solsticio de inverno - rosamunde pilcher

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Solstcio de Inverno.ROSAMUNDE PILCHER.2001. Gnero: romance. Digitalizao e correo: Dores Cunha. Estado da Obra: Corrigida. Traduo de MARIA LUISA SANTOS HDIFEL

AGRADECIMENTOSNo decorrer da escrita deste livro, houve alturas em que a minha falta de conhecimentos em determinadas reas desencadeou em mim um bloqueamento srio. Da que no possa deixar de agradecer a quantos me prodigalizaram o seu tempo e a sua sabedoria, ajudando-me a continuar. A Willie Thomson, que me ps em contacto com James Sugden, da Johnston de Elgin, dando origem, deste modo, a todo o processo. A James Sugden, por partilhar comigo os seus vastos conhecimentos e experincia do mundo da indstria dos lanifcios. A David Tweedie, meu vizinho, pelo seu aconselhamento jurdico. A David Anstice, o dockman de Perthshire. Ao reverendo Dr. James Simpson, pelo seu interesse constante e sbia o ientao. Por fim, a Robin, que pagou uma dvida, arrancando a me de um buraco literrio.

Elfrida Phipps, antes de abandonar Londres para sempre e ir viver para o campo, foi at ao canil de Batters sea e saiu de l com uma companhia canina. Foi preciso uma boa meia hora e o corao dilacerado para o encontrar, mas mal o viu, sentado muito perto das grades da sua box, a olhar para cima com os seus enternecedores olhos escuros, percebeu que teria de ser aquele. No queria um animal muito grande nem um cozinho de regao, irritadio e nervoso. Aquele tinha, exatamente, o tamanho ideal. Tamanho de co. Tinha o plo abundante e macio, parte do qual lhe caa sobre os olhos e as orelhas, que conseguia levantar e baixar, e uma cauda que era uma pluma triunfante. A pelagem era s manchas irregulares de castanho e branco. As partes castanhas eram exatamente cor de caf com leite. Quando quis inteirar-se dos seus progenitores, a responsvel do canil disselhe que achava que descendia de um cruzamento de collie com vrias outras raas. Elfrida no se importou com o fato. Adorava a expresso que via no focinho meigo. Deixou um donativo para o canil de Battersea e depois meteu-se no seu velho carro com o novo companheiro, que foi sentado no lugar do passageiro a olhar pela janela com ar deliciado, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida. No dia seguinte, levou-o a um salo de beleza para candeos da sua zona, onde o tosquiaram, banharam e secaram. Voltou para ela fofo, lavadinho e a cheirar agradavelmente a limo. A sua reao a toda esta ateno privilegiada saldou-se numa profusa demonstrao de fidelidade, gratido e dedicao. Era um co tmido, at mesmo acanhado, porm, corajoso. Se tocavam campainha ou ele se dava conta de algum intruso, ladrava furiosamente por instantes, mas depois retirava-se para o seu cesto ou para o colo de Elfrida. Elfrida precisou de algum tempo para se decidir pelo nome a dar-lhe; por fim batizou-o de Horace. Elfrida, de cesto numa das mos e a trela de Horace firmemente presa na outra, saiu de casa, fechou a porta atrs de si e, depois de

percorrer o carreiro e passar o porto, seguiu pelo passeio, em direo aos Correios e ao Armazm Geral. Estava-se numa melanclica e cinzenta tarde de meados de Outubro, onde nada de importante parecia acontecer. As rvores largavam as suas ltimas folhas outonais; o vento era to glido que nem o jardineiro mais abnegado se atrevia a cirandar por ali; a rua estava deserta e as crianas ainda no tinham sado da escola. No alto, o cu mostrava-se carregado de nuvens baixas que passavam incessantemente sem, no entanto, o deixarem clarear. Caminhava com rapidez, com Horace a trotar relutantemente junto aos seus calcanhares, ciente de que era o seu exerccio do dia e que no lhe restava alternativa seno aproveit-lo o melhor possvel. Elfrida fora viver para aquela aldeia, chamada Dibton, que ficava em Hampshire, dezoito meses antes, deixando Londres para sempre e organizando ali a sua nova vida. No incio sentira-se algo solitria, mas naquele momento no se imaginava capaz de viver noutro stio qualquer. De vez em quando, velhas amizades dos seus tempos no teatro realizavam a intrpida viagem da cidade at ali para passarem uns dias com ela, dormindo no div cheio de protuberncias do minsculo quarto dos fundos, onde tinha a sua mquina de costura e ganhava uns trocos a fazer lindas e requintadas almofadas para uma loja de decorao de interiores na Sloane Street. Quando esses amigos voltavam a partir, sentiam necessidade de se certificar de que ela ficava bem: Ficas bem, no ficas, Elfrida?, No te arrependeste? No queres voltar para Londres? s feliz?, e ela conseguia tranqiliz-los respondendo-lhes: Claro que estou. Este o meu retiro geritrico. Passarei aqui o crepsculo dos meus anos. De modo que, naquele momento, j se sentia completamente vontade no seu novo ambiente. Sabia quem morava nesta casa ou naquela vivenda, as pessoas tratavam-na pelo seu nome. Bons dias, Elfrida, ou Lindo dia, Mistress Phipps. Alguns dos habitantes eram famlias em que o dono da casa trabalhava em Londres e partia para a cidade no primeiro comboio rpido da

manh, regressando depois ao fim da tarde para pegar no seu carro e percorrer a curta distncia at casa. Outros tinham vivido ali toda a vida, em pequenas casas de pedra herdadas de pais e avs. Outros, ainda, eram completamente novos na terra, moravam nas aldeias do conselho, volta da vila, e trabalhavam na fbrica de eletrnica que ficava na cidade vizinha. Era tudo muito trivial e at descontrado, precisamente aquilo de que Elfrida necessitava. No caminho, passou em frente do pub, que fora remodelado e era agora conhecido por Cocheira de Dibton. Tinha letreiros em ferro forjado e um amplo espao para estacionamento de automveis. Mais adiante, passou pela igreja com os seus teixos, o porto coberto entrada e o quadro cheio de papis esvoaantes com notcias da parquia: um concerto de guitarra, um passeio para um grupo de mes e crianas pequenas. No ptio da igreja, um homem acendia uma fogueira, e no ar pairava o cheiro adocicado das folhas a queimar. No alto, gralhas crocitavam. Num dos pilares do porto da igreja estava um gato sentado, mas, felizmente, Horace no deu por ele. A rua curvava na ponta, passando em frente da discreta vivenda do novo pastor, e a seguir aparecia a loja da vila, com bandeiras esvoaantes a anunciar gelados e mostrurios de jornais encostados parede. entrada estavam dois ou trs jovens de bicicleta, e o carteiro, com a sua carrinha vermelha, esvaziava o marco do correio. A montra do estabelecimento tinha grades que impediam os vndalos de partir os vidros e de roubar as latas de biscoitos e os arranjos de feijes cozidos que Mrs. Jennings considerava uma decorao requintada. Elfrida pousou o seu cesto, amarrou a ponta da trela a uma das barras de ferro e Horace sentou-se, resignado. Detestava que o deixassem na rua, merc da rapaziada escarninha, mas Mrs. Jennings no gostava de ces no seu estabelecimento. Dizia que alavam a perna e faziam porcaria. O interior da loja, de tetos baixos, tinha muita luz e estava muito quente. Frigorficos e arcas congeladoras zuniam, a iluminao era fornecida por fiadas de lmpadas fosforescentes e o conjunto de

expositores fora montado meses antes, um grande melhoramento que, segundo Mrs. Jennings, conferia casa o estatuto de minimercado. Todas estas barreiras j no permitiam descortinar, primeira vista, quem se encontrava na loja ou no, e s depois de Elfrida passar um expositor (Cafs e Chs Instantneos) que viu as costas conhecidas de algum a pagar a sua conta junto da caixa registradora. Tratava-se de Oscar Blundell. Elfrida j no tinha idade para ficar com o corao aos pulos de emoo, mas gostava sempre muito de ver Oscar. Ele fora praticamente a primeira pessoa que conhecera quando fora viver para Dibton, pois, certo domingo de manh, ao ir igreja, o pastor viera falar com ela entrada, depois da missa, com o cabelo todo no ar devido fresca brisa primaveril e a batina branca a adejar que nem roupa estendida numa corda. Dirigira-lhe palavras gentis de acolhimento, fizera algumas referncias superficiais sobre o fabrico de flores e o Instituto Feminino e depois, misericordiosamente, a sua ateno fora desviada. E aqui est o nosso organista, Oscar Blundell. No o organista habitual, sabe, mas uma esplndida roda sobresselente em tempos de necessidade. Foi ento que Elfrida se voltou e viu aproximar-se um homem que emergiu da obscuridade reinante no interior da igreja para o meio da luz do Sol. Reparou no rosto brando e divertido, nos olhos encapuados, no cabelo que em tempos devia ter sido louro, mas se tornara completamente branco. Era to alto como Elfrida, o que fugia ao habitual. Esta era, normalmente, mais alta do que a maioria dos homens, com um metro e oitenta, e esguia como um canio, no entanto olhou Oscar nos olhos e gostou do que viu. Como era domingo, vestia um fato de tweed com uma gravata a condizer, e ao trocarem um aperto de mo, o seu toque foi firmemente agradvel. Elfrida observou: Acho formidvel. Refiro-me ao fato de saber tocar rgo. o seu passatempo? Ele replicou, com ar muito srio:

No, trata-se do meu trabalho. Da minha vida. A seguir sorriu, o que retirou toda a pomposidade s suas palavras. Melhor dizendo, da minha profisso emendou. Um dia ou dois mais tarde, Elfrida recebeu um telefonema. Viva, daqui fala Gloria Blundell. Conheceu o meu marido neste ltimo domingo, na igreja. O organista. Venha jantar conosco na tera-feira. Sabe onde moramos. Na Granja. A casa com torrees em tijoleira, ao fundo da vila. muita gentileza sua. Adoraria. Que tal vo as mudanas? Lentas. Esplndido. Ento, at tera. Por volta das sete e meia. Muito obrigada. Mas o auscultador na outra ponta da linha j fora pousado. Ao que parecia, Mrs. Blundell era uma mulher que no tinha tempo a perder. A Granja era a maior casa de Dibton, cuja entrada era feita atravs de uns portes enormes e pretensiosos que se erguiam ao cimo de um caminho. Nada daquilo parecia condizer muito com Oscar Blundell, mas seria interessante ir, conhecer a sua mulher e a sua casa. Nunca se consegue s