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  • AS PALAVRAS DE SARAMAGOCatlogo de reflexes pessoais,

    literrias e polticas

    Elaborado a partir de declaraesdo autor recolhidas na imprensa escrita

    Organizao e seleo deFERNANDO GMEZ AGUILERA

  • Eu sou uma pessoa pacfica, sem demagogia nem estratgia. Digo exatamente o que penso. E ofao de forma simples, sem retrica. As pessoas que se renem para me ouvir, e com suaindependncia concordam ou no com o que penso, sabem que sou honesto, que no procuroconquistar nem convencer ningum. Parece que a honestidade no muito usada nos temposatuais. Elas vm, ouvem e se vo contentes como quem tem necessidade de um copo de guafresca e o encontra ali. Eu no tenho nenhuma ideia do que vou dizer quando estou diante daspessoas. Mas sempre digo o que penso. Ningum nunca poder dizer que eu o enganei. Aspessoas tm a necessidade de que se fale com elas com honestidade.

    Jos Saramago, 2003

    Eu sei o que , sei o que digo, sei por que o digo e prevejo, normalmente, as consequnciasdaquilo que digo. Mas no por um desejo gratuito de provocar as pessoas ou as instituies.Pode ser que se sintam provocadas, mas a o problema j delas. A pergunta que fao por que que eu me hei de calar quando acontece alguma coisa que mereceria um comentrio mais oumenos cido ou mais ou menos violento. Se andssemos por a a dizer exatamente o quepensamos quando valesse a pena , teramos outra forma de viver. Estamos numa apatia queparece que se tornou congnita e sinto-me obrigado a dizer o que penso sobre aquilo que meparece importante.

    Jos Saramago, 2008

    Dizem-me que as entrevistas valeram a pena. Eu, como de costume, duvido, talvez porque estejacansado de me ouvir. O que para outros ainda pode ser novidade, para mim se transformou, como passar do tempo, em comida requentada. Ou coisa pior, amarga-me a boca a certeza de queumas tantas coisas sensatas que pude dizer durante a vida no tero, no fim das contas,nenhuma importncia. E por que haveriam de ter? Que significado tem o zumbido das abelhasdentro da colmeia? Acaso lhes serve para se comunicarem umas com as outras?

    Jos Saramago, 2008

    Creio que me fizeram todas as perguntas possveis. Eu prprio, se fosse jornalista, no saberia oque perguntar-me. O mal est nas inmeras entrevistas que tenho dado. Em todo o caso, tenho ocuidado de responder seriamente ao que se me pergunta, o que me d o direito de protestarcontra a frivolidade de certos jornalistas a quem s interessa o escndalo ou a polmicagratuita.

    Jos Saramago, 2009

  • A Jos, in memoriam, razo de vida.E a Pilar, abraando o porvir.

    A Marga, Carla e Alonso, que respirarameste livro e so a respirao dos dias.

  • SUMRIO

    Prefcio Crnica do escritor na rua

    1. QUEM SE CHAMA JOS SARAMAGOAzinhagaAutorretratoLisboaVidaPortugalticaDeusRazoPessimismoSer humanoLanzaroteMorte

    2. PELO FATO DE SER ESCRITORLiteraturaEscritorAutor-narradorEstiloRomanceHistriaMulherObra literria prpriaLeitoresPrmio Nobel

    3. O CIDADO QUE SOUCompromisso

  • ComunismoCidadaniaNoDemocraciaIberismoAmrica LatinaEuropaPolticaMeios de comunicaoDireitos humanosPensamento crtico

  • PREFCIOCrnica do escritor na rua

    A interveno na esfera pblica constitui um dos traos centrais do perfilintelectual de Jos Saramago, um escritor que sempre recusou qualquer torre demarfim, e se manteve distante da introverso. Aonde vai o escritor, vai o cidado,costumava reiterar, resoluto, desfazendo qualquer dvida eventual sobre seucompromisso civil, assumido como imperativo cvico, emanante tanto de suasconvices polticas quanto da impregnao humanista nihil humanum putoalienum mihi que filtrava com brio pelo tecido da sua estrutura cultural e da suamusculatura de incansvel e vigoroso polemista. Como acontecera com Albert Camus,no possvel desagregar a escrita de seus princpios em face das circunstncias darealidade, quaisquer que sejam as consequncias que decorram desse fato. O autorconcentra, sem fissuras, na pessoa que , o feixe de obrigaes derivado de seus atos,tanto os especficos literatura, como os prprios do exerccio da cidadania ou osconcernentes vida pura e simples, porque, para Saramago, a obra o romancista, eo romancista resulta da projeo da pessoa que o anima. Desse modo, aresponsabilidade tambm sua variante consangunea, concretizada num arraigadosenso do dever afirma uma das categorias que ajudam a definir seu carter,marcando o conjunto de valores que orientaram sua conduta tica, mas tambm seufazer criativo e reflexivo.

    A partir da sua ecloso como narrador, no incio dos anos 1980, desenvolveu umacrescente e intensa tarefa de efuso de ideias, juzos e denncias em foros e meios decomunicao internacionais, at tornar sua voz uma referncia global, particularmenteidentificada com o pensamento crtico, a defesa dos excludos e a reivindicao dosdireitos humanos. A concesso do prmio Nobel de Literatura em 1998, em vez demodular seu discurso enftico, contribuiu para acentu-lo, para estimular sua conduta eampliar o alcance das suas palavras. Hoje quase no se poderia entender

  • adequadamente a figura do escritor sem levar em considerao sua faceta pblica, que,vista em perspectiva, adquiriu a forma de uma espcie de sustentado comportamentoativista, aproveitando a plataforma oferecida pela imprensa e pelas tribunas paradifundir suas ideias e combater os desvios que, a seu ver, perturbam a ordem do mundoe o bem-estar da humanidade.

    Mediante declaraes, entrevistas e manchetes contundentes, Saramagocompartilhava consideraes sobre sua prpria criao ou tratava abertamente dequestes palpitantes de nosso tempo, elaborando um rico sistema de pensamento deraiz radical, mas tambm forjando-se uma face social que parte substantiva da suarobusta figura. E praticou isso de tal modo que, ao mesmo tempo que contribua paracriar uma opinio e desenhar sua silhueta do mundo, ia construindo sua visibilidadepblica como intelectual engajado, mais alm do contundente espao ocupado pelohomem de letras, de quem Harold Bloom diria em 2001:

    Saramago extraordinrio, quase um Shakespeare entre os romancistas. No h nenhum ficcionista vivo nosEstados Unidos, na Amrica do Sul ou na Europa que tenha a sua versatilidade. Dir-se-ia to divertido quantopungente. Sei que um marxista, mas no escreve como um comissrio e ope-se aos impostores da Igrejacatlica. O seu trabalho ultrapassa tudo isso.

    Controvertido e racionalista, sentencioso e imaginativo, original e provocador,poltico e combativo, sabia articular e mostrar uma refinada autoconscincia sobre seutrabalho, de maneira que, atravs das suas manifestaes, pode-se rastrear uma finapercepo analtica das chaves da sua obra, cujos juzos e informaes contribuempara esclarec-la e compreend-la. Alm de se questionar sobre o papel do escritor,pensava em voz alta sobre a motivao de seus livros, vinculava-se sua rvoregenealgica literria especfica, elucidava as relaes e diferenas entre Histria efico ou entre Literatura e compromisso, aclarava sua concepo simultanesta datemporalidade, desmitificava a criao e decifrava seu processo de formalizaotextual, a singularidade do seu estilo ou as reservas com que se aproxima dos gneros,enquanto apostava em inovaes ou em desenvolvimentos fronteirios.

    Mas sua capacidade de ponderao e de penetrao no sentido oculto das coisassoube se deslocar da escrita para se pr a servio da investigao nas zonas obscurasda Histria, do ser humano e dos mecanismos de poder, de controle ideolgico e deinjustia que condicionam nosso entorno, determinando o sentido da nossa vida.Resistindo s ideias recebidas, afiou seu bisturi, iluminado por uma pertinazconscincia insatisfeita instalada na interrogao permanente, numa confessadadesconfiana e num pessimismo voltairianos que lanam um olhar desgostoso, irnicoe melanclico sobre o real. Estendeu seus testemunhos, diversificados quanto a seusinteresses no s profissionais, mas, com frequncia, sociais e polticos , aoterreno dos valores ticos e da quebra dos direitos humanos. Censurou o fracasso darazo como moduladora do nosso comportamento individual e coletivo, denunciou oesvaziamento cerimonial da democracia cujo paradigma contemporneo ele

  • questionava e a hegemonia global do poder econmico por exigncia de ummercado regido por cdigos autoritrios e amorais, num mundo que, crescentemente, sefaz desumano.

    No foram alheios a suas preocupaes o tratamento das suas difceis relaescom Portugal, a defesa do iberismo transcontinental, a reprovao da Igreja, a anlisesevera do papel desempenhado pelos canais de informao, o reconhecimento doserros do marxismo e a reivindicao, a partir da sua condio de militante comunista,de um novo pensamento de esquerda, construdo em tenso com os desafioscontemporneos e capaz de superar as obsoletas frmulas do passado. Em definitivo,nas observaes expressas na imprensa, compartilhou fadigas filosficas e polticascom a literatura a qual, como fez Sartre, tambm no priva desses contedos , aomesmo tempo que mostrou sua vocao para falar e dialogar franca e polemicamentecom seu presente.

    A prodigalidade com que o autor do Ensaio sobre a cegueira se relacionou comos meios de comunicao, sem levar em conta limites geogrficos, serviu-lhe paratransladar amplamente ideias e apreciaes, apoiado numa viva capacidade decomunicao, num notrio didatismo e na inclinao para difundir e compartilhar suasimpresses, como se se tratasse de um estrito ato de militncia, ou, antes, de plenoexerccio da sua liberdade e responsabilidade social. O prprio escritor sempre foimuito consciente da frequncia e da amplitude com que se difundia seu pensamento:Minhas ideias so conhecidssimas, nunca as disfarcei nem as ocultei. Minha vida to pblica que se conhece tudo o que pensei sobre cada acontecimento. Sem dvida,um mecanismo lubrificado que, por seu colossal volume e ressonncia, sustentou umaefusiva relao de atrao com o pblico. Jos Saramago soube trabalhar os registroscomunicativos manejando ideias fortes que problematizam as convenes, favorecidaspor uma linguagem acessvel, direta, sem aparente elaborao no entanto, sempredigerida intelectualmente , filtrada pelas regras do jornalismo e apoiada em grandesmetforas e sugestivas imagens. Alm das suas inquietudes morais, sociopolticas eliterrias, em jornais e revistas, rdios e televises, em encontros e conferncias,deixou pormenorizado testemunho da sua biografia, das suas convices e da suandole.

    Nesta compilao que agora oferecida ao leitor h um amplo repertrio depalavras do escritor portugus, extradas exclusivamente de jornais, revistas e livrosde entrevistas cinco publicaes de referncia para conhecer o escritor, querecolhem suas conversas com Armando Baptista-Bastos, Juan Arias, Carlos Reis,Jorge Halpern e Joo Cu e Silva, alm de uma monografia de Andrs Sorel , numleque cronolgico que abarca da segunda metade dos anos 1970 at maro de 2009. Ostrechos selecionados foram obtidos a partir da consulta de um vasto corpus dedeclaraes publicadas em diversos pases: Portugal, Espanha, Brasil, Itlia,

  • Inglaterra, Estados Unidos, Argentina, Cuba, Colmbia, Peru Naturalmente, apaisagem resultante no pretende nem poderia ser completa, mas exaustiva esuficientemente significativa do cabedal de atitudes e pensamento com que o prmioNobel portugus exerceu sua fecunda responsabilidade cvica atravs da mdia, empermanente viglia na hora de meditar e dialogar com seu tempo, construindo umautntico espao de resistncia com capacidade de ecoar globalmente. Sua vertente decriador de opinio pblica fica patente nas pginas que seguem, somente umametonmia em relao incomensurvel mina de materiais jornalsticos que Saramagogerou mundo afora.

    Sempre alerta hora de interagir com a Histria e com o contexto, disposto asubverter os grandes relatos e a se manifestar publicamente com a possibilidade dealcanar largas camadas da sociedade, compareceu diante da imprensa sem cansao ecom incomum generosidade, movido pela necessidade imperiosa de exprimirabertamente o que tinha a dizer, sem artifcios, inibies ou duplo linguajar. E essaampla rede de comunicao que ele teceu serviu-lhe, por sua vez, de incentivo epretexto para refletir consumada e minuciosamente, tambm com continuidade, tantosobre a sua produo como sobre a deriva da sua poca. Saramago no sentiapreferncia pelo diagnstico buclico, nem se deve rastrear seu pensamento no espaoacomodado do consenso. Em geral, ele procurava o desassossego, porque entendia asfunes criativas como instrumentos a servio de um projeto cvico e humanizador,cuja fase prvia exige o desmascaramento e a hostilidade crtica que combata o desvio,o erro. Do mesmo modo que a escrita exige a perturbao do idioma coisificado e darealidade estabelecida mediante a incorporao de novas formas lingusticas econfiguraes mentais no codificadas at o momento da sua apario, pensar significadesestabilizar-se interiormente e desestabilizar o discurso consolidado.

    Nesse sentido, o reiterado pessimismo que o caracteriza provocado pelo mal-estar com que reagia ante a situao do mundo e a deriva dos seres humanos deveser entendido no como uma claudicao, mas como uma energia que questiona aordem convencional, que penetra e faz cambalear a fachada da aparncia e do statusquo para modificar a perspectiva e incorporar outros ngulos, leituras e protagonistas.Antecipa, pois, uma sacudida que desencadeia novas reconfiguraes, com as quais seprocura avanar, melhorar, apesar do ceticismo que envolve sua viso de mundo, massem atenaz-la nem estrangul-la. Como em seu momento Gramsci apontara, trata-se detornar compatvel o pessimismo da razo com o otimismo da vontade. Solidamenteancorado numa arquitetura racional ilustrada, na coerncia moral praticada ao longo dasua vida e na reinterpretao das ideias polticas comunistas matizadas por certaheterodoxia , Saramago soube alojar sua obra e suas reflexes no lugar doquestionamento e da desconstruo do clich.

    este, enfim, um livro dos muitos possveis que poderiam ser propostos sob aorientao que o anima e , tambm, uma obra aberta, que no se esgota na literalidadeque adota aqui, com a vontade, no obstante, de esboar uma arquitetura ideolgico-

  • social saramaguiana suficiente, de conformar uma identidade coerente. Os textos seapresentam organizados cronologicamente a partir de etiquetas ou ncleos temticosque, em si, constituem conceitos recorrentes sobre os quais o escritor se pronunciou edotou de sentido. Possuem, portanto, a virtualidade de atuar como articulaes emtorno das quais se desenvolve sua personalidade cultural, anotando alguns dos ndulosinabalveis do seu mapa literrio, intelectual e vital. Por sua vez, essas etiquetasconceituais se apresentam agrupadas em trs grandes epgrafes que submergem naidentidade de Saramago como pessoa, como escritor e como cidado engajado.Naturalmente, os compartimentos no so estanques, nem no que concerne classificao das citaes nem no que se refere localizao das entradas. O leitortalvez se inclinasse por outra ordenao, mas com toda certeza a ordem dos fatores noalteraria o produto final: a imagem fiel que projetam da personagem.

    Avaliadas com o horizonte que o transcurso dos anos oferece, estas declaraesfragmentrias constituem hoje uma valiosa mina de informao e de apresentao deideias e valores ticos, assim como uma estimulante prtica de dissidncia e decontestao pblica. Nelas est Saramago, o testemunho de um livre-pensador no qualecoam formidavelmente as tenses, anseios e fracassos de nosso tempo. Mas omosaico oferecido neste livro tambm agrega um compndio de sabedoria. Cada peadesse mosaico supe um facho de luz e de sentido, configurando a imagem de umapersonalidade brilhante e complexa, capaz de radiografar o ser humano e suacircunstncia, de diagnosticar seus males e sugerir antdotos ou de confirmardecepes e frustraes. Saramago observa, analisa e tira concluses poderosasformuladas mediante frases robustas e sugestivas.

    Essa coleo de agudezas, algumas vezes carregadas de matria informativa, eoutras, por seu fundo sentencioso como corresponde atitude grave e irnica comque o autor de Ensaio sobre a cegueira enfrentava a vida , construdas comoaforismos e mximas prprias da literatura paremiolgica gnmica, tem o propsito deoferecer uma espcie de levantamento topogrfico do pensamento e da viso de mundodo escritor, expresso atravs de suas prprias palavras, tal como foram recolhidas epublicadas pelas mass media, com o imediatismo, a espontaneidade e a expressividadecaractersticos desse modo de comunicao escrita.

    Se preferir, o leitor tambm pode considerar o florilgio como um autorretratosobre cujo trao possvel perceber os lineamentos maiores de sua fisionomia comoromancista, pessoa e cidado: uma crnica do seu imaginrio profissional e vital. Doconjunto, desprende-se um tecido compacto e denso, alinhavado por uma invarivelvontade de inteligncia, de compreenso e de musculoso dilogo com a realidade,entre cujos fios no ser difcil reunir uma boa representao de perdurveis dictamemorabilia, nascidos da faculdade de aforista do prmio Nobel portugus. Tchekhov,que se recusou a trabalhar com heris e no cessou em seu af de dessacralizar aliteratura e o ofcio do escritor traos compartilhados por Saramago , afirmou:

  • A originalidade de um autor se apoia no s em seu estilo, mas tambm em suamaneira de pensar.

    Fernando Gmez Aguilera

  • CATLOGO DE REFLEXES

  • 1. QUEM SE CHAMA JOS SARAMAGO

    Atravs das suas frequentes intervenes nos meios de comunicao, Saramagoabordou as questes mais diversas, proporcionando juzos e informaes sobre suaconcepo de mundo e sua prpria trajetria de vida, sobre suas ideias e seussentimentos. Explorando esses materiais na perspectiva do tempo, possvelrecompor pea por pea as linhas principais do mosaico da sua prpria epopeia, doseu autorretrato moral, mas tambm das circunstncias mais destacadas da suavida. Sem dvida, trata-se de uma atitude coerente num escritor que no hesitou emreivindicar a si mesmo, enquanto pessoa, como matria da sua escrita e que praticouum alto grau de exposio pblica.

    Nas inmeras entrevistas que concedeu, assim como nas reportagens a elededicadas, encontram-se comentrios sobre o peso da infncia em seu imaginrio eem sua conformao individual, sobre os avatares da sua formao autodidata,sobre seu percurso pessoal ou sobre os vnculos irredutveis mas complexos comPortugal. Saramago compartilhou publicamente com seus admiradores suasconvices e valores, desde as razes de seu clebre pessimismo a suas impresses arespeito da morte ou ao papel que atribua tica e razo no mbito daconvivncia e das relaes sociais e polticas.

    Aqui e ali, neste ou naquele jornal, leem-se reflexes e observaes suas sobreos traos definidores do seu carter: melanclico e reservado, solidrio erelativista, orgulhoso e irnico, sempre propenso indignao. Fala da sua famliae do seu laicismo, da sua concepo da felicidade como harmonia, da importnciaque concede bondade, do seu materialismo, da doena ou da sua inclinao a seinterrogar sobre tudo o que o rodeia. A viso de conjunto a de um escritorpermanentemente aberto a praticar a introspeco e a compartilhar seu pensamentocom os leitores, ou, se preferirem, com a opinio pblica: disposto a dizer quem Jos Saramago.

  • AZINHAGA

    A aldeia por excelncia: o imaginrio da origem e da identidade. Embora suafamlia fosse mudar para Lisboa quando Saramago tinha apenas um ano e meio deidade, o menino e o jovem Z no deixariam de voltar todo ano, nos perodos defrias, a seu vilarejo de nascimento, ao Casalinho de seus avs maternos, Josefa eJernimo, duas referncias fundamentais em sua vida. Azinhaga: lugar de rvoresressoantes como oceanos, animais resplandecentes e chiqueiros cuidados por umhomem alto, silencioso e enxuto, que compartilhava com o neto, sob uma figueira,estrelas e relatos nas noites de um tempo quase sem nada, bendito, porm, pelaplenitude do reino das pequenas coisas.

    A aldeia representa o lugar da pobreza e da dignidade rigorosa, a negao doartifcio, a despensa da melhor memria, o espao emocional e fsico devorado pelocalendrio e suas laceraes. O menino Z catando espigas nos milharais, levandoao pescoo o saco de pano, onde guardava o nfimo tesouro da necessidade. Zfurtando saborosas melancias e meles. Z trepando nas figueiras mais doces domundo. Z ajudando o av Jernimo a alimentar os porcos nas pocilgas ou acultivar favas na horta Azinhaga: o contato nu com a natureza, correrias com osprimos, amores preliminares, lama nos ps descalos e solides melanclicas, aliberdade de andar sem rumo, desde o amanhecer, pelos olivais prateados, pelaslagoas de Paul do Boquilobo ou junto das guas purificadoras do Almonda, paracima e para baixo da sua beira fabulosa ou dentro do seu caudal, pescando ouremando a bordo da canoinha o rio que umedece a fbula adolescente do escritormas tambm seus versos iniciticos Uma pletora, enfim, de emoes e vivnciasque sero recuperadas, como vimes luminosos, em algumas das suas melhorescrnicas recolhidas em A bagagem do viajante ou em Deste mundo e do outro. E comomateriais de As pequenas memrias, livro em que Saramago, apanhando recordaesda infncia e da adolescncia, registra e d f de seu genoma humano e moral: ondearticula literariamente sua prpria mitologia fundacional, convertendo-a parasempre numa mitologia literria.

  • At os meus vinte e tantos anos, passei todas as frias na aldeia. At os trinta etantos, eu voltava a Azinhaga pelo menos uma vez ao ano. Em Azinhaga estoguardadas minhas impresses fundamentais. Quando eu chegava aldeia, a primeiracoisa que fazia era tirar os sapatos. E a ltima coisa que fazia, antes de regressar aLisboa, era cal-los. Os sapatos, e a ausncia deles, se tornaram um smbolo muitoforte. Na aldeia, todos andavam descalos, menos os homens que usavam suas botas detrabalho.A gente, na verdade, habita a memria, O Estado de S. Paulo, So Paulo, 21 de setembro de 1996 [Entrevista aJos Castello].

    [Durante as estadas em Azinhaga, quando criana] eu saa de casa pela manh edava longas caminhadas. Andava, andava sem parar. No fui desses gnios que, aosquatro anos de idade, escrevem histrias. Apenas via as coisas do mundo e gostava dev-las. Nunca fui de grandes imaginaes. Eu no me interessava por fantasias, maspelo que ocorria. Se um sapo me aparecia, eu ficava a v-lo, quieto, a observ-loatentamente como o maior tesouro do mundo. Convivi muito com animais: bois, porcos,carneiros, cabras. Convivi com seus cheiros e com essa espcie de vida nadasofisticada que os animais levam. Eu gostava de estar com a natureza sem abstrair delanada mais do que ela . Eu no era um menino muito imaginativo.A gente, na verdade, habita a memria, O Estado de S. Paulo, So Paulo, 21 de setembro de 1996 [Entrevista aJos Castello].

    Minha aldeia era rodeada de olivais, com oliveiras antigas de troncos enormes.Elas desapareceram. Senti-me como se tivessem me roubado a infncia. Hectares ehectares de oliveiras desapareceram para dar lugar a culturas mais lucrativas. A aldeiano mudou tanto, foi a paisagem que mudou. E essa mudana radical na paisagem foi,para mim, uma espcie de golpe no corao.A gente, na verdade, habita a memria, O Estado de S. Paulo, So Paulo, 21 de setembro de 1996 [Entrevista aJos Castello].

    Regressar a Azinhaga, agora, regressar a outro lugar que j no o meu. Agente, na verdade, habita a memria. A aldeia em que nasci s existe em minhamemria.A gente, na verdade, habita a memria, O Estado de S. Paulo, So Paulo, 21 de setembro de 1996 [Entrevista aJos Castello].

    No gosto muito da retrica, mas h que diz-lo de alguma forma: as temporadasna aldeia eu chamo de minha formao espiritual. Nesse sentido, lembro-me que,quando criana, at os catorze ou quinze anos, o que eu gostava era dos passeios pelocampo, sozinho, pelo rio, nas colinas dali, sozinho.Juan Arias, Jos Saramago: El amor posible, Barcelona, Planeta, 1998.

  • Era disso que eu gostava, da solido, e parar para ver alguma coisa, um lagartoque estava ali, ou um pssaro, ou nada, ficar sentado na beira do rio, matar umas rs.Gostava dessas pequenssimas coisas, a sensao do lodo nos ps descalos, da qualfalo num conto, que uma sensao que sinto ainda agora: os ps naquele lodo do rio,a terra ensopada. curioso como ficou gravado daquele tempo uma coisa to banalcomo a sensao do lodo entre os dedos dos ps. Mas assim que me lembro, domesmo modo que das pequenssimas nascentes que estavam na beira do rio e da guaque brotava da nascente, que removia a areia com seu impulso, todas essaspequenssimas coisas. Meus avs no se preocupavam nem um pouco com meucomportamento. Se tivessem sido gente da cidade talvez houvessem ficadopreocupadssimos, mas eles sabiam que eu saa de casa de manh ou de tarde e podiaficar horas e horas fora. Depois voltava com a cabea cheia de coisas, mas no comuma espcie de intuio da natureza, do mistrio da vida e da morte No, no, eu eramuito mais um pequeno animal que se sentia vontade naquele lugar.Juan Arias, Jos Saramago: El amor posible, Barcelona, Planeta, 1998.

    Na aldeia, no rio que passava e passa mas j no o mesmo: agora umesgoto, isso acontece com quase todos os rios do mundo , eu andava descalo e olodo se insinuava, subia. Posso ter esquecido muitas outras coisas, porm as maissimples ficaram: a fogueira em casa dos meus avs, os passeios no campo, o banho nosrios, os porcos, tudo isso, tudo, tudo, tudo.Saramago entre nosotros, Magna Terra, Guatemala, n. 8, maro-abril de 2001 [Entrevista a J. L. PerdomoOrellana e Maurice Echeverra].

    H imagens que esto a. E a imagem das coisas tem muito a ver com a pessoa quesomos, com o olhar que temos, com a sensibilidade que transportamos dentro de ns.Quando me encontrei com a natureza na minha aldeia de Azinhaga, eu era um menino.Era um menino simples e pobre, nem mesmo precoce. Sensvel e srio, isso sim. E ummenino srio era um bicho meio esquisito. Estava cheio de melancolia, s vezes detristeza. Gostava da solido. Os longos percursos pelos olivais, ao luar. Essa imagemda natureza que sofreu a interveno do cultivo do homem era minha imagem domundo. Quando fui para Lisboa, com dois anos, passava os dias sonhando com omomento em que poderia voltar aldeia, que era onde eu descobria as coisaspequenas. Trepar numa rvore pela primeira vez! Creio que a sensao foi idntica do senhor Hillary quando chegou ao Everest e ficou ali, no teto do mundo. Eu meagarrei com fora ao tronco, com medo porque a rvore se mexia, mas o mundo eraaquele e no outra coisa.En el corazn de Saramago, Elle, Madri, n. 246, maro de 2007 [Entrevista a Gema Veiga].

    [Em Azinhaga] onde havia milhares de olivais h, hoje, milhares de hectares demilho. Parece-me timo, uma vez que toda a gente precisa de milho, mas eu precisava

  • dos meus olivais. No digo que me cause dor, mas uma coisa que me causa umdesprazer. Simplesmente, aquela no a minha terra. De um lado, esto os rios (oAlmonda e o Tejo) e a Lezria, mas, do outro lado, tudo desapareceu.Jos Saramago: Eram tempos, eram tempos, Viso, Lisboa, n. 714, 9 de novembro de 2007 [Entrevista a SaraBelo Lus].

    Vivemos num determinado lugar, mas habitamos outros lugares. Eu vivo aqui, emLisboa, quando c estou, e vivo em Lanzarote quando l estou. Mas habitar, habitar,habito naquilo que seria ou a aldeia. No se trata, porm, desta aldeia, antes aaldeia da minha memria.Jos Saramago: Eram tempos, eram tempos, Viso, Lisboa, n. 714, 9 de novembro de 2007 [Entrevista a SaraBelo Lus].

    Somos muito mais a terra onde nascemos [e onde fomos criados] do queimaginamos.Jos Saramago: Somos ms de la tierra donde hemos nacido de lo que imaginamos, La Provincia, Las Palmas deGran Canaria, 28 de maro de 2009 [Correspondncia de Gregorio Cabrera].

  • AUTORRETRATO

    Um escritor contra a indiferena, que no deixava indiferentes nem seusleitores nem seus ouvintes. Literato de sucesso e voz prpria tardios a partir de1980, quando j estava com 58 anos , Saramago se reconhecia, no entanto, numavida de trabalho tenaz, determinada tanto por suas origens humildes como por suaformao acidental e autodidata. Escrita e implicao, autor, pessoa e cidadoencontravam continuidade e se fundiam num s gesto de afinidade e coerncia. Aliteratura, a militncia poltica comunista ou a associao da palavra pblica com opapel de intelectual incmodo interessado pelo signo do seu tempo conviviam sematritos, favorecendo sinergias.

    De conscincia insatisfeita, direto na expresso de seus juzos, fustigador dopoder, do autoritarismo econmico-financeiro e da Igreja, defendeu a bondade comoo argumento maior para uma revoluo. Ns o ouvamos vez ou outra apelar para arazo, reivindicar o senso comum e a prevalncia da tica como cdigo reguladordas condutas e das relaes sociais e interpessoais. Desafeto da inveja, seguro de simesmo e protagonista de uma experincia de vida intensa, itinerante, prestigiosa einfluente no mundo, confessava que com a velhice radicalizou suas posies eacentuou a liberdade da sua expresso pblica.

    Numa crnica publicada no incio dos anos 1970, recolhida em A bagagem doviajante com o ttulo de Sem um brao no inferno, o autor ressalta seu gosto pelaironia, uma caracterstica relevante da sua personalidade, que se esforava pordosar, e empregava como contraponto o desgosto que a realidade lhe causava:

    Esta expresso sisuda e seca que passeio pelas ruas engana toda a gente. No fundo, sou um bomsujeito, com uma s confessada fraqueza de m vizinhana: a ironia. Ainda assim, procuro trocar-lheas voltas e trato de traz-la trela (as aliteraes dos nossos trisavs esto outra vez na moda) paraque a vida no se me torne em demasia desconfortvel. Mas devo confessar que ela me vale comoreceita de bom mdico sempre que a outra porta de sada teria de ser a indignao. s vezes o impudor tanto, to maltratada a verdade, to ridicularizada a justia, que se no troo, estouro justssimofuror.

    Assim era Jos Saramago: disciplinado, tenaz, ateu, cosmopolita, austero,melanclico, reservado, militante, coerente, firme em suas convices, srio, severo,

  • solitrio por temperamento, racionalista, spero, ctico, tmido, terno, antipedante,implacvel, pessimista, polmico, seco, leal, sincero, generoso, duro por fora efrgil por dentro, elegante, frugal, compassivo, inconformista, trabalhador,independente, distante, tico, imaginativo, comunista, solidrio, orgulhoso,reflexivo, possuidor de um acentuado senso da dignidade, irnico, rigoroso,beligerante, meticuloso, relativista, portugus, orgulhoso, sbrio, sensvel, honesto,incmodo, sarcstico, individualista Um homem possudo, desde a juventude, poruma insacivel curiosidade cartogrfica, que defendia com firmeza suas opiniessem medir as consequncias, acostumado a dizer o que pensava e a meditar o quedizia, disposto a forjar seu perfil pblico nos meios de comunicao de todo omundo, uma tarefa que assumiu como mais uma obrigao de seu engajamento, attomar a aparncia de uma espcie de trabalho missionrio laico.

  • Se h qualquer coisa de que me defenda mas a uma espcie de cuidadopessoal extremo daquilo que ns chamamos a demagogia. Tenho um horrorvisceral demagogia, fico arrepiado com tudo quanto tenha a ver como isso.No uso literatura como poltica, Tempo, Lisboa, 7 de janeiro de 1982.

    Nunca me preocupou muito ser outra coisa do que aquilo que sou.No uso literatura como poltica, Tempo, Lisboa, 7 de janeiro de 1982.

    Para mim o mundo uma espcie de enigma constantemente renovado. Cada vezque o olho estou sempre a ver as coisas pela primeira vez. O mundo tem muito maispara me dizer do que aquilo que sou capaz de entender. Da que me tenha de abrir a umentendimento sem baias, de forma a que tudo caiba nele.Jos Saramago: O mundo um enigma constantemente renovado, O Jornal, Lisboa, 28 de janeiro de 1983[Entrevista a Francisco Vale].

    Sou uma pessoa com dois defeitos graves: sou um melanclico e um sarcstico.So dois defeitos muito vulgares de andarem juntos.Sou a pessoa mais banal deste mundo, NT, Lisboa, 23 de maio de 1984 [Entrevista a Alexandre Correia].

    A ltima coisa que faria neste mundo seria psicanalisar-me.Sou a pessoa mais banal deste mundo, NT, Lisboa, 23 de maio de 1984 [Entrevista a Alexandre Correia].

    Sou um campons que se disfara suficientemente bem para poder viver na cidadesem olharem muito para mim.Jos Saramago: A vida um romance, Tempo, Lisboa, 7 de dezembro de 1984 [Entrevista a Pedro Correia].

    A felicidade apenas uma inveno para tornar a vida mais suportvel.Jos Saramago: La felicidad es tan slo una invencin para hacer la vida ms soportable, La Vanguardia,Barcelona, 25 de fevereiro de 1986 [Entrevista a Jos Mart Gmez].

    Sou um ateu com uma atitude religiosa e vivo muito em paz.A facilidade de ser ibrico, Expresso, Lisboa, 8 de novembro de 1986 [Entrevista a Clara Ferreira Alves, FranciscoBelard e Augusto M. Seabra].

    Costuma-se dizer que a solido enriquecedora, mas isso depende diretamente dapossibilidade de se deixar de estar sozinho.Jos Saramago: A Pennsula Ibrica nunca esteve ligada Europa, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, n.227, 10-16 de novembro de 1986 [Entrevista a Ins Pedrosa].

    Parafraseando Pessoa, eu diria que o nome o nada que tudo.Jos Saramago: A Pennsula Ibrica nunca esteve ligada Europa, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, n.227, 10-16 de novembro de 1986 [Entrevista a Ins Pedrosa].

    A nossa vida feita do que ns fazemos por ela, e do que temos que aceitar dos

  • outros.Jos Saramago: A Pennsula Ibrica nunca esteve ligada Europa, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, n.227, 10-16 de novembro de 1986 [Entrevista a Ins Pedrosa].

    Damos voltas e voltas, mas, na realidade, s h duas coisas: ou voc escolhe avida, ou se afasta dela.Saramago: La ce, un eufemismo, El Independiente, Madri, 29 de agosto de 1987 [Reportagem de AntonioPuente].

    Eu a defino, a ironia, como uma mscara de dor. uma defesa que os que somosgente frgil carregamos.Saramago: La ce, un eufemismo, El Independiente, Madri, 29 de agosto de 1987 [Reportagem de AntonioPuente].

    Tenho uma coisa pssima que uma grande dificuldade em dizer que no, porqueacho que dizer que no demonstrar uma certa forma de ingratido.Jos Saramago: Gosto do que este pas fez de mim, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, n. 354, 18-24 deabril de 1989 [Entrevista a Jos Carlos de Vasconcelos].

    Duvidei sempre que a realizao dos sonhos da humanidade coincidisse com omeu tempo de vida. No cultivo o otimismo histrico, sou um ctico. Gostava de no oser, mas a toda a hora recebo razes do mundo para o ser e para o ser agravadamentecom os anos.O cerco a Jos Saramago, Expresso, Lisboa, 22 de abril de 1989 [Entrevista a Clara Ferreira Alves].

    A minha posio de constante interrogao.O cerco a Jos Saramago, Expresso, Lisboa, 22 de abril de 1989 [Entrevista a Clara Ferreira Alves].

    Talvez eu tenha uma ideia um pouco doentia de um sentido da responsabilidade,como se fosse minha uma responsabilidade que coletiva. Quer dizer, uma pessoa temuma responsabilidade consigo mesma, mas possui outra que no consegue identificar. Emais uma sensao de responsabilidade que eu diria ontolgica, como se uma pessoafosse uma onda do mar que est no mar, que se aproxima da praia e que como a nossavida. E por detrs de ns existe uma massa de gua que nos empurra e ns no somosningum sem essa quantidade de gua. Se nos separarem dela, a onda que somos nosignifica nada, porque faltaria a [teno] do mar, o movimento da mar que nosempurra. Ento, este sentimento da mar que nos empurra tem a ver um pouco com osentido coletivo da cultura e da histria.Jos Saramago: El deber de ser portugus, El Pas (Suplemento El Pas Semanal), Madri, 23 de abril de 1989[Entrevista a Sol Alameda].

    Penso que para se ser um ateu coerente faz falta um alto grau de religiosidade. Oatesmo no incompatvel com uma postura religiosa. Nem se trata de substituir Deus

  • pela humanidade. mais um sentimento de uma grandeza imensa que tem a ver com oUniverso. E isto suficiente, porque ainda que eu no coloque Deus nesse Universo, aminha posio o que chamamos de transcendente, uma palavra que se costuma utilizarpensando em Deus e que eu utilizo noutra direo. O que me transcende a matria, aTerra, toda ela, com os seus mares e as suas multides. E a minha religiosidadecomea, se voc preferir, na relao que tenho com o meu pas.Jos Saramago: El deber de ser portugus, El Pas (Suplemento El Pas Semanal), Madri, 23 de abril de 1989[Entrevista a Sol Alameda].

    O empenhamento poltico [a candidatura a deputado do Parlamento Europeu em1989] mais aparente do que real, dado que a minha colocao na lista exclui qualquerhiptese de eleio. Por outro lado, isso foi deliberado, ainda que no houvesse outrasrazes, uma vez que, de fato, no sou nem quero ser poltico, porque a minha atividade outra. No nasci para ser poltico, embora sempre tenha tido uma atividade ligada aessas questes.

    Mas neste caso, o convite que me foi feito tem mais a ver com o fato de o meunome ser relativamente conhecido e de uma lista de candidatos ao Parlamento Europeuque uma campanha um pouco margem das preocupaes imediatas do nosso povo.A jangada de Saramago, Vida Mundial, Lisboa, 7-14 de junho de 1989 [Entrevista a Cristina Gomes].

    Penso saber que o amor no tem nada que ver com a idade, como acontece comqualquer outro sentimento. Quando se fala de uma poca a que se chamaria dedescoberta do amor, eu penso que essa uma maneira redutora de ver as relaes entreas pessoas vivas. O que acontece que h toda uma histria nem sempre feliz do amorque faz que seja entendido que o amor numa certa idade seja natural, e que noutra idadeextrema poderia ser ridculo. Isso uma ideia que ofende a disponibilidade de entregade uma pessoa a outra, que em que consiste o amor.

    Eu no digo isto por ter a minha idade e a relao de amor que vivo. Aprendi queo sentimento do amor no mais nem menos forte conforme as idades, o amor umapossibilidade de uma vida inteira, e se acontece, h que receb-lo. Normalmente, quemtem ideias que no vo neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como fatorde realizao total e pessoal, so aqueles que no tiveram o privilgio de viv-lo,aqueles a quem no aconteceu esse mistrio.Jos Saramago: Essa coisa misteriosa que sempre a mulher, Mxima, Lisboa, n. 25, outubro de 1990 [PorLeonor Xavier].

    No acho que a biografia duma pessoa seja interessante. O que que interessa euter me casado uma vez e ter me divorciado? Quando falamos da nossa vida pessoal,inevitavelmente estamos a falar da vida de outras pessoas. Acho que tem de haver umrecato. Se eu disser que fui casado e me divorciei, no falo s de mim, falo de algumque no tem o direito de ser chamado a essas questes.Jos Saramago: Essa coisa misteriosa que sempre a mulher, Mxima, Lisboa, n. 25, outubro de 1990 [Por

  • Leonor Xavier].

    Corre por a que sou vaidoso. Mas eu acho que a vaidade a coisa mais bemdistribuda deste mundo. Vaidosos somos todos ns. A questo est em saber se halguma razo para o ser ou se se vaidoso sem razo nenhuma.O Jornal, Lisboa, 8 de janeiro de 1991.

    Talvez eu seja um pouco orgulhoso, seco, frio em relao s pessoas, mas tambm verdade que sou extremamente sensvel com os meus prximos: famlia e amigos.O Jornal, Lisboa, 8 de janeiro de 1991.

    Sou um esprito profundamente religioso. E digo-lhe, usando um pouco da minhaironia habitual, que preciso ter-se um altssimo grau de religiosidade para fazer umateu como eu. No sentido etimolgico de religio, tomada como aquilo que liga, o quesinto essa grande ligao a tudo, quilo que est aqui mo, que somos ns, ao quenos rodeia, esta terra pequena que a nossa terra, a outra maior, o continente, o globo.Deus quis este livro, Pblico, Lisboa, 2 de novembro de 1991 [Entrevista a Torcato Seplveda].

    H duas palavras que no se podem usar: uma sempre, outra nunca.Deus quis este livro, Pblico, Lisboa, 2 de novembro de 1991 [Entrevista a Torcato Seplveda].

    E se verdade que estou muito consciente de que sou para usar a mesmaexpresso que agora mesmo usamos muito amado nesta terra [Portugal] sou, seiisso , tambm verdade que sou muito odiado. E esse dio, ou averso, ou antipatia,nas suas manifestaes ou nas suas causas, que so a inveja, o cime, vrias coisasenvenena a atmosfera. Em momentos agudos sinto isso e nessa altura sinto-me mal.Sinto-me mal porque no compreendo, sobretudo porque no compreendo.Os livros do nosso desassossego: Jos Saramago, Setembro, Lisboa, n. 1, janeiro-maro de 1993 [Entrevista a JosManuel Mendes].

    Dizer, como tem aparecido em certa imprensa pouco cuidadosa da verdade, queeu sou ou me considero um exilado poltico simplesmente uma estupidez de queno sou responsvel. Comparar-me a Salman Rushdie, como tambm se tem feito, outra e ainda maior estupidez. As palavras devem ser respeitadas, tanto quanto averdade das situaes.Jos Saramago: A escrita narcsica por excelncia, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, n. 613, 13 de abril de1994 [Entrevista a Jos Carlos de Vasconcelos].

    O nico valor que considero revolucionrio a bondade, que a nica coisa queconta.Saramago: La bondad es el nico valor que considero revolucionario, Baleares, Palma de Mallorca, 20 de abril de1994 [Reportagem de Pilar Lillo].

  • A grande sabedoria, penso eu, ter um sentido relativizado de tudo. Nodramatizar nada.A existncia segundo Saramago, Revista Dirio, Madeira, 19 de junho de 1994 [Entrevista a Luis Rocha].

    No creio em Deus e nunca tive crise religiosa. Mas no posso ignorar que,embora no seja crente, minha mentalidade crist.Jos Saramago, contra toda intransigencia, Diario de Mallorca, Palma de Mallorca, 28 de outubro de 1994[Entrevista a Hctor A. de los Ros].

    Nunca esperei nada da vida, por isso tenho tudo.Jos Saramago: Nunca esper nada de la vida, por eso lo tengo todo, Faro de Vigo, Vigo, 20 de novembro de1994 [Entrevista a Rogelio Garrido].

    Gosto muito de subir as montanhas. A praia no, mas o alto, o esforo.Yo no entiendo, El Mercurio, Santiago do Chile, 20 de novembro de 1994.

    No, eu no sou solitrio. s vezes gosto de dizer que sou. Mas me dou conta deque aguento muito bem a solido.Yo no entiendo, El Mercurio, Santiago do Chile, 20 de novembro de 1994.

    Creio que o lugar da transcendncia de todas as coisas o crebro humano. Aliest tudo, embora no saibamos bem como funciona.Yo no entiendo, El Mercurio, Santiago do Chile, 20 de novembro de 1994.

    Sim, a primeira vez que a Espanha trata como coisa sua um escritor portugusque nunca renunciaria a sua nacionalidade. Vou pela Pennsula Ibrica como se fosseminha casa. Isso me d muita alegria. Faz uns meses, em Vigo, eu estava numa livrariae apareceu um portugus que se dirigiu a mim com cara de poucos amigos dizendo:Eles j te levaram, mas no te esqueas que continuas sendo nosso.Jos Saramago: Soy mucho ms ibrico que antes, Cambio 16, Madri, n. 1229, 12 de junho de 1995 [Entrevista aRamn F. Reboiras].

    No fao fora nenhuma para ser cristo, mas, ao contrrio de outras pessoas, nodigo que a marca do cristianismo desapareceu do meu crebro. No omito minhaformao, como prova O Evangelho segundo Jesus Cristo. Nele est presente ocristianismo na sua expresso catlica. Posso estar fora da Igreja, mas no do mundoque a Igreja criou.Saramago escreve a parbola da indiferena, O Estado de S. Paulo, So Paulo, 18 de outubro de 1995 [Entrevistaa Antonio Gonalves Filho].

    Primeiro sou portugus, segundo sou ibrico e s em terceiro lugar, e quando med vontade, sou europeu.Jos Saramago, a partir de su propia vida, La Nacin, Buenos Aires, 21 de janeiro de 1996 [Reportagem de Saba

  • Lipszyc].

    certo que fao sempre prevalecer a razo. Mas sou uma pessoa muito sensvelaos sentimentos, s emoes, embora possa no parecer. Quem me olha, eu sei, v umacara um pouco severa. Posso garantir que existem muitas coisas escondidas atrs dela.A gente, na verdade, habita a memria, O Estado de S. Paulo, So Paulo, 21 de setembro de 1996 [Entrevista aJos Castello].

    A tristeza que voc v em mim causada pelo irracionalismo, pelos fanatismosque se disseminam pelo mundo. Mas tambm compaixo. No fundo somos todos unspobres-diabos. Ento, h uma compaixo que se interroga: por que no podemos ser deoutra maneira? Por que no conseguimos melhorar? Por que no conseguimos ser bons?A gente, na verdade, habita a memria, O Estado de S. Paulo, So Paulo, 21 de setembro de 1996 [Entrevista aJos Castello].

    verdade que o neorrealismo era de fato puritano penso que a palavra no excessiva , mas no creio que o pudor me tenha chegado por essa via. Resulta maisde uma reserva natural minha, um modo de ser, no direi reservado porque sou, aomesmo tempo, bastante expansivo, mas a verdade que mesmo a minha expansividadetem sempre uma retenue, inclusive a alegria. Sou incapaz de mostrar uma alegriaprofunda como seria natural , mas isso tambm no significa ausncia deespontaneidade. como se a todos os meus sentimentos e, sobretudo, os sentimentosltimos, a expresso da alegria ou da pena, aquilo que levaria gargalhada ou lgrima, eu os retivesse.Baptista-Bastos, Jos Saramago: Aproximao a um retrato, Lisboa, Publicaes Dom Quixote, 1996.

    , justamente, essa melancolia, essa coisa que eu tinha quando era mido,quando ficava triste nas festas em que toda a gente se divertia, l na aldeia, ou ondequer que fosse. Os foguetes, a msica a tocar, os rapazes e as mooilas como sedizia dantes, agora j no h mooilas, claro, uma subespcie feminina que seextinguiu , toda a gente felicssima e entrava-me sempre uma tristeza muito grande,muito grande.

    Lembro-me de que era adolescente e inventei, um dia, uma dor num joelho parano ir a um baile. , ou era, porque no o ser tanto agora, esta espcie de dificuldadeem comunicar, ou em comunicar-me, ou provavelmente em receber aquilo que algumtivesse para me dar, uma espcie de isolamento no propositado. Julgo que isto tinhamuito a ver e aquilo que disso resta, provavelmente ainda tem essa raiz com umadificuldade de linguagem que tenho, de articulao de sons, de certas slabas ouconsoantes que me saem mal e a que tenho, muitas vezes, de dar uma volta paraencontrar a maneira de introduzi-las.Baptista-Bastos, Jos Saramago: Aproximao a um retrato, Lisboa, Publicaes Dom Quixote, 1996.

  • O que a Pilar [del Ro] para mim difcil dizer-te. Secretria no , ajuda-meno que eu preciso e ela pode, mas isso no a torna minha secretria. Nem eu queria quea minha mulher fosse a minha secretria. Eu diria que vivi tudo o que vivi para poderchegar a ela. A Pilar deu-me aquilo que eu j no esperava vir a ter. Eu conheci-a em1986 e j vamos a caminho de sete anos de autntica felicidade. Eu olho para o quevivi antes e vejo tudo isso como se tivesse sido uma longa preparao para chegar aela. Portanto, dizer-te que a mulher, a amante, a companheira, a amiga, tudo isso soapenas tentativas de dizer o que e nada mais. A nossa relao outra coisa, no cabemuito nessas categorias.Baptista-Bastos, Jos Saramago: Aproximao a um retrato, Lisboa, Publicaes Dom Quixote, 1996.

    s vezes, o ter destri o ser.Yo nunca quise ser nada, La Vanguardia, Barcelona, 1o de setembro de 1997 [Entrevista a Ima Sanchs].

    O outro uma complementaridade que nos faz maiores, mais inteiros, maisautnticos. essa a minha vivncia.Yo nunca quise ser nada, La Vanguardia, Barcelona, 1o de setembro de 1997 [Entrevista a Ima Sanchs].

    A vida, que parece uma linha reta, no o . Construmos somente uns cinco porcento da nossa vida, o resto fazem os outros, porque vivemos com os outros e s vezescontra os outros. Mas essa pequena porcentagem, esses cinco por cento, o resultadoda sinceridade consigo mesmo.Yo nunca quise ser nada, La Vanguardia, Barcelona, 1o de setembro de 1997 [Entrevista a Ima Sanchs].

    Eu continuo dizendo, a esta idade de 75 anos, que continuo sendo neto dos meusavs.Jos Saramago, escritor: Quiero darle a Lanzarote lo que ella me pida, Lancelot, Lanzarote, n. 752, 19 dedezembro de 1997 [Entrevista a Jorge Coll].

    [Meu sobrenome, Saramago, vem] do apelido da famlia do meu pai. Quando elefoi me registrar, o funcionrio perguntou: Como se chama o filho?. E meu pairespondeu: Como o pai, que, segundo a lei, era Jos de Sousa. Mas o funcionrio,por sua conta, acrescentou o apelido que conhecia. No soubemos disso at que entreipara a escola e meu pai pediu no registro civil uma certido de nascimento. Ficou dealma partida, gostava tanto de Sousa, mais fino. Teve ento de entrar com um processoburocrtico complicado para que reconhecessem que ele tambm se chamavaSaramago e que aquele menino era seu filho. Deve ser um caso quase nico, em que ofilho que deu o nome ao pai.Jos Saramago, El Mundo (Suplemento La Revista de El Mundo), Madri, 25 de janeiro de 1998 [Entrevista aElena Pita].

    No gosto de falar de felicidade, mas de harmonia: viver em harmonia com nossa

  • conscincia, com nosso entorno, com a pessoa que queremos bem, com os amigos. Aharmonia compatvel com a indignao e a luta; a felicidade no, a felicidade egosta.En busca de un nombre, La Jornada (Suplemento La Jornada Semanal), Cidade do Mxico, 8 de maro de 1998[Entrevista a Juan Manuel Villalobos].

    Tive um sonho aos sete ou oito anos, que posso recordar como o sonho maisbonito da minha vida. Era um riacho, uma corrente dgua, muito transparente, muitolmpida; no fundo, umas pedrinhas pequenas, muito brancas; de um lado, numa margem,um campo, um campo de relva; do outro lado, outro campo de relva; e, no fundo,bosques. Eu, nu, dentro dgua, corria em direo nascente. Era uma viagem bonita.Gostaria de sonh-lo de novo, embora eu j no seria o mesmo. No seria inocente,mas o sonho de algum mais velho.El sueo de las olas de piedra, Uno, Mendoza, 13 de setembro de 1998 [Entrevista a Jaime Correas].

    Prefiro a noite e prefiro o dia. Prefiro a noite para dormir, mas sou um animalmuito diurno. No tenho nem tive uma vida noturna. Sempre disse que a noite feitapara a gente ir para a cama e dormir sossegado. O dia para fazer tudo o que h:trabalhar, olhar. No invento as coisas, no fao da noite dia, mas posso dizer quegosto da noite, porque vou dormir, no porque me sinta mais ativo.El sueo de las olas de piedra, Uno, Mendoza, 13 de setembro de 1998 [Entrevista a Jaime Correas].

    Minhas ideias so conhecidssimas, nunca as disfarcei nem as ocultei. Minha vida to pblica que se conhece tudo o que pensei sobre cada acontecimento.Lo ms importante del mundo es saber decir no a la injusticia, ABC, Madri, 9 de outubro de 1998 [Entrevista aDolors Massot].

    Se no nos movemos para onde est a dor e a indignao, se no nos movemospara onde est a proposta, no estamos vivos, estamos mortos.Saramago vino a Mxico para tomar partido por las vctimas de tantas humillaciones, La Jornada, Cidade doMxico, 9 de outubro de 1998 [Reportagem de Mnica Mateos].

    Sou portugus e nada mais do que portugus, mas por matrimnio, amizades etrabalho, minha ptria cresceu e agora alcana a Espanha e muitos outros pases daIbero-Amrica.Saramago responde ao Vaticano, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 10 de outubro de 1998.

    No sei o que dizer, s que fiz tudo que fiz com plena conscincia de que estavame expressando como um ser humano que busca relatar sua identidade. Preciso indagarque diabos estou fazendo aqui, na vida, na sociedade e na Histria.Saramago responde ao Vaticano, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 10 de outubro de 1998.

    O cristianismo tentou nos convencer de que devamos amar uns aos outros. Eu

  • direi uma coisa muito clara: no tenho a obrigao de amar todo o mundo, mas sim derespeit-lo.La literatura no incumbe a la Santa Sede, Reforma, Cidade do Mxico, 10 de outubro de 1998.

    Quero recuperar, saber, reinventar a criana que eu fui. Pode parecer uma coisaum pouco tonta, um senhor nesta idade estar a pensar na criana que foi. Mas porqueeu acho que o pai da pessoa que eu sou essa criana que eu fui. H o pai biolgico, ea me biolgica, mas eu diria que o pai espiritual do homem que eu sou a criana queeu fui.A minha casa Lanzarote, Pblico, Lisboa, 14 de outubro de 1998 [Entrevista a Alexandra Lucas Coelho].

    Creio que a sabedoria consiste em saber renunciar e ter conscincia disso, de que impossvel conhecer nosso prprio nome.Un Nobel sobre el volcn: Reflexiones sobre m mismo, La Provincia, Las Palmas de Gran Canaria, 15 de outubrode 1998.

    Sempre me interessou mais o que est perto do que o que est longe. O que estperto uma pedra ou a lagartixa. O que est longe a montanha; eu a vejo, mas noposso toc-la. No quero dizer que no gosto de olhar para os vulces, mas me importasentir o que posso pegar ou olhar de perto. Por isso est aqui o jardim. Tenho de olhar,tenho de me dar conta de que esta pequena erva no estava aqui ontem e hoje est.Un Nobel sobre el volcn: Reflexiones sobre m mismo, La Provincia, Las Palmas de Gran Canaria, 15 de outubrode 1998.

    Eu entendo a felicidade como uma relao de harmonia, como uma relaoestreita da pessoa com a sociedade, com os que lhe so prximos e com o meioambiente.Jos Saramago: Voy a seguir siendo el mismo tras recibir el premio, La Tribuna, Tegucigalpa, 7 de novembro de1998 [Entrevista a Antonio Dopacio].

    Toda a minha vida eu fui muito mais uma pessoa melanclica.Jos Saramago: Escribir es un trabajo: El escritor no es un ser extraordinario que est esperando a las hadas, ElPas (Suplemento El Pas Semanal), Madri, 29 de novembro de 1998 [Entrevista a Sol Alameda].

    Posso dizer que minha lembrana mais intensa, essa que, quando me ponho alembrar sempre chega em primeiro lugar, a da minha aldeia.Jos Saramago: Escribir es un trabajo: El escritor no es un ser extraordinario que est esperando a las hadas, ElPas (Suplemento El Pas Semanal), Madri, 29 de novembro de 1998 [Entrevista a Sol Alameda].

    Se tenho algum motivo de vaidade que sempre disse o que penso em qualquerlugar.Jos Saramago: Escribir es un trabajo: El escritor no es un ser extraordinario que est esperando a las hadas, ElPas (Suplemento El Pas Semanal), Madri, 29 de novembro de 1998 [Entrevista a Sol Alameda].

  • A minha vida est ligada a quatro pontos cardeais: Azinhaga do Ribatejo, ondenasci; Lisboa, onde vivi; Lavre, onde verdadeiramente me encontrei como escritor e oNobel comeou a ser conquistado; e Lanzarote, a ilha onde atualmente resido.Folha de Montemor, Montemor-o-Novo, novembro de 1998.

    Ser velho s ter mais anos, ter vivido mais, ter mais coisas a dizer porque setem mais coisas para lembrar. Creio que se algum chega idade em que se pode dizerque velho, o mnimo que se pode esperar das pessoas que respeitem o trabalho, aconscincia e o direito de viver com dignidade nessa velhice [] no quero dizer comisso que h que respeitar e ouvir com muita ateno os mais velhos pelo fato de seremmais velhos, no. H velhos que no so nada respeitveis. Portanto, se eu penso que um erro fazer da juventude um valor, tambm no gostaria que se pensasse que estouquerendo dizer que a velhice um valor, porque no . Valores so, quando so, osseres humanos, independentemente da idade que tenham.La Jornada, Cidade do Mxico, 3 de dezembro de 1998 [Entrevista a Juan Manuel Villalobos].

    Tudo to relativo O que a fama?, o que o sucesso?, o que o triunfo?Parece que sim, que tudo isso alguma coisa, mas se levarmos em conta que temosuma pequena vida, que, mesmo quando ela longa, sempre pequena, tudo resulta sernada. Se considerarmos que a eternidade no existe e que existe menos ainda aeternidade das coisas que fazemos, que tudo precrio, que o que hoje amanh noser, se levarmos em conta isso tudo, creio que a fama no nada.La Jornada, Cidade do Mxico, 3 de dezembro de 1998 [Entrevista a Juan Manuel Villalobos].

    Do mesmo modo que s vezes digo que, em lugar da felicidade, creio naharmonia, penso que o amor o encontro da harmonia com o outro.La Jornada, Cidade do Mxico, 3 de dezembro de 1998 [Entrevista a Juan Manuel Villalobos].

    Com todas as minhas fraquezas, sou uma pessoa muito coerente. Em nenhummomento da minha vida visei o que antes [na entrevista] chamei de triunfo, nojornalismo ou no que fosse. Nem mesmo quando comeava a escrever. Nunca, nunca,nunca. Fiz cada dia o que tinha de fazer. No pensava: Eu agora fao isto porquequero chegar quilo e, quando chegar quilo, quero fazer algo mais para chegar maislonge. Uma estratgia, uma linha, uma ttica, no, jamais.

    Destes meus 76 anos at onde puderem alcanar minha memria e minhaslembranas, o que vejo isto: uma pessoa que viveu. Viver, viver de forma simples,fazendo o que tinha de fazer, nada mais. Sem nenhuma ideia de vir a triunfar no quequer que fosse. Talvez por nunca ter querido nada, tenho tudo. E quando digo que nuncaquis nada quero dizer que no tive nenhuma ambio, fui uma pessoa sem ambio.Ganar el Premio Nobel es como ser Miss Universo, El Mundo, Madri, 6 de dezembro de 1998 [Entrevista aManuel Llorente].

  • Ter como objetivo vital o triunfo pessoal tem consequncias. Mais cedo ou maistarde, tu te tornas mais egosta, mais concentrado em ti mesmo, insolidrio.Ganar el Premio Nobel es como ser Miss Universo, El Mundo, Madri, 6 de dezembro de 1998 [Entrevista aManuel Llorente].

    Eu falo de outro triunfo, o triunfo que significa que tu podes te dizer: no te trastenunca nem traste ningum. E isso o melhor que h, melhor que o prmio Nobel. Tupodes te olhar quando te barbeias de manh e dizer: gosto deste senhor.Ganar el Premio Nobel es como ser Miss Universo, El Mundo, Madri, 6 de dezembro de 1998 [Entrevista aManuel Llorente].

    -me indiferente o conceito de felicidade, para mim tem mais importncia o quechamo de serenidade e harmonia []. A serenidade tem muito de aceitao, mastambm algo de autorreconhecimento dos teus limites. Viver em harmonia no significaque no tenhas conflitos, mas que podes conviver com eles com serenidade.Juan Arias, Jos Saramago: El amor posible, Barcelona, Planeta, 1998.

    Minha modesta e simples opinio que h que deixar as pessoas serem como so.Vivendo em suas diferenas e a partir de seus prprios pressupostos culturais.Juan Arias, Jos Saramago: El amor posible, Barcelona, Planeta, 1998.

    Compreender no perdoar. Do meu ponto de vista, h coisas que podem sercompreendidas, mas isso no significa que por uma espcie de necessidade, quase umaespcie de automatismo, se compreendo, perdoo.Juan Arias, Jos Saramago: El amor posible, Barcelona, Planeta, 1998.

    Quando nos Cadernos de Lanzarote eu me pergunto onde acabam meus ces eonde comeo eu, ou onde eu acabo e onde comeam eles, no fundo tem, no sei, muito aver com uma espcie de sentimento pantesta, de que no falamos. Eu pego no chouma pedra e olho para ela como uma coisa que eu precisaria entender e s vezes digo:bom, entre a pedra que tenho aqui e a montanha que est no horizonte, quero a pedra.Por que tenho a casa cheia de pedras? H muita imaginao e fantasia nisso tudo.Quando falo assim de uma pedra uma iluso minha, porque uma coisa inerte,insensvel. Mas se a pego, se a tenho na mo, j algo que pertence minha prpriafamlia, porque no uma pedra de Marte, uma pedra da Terra, que o lugar ondeestou.Juan Arias, Jos Saramago: El amor posible, Barcelona, Planeta, 1998.

    Minhas alegrias so sempre sbrias.Juan Arias, Jos Saramago: El amor posible, Barcelona, Planeta, 1998.

    [A minha timidez vem] da infncia. Tem razes antigas. Uma delas a minha

  • gaguez.Jos Saramago, balano do ano Nobel: O que vivi foi mais importante que escrever, Jornal de Letras, Artes eIdeias, Lisboa, n. 761, 1o de dezembro de 1999 [Entrevista a Jos Manuel Rodrigues da Silva].

    A grande vitria da minha vida sentir que, no fundo, o mais importante de tudo ser boa pessoa. Se pudesse inaugurar uma nova Internacional, seria a Internacional daBondade.Jos Saramago, balano do ano Nobel: O que vivi foi mais importante que escrever, Jornal de Letras, Artes eIdeias, Lisboa, n. 761, 1o de dezembro de 1999 [Entrevista a Jos Manuel Rodrigues da Silva].

    Eu tenho um problema de timidez que se resolve com a multido. Estou mais vontade a falar para 3 mil pessoas do que para trs. Aquilo que paralisaria um tmidoqualquer, a mim At costumo dizer que Jesus Cristo ressuscitou ao terceiro dia e eu terceira palavra. Ento, quando digo que no tenho qualquer talento para relaespblicas, verdade. Em primeiro lugar, porque sou um tmido. Pode no parecer, massou. E essa timidez tanto mais notria quanto menor o nmero de pessoas para quemestiver a falar.Jos Saramago, balano do ano Nobel: O que vivi foi mais importante que escrever, Jornal de Letras, Artes eIdeias, Lisboa, n. 761, 1o de dezembro de 1999 [Entrevista a Jos Manuel Rodrigues da Silva].

    O corpo uma condio do esprito. No sei o que o esprito. Em que momentoo esprito entrou no corpo, isso eu no sei. A sabedoria no vem s da experincia oucom os conhecimentos que a pessoa acumula. Tem a ver com uma harmonia, que no passividade. pertencer ao mundo, ter conscincia de pertencer vida e de ser partedo Universo. E, no fundo, tentar ser bom.Antes el burcrata tpico era un pobre diablo, hoy registra todo, La Nacin, Buenos Aires, 13 de dezembro de 2000[Entrevista a Susana Reinoso].

    Vivemos para tentar dizer quem somos. Lembro-me da frase de Albert Camus:Se queres ser reconhecido, s dizeres quem s. Creio que no sabemos quemsomos. O que algum faz, no fundo, muito mais importante do que o que sabe sobre simesmo.Antes el burcrata tpico era un pobre diablo, hoy registra todo, La Nacin, Buenos Aires, 13 de dezembro de 2000[Entrevista a Susana Reinoso].

    H duas coisas na vida que cada dia no posso suportar. Uma viver sem saberonde estamos. Sim, estamos na Terra, no sistema solar, na galxia, mas realmente ondeestamos. A outra ter o sentimento de no ter podido fazer algo para que o mundomudasse.Entrevista a Jos Saramago, Alphalibros, Mendoza, 2000 [Entrevista a Jorge Enrique Oviedo].

    Quanto mais velho me vejo, mais livre me sinto e mais radicalmente me expresso.Soy un grito de dolor e indignacin, ABC (Suplemento El Semanal), Madri, 7-13 de janeiro de 2001 [Entrevista a

  • Pilar del Ro].

    As palavras que com maior frequncia digo a mim mesmo so estas: Nunca tepermitas ser menos do que s.Soy un grito de dolor e indignacin, ABC (Suplemento El Semanal), Madri, 7-13 de janeiro de 2001 [Entrevista aPilar del Ro].

    Aparentemente, sim, estou inteiro [apesar de conhecer as feridas do mundo]. Masquem me conhece bem sabe que sangro por dentro. Todos os dias a todas as horas. Sou,em carne e em esprito, um grito de dor e indignao.Soy un grito de dolor e indignacin, ABC (Suplemento El Semanal), Madri, 7-13 de janeiro de 2001 [Entrevista aPilar del Ro].

    Se pararmos para pensar nas pequenas coisas, conseguiremos entender as grandes.Jos Saramago: La globalizacin es el nuevo totalitarismo, poca, Madri, 21 de janeiro de 2001 [Entrevista angel Vivas].

    O que eu sou? Pessimista, indignado, ctico, inconformista? So quatro maneirasde dizer a mesma coisa. Digamos que sou um quarto de cada, e o total, o que vs.Jos Saramago narra el ocaso de una civilizacin: la nuestra, Planeta Humano, Madri, n. 35, janeiro de 2001[Entrevista a Ana Tagarro].

    Quando eu morrer se pusessem uma lpide no lugar onde ficarei, poderia seralgo assim: Aqui jaz, indignado, fulano de tal. Indignado, claro, por duas razes: aprimeira, por j no estar vivo, o que um motivo bastante forte para indignar-se; e asegunda, mais sria, indignado por ter entrado num mundo injusto e ter sado de ummundo injusto. Mas temos de continuar, de continuar andando, temos de continuar.Saramago entre nosotros, Magna Terra, Guatemala, n. 8, maro-abril de 2001 [Entrevista a J. L. PerdomoOrellana e Maurice Echeverra].

    Creio no respeito s crenas de todo mundo, mas gostaria que as crenas de todomundo fossem capazes de respeitar as crenas de todo mundo.Saramago entre nosotros, Magna Terra, Guatemala, n. 8, maro-abril de 2001 [Entrevista a J. L. PerdomoOrellana e Maurice Echeverra].

    As evocaes primignias, as primeiras percepes da vida, de seu risco, de seusdesprendimentos, so determinantes porque produzem imagens que deixam tatuagens eafloram sem nos darmos conta em todo processo artstico.Jos Saramago: La moral insurrecta, Revista Universidad de Antioquia, Medelln, n. 265, julho-setembro de 2001[Entrevista a Amparo Osorio e Gonzalo Mrquez Cristo].

    Se no me interesso pelo mundo, este bater na minha porta cobrando.Jos Saramago: Lo que es obsceno es que se pueda morir de hambre, ABC, Madri, 22 de setembro de 2001[Correspondncia de Fulgencio Arias].

  • Eu sou ateu, mas sempre me senti atrado pelo fenmeno religioso. A religio meinteressa como instituio de poder que se exerce sobre as almas e os corpos.Saramago, el pesimista utpico, Turia, Teruel, n. 57, 2001 [Entrevista a Juan Domnguez Lasierra].

    Eu tenho uma tese nada cientfica sobre o pensamento. H um pensamento ativo,isto , eu estou pensando numa coisa e, portanto, posso, dentro de cinco minutos, maisou menos, reproduzir o que estou pensando; mas h outro pensamento subterrneo quetrabalha por sua conta, isto , que tem muito pouco a ver com o que est acontecendo.H um pensamento que tenho quando estou dirigindo um carro, por exemplo, e essepensamento chegar a uma cidade, portanto sigo uma estrada, e h outro pensamento,por baixo, que de vez em quando sobe superfcie do outro. O que chamamos deintuio, no meu entender, no mais que o resultado desse trabalho subterrneo que svezes sobe e aparece. Chamamos isso de intuio, algo que no nos passava pelacabea, pois s por ela poderia passar. O que acontece que no o percebemos, no o que chamo de pensamento ativo, esse que conduzo como conduzo um carro. Aimaginao talvez tenha alguma coisa a ver com isso.Jos Saramago: La izquierda no tiene ni una puta idea del mundo, Veintitrs, Buenos Aires, 7 de fevereiro de2002 [Entrevista a Eduardo Mazo].

    Procura a tua prpria verdade e, se crs t-la encontrado, obedece-lhe.Ningum queira ser um bom autor se no foi um bom leitor, Jornal da Madeira, Madeira, 15 de maio de 2002[Correspondncia de Carla Ribeiro].

    S o amor nos permite nos conhecer.Jos Saramago: Slo el amor nos permite conocernos, El Peridico de Aragn, Zaragoza, 15 de janeiro de 2003[Correspondncia de Luz Sanchs Madrid].

    Ns no somos feitos de uma pea. Sou por natureza uma pessoa melanclica,contemplativa e tmida, que teve de vencer a sua timidez e enfrentar as situaes. E aomesmo tempo sou ativo na militncia, sem perder essas caractersticas.O mundo de Saramago, Viso, Lisboa, 16 de janeiro de 2003 [Entrevista a Jos Carlos de Vasconcelos].

    Somos matria e nada mais. Uma parte dessa matria foi capaz de criarconscincia. Mas tudo o que somos crebro. A est tudo.Jos Saramago: La honestidad no est de moda, La Nacin, Buenos Aires, 11 de maio de 2003 [Entrevista aSusana Reinoso].

    Eu me considero o nufrago de um barco que afunda. A pessoa est a ponto de seafogar, mas h uma tbua a que se agarra. a tbua dos princpios. Todo o resto podedesmoronar, mas, agarrado a ela, o nufrago chegar a uma praia. E, depois, com essatbua, poder construir outro barco, evitando cometer os erros de antes. Com essebarco tentar chegar a outro porto.Jos Saramago: La honestidad no est de moda, La Nacin, Buenos Aires, 11 de maio de 2003 [Entrevista a

  • Susana Reinoso].

    A sabedoria consiste, no fundo, em ter uma relao pacfica com o que est forade ns, com a natureza. Para meu av, bastava saber o nome das rvores, dos animais eter uma ideia aproximada do tempo. Com quatrocentas ou quinhentas palavras se vivia.Pode ser que tenhamos de reconhecer que a sabedoria cabe nessas poucas palavras eque, quando comeamos a entrar nos matizes, tudo se diversifica. s vezes, as palavrasfazem que nos detenhamos nelas.Jos Saramago: La honestidad no est de moda, La Nacin, Buenos Aires, 11 de maio de 2003 [Entrevista aSusana Reinoso].

    O mundo do socialismo pode ruir, mas temos de continuar mantendo nossosprincpios, no posso me desprender deles.En la izquierda hay un desierto de ideas, El Universal, Cidade do Mxico, 16 de maio de 2003 [Entrevista aAlejandro Toledo].

    Tudo na minha vida aconteceu tarde, mas, como tive e continuo tendo a sorte deuma vida longa, foi-me permitido viver o que em circunstncias diferentes no teriasido possvel.Yo no he roto con Cuba, Rebelin, Havana, 12 de outubro de 2003 [Entrevista a Rosa Miriam Elizalde].

    No sou niilista, sou simplesmente relativista. Andr Comte-Sponville, em seuDicionrio filosfico, coloca as coisas em seu devido lugar: o niilismo a filosofia dapreguia ou do nada, o relativismo a filosofia do desejo e da ao. Os que dizem quesou niilista no sabem ler ou, se sabem, no entendem o que leem.Soy un relativista, Vistazo, Guaiaquil, 19 de fevereiro de 2004 [Entrevista a Lola Mrquez].

    Penso que, para voltar a falar do paraso, eu s consideraria um paraso aceitvelse pudesse encontrar l os animais, e mais concretamente os ces.A arte, o homem e a sociedade, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, n. 873, 17 de maro de 2004 [Entrevistaa Bruno Caseiro].

    Quando eu tinha dezoito anos, lembro de ter dito uma coisa absolutamenteimpensvel num rapaz dessa idade, que foi: O que tiver de vir, s minhas moschegar. Creio que essa foi, de uma maneira inconsciente, a regra de ouro da minhavida.Soy un comunista libertario, El Pas, Madri, 26 de abril de 2004 [Entrevista a Mara Luisa Blanco].

    Sou uma pessoa feliz, que no buscou a felicidade, mas que, quem sabe, minhasabedoria ou minha cincia infusa fez que eu estivesse no momento e no lugar ondealgo poderia acontecer.Soy un comunista libertario, El Pas, Madri, 26 de abril de 2004 [Entrevista a Mara Luisa Blanco].

  • Se minhas crticas no prestam porque esto contaminadas pelo passado, melhorno perdermos o tempo com elas.La lucidez de Saramago, La Prensa (Suplemento semanal La Prensa Literaria), Mangua, 1o de maio de 2004[Reportagem de Pablo Gmez].

    Nem as derrotas nem as vitrias so definitivas. Isso d uma esperana aosderrotados, e deveria dar uma lio de humildade aos vitoriosos.No quiero un mundo de ganadores, La Voz del Interior on-line, Crdoba, novembro de 2004 [Reportagem deAlejandro Mareco e Edgardo Litvinoff].

    -me completamente impossvel ler numa tela de computador. Lamento isso. Soudo tempo do livro, do papel. Voc pode deixar cair uma lgrima na pgina. maisdifcil deixar cair uma lgrima num computador. Creio que o livro ainda vai durar.Saramago afirma que hay que vivir a la contra al inaugurar la Feria del Libro de Sevilla, El Pas, Madri [Edio deAndaluzia], 13 de maio de 2006 [Correspondncia de Alberto Belausteguigoitia].

    Gosto de msica, ouo-a continuamente. Os clssicos, claro, mas tambm cantorescomo Jacques Brel oua-se Les vieux ou Jarrive ou Leonard Cohen, emuitssimos mais []. Gosto da boa msica brasileira e portuguesa, e tenho uma boacoleo de discos de uma e de outra.Jos Saramago fala de seu novo livro, Don Giovanni, e de sua paixo pela pera, poca, So Paulo, n. 419, 29 demaio de 2006 [Entrevista a Lus Antnio Giron].

    Estou sempre preocupado aqui [no jardim da sua casa de Lanzarote] com que ospssaros tenham gua. So coisas tolas, mas algum tem de se encarregar, porque seno tm gua aqui encontram-na em outro lugar; mas no, eu quero que os pssarostomem gua aqui e ponho gua limpa para eles, e a gua est ali. Por isso creio quetenho um vnculo natural, espontneo, com o sentir a paisagem, o cu, as nuvens. Viviuma relao com a natureza que se deu naturalmente: um recanto, uma rvore, o rio.Coisas que so o prprio mundo. No a natureza abstrata: a cobra, o sapo Notem nenhuma importncia Serpentes, lagartos que importncia tm. Para muitos,talvez, nenhuma. Mas, para mim, tm toda.Jos Saramago: Retrato de un hombre con olivos, Clarn, Buenos Aires, 14 de outubro de 2006 [Entrevista aPatricia Kolesnikov].

    Entre esses que fui e este que sou, a diferena, no fundo, que vivi experincias,conhecimento, talvez sabedoria, me apaixonei, me desapaixonei, tudo o que acontececom cada um de ns; mas o que certo que no houve uma ruptura entre aqui acabouo menino e comeou o adolescente e aqui o adulto. claro que fui mudando comotodos mudamos, mas uma linha constante, no h interrupes. Eu sou aquele e aquelesou eu.

    Sou algum que trabalhou, que nunca teve ambies embora isso possa soarfalso. Nunca tive ambies, nunca disse que vou fazer isto para chegar quilo, e

  • quando o obtiver vou dar mais um passo para chegar a um final. No, eu vivi meus diascom o que tinha de fazer. Creio que tive sorte, porque as pessoas me descobriram,quando eu j havia feito algo que valia a pena, mas poderia ter ocorrido que euhouvesse feito isso e que as pessoas no houvessem visto.Jos Saramago: Mxico vive un proceso de confusin, La Jornada, Cidade do Mxico, 27 de novembro de 2006[Reportagem de Erica Montao Garfias].

    No meu caso, no esquecer foi algo natural em mim. No quis nem lembrar nemesquecer. O passado passado, mas se manteve intacto na minha cabea, na minhamemria.Jos Saramago: Mxico vive un proceso de confusin, La Jornada, Cidade do Mxico, 27 de novembro de 2006[Reportagem de Erica Montao Garfias].

    Tentei no fazer nada na vida que pudesse envergonhar o menino que fui.Entrevista con Jos Saramago, Agencia efe, Madri, janeiro de 2007 [Entrevista a Ana Mendoza].

    A educao me preocupa muitssimo, sim, sobretudo porque um problema muitoevidente, claro e transparente e ningum faz nada a esse respeito. Confundiu-se ainstruo com a educao durante muitos anos e agora estamos arcando com asconsequncias. Instruir transmitir dados e conhecimentos. Educar outra coisa, inculcar valores []. Faz dcadas, o que havia era um Ministrio da Instruo Pblica,no da Educao. A educao era outra coisa. Se para ser educado fosse necessrioser instrudo previamente, eu seria uma das criaturas mais ignorantes do mundo. Meusfamiliares eram analfabetos, como iam me instruir? Impossvel. Mas me educaram,inculcaram em mim valores bsicos, fundamentais. Eu morava numa casa pauprrima esa dali educado. Milagre! No, no h milagre nenhum. Aprendi a vida e a lio dosmais velhos, quando nem eles mesmos sabiam que estavam dando lies.Vivimos en una sociedad que carece de educacin, Canarias 7, Las Palmas de Gran Canaria, 4 de fevereiro de2007 [Entrevista a Victoriano Surez lamo].

    Vivemos com nossa memria. Melhor dizendo, somos nossa prpria memria. Sdispomos de verdade do que temos na cabea.Vivimos en una sociedad que carece de educacin, Canarias 7, Las Palmas de Gran Canaria, 4 de fevereiro de2007 [Entrevista a Victoriano Surez lamo].

    Se tu me perguntas que certezas trago depois de escrever minhas memrias, tedirei que trago uma: se pudesse, viveria tudo outra vez, exatamente como vivi. E olheque no foi uma infncia feliz. Mas eu gostaria de repetir tudo. Tudo, tudo, tudo Mas, claro, com os mesmos: com a av, com o av, com os tios, com os primos, com meuamigo Jos Dinis brigando com seus cimes interminveis. Ele ficava furioso com oassunto das meninas! Sim. Essa a nica certeza. Viveria tudo outra vez. Poria os psnos mesmos lugares em que pus. Voltaria a cair como as crianas caem. Voltaria a

  • encontrar o primeiro sapo. A banhar-me no rio Almonda da minha aldeia, e olhe que,por ser rio de plancie, nunca teve guas muito lmpidas, mas como eu gostava!En el corazn de Saramago, Elle, Madri, n. 246, maro de 2007 [Entrevista a Gema Veiga].

    Bom, falar de Pilar [del Ro] ao mesmo tempo fcil e difcil. Ela nasceu em1950, eu em 1922. Tenho uma sensao esquisita quando penso que houve um tempoem que eu j estava aqui e ela no. estranho para mim entender que foi precisopassar 28 anos desde o meu nascimento para que chegasse a pessoa que seriaimprescindvel em minha vida Ela , os que a conhecem sabem, uma mulherextraordinria, alm de muito bonita. Ela nasceu para servir aos outros, e os outros sotodo o mundo, a me, os catorze irmos, as amigas, os amigos Ela est sempredisponvel. Ela nunca diz no a um apelo e d toda ateno pessoa com que estfalando, que nesses momentos a mais importante do mundo. Bom Quando aconheci, eu tinha 63 anos, era um homem j velho. Ela tinha 36 anos. Os amigos mediziam: Isso uma loucura, um disparate! Com essa diferena de idade!. E eusabia, mas no me incomodava. Agora no posso mais imaginar minha vida sem ela,no posso conceber nada se Pilar no existisse Quando ela no est, a casa se apaga.E quando volta, se reativa.En el corazn de Saramago, Elle, Madri, n. 246, maro de 2007 [Entrevista a Gema Veiga].

    Costumo dizer que entre a montanha que vejo ao longe e a pedra que tenho namo, prefiro a pedra. Para mim, isso significa que a natureza no uma simplespaisagem que se oferece aos olhos, mas uma espcie de comunho com todo o mineral,o vegetal e o animal que me circunda. Uma comunho que passa por todos os meussentidos, a tal ponto que tenho a impresso de no me encontrar fora, mas dentro.Enquanto observo a natureza, sinto que ela me observa.Le piccole memorie, La Repubblica, Roma, 23 de junho de 2007 [Entrevista a Leonetta Bentivoglio].

    Voc tem convices e vive com elas. Se as abandona, o que sobra? Nada.Embora as coisas no sejam to puras quanto imaginei, continuo sendo o que fui. Pelomenos, posso dizer a mim mesmo que no me deixei contaminar.Colombia debe vomitar sus muertos, El Tiempo, Bogot, 9 de julho de 2007 [Entrevista a Mara Paulina Ortiz].

    Os sonhos sonhos so, e, nos sonhos, no h firmeza, dizia minha av Josefa.Conversaciones con Jos Saramago, Contrapunto de Amrica Latina, Buenos Aires, n. 9, julho-setembro de 2007[Entrevista a Pilar del Ro].

    Vivemos no relativo, no no absoluto.Conversaciones con Jos Saramago, Contrapunto de Amrica Latina, Buenos Aires, n. 9, julho-setembro de 2007[Entrevista a Pilar del Ro].

    Sou um ctico profissional. Vivemos num mundo de mentiras sistemticas.

  • Andrs Sorel, Jos Saramago: Una mirada triste y lcida, Madri, Algaba, 2007.

    De arrogante no tenho nada. Rigorosamente nada. Se querem que lhes d unsquantos exemplos de escritores arrogantes no mundo, e em Portugal tambm, posso dar.No correspondo a esse figurino. Austero? Uma austeridade de carter no defeito,pelo contrrio. Duro? Sou um sentimental! Como podem dizer que sou duro? Mas sim,sou realmente duro, seco, to objetivo quanto posso, quando se trata de discutir ideias,opinies. Que isso forme, no conjunto, uma imagem to negativa que leve as pessoas ano gostarem de mim O que hei de fazer? No se pode agradar a toda a gente. []No incomodo ningum deliberadamente. O que me parece que a minha prpriaexistncia incomoda umas quantas pessoas por a. E se existncia se juntam os livros,imaginem.Jos Saramago: Sou um sentimental, Tabu, Lisboa, n. 84, 19 de abril de 2008 [Entrevista a Ana Cristina Cmara eVladimiro Nunes].

    No sou uma pessoa cmoda.Jos Saramago: Sou um sentimental, Tabu, Lisboa, n. 84, 19 de abril de 2008 [Entrevista a Ana Cristina Cmara eVladimiro Nunes].

    Aqueles que amamos, amamos tal como so. No amaramos os seus ossos, assuas cinzas nem o seu esprito supondo que uma coisa chamada esprito exista.Importantes foram para mim os meus avs maternos e acabaram. Acabaram,simplesmente. Como escrevo, dei-lhes uma segunda vida. Do meu av Jernimo e daminha av Josefa no haveria ningum para falar, tinha de ser eu. E a verdade queisso me d uma grande alegria.Jos Saramago: Sou um sentimental, Tabu, Lisboa, n. 84, 19 de abril de 2008 [Entrevista a Ana Cristina Cmara eVladimiro Nunes].

    Eu sou materialista [] No acredito nessas supostas espiritualidades quecolocam os ideais de vida ou a satisfao dos desejos de cada um a distnciasinalcanveis.O Nobel uma inveno diablica, Ler, Lisboa, n. 70, junho de 2008 [Entrevista a Carlos Vaz Marques].

    Ns sabemos cada vez mais. Mas ao mesmo tempo vamos sabendo cada vezmelhor a importncia daquilo que no sabemos.O Nobel uma inveno diablica, Ler, Lisboa, n. 70, junho de 2008 [Entrevista a Carlos Vaz Marques].

    H um territrio mais ou menos desconhecido quer dizer, no desconhecido,evidentemente, mas cuja complexidade de tal ordem que, antes que cheguemos ao fimdas averiguaes necessrias para saber como aquilo funciona, vai levar tempo: ocrebro.O Nobel uma inveno diablica, Ler, Lisboa, n. 70, junho de 2008 [Entrevista a Carlos Vaz Marques].

  • A vida, digamos, prope-nos coisas. Por vezes, sentimo-nos em condies deaceitar a proposta e lanamo-nos a um trabalho. Outras vezes, no. A vida no umaobra teatral. Numa obra teatral tudo est posto no seu lugar. Cada elemento tem a suafuno. A articulao dos elementos todos, para conduzir a efeitos dramticos, estmuito bem pensada. A vida no pensa. Ns vivemos no caos. O que se passa quevivemos num espao limitado dentro de outro espao que escapa nossa capacidadede apreenso.O Nobel uma inveno diablica, Ler, Lisboa, n. 70, junho de 2008 [Entrevista a Carlos Vaz Marques].

    Isso que chamamos mistrio , simplesmente, o que no se sabe. A partir domomento em que h uma explicao cientfica, ou lgica simplesmente, deixa de sermistrio.O Nobel uma inveno diablica, Ler, Lisboa, n. 70, junho de 2008 [Entrevista a Carlos Vaz Marques].

    Quando se ridiculariza a bondade, no fundo, a nica concluso que se est ajustificar a delinquncia. No me refiro a uma delinquncia explcita, ativa, mas a umacerta atitude delinquente que se justifica pela indiferena e tambm pela incapacidadede agir.Esplendor de Portugal Jos Saramago: O Nobel no significou nada s portas da morte, Expresso (Revistanica), Lisboa, 11 de outubro de 2008 [Entrevista a Pilar del Ro].

    Durante um tempo [quando esteve hospitalizado, em fins de 2007 e incio de2008], talvez umas horas, um dia ou dois, apresentou-se-me, por exemplo, uma imagemcom um fundo negro e quatro pontos brancos formando um quadriltero irregular. Erambrilhantes como se fossem corpos celestes no espao. Tive a certeza que esses quatropontos eram eu []. No havia traos fisionmicos, apenas a conscincia de que podiaestar reduzido a esses quatro pontos, que a complexidade fsica e mental do ser humanose poderia reduzir a esses pontos que nem sequer eram regulares uma espcie detotal despersonalizao. Eu tinha deixado de ser quem julgava que era, ao mesmotempo que me reconhecia nesses quatro pontos. Como que isso se produziu, no meperguntem.Jos Saramago: Uma homenagem lngua portuguesa, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, n. 994, 5-18 denovembro de 2008 [Entrevista a Maria Leonor Nunes].

    O senso comum faz-nos muita falta. Pode ser provocante, chato. Mas tambm podeapresentar-se como algo muito tnico que o desmancha-prazeres. Ou, como dizem osfranceses, o empcher de danser []. O senso comum no uma arma, um modo derelacionar-se, uma relao que se prope um certo equilbrio, um reconhecimentotcito de certas verdades elementares. Enfim, so aquelas coisas que, no fundo, souma espcie de consensualidade em que muitos podemos dialogar uns com os outros,partindo de bases que so compartilhadas, e que permite um discurso que pode nolevar concrdia. Mas uma discordncia sobre a qual se fala j algo mais do que

  • uma discordncia.Memria de elefante, Viso, Lisboa, 6 de novembro de 2008 [Entrevista a Slvia Souto Cunha].

    No me sinto confortvel [com a imagem do desmancha-prazeres, dodenunciador]. Mas se me perguntar se me agrada esse papel, sim. uma expresso daminha maneira de ser. No suporto enganos. Quando era rapazito, ia ao So Carlos no porque eu tivesse dinheiro para pagar o bilhete: o meu pai, que era polcia desegurana pblica, conhecia os porteiros. E eu ia l para cima, para o galinheiro.Houve a uma alegoria que me ficou para toda a vida. Para quem estava nos camarotes,era uma coroa o que estava sobre a tribuna real. Mas ns, sentados por trs dela,vamos outras coisas: primeiro, que a coroa no estava completa. Segundo, que tinhapoeira e teias de aranha dentro e uma ponta de cigarro republicana, posta ali paraprotestar. Aquilo ficou-me para sempre, o outro lado das coisas. O outro lado dapalavra, de tudo o que nos conduz numa determinada direo, e que preciso iluminarpara, se no podemos resistir, pelo menos termos conscincia. Que no nos levem aengano, que uma expresso muito portuguesa.Memria de elefante, Viso, Lisboa, 6 de novembro de 2008 [Entrevista a Slvia Souto Cunha].

    Se eu olho para trs, independentemente dos triunfos, das glrias, aquilo de que eugosto mais encontrar um sujeito consciente, coerente. Coerente. Nunca cedi stentaes do poder, nunca me pus venda.Memria de elefante, Viso, Lisboa, 6 de novembro de 2008 [Entrevista a Slvia Souto Cunha].

    como se houvesse dentro de mim uma parte intocada. Ali no entra nada. E quese traduz numa certa serenidade, que se acentuou com a doena [sofrida em 2007-08].Se alguma coisa pude aproveitar dela foi este sentimento de extrema serenidade. Passeipelos momentos maus e bons que todas as vidas tm, mas nunca perdi esta no querochamar-lhe segurana de mim mesmo um pouco como o olho do furaco: em redor morte e destruio, mas ali o vento no sopra. como se houvesse dentro de mim uma parte intocada. Ali no entra nada, Pblico (Suplemento psilon), Lisboa,7 de novembro de 2008 [Entrevista a Anabela Mota Ribeiro].

    No tenho de reconhecer a autoridade de algum que no a merece, mas o norespeito autoridade por princpio me parece um erro. Entre a liberdade e a licena huma grande diferena.Garzn hizo lo que deba, Pblico, Madri, 20 de novembro de 2008 [Entrevista a Peio H. Riao].

    Fui, desde bem pequeno, calado, reservado, melanclico. Nunca tive riso fcil.At o sorriso, para mim, algo que custa esforo. E as alegrias ou as tristezas em mimso internas, no as manifesto. J de criana era assim.No me hablen de la muerte porque ya la conozco, El Pas (Suplemento El Pas Semanal), Madri, 23 de novembrode 2008 [Entrevista a Manuel Rivas].

  • No sou nem um pouco cnico. O que digo que sou por definio muito ctico.No bom, eu sei. Gostaria de me entusiasmar, mas no consigo []. O ceticismo no resignao. Nunca me resignarei. Eu me sinto cada vez mais como um comunistalibertrio. H trs perguntas que no podemos deixar de nos fazer na vida: por qu?,para qu?, para quem?No me hablen de la muerte porque ya la conozco, El Pas (Suplemento El Pas Semanal), Madri, 23 de novembrode 2008 [Entrevista a Manuel Rivas].

    Sempre me caracterizei por ser uma pessoa tranquila. No gosto de dramatizar ascoisas nem perder a perspectiva.La lucidez ha sido mi gran tabla de salvacin, Canarias 7, Las Palmas de Gran Canaria, 21 de dezembro de 2008[Entrevista a Victoriano Surez lamo].

    A felicidade consiste em dar passos em direo a si mesmo e olhar o que voc .Saramago: La felicidad consiste en dar pasos hacia uno mismo, Lavanguardia.es, Barcelona, 26 de dezembro de2008 [Correspondncia da Agencia efe].

    A felicidade s estar em paz consigo mesmo, olhar para ns mesmos e lembrarque no fizemos muito mal aos outros.Saramago: Mi nombre ha sonado como si fuera una varita mgica, Granada Hoy, Granada, 27 de dezembro de2008 [Correspondncia de Manuela de la Corte].

    melhor se enganar do que mostrar indiferena.Saramago crea empleo, La Opinin de Granada, Granada, 27 de dezembro de 2008 [Reportagem de M. Ochoa].

    A pior cegueira a mental, que faz que no reconheamos o que temos diante dens.Saramago: La peor ceguera es la mental, Agencia Europa Press, Madri, 3 de maro de 2009.

    Esta grande admirao pessoal [por Jorge de Sena] tem a ver por ele ser o tipo depessoa que eu aprecio: frontal. s vezes mesmo violento na expresso, basta recordaro clebre discurso da Guarda em que ele dita gua gelada nas fervuras patriticas [daRevoluo de Abril] que se esperavam e que aconteceram realmente. Nessacomemorao disse: Vocs esto a comemorar um pas que no existe e eu venho aquidizer-lhes que pas temos, pelo menos em minha opinio.Joo Cu e Silva, Uma longa viagem com Jos Saramago, Porto, Porto Editor, 2009.

    Eu relativizo bastante as coisas, exceto aquelas, algumas, que considero que nodevem ser relativizadas porque tm um carter que se aproxima muito daquilo queconsideramos um absoluto ou um absoluto relativo. Enfim, estas duas palavrascontradizem-se, mas sabemos que h coisas que tm mais importncia que outras.Joo Cu e Silva, Uma longa viagem com Jos Saramago, Porto, Porto Editor, 2009.

  • Temos que nos convencer de uma coisa, que o mais importante no mundo, pelanegativa, e o que mais prejudica as relaes humanas e as torna difceis e complicadas a inveja.Joo Cu e Silva, Uma longa viagem com Jos Saramago, Porto, Porto Editor, 2009.

    Cada um de ns o que . No sou nenhum heri, simplesmente no sei viver deoutra maneira. Por isso posso dizer que nem a fama, nem o prmio Nobel nem nada memodificou []. E no agora com a fama, signifique isto o que significar, que eu iriapor prudncia para no arriscar essa fama moderar as minhas posies ouacautelar as minhas declaraes. No, isso no vai comigo.Joo Cu e Silva, Uma longa viagem com Jos Saramago, Porto, Porto Editor, 2009.

    Nunca ca em excesso de manifestaes de alegria e jbilo. Tenho sempre um patrs, e no por prudncia como quem se defende, porque eu conheosuficientemente bem a histria dos meus semelhantes para saber que nada definitivo eque o motivo de riso de hoje pode amanh tornar-se em lgrimas.Joo Cu e Silva, Uma longa viagem com Jos Saramago, Porto, Porto Editor, 2009.

  • LISBOA

    Na primavera de 1924, quando Jos tinha apenas um ano e meio de idade, suafamlia se mudou de Azinhaga (Goleg) para Lisboa, onde o chefe de famlia haviacomeado a trabalhar como policial municipal. Por um longo tempo, dividiriamcortios com outras famlias, indo de uma rua para