educaÇÃo fÍsica no ensino mÉdio: consideraÇÕes .... especialização em educação física

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  • EDUCAO FSICA NO ENSINO MDIO:

    CONSIDERAES SOBRE UMA ESCOLA PBLICA E UMA ESCOLA PARTICULAR

    Marcos Augusto Alencar de Souza1

    Luiz Gonalves Junior (O)2

    Introduo

    O presente trabalho decorrente de 10 anos de prtica profissional em clubes e

    academias. O leitor poderia estar se perguntando o que levaria um educador fsico que se dedica

    h anos no trabalho junto a academias e clubes a fazer uma especializao em educao fsica

    escolar e a pesquisar a situao da educao fsica no ensino mdio.

    Em um primeiro momento pode parecer estranho, porm, nesses anos de prticas

    em academias e clubes, direcionamento de leituras, cursos e ps-graduao lato-sensu em Bases

    Metodolgicas e Personalizadas Aplicadas em Academia, o pblico atendido abrangia um

    grande nmero de adolescentes que sempre se mostravam motivados a desenvolver prticas

    corporais fora de ambiente escolar.

    Os adolescentes sempre me deixavam intrigado quando abordados sobre a forma

    de realizao da educao fsica escolar. A pouca motivao era logo notada, algo que me

    deixava ainda mais curioso. Como os adolescentes que tinham durante a sua vida escolar tido

    tanto tempo de contato com a educao fsica no tinham conhecimentos bsicos em relao a

    exerccio fsico, aquecimento, alongamento, relaxamento.

    A desinformao em relao nutrio, obesidade e os malefcios do uso de

    anabolizantes tambm eram enormes. Alguns procuravam informaes na Internet, entretanto,

    sabemos que nem sempre esta uma fonte recomendvel, principalmente tratando-se de um tema

    que pode prejudicar e muito a sade.

    1 Professor de Educao Fsica do So Carlos Tnis Clube e aluno da I Turma do Curso de Especializao em Educao Fsica Escolar (lato sensu) do DEFMH/UFSCar. 2 Professor Adjunto do DEFMH-PPGE/UFSCar e Coordenador do Curso de Especializao em Educao Fsica Escolar.

  • 2

    Da os motivos que me levaram a estudar a educao fsica no ensino mdio, este

    tema at ento visto somente na vida acadmica, no vivenciado e estudado com mais nfase por

    mim.

    Alm desta motivao, encaro este trabalho de monografia e o curso de ps-

    graduao lato sensu como desafio pessoal, tanto para aprimorar os meus conhecimentos na rea

    escolar como para possibilitar uma prtica mais contextualizada em escolas.

    Este trabalho acadmico tem como objetivo principal investigar a situao das

    aulas de educao fsica do ensino mdio, fazendo uma comparao entre uma escola pblica e

    uma escola particular na cidade de So Carlos, no ano de 2006, buscando entender os motivos

    pelos quais, por vezes, os alunos (e mesmo os professores) no se sentem entusiasmados para as

    aulas de educao fsica na escola, gerando, inclusive, evaso das mesmas.

    Entendemos que o contedo da educao fsica apresentado, por exemplo, nos

    Parmetros Curriculares Nacionais - PCNs (BRASIL,1999) bastante amplo, estimulando

    inclusive o trabalho com temas transversais. Ento, por que no se apropriar deste e fazer as aulas

    mais motivadas para ambas as partes: professor e alunos? Qual o motivo que leva alguns

    professores a ministrar sempre os mesmos contedos com as mesmas perspectivas do esporte na

    escola? E ainda, por que os alunos tm sempre que repetir movimentos pr-determinados pelo

    professor at automatiz-los e no terem oportunidade de vivenciar o movimento com vrias

    possibilidades individuais sendo construdo por todos? Alm disso, observa-se a quase

    inexistncia de aulas tericas tratando de conceitos elementares da rea de educao fsica e

    alguma evaso das aulas deste componente curricular.

    Chamamos a ateno para os PCNs (BRASIL, 1999) por ser documento oficial

    amplamente divulgado e que pode servir de apoio e reflexo para os professores, para realizarem

    os planejamentos de ensino e de aulas. Tal documento foi elaborado por especialistas e

    educadores de todo o pas. Nos PCNs proposto domnio de competncias bsicas e no um

    acmulo de informaes. E ainda um currculo que tenha vnculo com os diversos contextos de

    vida dos alunos.

    A proposta dos PCNs para o ensino mdio a de aproximar o aluno s aulas de

    educao fsica de forma ldica, educativa e contributiva para o processo de aprofundamento

    conhecimentos (BRASIL, 1999).

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    O aluno, portanto, comea a compreender que h propriedades comuns e lida com

    regularidade cientfica. Entretanto as aulas de educao fsica deste ciclo tm se detido nos

    fundamentos do esporte, tanto que, Betti (1995) levada a afirmar que a influncia do esporte no

    sistema escolar de tal magnitude que temos no o esporte da escola, mas sim o esporte na

    escola.

    I - Educao Fsica Escolar: suas razes e novas possibilidades

    Dentre as obras lidas para desenvolver este trabalho de monografia no podemos

    deixar de citar a de Lino Castellani Filho (1990), em sua releitura da histria da educao fsica.

    Em seu texto Educao Fsica no Brasil, a histria que no se conta, inspirado em Adam Schaff

    que no v a histria como verdade absoluta, definitivamente acabada, mas como um processo

    sujeito a constantes reinterpretaes. O reescrever da histria ocorre em virtude dos atuais efeitos

    pelos acontecimentos passados e as reinterpretaes da histria movidas pelas necessidades

    variveis do presente, bem como se pode dar um novo entender ocasionado pelos efeitos dos

    acontecimentos passados, emergidos no presente.

    Observamos que a educao e a educao fsica podem ser instrumentos de

    ideologia da classe dominante em relao dominada e se no pararmos e verificarmos a prtica

    de alguns profissionais corremos o risco de continuarmos com a oratria da educao fsica

    ligada aos mdicos higienistas (1889 1930), que antes buscavam modificar os mtodos de

    higiene da populao visando fsico saudvel e equilbrio orgnico, mas por trs deste discurso

    havia outros intuitos que indicavam os interesses da sociedade da poca de era camuflar a falta de

    ateno do Estado com relao poltica de saneamento bsico, moradia e cuidados a sade

    (CASTELLANI FILHO, 1990).

    Dos anos 1930 at meados da dcada de 1940, com a criao do Estado Novo em

    1937, a partir de golpe de Getlio Vargas, a educao fsica passou a privilegiar a formao do

    cidado soldado apto para uma eminente situao de guerra, preparar mo de obra adestrada e

    apta fisicamente para a indstria de base nascente, bem como, por influncia do nazi-fascismo do

    perodo, buscar manter a pureza e qualidade da raa branca, pois a populao brasileira negra

    superava 50% da populao e preocupava-se o governo de ento com a eugenia (GHIRALDELLI

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    JUNIOR, 1988; CASTELLANI FILHO, 1990; BETTI, 1991; GONALVES JUNIOR &

    RAMOS, 2005).

    Como naquela sociedade (e momento histrico) os papis de homem e de mulher

    eram extremamente definidos e diferenciados a Educao Fsica Escolar tambm reproduzia e

    reforava tal diferenciao no quadro da ditadura estadonovista de Getlio Dornelles Vargas,

    prevendo aulas separadas para os gneros masculino e feminino (GONALVES JUNIOR &

    RAMOS, 2005).

    Assim, se pensando que em um combate em situao de guerra, papel

    exclusivamente masculino no perodo, exerccios fsicos com caractersticas militares eram

    reservados as aulas masculinas. Enquanto, para as aulas femininas, havia a preocupao com a

    economia domstica e a maternidade, assim exerccios visando melhor preparao do corpo para

    gerao de filhos mais fortes e saudveis, tanto para a defesa da nao, quanto para

    aperfeioamento da raa ou eugenia (GONALVES JUNIOR & RAMOS, 2005).

    Entre meados da dcada de 1940 at meados da dcada de 1960 a educao fsica

    associada a uma prtica eminentemente educativa. Porm, na dcada de 1970, o Brasil

    pretendendo atingir o status esportivo de primeiro mundo ganhando competies internacionais,

    passa ento a dar nfase ao esporte voltado ao rendimento no seio da educao fsica escolar, com

    aulas visando desempenho fsico e tcnica dos esportes (CASTELLANI FILHO, 1990).

    Ghiraldelli Junior (1989) chama tal concepo de Educao Fsica Competitiva

    (1964 1984), que tem como objetivo principal caracterizao da competio e da superao

    individual como valores desejados pela sociedade moderna. Ao cultuar o atleta-heri, ela reduz a

    Educao Fsica ao esporte de rendimento. A metodologia utilizada da massificao da prtica

    esportiva, para da brotarem os expoentes capazes de brindar o pas com medalhas olmpicas.

    Toda atividade fsica, como ginstica, esporte, jogos recreativos e outros ficam submetidos ao

    esporte de elite. D-se nesta fase, atravs dos meios de comunicao, grande nfase ao esporte

    espetculo, pice da pirmide a ser alcanada pela educao fsica.

    Evidentemente que como as competies do esporte de rendimento so disputadas

    por equipes separadas por gnero, a Educao Fsica Escolar, no citado perodo, manteve a

    separao de meninos e meninas no seio de suas aulas.

    Ora, tal herana da educao fsica no Brasil, que durante dcadas esteve

    fortemente atrelada s concepes higienistas e militaristas acabou por gerar distores no trato

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    entre os gneros masculino e feminino, que em alguma medida ainda perduram, quer seja em

    nvel do discurso, quer seja propriamente nas prticas corporais ministradas pelos professores ou

    reivindicadas pelos alunos e alunas nas aulas de Educao Fsica Escolar.

    Entendemos que a temtica do gnero merece mais ateno, discusso e reflexo

    nas aulas de Educao Fsica na atualidade.

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