rigotto - anamnese ocupacional

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ANAMNESE CLNICO-OCUPACIONAL Raquel Maria Rigotto I. INTRODUO As relaes entre o trabalho e a sade/doena dos indivduos e dos grupos humanos tem sido cada vez mais enfatizada por estudos e pesquisas, colocando para os profissionais de sade a tarefa de abordar tambm a vida laboral de seus pacientes. A Anamnese Clnico-Ocupacional (A.C.O.), ao incorporar esta dimenso fundamental ao mais relevante procedimento semiolgico, pretende ser um instrumento para os profissionais de sade na abordagem daquelas relaes, ao lado do estudo dos locais de trabalho, dos estudos epidemiolgicos e do estudo bibliogrfico. A A.C.O. pode ser realizada junto ao paciente individualmente ou em grupos, principalmente quando trabalhadores que procedem de um mesmo local de enquete coletiva (Cfr. LAURELL e NORIEGA, 1989; 1992; FACCHINI, 1992). trabalhador se trata de trabalho: a RIGOTTO,

um momento precioso, onde o profissional de sade e o(s) trabalhador(es) vo trocar informaes e construir um saber que interessa imediatamente quela situao especfica e que tambm pode contribuir para o avano do conhecimento sobre a sade dos trabalhadores. Nesta perspectiva, importante estar atento a alguns aspectos: os trabalhadores tm um saber prprio, nascido da sua vivncia cotidiana e da experincia de seu corpo no trabalho. Sua linguagem e os elementos de seu raciocnio podem ser diferentes do saber acadmico, mas nem por isto seu saber menos relevante. Muitas vezes ele aparece - como o saber cientfico mesclado com informaes, crenas e valores difundidos pela cultura hegemnica atravs de seus instrumentos de poder. O

profissional de sade deve esforar-se para compreender, em toda a sua complexidade, o universo do paciente-trabalhador. A evoluo do Processo de Trabalho tende progressivamente a expropriar o saber dos trabalhadores, separando concepo e execuo, fragmentando tarefas, isolando cada trabalhador em seu posto, controlando-os. Por isto, muitos pacientes tm dificuldade em falar sobre seu trabalho. Neste sentido a consulta mdica e a enquete coletiva podem ser oportunidades para que ele explicite e organize as informaes de que dispe, reconstruindo o processo de trabalho onde est inserido e situando-se nele, num momento pedaggico potencialmente desalienante. Ainda conhecemos muito pouco sobre os riscos ocupacionais j introduzidos na produo. Mais do que isto, as constantes mudanas tecnolgicas e organizacionais que o capital realiza para manter a competitividade no mercado, por um lado, e a subordinao dos trabalhadores, por outro - introduz novos riscos sade. Desta forma, necessrio que o profissional de sade mantenha sempre a postura de pesquisador, pronto a captar fenmenos novos que podem se lhe apresentar. Segundo Berlinguer (1983), a doena um sinal de alteraes do equilbrio homem-ambiente. Como tal, tambm um chamado mudana. Cabe ao Servio de Sade ajudar o paciente a fazer a leitura deste sinal. Os trabalhadores so sujeitos de suas vidas, agentes da transformao de suas condies de sade e de trabalho. Conhecer para assumir-se como tal importante indicador de sade (DEJOURS, 1986). Estar familiarizado com os locais de trabalho de diversos ramos de atividades facilita a compreenso da vida laboral dos pacientestrabalhadores. II. DEFINIO A Anamnese Clnico-Ocupacional resulta da incorporao, na Anamnese Clnica, de um conjunto de informaes que visam detectar e esclarecer os riscos a que est exposto o trabalhador em

sua vida laboral; as alteraes de sade, precoces ou manifestas, que esto ocorrendo no seu corpo; as possveis relaes entre o perfil de riscos e o perfil de sade/doena do trabalhador. III. OBJETIVOS

Possibilitar o diagnstico da patologia ocupacional Orientar o tratamento adequado; Possibilitar o acesso do paciente aos benefcios do Seguro de Acidentes do Trabalho do INSS; Informar o trabalhador sobre a gnese, evoluo e preveno de sua patologia; Orientar o trabalhador, a empresa, e o INSS sobre as possibilidades de retorno do paciente ao trabalho e sobre a necessidade de Reabilitao Profissional; Acionar as aes de Vigilncia relacionadas melhoria das condies sanitrias do ambiente gerador do caso; ao diagnstico precoce; busca ativa de casos e ao traado do perfil epidemiolgico da patologia ocupacional Reunir dados para produo cientfica, ampliando o conhecimento sobre os agravos sade dos trabalhadores; Compreender e difundir informaes sobre as relaes entre o trabalho e a sade. IV. ROTEIRO DE EXECUO 1. Identificao do paciente: Nome, data de nascimento, naturalidade, cor, estado civil, profisso, procedncia, origem do encaminhamento. 3. Queixa principal (Q.P.): Relato espontneo, pelo paciente, dos motivos que o trouxeram consulta e de como ele percebe o seu estado de sade. 4. Histria da Molstia Atual (H.M.A.):

Descrever detalhadamente as queixas referidas acima e a evoluo da doena, incluindo a propedutica e teraputica j realizadas e seus resultados. Registrar ainda: h relao do quadro relatado com o afastamento ou retorno ao trabalho? as providncias j tomadas em relao Previdncia Social: afastamentos, percias, notificaes, etc. 5. Histria Ocupacional: Neste item interessa conhecer toda a trajetria ocupacional do paciente, desde seu primeiro trabalho (formal ou no), destacando o tempo que permaneceu em cada um. Posteriormente, estas ocupaes devero ser descritas para obter as informaes discriminadas abaixo. A prtica clnica orientar o grau de detalhamento adequado e necessrio em cada caso. Identificao da atividade/local de trabalho/ empregador/ empresa empregadora atual Informar onde trabalha o paciente (empresa ou local). Caso o paciente tenha um emprego formal, informar: razo social, ramo de atividade, nmero de empregados, endereo, telefone e pessoal para contato, mdico do trabalho. a. Descrio do Processo Produtivo: matrias primas, subprodutos e produtos finais; etapas do processo produtivo (fluxograma) e atividades paralelas o processo de trabalho prescrito x o real b. Descrio da Funo: O que faz: substncias, objeto de trabalho; Com o que faz: instrumentos e equipamentos de trabalho; Como faz: operaes realizadas, posturas adotadas, grupos msculo-tendinosos e movimentos demandados pela tarefa; Quanto faz: ritmo de trabalho, produtividade; Lay-out do posto de trabalho e suas interrelaes com outras reas vizinhas;

Obs.: Atente-se para a possibilidade de que o trabalhador exera mais de uma funo na empresa, substituindo colegas, por exemplo, situaes estas que tambm devero ser descritas. Descrio das condies ambientais de trabalho: Descrio dos riscos fsicos, qumicos, biolgicos, ergonmicos, de acidentes: fontes, intensidade, freqncia, medidas de proteo coletiva e individual - adequao e eficcia c. Organizao do Trabalho: Tipo de trabalho: empregado pblico ou privado (tempo indeterminado ou temporrio), domstico, conta-prpria (permanente ou eventual), terceirizado, tempo parcial, etc Salrio/Renda (em mltiplos do salrio mnimo) Jornada: horrio dirio e semanal, turnos, folgas, pausas, horasextras; Frias; Diviso do trabalho; forma em que o trabalho se organiza, qualificao da tarefa exercida Grau de controle do trabalhador sobre o modo operatrio e o ritmo de trabalho; Mecanismos de controle: hierarquia, prmios, promoes, sanes, competitividade, outras formas de gesto; Absentesmo, dispensa, rotatividade. d. Ateno Sade e Dados Epidemiolgicos: formas de acesso assistncia mdica formas de acesso informao sobre sade, doena, riscos ocupacionais e preveno realizao, contedo e resultado dos exames mdicos admissionais, peridicos, de retorno ao trabalho, de mudana de funo e demissionais. Informaes sobre a situao de sade dos colegas de trabalho, ocorrncia de queixas semelhantes s do paciente, rastreamentos e/ou inquritos epidemiolgicos e ambientais realizados e. Relao com o ambiente uso de recursos naturais

gerao de poluentes do solo, da gua ou do ar: Tratamento e destinao 6. Anamnese Especial (A.E.) O levantamento da Histria Ocupacional permite ao profissional de sade identificar os riscos ocupacionais a que o paciente esteve exposto, bem como o tempo de exposio a eles. O conhecimento das patologias ocupacionais deve ser utilizado na coleta da anamnese especial, dirigindo o Interrogatrio sobre cada sistema/aparelho para sinais e sintomas possveis de ocorrer, face ao perfil de riscos. 7. Histria Pregressa (H.P.) Valorizar o interrogatrio dirigido s patologias e condies que aumentam a susceptibilidade aos riscos ocupacionais detectados; Verificar se h relatos de Acidentes do Trabalho, notificados ou no Verificar se h relatos de quadros clnicos mal esclarecidos poca em que ocorreram e que poderiam estar relacionados a patologias ocupacionais 8. Histria Familiar (H.F.) Estado de sade dos familiares; Ocorrncia de doenas heredo-familiares: tipo, evoluo e grau de parentesco com o paciente. 9. Histria Social Escolaridade; Habitao e meio-ambiente: saneamento; lixo; exposio da famlia a contaminantes da gua, solo e ar Participao social: grupos comunitrios, grupos de trabalhadores, sindicatos, associaes, partidos, etc. 10. Exame Fsico Ectoscopia; Dados vitais; Exame de cada aparelho. 11. Relao de Problemas

Listar os sinais/sintomas detectados em toda a anamnese e exame fsico, descrevendo suas caractersticas principais e agrupando-os por sistema ou por sndrome, conforme o raciocnio clnico. 12. Relao de Riscos Ocupacionais Listar os riscos ocupacionais detectados durante a Anamnese Ocupacional, destacando os tempos de exposio a cada um deles e sua possvel interrelao (potenciao, sinergismo, etc.). 13. Hipteses Diagnsticas (H.D.) A partir do raciocnio clnico, tecer as hipteses diagnsticas adequadas aos problemas e riscos detectados e os diagnsticos diferenciais cabveis. Mesmo quando no existir quadro clnico evidente, a exposio significativa a um risco ocupacional obriga suspeita e investigao da patologia correspondente. 14. Conduta Complementao de informaes: estudo bibliogrfico, visita ao local d