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    CONTRIBUTIONS OF RHETORICAL STRUCTURE THEORY TO THE TEACHINGOF READING AND TEXT COMPREHENSION IN SCHOOL

    Juliano Desiderato ANTONIO *

    Resumo: Este trabalho tem como objetivo argumentar a favor daimportncia de um trabalho em sala de aula que leve os alunos a refletirsobre as proposies implcitas que emergem tanto da combinaoentre oraes quanto da combinao entre pores maiores de umtexto. Partindo dos pressupostos tericos da RST, analisam-se doistextos tendo como escopo as relaes retricas cuja compreenso indispensvel para o estabelecimento da coerncia do texto. Nasequncia, propem-se algumas atividades de reflexo sobre o textoque tm por objetivo levar o aluno ao reconhecimento das relaesretricas.Palavras-chave: Estrutura retrica; RST; Coerncia;

    Abstract: The aim of this paper is to stress the importance of readingand text comprehension activities in school that focus on the recognitionof implicit propositions which emerge both in clause combining andin the combining of text spams which are larger than clauses. Twotexts are analysed based on the rhetorical relations that hold theircoherence. Some activities are proposed for these texts in order tomotivate students to reflect about and recognize these rhetorical relations.Key-words: Rhetorical structure; RST; Coherence.

    * Doutor em Lingustica e Lngua Portuguesa pela UNESP-Araraquara (2004).Atualmente docente da Universidade Estadual de Maring. Contato:jdantonio@uem.br.

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    Introduo

    A leitura e a compreenso de textos escritos e de textos oraisdepende, dentre outros fatores, do reconhecimento de relaesimplcitas que so estabelecidas entre as partes do texto. Essas inferncias,chamadas proposies relacionais (MANN & THOMPSON, 1983),permeiam todo o texto, desde as pores maiores at as relaesestabelecidas entre duas oraes e ajudam a dar coerncia ao texto,conferindo unidade e permitindo que o produtor atinja seus propsitoscom o texto que produziu.

    Um tratamento adequado a essa questo das proposiesrelacionais oferecido pela RST (Rhetorical Structure Theory Teoria daEstrutura Retrica do Texto), uma teoria descritiva que tem por objetoo estudo da organizao dos textos, caracterizando as relaes que seestabelecem entre as partes do texto (MANN & THOMPSON, 1988;MATTHIESSEN & THOMPSON, 1988; MANN, MATTHIESSEN& THOMPSON, 1992). A RST parte do princpio de que as relaesretricas que se estabelecem no nvel discursivo organizam desde acoerncia dos textos at a combinao entre oraes (MATTHIESSEN& THOMPSON, 1988).

    Ao tratar das relaes retricas tanto no nvel discursivo quantono nvel gramatical (combinao entre oraes), a RST demonstra suafiliao Lingustica Funcional, um grupo de teorias que consideramessencial para o estudo da lngua a funo dos elementos lingusticosna comunicao (BUTLER, 2003; NEVES, 1997; NICHOLS, 1984).Mais especificamente, a RST foi desenvolvida no mbito de outrasduas teorias funcionalistas: a Gramtica Sistmico-Funcional de Hallidaye o Funcionalismo da Costa-Oeste dos Estados Unidos (ANTONIO,2009).

    Na viso funcionalista, a comunicao no se d por meio defrases, mas sim por meio do discurso multiproposicional, organizadoem estruturas que reconhecemos como caracterizando conversaes,palestras, encontros de comits, cartas formais e informais dentreoutras (BUTLER, 2003, p. 28, traduo nossa). Alm disso, os chamadoscomponentes gramaticais da lngua (regras fonolgicas, morfolgicas,sintticas e semnticas) so considerados instrumentais em relao sregras de uso das expresses lingusticas (DIK, 1989), uma vez que o

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    correlato psicolgico de uma teoria funcionalista a competnciacomunicativa do falante (DIK, 1989), termo utilizado por Hymes (1987)para se referir capacidade que o falante tem no apenas de produzirenunciados gramaticalmente corretos, mas tambm adequados situao comunicativa.

    Neste artigo, pretende-se argumentar a favor de um trabalhoescolar com a gramtica que leve o aluno a refletir sobre as relaesque se estabelecem entre partes do texto e entre oraes. Inicialmente,sero apresentados alguns pressupostos bsicos do Funcionalismo eda RST. Na sequncia, sero apresentadas propostas de anlise de textosa partir da metodologia da RST com atividades passveis de seremdesenvolvidas em sala de aula.

    1 Pressuspostos bsicos do Funcionalismo

    Na viso funcionalista, o objetivo do estudo da gramtica explicar as funes dos meios lingusticos de expresso, ou seja, explicarcomo os falantes usam a lngua para se comunicar com xito (IVIR,1987). A Gramtica Sistmico-Funcional de Halliday (1985), porexemplo, relaciona as metafunes da linguagem (diferentes modosde sentido construdos pela gramtica MATTHIESSEN &HALLIDAY, 1997, p. 10) a sistemas gramaticais pelos quais essasmetafunes so realizadas linguisticamente. As metafunesapresentadas por Halliday so a ideacional e a interpessoal, que estorelacionadas a fenmenos externos lngua, e a textual, que intrnseca lngua.

    A metafuno ideacional diz respeito aos recursos gramaticaisutilizados para construir tanto as experincias interiores do falante quantoas experincias com o mundo ao seu redor. O sistema de transitividade um dos principais recursos lingusticos utilizados para a realizaodessa metafuno. Cada experincia do falante construda a partirde uma configurao que consiste de um processo (verbo), dosparticipantes desse processo (argumentos) e das circunstncias relativasao processo.

    A metafuno interpessoal est relacionada aos recursosgramaticais utilizados pelo falante para interagir com seus interlocutores,assumindo papis sociais e papis que dizem respeito situao

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    comunicativa. O sistema de modo uma das principais formas derealizao dessa metafuno, disponibilizando ao falante estratgiassemnticas tais como adulao, persuaso, seduo, pedido, requisio,sugesto, afirmao, insistncia, dvida etc.

    Por fim, a metafuno textual trata da apresentao do contedointerpessoal e ideacional na forma de informaes que podem sercompartilhadas pelo falante e por seus interlocutores em textosadequados situao de uso. Por meio da funo ideacional, pode-secriar um referente mental dos argumentos que podem participar deum determinado processo, pode-se ter idia dos papis assumidospelo falante e por seus interlocutores (quem d ordens, quem recebeconselhos, quem faz pedidos, quem autoriza etc), mas a funo textualque instrumentaliza a apresentao desses contedos por meio deestratgias que permitem ao falante guiar seu(s) interlocutor(es) nainterpretao do texto.

    Assim, pode-se observar a relevncia da gramtica para aconstruo dos sentidos do texto. Para Halliday (1985), uma anlisetextual que no leva em conta a gramtica com a qual esse texto foiconstrudo representa simples comentrios sobre o texto. Embora otexto seja uma unidade semntica, os sentidos so realizados por meiode expresses lingusticas, o que torna relevante a incluso da anlisedos elementos gramaticais na anlise de um texto. Ainda segundo olinguista britnico (1985), a anlise lingustica tem duas finalidades nonvel textual: (i) permite que se explique como e por que o texto diz oque diz; (ii) permite que se explique por que um texto produz ou noos resultados pretendidos por seu produtor, uma vez que leva emconta como as expresses lingusticas de um texto se relacionam comseu contexto, incluindo as intenes de quem est envolvido na produodo texto.

    A relao entre discurso e gramtica tambm est presente nostrabalhos dos pesquisadores que compem o grupo funcionalista daCosta-Oeste. Um bom exemplo que caracteriza essa preocupao apesquisa de Hopper & Thompson (1980) a respeito da transitividadena gramtica e no discurso. Ao contrrio da viso tradicional, queconsidera a transitividade uma propriedade categrica do verbo, paraesses autores a transitividade uma noo escalar, contnua, baseadaem 10 parmetros que permitem verificar a eficincia e a intensidade

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    com que uma ao transferida de um participante para outro. Assim,uma orao no transitiva ou intransitiva, mas, dependendo no nmerode parmetros de alta ou baixa transitividade, uma orao temtransitividade mais alta do que outra orao. Em sua pesquisa, Hopper& Thompson (1980) verificaram que a transitividade exerce funodiscursiva. Oraes com transitividade alta geralmente compem aestrutura bsica do texto, chamada figura. Por outro lado, oraes comtransitividade baixa compem o fundo, partes do texto que trazeminformaes que subsidiam a compreenso da figura.

    As observaes a respeito da Gramtica Sistmico-Funcionalde Halliday e as consideraes a respeito da anlise da transitividade naperspectiva do Funcionalismo da Costa-Oeste vo ao encontro daposio de Votre e Naro (1989), que propem uma anlise lingusticano discurso, e no do discurso.

    2 A Teoria da Estrutura Retrica do Texto (RST)

    Como j foi dito anteriormente, a RST tem por objeto de estudoa organizao dos textos, descrevendo as relaes que se estabelecementre as partes do texto. O pressuposto bsico da RST que, alm docontedo proposicional explcito veiculado pelas oraes