queimadas cana de açucar - saúde - ribeiro e pesquero

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avaliação de efeitos na qualidade do ar e na saúde respiratória de crianças Helena RibeiRo e Célia PesqueRo Introdução estudos avançados 24 (68), 2010 255 Cortadora de cana tenta se proteger da poeira, em lençóis Paulista, 2005. (Foto 1) Fuligem da cana e poeira ressuspensas pelo vento, em lençóis Paulista, 2005. (Foto 2) 256 Fotos Cortesia das autoras estudos avançados 24 (68), 2010 257

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  • estudos avanados 24 (68), 2010 255

    Queimadas de cana-de-acar: avaliao de efeitos na qualidade do ar e na sade respiratria de crianasHelena RibeiRo e Clia PesqueRo

    Introduo

    produo de cana-de-acar brasileira vem aumentando sobremaneira. a rea plantada subiu de 5,6 milhes de hectares, na safra 2004/2005, para 5,9 milhes de hectares na safra 2005/2006. H, tambm, a cons-

    truo de mais de cem novas usinas de acar e lcool e ampliao do lcool na matriz energtica. o estado de so Paulo produz cerca de 60% da produo bra-sileira, em 3,4 milhes de hectares, em 2006, dos quais 2,5 milhes de hectares sofreram processo de queima da cana na pr-colheita, e em 900 mil hectares foi usada colheita mecanizada. da produo brasileira, s 25% tm colheita mecani-zada e o restante queimado antes da colheita manual.

    no estado de so Paulo, a queima da cana coincide com perodo de baixas precipitaes e piores condies de disperso, agravando seus efeitos na qualidade do ar.

    Internamente, o lcool vem tendo maior demanda, sobretudo em razo do desenvolvimento dos motores flexveis, que rodam com lcool ou gasolina. Quando abastecido com lcool, o automvel consome cerca de 30% a mais em relao gasolina; portanto, s vantajoso abastecer com lcool quando o seu preo at 70% o preo da gasolina (silva, 2006). assim, o preo do lcool fator de grande significncia para o mercado consumidor. segundo Weekes (2004), a colheita e o transporte representam aproximadamente 25% a 35% dos custos totais da produo, e, por isso, h esforos para minimizao desses gastos. a colheita e o transporte da cana queimada so mais baratos do que os custos relacionados cana verde. alm disso, a produtividade de cortadores manuais em cana queimada chega a ser o dobro do verificado na cana verde. Portanto, eles tambm preferem cortar cana queimada, apesar de ficarem expostos a maiores nveis de poeira e fu-ligem, como pode ser visualizado nas fotos 1 e 2.

    Por sua vez, a colheita mecanizada da cana apresenta algumas restries: alto investimento, elevada capacidade operacional e risco de tombamento das m-quinas em topografia com declividade acima de 12%.

    em 2002, foi aprovada, no estado de so Paulo, a Lei n.11.241, que dispe sobre a eliminao da queima da palha da cana-de-acar e estabelece um crono-grama do ano 2002 a 2031, com porcentagens de reas plantadas onde a queima

    a

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    Cortadora de cana tenta se proteger da poeira, em lenis Paulista, 2005. (Foto 1)

    Fuligem da cana e poeira ressuspensas pelo vento, em lenis Paulista, 2005. (Foto 2)

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    deve ser eliminada, que vo de 20% no primeiro ano a 100% em 2021, para reas mecanizveis, e at 2031 para reas no mecanizveis. alm disso, a lei probe queimada a um quilmetro do permetro de reas urbanas e de reservas indgenas, e exige dos plantadores um planejamento anual a ser entregue Companhia de saneamento ambiental do estado de so Paulo (Cetesb), adequando as reas de produo ao plano de eliminao das queimadas.

    em 2007, o governo do estado e a unio da Indstria de Cana-de-acar (unica) assinaram protocolo de intenes fixando novas metas para adoo da mecanizao, no qual, nas reas passveis de mecanizao, a queimada dever ser abandonada em 2014 e nas de declividade maior que 12% at 2017 (o estado de s. Paulo, 2007). J para fornecedores de cana, a proposta que a eliminao total ocorra at 2021.

    os canaviais, entretanto, constituem importante fonte de empregos para uma frao da populao com baixo nvel de instruo, representando a maior demanda de fora de trabalho agrcola no estado de so Paulo, com o equivalente de 250.907 homens-ano, em 2002, equivalentes a 35% de toda fora de trabalho agrcola (Braunbeck & Magalhes, 2004).

    a proibio da queima de cana-de-acar para seu despalhamento pr-co-lheita representa um dilema socioambiental. ao mesmo tempo que a sua proibio pode contribuir para melhoria da qualidade do ar e, portanto, para a sustentabili-dade ambiental e a preveno de doenas, ela pode suprimir milhares de empregos no campo, gerando insustentabilidade social e espacial.

    alguns poucos estudos foram realizados no Brasil e no exterior para avaliar efeitos da queimada de cana-de-acar na sade da populao que vive em seus arredores. a grande maioria deles preocupou-se em avaliar efeitos agudos de epi-sdios de queima sade da populao, em curto prazo. destacam-se, no Brasil, as pesquisas de arbex et al. (2000), Canado (2003) e Lopes & Ribeiro (2006), que indicaram que, em perodos de queima de cana, h maior quantidade de visitas hospitalares, inalaes e internaes hospitalares por doenas respiratrias em cidades prximas. nos estados unidos, pesquisa de Boopathy et al. (2002) tambm indicou aumento de tendncia de hospitalizaes por asma nos meses de queima de palha de cana, no estado de Louisiana, onde a prtica existe. Bebs foram os mais afetados.

    o objetivo principal do presente estudo foi avaliar impacto da queima de cana-de-acar na qualidade do ar em rea sujeita anualmente a esse processo e os efeitos da poluio crnica, em longo prazo, nas condies de sade respiratria de escolares vivendo na regio, almejando contribuir para a discusso de solues desse dilema, ampliando a base de dados e informaes disponveis para tomada de deciso.

    Mtodos e tcnicas Seleo da rea de pesquisaa seleo da rea foi feita aps visita a diversos municpios do estado de so

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    Paulo com grande parte de suas terras utilizadas para produo de cana-de-acar. esses municpios, no entanto, apresentavam fatores de confuso, como industria-lizao e trfego intenso de veculos. selecionou-se ento um municpio de base econmica rural, cuja populao dependesse especialmente das atividades voltadas cultura da cana-de-acar e com baixo volume de trfego de veculos: esprito santo do turvo, situado no oeste paulista, a 320 quilmetros da capital, no km 315 da Rodovia Castelo Branco, no sentido so Paulo-Bauru, delimitando-se com os municpios de santa Cruz do Rio Pardo e agudos.

    esprito santo do turvo possui rea de 194 km, ou 19.415 hectares. em 1978, a foi instalada uma destilaria de lcool. a economia rural do municpio baseia-se na criao de gado e na monocultura canavieira, que ocupa de 8% a 22% de sua rea total, conforme observado na tabela 1, pois a rea classificada como solo descoberto est em grande parte sendo preparada para plantio de cana. a economia urbana baseia-se em atividades comerciais e de servios, organizadas para atender s demandas locais (donzelli et al., 2006).

    tabela 1 uso atual das terras de esprito santo do turvo

    Fonte: donzelli et al. (2006).

    a anlise da topografia e da carta de declividades permitiu verificar que h grande potencial de expanso de plantaes de cana no municpio e na regio, pois as terras com declividades inferiores a 12% perfazem 91% da rea agrcola mu-nicipal, conforme observado na tabela 2. Portanto, no h restries de ordem topogrfica mecanizao da colheita. Por sua vez, a usina de processamento de cana a instalada tem potencial para ampliar sua produo e planeja faz-lo gra-dualente.

    Quanto aos aspectos fsico-naturais, o municpio apresenta solos suscetveis a eroso, com presena de argissolos textura arenosa/mdia com carter abrpti-co, bastante problemticos para atividades agrcolas, no tanto pelo fato de refletir

    Uso atual rea (ha) %Solo descoberto 2720,88 14,01Cana-de-acar 1628,01 8,38Fruticultura 9,45 0,05Seringueira 18,54 0,10Cobertura residual 96,03 0,49Pastagem 13213,26 68,03Reflorestamento 265,32 1,37Mata/ mata ciliar/ capoeira 983,43 5,06Vrzea 487,98 2,51Total 19422,9 100,00

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    baixas produtividades, mas pela elevada suscetibilidade a eroso. sem cobertura vegetal protetora, so facilmente erodidos, causando assoreamento dos mananciais hdricos (Bertolani et al., 2006). a cobertura vegetal nativa remanescente ocupa apenas 7,57% de sua rea, sendo 5,06% de matas mesfilas semidecduas e ciliares e 2,51% de vrzeas e trechos estreitos de matas ciliares em recuperao. os frag-mentos de vegetao nativa so pequenos, os maiores no chegam a atingir 200 ha de rea. os cerrados, apontados como existentes anteriormente no municpio em estudos desenvolvidos pelo Instituto Florestal, no foram encontrados em tra-balho de campo feito em 2000. Foram observadas apenas algumas espcies tpicas de cerrado, com indivduos isolados, mas no o ecossistema (torres, 2006).

    tabela 2 Classes de declividade no municpio de esprito santo do turvo

    Fonte: donzelli et al. (2006).

    a usina agrest agroindustrial esprito santo do turvo, a instalada, colhe uma rea de 4 mil ha em cana-de-acar, em esprito santo do turvo e arredo-res, e est procurando novas reas para fornecimento nas proximidades. o ideal, segundo seu presidente, seria receber de um raio de 20 quilmetros, para garantir que a cana no fermente antes do processamento e para diminuir os custos de transporte. em 2004, a usina processou cerca de 5 mil t/dia de cana, mas possui capacidade para processar at 11 mil t/dia. naquele mesmo ano, empregava trs mil funcionrios diretos em todos os nveis, incluindo os cortadores. a colhedeira mecnica no havia sido introduzida a e a queimada era praticada durante toda a safra. nos plantios novos, j vinham preparando o terreno para introduo da colheita mecanizada. alm disso, a indstria ainda no havia instalado lavadores de gases (conforme comunicao pessoal do diretor-presidente).

    na Foto 3, pode-se observar a usina agrest de uma rua da rea urbana de esprito santo do turvo, ilustrando essa proximidade.

    de acordo com o Censo demogrfico, em 2000, esprito santo do turvo possua 3.677 habitantes, sendo 51,5% homens e 48,5% mulheres. do total, 3.239 pessoas moravam na rea urbana (88,9%) e 438 (11,1%) na zona rural. a densi-dade demogrfica do municpio era de 19,2 habitantes por km, bastante inferior ao ndice verificado para o estado, de 139 hab./km. a taxa de mortalidade geral

    Classes de declive rea (ha) %A: 0-3% 6148,62 31,79B: 3%-6% 5845,05 30,22C: 6%-12% 5690,97 29,42D: 12%-20% 1386,27 7,17E: 20%-40% 260,01 1,34F: >40% 12,96 0,07Total 19343,88 100,00

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    era de 7,63/1.000, pouco superior ao ndice do estado. a mortalidade infantil (15,15/1.000) foi inferior taxa do estado em 2000. dados de escolaridade do municpio indicaram 21,7% de habitantes no alfabetizados, 63,7% com 1 a 7 anos de escolaridade, e s 0,7% da populao com mais de 15 anos de estudo (IBGe, 2000).

    em levantamento realizado junto aos moradores do municpio sobre seus problemas ambientais e possveis efeitos sade, foram indicados: poluio do rio, desemprego, lixo, fumaa de queimada de cana-de-acar, eroso de solo e mos-quitos. Muitos entrevistados consideraram que as queimadas causavam impactos comunidade, motivando doenas respiratrias e sujando as ruas e casas por causa da poeira (Ribeiro & Gnther, 2006).

    Considerou-se assim o municpio adequado para a pesquisa. o conheci-mento prvio da rea e a aceitao da escola municipal para a instalao dos medi-dores de poluio do ar e da escola estadual para a aplicao dos questionrios aos alunos foram fatores que facilitaram a realizao de parte de campo da pesquisa.

    Aplicao de questionriosFoi realizada aplicao de 144 questionrios sobre morbidade respiratria

    referida em estudantes da escola estadual terezinha Mariano Magnani de espri-to santo do turvo. Crianas de 10 a 13 anos de idade foram escolhidas como gru-po objeto de estudo porque elas so mais suscetveis poluio do ar, no fumam

    usina agrest vista da rea urbana de esprito santo do Turvo, 2005. (Foto 3)

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    e no foram afetadas por poluio de origem ocupacional. Responderam alunos de 5 (53,6%) e 6 (46,45%) sries. o instrumento de pesquisa utilizado foi um questionrio desenvolvido para avaliao de efeitos de poluio do ar em longo prazo, pelo epidemiology standardization Project (Ferris, 1978) da Pulmonary disease division do national Heart, Lung and Blood Institute, dos estados uni-dos, para crianas com at 13 anos de idade. o questionrio levanta aspectos so-cioeconmicos, sintomas de doenas respiratrias dos ltimos dois anos anteriores pesquisa e doenas respiratrias de todo perodo de vida das crianas. no um instrumento de pesquisa para levantar efeitos agudos da poluio do ar, por isso sua aplicao no necessita ser coincidente com os dias em que feita a medio de poluentes atmosfricos e de ventos. o monitoramento dos poluentes foi feito em duas campanhas de alguns dias, em dois anos seguidos, durante a safra de cana, para conhecer os nveis a que a populao vem sendo exposta.

    Como s existe uma escola pblica com alunos na faixa etria desejada no municpio e no h indicaes de discrepncias significativas de renda entre as famlias que a moram, considerou-se que as diferenas sociais foram controladas. os questionrios foram aplicados na escola, no ms de setembro, para evitar as temperaturas mais frias de inverno, durante perodo de aulas, por esta pesquisado-ra, em conjunto com alguns alunos de ps-graduao da Faculdade de sade P-blica, e o ndice de resposta foi de 100%. s um questionrio foi descartado. todas as crianas naquela faixa etria da escola foram includas na pesquisa para atender ao critrio de definio do tamanho da amostra, adotando um erro padro de 5%, usando a seguinte frmula:

    onde

    no o nmero estimado da amostra; n, o tamanho da amostra ajustado para o fator de populao finita; n, o tamanho total da populao; P, a taxa de preva-lncia de uma doena expressa como porcentagem de uma populao total; q, o complemento (Q= 1 P); , o desvio padro da prevalncia P; adotado foi 5%, considerado adequado para estudos epidemiolgicos e dentro das limitaes financeiras e de pessoal do projeto.

    Posteriormente, os resultados foram comparados com aqueles obtidos em pesquisa anterior realizada pela autora no municpio de Juquitiba, localizado em rea de proteo aos mananciais na Regio Metropolitana de so Paulo, sem a presena de queimada de cana e de outras atividades poluidoras do ar. o instru-

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    mento de pesquisa e sua forma de aplicao foram os mesmos utilizados em esp-rito santo do turvo (Ribeiro & Cardoso, 2003).

    Medies da qualidade do aras medies de qualidade do ar foram realizadas em duas campanhas de

    monitoramento, durante perodo de safra de cana-de-acar, em rea urbana do municpio de esprito santo do turvo, uma vez que havia interesse em verificar os nveis de poluentes a que a populao escolar estava sujeita. Como informado, a usina de produo localiza-se bem prxima rea urbana, e as reas de plantao de cana quase que circundam a cidade.

    antes do monitoramento, foram solicitadas Cetesb as datas de comunica-o de queima no municpio, para que coincidissem com as medies. durante a campanha de 2004, a estao seca e a safra j estavam no final e choveu em dois dias, o que pode ter restringido a ocorrncia de queimadas. em 2005, a campanha ocorreu em plena estao seca e no meio da safra, para se ter dados de um perodo mais crtico de poluio. Houve, ainda, observao de fortes ventos em alguns perodos, apesar de esses no terem sido medidos. Como no h estao meteo-rolgica no municpio, foram solicitados de Bauru, a estao mais prxima, dados sobre predominncia e intensidade mdia de ventos em diferentes horas do dia. Foram fornecidos dados das mdias de 1999 a 2001, com elaborao das rosas de ventos para os diferentes perodos do dia, para conhecer o padro mdio de direo predominante de ventos na regio e avaliar se poderiam influir nos resultados.

    Foram feitas medies de Material Particulado total em suspenso (Pts), Material Particulado Inalvel (PM10) e dixido de nitrognio (no2), pelo Labo-ratrio de Qualidade do ar da Faculdade de sade Pblica da usP. os amostra-dores ficaram localizados na escola Municipal do Campo, situada na zona urbana de esprito santo do turvo, nos perodos de 8 a 12 de novembro de 2004, e de 6 a 12 de julho de 2005.

    o Material Particulado total em suspenso foi coletado usando um amos-trador de grande volume energtica, de acordo com o mtodo da associao Brasileira de normas tcnicas (aBnt: nBR 9547, 1993). as amostras foram cole-tadas em filtro de fibra de vidro (203 x 254 mm), durante 24 horas, nos dias: 8, 9, 10, 11 e 12 de novembro de 2004, e 6, 7, 8, 9, 10, 11 e 12 de julho de 2005, com incio e trmino de coleta em torno de 8 horas da manh, a uma vazo entre 1,40 e 1,540 m/min. antes da primeira coleta, o amostrador foi calibrado com calibra-dor de orifcio e manmetro de coluna dgua em u, segundo a recomendao do mtodo. a massa de material particulado foi determinada gravimetricamente, por meio da pesagem dos filtros antes e aps a amostragem, utilizando uma balana analtica Mettler toledo aG-204 com preciso de 0,1 mg. antes das pesagens, os filtros foram estabilizados por 24 horas em dessecador com slica gel, para remoo da umidade. o depsito de material no filtro e a velocidade de fluxo apresentam nvel de preciso de 2 mg e 5%, respectivamente. as precises determinadas pela colocao dos equipamentos variam na faixa de 4% a 10% (Lodge Junior, 1988).

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    simultaneamente coleta do Material Particulado em suspenso (Pts), fo-ram coletadas amostras de Material Particulado Inalvel PM10, nos dias 6, 7, 8, 9, 10, 11 e 12 de julho de 2005, usando um amostrador de grande volume Wedding, de acordo com o mtodo (aBnt: nBR 13412, 1995). as amostras foram coletadas durante 24 horas a uma vazo de 1,148 a 1,166 m/min em filtro de fibra de vidro (203 x 254 mm). antes e depois da coleta, o amostrador foi calibrado por meio de um manmetro de coluna dgua em u, segundo recomendao do mtodo. os filtros foram pesados antes e depois da amostragem em balana analtica Mettler toledo aG-204 com preciso de 0,1 mg. antes da pesagem, os filtros foram esta-bilizados em dessecador com slica gel por 24 horas, para remoo da umidade.

    a concentrao do dixido de nitrognio (no2) atmosfrico foi determinada pelo mtodo de saltzman (WHo, 1976; Lodge Junior, 1988), utilizando um amos-trador de gases energtica modelo tri-gs. Foram feitas coletas nos dias 8, 9, 10, 11, 12 de novembro de 2004, e 6, 7, 8, 9, 10, 11 e 12 de julho de 2005, no perodo da manh, horrio das 8h30 s 9h30, nos dias 7 a 13, e nos dias 6 a 12, no horrio das 19h s 20h. Foram utilizados dois borbulhadores com dispersor poroso, em s-rie, contendo 15 mL de reagente absorvente (soluo a 0,002% de di-hidrocloreto de n-(1-naftil) etilenodiamina, 0,026M de cido sulfanlico e 2,45M de cido ac-tico). a vazo de amostragem utilizada foi de aproximadamente 0,550 L/min e tempo de coleta de 60 minutos. uma preciso mdia de 1% pode ser obtida com o mtodo empregado (Lodge Junior, 1988). as amostras foram analisadas em espec-trofotmetro shimadzu modelo uv 1203, a 550 nm, utilizando curva de calibrao construda com cinco concentraes de soluo padro de nitrito de sdio.

    Resultados e discussoQualidade do arverificou-se, pela rosa dos ventos da regio (Figura 1), que durante a tarde

    h circulao de ar de todas as direes. a queima da cana sempre realizada no final da tarde e incio da noite, pois, com o resfriamento do ar ambiente, h maior facilidade de subida do ar quente e consequente disperso da fumaa. assim, no havendo um padro definido de incidncia de ventos predominantes, nem um lo-cal nico de queima, sups-se que, de maneira geral, a qualidade do ar urbano seja afetada pelas emisses produzidas pelas queimadas e que a sua populao urbana esteja sujeita a seus efeitos.

    as figuras 2 a 6 mostram os resultados das medies realizadas nas campa-nhas de amostragem de 2004 e 2005 e os padres de qualidade do ar anual e para 24 horas por Particulado total Pts e para uma hora por dixido de nitrognio, estabelecidos pela Resoluo Conama.

    verificou-se, pelos dados constantes das Figuras 2 a 6, nos perodos amostra-dos, que os nveis de poluentes medidos estiveram sempre abaixo dos padres hor-rios e anuais para dixido de nitrognio e dirios e anuais para material particulado total e partculas inalveis permitidos pela legislao brasileira. Como mencionado no item Mtodos e tcnicas, as medies foram realizadas durante a safra de

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    Figura 1 ventos Bauru 10/1999 a 12/2001 durante o perodo da tarde.

    Figuras 2 e 3 Concentraes de Particulado total em suspenso e de dixido de nitrognio no perodo de 8 a 12 de novembro de 2004, e padres de qualidade do ar dirio, para 1 hora e anual, em rea urbana de esprito santo do turvo.

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    cana no municpio, sendo no final da safra em 2004 e no auge da safra em 2005. nos dois anos, havia comunicaes de queima aprovadas para a usina agrest ou para outros plantadores de cana no municpio de esprito santo do turvo.

    observou-se que, nos dias 9 de novembro de 2004 e 11 a 13 de julho de 2005, quando havia comunicao de queima para rea mais prxima da mancha urbana, os nveis tiveram um aumento significativo, sobretudo no perodo do in-cio da noite, das 19h s 20h em 2005, e nos dois perodos em 2004. Mesmo assim, os nveis ainda foram inferiores ao padro de qualidade para aqueles poluentes medidos. entretanto, na primeira campanha, em 2004, havia chovido, e na se-gunda, em 2005, havia ventos mais fortes, apesar do tempo bom e da ausncia total de chuvas. tais elementos podem ter facilitado maior disperso de poluentes e evitado concentraes maiores.

    Figura 4 Concentraes de Partculas Inalveis (PI), no perodo de 6 a 13 de julho de 2005, e padres de qualidade do ar dirio e anual.

    Figura 5 Concentraes de Particulado total, no perodo de 6 a 12 de julho de 2005, e padres de qualidade do ar dirio e anual, em rea urbana de esprito santo do turvo.

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    Figura 6 Concentraes de dixido de nitrognio, no perodo de 6 a 13 de julho de 2005, e padres de qualidade do ar para uma hora e anual, em rea urbana de esprito santo do turvo.

    * dia com queima de cana mais prxima da rea urbana no final do dia.

    Morbidade referida pelos estudantes e comparao com dadosde Juquitiba, na Regio Metropolitana de So Paulodos 143 alunos que responderam ao questionrio, 52% eram do sexo mas-

    culino e 47,6% do sexo feminino; 50,3% se declararam de cor branca; 40,6%, de cor parda; 7,7%, negros; e 1,4%, amarelos. a data de nascimento dos entrevistados ia de janeiro de 1990 a dezembro de 1993. as idades variavam de 10 a 13 anos. a grande maioria dos entrevistados havia nascido na prpria regio: 42,8% em san-ta Cruz do Rio Pardo, municpio vizinho que possui maternidade, pois esprito santo do turvo no possui hospital. trinta crianas (21,7%) nasceram em Ipaussu, outro municpio vizinho; 5,8%, em duartina; 4,3%, em esprito santo do turvo; 2,9%, em Bauru; 2,2%, em so Pedro do turvo. duas crianas tinham nascido no nordeste do pas (alagoas e Pernambuco), duas no Paran e duas em Mato Grosso do sul. as restantes haviam nascido em municpios variados do interior do estado de so Paulo.

    Quanto ao local de moradia, trs crianas haviam morado na Regio Me-tropolitana de so Paulo; cinco, em Mato Grosso do sul; trs, no Paran; uma, em Gois; e uma, na Bahia; as restantes moraram em municpios do interior do estado de so Paulo, sobretudo da prpria regio oeste. sessenta e um por cento das crianas moravam no mesmo endereo havia cinco anos ou mais. Considerou-se ento que o local anterior de moradia teria um efeito desprezvel no total das crianas no que diz respeito exposio poluio atmosfrica.

    um dos indicadores sociais utilizados foi o nmero de pessoas dormindo no quarto: 28,7% das crianas dormiam sozinhas no quarto; 32,9% dormiam com mais uma pessoa; 23,8% dormiam com mais duas pessoas; e 14,7% dormiam com

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    trs ou mais pessoas no cmodo. dentre as que dormiam com mais pessoas no quarto, 14,4% delas tinham acompanhante que fumava; 71,6% dormiam sozinhas na cama; mas 15,5% dormiam com mais uma pessoa na cama; 6%, com mais duas; e 6%, com mais trs pessoas na cama. as casas em que essas crianas moravam, em sua grande maioria (85,4%), tinham de quatro a seis cmodos, incluindo a cozinha e excluindo o banheiro. Por sua vez, em 85,8% das casas moravam de quatro a sete pessoas. as condies de moradia dessas crianas, no geral, eram bastante simples, algumas precrias, por conta da aglomerao. visita aos domiclios indicou que a grande maioria era coberta por telha v, sem forro.

    em 99,3% das casas onde moravam essas crianas, gs de botijo era o com-bustvel usado para cozinhar. s uma das casas usava fogo a lenha. a queima de biomassa no interior do domiclio, para cozimento dos alimentos, no constitua, assim, um fator de risco sade dessas crianas. apenas 14,7% das casas no abri-gavam animais de estimao. em 31% das casas havia cachorros; em 4,9%, gatos; em 17,5%, gatos e cachorros; em 16%, cachorros e pssaros; em 11,9%, cachorros, pssaros e gatos.

    Pela anlise dos dados levantados na pesquisa de campo, verificou-se que, na cidade de esprito santo do turvo, os nveis dos poluentes amostrados (no2, Pts e PI) em alguns dias nos anos de 2004 e 2005, durante a safra de cana-de-acar, em perodos em que havia comunicaes de queima, apresentaram-se abaixo dos padres recomendados pela legislao brasileira.

    a prevalncia de sintomas de doenas respiratrias em porcentagem de crianas de 11 a 13 anos, no obstante, foi alta. Comparando-se os dados obtidos em esprito santo do turvo queles obtidos anteriormente em Juquitiba, verifi-cou-se que, em 22 dos 28 sintomas de doenas ou doenas levantados por meio do questionrio, os dados eram mais altos do que em Juquitiba, situada em rea de proteo aos mananciais na Regio Metropolitana de so Paulo. s em seis sintomas, a prevalncia foi proporcionalmente maior em Juquitiba. no entanto, porcentualmente, a diferena para menos em esprito santo do turvo foi pequena nesses casos: doena no peito com mais catarro, hospitalizao antes dos 2 anos de idade, pneumonia, cirurgia de amdalas ou adenoides e medicao para asma.

    tentou-se neutralizar influncia de fatores socioeconmicos como fator de confuso nos resultados da pesquisa, selecionando-se alunos de escola pblica estadual. no entanto, como no h escolas privadas nos dois municpios, sups-se que a populao analisada fosse relativamente homognea. Considerou-se outro indicador socioeconmico: a escolaridade dos pais. Centrando a anlise dos dois extremos, porcentagem de analfabetos e porcentagem de pais que cursaram a universidade, verificou-se que os nveis de analfabetismo entre os pais eram bem mais baixos em esprito santo do turvo do que em Juquitiba. no havia, con-tudo, pais que tinham cursado universidade em esprito santo do turvo, e havia uma porcentagem pequena de pais com nvel universitrio em Juquitiba. Como a literatura aponta baixos nveis de escolaridade, sobretudo das mes, como fator de

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    adoecimento em crianas, e, em esprito santo do turvo, havia nvel baixssimo de pais (1%) e mes (1,6%) analfabetos, considerou-se que a baixa escolaridade no poderia ser responsabilizada pela significativa diferena entre a prevalncia de sintomas para mais em esprito santo do turvo.

    tabela 3 Prevalncia de sintomas e doenas em crianas de esprito santo do turvo e de Juquitiba

    Sintoma /doena E. S. Turvo N 143 %Juquitiba

    N 109 %

    Tosse sem resfriado 56 39,2 33 30,2Tosse na maior parte dos dias 20 18,3 9 8,2Catarro sem resfriado 31 21,8 18 16,5Catarro na maior parte dos dias 19 25,3 7 6,4Peito congestionado + 1 semana/ano 38 27,0 21 19,2Chiado sem resfriado 38 26,6 16 14,7Chiado na maior parte dos dias 34 23,9 17 15,5Chiado com falta de ar 39 27,5 21 19,2Dois ou mais episdios de chiado 26 18,2 13 11,9Necessitou tomar remdios para chiado 20 13,9 12 11,0

    Respirao anormal nos intervalos 22 15,4 12 11,0Chiado aps exerccios 48 33,6 22 20,2Doena no peitoSem atividade por trs dias 17 12 7 6,4Com mais catarro 6 4,2 5 4,5Hospitalizado antes de 2 anos de idade 33 23,0 27 24,7

    Outras doenasSarampo 22 15,4 0 0Sinusite 27 18,9 6 5,5Bronquite 38 26,6 21 19,2Pneumonia 18 12,6 14 18,2Dor de ouvidos 90 62,9 63 57,7Frequentes dores de ouvidoEntre 0-2 anos 10 7,2 5 4,5Entre 2-5 anos 12 8,6 12 11,0Com mais de 5 anos 46 32,6 23 21,1Tubos para drenar ouvido 6 4,2 1 0,9Cirurgia de amdalas ou adenoides 2 1,4 2 1,8Asma diagnosticada por mdico 3 2,1 2 1,8Toma remdios para asma 2 1,3 2 1,8Alergia 56 40,0 34 31,2

    Fonte dos dados de Juquitiba: Ribeiro & Cardoso (2003).

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    outro importante fator de confuso em estudos de efeitos da poluio do ar na sade de crianas o hbito de fumar dos pais. nesse caso, a prevalncia encon-trada em esprito santo do turvo para hbito de fumar dos pais foi ligeiramente mais alta; para hbito de fumar das mes, foi semelhante nos dois municpios.

    os sintomas de doenas e doenas respiratrios encontrados esto apresen-tados na tabela 3.

    Foi realizado o student test para verificar a significncia estatstica das dife-renas encontradas. no total de sintomas e doenas respiratrias, a diferena para mais em esprito santo do turvo foi significante (P = 0,04). nos sintomas tosse sem resfriado e na maior parte dos dias, a diferena tambm foi significante (P = 0,01). os sintomas peito congestionado mais de uma semana por ano, chiado sem resfriado, na maior parte dos dias, em mais de um episdio, tendo necessitado medicamentos, aps exerccios e com respirao anormal nos intervalos, foram os que apresentaram maior significncia estatstica para mais em esprito santo do turvo (P = 0,008). os outros sintomas com maior prevalncia em esprito santo do turvo, no apresentaram significncia estatstica.

    Concluses a pesquisa realizada indicou que, no municpio de esprito santo do turvo,

    os nveis dos poluentes amostrados (no2, Pts e PI), durante a safra de cana-de-acar, apresentaram-se abaixo dos padres recomendados pela legislao brasilei-ra. no obstante, a prevalncia de sintomas de doenas respiratrias em porcenta-gem de crianas de 11 a 13 anos foi mais alta em 22 dos 28 sintomas de doenas ou doenas levantados por meio do questionrio. Como no foram encontrados outros fatores que pudessem explicar essa alta prevalncia, h indicaes de que a poluio advinda dos processos da agroindstria sucroalcooleira, em uso no municpio de esprito santo do turvo, constitua num fator de risco sade res-piratria das crianas, mesmo quando abaixo dos padres de qualidade do ar. H necessidade de desenvolvimento de mais estudos para avaliar esses efeitos, sobre-tudo neste momento de grande expanso das lavouras canavieiras no pas.

    agradecimentos

    s escolas de esprito santo do turvo pela autorizao de realizao da pesquisa.ao CnPq pelo financiamento da pesquisa com bolsa produtividade.

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    resumo Pesquisa em esprito santo do turvo (sP) analisou poluio atmosfrica cau-sada por queima de cana-de-acar e sade respiratria de crianas. Realizaram-se medi-es de PM10, Pts e no2, durante safra, em 2004 e 2005, em ptio de escola, e aplicou-se questionrio para avaliar morbidade respiratria referida dos alunos. no municpio, h cultivo de cana, queimada no pr-corte e usina prxima rea urbana. Resultados dos questionrios foram comparados queles obtidos em Juquitiba (sP) previamente. as medies de poluentes, realizadas em dias em que havia queima de cana, estiveram abaixo dos padres de qualidade do ar. entretanto, foram indicadas altas prevalncias de sintomas e doenas respiratrias.

    palavras-chave: Queimadas, Cana-de-acar, Morbidade, doenas respiratrias, Crian-as.

    abstract Research undertaken in esprito santo do turvo (sP), analyzed data on air pollution caused by sugarcane burning and respiratory health of children. Measure-ments of PM10, tsP, and no2 were done during harvest period, in 2004 and 2005, at a public school patio and questionnaires to evaluate respiratory symptoms were applied to the school children. the municipality has predominantly sugarcane plantations and an alcohol processing plant close to urban area. Results of questionnaires were compared to those obtained in Juquitiba (sP), previously. air pollution levels even during burning season were always bellow Brazilian standards. However, results indicated high preva-lence of symptoms and of respiratory diseases.

    keywords: Biomass fire, sugarcane, Morbidity, Respiratory diseases, Children.

    Helena Ribeiro gegrafa, doutora em Geografia Fsica, bolsista CnPq Produtividade em Pesquisa 1C, professora titular do departamento de sade ambiental e vice-dire-tora da Faculdade de sade Pblica da universidade de so Paulo. @ [email protected]

    Clia Pesquero doutora em Qumica e qumica do Laboratrio de Qualidade do ar da Faculdade de sade Pblica da universidade de so [email protected] [email protected]

    texto recebido em 1.2.2008 e aceito em 31.7.2008.