diverse cultural influences and the existence of

conflicts that were minimized by the "official history" of immigration in the studied

city. It was found that Japanese-Brazilians were eventually able to integrate successfully

into the national school, but managed to preserve their cultures traits in the studied

location.

Keywords: Immigrants Schooling, Japanese schools, nationalization of the education

VIII

Sumrio

Resumo ........................................................................... VI

Abstract ........................................................................... VII

Sumrio ........................................................................... VIII

Relao de Siglas ............................................................... X

Relao de Fotos ................................................................ XI

Relao de Figuras ............................................................ XIV

Relao Quadros .............................................................. XV

Relao de Anexos ........................................................... XV

Introduo......................................................................... p. 1

Captulo I. A colonizao japonesa no Vale do Ribeira e o

processo de escolarizao dos imigrantes em Registro..........

p. 41

I.1. A formao do ncleo colonial de Registro e o processo de

imigrao japonesa no Brasil ..............................................

p. 41

I.1.1. A imigrao japonesa no Brasil no quadro das grandes

migraes dos sculos XIX e XX.........................................

p. 43

I.1.2. A colonizao japonesa no Vale de Ribeira: uma

experincia pioneira ...........................................................

p. 47

I.1.3. O ncleo colonial de Registro..................................... p. 55

I.2. A escolarizao da comunidade nipo-brasileira de

Registro: diferentes experincias ..........................................

p. 57

I.2.1. As demandas de escolarizao dos imigrantes japoneses p. 58

I.2.2. As experincias escolares do ncleo colonial de Registro p. 64

I.2.2.1. As escolas japonesas compartilhadas..................... p. 66

I.2.2.2. A escola confessional catlica................................... p. 86

IX

I.2.2.3. A escola confessional anglicana................................ p. 96

I.2.2.4. A escola japonesa pura........................................... p. 102

Captulo II. O fechamento das escolas japonesas: estratgias e

tticas no processo de implantao da escola nacional...........

p. 114

II. 1. O contexto do fechamento: a construo das estratgias.. p. 117

II.1.1. As estratgias da nacionalizao do ensino................. p. 122

II.1.2. As estratgias de controle da imigrao ....................... p. 128

II.2. As escolas japonesas como perigo amarelo..................... p. 135

II.3. As tticas de resistncia: escolas clandestinas e ensino

domstico ...........................................................................

p. 145

II. 4. Questes referentes ao preconceito, violncias e

perseguio comunidade nipo-brasileira de Registro............

p. 159

Captulo III. A consolidao da escola nacional e a

reelaborao da identidade cultural da comunidade nipo-

brasileira de Registro...........................................................

p. 171

III.1 A consolidao da escola nacional em Registro.............. p. 172

III.2. A expanso da rede de ensino e da escolaridade da

comunidade.......................................................................

p. 195

III.3. A reconstruo cultural da comunidade nipo-brasileira de

Registro .............................................................................

p. 210

Consideraes finais............................................................ p. 221

Referncias bibliogrficas .................................................. p. 226

Fontes................................................................................ p. 230

Anexos............................................................................... p. 233

X

Relao das siglas

ACNBR Associao Cultural Nipo-Brasileira de Registro

AC20 lbum Comemorativo dos Vinte Anos da Colnia de Iguape

AC50 lbum Comemorativo do 50 Aniversrio da Colnia Japonesa do Vale do

Ribeira de Iguape

BRATAC Sociedade Colonizadora do Brasil

CIC Conselho de Imigrao e Colonizao

CPDOC Centro de Pesquisa e Documentao da Histria Contempornea

DE Delegacia de Ensino

DEOPS Delegacia de Ordem Poltica e Social

FUVEST Fundao Universitria para o Vestibular

HSACR Histria dos Sessenta anos da Colnia de Registro

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica

IPHAN Instituto do Patrimnio Histrico Nacional

KKKK Kaigai Kogyo Kabushiki Kaisha (Companhia Ultramarina de

Empreendimentos)

RBBC Registro Base Ball Clube

UFPR Universidade Federal do Paran

UNESP Universidade Estadual Paulista

USP Universidade de So Paulo

VUNESP Fundao para o vestibular da Universidade Estadual Paulista

XI

Relao de fotografias

Foto n 1 Folha de rosto do AC20............................................... p. 16

Foto n 2 Imagens do ncleo colonial de Registro em 1933....... p. 17

Foto n 3 Estao ferroviria de Juqui em 1933........................ p. 18

Foto n 4 Famlias de imigrantes japoneses em 1933................ p. 18

Foto n 5 Escola mista do ncleo colonial de Katsura em 1933.. p. 19

Foto n 6 Capa do AC50............................................................. p. 22

Foto n 7 Famlias nipo-brasileiras no AC50 (1963).................. p. 24

Foto n 08 O porto de Registro e o engenho de arroz do KKKK.. p. 50

Foto n 09 Escola Primria do Taquaruu (Bairro 4) em 1933..... p. 68

Foto n 10 Escola Primria de Raposa (Bairro 5) em 1933........... p. 68

Foto n 11 Festa da rvore na Escola de Carapiranga (Bairro 3).. p. 71

Foto n 12 Alunos da Escola de Carapiranga (Bairro 3)............... p. 72

Foto n 13 Visita do Ministro L. Collor em maio de 1931............ p. 73

Foto n 14 Professor da Escola do Bairro 3 .................................. p. 74

Foto n 15 Escola do Bairro 2 em dia de comemorao escolar... p. 82

Foto n 16 Alunas da Escola do Bairro 2 apresentando dana..... p. 83

Foto n 17 Alunos da Escola do Bairro e em apresentao teatral p. 84

Foto n 18 Igrejas Catlicas de Registro e de Iguape e crianas

do Jardim da Infncia, em 1931...................................

p. 89

XII

Foto n 19 Construo da Igreja de So Francisco Xavier em

Registro em 1933.........................................................

p. 90

Foto n 20 Altar da Igreja de So Francisco Xavier ..................... p. 90

Foto n 21 Crianas do Jardim de Infncia da Escola ligada a

Igreja Catlica .............................................................

p. 91

Foto n 22 Igreja Anglicana de Todos os Santos em 1933............ p. 98

Foto n 23 Carteiras escolares da escola anglicana em 2012........ p. 99

Foto n 24 Igreja Anglicana de Todos os Santos em 2009........... p. 102

Foto n 25 Escola Primria do Bairro 1 e Colgio Particular da

Sede da Colnia ..........................................................

p. 105

Foto n 26 Alunos e professores da Escola Primria do Bairro 1.. p. 106

Foto n 27 Vista frontal do Colgio Particular da Sede da

Colnia ........................................................................

p. 108

Foto n 28 Campo de Experincia do Colgio Particular.............. p. 109

Foto n 29 Estdio Municipal Brigadeiro Alberto Bertelli em

2013 ............................................................................

p. 112

Foto n 30 Grupo Escolar Francisco Manuel em 1963.................. p. 174

Foto n 31 Escola Isolada do Campo de Experincia em 1929

(foto n 8).....................................................................

p. 175

Foto n 32 Grupo Escolar do Campo de Experincia em 1939

(foto n 10)...................................................................

p. 175

Foto n 33 Grupo Escolar Aurora Coelho em 1940...................... p. 177

Foto n 34 Grupo Escolar de Taquaruu em 1940........................ p. 177

Foto n 35 Festa cvica em Registro em 1940............................... p. 179

Foto n 36 Aula de ginstica no Grupo Escolar de Taquaruu em

1940..............................................................................

p. 183

XIII

Foto n 37

Atividades esportivas no Grupo Escolar Aurora

Coelho em 1940...........................................................

p. 184

Foto n 38 Aula de ginstica no Grupo Escolar de Raposa em

1940.............................................................................

p. 184

Foto n 39 Alunos e professor do Grupo Escolar de Raposa em

1940 .............................................................................

p. 185

Foto n 40 Alunos do Grupo Escolar Aurora Coelho em

atividades agrcolas em 1940.......................................

p. 188

Foto n 41 Alunos do Grupo Escolar de Raposa trabalhando na

horta escolar em 1940...............................................

p. 189

Foto n 42 Alunos de escola de Ubatuba em atividade na horta

escolar, em 1940 ................................................

p. 192

Foto n 43 Alunos de escola de Ubatuba na hora da sopa escolar,

em 1940...............................................................

p. 192

Foto n 44 Grupo Escolar Aurora Coelho em 1940 .................. p. 196

Foto n 45 Grupo Escolar Aurora Coelho em 1963.................. p. 196

Foto n 46 Grupo Escolar do Campo de Experincia em 1939

(foto n 10 e 37)....................................................

p. 197

Foto n 47 Grupo Escolar Koki Kitajima em 1963 ...................... p. 197

Foto n 48 Escola Primria de Raposa (Bairro 5) em 1933 .......... p. 198

Foto n 49 Grupo Escolar de Raposa em 1963 ......................... p. 198

Foto n 50 Escola So Jos e Igreja S. Francisco Xavier em

1963................................................................

p. 199

Foto n 51 Instituto Estadual de Educao Dr. Fbio Barreto em

1963......................................................................

p. 202

Foto n 52 Vereador e comerciante nissei de Registro em 1963 p. 205

XIV

Foto n 53 Dentista nissei de Registro em 1963....................... p. 206

oto n 54 Engenheiro agrnomo de Registro nissei em 1963...... p. 206

Foto n 55 Escola de Lngua Japonesa do B Serrote em 1963... p. 211

Foto n 56 Escola Particular de Japons do B B. Vista em 1963. p. 212

Foto n 57 Escola Primria do B Quilombo em 1933............... p. 213

Foto n 58 Sr. Toshiaki Matsumura e famlia em 1963........... p. 213

Foto n 59 Time de veteranos de Base Ball de Registro em

1963....................................................................

p. 214

Foto n 60 Atletismo de Registro em 1963............................... p. 215

Foto n 61 Concurso de cantos e bailados em 1963................... p. 215

Foto n 62 Judocas de Registro em 1963....................................... p. 216

Foto n 63 Inaugurao de monumento budista em 1956.......... p. 217

Foto n 64 Templo Budista de Registro em 1963..................... p. 217

Relao de figuras

Figura I O Vale do Ribeira na dcada de 1960.................... p. 42

Figura II Horrio das escolas primrias da DE de Santos em

1940..................................................................

p. 190

XV

Relao de quadros

Quadro I Dados sobre os entrevistados nesta pesquisa ....... p. 29

Quadro II Escolas japonesas fechadas em Registro: 1938.... p. 120

Quadro III Nvel educacional dos descendentes de japoneses

maiores de 10 anos residentes em zona urbana e

rural Brasil: 1958...........................................

p. 204

Quadro IV Escolaridade dos filhos dos entrevistados nesta

pesquisa ........................................................

p. 207

Relao de anexos

Anexo I Termo de consentimento livre e esclarecido........... p. 233

Anexo II Roteiro bsico para as entrevistas ......................... p. 234

16

Hino de Registro

(letra e msica de Vilma Bertelli Maeji)

Oh, Registro! Bela Terra

s margens do rio plantada

Que aos visitantes descerra

Como prola engastada.

Nesta serpente de prata

Que coleia pelos campos

Embrenhando-se nas matas

ninfa dos seus encantos.

Enlevo dos meus amores

Registro, terra querida,

Futuro feito de flores

Das flores da minha vida.

Os filhos de outras plagas

Aqui vivem como irmos,

Sempre unidos, de mos dadas

Cultivam e florescem cho.

Amemos todos, crianas

Este cu de encantos mil,

Onde nossas esperanas

Se voltam para o Brasil.

1

Introduo

A pesquisa aqui apresentada se insere no campo da Histria da Educao e

aborda a questo da diversidade cultural. Foi motivada por interesse pessoal pela

histria de cidade onde nasci, fortemente marcada pela colonizao japonesa. Como

professora atuando na educao bsica e superior, em diversos momentos participei de

projetos relacionados ao resgate da histria do municpio de Registro, os quais

envolviam obrigatoriamente o processo imigratrio nipnico. Entre esses projetos

destacam-se aqueles realizados em torno do centenrio da imigrao japonesa no Brasil,

em 2008, tais como Viva Japo promovido pela Secretaria de Estado da Educao, e

os estudos realizados pelo Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional

(IPHAN) para o tombamento dos bens materiais e imateriais da colnia japonesa de

Registro, Iguape e Sete Barras. O contato com os familiares de meu esposo, neto de

imigrantes japoneses, permitiram conhecer melhor a cultura japonesa e identificar uma

lacuna sobre os conhecimentos que envolviam a escolarizao da comunidade nipo-

brasileira na regio.

O tema investigado o processo de escolarizao dos imigrantes japoneses que

se instalaram no ncleo colonial de Registro, ento municpio de Iguape, na regio do

Vale do Ribeira, sul do Estado de So Paulo, entre os anos de 1913 e 1963. Tal processo

se insere no contexto mais amplo da histria da educao brasileira: a expanso da

educao primria no Brasil republicano, as polticas de centralizao e nacionalizao

do ensino durante o Estado Novo e seus desdobramentos nas dcadas seguintes. A

pesquisa tem como objetivos: 1) conhecer a organizao, o funcionamento e os

objetivos das escolas japonesas que foram criadas na regio e proibidas em 1938; 2)

analisar o contexto e o impacto do fechamento dessas escolas no processo de integrao

da comunidade japonesa na cultura local e nacional nos anos posteriores; 3) contribuir

para as discusses referentes s diferenas culturais que caracterizam a sociedade

brasileira atual.

O patrimnio histrico da colnia japonesa do Vale do Ribeira foi reconhecido

nacionalmente pelo IPHAN, que em junho de 2010 tombou catorze bens materiais que

representam as contribuies dessa comunidade para a configurao da diversificada

2

cultura brasileira1. Considerando que a escolaridade tem uma importncia fundamental

no processo socializao das comunidades estrangeiras e que o processo da comunidade

nipnica se inseriu em um momento especialmente importante na construo da

identidade nacional brasileira, por meio do Estado Republicano, durante a Primeira

Repblica (1898-1930) e, de forma crucial, durante a Era Vargas (1930-1945),

escolheu-se esta temtica para desenvolver a pesquisa ora proposta. Trata-se de uma

investigao que poder contribuir para melhor conhecimento da educao brasileira

naqueles perodos e para a reflexo das questes que envolvem a educao e as relaes

multiculturais.

A imigrao japonesa no Vale do Ribeira, conhecida como Colnia de Iguape,

se iniciou oficialmente em 1913, mas foi a partir de 1917 que o maior nmero de

famlias nipnicas comeou a se estabelecer na Regio, ocupando reas rurais dos

municpios de Iguape e Xiririca. Trata-se da primeira experincia de colonizao

japonesa no Brasil, na qual os imigrantes vieram como pequenos proprietrios de terras

que foram cedidas pelo governo paulista para uma Companhia de Imigrao Japonesa e

vendidas aos colonos nipnicos.

Quando imigrantes japoneses chegaram colnia de Iguape a regio apresentava

um baixo ndice de atendimento da escolarizao elementar. Se o quadro educacional do

Estado de So Paulo j indicava dficit de vagas em escolas primrias, situao do Vale

do Ribeira era bem pior. De acordo com o Anurio do Ensino do Estado de So Paulo

de 1913, apenas 43,6 % da populao em idade escolar do estado frequentava a escola

primria. Essa porcentagem caia para 19,6 % na regio, que na poca era composta por

trs municpios: Iguape, Xiririca e Canania.

A demanda de escolarizao por parte dos imigrantes levou, entre 1920 e 1938,

tanto criao de escolas particulares japonesas, como tambm, expanso da rede de

escolas pblicas estaduais, muitas das quais funcionavam em prdios cedidos pela

prpria comunidade nipnica. Esse processo de escolarizao, que nessa regio parecia

se realizar de forma no conflituosa, com integrao gradual das escolas dos imigrantes

com as escolas estaduais, foi interrompido com a proibio total, decretada pelo

governo federal, do funcionamento de instituies de ensino estrangeiras, por meio do

1 Bens culturais da Imigrao Japonesa no Vale do Ribeira, Registro e Iguape Aprovado na 64 Reunio

do Conselho Consultivo em 24/06/2010. Processo n 1565, em tramitao para futura inscrio nos Livros

do Tombo do Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional.

3

Decreto-Lei 406 e do Decreto n 3.010, ambos de 1938. Naquele ano foram fechadas 18

escolas japonesas na regio, sendo seis delas localizadas no ncleo colonial de

Registro2. As crianas japonesas foram transferidas para as escolas estaduais locais,

num processo que no foi devidamente estudado. A histria oficial local no registra

grandes traumas. A crescente integrao da comunidade japonesa na sociedade

brasileira no ps-guerra fez com as lembranas desse perodo ficassem esquecidas, mas

cabe questionar at que ponto essa transio foi tranqila.

A expanso escola pblica foi um dos smbolos do regime republicano. Ela foi

considerada um dos meios mais importantes para se criar a identidade nacional e formar

o cidado ideal para a nova forma de governo que se instalava no Brasil. Entretanto essa

misso era bastante complexa em um pas de dimenses continentais e de formao

populacional to diversa. A questo da identidade nacional foi um problema para a

intelectualidade brasileira nos anos iniciais da Repblica. Como construir a identidade

moderna e progressista tendo como base uma populao mestia, com grande presena

de indgenas, negros e a crescente chegada de imigrantes oriundos de diferentes pases e

continentes? Como as concepes de eugenia, ento vigente, marcaram o processo de

expanso da escola pblica em uma regio com grande presena de imigrantes?

O ponto crucial desse processo foi a proibio do funcionamento das escolas

estrangeiras no Brasil em 1938, por meio dos decretos federais acima citados. O Brasil

vivia ento um momento importante de sua histria, no qual o governo ditatorial do

presidente Getlio Vargas estabelecia grandes mudanas econmicas, polticas, sociais

e culturais. O Estado Novo concentrava poderes para acelerar o processo de

industrializao do pas, mudar as bases das relaes entre patres e empregados,

diminuir o poder das elites regionais e consolidar uma identidade nacional que fosse a

base para a atuao transformadora de um governo forte e autoritrio. exatamente em

relao a esse ltimo aspecto que a escolarizao dos imigrantes torna-se relevante.

No caso da escolarizao dos imigrantes japoneses observa-se que os

preconceitos relacionados com as questes raciais foram associados s questes

polticas e econmicas que envolviam o expansionismo do Imprio Japons no incio do

2 A Colnia de Iguape se estabeleceu em trs ncleos principais: Jipovura, Registro e Sete Barras. Esta

pesquisa pretende abranger as escolas ligadas ao ncleo colonial de Registro desconsiderando que, ao

longo da consolidao dos limites territoriais dos atuais municpios da Regio algumas escolas aqui

estudadas, pertenceram ao ento municpio de Xiririca (Eldorado) e ao distrito de Sete Barras.

4

sculo XX. Takeuchi (2002 e 2008), Carneiro e Takeuchi (2010) e Shizuno (2010)

caracterizaram a ampla circulao que o mito do perigo amarelo alcanou nos meios

de comunicao de massa e nos debates acadmicos e polticos do Brasil nos anos 1920,

1930 e 1940. Alm de serem considerados pertencentes a uma raa inferior, os

japoneses eram vistos como elementos no miscigenveis e agentes do imperialismo

japons no Brasil.

A verso mais recorrente era que os nipnicos pretendiam construir no pas

hospedeiro um posto avanado do Imprio do Sol Nascente. A suposta

inferioridade racial no foi substituda, mas colocada em segundo plano pelo

estigma da baixa solubilidade na sociedade majoritria. O esforo da colnia

japonesa em se manter coesa em torno de seus valores culturais foi

interpretado como prova de que os sditos do Mikado formavam um

corpo estranho ao organismo nacional. (Takeuchi, 2008:85)

Dentro desse quadro de crescente xenofobismo se inicia no Brasil uma poltica

de restrio imigrao que se iniciou em 1934, com a Lei de Cotas, que procurava

diminuir a entrada de estrangeiros no Brasil e que chegou a medidas mais graves como

o fechamento das escolas, a proibio da lngua, a expulso das reas porturias,

controle da locomoo e outras formas de violncia contra os estrangeiros,

especialmente aqueles que eram oriundos dos pases que formavam as foras do Eixo,

durante a Segunda Guerra Mundial (Alemanha, Itlia e Japo).

No caso especfico das escolas japonesas, os estudos preliminares do tema

mostravam, em diferentes fontes, duas vises opostas: de um lado, a viso dos rgos de

represso do governo Departamento de Ordem e Poltica e Social (DEOPS), apresentada

por Takeuchi (2002 e 2008) e Shizuno (2010); de outro lado, a viso das autoridades

educacionais da Regio de Santos, rea administrativa que englobava a regio do Vale

de Ribeira. Na primeira viso, os japoneses eram transgressores insubmissos e

renitentes, que insistiam em manter o ensino clandestino da lngua e da cultura

japonesa. Na segunda viso, a das autoridades do ensino estadual na regio, eram

colaboradores que respeitavam as leis da educao e ajudavam na expanso da rede de

ensino paulista ao construir e ceder prdios escolares ao governo estadual.

A sntese do pronturio n 46363, transcrita por Takeuchi (2002) ilustra a

perspectiva do DEOPS de So Paulo:

5

Sntese: Magoiti Kuroki, 17 anos, foi processado, juntamente com outros

japoneses pela Delegacia de Polcia de Pompia (SP), por manter o

funcionamento clandestino de escolas japonesas. Rui Tavares Monteiro,

Delegado Adjunto de Ordem Poltica e Social, relatou ao Delegado

Especializado de Ordem Poltica e Social em 26 de outubro de 1940 que

apesar de represso constante e incansvel das autoridades,

continuavam as infraes s leis brasileiras que determinavam a

proibio do ensino ministrado em lngua estrangeira nos cursos de

alfabetizao. Entre os infratores, os mais persistentes seriam os

japoneses. O Delegado considerou que o procedimento desses indivduos

exigia uma punio severa, pois essa atividade seria nociva para a sadia

obra de nacionalismo em que estava empenhado o governo brasileiro.

Em 5 de novembro de 1940, o inqurito instaurado contra Magoiti Kuroki e

outros foi remetido ao Tribunal de Segurana Nacional. (Takeuchi, 2002:

159-160)(Grifo nosso)

O Relatrio do Delegado Regional de Ensino de Santos apresenta outro olhar

sobre a questo:

[...] Tendo encontrado escolas extrangeiras, fomos aos poucos

transformando essas escolas em brasileiras, a tal ponto que, pelo seu

fechamento, j eram de verdade simples cursos de lngua japonesas

funcionando em escolas estaduais. O fechamento, verificado

rigorosamente dentro do prazo estabelecido pela lei nacional, se operou

de maneira mais suave possvel, sem qualquer atrito e, o que mais vale,

sem qualquer prejuzo para a populao infantil, antes com lucro, do ponto

de vista nacional. [...]

A colaborao da colonia japonesa, a despeito do fechamento de suas escolas, continua a ser a mesma, franca e inteligente: ainda este ano,

em maio, recebemos excelente prdio de duas salas, no Bairro do Quilombo,

em Jacupiranga. (Santos, Delegacia Regional de Ensino, 1939: 74-77) (grifo

nosso)

Para alm dessas duas vises: a do o imigrante inassimilvel e ameaador e, a do

imigrante dcil, trabalhador e colaborador; a pesquisa parte de uma concepo de

histria scio-cultural que valoriza a existncia de sujeitos histricos concretos, que no

se adquam a modelos e tipologias estruturalistas. Acredita-se que a Histria se realiza

na inter-relao de mltiplos fatores, no contexto das condies materiais, culturais e

temporais. H um quadro estrutural amplo que indica algumas tendncias, mas ele no

imutvel e nem caminha em uma nica direo. Da mesma forma os sujeitos histricos

no so determinados apenas por uma de suas condies pessoais, mas, sim, pela

conjuno peculiar de todas elas: nacionalidade, classe social, lngua, crenas religiosas,

condies materiais de vida e produo, etc.

6

Os imigrantes japoneses que chegaram ao Brasil a partir de 1908 comearam a

vivenciar uma rica experincia de encontro/choque cultural. Indivduos oriundos de uma

cultura milenar, fechada, do outro lado do planeta desembarcam em um pas que nem

completara 100 anos de independncia poltica e cuja populao era formada por uma

diversidade de povos e culturas: indgenas, africanos e europeus de diferentes matizes.

Chegaram a um pas continental, com caractersticas climticas e naturais totalmente

diferentes. Como reorganizar-se em um contexto to inusitado? Qual seria a melhor

escola? Quais os saberes mais necessrios? O que se deveria manter da cultura original?

O que preciso saber da cultural local? Qual seria a escola ideal? Qual foi a escola

possvel?

Nesta pesquisa utilizou-se o enfoque da histria scio-cultural que valoriza as

experincias humanas, especialmente, as experincias dos homens comuns, que fazem

sua escolhas e constroem a histria ainda que influenciados por condicionantes sociais,

polticas e culturais diversas. A complexidade das transformaes histricas no pode

ser reduzida nem a ao individual dos sujeitos, nem ao mecanismo autmato de uma

histria metafsica. Nesse sentido partiu-se das concepes tericas de autores como E.

P. Thompson (1981) e Certeau (2012).

Com base nas reflexes de E. P. Thompson (1981) procurou-se romper com as

interpretaes estruturalistas que sobrepem as teorias sociolgicas historicidade das

vivncias humanas e valorizou-se os dados empricos levantados a partir do

questionamento de fontes diversificadas. Para este autor os conceitos devem ser

instrumentos a servio da compreenso da realidade social e no podem ser usados

como idias fechadas que deturpam o significado dos acontecimentos histricos para

encaix-los em modelos tericos. Nesse sentido destaca a importncia da experincia

enquanto prtica humana:

[A rejeio epistemolgica da experincia] No perdovel em algum

que se prope a refletir sobre a histria, j que experincia e prtica so

manifestas; nem perdovel a um marxista, j que a experincia

(muitas vezes a experincia de classe) que d cor cultura, aos valores e

ao pensamento: por meio da experincia que o modo de produo

7

exerce uma presso determinante sobre as outras atividades: e pela

prtica que a produo mantida. (Thompson, 1981, p. 112)

A partir da obra de Certeau (2012) trabalhou-se especificamente com as noes

referentes as operaes dos usurios, ou seja, com as diferentes prticas que permitem

s pessoas se apropriar de maneira ativa e criativa das influncias culturais a que esto

expostas. Elas no so meras consumidoras passivas e disciplinadas de realidades

sociais que lhes so impostas pelos grupos sociais dominantes. Diante das estratgias da

dominao desenvolvem tticas de resistncia.

Considera-se que a escolarizao dos imigrantes japoneses e seus descendentes

na Colnia de Registro s pode ser compreendida na considerao de conjunturas e

fatores diversos - conjunturas internacionais, nacionais, regionais e at individuais;

fatores sociais, polticos, econmicos e culturais - e na relao entre estas conjunturas e

fatores com os sujeitos histricos concretos. Parte-se da premissa de que as escolas

japonesas da Colnia de Registro foram as escolas possveis dentro de um quadro

histrico muito complexo: o grande choque cultural entre brasileiros e japoneses, a

poltica de construo de identidade nacional pelo Estado Republicano, o contexto

mundial de ascenso dos regimes fascistas, um conflito militar de propores mundiais,

a violncia do Estado Novo, a pobreza de recursos educacionais disponveis no Brasil, a

situao especfica de pessoas que por diferentes motivos deixaram o seu pas natal em

busca de um sonho e no apenas da sobrevivncia.

Acredita-se, portanto, que foi constituda uma escolarizao peculiar, que no

pode ser classificada como plo de difuso do imperialismo amarelo, nem como plo de

pura assimilao de uma cultura nacional homognea. Houve o protagonismo dos

imigrantes japoneses nesse processo, bem como a atuao de diferentes atores. H que

se considerar ainda a especificidade da imigrao japonesa na regio estudada: trata-se

da primeira experincia de colonizao de japoneses no Brasil. Os imigrantes que

vieram para o Vale do Ribeira foram os primeiros que vieram para ser pequenos

proprietrios da terra no Brasil. Este fator pode ter influenciado nas formas de

relacionamento entre os imigrantes e populao local.

8

Da mesma forma tambm se considera que o processo de fechamento das

escolas japonesas no foi um processo to tranquilo quanto a tradio local tem

destacado. Por mais que os conflitos no tenham explodido sob forma de violncia

explicita, possvel questionar sobre a existncia de tticas de resistncias, seja por

meio de escolas clandestinas e/ou pelo ensino domstico. Certamente nem todos os

membros da colnia japonesa aceitaram passivamente abrir mo de uma educao que

garantisse a transmisso da lngua e das tradies histricas e culturais nipnicas. Alm

disso, pode-se identificar a construo de uma memria oficial local caracterizada

pela idia de conciliao, ou seja, uma memria que celebra a integrao das duas

culturas sem discutir os momentos de tenso que envolveu o encontro/choque cultural

ocorrido na localidade.

Para o desenvolvimento desta pesquisa realizou-se inicialmente um

levantamento bibliogrfica buscando contextualizar o tema abordado nos estudos j

consolidados sobre a imigrao japonesa do Brasil e sobre os processos de integrao

dessa comunidade pas e, em particular, na regio.

Partindo das obras de referncia de Fausto (1978, 1991 e 2000), foram

encontrados dados gerais sobre a imigrao no Brasil e a indicao dos estudos mais

clssicos sobre a o processo imigratrio japons, realizados nos anos 1960 e 1970: Saito

(1961), Cardoso (1972) e Nogueira (1973). A partir dos anos 1990, uma nova gerao

de pesquisadores sobre a histria e cultura dos japoneses no Brasil tem despontado no

cenrio acadmico nacional, talvez por conta da significativa ascenso educacional dos

descendentes nipnicos aos estudos superiores e ps-graduao. Nessa nova gerao

destacam-se o trabalhos de Sakurai (1993,1995, 2000, 2011), e grupo de pesquisadores

orientados por Carneiro (1988 e 1994) no projeto Inventrio DEOPS, que investigou a

represso s minorias raciais durante o Estado Novo: Takeuchi (2002 e 2008) e Dezem

(2000). A comemorao do Centenrio de Imigrao Japonesa no Brasil, em 2008,

tambm promoveu a publicao de importantes obras sobre o tema: pela Editora da

UNESP, a coletnea Cem anos da Imigrao Japonesa: Histria, memria e arte,

organizada por Hashimoto, Tanno e Okamoto (2008); pela Edusp as coletneas

Imigrantes japoneses no Brasil: trajetria, imaginrio e memria, organizada por

Carneiro e Takeuchi (2010); e Educao e cultura: Brasil e Japo, por Kishimoto e

Demartini (2012). Tal produo mais localizada nas universidades e instituies

paulistas tambm encontra pesquisadoras oriundas do Paran, estado tambm

9

fortemente marcado pela imigrao japonesa: Shizuno (2010), mestre pela UFPR, e

Setoguti (2011), professora da Universidade Estadual de Maring.

A citada bibliografia foi complementada pela produo desenvolvida pela

prpria comunidade nipo-brasileira, notadamente os trabalhos do memorialista Tomoo

Handa (1980 e 1987), e a grande sntese histrica realizada pela Sociedade Brasileira de

Cultura Japonesa, de So Paulo, para a comemorao dos 80 anos da imigrao

japonesa, lanada em 1992, com o ttulo Uma epopia moderna: 80 anos da imigrao

japonesa no Brasil.

Os aspectos relativos histria regional foram baseados em estudos acadmicos

mais antigos, em especial, nas reas de Geografia Humana Petrone (1966), e de

economia Muller (1980). Utilizou-se tambm dos dados apresentados na dissertao

de mestrado de Souza, W. (2002) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie; no livro

da reverenda anglicana Carmen Kawano (2008), sobre a Igreja Anglicana de Manga

Larga, e nos recentes levantamentos do IPHAN (2008), quando esteve na regio

estudando os bens culturais da colnia japonesa para fins de tombamento.

Aps a contextualizao do tema foram selecionadas as fontes e os procedimentos

metodolgicos especficos para desenvolver a pesquisa. Arrolou-se, inicialmente,

documentos escritos oficiais, fotografias e depoimentos orais e escritos da memria da

comunidade local. Para trabalhar com tal acervo documental buscou-se referenciais

tericos que sustentassem de forma adequada a interpretao das fontes.

1) Documentos escritos oficiais: Annuarios do Ensino do Estado de So Paulo e

os relatrios anuais da Delegacia de Ensino de Santos

Os Annuarios de Ensino eram publicaes realizadas pela Directoria Geral da

Instruco Pblica/Directoria do Ensino, repartio da Secretaria de Estado dos

Negcios do Interior/Secretaria da Educao e da Sade Pblica, entre 1907 e 1936.

Trata-se de documentos que reuniam, anualmente, dados referentes ao ensino pblico

do Estado, contendo informaes sobre movimentao de alunos e professores, nmero

10

de escolas e classes, ndices de promoo, gastos educacionais, diretrizes pedaggicas e

administrativas e outros assuntos pertinentes educao estadual3.

Por meio dos Anurios foi possvel realizar tanto estudos quantitativos, quanto

qualitativos. As estatsticas esto sempre presentes e os assuntos pedaggicos e

administrativos se apresentam sem uma ordem e sequncia obrigatrias: contm

pronunciamentos das autoridades educacionais sobre questes da legislao

educacional, pareceres de inspetores de ensino sobre temticas pedaggicas especficas,

renem ofcios e instrues que orientam as autoridades educacionais locais a implantar

o currculo oficial das escolas paulistas e a fiscalizar o cumprimento das leis do ensino,

pautas informando os assuntos e orientaes tratadas nas reunies entre o Diretor da

Instruco Publica e os Delegados de Ensino Regionais. Porm, h falhas em sua

publicao: entre os anos de 1913 a 1920 foram publicados anualmente, a partir de

ento temos somente os anurios de 1922, 1926 e 1936.

Os Anurios permitiram reconstruir parcialmente o processo de expanso das

escolas estaduais no Vale do Ribeira, que ocorreu paralelamente ao fechamento das

escolas particulares mantidas pela colnia japonesa.

Os Relatrios das Delegacias de Ensino Regionais foram produzidos, a partir de

1933, por determinao da Secretaria de Estado da Educao e da Sade Pblica, criada

em 19314. Estes relatrios tambm reuniam dados estatsticos e assuntos gerais da

educao. So documentos que tratam de aspectos diversos da organizao do ensino

pblico nas diversas regies do Estado: prestaes de contas das Delegacias de Ensino,

a freqncia dos inspetores de ensino, informes e reclamaes referentes aos problemas

locais e minuciosos dados sobre as escolas: dados de rendimento escolar, aprovao,

alfabetizao, mdia de alunos por classe, etc.. Estes relatrios foram produzidos pelas

19 Delegacias de Ensino do Estado dezoito delegacias do Interior e uma da Capital

entre 1933 e 1945. Foram consultados principalmente os Relatrios de Delegacia de

Ensino de Santos dos anos de 1936, 1937, 1939, 1940, 1941 e 1943. Para fazer um

contraponto entre a escolarizao dos imigrantes japoneses na regio pesquisada e em

outras regies do Estado de So Paulo igualmente marcadas pela colonizao nipnica,

3 O Annurios de Ensino do Estado de So Paulo fazem parte do acervo do Arquivo Pblico do Estado de

So Paulo e esto disponveis no stio da referida instituio na internet:

www.arquivoestado.sp.gov.br/educacao. 4 At esta data os assuntos de educao eram tratados pela Secretaria de Estado do Interior.

11

examinaram-se tambm os Relatrios das Delegacias de Ensino de Presidente Prudente,

de Lins e Ribeiro Preto, nos anos de 1940, 1942 e 1943, respectivamente5.

O tratamento dessas fontes seguiu as consideraes de Marson (1994) sobre o

valor do documento na relao do historiador com seu objeto de pesquisa. Seguindo

esse autor, o documento no deve ser aceito em sua noo tradicional, enfatizada pelos

historiadores positivistas do sculo XIX, na qual o documento era visto como a

expresso irredutvel do fato como espelho da realidade e a prova irrefutvel de uma

investigao equivalente a um dossi de processo-crime (Marson, 1994, p.51). preciso que

ele seja submetido a trs nveis de indagao: 1 sobre sua existncia enquanto

documento, 2 sobre seu significado enquanto simples objeto (fruto de trabalho

humano), 3) sobre seu significado enquanto sujeito do processo histrico investigado.

Os Anurios no so apenas registros dos processos de expanso, centralizao e

nacionalizao do ensino ocorrido durante a Primeira Repblica e a Era Vargas; eles

foram tambm instrumentos de implantao das polticas pblicas relacionadas a esses

processos. As orientaes administrativas e pedaggicas e pedaggicas expressavam os

objetivos e metas que o governo paulista pretendia alcanar. Nem sempre estes eram

alcanados e a existncia de novas orientaes detalhando e modificando procedimentos

indicam que houve conflitos na implementao das polticas pblicas propostas. Os

relatrios das Delegacias de Ensino Regionais eram feitos pelos dirigentes locais que

pretendiam mostrar que estavam executando suas tarefas de modo satisfatrio. Estes

documentos, portanto, expressam vises especficas de uma determinada realidade: a

viso do Estado e a de seus funcionrios. Nesse sentido, os documentos podem criar

fatos e cristalizar verses que passam a dominar as interpretaes posteriores. Trata-

se de uma operao ideolgica, que acaba ofuscando a ao de outras personagens e a

ocorrncia de outros fatos.

Para escapar a essa armadilha o historiador deve romper com os paradigmas

cientficos clssicos que pregam o distanciamento entre sujeito e objeto de pesquisa. De

acordo com Marson:

A nossa relao com o objeto trava-se, assim, no campo das

significaes inerentes a todo o texto e, para resgat-la, dispomos de

uma variedade de recursos analticos, que no vem ao caso esmiuar,

5 Estes documentos tambm fazem parte do acervo do Arquivo Pblico de Estado de So Paulo e tambm

esto disponveis no stio da instituio na internet.

12

desde as mais simples impresses de leitura s tcnicas lingusticas mais

formalizadas. Seja qual for este recurso, a significao no ser

alcanada em sua dimenso histrica se apenas se efetua a leitura

interna, destrinchando os cdigos de linguagem, ou se reduz a leitura

retirada de certos contedos que apenas justificam o interesse imediato

de algum que escreveu aquele texto. (...) um texto sempre algo

produzido para manifestar um pensamento quanto para acompanhar

uma ao (ele mesmo j uma ao). Se importante levantar as

evidncias disponveis e relacionadas, por exemplo, ao autor, ao texto,

ao nvel de linguagem, etc., deve-se chegar ao contexto mesmo de sua

produo, (...) A histria contida em qualquer texto pode, assim, ser

recuperada tanto em suas expresses imediatas (os acontecimentos),

suas impresses sensveis e fragmentadas (as opinies de indivduos ou

grupos), suas evidncias empricas (os fatos registrados em local e

data), que so a forma pela qual os objetos do passado se apresentam a

ns; quanto em seus indcios mais organizados e consistentes,

geralmente sistematizado nas representaes do esprito (filosofia, arte,

religio, cincia, etc.). O grande desafio dos historiadores e de qualquer

explicao histrica tem sido justamente a religao desses vrios lados

do objeto reconstitudo, numa sntese efetiva que trabalhe a

determinao sem cair em causalidades mecnicas. (Marson, 1994, p.

50-51)

Durante o desenvolvimento da pesquisa foi possvel identificar nos Relatrios da

Diretoria de Ensino de Santos a presena do Delegado de Ensino, Prof. Luiz Damasco

Penna, como produtor de uma verso harmoniosa do processo de nacionalizao do

ensino na qual ele o grande realizador. Ele destaca suas aes: a expanso das escolas

estaduais, a proposio de novos grupos escolares na zona da imigrao, a substituio

de prdios escolares, a promoo da educao cvica, o bom senso nas aes de

fiscalizao das leis de nacionalizao do ensino, etc. Se no houve conflitos no

processo de fechamento das escolas japonesas, em sua verso, por que ele soube

prover a regio de uma estrutura de educao satisfatria para a colnia. Entretanto

preciso ir alm dessa verso e, inclusive, questionar se realmente o fechamento das

escolas japonesas ocorreu de forma to tranqila.

1) Documentos fotogrficos: lbuns comemorativos do 20 e do 50 aniversrio

da Colnia Japonesa de Iguape, fotografias extradas do Relatrio da Delegacia

de Ensino de Santos de 1940, acervos pessoais dos membros da comunidade

japonesa de Registro.

As principais fontes fotogrficas so as provenientes dos lbuns organizados pela

Colnia Japonesa, os quais foram produzidos nos anos de 1933 e de 1963 para

13

comemorar os aniversrios da colnia japonesa na regio. Estas fotos foram

complementadas por outras encontradas nos Relatrio da Diretoria de Ensino de Santos

do ano de 1940 e que esto disponibilizadas no stio do Arquivo Pblico do Estado de

So Paulo. Outras fotos fazem parte dos acervos pessoais dos membros da colnia

japonesa de Registro que foram entrevistados durante a pesquisa.

Para anlise dos documentos fotogrficos foram observadas as recomendaes

metodolgicas de Kossoy (2001 e 2010), Leite (2001) e Souza, R. (2002).

Segundo esses pesquisadores um dos primeiros cuidados que devemos ter ao

trabalhar com o documento fotogrfico romper com a idia comumente aceita de que

ele uma representao fiel da realidade. No obstante ao fato de que uma fotografia

registra objetos, pessoas e paisagens que realmente existiram, h que se considerar que a

captao da imagem e desses objetos feita por intermdio de uma tecnologia e de uma

pessoa que a domina.

Qualquer que seja o assunto registrado na fotografia, esta tambm

documentar a viso de mundo do fotgrafo. A fotografia , pois, um

duplo testemunho: por aquilo que ela mostra da cena passada,

irreversvel, ali congelada fragmentariamente, e por aquilo que nos

informa a cerca de seu autor.

Toda a fotografia um testemunho segundo um filtro cultural, ao

mesmo tempo que uma criao a partir de um visvel fotogrfico.

Toda fotografia apresenta o testemunho de uma criao. Por outro lado,

ela representar sempre a criao de um testemunho. (Kossoy, 2001, p.

50)

A fotografia tem um valor documental, mas tambm tem um valor esttico. Ela

produzida intencionalmente por um fotgrafo que manipula tcnicas e realiza escolhas:

um determinado tema, um determinado ngulo, um determinado enquadramento, etc.

As tcnicas fotogrficas, cada vez mais sofisticadas, tambm permitem retoques,

montagens, deformao de imagens. A fotografia produz uma interpretao da

realidade, mediada pelo fotgrafo.

O fotgrafo pode ser um artista que utiliza sua tcnica objetivando transmitir

uma mensagem esttica, poltica, ideolgica que resultado de sua viso de mundo, sua

sensibilidade, sua concepo artstica.

14

Em outro contexto, o fotgrafo pode ser um profissional que trabalha de acordo

com seus clientes. A produo de uma imagem muitas vezes feita para atender as

necessidades de perpetuar imagens pessoais positivas. Kossoy (2001) exemplifica esse

fenmeno ao comentar as imagens de negros annimos do Segundo Reinado se faziam

fotografar com ar de nobreza, com trajes elegantes, cartola, casaca e bengala. Leite

(2001) tambm comenta as fotografias de famlias, onde todo o grupo familiar se rene

com as melhores roupas, posando em cenrios escolhidos para a posteridade. Famlias

de diferentes classes sociais e nacionalidades se apresentam com a mesma pompa. So

fotos que registram uma autoimagem desejada, mas nem sempre real.

Kossoy (2001) comenta ainda sobre as fotos produzidas para outros tipos de

clientes: o governo e as grandes empresas comerciais. Apresenta um exemplo clssico,

o registro da Guerra da Crimia, em 1855, realizado pelo fotgrafo ingls Roger Fenton,

cuja expedio foi financiada com a condio de que no fotografasse nunca os

horrores da guerra, para no assustar as famlias dos soldados6.

Outro cuidado que se deve ter com o documento fotogrfico se refere ao poder

de comunicao da imagem. Segundo Kossoy (2001, p. 116), a comunicao no

verbal ilude e confunde. De acordo com Leite (2001), existe uma contradio entre a

comunicao imediata da imagem e o rpido esgotamento dessa comunicao:

(...) Aps uma leitura superficial de contedo, a fotografia se tornava

opaca e silenciosa. Somente uma pesquisa de forma e contedo, uma

desconstruo de seus elementos e um estudo das imagens mentais que

sugerem conseguem desvendar globalmente os nveis de sua comunicao,

admitindo uma contextualizao do texto fotogrfico. (Leite, 2001, p.16).

A comunicao visual direta inibe a comunicao verbal, esta se torna pobre. Ao

mesmo tempo, a comunicao visual no suficiente para compreender o contedo.

Somente aqueles que conhecem o contexto da foto podem descrever seu significado.

Pode-se contar com o apoio de legendas, mas nem sempre elas existem e expressam

significados subjetivos. Em suas pesquisas sobre os lbuns de Famlia, Leite (2001)

constatou (...) a quase impossibilidade de leitura de imagem da parte de algum que

desconhecesse as pessoas, locais ou temas tratados (Leite, 2001, p. 18). Porm, quando

6 FREUND, Gisele, 1976, p. 97 apud KOSSOY, 2001, p. 113

15

a fotografia apresentada para uma pessoa que participou direta ou indiretamente do

contexto ali reproduzido, torna-se um grande disparador de memrias.

Souza, R. (2001) faz importantes consideraes sobre a utilizao das fotos

escolares como smbolo do progresso trazido pelo governo republicano. No incio da

Repblica as fotos de escolas eram temas de cartes postais.

Diante de tais consideraes tericas, deve-se analisar o documento fotogrfico

com o mesmo cuidado recomendado para a utilizao de outras fontes histricas.

preciso considerar os fatores que envolveram a sua produo e a sua preservao. Quem

produziu as fotos? Para que e para quem foram produzidas? Quais recursos tcnicos

foram utilizados nessas produes? Como e porque foram preservadas? Quem pode

falar sobre elas?

No caso especfico dos lbuns da Colnia Japonesa de Iguape destaca-se, de

incio, que os mesmos foram produzidos com um objetivo comemorativo. Eles

procuram registrar a consolidao e o desenvolvimento da colnia nas datas de

aniversrio do incio da colonizao. Eles so documentos/monumentos, conforme a

conhecida observao de Le Goff (1994). Obviamente, procuram mostrar os aspectos

positivos do processo, bem como destacar o papel daqueles que foram responsveis pela

colonizao.

Ao longo desta pesquisa estes lbuns foram denominados pelas siglas AC20

(lbum Comemorativo dos 20 anos de imigrao) e AC50 (lbum Comemorativo dos

50 anos de imigrao). Segue-se uma breve descrio destas fontes

O AC20 foi produzido pelo fotgrafo Suejiro Yassunaka, com o patrocnio da

companhia de imigrao que administrava a colnia japons de Iguape, a KKKK

(Kaigai Kogyo Kabushiki Kaisha) e dos prprios colonos japoneses. As fotos foram

tiradas nos anos de 1931 e 1933 e foram editadas no Japo, pela Nakanishi Editora,

localizada na cidade de Sapporo. O lbum tem 144 pginas e, em mdia 4 fotos por

pgina. Considerando que as 10 pginas iniciais so textos introdutrios escritos em

japons (3), seguidas de fotos das autoridades, polticos e empresrios japoneses e

brasileiros responsveis pela criao da colnia de Iguape (5) e mais 2 pginas

apresentam o mapa dos ncleos coloniais de Registro e Iguape, so cerca de 536 fotos.

16

Estas 536 fotos apresentam as instalaes gerais dos trs ncleos coloniais (Katsura,

Registro e Sete Barras) e as famlias de imigrantes em suas propriedades.

Seguem-se algumas imagens do referido lbum:

Foto n 1: Folha de rosto do lbum de Comemorao dos Vinte Anos da Colnia de Iguape. Fonte: AC20. 1933

A partir da pgina onze observam-se primeiras imagens especficas da colnia:

17

Fotos n 2: Primeiras imagens do Ncleo Colonial de Registro no lbum de Comemorao dos Vinte Anos

da Colnia de Iguape. Fonte: AC20. 1933

Nas fotos n 2 observa-se, alm da vista do ncleo colonial de Registro, crianas

japonesas em gesto de continncia militar e uma rvore. A rvore retratada o

Guaracu, rvore smbolo da cidade. Sobre as crianas, a legenda traduzida para o

portugus diz apenas: Confraternizao Brasil-Japo. Imagina-se que a foto signifique

uma continncia das crianas japonesas ao Brasil.

Nas pginas seguintes observam-se fotos das instalaes da Colnia: a estao

ferroviria de Juqui, a Igreja Catlica de Registro em construo, os escritrios da

KKKK, o porto de Registro com uma embarcao vapor atracada, a Cooperativa da

Colnia de Katsura, os postos de profilaxia de Registro e Sete Barras, a farmcia de

Registro, o Colgio Particular da Sede da Colnia, os campos de experincia agrcola de

Registro e de Sete Barras. De modo geral, as fotos registram a estrutura existente na

colnia, enfatizando os smbolos do progresso que chegava a regio com forte presena

da KKKK.

18

Fotos n 3 A estao ferroviria de Juqui O trem como smbolo do progresso que chega regio

Fonte: AC20. 1933

A partir da pgina 28 so apresentadas as famlias de imigrantes japoneses em

suas propriedades:

Fotos n 4 - As famlias japonesas que imigraram para a Colnia de Iguape. Fonte: AC20. 1933

19

Assim como nos lbuns de famlia estudados por Leite (2001), observa-se que as

pessoas esto posando para o fotgrafo. Algumas delas parecem usar suas melhores

roupas. Em algumas fotos as famlias so retratadas em suas vestes habituais, e com

alguns homens em situao de trabalho. Nas legendas h informaes sobre cada

famlia: nome, provncia de origem, data de chegada no Brasil, atividade econmica que

desenvolve, localidade onde mora, etc.. A idia destas imagens apresentar os

imigrantes comuns com suas conquistas. Enfim o lbum comemora o sucesso alcanado

pela colnia ao longo dos seus vinte anos (1913-1933).

Em relao ao tema desta pesquisa, o lbum apresenta vinte e uma fotografias

de escolas ou de situaes escolares. Catorze delas so das escolas do ncleo de

Registro. Todas estas fotos mostram as reas externas das escolas. So as tradicionais

fotos da fachada da escola, muitas vezes com um grupo de alunos e professores em

frente da escola, conforme o exemplo a seguir:

Foto n 5 Escola Mista do ncleo colonial de Katsura, bairro Jipuvura. Fonte: AC20. 1933

A foto n 5 mostra a primeira escola japonesa da regio criada em 1917 no

ncleo colonial de Jipovura, denominado Colnia Katsura, em homenagem ao primeiro

20

ministro japons Taro Katsura, que apoiou financeiramente a instalao da Colnia de

Iguape. Chama a ateno nessa foto, a exposio das bandeiras do Brasil e do Japo

cruzadas ao fundo. Percebe-se a inteno de mostrar a integrao entre os dois pases,

mostrando que a escola japonesa no ignorava o pas que a acolhia.

Segundo Souza, R. (2002), as fotografias escolares constituram um gnero de

fotografia muito difundido no incio do sculo XX. Dentro desse gnero a referida

autora identificou quatro grandes categorias: fotos da classe (turma de alunos), do corpo

docente, da arquitetura escolar, de cenas de sala de aula. No lbum v-se a

predominncia do gnero arquitetura escolar: a maioria das fotos mostra a fachada das

escolas, algumas delas com grupo de alunos e professores em sua frente; no h

nenhuma retratao dos ambientes internos e das cenas de salas de aula. Levantou-se a

hiptese de que isso, talvez, se devesse a aspectos tecnolgicos, que no se houvesse

tcnicas apropriadas para retratar ambientes internos, mas no prprio lbum h muitas

fotos realizadas em ambientes internos, as quais possibilitam a observao detalhada

dos mesmos. Portanto considera-se que a predominncia das fotos externas visa

destacar as construes escolares, que eram consideradas na poca um smbolo do

progresso do pas, ou no caso, da colnia japonesa:

As escolas, juntamente com as ferrovias, as indstrias e os edifcios

pblicos, compem o cenrio do universo urbano, signo de

modernidade, transformao e progresso social, cujo registro

fotogrfico contribui para sua eternizao e vulgarizao. (Souza,

R.,2002, p. 81)

Em tese este lbum foi produzido e entregue para cada famlia de imigrantes da

Colnia de Iguape, ou pelo menos para aquelas que colaboraram financeiramente com a

sua produo. Claro que vrias famlias ficaram de fora, segundo o IPHAN (2008), em

1933 j havia 849 famlias japonesas fixadas na regio. Algumas famlias japonesas de

Registro ainda guardam este lbum, geralmente em estado bastante precrio de

conservao. Para esta pesquisa foi utilizada uma cpia digitalizada produzida pela

equipe do IPHAN, durante pesquisas que a instituio realizou na regio para fins de

tombamento do patrimnio histrico da regio.

21

O lbum de 1933 tem as legendas e textos introdutrios escritos

predominantemente em japons, algumas poucas legendas escritas em portugus. Este

foi um fator dificultador da pesquisa. Felizmente a pesquisadora teve o apoio dos

professores da Escola de Lngua Japonesa da Associao Cultural Nipo-Brasileira de

Registro (ACBR), que traduziram algumas legendas referentes s fotografias das

escolas, eventos culturais e esportivos, folha de rosto, crditos finais da publicao e

outras fotos que foram consideradas relevantes para o contexto da pesquisa. Mas a

traduo de todo o lbum seria um trabalho muito grande, at porque se trata de uma

escrita japonesa antiga. Segundo os professores muitos Kanjis7 utilizados na publicao

esto em desuso, sendo desconhecidos para os jovens usurios da lngua japonesa

contempornea. Outro problema a prpria antiguidade das fotos, produzidas h 80

anos, poucas so as pessoas que se reconhecem no lbum. Muitas imagens permitem

apenas as leituras superficiais que se esgotam aps a primeira viso, conforme as

consideraes de Leite (2000) comentadas anteriormente8. Ao longo da pesquisa as

referncias a este lbum ser indicada pela sigla AC20.

O AC50 (lbum Comemorativo do 50 Aniversrio de Fundao da Colnia

Japonesa do Vale do Ribeira de Iguape), foi produzido em 1963, tem 210 pginas e

mantm, basicamente, a mesma estrutura do AC20. Texto introdutrio, fotos das

personalidades ligadas colonizao japonesa, imagens que representam os progressos

da infraestrutura da regio colonizada, fotos das famlias de imigrantes em suas

propriedades com dados sobre sua origem e situao social. Porm h algumas

diferenas.

7 Ideograma da escrita japonesa

8 Vide pginas 14-15

22

Foto n 6 Capa do lbum Comemorativo do 50 Aniversrio da Colnia Japonesa do Vale do Ribeira Fonte: Arquivo pessoal da

pesquisadora, 2014

O AC50 bilnge, ainda que os textos em japons sejam mais completos

nem todas as informaes em japons esto traduzidas. H outras diferenas:

- No lbum de 1933, as personalidades da imigrao eram predominantemente

de polticos e empresrios japoneses. Entre os poucos polticos brasileiros retratados,

identificou-se apenas polticos locais, no h, nem mesmo fotos do Governador do

Estado, Albuquerque Lins, que assinou o contrato que permitiu a instalao da colnia

japonesa no Vale do Ribeira. J no lbum de 1963, a primeira autoridade retratada ,

justamente, o ento Governador do Estado Adhemar Pereira de Barros. Em seguida

retratado o Cnsul Geral do Japo no Brasil. As demais autoridades apresentadas so de

polticos de nacionalidade brasileira, ainda que muitos de origem japonesa (nisseis e

sanseis), deputados estaduais, vereadores, prefeitos, presidentes de associaes e

entidades regionais ou estaduais.

23

- No AC50 as obras que expressam o progresso da regio so todos

empreendimentos do Governo Federal ou Estadual. No h mais, como no AC20, a

presena das autoridades e empresas japonesas. O progresso da regio est vinculado ao

poder estatal: a Rodovia BR-2 (atual BR 116), construo da estao de tratamento de

guas, o Hospital Regional do Vale do Ribeira, a companhia telefnica de Registro. As

escolas retratadas so as escolas pblicas estaduais e o colgio particular catlico. H

tambm espao para duas escolas de lngua japonesa, mas que funcionam como cursos

livres de lngua, sem validade oficial.

- No AC50 embora predominem as famlias dos imigrantes, eventualmente so

apresentadas tambm algumas famlias sem ascendncia nipnica, como, por exemplo,

a famlia do Prefeito Municipal de Registro e de alguns comerciantes da cidade,

geralmente comerciantes bem sucedidos. O lbum de 1963, tambm abre espao para

mostrar estabelecimentos comerciais de grande porte (Casas Pernambucanas), bancos

(Bradesco, Banco Bandeirantes do Comrcio, Banco do Estado), estabelecimentos

industriais (fbricas de ch e de esteiras de junco), e cooperativas agrcolas. Presume-se

que estes estabelecimentos patrocinaram o lbum junto com os imigrantes.

- Outra diferena que, enquanto no primeiro lbum a maioria das famlias

imigrantes reside na zona rural, neste lbum observa-se um nmero maior de famlias

japonesas residindo na zona urbana, pois muitos dos imigrantes deixaram a zona rural

para dedicarem-se ao comrcio e aos servios. Alis, observa-se que os imigrantes

desenvolvem atividades econmicas diversificadas: lojas de auto-peas, posto de

gasolina, oficinas mecnicas, escritrio de contabilidade, hotel, salo de beleza, etc.

Ainda se pode observar, que no AC50 j se identificam algumas famlias formadas a

partir de casamentos mistos. Enfim, ltimo lbum parece ter objetivo de ilustrar o

progresso da comunidade japonesa inserida na sociedade nacional.

Alm de ser bilnge, este ltimo lbum facilmente acessvel. Como uma

produo mais recente, muito fcil encontr-lo nas casas das famlias de origem

japonesa. O lbum foi produzido pela Associao Cultural de Registro, sob a

responsabilidade dos Srs. Ossamu Miura e Toshiaki Matsumura. As fotografias foram

realizadas pelos Srs. Hirokasu Sato e Hiroshi Sumida. O Sr. Sato era fotgrafo

profissional estabelecido comercialmente em Registro. O lbum foi editado na Grfica

Paulista Bijutsu Insatu, em So Paulo, no ano de 1963. Apesar de editado em grfica

24

brasileira, algumas legendas em portugus apresentam erros de ortografia, mas estes no

impedem sua compreenso. A qualidade da impresso grfica do lbum inferior.

Embora este lbum seja mais novo e esteja bem conservado enquanto lbum (suas

pginas e encadernao) a definio das imagens pior.

Segue-se a reproduo de uma das pginas em que se registram as famlias da

comunidade nipo-brasileira. Observa-se que em cada pgina so apresentadas duas

famlias. Em portugus so apresentados os dados bsicos de cada uma delas: nome do

patriarca, provncia de origem, residncia, atividade econmica, demais membros do

grupo. Em japons constam as mesmas informaes mas com mais alguns detalhes, por

exemplo, tamanho das propriedades, dados da produtividade agrcola.

Foto n 07: Famlias japonesas retratadas no lbum de 1963. Fonte: AC50. 1933

25

Os lbuns fotogrficos da Colnia de Iguape mantm muitas semelhanas com

outros dois produzidos por fotgrafos japoneses no Brasil e que foram analisados por

Kossoy (2010). Este autor destaca significado desses registros enquanto testemunho da

auto-imagem das comunidades japonesas:

A grande maioria das fotos produzidas por eles registra grupos

(familiares, conhecidos e empregados); nelas podemos ver as

expresses srias e compenetradas de pessoas que tm plena

conscincia do carter testemunhal da fotografia. Muitos posam com a

melhor roupa, sentados ou de p, no cho de terra batida, ou ento em

plena plantao, com barraces rsticos ao fundo, por vezes caminhes.

So imagens de lavradores que pararam por alguns minutos para a foto,

muitos estavam acompanhados de crianas de colo. Uma imagem

representa tantas histrias: memrias de tempos difceis, porm dos

quais houve considervel progresso material, memrias de vencedores.

(Kossoy, 2010, p.a 379)

Em relao ao tema da pesquisa, o AC50 apresenta 10 fotos que retratam escolas

ou atividades escolares: cinco fotos das escolas estaduais, uma foto de escola particular

catlica, duas fotos de escolas japonesas9 e duas fotos de alunos participando de desfile

cvico nas ruas da cidade. Mais uma vez predominam as imagens externas: a fachada

e/ou lateral da escola, com ou sem alunos e professores posando em sua frente ou lado.

As fotos do Relatrio da Delegacia de Ensino de Santos do ano de 1940 foram

produzidas entre 1939 e 1940 provavelmente pelo prprio Delegado de Ensino, pois

elas ilustram situaes relatadas no documento. Estas fotos esto disponibilizadas no

stio do Arquivo Pblico do Estado de So Paulo:

www.arquivoestado.sp.gov.br/educacao/galeria_det.php?cidade=Santos.

Na anlise dessas fotografias considerou-se o papel que desempenhavam no

conjunto do documento: confirmar aspectos importantes do trabalho desenvolvido na

regio. Chama ateno o fato de que num conjunto total de 22 fotos coladas no

relatrio, 17 delas so de escolas do Vale do Ribeira. As outras 5 so de Ubatuba (4) e

de Itanham(1). No h nenhuma foto das escolas localizadas em Santos e em So

Vicente, os maiores centros urbanos da regio. Por qu o Delegado de Ensino teria dado

tanto destaque subregio? Possivelmente porque estivesse sendo cobrado em relao

9 Escolas no oficiais que passaram a oferecer cursos livres de lngua japonesa, abertas ao longo dos anos

1950 e 1960.

http://www.arquivoestado.sp.gov.br/educacao/galeria_det.php?cidade=Santos

26

aos problemas de assimilao da colnia japonesa. Essas 17 fotos puderam ser

agrupadas em diferentes categorias: Fotos da fachada da escola, com (5) ou sem (2)

alunos e professores frente; prticas esportivas externas (7); prticas agrcolas (2),

alunos e professores na lateral da escola (3). Como no AC20 e AC50 no h fotografias

que apresentem o interior das escolas e as salas de aula. Porm algumas fotos externas

puderam revelar aspectos do trabalho pedaggico nelas desenvolvido: as comemoraes

cvicas, as atividades esportivas e agrcolas.

Entre as fotos pertencentes s famlias japoneses somente se utilizou as do Sr.

M. Ma. (nissei, nascido em 1921). Por se tratar de acervos pessoais tornou-se mais

difcil de serem apresentadas neste trabalho, dado a necessidade de reproduzi-las e

devolv-las em tempo breve, pois so documentos de valor sentimental.

A confrontao das fotos das diferentes fontes e pocas permitiu ver as

transformaes fsicas por que passaram os prdios escolas. Ressalta-se que algumas

escolas japonesas deram origem a escolas pblicas que funcionam atualmente na cidade

de Registro.

3) Documentos da memria oral da comunidade nipo-brasileiras de Registro:

Entrevistas com pessoas da comunidade nipo-brasileira de Registro realizadas por esta

pesquisadora, por Souza, W. (2002) e pelo IPHAN (2008).

A utilizao de fontes orais na pesquisa histrica um recurso recente na

historiografia moderna. No obstante ao fato de que os fundadores da pesquisa

histrica, os gregos Herdoto e Tucdides, terem baseado suas obras em fontes orais, a

tradio historiogrfica das academias ocidentais privilegiou a documentao escrita em

detrimento dos depoimentos orais. Trata-se de uma herana do positivismo que, na

busca da neutralidade cientfica, via no testemunho direto dos participantes de

determinados contextos histricos o perigo de uma interpretao subjetiva da Histria.

Em nome da objetividade da histria, havia um preconceito em relao histria de

perodos recentes e a valorizao dos documentos escritos oficiais, cuja fidedignidade se

baseava em tcnicas eruditas de anlise.

A inovao historiografia contempornea a partir da Escola dos Annales, nos anos

1920, abriu caminho para utilizao de novas fontes histricas e, entre elas, os

depoimentos orais. Desde ento algumas experincias de pesquisa no campo da histria

oral foram desenvolvidas nos EUA, na Inglaterra e Europa. No Brasil essa tendncia da

27

pesquisa histrica chegou durante os anos 1970 tendo como principal referncia a

criao, em 1975, do Programa de Histria Oral do Centro de Pesquisa e Documentao

de Histria Contempornea do Brasil (CPDOC) da Fundao Getlio Vargas, no Rio de

Janeiro.

As pesquisas de histria oral trouxeram uma relevante contribuio para recuperar

a memria dos grupos sociais socialmente marginalizados por no terem acesso aos

meios de produo escrita. Inicialmente a produo da histria oral esteve muito

vinculada chamada histria dos vencidos, mas atualmente ela representa

possibilidades mais amplas. Mais do que fazer uma simples oposio entre a histria

dos vencidos e a dos vencedores, a histria oral permite o estudo da memria, enquanto

fenmeno comum a diferentes grupos sociais.

...o trabalho com a Histria oral pode mostrar como a constituio da memria

objeto de contnua negociao. A memria essencial a um grupo porque est

atrelada construo de sua identidade. Ela [a memria] resultado de um

trabalho de organizao e seleo do que importante para o sentimento de

unidade, de continuidade e de coerncia isto , de identidade. (Alberti, 2005,

p. 167)

Para recuperar e registrar as especificidades do processo de escolarizao da

Colnia japonesa de Registro foram entrevistadas catorze pessoas ligadas a comunidade

nipo-brasileira de Registro. Inicialmente, estabeleceu-se como critrio de seleo a

origem nipnica e o nascimento anterior a 1935. Desta forma atingiramos nisseis e jun-

nisseis10

com 75 anos ou mais e que frequentaram as primeiras escolas japonesas ou

vivenciaram o perodo imediatamente posterior ao fechamento daquelas escolas.

Iniciamos a pesquisa por meio de nossos conhecimentos pessoais, entrevistando trs

pessoas ligadas comunidade japonesa da Igreja Episcopal Anglicana de Registro.

Depois se solicitou o auxilio da Associao Cultural Nipo-Brasileira de Registro

(ACNBR), por meio de seu presidente, Sr. Kuniei Kaneko, que fez o contato com mais

10

Os japoneses denominam as diferentes geraes de imigrantes por meio dessas expresses: issei

primeira gerao, nascida no Japo; nissei segunda gerao, nascida no Brasil; sansei terceira gerao,

nascida no Brasil; ionsei quarta gerao. Essas denominaes relacionam-se aos numerais 1, 2, 3

e 4 que na lngua japonesa so pronunciados como iti, ni, san, on. A expresso jun-nissei utilizada

para denominar os isseis que chegaram ao Brasil ainda crianas e tiveram experincia cultural semelhante

as dos nisseis.

28

seis membros da referida associao, que atendiam os critrios de idade acima. Durante

o processo, pessoas entrevistadas lembraram-se de outras que poderiam contribuir com

a pesquisa: a sra. I. O. M. (sansei, nascida em 1947), cujo av fora professor da escola

japonesa do Bairro 3, e a senhora H. M. A. (nissei, nascida em 1927), que frequentara a

escola catlica a qual, inicialmente, no era alvo da pesquisa. A Sra. I.O.M. veio

participar da entrevista acompanhada de seu esposo, o Sr. W. M.. Este senhor que

brasileiro sem ascendncia japonesa muito interessado na histria da cidade e acabou

falando mais do que a esposa, disse que conversava muito com o falecido sogro, bem

como com amigos da comunidade japonesa. A Sra. Y. Se. (nissei, nascida em 1933), ao

ver uma foto das aulas de ginstica do Grupo Escolar do Bairro de Raposa, indicou o Sr.

Kz. N. (nissei, nascido em 1928) como provvel figurante de foto.

Alm dos sujeitos entrevistados diretamente por esta pesquisadora, utilizou-se

tambm as entrevistas do Sr. Y. H. (nissei, nascido em 1921) e do Sr. R. S. (nissei,

nascido em 1943), realizadas, respectivamente, por Souza, W. (2002), em sua

dissertao de mestrado: A imigrao japonesa na cidade de Registro: uma abordagem

interdisciplinar, e pelo IPHAN (2008), no Dossi da celebrao do Tooro Nagashi

(Registros sonoros).

No Quadro I, a seguir, so apresentados alguns dados sobre os entrevistados

diretamente por esta pesquisadora:

29

Quadro I Dados sobre as pessoas entrevistadas nesta pesquisa

Nome Gerao Data de

nascimento

Grau de

escolarizao

Escola

Sra. M. Mi. Jun- Nissei 1915 Primrio

incompleto

Escola Isolada do

Campo de Experincia

Sr.E. Na. Nissei 1920 Primrio

incompleto

Escola Anglicana da

Igreja de Manga Larga

Sr. M. Ma. Nissei 1921 Primrio

completo

Primrio

suplementar

Escola Isolada do

Campo de Experincia

Escola Particular de

Colnia Japonesa

Sra. Y. OK Jun- Nissei 1926 Primrio

Incompleto

Escola Isolada do Bairro

Quilombo

Sra. H. M. A. Nissei 1927 Primrio

Completo

Curso Industrial

Escola Catlica do Pe.

Frederico

Sr. T. Wa. Nissei 1928 Primrio

completo

Mdio

Comercial

Escola Catlica do Pe.

Frederico

Escola Taisho (SP)

Colgio So Fco. (SP)

Escola Comercial (SP)

Sr. KZ. N. Nissei 1928 Primrio

Completo

Grupo Escolar de

Raposa

Sr. K. O. Nissei 1929 Primrio

completo

Mdio

Comercial

Escola Anglicana da

Igreja de Manga Larga

Grupos Escolares do

Taquaruu e de Registro

Escola Tcnica de

Comrcio (SP)

Sra. R. Na. Nissei 1930 Primrio

completo

Escola Anglicana da

Igreja de Manga Larga

Grupo Escolar do

Taquaruu

Sra. H. Y. Nissei 1933 Primrio

Completo

Curso de Corte e

Costura

Escola Catlica do Pe.

Frederico

Instituto Sto. Amaro

(SP)

Sra. Y. Se. Nissei 1933 Primrio

completo

Grupo Escolar de

Raposa

Sra. E. M. F. Brasileira sem

ascendncia

japonesa

1934 Curso Normal Grupo Escolar de

Xiririca

Colgio Catlico de

Santos

Sr. W. M. Brasileiro sem

ascendncia

japonesa

1943 Superior Escolas Pblicas em So

Paulo

Sra. I. O. M. Sansei 1947 Superior Escolas Pblicas em So

Paulo

30

Para a realizao das entrevistas procurou-se seguir as recomendaes de Alberti

(2005): estudo prvio do tema e levantamento de alguns dados dos entrevistados para

elaborao de um roteiro de pesquisa geral, com possibilidade de adaptaes para cada

entrevistado. No questionrio previa-se um momento para mostrar e questionar sobre

algumas fotos de escola que foram levadas pela pesquisadora nos encontros de

entrevistas. Tambm se solicitou que os entrevistados levassem, se tivessem, algumas

fotos de sua vida escolar. A ideia era explorar o significado mais subjetivo das fotos,

segundo a perspectiva de Leite (2001)

Optou-se por realizar a entrevista apenas em udio por meio de gravador digital.

Tratava-se de um recurso de mais fcil manuseio para a pesquisadora e menos

intimidador para os entrevistados.

Algumas entrevistas foram realizadas nas casas dos entrevistados, outras foram

feitas na Sede da Associao Cultural Nipo-Brasileira de Registro ou no Memorial de

Imigrao Japonesa de Registro, que est instalado no prdio restaurado do KKKK.

Este ltimo local se mostrou o melhor ambiente, pois est cheio de objetos que

estimulam a rememorao do passado dos entrevistados.

Apesar de todos esses cuidados com os momentos de entrevista, houve alguns

contratempos na utilizao de equipamento tecnolgico e por conta da dependncia de

nosso contato com o presidente da Associao Nipo-Brasileira de Registro. Nem

sempre este senhor pode comunicar com antecedncia quem seria o entrevistado. Mas a

pesquisadora levava um kit bsico de fotos das escolas japonesas.

O roteiro bsico da entrevista11

foi apenas um ponto de partida. Ao longo das

entrevistas iam surgindo novos temas e as prprias caractersticas pessoais dos

entrevistados davam outro direcionamento conversa. Alguns so bastante expansivos e

vo falando sobre assuntos diversos da imigrao, outros mais retrados precisam ser

estimulados com novas perguntas. Houve tambm problemas com os sotaques e com a

prpria lngua. Uma das entrevistadas, embora fosse nissei e tivesse concludo o ensino

primrio em Grupo Escolar Estadual, ainda fala com bastante sotaque japons e sua

dico, talvez prejudicada pela idade, tornava difcil e compreenso de algumas

palavras ou frases. Tambm foi necessrio um intrprete para entrevistar a Sra. M. Mi.

11

Vide Anexo I

31

(jun-nissei, nascida em 1915), que at hoje s fala em japons. Neste caso o intrprete

foi o Sr. Kuniei Kaneko, presidente da Associao Cultural Nipo-Brasileira de Registro.

Sobre o roteiro, tambm importante lembrar que por mais que este tenha sido

elaborado aps um estudo prvio sobre o tema, sempre aprendemos mais coisas no

decorrer da pesquisa. Ento novas questes foram acrescentadas nas entrevistas

realizadas por ltimo. Uma questo sobre o Kyoiku Chokugo, um Edito Imperial sobre

a Educao, que era declamado diariamente nas escolas japonesas at o final da

Segunda Guerra Mundial. A pesquisadora desconhecia havia essa prtica no Japo e

tambm em algumas escolas japonesas instaladas no Brasil. Outra questo que passou a

ser