universidade federal de juiz de fora pós-graduação...

of 61/61
Universidade Federal de Juiz de Fora Pós-Graduação em Ciência da Religião Mestrado em Ciência da Religião Fernanda de Araújo Melo AS CIFRAS DA TRANSCENDÊNCIA NA FILOSOFIA DE KARL JASPERS Juiz de Fora 2009

Post on 18-Sep-2018

214 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Universidade Federal de Juiz de Fora

    Ps-Graduao em Cincia da Religio

    Mestrado em Cincia da Religio

    Fernanda de Arajo Melo

    AS CIFRAS DA TRANSCENDNCIA NA FILOSOFIA DE KARL JASPERS

    Juiz de Fora

    2009

  • Livros Grtis

    http://www.livrosgratis.com.br

    Milhares de livros grtis para download.

  • Fernanda de Arajo Melo

    As cifras da transcendncia na filosofia de Karl Jaspers

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps Graduao em Cincia da Religio, rea de concentrao: Filosofia da Religio, da Universidade Federal de Juiz de Fora como requisito parcial obteno de grau de Mestre.

    Orientador: Prof. Dr.Lus Henrique Dreher

    Juiz de Fora

    2009

  • Fernanda de Arajo Melo

    As cifras da transcendncia na filosofia de Karl Jaspers

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps Graduao em Cincia da Religio, rea de Concentrao em Filosofia da Religio, do Instituto de Cincias Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora como requisito parcial obteno de ttulo de mestre em Cincia da Religio.

    Aprovada em 18 de agosto de 2009

    BANCA EXAMINADORA

    ___________________________________________________

    Prof. Dr.Lus Henrique Dreher Orientador Universidade Federal de Juiz de Fora

    ___________________________________________________

    Prof. Dr. Eduardo Gross Universidade Federal de Juiz de Fora

    ___________________________________________________

    Prof. Dr. Gerson Brea Universidade de Braslia

  • minha maior inspirao Maria Flor

  • Criando todas as coisas, ele entrou em tudo. Entrando em todas as coisas, tornou-se o que tem forma e o que informe; tornou-se o que pode ser definido; e o que no pode ser definido; tornou-se o que tem apoio e o que no tem apoio; tornou-se o que grosseiro e o que sutil. Tornou-se toda espcie de coisas: por isso os sbios chamam-no o que real. (Brihadranyaka Upanishad)

  • AGRADECIMENTOS

    Ao meu orientador pela oportunidade de crescimento acadmico e pessoal, pelo incentivo que

    foi determinante nesse processo, pelas palavras esclarecedoras e, sobretudo, pela compreenso

    das minhas limitaes.

    A minha me que me ensinou, com sua sabedoria adquirida em lugares outros, o que Jaspers

    me mostrou em sua filosofia: a capacidade inerente ao ser humano de superar-se no

    confronto com situaes-limite. E ao meu pai pelo apoio e incentivo incondicional.

    Aos amigos que, com grandiosos gestos, me incentivaram e me apoiaram.

    A todos aqueles que indiretamente, mas efetivamente me ajudaram nessa travessia.

    A Universidade Federal de Juiz de Fora.

    Ao rgo financiador do projeto, CAPES.

  • RESUMO

    Esta pesquisa tem por objetivo principal obter uma compreenso das cifras da transcendncia

    no pensamento de Karl Jaspers. Contudo, essa investigao mostra-se determinante para se

    pensar tambm em que medida a sua filosofia da existncia poderia ser chamada de filosofia

    da transcendncia. Pode-se dizer que a reflexo que o nosso autor estabelece em torno da

    existncia humana possibilita a abertura para a transcendncia no momento em que vincula a

    existncia ao horizonte do fracasso e da sua conseqente superao. Perceba que no embate

    com essas situaes-limite que se d o ocorrer da transcendncia na forma de sinais

    cifrados. Isso evidencia, portanto, que o percurso estabelecido por Jaspers em sua

    fundamentao da especificidade da condio humana culmina no mbito da transcendncia.

    Sob esta ocular, quer-se crer que esta pesquisa contribui, efetivamente, para se pensar como

    Jaspers estabelece a relao entre a existncia e a transcendncia, e, indo mais alm, como se

    fundamenta o estatuto de sua filosofia da transcendncia.

    Palavras-chave: Existncia (Existenz. O envolvente (das Umgreifende). Transcendncia

    (Transzendenz). Cifras ( Chiffren).

  • ABSTRACT

    This thesis aims at understanding the ciphers of transcendence in Karl Jaspers thought. We

    believe, however, that this investigation can be decisive to think how his philosophy of

    existence could also be called a philosophy of transcendence. We could say that the reflection

    that our author establishes around human existence makes possible an opening for

    transcendence when he connects existence to the horizon at failure and its consequent

    overcoming. One can observe it is in the confrontation with these extreme moments that

    transcendence occurs through ciphered signs. Therefore, that the way established by Jaspers

    in his grounding of the specific human condition ends up, in a decisive manner, in a sphere of

    transcendence. Under this aspect, we think this research contributes to understand how

    Jaspers establishes the connection between existence and transcendence and, furthermore,

    how he construes thes statute of his philosophy of transcendence.

    Keywords: Existence. The Encompassing. Transcendence. Ciphers.

  • SUMRIO

    INTRODUO .............................................................................................................. 1

    CAPTULO 1: A FILOSOFIA DA EXISTNCIA DE KARL JASPERS................ 8

    1.1 Existenzphilosophie ............................................................................................. 8

    1.2 Existenz e Dasein............................................................................................... 12

    1.3 O Esclarecimento da Existncia ........................................................................ 15

    CAPTULO 2 A TRANSCENDNCIA NO PENSAMENTO JASPERIANO.... 18

    2.1 O envolvente...................................................................................................... 18

    2.2 Os modos do envolvente ................................................................................... 20

    2.3 As situaes-limite ............................................................................................ 24

    2.4 O significado de transcendncia ........................................................................ 27

    CAPTULO 3 AS CIFRAS DA TRANSCENDNCIA ......................................... 32

    3.1 O contedo das cifras ........................................................................................ 32

    3.2 A estrutura das cifras ......................................................................................... 36

    3.3 Linguagem cifradas da transcendncia............................................................... 40

    CONCLUSO............................................................................................................... 44

    REFERNCIAS ........................................................................................................... 47

  • INTRODUO

    A presente pesquisa tem como objetivo investigar as cifras da transcendncia a partir

    dos escritos de Karl Jaspers que, como tema de sua filosofia, privilegia a existncia humana.

    Na viso do filsofo, somente a existncia situada na transcendncia poder almejar decifrar

    os sinais cifrados da transcendncia. Assumimos, portanto, como marco terico de nossa

    investigao a filosofia da existncia de Jaspers, que se encontra expressa principalmente nas

    seguintes obras: Filosofia da existncia, Iniciao filosfica, Introduo ao pensamento

    filosfico, Razo e contra razo no nosso tempo e, de forma introdutria, na obra Psicologia

    das concepes do mundo1.

    Estabelecemos tambm um dilogo determinante com as suas obras posteriores, que

    caracterizam, por assim dizer, um outro momento da sua produo filosfica por tratarem

    prioritariamente dos elementos relacionados com a transcendncia. So elas: A f filosfica

    diante da revelao, Cifras da transcendncia e A f filosfica2. Esta ltima obra reproduz na

    ntegra o manuscrito que serviu de base para Jaspers nas conferncias que pronunciou na

    Universidade de Basilia em julho de 1947 a pedido da Fundao Acadmica Livre e da

    Faculdade de Histria e de Filosofia. , pois, a partir do confronto com esse referencial

    terico que buscaremos alcanar uma compreenso das cifras da transcendncia na filosofia

    de Karl Jaspers.

    Contudo, importante salientar que partimos do pressuposto de que a sua filosofia se

    desenvolve em trs etapas inter-dependentes: a orientao no mundo, o esclarecimento da

    existncia e a transcendncia. Estas etapas no esto claramente delimitadas no interior da sua

    filosofia, porm, possvel vislumbrar que a sua investigao em torno da existncia humana

    avana sobre essas trs dimenses. Tal desdobramento se evidencia, principalmente, na

    medida em que Jaspers investiga o homem sob duas oculares distintas, mas complementares:

    como existente emprico e como existncia possvel. No primeiro caso, pauta-se na anlise do

    homem enquanto objeto no mundo. Com isso, tece o primeiro momento de sua investigao

    filosfica, a saber, o conhecimento da existncia humana enquanto presena objetiva no

    1 JASPERS, Karl. Existenzphilosophie. Berlim: de Gruyter, 1938; Einfhrung in die Philosophie. Zurich: Piper, 1950; Kleine schule des philosophischen denkens. Mnchen: Piper, 1965; Vernunft und Existenz. Groningen: Wolters, 1935; Psychologie der Weltanschauungen. Berlin: Springer, 1919. 2 JASPERS, Karl. Der philosophische Glaube angesichts der christlichen Offenbarung. Munich: Piper, 1962; Chiffren der Transzendenz, 1961; Der philosophische Glaube, 1947.

  • 2

    mundo.

    O segundo momento de sua investigao filosfica apresenta como eixo fundamental

    o esclarecimento da existncia possvel. Nesse nvel, procurar analisar aquela existncia que

    subjetividade nica, particular e, assim, irredutvel a generalidades e conceitos universais.

    Como pontua o filsofo na seguinte passagem do texto Balance y perspectiva: No filosofar,

    a existncia no uma espcie de um determinado ser emprico entre outros seres empricos,

    mas, antes, se esclarece a si mesma como um ser nico, aberto a tudo, como a suma

    possibilidade (JASPERS, 1953, p.266)3. Dessa forma, afirma a importncia de pensar a

    existncia humana no somente enquanto objeto no mundo, mas tambm enquanto existncia

    possvel.

    De forma seqencial e, no por acaso, estabelece a terceira etapa de sua investigao,

    que se pauta na relao entre a existncia possvel e a transcendncia. O momento oportuno

    porque somente para a existncia aberta para as diversas possibilidades de ser no mundo se d

    o ocorrer da transcendncia. Tal desdobramento permite, por sua vez, vislumbrar o caminho

    que Jaspers percorre de sua filosofia da existncia para a sua posterior filosofia da

    transcendncia.

    Entendemos que para esclarecer o mbito das cifras faz-se necessrio delimitar esta

    trs etapas. Ora, as cifras se estabelecem como intermedirias na relao entre a existncia e

    a transcendncia. Estabelecer, portanto, uma interpretao/compreenso das cifras pressupe

    o esclarecimento prvio do que vem a ser a existncia emprica, a existncia possvel e a

    transcendncia para Jaspers. , pois, com base nisso que estruturamos a ordem dos captulos

    dessa dissertao.

    Pretende-se pontuar no primeiro captulo como se estabelece a sua filosofia da

    existncia, ou seja, sob que base estrutura e quais as influncias que demarcaram a sua

    fundamentao terica. Com isso, busca-se tambm esclarecer os conceitos-chave que

    compem o pensamento existencial do filsofo. O segundo captulo trata-se dos elementos

    que compem a sua filosofia da transcendncia. Nesse momento, assumimos como ponto de

    partida o significado do envolvente e seus modos de manifestao. Esta investigao

    mostra-se decisiva para a devida compreenso da transcendncia.

    No tpico subseqente, busca-se delimitar as situaes que colocam o existente em

    confronto com as suas limitaes. Segundo Jaspers, assumir esse confronto, sem fugir e sem

    3 JASPERS, Karl. Balance y perspectiva: discursos y ensayos. In: Mi camino a la filosofia. Madrid: Revista de Ocidente, 1953. Traduo nossa.

  • 3

    negar, coloca o existente em condio de abertura para a transcendncia. Nesse cenrio,

    busca-se compreender em que sentido Jaspers fala de experincia da

    transcendncia(JASPERS, 1961, p.71)4. Interpretar e compreender as cifras constitui o

    objetivo central e captulo conclusivo dessa pesquisa.

    importante salientar que delimitar o mbito das cifras da transcendncia no

    pensamento jasperiano surgiu como um desafio, pois percebemos a necessidade de pensar

    algo que, por definio, no pode ser objetivado. Isso porque, na concepo de Jaspers, o

    carter existencial das cifras se perde na generalidade dos conceitos. Segundo ele,

    importante realizar um salto das consideraes e da apropriao do saber das cifras para

    uma possvel vivncia delas.

    Percebemos com isso que esclarecer as cifras da transcendncia requer, sobretudo,

    adentrar num processo de investigao que pressupe o seu aspecto existencial. Mas tal

    necessidade no seria situar na substncia mesma do pensamento filosfico jasperiano? Ora,

    uma das caractersticas singulares da concepo filosfica de Jaspers a convico de que a

    filosofia deve ter sempre uma referncia prxis. Porm, no se deve pensar numa prxis tal

    como a da cincia, que se concentra na aplicabilidade de conhecimentos e na sua conseqente

    utilizao tcnica. Segundo Jaspers, o pensamento filosfico que se baseia na prxis aquele

    que se realiza como uma ao interior, ou seja, como atividade do ser mesmo (JASPERS,

    1953, p. 253)5. Como explica na obra Balance y perspectiva:

    A filosofia j no era o conhecimento de uma imagem do mundo, tambm no era o conhecimento dos sistemas e das obras doutrinais da histria da filosofia. Para mim, a filosofia se desenvolve ao me deixar afetado, suspenso e perplexo pela vida mesma. O pensamento filosfico prxis, mas uma prxis peculiar (JASPERS, 1953, p.252)6.

    Isso mostra que a prxis filosfica encontra-se diretamente vinculada realizao de

    uma atividade interna do existente na busca pelo esclarecimento das coisas. Trata-se, portanto,

    de situar, adentrar, nas questes fundamentais que envolvem a existncia humana e

    estabelecer, frente a elas, as prprias concluses. O que possibilita, por sua vez, uma

    investigao que no se fixa num saber puramente formal das coisas. , pois, nesse sentido

    que devemos pensar numa vivncia das cifras: uma busca pelo esclarecimento das cifras,

    4 JASPERS, Karl. Filosofia de la existencia. Madrid: Aguilar, 1961. Traduo nossa. 5 JASPERS, Karl. Balance y perspectiva: discursos y ensayos. In: Mi camino a la filosofia. Madrid: Revista de Ocidente, 1953. Traduo nossa. 6 Ibid. Traduo nossa.

  • 4

    que requer, sobretudo, submeter-se a uma reflexo ativa e a um questionamento radical.

    Como salienta o nosso autor:

    Quando comea a refletir, o homem toma conscincia de que no dispe de certeza e nem de apoio. preciso que ns homens, tenhamos coragem, quando nos colocamos a refletir sem vendas nos olhos. Devemos avanar no escuro, de olhos abertos, proibindo-nos de renunciar ao pensamento (JASPERS, 1983, p.53)7.

    Diante disso, pode-se dizer que Jaspers, em sua investigao filosfica, no busca

    estabelecer uma definio universalmente vlida sobre as cifras, mas uma reflexo

    comprometida sobre o modo de relao do homem com a transcendncia. , pois, nesse

    caminho que procurar-se- delimitar os trs aspectos que compem aquilo que Jaspers chama

    de reino das cifras, a saber: a sua estrutura, o seu contedo e a sua linguagem. Acredita-se

    que com esses esclarecimentos o leitor ter subsdios para compreender, mediante uma

    reflexo ativa, a experincia da transcendncia.

    Nesse nvel, importa salientar que o filsofo investiga e analisa aquele mbito que

    remete a existncia transcendncia, sem pretender um saber funcional que tanto interessa

    e envolve o homem religioso, que aquele saber do homem religiosamente comprometido.

    Jaspers, efetivamente, pensa a experincia da transcendncia, mas desde uma perspectiva

    externa, ou seja, a partir de uma postura que lhe consente um distanciamento questionador de

    todo envolvimento preliminar. O que possibilita dizer que ele reivindica uma anlise crtica

    ao assumir uma postura questionadora sobre o que constitui a experincia da transcendncia.

    Com isso, cabe pontuar que o nosso autor busca elaborar e discutir como se d a

    relao entre o homem e a transcendncia, mais precisamente como cada existente, de forma

    particular, realiza o religamen correspondente experincia da transcendncia, sem,

    contudo, estabelecer um pensamento religioso. Nesse percurso, Jaspers evidencia a relao

    entre esferas distintas que a religio tambm permite instaurar, porm no reduz as suas

    investigaes a um modelo previamente fixado, situando-se, assim, no interior de uma nica

    perspectiva. Coloca-se, portanto, naquele horizonte aberto pela perspectiva do dilogo. Como

    ressalta:

    Se a religio fica excluda pela filosofia, ou ao contrrio, a filosofia pela religio, se se afirma o predomnio de uma sobre a outra com a pretenso de ser a nica instncia suprema, ento o homem deixa de estar aberto ao Ser e a suas possibilidades em favor de uma ocluso do conhecimento que se encerra em si mesmo (JASPERS, 1953, p.267)8.

    7 JASPERS, Karl. Introduo ao pensamento filosfico. 9.ed. So Paulo: Cultrix, 1983.

  • 5

    Isso mostra que, na concepo do filsofo, possvel pensar num dilogo entre

    filosofia e religio que, por sua vez, no significa a absoro de uma na outra. O

    comprometimento e a radicalidade com os quais o filsofo concebeu esse dilogo pode ser

    vislumbrado principalmente na obra A f filosfica diante da revelao. Nessa obra

    possvel observar que a sua investigao est intimamente marcada pela contnua busca de

    comunicao entre estas duas esferas. Como escreve: So dois mbitos distintos, mas que

    esto, de certa forma, interligados (JASPERS, 1968, p.8)9. Diante disso, torna-se

    interessante delimitar, a ttulo de esclarecimento, o percurso que Jaspers estabelece na

    referida obra para extrair, desta fecunda ambivalncia, temas e estmulos para a prpria

    investigao:

    1 - Em sua fundamentao em torno da possvel relao entre filosofia e religio, Jaspers

    afirma a necessidade de estabelecer, previamente, uma reflexo minuciosa sobre a histria da

    f revelada e da igreja, ressaltando seus contedos e sua forma de organizao. Observa-se,

    contudo, que seu objetivo central pensar o crculo conceitual que se fecha em torno da f

    revelada.

    2 Na segunda parte da obra, Jaspers procura delimitar as diferenas entre filosofia, teologia

    e cincia. Segundo ele, esta distino parece de maior importncia para o pensamento atual

    (JASPERS, 1968, p.24) 10.

    3 - A partir da estrutura a terceira parte da obra, onde estabelece aquilo que chama de saber

    filosfico fundamental, um saber que se vincula ao prprio existir. Pode-se dizer que com

    base nesse saber fundamental que Jaspers desenvolve os elementos que compem a sua

    filosofia da transcendncia.

    4 - No por acaso ele estabelece, de forma seqencial, a sua investigao sobre as cifras da

    transcendncia. Este exame se prolonga at a quinta parte da obra, onde analisa o significado

    existencial das cifras. Tal investigao se configura, de forma determinante, para se entender

    a relao do homem com a transcendncia.

    5 - Jaspers conclui com a questo proposta j no ttulo da obra, que a possvel relao entre

    f filosfica e f revelada. Segundo ele, se a f filosfica e a f revelada podem se encontrar

    sem se tornar uma mesma coisa, ento desejaria saber que posso favorecer esta possibilidade

    8JASPERS, Karl. Balance y perspectiva: discursos y ensayos. In: Mi camino a la filosofia. Madrid: Revista de Ocidente, 1953. Traduo nossa. 9 JASPERS, KARL. La fe filosfica ante la revelacin. Madrid: Editorial Gredos, 1968. Traduo nossa.

    10 JASPERS, KARL. La fe filosfica ante la revelacin. Madrid: Editorial Gredos, 1968. Traduo nossa.

  • 6

    (JASPERS, 1968, p.8)11. Entender o significado de f filosfica e como se coloca frente f

    revelada , pois, um dos objetivos de nossa pesquisa. Acreditamos que esse esclarecimento

    necessrio para se compreender como se d a interdependncia de abordagens que muitas

    vezes se tomaram por contraditrias e, tambm, pontuar como Jaspers pensa a experincia da

    transcendncia.

    Nesse percurso, importante destacar que as pesquisas que abordam

    prioritariamente a terceira etapa da filosofia jasperiana mostram-se pouco recorrentes.

    Acredita-se que a diversidade de suas idias no decorrer de sua atividade intelectual

    proporcionou e proporciona diversas discusses em torno, principalmente, da sua filosofia da

    existncia, de sua psicologia, de sua antropologia filosfica e filosofia poltica. Discusses

    nestas reas e sob estes pontos de vista so realizadas por importantes pensadores, tais como

    o italiano L. Pareyson, que estabelece na obra Karl Jaspers uma anlise significativa da

    filosofia jasperiana.

    Entre os estudiosos franceses, podemos destacar G. Marcel que oferece, entre outras

    abordagens, uma interpretao profunda do conceito situao-limite, expressa na obra

    Situation fondamentale et situation limites chez Karl Jaspers. Cabe destacar tambm as obras

    Lexistence daprs Karl Jaspers, escrita por J. Tonqudec; Karl Jaspers: thorie de la vrit,

    mtaphysique ds chiffres e foi philosophique, escrita por X. Tilliette e Karl Jaspers et la

    philosofhie de lexistence, por M. Dufrenne e P. Ricur, referncias indispensveis para

    qualquer pesquisa sobre o pensamento filosfico de Karl Jaspers.

    Outros importantes pensadores tambm se dedicaram ao estudo de elementos

    significativos da obra de Jaspers. Entre eles, cabe citar J. Hersch, que, por sua vez, criou na

    Sua uma Fundao Jaspers. Nos Estados Unidos, observa-se tambm um interesse

    crescente pela sua filosofia, que aumentou, principalmente, a partir da publicao em 1957 do

    volume The Philosophy of Karl Jaspers, da coleo Library of Living Philosophers e editada

    por P. A. Schilpp. Em 1980 foi inaugurada uma Jaspers Society of North America, que

    realiza todos os anos um congresso especializado sobre a filosofia jasperiana.

    Nesse horizonte que privilegia os elementos desenvolvidos no interior da sua

    filosofia da existncia, pode-se destacar tambm os trabalhos realizados por estudiosos

    brasileiros que, apesar de participarem de um cenrio ainda pouco expressivo no que tange ao

    estabelecimento de estudos filosficos sobre o pensamento jasperiano no Brasil, mostram

    que, efetivamente, a sua filosofia apresenta uma ampla possibilidade de interpretao, que

    11 JASPERS, KARL. La fe filosfica ante la revelacin. Madrid: Editorial Gredos, 1968. Traduo nossa.

  • 7

    permite, ao mesmo tempo, que seja sempre enriquecida, complementada e eventualmente

    reformulada.

    Entre eles, cabe citar os trabalhos realizados pelos professores Gerson Brea, que se

    concretizam principalmente a partir da obra Wahrheit in Kommunikation. Zum Ursprung der

    Existenzphilosophie bei Karl Jaspers, ainda sem traduo para a lngua portuguesa; e Jos

    Maurcio de Carvalho, com a obra Filosofia e psicologia, o pensamento fenomenolgico

    existencial de Karl Jaspers. O artigo escrito pela professora Antnia Cristina Perdigo,

    intitulada A filosofia da existncia de Karl Jaspers, mostra-se tambm determinante nesse

    cenrio.

    No que tange a sua filosofia da transcendncia, identificamos, em nmeros menos

    expressivos, trabalhos significativos, tais como o artigo escrito pelo pensador L. Puntel,

    intitulado Filosofia e religio em Karl Jaspers; G. Penzo tambm desenvolveu inmeros

    artigos analisando os elementos que compem a terceira etapa da sua filosofia. Cabe citar os

    artigos O divino como liberdade absoluta; Jesus como grande filsofo e o Cristo como

    cifra, referncias indispensveis para se entender os aspectos determinantes de sua filosofia

    da transcendncia. O artigo escrito por Mrio Curtis Giordani intitulado Jaspers, o filsofo da

    transcendncia indefinvel apresenta, por sua vez, uma anlise explicativa sobre o estatuto da

    sua filosofia da transcendncia. Outro pensador que se destaca nesta linha de pesquisa

    Andres Queiruga, que estabelece uma investigao sobre a f filosfica, a cincia e a religio

    no pensamento jasperiano, no artigo intitulado Karl Jaspers: La fe filosofica frente a la

    ciencia e a la religion.

    Com isso, quer-se mostrar que existem diversos temas relacionados com a filosofia

    da transcendncia de Karl Jaspers, que, por sua vez, proporcionam diferentes abordagens e

    interpretaes. , pois, diante desse cenrio que se busca delimitar e esclarecer os elementos

    chave de sua filosofia da transcendncia. Nosso objetivo levar o leitor a traar uma

    compreenso prpria dos sinais cifrados da transcendncia. Espera-se, com isso, contribuir de

    alguma forma para que a filosofia de Jaspers, e, com efeito, a sua filosofia da

    transcendncia, seja mais bem apreciada no Brasil, com todas as suas particularidades e

    implicaes.

  • CAPTULO 1: A FILOSOFIA DA EXISTNCIA DE KARL JASPERS

    1.1 Existenzphilosophie

    O objetivo principal desse captulo compreender como o autor investiga e analisa a

    existncia humana e quais so as particularidades de sua filosofia da existncia. Pode-se dizer,

    de forma introdutria, que Jaspers estrutura um campo de reflexo filosfica relacionada a

    todos os temas que giram em torno do homem e da condio humana como o so, por

    exemplo, a temporalidade, a liberdade, a finitude, o fracasso, a transcendncia. Contudo, em

    sua fundamentao terica, possvel vislumbrar elementos singulares que o diferenciam dos

    outros filsofos da existncia. Torna-se, portanto, relevante compreender a particularidade de

    sua filosofia. Acreditamos que, com isso, o leitor poder traar uma viso pontual dos

    pressupostos fundamentais que compem o seu pensamento.

    Cabe salientar que, entre os filsofos da existncia, o nico pensador que aceita o

    termo existencialismo para designar a sua filosofia Sartre. Com uma particularidade

    expressiva, Sartre afirma (1946, p.23-24) que existem dois tipos de pensadores

    existencialistas, aqueles de confisso catlica, entre eles inclui Karl Jaspers e Gabriel Marcel;

    e os existencialistas ateus: entre os quais h de incluir Heidegger, os existencialistas

    franceses e a mim prprio Acreditamos que existe uma diferena pontual entre esses

    pensadores, porm, no possvel dizer que Jaspers se enquadra naquilo que Sartre chama

    de confisso catlica.

    Como j foi delimitado anteriormente, Jaspers estabelece um dilogo com a esfera

    religiosa, especificamente com a tradio religiosa crist, o que no significa que seja de

    confisso catlica. possvel afirmar que o filsofo reconhece o valor e o significado da

    tradio crist, mas, com efeito, no estabelece uma identidade de contedo entre o seu

    pensamento filosfico e os pressupostos do catolicismo. Com isso, decisivo perceber que

    Jaspers preserva a relao de filosofia e religio como dois mbitos distintos, mas que podem

    eventualmente encontrar-se e relacionar-se. O que possibilita dizer que, se por um lado

    Jaspers no suprime a diferena, por outro reconhece a possibilidade de dilogo.

    No obstante, pode-se dizer que a especificidade do pensamento jasperiano, que o

    diferencia dos outros pensadores existencialista encontra-se, sobretudo, na convico de que a

    existncia humana apresenta um carter inconcluso e indeterminado, mas busca um

  • 9

    complemento, uma significao para alm da orientao no mundo. Segundo ele, a existncia

    no se apresenta fechada em si mesma, mas, antes, um projetar-se no sentido de

    impulsionar-se para algo. , pois, nesse contexto que Jaspers fala da transcendncia. Segundo

    ele, a transcendncia se estabelece na vida do existente na medida em que decide se projetar,

    ou seja, que se coloca em condio de abertura para a transcendncia. Como escreve: A

    capacidade de deciso da existncia significa poder-ser autenticamente diante da

    transcendncia, enquanto que a criao de si mesmo a partir do nada da arbitrariedade e da

    exatido geral se mostra de forma fantstica (JASPERS, 1968, p.114-114)12.

    Com base nisso, poderamos at dizer que a filosofia da existncia de Jaspers, com o

    mesmo direito, tambm poderia ser chamada de filosofia da transcendncia, j que sua

    investigao acerca da existncia caminha, de forma decisiva, para a dimenso da

    transcendncia. No obstante, importante fazer notar que a transcendncia, na filosofia

    jasperiana, ocorre somente no horizonte de mistrio: como algo que no se manifesta e no se

    revela em hiptese alguma. Por isso, no deve ser confundida, desde j, com uma

    personalidade qualquer ou com a idia crist de um Deus pessoal. Cabe, portanto, pensar

    numa transcendncia oculta, distante e parcialmente decifrvel.

    Perceber como Jaspers estabelece esse percurso torna-se, portanto, relevante para se

    obter uma chave de compreenso do seu pensamento filosfico. Com isso, procuraremos

    explicitar, a ttulo de esclarecimento, os meandros que levaram Jaspers a assumir esta postura

    filosfica. Qual a origem deste pensar? Sobre que base a edificou? Consideramos estes dois

    pontos importantes para que se possa perceber o germe das questes desenvolvidas no interior

    de suas obras.

    Pode-se dizer que a produo filosfica jasperiana ocorreu de forma tardia e se

    iniciou aps uma longa busca pelo esclarecimento cientfico da existncia humana. Jaspers,

    por acreditar que as questes prticas eram a sua verdadeira tarefa e a forma mais imediata de

    tratar a existncia humana, inicia os seus estudos na jurisprudncia. Porm, o curso no lhe

    causou uma boa impresso, como explica: o que vi nela foi apenas um complicado jogo

    intelectual com fices que no tinham nenhum interesse para mim (JASPERS, 1953,

    p.246)13.

    Diante desse descontentamento, abandona o curso de Direito e inicia o estudo de

    Medicina. Essa mudana se deve principalmente ao seu crescente interesse pela experincia

    12 JASPERS, KARL. La fe filosfica ante la revelacin. Madrid: Editorial Gredos, 1968. Traduo nossa. 13 JASPERS, Karl. Balance y perspectiva: discursos y ensayos. In: Mi camino a la filosofia. Madrid: Revista de Ocidente, 1953. Traduo nossa.

  • 10

    direta no trato com os homens. Segundo ele, o estudo da medicina oferecia as melhores

    possibilidades para conhecer a natureza e os homens (JASPERS, 1953, p.239)14.

    Com esse objetivo prtico, se dedica, portanto, medicina, mas com a inteno de

    terminar a Universidade seguindo uma carreira cientfica, no na filosofia, como salienta, mas

    na psicologia ou psiquiatria. Desses estudos posteriores, surgem suas investigaes

    psicopatolgicas, que constituem a obra Psicopatologia geral. Jaspers afirma, no texto

    Balance y perspectiva, que, de certa forma, sua psicologia j tratava de questes de carter

    intrinsecamente filosficas, como por exemplo, a busca pelo esclarecimento da existncia:

    Esta psicologia no se tratava somente do modo emprico de estabelecer leis de processos psquicos, mas tambm esboava todas as possibilidades da alma, que podem, por sua vez, mostrar ao homem, como um espelho, o que pode ser e o que pode alcanar. Tais ilustraes servem, sobretudo, como apelao liberdade, de modo que o sujeito possa eleger, numa ao interior, o que quer ser realmente (JASPERS, 1953, p.246-247)15.

    Isso mostra que seus estudos psicopatolgicos se estabelecem, de certa forma, como

    ponto de partida para a estruturao de seu pensamento filosfico posterior. Sobretudo no que

    tange ao reconhecimento do ser humano, no como um objeto fixo e determinado, mas, antes,

    como possibilidades de ser no mundo. Porm, cabe salientar que somente com o advento da

    Primeira Guerra Mundial em 1914, se estabelece uma ruptura na vida de Jaspers. Segundo

    ele, ao se deparar com a sua realidade e com a realidade de toda Europa dilacerada pela

    guerra, a filosofia, com toda sua profundidade, se faz, ento, mais preeminente na sua vida,

    principalmente na forma de reconhecimento da verdadeira condio humana. Como salienta:

    Quando percebi que nas Universidades no havia naquele tempo nenhuma filosofia que fosse verdadeira, me vi no direito de anunciar a filosofia, dizer o que era e o que poderia ser. Somente, ento, e j estava com quarenta anos, fiz da filosofia a tarefa da minha vida (JASPERS, 1953, p.247)16.

    Nesse contexto, possvel afirmar que a sua investigao filosfica inicia-se no

    incio do sculo XX e tem como referncia bsica a filosofia de Kierkegaard. Com efeito, a

    existncia um termo empregado pelo filsofo para designar a realidade humana segundo o

    acento que deu Kierkegaard. Tal influncia pode ser vislumbrada principalmente quando

    14 Ibid. Traduo nossa. 15 Ibid. Traduo nossa. 16 Ibid. Traduo nossa.

  • 11

    afirma a necessidade de recolocar a questo da verdade a partir do processo da existncia.

    Como salienta Jaspers, sob uma forte influncia de Kierkegaard: tudo o que real existe para

    mim s enquanto eu sou eu mesmo (JASPERS, 1961, p.34)17. Isso evidencia que, no mesmo

    caminho de Kierkegaard, Jaspers pensa a existncia como pressuposto fundamental para se

    entender a realidade18.

    Contudo, importa salientar que, apesar de se pautar em determinados elementos do

    pensamento kierkegaardiano, Jaspers se distingue dele de forma decisiva. possvel dizer que

    a diferena pontual entre Kierkegaard e Jaspers reside em que o primeiro faz uma escolha,

    escolha essa pautada no reconhecimento de um Deus cristo. Jaspers, por sua vez, pensa

    numa transcendncia que est alm da possibilidade da conscincia e do que ela nomeia como

    ser. Isso evidencia que os dois pensadores se encontram numa ntima relao com o mbito

    que ultrapassa o do humano, mas seguem caminhos distintos na tentativa de compreender esse

    horizonte.

    Para alm dos estudos kierkegaardianos, Jaspers se dedicou tambm leitura das

    obras de Plato, Plotino, Cusano, Girodano Bruno, Schelling e Nietzsche, influncias

    decisivas na estruturao do seu pensamento filosfico. Podemos citar tambm Goethe, que,

    segundo Jaspers, lhe proporcionou a atmosfera da Humanitas e da ausncia de prejuzo

    (JASPERS, 1953, p.251)19. Entre os contemporneos de Jaspers, podemos vislumbrar claras

    referncias a Max Weber, que revela, como ele mesmo afirma, a grandeza humana

    (JASPERS, 1953, p. 252)20.

    O contato com a filosofia de Husserl, por sua vez, pode ser visto sob duas oculares.

    Num primeiro momento, o filsofo explica que a sua fenomenologia e a aplicabilidade desse

    mtodo proporcionou um campo propcio para as suas investigaes psicolgicas,

    principalmente para descrever a vivncia dos enfermos mentais. Por outro lado, afirma que o

    encontro com Husserl, em 1913, provocou a decepo diante da possibilidade de pens-lo

    como grande filsofo. Esse encontro relatado por Jaspers na obra Balance y perspectiva da

    seguinte forma:

    17 JASPERS, Karl. Filosofia de la Existncia. Madrid: Aguilar, 1961. Traduo nossa. 18 Para Kierkegaard (1988, p. 279), deve-se viver uma verdade que seja verdadeira para mim: existencial o que diz respeito ao problema existencial de cada um de ns, ao que significa para mim. KIERKEGAARD, Sren. Dirio de um sedutor. 3. ed. So Paulo: Nova Cultural, 1988. (Os Pensadores). 19 JASPERS, Karl. Balance y perspectiva: discursos y ensayos. In: Mi camino a la filosofia. Madrid: Revista de Ocidente, 1953. Traduo nossa. 20 Ibid. Traduo nossa.

  • 12

    Perguntei para ele (Husserl) que era realmente a fenomenologia, pois eu no sabia com clareza. Ele respondeu: voc j faz excelente fenomenologia em seus escritos. Voc no necessita saber o que quando j o sabe fazer to bem. E seguiu dizendo como o deprimia que o comparasse com Schelling, pois Schelling no era um filsofo para ser tomado a srio. Me calei e mais tarde pensei: este homem maravilhoso sabe to pouco o que filosofia que sente uma ofensa que se lhe compare com um grande filsofo (JASPERS, 1953, p.241)21.

    Contudo, possvel dizer que a filosofia de Kant mostra-se, por sua vez, decisiva na

    estruturao do pensamento jasperiano. Segundo o nosso autor, Kant percebe e estabelece as

    grandes questes da humanidade. A saber: Que posso saber? Que devo fazer? Que posso

    esperar? Em seu pensamento filosfico, Jaspers apreende e desenvolve essas questes, mas

    sob uma outra ocular. Recoloca-as da seguinte maneira: como estamos no mundo? De onde

    viemos? Quem somos? O filsofo explica que essa reformulao procede da vida mesma, da

    nossa circunstncia atual, da a necessidade de se estabelecer uma outra abordagem.22 Para

    alm disso, pode-se vislumbrar, em diversas passagens de suas obras, inmeras referncias a

    sua fundamentao terica, o que, de fato, mostra que Jaspers assenta suas razes

    principalmente em Kant.

    Diante disso, importa salientar que apesar dessa confluncia de idias, Jaspers

    estabelece um projeto singular, que o diferencia de outros pensadores. Pode-se observar, no

    conjunto de sua obra, que o filsofo oferece uma chave hermenutica para as vrias oscilaes

    que ocorrem entre Existenz e Dasein, homem e transcendncia, cincia e filosofia, f revelada

    e f filosfica. , pois, a partir da articulao desses elementos que devemos pensar a filosofia

    da existncia de Jaspers.

    1.2 Existenz e Dasein

    Nesse tpico, busca-se delimitar a diferena entre existncia possvel, que Jaspers

    chama em sua filosofia de Existenz e existncia emprica ou Dasein. Consideramos esse

    esclarecimento pertinente, pois permitir vislumbrar como se configura a transcendncia na

    realidade humana. Ora, na filosofia jasperiana, a abertura para a transcendncia se estabelece

    21 Ibid. Traduo nossa. Comentrio entre parnteses nosso. 22 Cabe ressaltar que, na concepo de Jaspers, a pergunta pelo ser do homem se faz mais preeminente do que nunca. Por isso, salienta que j no basta perguntar como Kant, transcendendo de si mesmo, que posso saber, que devo fazer, que poso esperar, mas antes, o homem se sente mais decisivamente voltado para uma certeza que lhe falta, a certeza da sua existncia num mundo fragmentado. Como explica: por causa dessas questes, nos colocamos no caminho da busca. Mas o objeto dessa busca o homem e a transcendncia. JASPERS, Karl. Balance y perspectiva: discursos y ensayos. In: Mi camino a la filosofia. Madrid: Revista de Ocidente, 1953, p. 256. Traduo nossa.

  • 13

    na medida em que o existente se percebe enquanto Dasein e, assim, como um ser limitado e

    inconcluso. Essa conscincia da prpria finitude confere ao existente a possibilidade de

    significar a sua situao no mundo de uma outra forma, o que possibilita realizar o salto da

    dimenso objetiva do Dasein, para o horizonte sempre aberto da existncia possvel.

    Enquanto possibilidade de ser no mundo, o existente se coloca, portanto, em condio de

    abertura para a transcendncia.

    Torna-se, portanto, determinante para o estabelecimento dos objetivos propostos,

    pontuar a distino e a possvel aproximao entre estas duas maneiras do existente se

    posicionar no mundo: como existncia emprica (Dasein) e como existncia possvel

    (mgliche Existenz). Contudo, importa salientar, a ttulo de esclarecimento, que no

    pensamento jasperiano o termo Dasein tratado de forma especfica. Diz respeito aos

    homens, aos objetos, ao mundo, considerados na perspectiva da objetividade. Refere-se, numa

    perspectiva mais restrita, ao ser humano emprico, objeto de investigao da cincia, da

    psicologia, da sociologia. Ope-se, como veremos em seguida, ao significado de Existenz, que

    traduzimos em nossa pesquisa como existncia possvel.

    A compreenso sobre o homem como aquele ser que se exerce na dimenso do

    Dasein nos convida, pois, a pens-lo como mera manifestao emprica. Nesse nvel, o

    existente visado somente no mbito das realizaes no mundo e das suas determinaes.

    Como escreve Jaspers: a existncia emprica (Dasein) existe somente em relao com seu

    mundo circundante, diante do que reage e sobre o que atua (JASPERS, 1968, p.109)23. Nesse

    caso, deve-se pensar a existncia humana como presena objetiva no mundo, que se orienta

    unicamente pela realidade concreta das coisas.

    Contudo, como j foi pontuado, para o nosso autor a existncia humana no se

    restringe unicamente a ser-objeto no mundo. Ora, como pensador da existncia, Jaspers no

    poderia se deter somente no horizonte das determinaes objetivas. Sua inteno

    compreender, sobretudo, o horizonte existencial do homem. E isso implica o esclarecimento

    da existncia humana no somente enquanto realidade emprica, mas tambm como existncia

    possvel.

    Na concepo de Jaspers, somente a partir de uma reflexo, por parte do existente,

    sobre a sua condio no mundo, chega-se ao reconhecimento de seu prprio modo de

    presena no mundo. Quando isso ocorre, se estabelece um outro horizonte de relao entre o

    existente e o mundo e, por meio desse horizonte, ele passa a significar a sua existncia. Tal

    23 JASPERS, Karl. La fe filosfica ante la revelacin. Madrid: Editorial Gredos 1968. Traduo nossa.

  • 14

    conjuntura corresponde condio indispensvel para se perceber como existncia possvel.

    Como pontua o filsofo: S na ao sobre si mesmo e sobre o mundo, em suas realizaes

    que ele adquire conscincia de ser ele prprio, que ele domina a vida e se ultrapassa

    (JASPERS, 1983, p.50)24.

    Isso evidencia, por sua vez, que o homem enquanto Dasein, apesar de se estabelecer

    no horizonte limitado das determinaes no mundo, pode, ao mesmo tempo, se colocar em

    condio de abertura para o dar-se da existncia possvel. Ou seja, se por um lado visado

    unicamente como objeto no mundo, por outro lado constitui a dimenso decisiva para a

    realizao da existncia possvel. Porm, deve-se considerar o Dasein apenas como ponto de

    partida para a realizao da existncia enquanto possibilidade. Isso porque, com efeito, no h

    existncia humana sem Dasein, ainda que o Dasein no corresponda existncia em toda sua

    dimenso. Entendemos que o importante nesse processo perceber que, mesmo sob a

    orientao no mundo, o existente pode realizar o salto para alm das suas determinaes e,

    assim, superar esse nvel fundamental, mas limitado da existncia.

    O salto (Sprung), no pensamento jasperiano, se efetiva quando o existente

    confronta a si mesmo e as suas limitaes. Nesse confronto, passa a atribuir um significado ao

    seu prprio modo de presena no mundo, o que possibilita a abertura para as diversas

    possibilidades de ser. Como escreve:

    Demos um salto: passamos da cognio intelectual dos objetos para a conscincia subjetiva do que realizamos e experimentamos. A altura que atingimos com esse salto nada, se a considerarmos do ponto de vista do conhecimento do mundo; considerado, porm, do ponto de vista filosfico, equivale possibilidade de atingir uma nova conscincia do ser (JASPERS, 1983, p.36)25.

    Pode-se observar que, com o advento do salto, Jaspers pontua um aspecto

    determinante da existncia humana: a possibilidade de superao. Segundo ele, no confronto

    com as suas limitaes, o existente se coloca em condio de abertura para realizar o

    movimento de transcendncia da existncia emprica para a existncia possvel. Da surge

    no s a possibilidade de superar a si mesma e, assim, as situaes limitantes, mas, tambm, o

    processo de orientao no mundo.

    No se trata, contudo, apenas da passagem da dimenso objetiva dimenso

    subjetiva. Com efeito, a reflexo subjetiva e comprometida, faz com que o homem adquira

    conscincia da sua situao no mundo. Porm, somente no momento em que se v em

    24 JASPERS, Karl. Introduo ao pensamento filosfico. Lisboa: Guimares Editores, 1983. 25 JASPERS, Karl. Introduo ao pensamento filosfico. Lisboa: Guimares Editores, 1983.

  • 15

    condies de significar essas situaes poder realizar o salto para a existncia possvel.

    Como salienta A. Perdigo (2001, p.542), intrprete do pensamento jasperiano:

    Cabe entender que, para Jaspers, no h Existncia sem Dasein, mas o Dasein no a Existncia. Aquilo que cada sujeito pode ser mas no o , enquanto manifestao emprica do Dasein, s o ser enquanto existncia. Isto significa no s a possibilidade de se transcender enquanto Dasein, mas tambm a possibilidade de superar o processo infinito da orientao no mundo. Esta superao abre caminho ao esclarecimento da existncia (Existenzerhellung).

    Isso evidencia que na filosofia jasperiana a existncia se estabelece, sobretudo, como

    um poder-ser, um sair para fora em direo s diversas possibilidades. Ou seja,

    diferentemente do Dasein, que permanece no campo do vivido objetivamente, a existncia,

    enquanto possibilidade ser sempre a existncia que se escolher. Por isso, Jaspers afirma que

    a capacidade de escolha do homem, entendida no somente como capacidade de escolha

    prpria da arbitrariedade da existncia emprica, mas como a capacidade de deciso cuja

    necessidade eu sou eu mesmo, constitui a existncia possvel (JASPERS, 1968, p.114)26.

    Percebe-se, portanto, a impossibilidade de emitir um juzo fixo acerca da existncia

    possvel. Ora, no horizonte das possibilidades, o existente est sempre, de algum modo,

    frente de si, projetando-se nos riscos das opes. No temos, assim, nenhuma segurana

    objetiva sobre a existncia possvel, mas s uma segurana imersa na interrogao. , pois,

    sob esta ocular que Jaspers prope, no o conhecimento da existncia, mas o esclarecimento

    da existncia possvel.

    1.3 O Esclarecimento da Existncia

    Nesse tpico busca-se compreender em que sentido Jaspers fala de esclarecimento da

    existncia possvel. Observa-se at esse momento da pesquisa que a sua filosofia da existncia

    se preocupa, principalmente, com aquele aspecto da existncia humana que privilegia o

    horizonte das possibilidades. Na concepo do filsofo, somente nesse horizonte torna-se

    possvel compreender o aspecto existencial da vida humana. O problema central , pois,

    como pensar a existncia sob esta ocular, j que nesse nvel de realizao no possvel

    estabelecer nenhum conhecimento seguro sobre a existncia.

    Em sua fundamentao terica, Jaspers pontual ao afirmar que a existncia se

    apresenta sob duas oculares distintas, mas interligadas: enquanto existncia emprica e

    26 JASPERS, Karl. La fe filosfica ante la revelacin. Madrid: Editorial Gredos, 1968. Traduo nossa.

  • 16

    enquanto existncia possvel. No primeiro caso, pode-se estabelecer um conhecimento

    objetivo, j que se refere aquele nvel de realizao que acessvel s diversas investigaes.

    Porm, salienta que s possvel falar de existncia enquanto possibilidade de forma indireta,

    pois no temos um objeto fixo e determinado e, assim, passvel de investigao.

    Segundo ele, o pensamento filosfico que visa esclarecer a existncia possvel no se

    pauta na aquisio de um conhecimento determinado da existncia humana. Antes, busca

    transmitir um pensar que abre caminho esclarecendo, e no mais conhecendo. Ora, se a

    caracterstica principal do conhecer um representar e, portanto, um fixar, a funo do

    esclarecer , pois, um despertar. Nesse nvel, poderamos dizer que a funo da sua

    filosofia , antes, manifestar, aclarar, tornar compreensvel a existncia humana. Isso porque a

    prpria existncia, pretendendo-se como algo que ultrapassa a objetividade, se coloca na

    dimenso do indeterminado.

    Jaspers, por vezes, chama esse pensamento de no-saber justamente para dar nfase

    estrutura inobjetiva da existncia possvel. Segundo ele, importante ter em vista que no

    horizonte das possibilidades no podemos pensar na aplicabilidade de um saber, ou de um

    mtodo pr-determinado, mas to-somente numa autntica clarificao (JASPERS, 1987,

    p.115)27. Como escreve:

    Com o saber que possuo posso agir no exterior aplicando-o tecnicamente, o no-saber, porm, possibilita uma ao interior pela qual me transfiguro. Aqui se manifesta outro e mais profundo poder do pensamento, que no se desprende em direo a um objeto, que se consome no mais ntimo do meu ser, onde pensamento e devir so uma e a mesma coisa (JASPERS, 1987, p.114-115) 28.

    Isso mostra, portanto, que no existe teoria e nem saber especfico sobre a existncia

    possvel, mas apenas um esclarecimento que visa unicamente deslindar o carter existencial

    da realidade humana. Por isso, quando Jaspers diz que pretende esclarecer a existncia,

    deixa bem acentuado que no se trata de conhecer a existncia humana, mas, antes, tornar

    claras as mltiplas possibilidades de ser. Nesse caso, pode-se dizer que o mundo deixa de ser

    a realidade na qual o Dasein se compreende, e o que passa a ser compreendido a realidade

    da existncia ou do processo mesmo de existir.

    Depreende-se que o postulado metodolgico bsico da sua filosofia da existncia

    encontra-se na exigncia de assumir como ponto secundrio as investigaes objetivas da

    realidade humana, assim como todo e qualquer saber que determina sua estrutura no mundo. 27JASPERS, Karl. Iniciao Filosfica. Lisboa: Guimares Editores, 1987. 28 Ibid.

  • 17

    Para Jaspers, a existncia humana e suas implicaes existenciais encontram-se alm dessas

    determinaes.

    Com isso, pode-se dizer que o nosso autor cultiva um modo filosfico de pensar

    transcendente, que se evidencia principalmente no interior da sua filosofia da existncia

    quando estabelece o salto da orientao no mundo ao esclarecimento da existncia. Aqui,

    possvel observar que a inteno do filsofo , de certa forma, ultrapassar a fronteira do

    conhecimento puramente objetivo, para alcanar o esclarecimento da dimenso existencial do

    homem. Como escreve: a filosofia no pode chegar a existir realmente somente no modo de

    pensar cientfico e no saber cientfico. A filosofia exige outro pensar, isto , um pensar que

    me recorda ao mesmo tempo o que me atrai at eu mesmo (JASPERS, 1961, p.36)29.

    Percebe-se que a funo desse pensar transcendente , sobretudo, esclarecer aquela

    dimenso existencial do homem, e, assim, indicar, sinalizar as diversas possibilidades da

    existncia. Diante disso, pode-se entrever que o objetivo de Jaspers ao propor um

    esclarecimento da existncia humana no perseguir a meta de descobrir uma essncia do

    homem ou de dar nfase s estruturas que compe o ser humano. Busca, antes, estabelecer

    uma chamada indireta aos indivduos para que realizem, sobretudo, um possvel

    esclarecimento da existncia humana.

    Tal desdobramento permite vislumbrar, por sua vez, que o esclarecimento da

    existncia constitui o pressuposto fundamental da sua filosofia. Portanto, por esse caminho

    que procuraremos pensar a possvel relao entre existncia e transcendncia. Percebemos

    que somente nessa dimenso torna-se possvel esclarecer o horizonte sempre aberto da

    existncia, sem, contudo, pretender uma universalidade impessoal.

    29 JASPERS, Karl. Filosofia de la Existencia. Madrid: Aguilar, 1961. Traduo nossa.

  • CAPTULO 2 A TRANSCENDNCIA NO PENSAMENTO

    JASPERIANO

    2.1 O envolvente

    Compreender/interpretar o envolvente na filosofia de Karl Jaspers determinante

    para o esclarecimento da transcendncia. Percebemos que Jaspers se adentra no mbito da

    transcendncia e, consequentemente, na anlise da possvel relao entre o homem e a

    transcendncia, com a reflexo sobre as condies que tornam possvel a experincia de algo

    que, em hiptese alguma, se manifesta como objeto no mundo. Esse empreendimento se d

    com a elaborao da sua filosofia do envolvente (das Umgreifende).

    importante salientar que o pensamento jasperiano sobre o envolvente se estabelece

    a partir de um pressuposto fundamental: a impossibilidade de apreender o envolvente

    enquanto objeto no mundo. Tal dimenso evidencia, por sua vez, a impossibilidade de pens-

    lo adequadamente na ciso sujeito/objeto. No obstante, o nosso autor salienta que o

    envolvente ponto principal dessa ciso, pois constitui, por assim dizer, o elo de unidade

    que mantm juntos o sujeito e o objeto, mas que, em si mesmo, no nem o sujeito e nem o

    objeto. Nesse horizonte, o envolvente se faz preeminente como a condio de possibilidade

    para a realizao de todas as coisas no mundo. Como explica o filsofo:

    O envolvente em si mesmo o infranquevel que, enquanto tal, inconcebvel, aquele de onde somos e que nunca abarcamos, aquele que sempre mais extenso, por extensa que seja nossa concepo do objeto do conhecimento (JASPERS, 1968, p.126-127) 30 .

    Tal desdobramento mostra que, efetivamente, o envolvente no pode ser entendido

    nunca como um acontecer real, mas to-somente como aquele que no se faz mais que

    notificar-se no pensamento. Nesse nvel, Jaspers no deixa de sublinhar o problema central

    referente ao envolvente, que pensar em forma de objetividade algo que no objetivo. A

    indagao que ele coloca a seguinte: Podemos ns, valendo-nos do pensamento, encontrar,

    por assim dizer, um lugar exterior ao nosso conhecimento e a partir do qual esse

    conhecimento se tornasse inteiramente visvel por transparncia? (JASPERS, 1983, p.42)31

    30 JASPERS, Karl. La fe filosfica ante la revelacin. Madrid: Editorial Gredos, 1968. 31 JASPERS, Karl. Introduo ao pensamento filosfico. 9.ed. So Paulo: Cultrix, 1983.

  • 19

    Pode-se dizer que em sua filosofia, Jaspers busca pensar o espao entre a negao de

    toda a objetividade e a apropriao de um significado para o envolvente a partir de uma

    operao filosfica fundamental. Nessa operao realiza-se um tipo de experincia do

    pensamento em que passa a no mais dispor do conhecimento objetivo das coisas. Isso

    porque quando o pensamento do envolvente se objetiva de alguma forma, a operao

    filosfica impe uma converso para o inobjetivo, a partir do abandono dessa mesma

    objetividade:

    Na operao filosfica precisamos da objetivao para nos aproximar do inobjetivo. Este pensamento tem, pois, duas vertentes: primeiro a elaborao de mltiplas objetividades precisas para a atualizao dos modos do envolvente; segundo, o abandono dessas objetividades para aproximar-se do envolvente. A converso (Umwendung) mesma necessita primeiramente destas objetividades, sem a qual no se pode fazer-se consciente de nada, mas ao mesmo tempo necessita tambm prescindir delas (JASPERS, 1968, p.128-129)32.

    Esta transformao ou converso se d, portanto, na medida em que o existente

    desata os laos que prendem o pensamento ao objeto e, assim, transmuta o sentido da

    objetividade. Nesse desdobramento, passamos ento a dispor de um espao onde no mais se

    produz o conhecimento sobre algo dado no mundo, mas sobre aquele horizonte que

    condio de possibilidade para a realizao de todas as coisas. , pois, nesse nvel de

    realizao que o envolvente se torna compreensvel.

    Com isso, pode-se dizer que pensar o envolvente depende de uma resoluo

    primordial: depende da vontade do existente para liberar-se de todo saber determinado das

    coisas depois de ter apropriado o seu significado. Pela clareza dessa realizao, torna-se

    possvel pensar o envolvente sem precisar apoiar-se no sujeito e no objeto. Como pontua o

    filsofo:

    Quanto ao prprio abrangente (envolvente), no cabe pens-lo como objeto (coisa), porque, em tal caso, ele se faria objeto (oposto ao sujeito). Se quisermos pens-lo haveremos de renunciar base oferecida pelos objetos que temos diante de ns quando os pensamos. E, por isso, buscamos um outro fundamento, que no seja sujeito e nem objeto (JASPERS, 1983. p.37)33.

    Diante disso, importante ter em vista que Jaspers fala de um saber fundamental ou

    32 JASPERS, Karl. La fe filosfica ante la revelacin. Madrid: Editorial Gredos, 1968. Traduo nossa. 33 JASPERS, Karl. Introduo ao pensamento filosfico. 9.ed. So Paulo: Cultrix, 1983. Importa destacar que o termo das Umgreifende traduzido de diferentes formas para a lngua portuguesa. Como, por exemplo: o abarcador, o abrangente. Traduzimos como o envolvente, pois acreditamos que seja a acepo mais fiel ao significado de das Umgreifende.

  • 20

    filosfico do envolvente sobre o qual insiste em sua posterior obra A f filosfica diante da

    revelao34. Pode-se dizer que este saber fundamental cumpre o seu objetivo no por meio de

    um mtodo que possibilita a apreenso de algo. Antes, por meio da fora do modo de

    interrogar, ilumina os locais onde os conceitos definidos no bastam. Isso mostra que ,

    sobretudo, um saber de orientao e, por essa via, pode favorecer a claridade de nosso

    viver. Como salienta: O saber fundamental evita confuses e erros na originalidade mesma

    que somos e que podemos chegar a ser (JASPERS, 1968, p.119)35.

    Percebe-se que a funo do saber fundamental , sobretudo, esclarecer os espaos, as

    origens e as possibilidades. Por isso, no expressa nada concreto no mundo, nem verdade

    alguma consumada. Antes, apenas consiste em tornar consciente o horizonte das

    possibilidades. Nesse sentido, poderamos dizer que, se por um lado um saber que no tem

    contedo, por outro torna consciente a forma de todos os contedos. Isso evidencia, portanto,

    o aspecto fundamental do saber filosfico do envolvente: um saber que torna patente no o

    conhecimento de um novo objeto, mas a realidade inobjetiva do envolvente.

    Visto dessa maneira, o saber das coisas adquire uma profundidade nova, diferente

    do saber que se estabelece das realidades (Realitten) manifestas. Isso porque, como j

    vimos, passamos a realizar uma experincia onde no mais se produz o conhecimento de um

    objeto determinado. , pois, nesse horizonte que Jaspers estabelece os modos de manifestao

    do envolvente.

    2.2 Os modos do envolvente

    Segundo Jaspers, o envolvente s se faz presente para a conscincia a partir dos seus

    modos de manifestao, que, enquanto tais, se edificam a partir de mltiplas objetividades.

    Isso evidencia que o envolvente necessita primeiramente dessas objetividades para se tornar

    realidade, sem as quais no se pode fazer-se consciente de nada. Contudo, para aproximar-se

    do envolvente e da sua devida compreenso o existente precisa tambm abandonar essas

    mesmas objetividades. Tal desdobramento constitui, como j vimos, a operao filosfica

    fundamental, em que se constri o saber fundamental do envolvente.

    Com isso, pode-se dizer que o aspecto determinante no processo de apreenso do

    envolvente recai na aceitao prvia de que sua atualizao se d a partir de modalidade, mas 34 JASPERS, Karl. La fe filosfica ante la revelacin. Madrid: Editorial Gredos, 1968, p. 119. Traduo nossa. 35 Ibid. Traduo nossa.

  • 21

    que, em si mesmo, no objeto para a conscincia, permanecendo sempre envolvente.

    Somente nesse nvel de realizao possvel pensar o envolvente que somos e podemos ser,

    enquanto existncia emprica, conscincia em geral, esprito e existncia possvel. Pensando-o

    da parte do objeto se expressa enquanto realidade no mundo. Alm dessas modalidades,

    Jaspers estabelece tambm o envolvente do envolvente, que ele chama de transcendncia.

    Vejamos de forma esquematizada como se d tal desdobramento:

    a - o envolvente que somos e podemos ser se manifesta como:

    - Existncia emprica (Dasein)

    - Conscincia em geral (Bewusstsein berhaupt)

    - Esprito (Geist)

    - Existncia possvel (Existenz)

    b - O envolvente enquanto realizao objetiva:

    - como mundo

    c - O envolvente do envolvente:

    - como transcendncia (Transzendenz)

    Diante disso, possvel vislumbrar que o envolvente se mostra de muitos modos,

    embora nunca no que verdadeiramente . Pode-se dizer que estas modalidades no resultam

    na evidncia do envolvente, mas, antes, refletem a experincia interior da descoberta dos

    limites e, assim, da maneira como o envolvente pode se atualizar e se fazer presente na

    conscincia.

    , pois, nesse contexto e a partir de tal quadro de referncias que Jaspers fala do

    envolvente enquanto conscincia em geral, que a conscincia comum a todos os seres

    pensantes. Como toda objetividade est sujeita s condies da conscincia pensante,

    podemos nos colocar frente a este modo do envolvente como a condio de possibilidade de

    todo e qualquer conhecimento. Tal introjeo permite-nos uma remisso conscincia

    transcendental da teoria do conhecimento de Kant. Do mesmo modo como para Kant a

    sensibilidade, com as formas puras do espao e do tempo, e o entendimento, com os conceitos

    bsicos, constituem elementos estruturais da conscincia (so a condio necessria do sujeito

    na elaborao do material do conhecimento tornando possvel o conhecimento objetivo), para

    Jaspers a conscincia em geral a condio necessria para que se pensar os objetos no

    mundo. Nesse nvel, pode-se dizer que o envolvente se manifesta como sujeito cognoscente.

    Na dimenso do esprito, o envolvente se apresenta como aquele que confere

    multiplicidade dos pensamentos e dos atos uma coerncia e uma orientao. Isso mostra que o

  • 22

    envolvente que eu sou no se restringe somente a um eu formal do intelecto, mas

    tambm um formador de idias. Como esclarece o filsofo: Somos esprito, esprito

    criador de imagens e formas. Nas vises criadoras de nossa imaginao subjetiva revela-se

    uma objetividade intelectual. No existe uma sem a outra (JASPERS, 1983, p.40)36.

    Diante disso, possvel afirmar que essas duas modalidades do envolvente

    encontram-se numa polaridade necessria e caracterstica, na qual se condicionam

    mutuamente. Na concepo do filsofo, o homem no to-somente o envolvente da

    conscincia em geral, mas tambm se faz real como esprito em cuja totalidade ideal pode

    acolher tudo o que pensado pela conscincia e o que real como existente (JASPERS,

    1961, p.48)37. Porm, como j delimitamos anteriormente, para Jaspers somos envolventes

    tambm enquanto existncia emprica. Nesse nvel de realizao, o envolvente se manifesta

    como aquele existente que est diretamente relacionado vida concreta. Ou seja, enquanto

    existncia emprica, o envolvente se encontra na dimenso das coisas no mundo, podendo,

    assim, ser objeto de investigao.

    Contudo, importa salientar, a fim de evitar confuses, que tais acepes se referem

    somente s modalidades do envolvente, e, de forma alguma, podem ser estendidas ao

    envolvente em si, pois este permanece sempre inacessvel. Ora, a conscincia em geral, o

    esprito e o existente emprico constituem apenas expresso do envolvente enquanto

    manifestao da individualidade humana.

    , pois, nesse horizonte que Jaspers estabelece outra modalidade do envolvente: a

    existncia possvel. Com este modo, possvel perceber que a conscincia em geral, o esprito

    e a existncia emprica no esgotam a existncia humana. Segundo Jaspers, somente

    enquanto existncia possvel podemos pensar o envolvente que somos e podemos ser.

    Poderamos dizer, portanto, sem pretender defini-la, que a existncia possvel consiste no

    descobrimento do ser humano individual e de suas possibilidades. Como escreve Jaspers:

    Descobrir o ser do homem equivale, antes, a pensar o envolvente que somos. E pensar o envolvente que somos pensar em mltiplas maneiras: como vida emprica, como conscincia em geral, como esprito e como existncia. Ora, o homem vive como ser emprico no mundo, sob a orientao do mundo. Tambm vive como conscincia pensante em geral, e, nesse caso, est dirigido aos objetos. Como esprito constri a idia de um todo em sua existncia mundana. E como existncia possvel vive no plano da liberdade, das escolhas, e, com isso, no plano

    36 JASPERS, Karl. Introduo ao pensamento filosfico. 9 ed. So Paulo: Cultrix, 1983. 37 JASPERS, Karl. Filosofia de la Existencia. Madrid: Aguilar, 1961. Traduo nossa.

  • 23

    da transcendncia (JASPERS, 1953, p. 260) 38.

    Tal dimenso possibilita pensar numa co-participao dos modos do envolvente,

    que significa, por um lado, que o envolvente cinde-se em modalidades independentes umas

    das outras, e, por outro lado, que estas modalidades se interpenetram e se atualizam, refletindo

    a sua interdependncia no envolvente. Isso mostra, sobretudo, a experincia interior da

    descoberta do envolvente que eu sou. Reflete tambm uma situao fundamental: toda e

    qualquer experincia no mundo pode se converter numa experincia interior do envolvente

    que, de sua parte, se faz patente somente quando essas objetividades so abandonadas. Para

    Jaspers, esse o pressuposto fundamental para se adquirir a autntica conscincia do

    envolvente:

    Para que o ser seja presente para ns necessrio que, na ciso sujeito-objeto, possa ser presente alma pela experincia ntima. Significa dizer que o prprio ser que tudo fundamenta, o absoluto, tem de surgir aos nossos olhos sob a forma de objetividade que, no entanto, porque inadequada como tal, logo se desfaz e, destruda, nos deixa a pura claridade da presena do envolvente (JASPERS, 1987, p. 34)39.

    Entender como se manifestam essas modalidades , pois, determinante para se

    estabelecer uma devida compreenso da transcendncia. Ora, a transcendncia, por definio,

    o envolvente do envolvente, e, enquanto tal, no se apresenta como objeto no mundo. Sua

    atualizao se d unicamente a partir da decifrao dos sinais cifrados da transcendncia. E

    isso se efetiva na medida em que o existente ultrapassa a dimenso objetiva das cifras e

    realiza, por assim dizer, uma leitura interior desses sinais. Pode-se dizer que somente nesse

    nvel se d a comunicao entre o existente e a transcendncia e, assim, a atualizao do

    envolvente. Como salienta o nosso autor na obra Balance y perspectiva: a fonte da verdade

    que se d na comunicao existencial entre os homens e a transcendncia, que difere do

    pensamento objetivo, determinado e particular, o envolvente (JASPERS, 1953, p.263)40.

    Com base nisso, torna-se possvel vislumbrar o caminho que Jaspers percorre em sua

    fundamentao em torno da transcendncia. Percebemos que o carter fundamental da

    filosofia da transcendncia no descrever ou reconstruir as estruturas objetivas de algo que, 38 JASPERS, Karl. Balance y perspectiva. In: Mi camino a la filosofia. Madrid: Revista de Ocidente, 1953. Traduo nossa. 39 JASPERS, Karl. Iniciao Filosfica. Lisboa: Guimares Editores, 1987.

    40 JASPERS, Karl. Balance y perspectiva. In: Mi camino a la filosofia. Madrid: Revista de Ocidente, 1953. Traduo nossa.

  • 24

    por definio, no pode ser objetivado. Mas, antes, eleger, indicar o caminho para se pensar a

    transcendncia, sem, com isso, reincidir na objetivao daquilo que, por definio, no pode

    ser objeto de investigao.

    2.3 As situaes-limite

    Situao-limite , por diferentes razes, um dos conceitos mais caractersticos e

    importantes da filosofia de Karl Jaspers. Mostra-se determinante, sobretudo, no contexto da

    sua filosofia da transcendncia. Isso porque somente a partir do embate com as situaes-

    limite - situaes fundamentais de nossa existncia (JASPERS, 1953, p.301)41 - o existente

    se coloca em condio de abertura para a experincia da transcendncia.

    Por se tratar da existncia humana, tais situaes no devem ser entendidas como

    feitos objetivos. Ora, a atribuio de um significado para as situaes limitantes possibilita a

    interiorizao dessas situaes. Nesse nvel, deixam de ser uma situao qualquer e passam a

    ser a minha situao. Tal desdobramento confere todo peso expresso ser-em-situao,

    como escreve Antunes (1973, p.150): minha situao como ser-no-mundo , ela prpria, uma

    situao-limite a situao limite fundamental a minha determinao (Bestimmtheit). Isso

    evidencia que as situaes-limite no se definem pelos seus contornos externos, mas, antes, s

    podem ser compreendidas quando vislumbradas de um ponto de vista interno.

    Com isso, pode-se observar que o termo situao, utilizado de forma pontual pela

    cincia para indicar os fatos e as redes de determinaes objetivas que agem sobre o

    indivduo, se estabelece, na filosofia jasperiana, de maneira distinta. O termo encontra-se

    vinculado unicamente existncia humana e, nesse caso, no a situao que determina o

    comportamento humano, mas a existncia que transforma os fatos e/ou os acontecimentos em

    situao, dando-lhes contedo e significao. Tais situaes passam, ento, a integrar a vida

    do existente. Como pontua Jaspers: estas situaes que sentimos, experimentamos e

    pensamos sempre nos limites de nossa existncia, se chamam situaes-limite (JASPERS,

    1967, p.302)42.

    Contudo, deve-se ter em vista que as situaes-limite correspondem a um modo de

    situao humana que, diferentemente das situaes no mundo, no podemos alterar. So elas:

    41 JASPERS, Karl. Psicologa de las concepciones del mundo. Editorial Gredos, 1967. Traduo nossa. 42 Ibid. Traduo nossa.

  • 25

    a morte, o sofrimento, a culpa43. O aspecto determinante desse tipo de situao, o que a torna

    limite, o seu carter imutvel e irredutvel. A ttulo de exemplo, podemos citar a situao-

    limite da morte que, no entender de Jaspers, coloca o existente diante da fragilidade do seu ser

    justamente por constituir uma situao intransponvel e limitante. Logo, a reao imediata

    nesta situao puramente negativa, como salienta o nosso autor: a morte algo

    irrepresentvel, algo propriamente impensvel. O que ns representamos e pensamos dela so

    somente negaes e so somente fenmenos acidentais, nunca so positividades (JASPERS,

    1967, p.342)44.

    Tal acepo pode ser prolongada para o mbito da culpa que, segundo Jaspers, se

    mostra tambm de forma negativa: se o mal reside em desejar, os homens so, pois, culpados

    em todos os casos: tanto se desejamos, tanto se no desejamos (JASPERS, 1970, p.30)45. Na

    qualidade de desejo existencial, a culpa se traduz como a insatisfao estrutural do

    existente, limitado a sua facticidade. Com isso, pode-se entrever que, no mbito da existncia,

    a culpa traz consigo um aspecto negativo porque nasce da impossibilidade do existente

    realizar-se plenamente.

    As experincias da culpa e da morte, configuradas de forma negativa, tm como

    componente essencial o que Jaspers chama de naufrgio ou fracasso46. Um limite definitivo,

    implicando aquilo que impede de alcanar, tal o fracasso em Jaspers. Como ele mesmo diz:

    fracasso o lugar de um malogro (JASPERS, 1987, p.20)47. Fracassa a a existncia. No

    obstante, pode-se dizer que justamente ao fazer a experincia do fracasso, das situaes-

    limite, que o existente se coloca em condio de abertura para o horizonte que se encontra

    alm dessas determinaes.

    Pode-se dizer que ao se confrontar com a precariedade da vida, o existente percebe a

    condio humana, pressuposto indispensvel para superar a si mesmo enquanto Dasein. Tal

    situao mostra-se, portanto, decisiva para se entender o aspecto positivo do fracasso ou

    naufrgio em Jaspers. Ora, ao mesmo tempo em que o fracasso coloca o existente diante de

    43 Jaspers delimita outras situaes-limite, que so analisadas, principalmente, na obra Psicologa de las concepciones del mundo. 44 JASPERS, Karl. Psicologa de las concepciones del mundo. Editorial Gredos, 1967. Traduo nossa. 45 JASPERS, Karl. Cifras de la Transcendencia. Madrid: Alianza Editorial, 1970. Traduo nossa.

    46 JASPERS, KARL. Iniciao Filosfica. Lisboa: Guimares Editores, 1987.

    47 Ibid.

  • 26

    situaes timbradas pela presena contnua dos limites e da sua impotncia frente a eles,

    simultaneamente e, por outro lado, possibilita ao existente perceber a dimenso fundamental

    da sua existncia. , pois, nesse nvel de realizao que realiza o salto para a outra margem,

    como pontua Klimke (1961, p.816), na seguinte passagem:

    Nessas situaes-limite o homem levado prpria fronteira de seu ser e colocado diante do nada. O homem experimenta que, em uma ordem puramente imanente, lhe impossvel realizar-se em plenitude. Aquele que quer fundamentar-se na imanncia acaba em um total naufrgio (das Scheitern). Porm esse naufrgio da imanncia o que me tornar possvel chegar transcendncia mediante o salto para a outra margem.

    Como j esclarecemos, esse salto no significa a superao real dos limites, pois

    no se trata nunca de um limite provisrio, suscetvel de ser transposto. Cabe lembrar que

    limite, na concepo de Jaspers, o que caracteriza a existncia, pois ele a determina e

    estrutura, e, por definio, intransponvel. Em compensao, todo limite implica a idia

    daquilo de que separa, do que fica mais alm. limite porque nem tudo fica aqum dele.

    Pode-se dizer que justamente isso que impele o existente a transcender a primeira impresso

    negativa dos limites e, assim, se colocar em condio de abertura para o horizonte que se

    encontra alm dessas determinaes.

    Tal disposio consiste, portanto, na condio prvia para poder assegurar, mediante

    uma reflexo esclarecedora dos limites, o salto da imanncia para a transcendncia. Nesse

    nvel, possvel afirmar que o fracasso aparece como o pressuposto indispensvel para se

    realizar a experincia da transcendncia. Nesse caso, trata-se, sobretudo, de uma experincia

    de superao, que no significa a superao real dos limites, mas uma existncia pautada no

    que estaria alm desses limites. Como pontua o nosso autor: enquanto no experimentou a

    sensao de ver-se soterrado e no optou por passar alm, em direo transcendncia, o

    homem no verdadeiramente ele prprio (JASPERS, 1983, p.53)48.

    Com base nisso, percebe-se que o aspecto determinante nesse processo o confronto

    com as situaes-limite. Ora, se as situaes-limite permanecem veladas de alguma forma, o

    existente no realiza nenhuma experincia da transcendncia. Jaspers compara-as a um muro

    contra o qual se embate, porque da queda que o homem pode erguer-se novamente. O que

    possibilita afirmar que assumir livremente a sua runa a nica forma do existente descobrir

    que essa runa no o fim, mas um novo comeo. , pois, nesse horizonte de superao que

    se edificam as cifras da transcendncia na vida de cada existente.

    48 JASPERS, Karl. Introduo ao pensamento filosfico. 9.ed. So Paulo: Cultrix, 1983.

  • 27

    2.4 O significado de transcendncia

    Este tpico determinante para se alcanar o objetivo proposto, que entender o

    lugar das cifras da transcendncia no pensamento jasperiano. Pode-se adiantar que as cifras

    se estabelecem como intermedirias entre a existncia e a transcendncia. Delimitar,

    portanto, o significado de transcendncia se estabelece de modo imprescindvel para entender

    como se d tal desdobramento. Para o momento, importante salientar que na filosofia de

    Jaspers, a transcendncia alberga dois significados distintos, mas interdependentes.

    Refere-se, por um lado, ao que est alm da realidade objetiva, pois excede os

    limites da experincia emprica. E, por outro, usada para indicar o movimento de

    ultrapassar, saltar, para alm dos limites que determinam existncia humana49. Nessa

    acepo, o filsofo toma a palavra para indicar o movimento de transcendncia, que se

    realiza como uma ascenso pensante do existente para alm das situaes-limite. Ou usando

    a sua prpria terminologia, encontra-se vinculada operao de ultrapassar ou superar a si

    mesmo enquanto Dasein, e, dessa forma, o processo de orientao no mundo.

    transcendncia, vista como o mbito que se encontra alm do domnio do

    homem, no se pode aplicar nenhum predicado, pois no possui um atributo ou uma forma

    especfica. Apresenta-se, assim, somente no horizonte de mistrio e isso implica que,

    comparada realidade no mundo, ontologicamente to distinta que se torna impossvel no

    s mostr-la como tambm demonstr-la. Sua realidade tem que ser, portanto, de um carter

    radicalmente diferente de toda realidade mundana. Porm, importa salientar que ao afirmar

    esta realidade distante e oculta da transcendncia, Jaspers no supe que existem duas

    realidades separadas. Mas, antes, afirma que se tem uma nica realidade pautada no diverso.

    Tal imbricamento j foi claramente analisado no captulo anterior quando

    delimitamos os modos do envolvente. Pode-se vislumbrar que, na concepo de Jaspers, a

    transcendncia, a existncia, o mundo, so modalidades do envolvente, cada qual com uma

    particularidade especfica, mas pertencendo a uma mesma realidade: so modos de

    manifestao do envolvente. Portanto, o que se estabelece de forma decisiva se o existente

    chega a estar seguro da transcendncia como uma modalidade de manifestao do

    envolvente ou se permanece na imanncia com a certeza de que no existe nenhuma outra

    base que transcenda a orientao no mundo.

    49 Pode-se observar nos textos em alemo, que Jaspers utiliza o termo Transzendenz, para indicar o que se encontra alm dos limites humanos e Transzendieren como um ato de transcender esses limites.

  • 28

    Isso mostra que somente o existente poder decidir se a transcendncia que se

    sobressai da imanncia ou se a imanncia que permanece sobrepujando a transcendncia.

    Tal deciso determinante para se pensar a experincia da transcendncia na filosofia

    jasperiana. Ora, somente a partir da o existente poder estabelecer, no o conhecimento da

    transcendncia, mas a decifrao dos sinais cifrados da transcendncia. No significa,

    contudo, tomar a cifra pela transcendncia mesma. Isso porque a transcendncia no se

    desvela em hiptese alguma, mas deixa um rastro, uma indicao do seu significado no

    mundo. Como mostra o nosso autor: Esta transcendncia que no conhecemos e com a qual

    estamos em relao, em virtude de nossa liberdade, a imaginamos ou pensamos a partir das

    cifras. Mas as cifras nunca so a transcendncia mesma (JASPERS, 1970, p.57)50.

    Com isso, pode-se adiantar que as cifras da transcendncia se apresentam como a

    tomada de conscincia da impossibilidade de se apreender a transcendncia em toda a sua

    dimenso. E se revelam, ao mesmo tempo, como o terreno de abertura para transcendncia,

    que permanece, contudo, na sua singularidade, na sua distncia e no seu mistrio. Nesse

    sentido, importante entender que a decifrao dos sinais cifrados da transcendncia coloca o

    existente em condio de realizar uma possvel vivncia da transcendncia, embora no

    possibilite o conhecimento da transcendncia mesma. Isso porque, como j salientamos, a

    transcendncia nunca se faz objeto para a conscincia.

    Dessa maneira, cabe pensar numa experincia pontual tomada em sua brevidade, pois

    ela devolve no mesmo instante o existente s suas limitaes, as quais transcendeu por um

    momento. Ora, se por um lado a vivncia das cifras permite uma experincia da

    transcendncia, por outro lado traz consigo o horizonte do fracasso humano, pois o existente

    nunca abarca a transcendncia mesma. Logo, a chave de compreenso para se pensar a

    experincia da transcendncia no pensamento jasperiano , pois, colocar o horizonte do

    fracasso como parte integrante dessa vivncia. Segundo Jaspers, o existente se perde quando

    aspira a libertar-se das suas situaes limitantes, ou seja, quando cr possuir, conhecer ou

    viver a transcendncia sem o insucesso:

    A pergunta sobre o que a transcendncia no apresenta resposta alguma que se paute em um possvel conhecimento da transcendncia. A resposta, porm, surge indiretamente ao esclarecer o carter aberto do mundo, o carter inconcluso do homem, e o universal fracasso (JASPERS, 1953, p. 268)51.

    50 JASPERS, Karl. Cifras de la Transcendencia . Madrid: Alianza Editorial, 1970. Traduo nossa. 51 JASPERS, Karl. Balance y perspectiva. In: Mi camino a la filosofia. Madrid: Revista de Ocidente, 1953. Traduo nossa.

  • 29

    A relao entre a existncia e a transcendncia vista sob esta ocular determinante

    para se compreender o pensamento jasperiano sobre Deus. Aqui, importa salientar que a

    transcendncia, nas suas obras tardias, designada por Deus52. Mas, tal como a

    transcendncia, deve-se pensar num Deus oculto, que no se revela, mas se faz patente de

    maneira indireta ao homem, mais precisamente a partir dos sinais cifrados. Percebe-se com

    isso que Jaspers no quer se pronunciar contra Deus, mas contra a pretenso humana de

    representar Deus. Como possvel verificar na seguinte passagem: algo to inapreensvel e

    inimaginvel s pode fazer-se acessvel nas cifras, ainda que de maneira distinta (JASPERS,

    1968, p.220)53.

    Percorrendo esse fio condutor poderamos afirmar que, no sentido de existir da

    realidade emprica, Deus no existe. Toda e qualquer investigao sobre Deus permanecer

    sempre sem objeto. Contudo, importante sobressaltar que, para o nosso autor, negar a

    revelao de Deus no mundo no implica necessariamente negar a existncia de Deus, mas

    indicar um outro caminho para se pensar a manifestao de Deus no mundo. Como escreve:

    Desde de sempre Deus foi pensado em configuraes da existncia no mundo at configurao de uma personalidade que por analogia com o homem. Todavia, todas essas representaes so sempre um vu. Deus no o quer que seja que possamos visualizar (JASPERS, 1987, p.44)54.

    Nesse caso, possvel dizer que a inteno de Jaspers pontuar que Deus, enquanto

    realidade transcendente, no , em nenhum aspecto, algo que se possa conhecer, pois no se

    faz objeto para a conscincia. Isso implica viver de tal modo que se ouse crer na

    transcendncia, pois no temos algum em quem confiar e nenhum mandamento divino,

    mas, to-somente a atitude interior de cada existente que busca, nas cifras, um sentido para

    sua condio humana.

    Essa atitude designada por Jaspers de f filosfica. Uma f que no se estabelece

    como um saber de validade universal, mas to-somente como uma experincia pessoal da f

    52 Pode-se verificar tal designao principalmente nas obras: Iniciao Filosfica (1950), La fe filosfica ante la revelacin (1962) e Cifras de la Transcendencia (Obra pstuma 1970) 53 JASPERS, KARL. La fe filosfica ante la revelacin. Madrid: Editorial Gredos, 1968. Traduo nossa.

    54 JASPERS, Karl. Iniciao filosfica. Lisboa: Guimares Editores, 1987.

  • 30

    na vontade da f. Como ressalta: F o ato da existncia em que se adquire a conscincia da

    transcendncia em sua realidade (JASPERS, 1953, p.20)55.

    Depreende-se disso que a f filosfica se estabelece como uma experincia

    intrinsecamente individual. Isso porque no se vale de revelao alguma e nem de anncios

    revelados. Pode-se dizer que ela se efetiva como a convico ntima de que apesar da

    precariedade humana possvel realizar uma experincia da transcendncia. Assim esclarece

    J. Hersch (1982, p.9), intrprete da filosofia jasperiana:

    A f filosfica, diz Jaspers, uma experincia inaudita. Nenhuma comunidade organizada dela se vale, nenhuma fora social objetiva a apia (...). Quem a viver ficar no meio dos outros, entregue a sua solido e precariedade, tendo como nico apoio a claridade da convico ntima e a permuta com os outros grandes filsofos do passado.

    Nesse nvel de realizao, possvel observar o sentido da distino de fundo que

    reaparece continuamente nos textos de Jaspers entre f na revelao e f filosfica. Segundo o

    nosso autor, a f revelada, confirmada e garantida pela autoridade eclesistica, no est

    vinculada unicamente na confiana em Deus, mas tambm em seu enviado a terra, Jesus, o

    Cristo. Nesse sentido, a f revelada pauta-se tambm no anncio de salvao proclamado por

    Jesus, Filho de Deus.

    Pois bem, se a caracterstica fundamental da f revelada uma certeza, que implica

    em si uma garantia, a f filosfica, por outro lado, no pode ter essa garantia, pois no se

    apia em nenhuma autoridade externa. Da ser possvel dizer que estas duas dimenses se

    distanciam uma da outra unicamente pela vivncia especfica que elas imprimem. Como

    explica Jaspers: Para a f revelada, aquela (a transcendncia ou Deus) o outro que chega

    desde fora e cuja garantia a proporciona sua realidade sensvel no mundo, em igrejas santas,

    em objetos, aes, pessoas ou escritos cannicos (JASPERS, 1968, p.567)56. Diferentemente

    da f revelada, a f filosfica s experimenta a transcendncia em seu ocultamento. Isso

    evidencia que somente o existente, a partir de uma convico interior, poder realizar uma

    experincia da transcendncia. Nesse sentido, pode-se dizer que a f filosfica se configura

    como a substncia de uma vida pessoal.

    Com base nisso, possvel dizer que a inteno de Jaspers mostrar,