pontifícia universidade católica de são paulo puc - sp marques... · le revolver à cheveux...

of 166/166
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC - SP Arthur Marques de Almeida Neto Comunicação sem objeto: Dança contemporânea Doutorado em Comunicação e Semiótica São Paulo 2016

Post on 14-Dec-2018

213 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo

PUC - SP

Arthur Marques de Almeida Neto

Comunicao sem objeto: Dana contempornea

Doutorado em Comunicao e Semitica

So Paulo

2016

PONTIFCIA UNIVERSIDADE CATLICA DE SO PAULO - PUC - SP

FACULDADE DE FILOSOFIA, COMUNICAO, LETRAS E ARTES -

FAFICLA

PROGRAMA DE ESTUDOS PS-GRADUADOS EM COMUNICAO E

SEMITICA

Arthur Marques de Almeida Neto

Comunicao sem objeto: Dana contempornea

Doutorado em Comunicao e Semitica

Tese apresentada a Banca

Examinadora da Pontificia

Universidade Catolica de Sao

Paulo, como exigencia parcial para

obtencao do titulo de Doutor em

Comunicao e Semitica, sob a

orientacao da Profa. Dra. Helena

Katz.

So Paulo

2016

BANCA EXAMINADORA

____________________________

____________________________

____________________________

____________________________

____________________________

A Nilton Abranches Jnior.

A Helena Katz.

AGRADECIMENTOS

Ao companheiro de Vida, Nilton Abranches Jnior, pela pacincia e

pelas trocas constantes de ideias que muito contriburam na organizao do

meu pensamento. E pelo amor.

Aos sogros e segundos pais: Luza e Nilton Abranches, por me

acolherem como filho. Por aturarem a minha baguna organizada nos

estudos e meus horrios desencontrados e por me darem nimo e suporte,

sempre. Sem sua ajuda e suas presenas, a pesquisa teria sido invivel.

A Profa. Dra. Helena Katz, orientadora e amiga: pelas contribuies

indispensveis na realizao desta pesquisa; pela primeira palestra sua que

assisti, em 1998, quando ainda aluno de licenciatura em Dana: voc me

instigou a me tornar um pesquisador; pelas suas contribuies

indisciplinares ao campo de conhecimento em dana no pas. Esse trabalho

, de partida, tambm seu.

As irms Ana Cristina Marques e Gilvana Marques, pelo suporte

familiar em um momento to conturbado por questes de sade de nossos

pais queridos. Amo vocs.

Ao amigo Jernimo Vieira, pelas conversas enriquecedoras e

esclarecedoras, recheadas sempre de muitas gargalhadas.

A cunhada Jacqueline Abranches, doutora pesquisadora com

reconhecimento internacional, pelo incentivo e exemplo de profissional.

A amiga-irm Mirela Roza, que mesmo em terras do Tio Sam se faz

presente, sempre torcendo por mim.

Aos amigos Floriano Nogueira e Robson Arajo, pela amizade e

acolhida em So Paulo em tempos difceis.

Aos colegas pesquisadores do CED - Centro de Estudos em Dana:

pelas discusses que me deram muitos insights e pela potncia na pesquisa

acadmica que une teoria e prtica.

Aos colegas de trabalho do Departamento de Artes Cnicas do Centro

de Comunicao, Turismo e Artes da Universidade Federal da Paraba, por

entenderem a necessidade de meu afastamento para o processo de

doutoramento e, consequentemente, por assumirem mais trabalho em suas

mos em virtude de minha ausncia.

A Universidade Federal da Paraba e a PRPG - Pr-reitoria de de Ps-

graduao e Pesquisa - que permitiram o afastamento das minhas

atividades docentes para a realizao desse trabalho.

Aos corpos mdias que danam que fazem da Dana seu meio de

Vida e da Vida um meio com possibilidades de muitas danas.

Une mot et tout est sauv.

Um mot et tout est perdu.

Uma palavra e tudo est salvo.

Uma palavra e tudo est perdido.

Andr Breton (1896 1966)

Le revolver cheveux blancs, 1932.

RESUMO

ALMEIDA NETO, Arthur Marques. Comunicao sem objeto: Dana

contempornea. 2016, 166 fls. Tese (Doutorado em Comunicao e

Semitica) - Faculdade de Filosofia, Comunicao, Letras e Artes, Pontifcia

Universidade Catlica de So Paulo, So Paulo, 2016.

Esta pesquisa investiga o bios miditico (SODRE, 2006) que transformou em um dispositivo comunicacional e econmico de convocao biopoltica (PRADO, 2013) a expressao danca contempornea. No Brasil, durante os ltimos anos, distintos trabalhos passaram a se autonomear como danca contempornea, praticando tamanha generalidade que impossibilita a identificao do objeto ao qual a expresso se refere. A proposta a de investigar o fenmeno do esvaziamento desta expresso, reunindo como corpus as propagandas que circulam na internet em forma de flyers de cursos, aulas, oficinas ou workshops, os textos e os resultados dos editais do Programa Petrobrs Cultural e programas de dana para a televiso nos canais de arte SESC-TV, Arte1 e Canal Brasil. Parte-se do pressuposto de que esses dispositivos econmicos e comunicacionais, quando sancionados institucional e juridicamente, agem como dispositivos biopolticos de poder, legislando sobre o que deve viver ou morrer. O objetivo trazer para a visibilidade o tipo de convocao realizado pelos dispositivos que exortam a expressao danca contempornea como sinnimo do termo danca, interpelando individuos como sujei tos-artistas da danca contempornea. Busca-se demonstrar que, em troca permanente de informaes com o ambiente, os dispositivos biopolticos de poder econmicos e comunicacionais vo naturalizando a expresso danca contempornea como uma nomeacao inespecfica. O referencial terico prioriza as relaes biopolticas entre mdia e corpo, lendo-as com a Teoria Corpomdia (KATZ e GREINER, 2005), e com autores como Foucault (2008, 1999), Althusser (1996) e Franko (2002). Palavras-chave: biopoder, biopoltica, corpomdia, dana contempornea.

ABSTRACT

ALMEIDA NETO, Arthur Marques. Communication without object:

contemporary dance. 2016. 166 p. Thesis (Doctorate degree in

Communication and Semiotics) -Faculdade de Filosofia, Comunicao,

Letras e Artes, Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo, So Paulo,

2016.

This research investigates the media bios (SODRE, 2006) that turned into a communicational and economical device of biopolitics call (PRADO, 2013) the term 'contemporary dance'. In Brazil, in recent years, many artistic works began to name themselves as 'contemporary dance', practicing such generality that makes it impossible to identify the object to which the term refers. The proposal is to investigate the phenomenon of emptying this expression, gathering as corpus advertisements circulating on the Internet in the form of flyers of courses, classes or workshops, the texts and the results of the notices of Petrobrs Cultural Program and dance programs for television art channels SESC TV, Arte1 channel and Brazil Channel. This is on the assumption that these economic and communicational devices, when sanctioned institutional and legally act as biopolitical power devices, legislating on what should live or die. The goal is to bring visibility to the type of call performed by the devices calling on the expression 'contemporary dance' as synonymous with the term 'dance', interpellating individuals as 'contemporary dance' subjects-artists. Seeks to demonstrate that, in constant exchange with the environment, biopolitical devices of economic and communicational power are naturalizing 'contemporary dance' expression as non-specific. The theoretical framework prioritizes the biopolitics relations between media and body, reading them with Corpomdia Theory (KATZ and GREINER, 2005), and authors such as Foucault (2008, 1999), Althusser (1996) and Franko (2002).

Keywords: biopower, biopolitics, corpomdia, contemporary dance.

LISTA DE FIGURAS

Grfico 1 - Projetos contemplados no Programa Petrobrs Cultural 93

Tabela 1 - Projetos no Petrobrs Cultural entre 2003 e 2012 94

Tabela 2 - Abrangncia dos projetos entre 2008 e 2012 97

Figura 1 - Destino Brasil Dana com Deborah Colker 101

Figura 2 - Programao do canal SESC-TV 103

Figura 3 - Programao do canal Arte1 104

Figura 4 - Flyer do espao Lugaritmo 105

Figura 5 - Flyer do espao Movimente 106

Figura 6 - Flyer do Studio Regina Maura 108

Figura 7 - Flyer da Sala de Dana 109

Figura 8 - Flyer da Pulsarte 110

Figura 9 - Flyer do Ncleo Artstico 110

Figura 10 - Flyer do Centro de Artes Ns da Dana 111

Figura 11 - Flyer da Casa Cultura Tony Petzhold 112

Figura 12 - Resultados de pesquisa no Youtube 125

Figura 13 - Aula de dana no canal Munique Lopes 126

Figura 14 - Sequncia de passos bsicos de contemporneo 128

Figura 15 - Comentrios do Vdeo 1 129

Figura 16 - Aula de dana no canal NAMU 130

Figura 17 - Sequncia de experimento de danca contempornea 131

Figura 18 - Comentrios do Vdeo 2 133

Figura 19 - Aula no canal Pariz Arte 135

Figura 20 Sequncia de contemporneo 137

Figura 21 Comentrios do Vdeo 3 138

Figura 22 Aula no canal Cia. Mapati 140

Figura 23 Sequncia de movimentos por di Oliveira 141

Figura 24 Comentrios do Vdeo 4 142

Figura 25 - Plano de aula na revista Nova Escola

F

145

Figura 26 Plano de aula no Portal do Professor 146

SUMRIO

Apresentao 13

1. Captulo 1: Dana contempornea: a impossibilidade de um objeto 21

1. 1. Consideraes sobre a expresso danca contempornea 22

1. 1. 1. Contempornea ou ps-moderna? 41

1. 2. Dana contempornea: homogeneizao no bios miditico 42

1. 2. 1. Biopoltica e biopoder 44

1. 2. 2. Discursos: modalizaes e convocativas 51

1. 2. 3. Interpelao e ideologia 55

2. Captulo 2: Dispositivos (bio)politicos de poder 68

2. 1. O Programa Petrobrs Cultural 77

2. 2. (Discursos sobre) Danca contempornea no bios miditico 99

2. 2. 1. A danca contempornea na programao de TV 99

2. 2. 2. A danca contempornea em flyers 104

3. Captulo 3: Comunicao sem objeto 113

3. 1. O corpo/mdia que dana 115

3. 1. 1. Padres, hbitos, regularidades 120

3. 1. 2. O corpomdia que dana contemporneo no bios miditico 124

3. 2. Discursos de biopoder no corpomdia 143

Consideraes 148

Referncias 152

13

APRESENTAO

O que comunica, d conhecimento de algo. Um termo ou expresso

que designa algo de forma muito generalista, no distingue as

especificidades que o identificam. Nas produes em dana no Brasil,

durante os ltimos anos, consolidou-se uma classificao dessa ordem. A

expresso dana contempornea e o termo usado como seu sinnimo,

contemporneo - tm abarcado uma srie de realizaes artsticas

distintas entre si, de maneira generalista. Seu uso reiterado tomou tal

proporo que passou a nomear um conjunto excessivamente amplo de

objetos, que no partilha de pressupostos assemelhados. A exacerbao

do seu carter inespecfico transformou essa em uma expresso sem

objeto.

A pesquisa faz a seguinte pergunta:

- Que danas, no contexto brasileiro atual, podem ou no serem

enquadradas sob a expresso dana contempornea?

A hiptese que se aventa que as mltiplas compreenses acerca

da expresso tm sido reforadas pela ao de dispositivos de poder,

principalmente econmicos e comunicacionais, que atuam

simultaneamente, provocando distores que iro se manifestar nas

produes em dana e ocasionar um efeito paradoxal: o de que quaisquer

danas e nenhuma dana possa(m) ser enquadrada(s) sob a expresso,

uma vez que a amplitude do seu carter generalista faz com que no tenha

um objeto identificvel.

Estes dispositivos se manifestam no bios miditico1 (SODR, 2006)

na forma de textos escritos, imagticos ou falados, em editais de fomento

dana, eventos, festivais, mostras competitivas ou no, vdeos de aulas,

entrevistas, teasers ou espetculos de dana veiculados na programao

1 O conceito de bios miditico, desenvolvido por Sodr (2006) refere-se ao ambiente atual de conexes em rede. Ele ser discutido adiante, no ponto 1.2., p. 42.

14

televisionada ou na internet, em divulgao de aulas, cursos, oficinas ou

workshops de dana na forma de flyers na internet ou em revistas e/ou

jornais, entre outros.

A ao desses dispositivos examinada na perspectiva do

capitalismo artista2 (LIPOVETSKY e SERROY, 2015)3, em que a

separao tnue entre amadores e profissionais e o parmetro regulatrio

que sanciona o exerccio da profisso de artista a autodeclarao. Neste

contexto, quando a expresso dana contempornea - atravs da ao dos

dispositivos econmicos e comunicacionais - passa a designar qualquer tipo

de produo artstica que assim se autodenomine, vai funcionar

ideologicamente como um dispositivo biopoltico de poder, pois regular

tanto as produes em dana quanto os indivduos, interpelados como

sujeitos artistas da dana contempornea.

Os discursos sobre a dana contempornea no bios miditico a

utilizam como sinnimo de dana, e o fato dela ser altamente midiatizada

refora o seu comportamento homogeneizante. A expresso torna-se um

dispositivo de poder, que legisla sobre as possibilidades de outras danas

coexistirem.

As consequncias biopolticas da homogeneizao so a

estabilizao da dana contempornea como um estilo de dana que,

como todos os outros, se distingue por certos traos estticos, ou seja, a

sua transformao em um discurso modalizador do caminho para a

sobrevivncia no campo da produo artstica.

O corpo que dana entendido aqui como corpomdia (KATZ e

GREINER in GREINER, 2005)4, isto , como um corpo coevoluindo com o

ambiente, hoje constitudo pelas informaes derramadas no bios miditico.

Isso vem resultando em um paulatino processo de estabilizao de escolhas

estticas em produes autonomeadas como dana contempornea.

2 O conceito de capitalismo artista, desenvolvido por Lipovetsky e Serroy (2015), refere-se, entre muitos aspectos e de forma sinttica, ao ambiente em que a autonomeao/autodeclarao importa para definir um sujeito como artista. Ele ser discutido mais adiante, no ponto 2, p. 68. 3 LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A estetizao do mundo: viver na era do capitalismo artista. So Paulo: Companhia das Letras, 2015. 4 KATZ, Helena; GREINER, Christine. Por uma teoria do corpomdia. In: GREINER, Christine. O corpo: pistas para estudos indisciplinares. 2a. ed. So Paulo: Annablume, 2005. pp. 125 - 133.

15

Essas escolhas passam a ser compreendidas como elementos

definidoras deste estilo de dana. Exemplos: uso de tecnologia em cena

(projees em tempo real ou interaes com vdeos em 4D), fuso de

linguagens artsticas (instalao, performance, dana-teatro, teatro fsico,

circo, entre outros), nudez, ausncia de trilha musical, uso de roupas

cotidianas como figurinos, uso de lugares alternativos (ar livre, praas,

estdios, prdios abandonados, museus, galerias, entre outros), entre

outras.

Para alm dessas caractersticas, h outros traos de estabilizao

esttica no corpo que dana: certas escolhas passam a atuar como passos

de dana que se tornam recorrentes, dando surgimento a sistemas tcnico-

estticos entendidos como dana contempornea. Associa-se a esse fator

o grande nmero de aulas de dana contempornea oferecidas em todo o

pas, como cursos livres, oficinas ou workshops. Por outro lado, a chancela

de cursos tcnicos e de graduaes em dana, cujo perfil do aluno egresso

o de bailarino ou professor de dana contempornea, refora um aspecto

hegemnico e homogeneizante de uma dana que passa a ser reconhecida

por seus aspectos formais.

Esse efeito resulta em biopolticas contundentes, e a ao restritiva

e reguladora que ele acarreta tem influncias diretas nas produes e, de

maneira basilar, na formao artstica do corpo que dana.

O primeiro captulo problematiza o uso da expresso dana

contempornea no Brasil, apontando o papel crucial dos dispositivos

biopolticos de poder comunicacionais e econmicos no carter generalista

que a expresso assumiu. A ao dos dispositivos biopolticos examinada

dentro do contexto especfico do bios miditico.

Para desenvolver o argumento do Captulo 1, discute-se a expresso

dana contempornea atravs da eleio do trabalho de alguns

pesquisadores que se ocuparam em defin-la ou categoriz-la. Busca-se

indicar, atravs das fontes bibliogrficas, que a problemtica acerca do uso

da expresso no uma realidade apenas brasileira. Procura-se mostrar

que um parmetro comum adotado para categorizar a expresso o de que

ela abarca processos ou configuraes que refletem um movimento

16

singular ou individualizado5.

Para se discutir esse aspecto como um trao ideologizante, que se

derrama no bios miditico e tem consequncias biopolticas nas produes

em dana, no corpo que dana e nos processos educativos em dana

(prtica, formao e ensino), recorre-se a uma reviso bibliogrfica dos

conceitos de biopoltica e ideologia. A fim de se entender a ao

modalizante e convocativas de discursos falados, escritos ou imagticos

- no bios miditico, que hegemonizam a expresso dana contempornea,

apresenta-se o conceito althusseriano de interpelao6.

O reforo disciplinar e biopoltico do carter generalista da expresso

dana contempornea pela ao dos dispositivos de biopoder (econmicos

e comunicacionais) tratado no segundo captulo. As consequncias da

generalizao da expresso so compreendidas atravs de discursos

veiculados no bios miditico. Para se compreender a ao dos dispositivos,

recorre-se a uma reviso bibliogrfica do conceito.

Em seguida, discute-se a noo de capitalismo artista para ampliar

o debate sobre a questo da autonomeao/autodeclarao como processo

identificatrio que define o sujeito-artista 7 da dana contempornea no

contexto atual brasileiro. Entende-se essa autodeclarao como um aspecto

5 A noo de movimento individualizado compartilhada por autores como Humphrey (1987), Louppe (2012), Foster (in CRARY at al, 1992) e Rocha (in GONALVES at al, 2012), conforme se discute no ponto 1.1. De maneira sucinta, o termo se refere ao que se prope como um movimento do sujeito, individualizado, distante da cpia de um movimento de um corpo demonstrativo, termo que referente ao corpo do professor, no sentido proposto por Foster (in CRARY at al, 1992). Mais sobre a questo em nota de rodap na p. 38. 6 A interpelao a tese central da teoria de poder do filsofo Louis Althusser (1918 - 1990). Sua obra mais importante Ideologie et Apareils Ideologiques DEstat (1970) e traduzido em portugus como Ideologia e aparelhos ideolgicos do Estado, por Joaquim Ramos. Lisboa: Editorial Presena, s/d. Outra obra est disponvel em portugus sob o ttulo Aparelhos ideolgicos de Estado: notas sobre os aparelhos ideolgicos de Estado. Traduo de Walter Evangelista e Maria de Castro. 6.ed. Rio de Janeiro: Edies Graal, 1992. Toma-se como fonte importante que discorre sobre o conceito de interpelao o artigo de sua autoria intitulado Ideologia e aparelhos ideolgicos de estado: notas para uma investigao. In: ZIZEK, Slavoj (Org.). Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. pp. 105 - 142. A interpelao se baseia na noo de que um indivduo chamado como sujeito para dentro de uma ideologia. O conceito, relido tambm pelo terico Mark Franko (2002), ser desenvolvido mais adiante no ponto 1.2.3., p. 55. 7 Como se ver adiante no ponto 1.2.3., atravs do conceito de interpelao althusseriano, um indivduo chamado como sujeito atravs da ideologia. Assim, o termo sujeito-artista se refere a um indivduo que interpelado por um sistema de crenas e valores a fazer parte de um aparelho ideolgico.

17

biopoltico, que tambm refora a generalizao da expresso, e conecta o

sujeito com as convocativas dos dispositivos de biopoder, de trs maneiras.

A primeira, atravs dos projetos contemplados pelo edital pblico do

Programa Petrobrs Cultural, eleito como fonte de dados justamente pela

sua abrangncia nacional. A sano jurdica da expresso dana

contempornea aferida pela seleo exclusiva de projetos de companhias

ou coletivos de artistas que se autodeclaram como de dana

contempornea, sejam eles escolhidos pela modalidade Seleo Pblica

ou Escolha Direta.

Procura-se apontar que a Escolha Direta, da qual se beneficiam os

projetos da Cia. Deborah Colker de Dana (RJ) e Grupo Corpo (BH) desde

o incio do programa de subveno pela Petrobrs, um fator que corrobora

tambm para a sano institucionalizada do entendimento de que a dana

contempornea, tal como realizada por estes grupos, a que merece ser

(per)seguida por sujeitos-artistas. Pretende-se mostrar como o edital do

Programa Petrobrs Cultural atua simultaneamente como um dispositivo

biopoltico de poder econmico e comunicacional.

A segunda, atravs da programao de canais de TV no Brasil, sejam

eles abertos ou cabo, que ressoam discursos sobre a dana

contempornea e exibem danas enquadradas sob essa expresso. Foram

escolhidos como fontes trs canais de TV cuja programao especfica

sobre Arte: SESC-TV, Canal Arte1 e Canal Brasil. Os programas de dana

desses canais so discutidos como exemplos do poder miditico de

interpelao da expresso dana contempornea.

A terceira forma que exemplifica a ao dos dispositivos biopolticos

no bios miditico, que convoca e modaliza as produes em dana, a

divulgao de aulas de dana contempornea na internet em forma de

flyers. Alguns desses objetos imagticos de publicidade apresentam textos

escritos, nos quais transparecem percepes acerca da expresso dana

contempornea.

Foram escolhidos, de maneira randmica na ferramenta buscadora

de imagens do Google (sob a expresso aulas de dana contempornea),

apenas os resultados de flyers que apresentavam textos escritos, como

sinopses ou planos das aulas oferecidas, cujos textos deixassem claros os

18

entendimentos que os seus autores tm sobre a expresso dana

contempornea. A partir disso, foram separados os flyers cujas percepes

sobre a expresso se assemelhassem, sendo divididos ento em trs

grupos: percepo da expresso como prtica teraputica; percepo da

expresso como cdigo de movimentos (passos de dana), e percepo

da expresso como prtica para busca pelo movimento individualizado.

Nota-se, ainda, que alguns flyers explicitam o entendimento do termo

contemporneo como um adjetivo que se relaciona com uma atualizao

da tcnica-esttica trabalhada (por exemplo: jazz contemporneo, afro

contemporneo) ou como fuso de estilos ou modalidades de dana.

Alm de buscar indicar a confuso terminolgica e o uso reiterado e

inespecfico da expresso dana contempornea atravs dos flyers,

procura-se mostrar que eles tambm agem biopoliticamente, interpelando

indivduos com proposies de aulas que funcionam como manuais ou

cartilhas para a realizao do contrato comunicacional que visa tornar o

indivduo um sujeito-artista da dana contempornea. O paradoxo que se

pretende explicitar que, apesar do contrato provocar a identificao do

sujeito com a dana contempornea, a expresso no aponta para nenhum

objeto, exceto para o entendimento subjetivo que se tem dela, a exemplo

das variadas percepes observadas nos flyers.

No Captulo 3, avana-se nas proposies anteriores, propondo-se

que a ao convocatria e modalizante dos dispositivos biopolticos de

poder se d no corpo e se transforma em corpo. Isto porque se pretende

mostrar que a principal consequncia da ao dos dispositivos que

modalizam e regulam as prticas criao, ensino e aprendizagem

autodenominadas sob a expresso dana contempornea, so

estabilizaes estticas que, alm de serem recorrentes na cena dos

espetculos e apresentaes de dana como cenrios, figurinos, luz,

msica ou outros elementos, essas recorrncias tambm se manifestam na

dana do corpo que dana, sejam em trabalhos de dana ou nas instncias

de formao onde ocorre a aprendizagem e o ensino da dana.

Para adentrar nessa discusso, apresenta-se o conceito de corpo

como mdia corpomdia visando esclarecer como se do, no vis do

conceito, as trocas de informao constantes do corpo com o ambiente, em

19

um processo que resulta na transformao de informaes em corpo. Para

apresentar o conceito, alguns pressupostos so tambm apresentados,

como a compreenso de corpo como sistema. A fim de entender a

estabilizao de informaes pelo corpo, discute-se tambm os conceitos

de hbito e padro.

Em seguida, explora-se como a noo de dana contempornea

como um estilo ou modalidade de dana repercute no bios miditico. A

discusso permeada por exemplos. Foram escolhidos os quatro primeiros

vdeos que surgiram por ordem de relevncia na pesquisa da expresso

aulas de dana contempornea no portal Youtube, realizada no dia 29 de

abril de 2016. Os quatro vdeos so comentados, contrapondo o seu

contedo - imagtico e discursos transcritos dos professores com as

percepes encontradas sob a expresso dana contempornea a partir

dos textos dos flyers, tratados nos Captulo 2.

Busca-se mostrar como os vdeos das aulas, assim como os flyers,

agem como dispositivos biopolticos de poder, convocando e modalizando

a produo em dana dita contempornea. Simultaneamente, procura -se

tambm indicar como os vdeos evidenciam a viso de professores sobre a

dana que ensinam, e como essas vises e prticas pedaggicas

corroboram para a estabilizao de um vocabulrio motor, atravs do

exemplo de movimentos que so recorrentes nessas aulas. Esses vdeos

so examinados partindo das convocativas que realizam com o espectador,

via contratos comunicacionais.

Finalmente, discute-se a viso do termo contemporneo com

produes artsticas realizadas no tempo presente e a noo da expresso

dana contempornea como relacionada a estilo ou modalidade

realizada por sequncias de movimentos, no peso disso quando desemboca

na educao formal. Para essa ltima discusso, elegeram-se dois

documentos como exemplos para serem analisados: dois planos de aula de

dana contempornea, um publicado no website da Revista Nova Escola e

outro no Portal do Professor, website financiado pelo MEC.

O percurso que se apresenta chama a ateno para a relao Dana

- Biopoltica. Busca-se, como contribuio, discutir e compreender as

razes e consequncias do destaque miditico dado dana

20

contempornea no Brasil, luz de estudos em Comunicao. A discusso,

que conecta o campo da Comunicao e a Dana, contribui para a prtica

indisciplinar do conhecimento, considerando-a adequada para lidar com as

mudanas de hbito em curso.

21

CAPTULO 1

1. Dana contempornea: a impossibilidade de um objeto

O que comunica, d conhecimento de algo. O que designa de forma

muito generalista, no distingue as especificidades do que pretende

identificar. Na rea da dana, no Brasil, durante os ltimos anos,

consolidou-se uma classificao dessa ordem: a expresso dana

contempornea tem sido empregada para abarcar uma srie de produes

distintas entre si, havendo se transformado em um lao de carter

excessivamente frouxo, que agrega objetos to diferentes que no cabem

em uma mesma coleo. Seu uso reiterado tomou tal proporo, que

passou a nomear um conjunto amplo, que no partilha pressupostos

assemelhados. A exacerbao do seu carter inespecfico transformou essa

em uma expresso sem objeto.

Este captulo se dedica a apresentar a problemtica do uso da

expresso dana contempornea no Brasil, apontando que dispositivos8

de (bio)poder9 desempenham papel importante no aspecto generalista que

8 Agamben amplia o entendimento dos dispositivos de Foucault. Em conferncia do autor no Brasil, no ano de 2005 (AGAMBEN, Giorgio. O que um dispositivo?. In: Outra Travessia. Revista de Literatura do Programa de Ps-graduao em Literatura da UFSC. eISSN 2176-8552, N.5, Florianpolis, SC, 2005. P. 9 - 16), ele explica que chamar de dispositivo [] qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opinies e os discursos dos seres viventes. No somente, portanto, as prises, os manicmios, o panptico, as escolas, as confisses, as fbricas, as disciplinas, as medidas jurdicas etc, cuja conexo com o poder em um certo sentido evidente, mas tambm a caneta, a escritura, a literatura, a filosofia, a agricultura, o cigarro, a navegao, os computadores, os telefones celulares e - porque no - a linguagem mesma, que talvez o mais antigo dos dispositivos, em que h milhares e milhares de anos um primata - provavelmente sem dar-se conta das consequncias que se seguiriam - teve a inconscincia de se deixar capturar (AGAMBEN, 2005, p. 13). Essa noo ampliada de dispositivo de Agamben (2005) a partir de Foucault a que se toma no presente estudo e a discusso sobre o conceito ser tratada adiante. 9 O biopoder o poder que modela at a passividade o corpo do sujeito individualizado (WELLAUSEN, 2006 - 2007, p. 4). uma tecnologia que complementa a atuao das disciplinas que fabricam corpos dceis: o biopoder inflige sua ao no mais ao corpo individualizado, mas ao homem como espcie, em sua multiplicidade. O conceito de biopoder e de biopoltica surge nos estudos foucaultianos como o pice da genealogia dos micropoderes disciplinares, que o filsofo iniciou na dcada de 1970. No presente estudo, biopoltica entendida como formas em que o biopoder atua atravs de processos de normalizao. O termo biopoder, de acordo com Anderson (2001, p. 1, traduo nossa)

22

a expresso assumiu. Discute como o poder biopoltico desses dispositivos

se d no ambiente conectado em rede - o bios miditico (SODR, 2006) -

e como a atuao deles homogeneizante, pois que est atada a discursos

modalizadores e a convocativas que interpelam os sujeitos-artistas a se

enquadrarem como contemporneos.

1. 1. Consideraes sobre a expresso dana contempornea

Partir em busca de uma definio ou categorizao da dana

contempornea no a proposta desta tese. Dentre tantos os que indicam

parmetros para categoriz-la, seguem o das autoras aqui trazidas.

Jussara Janning Xavier, em O que a dana contempornea?

(2011) 10, a prope como um acontecimento, embasada, principalmente, no

pensamento de Agamben e Deleuze e Guatarri. A autora diz que

[] a contemporaneidade na dana diz respeito a uma atitude, um modo de percepo e existncia, no limitada a uma produo tcnica inovadora no tempo histrico presente. Tal entendimento nos permite a aproximao com realizaes de dana datadas no passado, mas que continuam contemporneas hoje, porque percebidas como acontecimentos. (XAVIER, 2011, p. 38).

Sobre a atual crise em torno da expresso, Ana Maria de So Jos

(2011) 11 faz sua contribuio. A autora parte

[] da hiptese de que existe uma variedade de significados e concepes conceituais para o termo dana contempornea, pois identificamos como um campo de conhecimento amplo, aberto, vivo, pleno de infinitas possibilidades de criao artstica e de processos em constante construo e transformao. (SO JOS, 2011, p. 2).

consiste em nomear [] como a vida se torna um objeto-alvo para tcnicas e tecnologias do poder. 10 XAVIER, Jussara Janning. O que a dana contempornea?. In: O teatro transcende.

Departamento de Artes CCE da FURB. ISSN 2236-6644. Blumenau, v. 16, n. 01, pp. 35 - 48, 2011. 11 SO JOS, Ana Maria. Dana contempornea: um conceito possvel? In: Anais do V Colquio Internacional Educao e Contemporaneidade. Universidade Federal de Sergipe. So Cristvo - SE. 21 a 23 de setembro, 2011.

23

Mesmo que as possibilidades de criao artstica em dana

contempornea fossem infinitas, como prope a autora, para delimitar um

territrio, precisaria de parmetros. Entretanto, como se ver adiante, trata-

se de uma questo complexa. Segundo So Jos (2011), em nota de rodap

no seu artigo, ela explica: o termo foi criado em 1926, por crticos da poca.

Dana contempornea utilizado na Frana e no Brasil e a dana ps-

moderna, nos Estados Unidos (id., p. 12).

Com outro vis, Thereza Rocha (in GONALVES et al, 2012, p. 36)12

defende o que chama de trs medidas de prudncia para pensar a dana

contempornea. Uma primeira seria [] entender que a dana

contempornea no uma modalidade de dana, pois no h, segundo

ela, [] aspecto, elemento ou procedimento, mesmo se observvel em um

ou mais espetculos, por mais recorrente que seja, que possa ser

apresentado como caracterstico dessa dana.

Vale pensar sobre essa premissa lembrando que a expresso dana

contempornea continua sendo usada no sentido contrrio ao que Rocha

(id.) apresenta, com a certeza da existncia do aspecto, elemento ou

procedimento que pode ser reconhecido como o que a caracteriza. E o

esforo de trabalhos diversos buscarem se acomodar nesta classificao,

transforma-a em um dispositivo de (bio)poder, na medida em que promove

uma espcie de estabilizao de escolhas estticas. Isto ser discutido nos

captulos seguintes.

Rocha (id., p. 35) relaciona a segunda medida de prudncia com a

primeira. Ela explica que a dana contempornea uma pergunta sem

resposta, e que no h nenhum sujeito-suposto-saber, uma vez que a

dana contempornea pergunta do lugar de quem no sabe. A terceira

medida de prudncia, consiste na ateno natureza da pergunta: na

dana contempornea trata-se de uma pergunta que o corpo se faz (id., p.

37, grifo da autora).

No entanto, de certo modo, pode-se ler o que ela prope (no olhar o

que o corpo faz como um modo particular de se mover, mas como um

12 ROCHA, Thereza. Por uma docncia artista com dana contempornea. In: GONALVES, Thas at al. (Org.). Seminrio dana teatro educao: Docncia-artista do artista-docente. Fortaleza: Expresso Grfica e Editora, 2012. pp. 32 - 47.

24

perguntar a si mesmo) e a sua escolha por organizar a sua proposio na

forma de medidas de prudncia, como pressupostos modalizadores13.

Para sustentar a sua proposta, convoca o conceito de processo de

singularizao (GUATTARI e ROLNIK, 2005)14, para indicar um possvel

processo de singularizao danante, no qual o corpo opera importantes

passagens: de objeto a processo; de produto produo; de meu corpo a

eu-corpo. Explica que esse processo instaura uma mutao subjetiva, no

qual o corpo dificilmente ter gosto em repetir [] sotaques de dana j

dados por uma tcnica em particular, uma vez que o corpo passa a inventar

modos de aprender a aprender (ROCHA in GONALVES et al, 2012, p.

37, grifos da autora).

Um tal processo de singularizao danante requisita ou mesmo depende do descondicionamento de linguagens j dadas no corpo, da desconstruo de respostas sensrio-motoras programadas. E isso implica menos ou quase nada em desaprender esta ou aquela dana em particular. O que est em pauta, importante frisar, o descondicionamento e a desconstruo dos modos de aprender, ou seja, dos modos atravs dos quais aprendemos a aprender. (id., p. 41).

Percebe-se, no discurso de Rocha (id.), um certo tom ideolgico, que

lida com a dana contempornea como o tesouro escondido da dana,

como se fosse a chave primordial para uma pedagogia da autonomia

(FREIRE, 1970)15 do corpo que dana, uma vez que se baseia no

descondicionamento e na desconstruo no das danas propriamente

ditas, mas de seus modos de aprender, ou seja, dos modos atravs dos

quais aprendemos a aprender. Vale sublinhar que, o que Rocha apresenta,

no da mesma natureza do que So Jos (2011) prope, quando enuncia

a dana contempornea como um territrio de infinitas possibilidades, pois

Rocha no reconhece a circunscrio desse territrio. O discurso de So

13 A noo de modalizao ser vista adiante, nos pontos 1.2.1. (p. 44) e 1.2.2. (p. 51). Como se ver, uma modalizao exorta valores que so assimilados pelos indivduos, tornando-os sujeitos controlveis/controlados. 14 GUATTARI, Felix; ROLNIK, Suely. Micropoltica: cartografias do desejo. 7a. ed. Petrpolis, RJ: Vozes, 2005. 15 FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.

25

Jos est fortemente ancorado em pressupostos modernistas, no que diz

respeito ao seu desejo de resolver a questo de forma classificatria. E o

de Rocha, no.

Cabe um breve comentrio sobre a distino entre o uso dos termos

modernismo16 e moderno no contexto da dana. Sobre o moderno,

retorna-se ao ambiente norte-americano da primeira metade do sculo XX.

Na dcada de 1930, Martha Graham (1894 - 1991), uma das precursoras do

movimento da Dana Moderna Norte-Americana, foi chamada de moderna

pelo crtico de dana John Martin (1893 - 1985):

E bem ao lado deles, com ateno concentrada e em aplausos vigorosos, estavam aqueles grupos de jovens que tm sido o suporte bsico da assim chamada dana moderna desde o seu incio. Haviam-se passado duas temporadas desde que Miss Graham, ou qualquer outro bailarino moderno, tinham aparecido na Broadway, e eles estavam esperando por ela. (MARTIN, 1944, traduo

16 Para Fredric Jameson (em Modernidade singular: ensaio sobre a ontologia do presente. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2005), a modernidade um termo que se refere ao passado, enquanto moderno deve ser usado para o presente. Ainda, o termo modernidade carrega muitos valores e est atrelado ao comeo do capitalismo com o mercantilismo, sendo ento importante entender o princpio do capitalismo como o motor principal da modernidade. Sob essa perspectiva, faz-se perceber que dada a regulao do capital para financiar/ incentivar ou fomentar a cultura atravs de leis, persiste um trao moderno no Brasil, pois que os mecanismos de regulao do interesse pblico so ainda existentes e perpetuam a ideia de modernismo. Michel Bernard, no captulo On the use of the concept of modernity and its perverse effects in dance, in SOLOMON, Nomie (Ed.). Danse: an anthology. Paris: Le presses du reel, 2014. pp. 69 79), prope um olhar para a dana percebida que se distancie de classificaes formais de normas de modernidade, ps-modernidade , premodernidade, antimodernidade, hypermodernidade ou contemporaneidade e advoga a busca por uma modalidade de enunciao que fuja das nocivas classificaes e das categorizaes de danas promovidas por processos miditicos, evacuando o vocabulrio formatado de classificaes trivializadas e institucionalizadas que usam a categoria da modernidade e seus derivados e se manter focado no trabalho sensriomotor do ato de danar. Para Marshall Cohen, em Primitivism, Modernism and Dance Theory, (in FANCHER, Gordon; MYERS, Gerald (Ed.). Philosophical essays on dance. New York: Dance Horizons, 1981. pp. 188 156), o termo modernismo (modernism) refere-se um trabalho de arte modernista, que adere um de dois ideais constrastantes: um, que incorpora a viso de que um trabalho verdadeiramente moderno no se separa da mdia artstica na qual ele concebido ou se mistura com os domnios de outras linguagens artsticas. Outro, que um trabalho de arte total aquele que toma fundamentos primitivistas, onde isto deve significar que deve haver uma sntese das artes em um trabalho o que possibilitaria a produo de efeitos sensrios poderosos. Ele exemplifica que o trabalho de Merce Cunnigham moderno, e opera sob o primeiro ideal, uma vez que o coregrafo prega a independncia e integridade das artes mesmo quando postas em dilogo em um mesmo trabalho e rejeita o ideal da fuso das linguagens artsticas, o que se trata do exato oposto do segundo ideal que pleiteia a sntese das artes, a fim de reestabelecer a unidade entre experincia e ideia, imagem e realidade, o que caracterizaria a arte primitiva (p. 139).

26

nossa) 17.

A qualificao a irritou, pois ela defendia que sua dana era

contempornea: sua preocupao era danar os problemas de seu tempo,

em uma busca identitria pelo que seria uma dana verdadeiramente norte-

americana. Com este entendimento de contemporneo associado ao

tempo presente, fundou a sua escola com o nome de Martha Graham School

of Contemporary Dance (ALMEIDA NETO, 2009)18.

Este fato pode ter tido algum impacto na (confusa) ideia que os

artistas norte-americanos fazem a respeito de dana contempornea, tendo

em vista a matria intitulada Modern Vs. Contemporary, de Victoria

Looseleaf, publicada na Dance Magazine, em dezembro de 201219. Nos

Estados Unidos, a impreciso sobre a expresso dana contempornea

anloga situao que ocorre no Brasil, e talvez orquestrada e reforada

por razes similares, como aqui se aponta: pela ao de dispositivos de

(bio)poder. Logo no incio, a autora da matria, que tambm professora

de Histria da Dana na University of Southern California, levanta questes

sobre o que diferencia os termos moderno e contemporneo, em se

tratando de dana, e arrisca-se a responder:

O que h nas palavras contemporneo e moderno que tem feito bailarinos, coregrafos e diretores artsticos discutirem nos dias atuais? apenas uma questo de semntica, treinamento ou tcnica? sobre estilo? Talvez gneros modernos e contemporneos tenham tomado novos significados, pois a aldeia global tem criado um caldeiro de movimentos, um caldo de formas borradas que no apenas

17 And right along beside them, as concentrated in attention and lusty in cheers, were those rafts of youngsters who have been the basic suport of the so-called modern dance from its inception. It had been two seasons since Miss Graham, or any other modern dancer, had appeared on Broadway, and they were waiting for her (MARTIN, 1944). Extrado da crtica de John Martin intitulada The Dance: Miss Graham - She returns in Triumph After Seasons Absence - Notes from the Field, publicada no jornal NY Times, em 2 de janeiro de 1944. Disponvel no website The Library of Congress, Performing Arts Encyclopedia, no endereo . Acesso em 28mar.2016. 18 ALMEIDA NETO, Arthur Marques. Appalachian Spring: poltica e poder na dana. Dissertao de mestrado. Programa de Estudos Ps-graduados em Dana da Universidade Federal da Bahia. 2009. 120 fls. 19 Disponvel em: .

Acesso em: 15 de out.2014.

http://lcweb2.loc.gov/natlib/ihas/service/graham.1/200153424/200153424.pdfhttp://dancemagazine.com/inside-dm/modern_vs_contemporary/

27

quebram convenes e desafiam definies, mas, no processo, criam algo totalmente novo, mas ainda inominado.20 (LOOSELEAF, 2012, s/p., traduo nossa).

Looseleaf (2012) conversa com 10 (dez) profissionais da dana que

trabalham no contexto norte-americano sobre o que eles consideram dana

contempornea e faz um importante apontamento: ela explica que, diante

da exibio do internacionalmente famoso programa do canal Fox (TV

cabo) intitulado So you think you can dance, a confuso acerca da

expresso parece ter aumentado de proporo, uma vez que [] toda

apresentao de ps descalos apelidada de contempornea21.

A matria elucidativa ao atribuir o reforo dessa complicao

terminolgica mdia, atravs da fora de divulgao de So you think you

can dance. Looseleaf (2012) traz o depoimento de Mia Michaels,

coregrafa principal do programa e de vrios pop-stars e companhias de

dana norte-americanas:

Eu sou um pouco responsvel pelo So You Think You Can Dance cooptar o termo contemporneo. Quando comeamos o programa, Nigel [Lythgoe] estava chamando de lrico. Eu disse, Isto no lrico, contemporneo. Ns criamos um monstro. Contemporneo uma sada fcil - quando voc no sabe como nomear, voc chama de contemporneo. Eu sinto que a dana est fundindo todas as formas e que a unidade de cada gnero est comeando a ser confusa. Parece regurgitada e eu quero muitssimo que isto mude22. (MICHAELS apud LOOSELEAF, 2012, s/p., traduo nossa).

20 What is it about the words contemporary and modern that has dancers, choreographers, and artistic directors talking these days? Is it a question of semantics, training, or technique? What about style? Perhaps modern and contemporary genres have taken on new meanings because the global village has created a melting pot of moves, a stew of blurred forms that not only break down conventions and challenge definitions, but, in the process, create something wholly new, but as yet unnamed. (LOOSELEAF, 2012, s/p.). 21 To further muddy the waters, weve got Foxs hit TV show So You Think You Can Dance, where seemingly every barefoot number is dubbed contemporary (LOOSELEAF, 2012, s/p.). 22 Im a little responsible for So You Think You Can Dance co-opting the term contemporary. When we first started the show, Nigel [Lythgoe] was calling it lyrical. I said, Its not lyrical, its contemporary. Weve created a monster. Contemporary is an easy way outits when you dont know what to call it, you call it contemporary. I feel like dance is fusing all the forms and that the uniqueness of each genre is starting to be muddled. It feels regurgitated and I want it to change desperately (MICHAELS apud LOOSELEAF, 2012, s/p.).

28

A coregrafa Mia Michaels resume o que hoje um consenso no meio

da dana, nos contextos norte-americano e brasileiro, e que se relaciona

com o problema desta pesquisa, j apresentado: a expresso dana

contempornea tem nomeado uma srie de diferentes produes de forma

generalista.

Dispositivos comunicacionais e econmicos (bio)polticos23, a

exemplo do programa So you think you can dance, contribuem, de forma

contundente, no reforo desse carter impreciso. Profissionais da rea,

tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a associam com o carter de

atualidade temporal, e a ausncia de uma fundamentao epistemolgica

consensual implica, inclusive, em concluses simplistas usadas por artistas

e pesquisadores, como a de que a dana contempornea seria tudo o que

se faz no tempo de hoje (FARO, 2011)24.

Consequentemente, a expresso abarcaria todas e quaisquer

produes de dana cnica, desde que produzidas recentemente,

excetuando-se aquelas que j tm definio, como os bals chamados de

repertrio, por exemplo. Isso no difere do que observa Looseleaf (2012)

na Dance Magazine.

A maior parte dos profissionais de dana entrevistados nesta matria

(LOOSELEAF, 2012) explica que entende a expresso como referncia a

uma dana produzida na atualidade. Exemplos: Benoit-Swan Pouffer,

diretor artstico da Cedar Lake Contemporary Ballet, de Nova Iorque; Jean

Freebury, remontadora de trabalhos e ex-bailarina da Merce Cunningham

Dance Company, de Nova Iorque; Alex Ketley, coregrafo e co-fundador do

coletivo The Foundry, de So Francisco; e Ray Leeper, diretor e um dos

coregrafos do programa So you think you can dance, de Los Angeles.

Entre os entrevistados, h tambm um segundo pensamento

frequente sobre a expresso: o de que designa danas que so misturas ou

fuso de tcnicas diferentes, como explica o j citado Ray Leeper:

Contemporneo qualquer coisa atual. como um estilo, mas enraizado

na tcnica, pois uma fuso de vrias tcnicas - ballet, jazz, moderno

23 Os dispositivos de (bio)poder e suas aes sero discutidas no Captulo 2. 24 FARO, Antonio Jose. Pequena histria da dana. 7. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011.

29

(apud LOOSELEAF, 2012, traduo nossa)25. Jean Freebury tem opinio

similar de Leeper: Contemporneo mais um termo que voc deveria

usar para algo atual, mas tem um aspecto mais integrado, ento voc

deveria usar uma mistura de coisas - ballet e moderno. Diferentes geraes

tambm tm diferentes estilos26 (id., traduo nossa). Freebury parece

indicar, assim, que contemporneo, alm de indicar fuso de gneros,

tambm um estilo, o que vai convergir com a opinio de Leeper.

Jennifer Archibald, fundadora e diretora da Arch Dance e professora

de hip-hop e jazz contemporneo 27 na escola Dance New Amsterdan, em

Nova Iorque, prope que o termo contemporneo no designa uma tcnica.

Entretanto, no escapa da obrigao de considerar a questo da tcnica

quando explica que ele se trata de uma [] coleo de mtodos que tm

sido desenvolvidos a partir da dana moderna e ps-moderna. tambm

um ciclo de derramamento de tcnicas que aprendemos em favor da

expresso pessoal do movimento (apud LOOSELEAF, 2012, traduo

nossa) 28. Pouffer tambm trata o termo com a noo de uso de tcnicas,

mas de uma forma mais difusa que Archibald:

Talvez para outra pessoa seja um estilo, mas quando voc diz ballet contemporneo, eu escuto a palavra ballet, e eu penso que esta pessoa ir usar algum aspecto do ballet, tanto a tcnica ou a esttica, embora no necessariamente sapatilhas de ponta ou malhas de ballet. (apud LOOSELEAF, 2012, traduo nossa)29.

Persiste a ideia de que o termo designa danas que so identificadas

25 Contemporary is anything current. Its more of a style, but rooted in technique, because its a fusion of several techniquesballet, jazz, modern (LEEPER apud LOOSELEAF, 2012). 26 Contemporary is more a term you would use for something current, but it has a more integrated aspect, so youd use a mixture of things ballet and modern. Different generations also have different styles (FREEBURY apud LOOSELEAF, 2012). 27 Interessante notar o uso da palavra contemporneo como adjetivo para qualificar o estilo de dana jazz. Mais sobre esse apontamento ser discutido no Captulo 3. 28 Contemporary is a collection of methods that have been developed from modern and postmodern dance. Its also a cycle of shedding techniques weve learned in favor of personal expression of movement (ARCHIBALD apud LOOSELEAF, 2012). 29 Maybe for another person its a style, but when you say contemporary ballet, I hear the word ballet, and Im thinking this person will use some aspect of ballet, either the technique or the aesthetic, though not necessarily ballet slippers or pointe shoes (POUFFER apud LOOSELEAF, 2012).

30

pela fuso das tcnicas empregadas. Curiosamente, tanto Pouffer quanto

Glenn Edgerton, diretor artstico da Hubbard Street Dance, de Chicago,

remete a expresso ao uso da tcnica ou esttica do ballet. Edgerton,

avanando na ideia de Pouffer, explica que, em sua opinio, tanto o termo

moderno quanto contemporneo pouco distinto:

No h nenhuma distino clara entre os dois. Meus pensamentos so que tudo seja uma extenso do ballet clssico. Embora tenham havido conotaes com o termo 'contemporneo', eu penso nisso como tendo mais formas e linhas do classicismo, enquanto moderno seria mais embasado, mais aterrado. (EDGERTON apud LOOSELEAF, 2012, traduo nossa) 30.

Nos Estados Unidos, a falta de preciso sobre o emprego do termo

contemporneo reforada por, pelo menos, dois dispositivos, dentre

tantos outros: a prpria Dance Magazine, inclusive com edio online, e o

programa So you think you can dance, tambm disponvel online e no

portal Youtube. Como se v, dispositivos comunicacionais e econmicos

operam funo importante no uso generalista da expresso dana

contempornea.

So Jos (2011, p. 10) explica que a dana contempornea no

existe, sendo impossvel tratar a variedade de danas contemporneas no

singular, preferindo o seu uso no plural. A autora francesa Laurence Louppe

(1938 - 2012) 31 vai discordar da necessidade do plural. Maria Jos Fazenda

(in LOUPPE, 2012, p. 12) apresenta a posio de Louppe: [] h apenas

uma dana contempornea, no que diz ao trabalho da dana e aos valores

que o regem. Fazenda (id.) se refere dana contempornea como um

modo de fazer dana que tem pressupostos filosficos a serem

(per)seguidos.

Como j apresentado (vide p. 20), Xavier (2011) parece tentar se

esquivar de usar a expresso como algo generalista, buscando resolver a

problemtica da inespecificidade de que a coregrafa Mia Michaels fala na

30 Theres no clear distinction between the two. My thoughts are that its all an extension of classical ballet. Though there have been connotations with the term contemporary, I think of it as having more shapes and lines of classicism, whereas modern would be more grounded, more earthy (EDGERTON apud LOOSELEAF, 2012). 31 LOUPPE, Laurence. Potica da dana contempornea. Lisboa: Orfeu Negro, 2012.

31

entrevista a Looseleaf (2012). Explica: O acontecimento uma quebra no

tempo, se desdobrando em passado-futuro. O acontecimento o

contemporneo na dana (XAVIER, 2011, p. 37). Em outro momento, diz,

complementando a sua proposio que

[] a contemporaneidade na dana diz respeito a uma atitude, um modo de percepo e existncia, no limitada a uma produo tcnica inovadora no tempo histrico presente. Tal entendimento nos permite a aproximao com realizaes de dana datadas no passado, mas que continuam contemporneas hoje, porque percebidas como acontecimentos. Podemos encontrar exemplos nas propostas criativas e trajetrias de mestres, bailarinos e coregrafos como Vaslav Nijinski (1890-1950), Kazuo Ohno (1906-2010), Rene Gumiel (1913-2006), Merce Cunningham (1919-2009), Tatsumi Hijikata (1928-1986), Klauss Vianna (1928-1992), Pina Bausch (1940-2009), dentre outros. (XAVIER, 2011, p. 38).

Xavier (2011), ao abrir mo de associar a expresso dana

contempornea a um tipo de produo tcnica, parece tangenciar a

proposta de Rocha (in GONALVES et al, 2012), mas dela se separa

porque continua a se ocupar em definir a expresso como algo que designa

as danas que propem uma espcie de ruptura no tempo e apresentam o

potencial de trazer reflexo no momento presente, mesmo se produzidas no

passado:

Tamanha fora se impe na ao do contemporneo, em seu modo de acontecimento e experincia, que ele sobrevive e permanece como provocao ao pensamento, mesmo quando se trata de uma ocorrncia histrica passada. (XAVIER, 2011, p. 39).

Cabe um questionamento: ser que a capacidade de provocar

reflexo sobre o tempo presente mesmo uma propriedade apenas das

danas que devem/podem ser nomeadas como contemporneas o que,

novamente, atribuiria o trao temporal ao entendimento de

contemporneo? Ou ser essa uma questo ontolgica da dana32, sem

exclusividade para a contempornea? Em outras palavras, somente

32 Outra questo ontolgica da dana ser levantada adiante (vide p. 32): a de que o corpo seria a sua principal matria.

32

danas nomeadas como contemporneas so passveis de provocar

reflexes, atravessando tempos e contextos? Sem se ocupar em definir a

expresso dana contempornea, esta pesquisa se interessa em

compreender os motivos da hegemonia do seu uso, que sequer aparece no

plural (danas contemporneas).

O que entra em xeque o fato de que muitos trabalhos se

(auto)nomeiam contemporneos, e que, dentre os dispositivos (bio)polticos

que produzem a necessidade de nomeao, podem ser citados eventos,

festivais, editais de fomento produo, difuso e manuteno; revistas

(online ou impressas), programas de TV, a internet (em especial, canais de

acesso vdeos como o Youtube), redes sociais como o Facebook (que

tambm divulgam trabalhos em dana), distintos tipos de material de

divulgao (panfletos virtuais de aulas ou cursos de dana, dentre outros).

Esses dispositivos so auxiliados por convocatrias e discursos

modalizadores 33, que encerram a produo em dana em modelos prontos,

capazes de fazer com que o artista criador em dana alcance o seu lugar

ao sol.

Os pressupostos levantados por Louppe e citados por Fazenda (in

LOUPPE, 2012, p. 12) se ocupam com a categorizao e verifica-se, como

nos autores j citados, uma preocupao em definir a expresso:

A dana contempornea , na sua essncia, a que recusa seguir um modelo exterior ao que elaborado a partir da individualizao de um corpo e de um gesto - todos os instrumentos e conhecimentos visam a construo dessa singularidade - a que faz da sua matria de trabalho a realidade do prprio corpo.

33 De acordo com Prado (2013, p. 30), um discurso modalizador aquele que motiva o destinatrio da comunicao a ser algum ou a fazer algo a partir de um querer, fornecendo a ele um saber e indicando o que deve fazer. claro que, para que a modalizao se torne realidade, o destinatrio tem de poder fazer aquilo. Discursos modalizadores promovem valores e constrem sujeitos, interpelando-os: visam controlar corpos sob formas que substituem o poder disciplinar (DELEUZE, 1992, p. 220). As convocativas so formas de interpelar os indivduos como sujeitos melhores, atravs de modalizaes. Para o autor, a convocao oferece, portanto, no uma satisfao pura e simples para uma necessidade natural, mas d forma a uma demanda latente, fazendo-a expressar-se num querer cultural (PRADO, 2013, p. 12), uma vez que cada necessidade tem seus manuais e respectivas convocaes, com seus enunciadores especficos instalados em dispositivos com contratos comunicacionais adequados (id., p. 18). Ambos conceitos sero tratados adiante.

33

Fazenda (id.) concorda que o corpo que dana a principal matria

da dana contempornea. Sinaliza-se aqui, entretanto, que essa proposio

no especfica para a dana contempornea, uma vez que se entende que

todas as danas tm no corpo a sua matria principal - esta seria, portanto,

uma questo ontolgica da dana e no uma caracterstica exclusiva de um

tipo de dana.

Para sustentar a sua proposta, diz que Louppe (2012) defende que,

embora os materiais e formatos escolhidos possam divergir entre seus

criadores, a dana contempornea [] faz do corpo em movimento seu

sistema de referncia. Mais uma vez, o corpo apresentado como sendo

o centro e o aspecto fundamental da produo criativa em dana

contempornea, que deve [] renunciar s convenes figurativas e

narrativas que, no sculo XIX, ditavam a presena dos corpos em cena

(FAZENDA in LOUPPE, 2012, p. 13).

Ainda segundo Fazenda (id.), at o advento das poticas instauradas

na dana contempornea, a dana e o corpo que dana dependiam de

outras linguagens artsticas para auxiliar nas narrativas e convenes

figurativas das produes. Talvez a autora queira enfatizar a separao

entre uma dana que no traz codificao prvia para a sua realizao, em

termos de movimento ou coreografia a serem recombinados, centrando-se

inteiramente nas aes especficas necessrias para a atuao do corpo

naquela situao nica; e uma outra dana, na qual o tipo de material que

o corpo faz j existe (em uma tcnica ou um tipo de narrativa codificado,

por exemplo), e rearranjado de alguma maneira especfica naquela obra.

Como o mesmo material pode servir a diferentes propsitos, cada produo

necessita, ento, de outros elementos para ajudar na definio dos

personagens e das narrativas.

Apenas como exemplos que desmantelam essa tentativa de definio

centrada no corpo que dana, cita-se Cesena (2013), de Anne Teresa de

Keersmaeker, obra na qual a passagem da noite para o amanhecer to

fundamental quanto o que os bailarinos fazem em cena, ou o Umwelt (2004),

de Maguy Marin, no qual a cenografia conduz a narrativa, ou Choreographic

34

Objects34, de William Forsythe, no qual o corpo que dana apenas uma

das partes indispensveis da pea.

No lugar de buscar definir, vale observar e refletir sobre a incidncia

frequente de escolhas estticas que foram se estabilizando na produo

recente, tais como o uso de novas tecnologias, projees, interfaces com

outras linguagens artsticas, nudez, descontinuidades, ausncia de msica,

figurinos e objetos do cotidiano, entre outras. Como vo se estabilizando,

passam a ser tratadas como caractersticas definidoras, devido a um

entendimento de que a dana contempornea, como qualquer outro tipo de

dana, tambm se constri com uma certa coleo de componentes

(mistura de linguagens artsticas, uso de elementos do cotidiano em cena

etc), e que a tarefa se reduziria a conseguir descrev-los bem. Para lidar

com esse ponto, a sugesto a de recorrer ao conceito de interpelao35,

no sentido proposto por Althusser (in ZIZEK, 1996), para lidar com os

indivduos como sujeitos-artistas produtores de dana contempornea.

Sendo a dana contempornea parte do sistema dinmico36 chamado

dana, o processo de estabilizao sistmica lhe constitutivo. De forma

similar, o mesmo ocorre com outras danas. Exemplos: 1) na dana

moderna norte-americana, movimentos distintos foram sistematizados por

alguns artistas na forma de tcnica de dana (Martha Graham, Lester

Horton, Jos Limn, entre outros) e consolidaram-se dentro de uma mesma

maneira de pensar a dana; 2) no ballet, a partir de movimentos j

codificados por Pierre Beauchamp37, alguns artistas (Vaganova, Cecchetti,

Bournonville, entre outros) tambm consolidaram tcnicas distintas dentro

de uma mesma maneira de pensar a dana.

34 Vide website disponvel em . Acesso em 15.abr.2016. 35 Como j informado, o conceito de interpelao ser desenvolvido adiante, no ponto 1.2.3., p. 55. 36 Sistemas so dinmicos porque so abertos, no estanques, e sujeitos a trocas de informao que ocorrem em fluxo contnuo. Logo, a realidade formada por sistemas abertos, em sua grande maioria (MARTINS, 1999, p. 24; VIEIRA, 1994; 2000). Sistemas abertos so sistemas que se transformam ao longo do tempo, perturbando a estrutura do espao/tempo volta deles, em seu meio ambiente, o qual, por sua vez, pode tambm perturb-los (MARTINS, 1999, p. 24). 37 Foi Pierre Beauchamp (1631 - 1705) quem inicialmente sistematizou o que hoje se chama de tcnica de bal, estabelecendo, por exemplo, as cinco posies bsicas de ps. A convite de Lus XIV, assumiu como diretor, em 1671, a Academia Real de Dana, fundada com o intuito de formar uma primeira gerao de bailarinos profissionais.

http://www.williamforsythe.de/installations.html

35

Na dana contempornea, que pode ou no se organizar a partir de

um vocabulrio de passos sistematizados em alguma tcnica, sucede algo

aproximado: com o passar do tempo, uma mesma coleo de escolhas foi

sendo estabilizada, passando a funcionar no lugar do vocabulrio l

inexistente. Assim, o que esteticamente vai reincidindo em vrias obras,

passa a ocupar o papel dos passos inexistentes. Mais adiante, no Captulo

2, investiga-se os dispositivos de (bio)poder que atuam nessa forma de

estabilizao.

Anteriormente, j se chamou a ateno para o fato de que a

autonomeao se tornou o critrio para fazer uso da expresso dana

contempornea. Assim, no causa estranheza que companhias que se

autonomeiam como produtoras de dana contempornea mantenham as

mesmas prticas das que no se identificam assim, continuando a realizar

audies para admisso de bailarinos com a obrigatoriedade de uma aula

de tcnica de ballet o que, no Brasil, por conta de seu contexto especfico,

refora o entendimento, equivocado e ainda generalizado, de que a tcnica

de bal mesmo a que d conta de todas as demandas em dana, inclusive

da contempornea. Um exemplo, dentre outros tantos: a Cia. de Dana

Deborah Colker (RJ)38.

O que sustenta a possibilidade de todos poderem continuar se

autonomeando como sendo da dana contempornea, sem levar em

considerao os distintos modos como pensam a dana, justamente a

ignio que move essa tese. E, para avanar nessa investigao, parece

ser necessrio voltar ao corpo ser central, usando ou no os cdigos pr-

estabelecidos, e atravessar essa questo com a perspectiva de Rocha (in

GONALVES et al, 2012), que a de no buscar os contedos do que

compe essa dana, ou seja, deixar de buscar organizar uma listagem de

itens para justificar a aplicao desta etiqueta identificadora.

E assim como artistas e companhias se autodefinem como sendo de

dana contempornea sem perceber que a expresso se tornou vazia,

38 No caso especfico da Cia. de Dana Deborah Colker, cabe refletir sobre a sua necessidade em insistir que faz parte da dana contempornea. Dado o seu poder miditico, no parece necessria a sustentao dessa associao distorcida (ver Captulo 3).

36

tambm muitos pensadores se detm nesse tema sem perceber que no o

trabalham fora da lgica que esto tentando combater. Louppe (2012, p. 45)

um exemplo disso, quando diz que o corpo da dana contempornea no

regido por cdigos pr-estabelecidos ou modelos a serem (per)seguidos,

mas por valores ticos como [] a autenticidade pessoal, o respeito pelo

corpo do outro, o princpio da no-arrogncia []. Ou seja, continua

arrolando contedos identificatrios. No entanto, como a sua formulao

acomoda bem os trabalhos que fazem desses valores as suas premissas, e

que so geralmente realizados por coletivos ou grupos de artistas que no

renem seus participantes em torno de uma tcnica especfica, a sua

proposta continua tendo grande aderncia.

Ainda dentro da lgica de amealhar os contedos certos, Fazenda (in

LOUPPE, 2012, p. 12) fala em um corpo demonstrativo, referindo-se ao

corpo usado como modelo para a execuo de determinado movimento de

dana pr-elaborado ou codificado que, no caso do corpo que treina uma

tcnica, seria o corpo do professor, noo trazida por Susan Foster39. Esse

corpo estaria ausente na dana contempornea. Todavia, ao ligar o corpo

da dana contempornea ao da contact-improvisation que se expandiu nos

Estados Unidos a partir de 1972, no abandona a mesma lgica.

Prope que o contact-improvisation [] se baseia na inveno de

um novo corpo em dana que promove a individualizao da expresso,

uma movimentao espacial a 360 graus e cuja percepo se centra na

sensao de tocar o corpo do outro [] (op. cit., loc. cit.). Todavia,

importante esclarecer que o contact-improvisation pede um corpo tambm

especialista, capacitado tecnicamente a realizar as suas propostas. Apesar

de no se tratar de um treinamento que pede o corpo demonstrativo, tem

tambm instrues especficas e um vocabulrio partilhado entre os

praticantes, que constri competncias especficas do seu modo de se

organizar, tal como se d em outras tcnicas de dana.

Fazenda (id.) atribui os valores ticos da dana contempornea

existente em Portugal e na Frana ao contact-improvisation, destacando

sobretudo a Steve Paxton e gerao dos anos 1960 que, em Nova York,

39 FOSTER, Susan. Dancing bodies. In: CRARY, Jonathan et al. (Org). Incorporation. Nova Iorque: Urzone, 1992. pp. 480 - 495.

37

atuou no contexto do Judson Dance Theater40, promovendo o []

alargamento dos movimentos a designar por dana e novos entendimentos

sobre a [] grande amplitude do treino necessrio para definir um

bailarino (id., p. 46).

No entanto, para manter a complexidade da dana contempornea

enquanto assunto de investigao acadmica, cabe lembrar que pleitear a

importncia da singularidade do movimento de cada um uma inquietao

que alinhava a histria da dana e se manifesta, de formas diferenciadas e

partindo de hipteses distintas, principalmente nos discursos sobre a

expressividade construdos em torno da associao da expressividade ao

movimento codificado. Cabe distinguir esse tipo de proposta de um outro,

que prope a singularidade da movimentao de cada um fora da

associao direta com qualquer tipo de tcnica codificada.

Seja uma, seja a outra preocupao, no se pode deixar de lembrar

que se manifesta, dentre outros, no Jean-Georges Noverre (1727 - 1810)

do sculo XVIII, na Isadora Duncan (1877 - 1927) do incio do sculo XX,

ou em Doris Humphrey (1895 - 1958) que, em 1959, ano em que foi

publicado The art of making dances (1987) 41, expunha seu pensamento

sobre uma dana que levasse em conta movimentos individualizados:

[] Eu nunca acreditei em ensinar com um conjunto de vocabulrio de movimentos, endurecido dentro de sequncias tcnicas. Eu sempre pensei que os alunos deveriam aprender princpios do movimento e serem encorajados a expandir ou cerzirem sobre estes em sua prpria maneira. (HUMPHREY, 1987, p. 19, traduo nossa)42.

40 O Judson Dance Theater foi um movimento criado em Nova Iorque, EUA, por um coletivo artistas que se apresentavam na Judson Memorial Church, entre 1962 e 1964. Foi originado por um curso de composio dado pelo msico Robert Dunn. Os experimentos vanguardistas dos artistas envolvidos no movimento, como Steve Paxton, Yvonne Rainer, David Gordon, Elaine Summers, Deborah Ray, entre outros, pretendiam romper com o direcionamento que a chamada Dana Moderna Americana estava tomando, inaugurando premissas que foram nomeadas por Dana Ps-moderna. 41 HUMPHREY, Doris. The art of making dances. Princeton, NJ: Dance Horizons Book/ Princeton Book Company, 1987. 42 I never believed in teaching with a set vocabulary of movements, hardened into technical sequences. I always thought students should learn principles of movement and be encouraged to expand or embroider on these in their own way (HUMPHREY, 1987, p. 19).

38

O que vale a pena destacar no discurso de Humphrey (id.) a

garantia de que possvel buscar um movimento individualizado43, que

respeita o corpo em suas diferenas e subjetividades, dentro de uma tcnica

codificada. Contudo, preciso cuidado para no apagar as diferenas entre

os pensamentos sobre a singularidade do movimento que o corpo faz, para

alm da moldura do movimento vir ou no de uma tcnica estabelecida. O

risco no identificar as divergncias tanto sobre o que considerado

movimento e tcnica quanto sobre qual o corpo autorizado a execut-lo.

Essas diferenas no devem ser apagadas no discurso da busca pelo

movimento individualizado porque ele se transformou em lugar-comum na

dana contempornea. Vale retomar a reflexo, j antes iniciada, sobre

mtodos ou tcnicas corporais que pretendam o [] descondicionamento

de linguagens j dadas no corpo, da desconstruo de respostas sensrio-

motoras programadas, como prope Rocha (in GONALVES et al, 2012,

p. 41) para realizar o que chama de singularizao danante. Porque

formulada dessa maneira, torna-se tarefa impossvel, uma vez que o corpo,

em fluxos constantes de troca de informaes com os ambientes, quando

estabiliza uma informao na forma de hbito, no a apaga mais. Pode

apenas continuar a transform-la no contato continuado com outro tipo de

informao.

Quem entende o corpo como uma coleo de informaes em

constante transformao por conta das trocas com o ambiente, como na

Teoria Corpomdia (KATZ e GREINER in GREINER, 2005), compreende a

inadequao de se pensar o corpo como um programa que pode ser

descontrudo. As linguagens j dadas no corpo (ROCHA in GONALVES

et al, 2012, p. 41) no so substitudas ou abandonadas, so apenas

transformadas em contato com outras informaes.

43 A expresso movimento individualizado merece ateno. Como se ver diante, adere-se ao pensamento althusseriano para o entendimento de funcionamento da ideologia. Como j comentado (vide nota de rodap p.16), em sua tese central, explica a interpelao como uma operao que convoca um indivduo como sujeito. Para o autor, j nascemos como sujeitos - uma vez que j somos chamados ao mundo dentro de uma ideologia. Aderindo a essa tese althusseriana, a expresso movimento individualizado merece a seguinte observao. pblico, por exemplo, que se trata de um modo de nomear usado por Louppe (2012). Aqui, contudo, se pleiteia que a nomeao mais adequada seria a de movimento subjetivado, pois que o movimento do indivduo, partindo da tese de Althusser (in ZIZEK, 1996), no existiria, uma vez que o indivduo s existe no mundo como sujeito.

39

Nessa dana contempornea sem linguagens j dadas no corpo

sobrevive um forte acordo sobre a importncia de Rudolf Laban (1879

1958) nas reflexes sobre treinamento. A hiptese aqui a de que isso

ocorre justamente porque Laban no sistematizou uma tcnica composta

por uma coleo de passos a serem repetidos o que favorece, de alguma

maneira, a iluso de que, ento, no deixa marcas fortes no corpo. E que,

por essa razo, combina com a autonomia expressiva que se deseja ter,

potencializando o respeito s diferenas e subjetividades.

Esse discurso se entranha firmemente no pas com a expanso dos

cursos de graduao em Dana nas universidades. Talvez porque parea

atender necessidade de especializar um corpo em dana sem

vocabulrios motores previamente codificados em tcnicas conhecidas o

que carrega um trao ideologizante que merece ser discutido.

Na licenciatura em Dana da Universidade Federal da Paraba -

UFPB, nas disciplinas Corpo e Movimento I e Corpo e Movimento II, o curso

d nfase ao estudo introdutrio do sistema Laban 44. Na licenciatura em

Dana da UFPE, as disciplinas de Estudo do Movimento 1, 2, 3, 4 e 5 (no

total de cinco semestres letivos) incluem, segundo as suas ementas, uma

Compreenso incorporada do movimento em seus elementos estruturais, desenvolvendo as habilidades de execuo, articulao verbal e conceitual e observao. Segue uma abordagem terico-prtica, baseando-se nas teorias de Rudolf Laban e outros estudiosos do movimento (tais como Gerda Alexander, F. M. Alexander, Ivaldo Bertazzo e Moshe Feldenkrais) e de outras reas do conhecimento 45.

J na graduao em Dana da Faculdade Angel Vianna - RJ, as

disciplinas de Metodologia de Ensino da Dana I e II so de estudo e

aplicao do sistema Laban. Na graduao em dana da UFMG, de acordo

44 Vide fluxograma do curso de licenciatura em Dana da UFPB, disponvel no documento Resoluo 62/2012 da CONSEPE, no endereo . Acesso em 28 mar.2016. 45 Extrado do documento Relatrio Perfil Curricular, da Pr-reitoria de Assuntos Acadmicos da Universidade Federal de Pernambuco, datado de 28 de maro de 2013, disponvel em: . Acesso em 28mar.2016.

http://www.ufpb.br/sods/consepe/resolu/2012/Rsep62.1_2012.pdfhttps://www.ufpe.br/proacad/images/cursos_ufpe/danca_perfil_100_1.pdf

40

com suas ementas, as disciplinas de Prtica de Dana I, II, III e IV (quatro

semestres letivos) so especficas para o estudo do sistema Laban. Na

ementa de Prtica de Dana I, l-se:

Introduo s prticas de execuo de movimentos segundo os fatores de movimento propostos por Rudolf Laban: espao, tempo, peso e fluncia, aplicados dana contempornea. nfase no fator espao 46.

Observa-se no ementrio da licenciatura em Dana da UFMG que as

disciplinas Prtica de Dana II, III e IV se reservam ao aprofundamento do

estudo do sistema Laban, onde na II a nfase no estudo do princpio

Tempo, na III a nfase no princpio Peso e, na IV, observa-se a

Fluncia, com o estudo dos princpios Espao, Peso e Tempo, para a

pesquisa e construo de uma dana autoral. Essa expresso parece se

relacionar diretamente com a proposta de um movimento individualizado47,

uma vez que uma dana autoral diz respeito ao movimento de dana que

resultante das especificidades de um corpo.

Nas instituies de ensino superior que optaram por oferecer

disciplinas obrigatrias com contedo do sistema Laban, observa-se que

seu foco est nos estudos nos quatro Fatores de Movimento (Peso, Fluxo,

Tempo e Espao) e nas Qualidades de Movimento ou Esforos Bsicos

48. Para escapar da repetio de movimentos pr-estabelecidos por tcnicas

de dana j codificadas, a opo foi eleger Laban. De acordo com Isabel A.

Marques (2002) 49,

[] j nos primeiros captulos de Dana educativa moderna, o prprio Laban estabelece a grande dicotomia entre a Arte e a Educao. Reforado por Lisa Ullmann, no posfcio de 1963, os dois afirmam com intensidade que a funo da

46 Extrado do documento Ementrio do Curso de Graduao em Dana - Licenciatura, da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. Disponvel em: . Acesso em 28 mar.2016. 47 J tratado anteriormente. Vale revisitar as notas de rodap nas pginas 16 e 38 sobre a expresso. 48 Para informaes sobre Fatores e Esforos Bsicos de Movimento definidos por Laban, vide: LABAN, Rudolf. Dana educativa moderna. So Paulo: cone, 1990. 49 MARQUES, Isabel A. Revisitando a dana educativa moderna de Rudolf Laban. Revista Sala Preta. Programa de Ps-graduao em Artes Cnicas da Universidade de So Paulo. v. 2, 2002. pp. 276 - 281. Disponvel em: . Acesso em 28 fev.2016.

http://www.eba.ufmg.br/graduacao/Danca/Ementas.pdfhttp://www.revistas.usp.br/salapreta/article/view/57104/60092

41

dana na escola no formar artistas, ou mesmo danas sensacionais, mas pessoas livres e capazes de expressar em atitudes criativas e conscientes o fluxo natural do movimento humano. (MARQUES, 2002, p. 277).

1. 1. 1. Contempornea ou ps-moderna?

Retomando a questo, como se nota, o uso dos termos

historicamente criados para classificar danas vem sempre acompanhado

de uma problemtica, no sendo uma exclusividade do contexto brasileiro.

Em 1980, Sally Banes escreve, em Terpsichore in sneakers50, que a

denominao de dana moderna, nos Estados Unidos, foi []

originalmente, um termo inclusivo aplicado para aproximadamente qualquer

dana teatral apartada do ballet ou entretenimento popular (BANES, 1987,

p. xiii, traduo nossa, grifo da autora) 51. Apenas no final da dcada de

1950 que a chamada dana moderna vai emergir como um gnero de

dana de contorno reconhecvel e acompanhada por uma produo terica

para apresent-la.

J sobre o uso da expresso dana ps-moderna, tambm nos

Estados Unidos, no incio dos anos 1960, Banes (1987, p. xiii) explica que

Yvonne Rainer cunhou o termo apenas com uma preocupao cronolgica:

uso do sufixo ps para designar a dana que ela e seus pares faziam na

Judson Memorial Church e em outros lugares como algo que vinha aps

a dana moderna. Apesar de complicaes no uso, como bem explica

Banes na introduo da edio de 1987 de seu livro, ela resolve usar o

termo dana ps-moderna para se referir toda produo de dana de

vanguarda americana das trs dcadas - 1960, 1970 e 1980. Entretanto, ela

aponta a principal complicao do termo:

Na atualidade, muitos autores de dana usam o termo de forma to solta que pode significar qualquer coisa ou nada.

50 BANES, Sally. Terpsichore in sneakers. Middletown, Connecticut: Wesleyan University Press, 1987. Esse livro uma reimpresso da primeira edio publicada em Boston pela Houghton Mifflin, em 1980. 51 [] originally an inclusive term applied to nearly any theatrical dance that departed from ballet or popular entertainment (BANES, 1987, p. xiii).

42

Entretanto, desde que o termo tem sido usado amplamente por quase uma dcada, parece-me que, ao invs de evit-lo, ns deveramos defini-lo e us-lo de forma discriminada. (BANES, 1987, p. xiii, traduo nossa) 52.

A preocupao de Banes (1987) sobre a necessidade de definio de

ps-moderno se irmana ao que aqui se problematiza em torno da expresso

dana contempornea. Para se situar a problemtica do uso da expresso

dana contempornea em geral e no contexto brasileiro, h que se

considerar a operao dos j citados dispositivos (bio)polticos de poder -

que, como j foi mencionado, sero tratados no prximo captulo.

Um aspecto do esvaziamento que se d pelo uso indiscriminado da

expresso, tem a ver com os trabalhos que praticam (sem problematizar)

pressupostos j preconizados, insistindo em se apresentar como inovadores

quando, muitas vezes, seguem repetindo solues ou questionamentos

estticos e polticos j h muito tempo tratados. Isso simplifica as ideias,

desconsidera a complexidade e multiplicidade dos processos de criao em

dana e, vale assinalar, tambm um reflexo da ao dos dispositivos de

biopoder, uma de suas possibilidades de modulao.

Outro aspecto dessa modulao est no uso das escolhas estticas

como contedos definidores que devem estar presentes e, ento, vo

homogeneizando as produes de dana contempornea. No prximo

ponto (1.2.), estende-se essa discusso.

1. 2. Dana contempornea: homogeneizao no bios miditico

A utilizao da expresso dana contempornea de forma

generalista colabora para a sua homogeneizao, que acaba se

manifestando como hbito53. Essas ocorrncias se expandem no bios

52 By now, many writers on dance use the term so loosely it can mean anything or nothing. However, since the term has been used widely for almost a decade, it seems to me that, rather than avoid it, we should define it and use it discriminately (BANES, 1987, p. xiii). 53 De acordo com Sodr (2006, p. 81), um hbito (do latim habitus, por sua vez traduo do grego skhema, que significa forma exterior) essa disposio estvel adquirida pelo indivduo e incorporada a seu modo de ser como algo que ele tem (habere, habitus) e persiste, a fim de adapt-lo s circunstncias de seu ambiente. Os hbitos, em suas diversas modalidades, ativas e passivas, constituem a moralidade, os modos de viver os sentimentos e o exerccio social das faculdades intelectivas e afetivas de um indivduo.

43

miditico (SODR, 2006), redimensionando essas afetaes para conexes

em rede. Bios sinnimo de forma de vida, e mdia nomeia a situao da

[] interconexo dos muitos dispositivos representacionais (id., p. 106).

o espao imaterial das redes de informao, na qual o indivduo vive

virtualmente. Nele, [] o contato mais do que simplesmente visual -

ttil, entendido como interao dos sentidos a partir de imagens

simuladoras do mundo (id., p. 105).

As afetaes em rede produzidas pela veiculao das informaes

associadas a dana contempornea ganham dimenso biopoltica porque o

sujeito-artista (o corpo que dana) que vive no bios miditico interpelado

por discursos (imagticos, falados, escritos etc) que reiteram a expresso

dana contempornea esvaziada de uma possibilidade de relao com os

objetos que poderia/deveria designar.

Ao atender s convocativas dos dispositivos de (bio)poder e de

discursos modalizantes54, os corpos que produzem dana, e que nos

tempos de hoje esto tambm conectados ao bios miditico, estabilizam

hbitos e escolhas estticas. A produo em srie de projetos para editais

de fomento dana, que devem ser enquadrados sob a expresso dana

contempornea para serem aprovados, provavelmente contribui com o

quadro que aqui se desenha; o fato desses projetos terem o seu tempo de

realizao previamente determinado, mantendo-os refns dessa condio,

tambm faz parte do mesmo quadro.

Os editais instauram-se como uma forma de biopoltica, pois

regulamentam o que pode viver (as danas enquadradas sob a expresso

dana contempornea) e o que deve morrer (as outras danas), e se

estendem tambm para escolher quem pode viver (os que so aprovados

nos editais) e quem deve morrer (os no aprovados) 55. E o fato das mdias

irem falando desses como trabalhos de dana contempornea, sem atentar

para o esvaziamento da expresso, vai tambm colaborando para criar uma

espcie de nvoa, que unifica as danas produzidas como se todas fossem

54 Discutidos adiante, no ponto 1.2.2., p. 51. A expresso j foi comentada em nota de rodap na p. 32. 55 O aspecto dessa validade pelos editais ser melhor discutido no Captulo 2, com o exemplo do Programa Petrobrs Cultural.

44

contemporneas, e como se apenas estas merecessem destaque. Forma-

se, assim, um ambiente que atua como um dispositivo (bio)poltico.

Para se discutir a ao interpelativa de dispositivos biopolticos de

poder na dana, faz-se necessrio compreender o funcionamento e a

historicidade da discusso sobre biopoltica e ideologia. Para tal, segue-se

uma reviso bibliogrfica inicial sobre o assunto, que teve por critrio um

recorte para favorecer a compreenso da investigao desta tese.

1. 2. 1. Biopoltica e Biopoder

Biopoltica compreende formas em que o biopoder atua atravs de

processos de normalizao. Sob essa tica, aceita-se que o termo biopoder

consiste em nomear [] como a vida se torna um objeto-alvo para tcnicas

e tecnologias especficas do poder (ANDERSON, 2011, p. 1, traduo

nossa) 56. Ben Anderson (2011, p. 3) 57 chama a ateno que a definio

para o termo biopoltica no consensual, pois o termo muda de acordo

com as conexes feitas com diferentes tericos, assuntos, lugares,

preocupaes e problemas.

Talvez uma possvel explicao para o dissenso a respeito do termo

seja a apropriao que diversos campos de conhecimento fizeram do

conceito. Philippe Artires (2011, p. 193) 58 explica: como um

Conceito pau-pra-toda-obra, a biopoltica conheceu um sucesso absolutamente formidvel e nico: historiadores do corpo e da medicina fizeram dele uma noo farol que permitiu renovar o campo (com o desenvolvimento, por exemplo, da histria da higiene pessoal), enquanto que os historiadores das cincias do Estado - aqueles dos primrdios da estatstica, da demografia, do recenseamento - viram subitamente nele uma legitimao epistemolgica de seus trabalhos.

56 [] how life has become the object-target for specific techniques and technologies of power. (ANDERSON, 2011, p. 1). 57 ANDERSON, Ben. Affect and biopower: towards a politics of life. In: Transactions of the Institute of British Geographers, Royal Geography Society. ISSN 0020-2754, 2011. pp. 1 - 15. 58 ARTIRES, Philippe. Arquivos do corpo, arquivo da biopoltica. In: Cadernos Brasileiros de Sade Mental. ISS