vários autores - clássicos do sobrenatural

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Clássicos do Sobrenatural

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  • H.G. Wells - Rudyard Kipling

    Henry James - Edward Bulwer-Lytton

    W.W. Jacobs - Charles Dickens

    Edith Wharton - Bram Stoker

    Joseph Sheridan Le Fanu - M.R. James

    Robert Louis Stevenson - Sir Arthur Conan Doyle

    CLSSICOS DO SOBRENATURAL

    Prefcio, seleo e traduo

    Enid Abreu Dobrnszky

  • ~ 3 ~

    PREFCIO

    Enid Abreu Dobrnszky

    Foi nas trs ltimas dcadas do sculo XVIII que a explorao do sobrenatural

    adquiriu os contornos precisos de um novo subgnero literrio: o romance gtico. De seu

    nascimento participaram tanto o conflito entre o iderio racionalista do Iluminismo, de

    um lado, e as crenas religiosas e supersticiosas, de outro, quanto o aumento dos ndices de

    alfabetizao, que impulsionou a imprensa peridica e popular, na qual se explorava o

    gosto pelas emoes fortes. Nesse sentido, nada melhor do que as proporcionadas por nar-

    rativas ambientadas em cenrios sombrios de castelos mal-assombrados, cheios de passa-

    gens secretas, envoltos em brumas e cobertos por um cu tempestuoso. Criou-se um outro

    mundo, no o de uma natureza melhorada, banhado de sol e coberto de flores, mas seu

    negativo, seu duplo: o Mundo das Trevas, o Outro, habitado por potncias terrveis, ame-

    aadoras, que, por vezes, encontram fendas pelas quais se insinuam no nosso mundo coti-

    diano e revelam aos mortais a existncia e a substncia do Mal neles ocultas. Certamente

    no foi pequena aqui a contribuio de certos aspectos da primeira fase romntica, sobre-

    tudo o gosto pelo Sublime, assim como suas exploraes na pintura, com Piranesi (Pri-

    ses imaginrias, 1745), Fuseli (O pesadelo, 1782), Goya (O sono da razo

    engendra monstros, 1796-98), as vises mticas de William Blake.

    Dentre os pais do novo gnero contam-se principalmente aqueles que lhe deveram a

    fama, como Horace Walpole (O castelo de Otranto, 1764), Ann Radclijfe (Os

    mistrios de Udolpho, 1794), Matthew Gregory Lewis (Ambrosio, ou o Monge,

    1796), Charles Robert Maturin (A vingana fatal, 1807) e principalmente Mary

    Wollstonecraft Shelley (Frankenstein, 1818). Mas outros houve que nessa senda se

    aventuraram esporadicamente, como Walter Scott (The tapestried chamber). E assim

  • ~ 4 ~

    sucederam-se novos cultores das trevas, engendrando numerosa prole e novos ramos, como

    a histria de mistrio, a histria de detetive. Ramos que se entrelaaram com outros mais

    antigos e estabelecidos: poemas como A balada do velho marinheiro, de Coleridge, ou

    os poemas satnicos, na veia byroniana, mostram vestgios identificveis dessa contami-

    nao. E, para no falar das irms Bront principalmente de Emily a autora de O

    morro dos ventos uivantes, em que a unio de erotismo e terror apresentada na sua

    forma mais intensa e elaborada , comparecem at mesmo autores como Jane Austen,

    cujo romance Northanger Abbey (1818) permite uma leitura enviesada, irnica do

    gnero. E o que dizer para abreviar uma lista longa demais, interminvel mesmo

    das modernas histrias em quadrinhos? Batman, de preferncia nas sries desenhadas por

    Frank Miller, ou o da verso cinematogrfica de Tim Burton, primorosamente dark...

    Mas voltemos ao ncleo do sobrenatural, por assim dizer, literrio. A exploso

    de peridicos na era vitoriana foi acompanhada da rpida ascenso das ghost stories

    uma ascenso provavelmente impulsionada pelo vivo interesse suscitado, nos vinte anos

    anteriores, pelo espiritualismo e pelo mesmerismo, os quais, de um lado, alimentaram a

    credulidade popular e, de outro, ao provocar esforos em provar a realidade objetiva dos

    fenmenos sobrenaturais, realimentou o gnero, caso, por exemplo, do famoso conto de

    Conan Doyle, O co dos Baskervilles, em que Sherlock Holmes soluciona, com seus

    mtodos cientficos, um mistrio de origem aparentemente sobrenatural. Uma sntese per-

    feita, essa, de dois opostos: crenas supersticiosas e mtodo indicirio, adequado a um inte-

    lectual esclarecido. Mas no haveria aqui, tambm, algo de quase sobrenatural num

    personagem que se alimenta como um vampiro dos casos de crime, em suma, do

    mal?

    Mas a ambigidade, a bem dizer, est no cerne do gnero: talvez mais do que qual-

    quer outro, ele exige a suspenso da descrena. O jogo entre o verdico e o imaginado

    ou impossvel requer uma adeso incondicional do leitor e, portanto, uma grande mestria

    na tessitura narrativa, de que poucos so capazes. Uns, mais do que outros. Uns, mais

    ingenuamente, diramos, dispostos a convencer o leitor da veracidade da histria mediante

    recursos a detalhes factuais e/ou fico de mero coletor de documentos encontrados por

    acaso. Outros, que preferem sublinhar sua indefinio quanto ao narrado, pontuando-o

    com talvez, parece-me que e expresses semelhantes. Ou seja, a hesitao que consti-

  • ~ 5 ~

    tui a essncia do conto gtico, como observou Tzvetan Todorov: os mecanismos que utili-

    zamos para compreender os acontecimentos da vida cotidiana sero capazes de dar conta

    dos fenmenos narrados, ou ser preciso recorrer a explicaes extraordinrias? E com

    essa incerteza que joga o conto, e o leitor mais adestrado na gramtica narrativa e mais

    familiarizado com o gnero receber uma recompensa proporcionalmente maior.

    A era vitoriana poca de ouro desse gnero produziu mestres de ambos os ti-

    pos: o ingnuo e o sofisticado. A seleo dos contos includos nesta coletnea obedeceu

    alm do critrio inevitvel de preferncia pessoal a uma leitura nesse sentido. Diante

    da bvia multiplicidade de escolhas possveis, optamos pela composio inicial de trs gru-

    pos. O primeiro, formado por contos quase cannicos (para os aficionados) de escritores

    pouco conhecidos (ou absolutamente desconhecidos) do pblico brasileiro, como Sheridan

    Le Fanu, M.R. James, Bulwer-Lytton e W.W. Jacobs. O segundo, de autores mais co-

    nhecidos por obras que no pertencem categoria do sobrenatural, como Conan Doyle e

    H. G. Wells. Por fim, o grupo de contos do sobrenatural escritos por autores pertencentes

    ao cnone literrio de lngua inglesa: Charles Dickens, Rudyard Kipling, Henry James e

    Edith Whar-ton. Estes dois ltimos, embora norte-americanos, pertencem a uma linha-

    gem de pedigree britnico, aquela bem estabelecida na Nova Inglaterra. E Bram Sto-

    ker? Ele aqui est para lembrar ao leitor que esse grande mestre do gnero no escreveu

    apenas o Drcula. Assim como Robert Louis Stevenson, para nos lembrar de que ele

    no deve ser lembrado apenas como o autor de Dr. Jekyll and Mr. Hyde. Esperamos

    que nossas escolhas dem tanto prazer ao leitor quanto o que nos proporcionou a traduo

    desses contos magnficos.

    * * *

    Sheridan Le Fanu (1814-1873), jornalista, romancista e contista ingls conside-

    rado por muitos como o pai do conto fantstico moderno, quem primeiro percebeu o poten-

    cial do gnero. Seu primeiro conto, The ghost and the bonesetter, foi publicado no Du-

    blin University Magazine em 1838, assim como Schalken, the Painter, includo

    nesta coletnea. Graduado em Direito pelo Trinity College (Universidade de Dublin), Le

    Fanu entrou para o corpo editorial do Dublin University Magazine em 1837, ali

  • ~ 6 ~

    iniciando sua carreira de jornalista. Em 1861, tornou-se proprietrio daquele peridico,

    no qual vrias de suas obras foram publicadas em captulos. Embora tido como um dos

    mais populares escritores da era vitoriana, no mais to conhecido e lido atualmente,

    no obstante em 1923 o tambm escritor de contos fantsticos M.R. James tenha publi-

    cado uma coletnea dos contos de Le Fanu, sob o ttulo Madam Crowls ghost and

    other tales of mistery. A ltima coletnea de contos seus publicada foi Carmilla and

    other classic tales of mystery (1996), Leonard Wolf (ed.). Obras mais conhecidas:

    Uncle Silas (1864), uma histria de suspense, e The house by the churchyard

    (1863). O Drcula de Bram Stoker, segundo dizem, foi fortemente influenciado pelo

    conto Carmilla, de Le Fanu, do qual existem verses cinematogrficas.1

    Em alguns dos contos de Le Fanu, os acontecimentos estranhos esto envolvidos

    numa aura religiosa por vezes anticlerical quase, diramos, um grau zero do gnero.

    Schalken, o pintor constitui um dos raros exemplos de sobrenatural com ambientao

    histrica e de explorao do tema da abduo, com sugesto adicional de violncia sexual.

    Junto com o An account of some strange disturbances in Aungier Street (1852), um

    dos seus contos mais conhecidos.

    Edward George Bulwer-Lytton (1803-1873), de famlia abastada, erudito fre-

    qentador de crculos literrios foi amigo de Dickens e de Macaulay , iniciou sua

    carreira literria com a publicao de Ismael: an oriental tale with other poems

    (1820), que lhe rendeu elogios por parte de Sir Walter Scott. Entre suas obras, alm de

    contos fantsticos, encontram-se uma histria social da Inglaterra e uma histria de Ate-

    nas. Foi membro do Parlamento por duas vezes. O romance Pelham; or the adventu-

    res of a gentleman (1828) inaugurou sua carreira de sucesso como escritor de fico.

    Atualmente, mais conhecido como o autor de Os ltimos dias de Pompia (1834).

    1 Carmilla foi publicado na coletnea In a glass darkly (1872); o erotismo, principalmente

    lesbianismo, subjacente histria foi notado por muitos diretores de cinema, entre eles Roger

    Vadim, que dirige a verso cinematogrfica Et mourir de plaisir (1960), com Mel Ferrer, Annette