questão ambiental e educação- contribuições para o debate

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Ambiente & sociedade Print ISSN 1414-753X Ambient. soc. no.5 Campinas July/Dec. 1999 ARTIGOS Questão ambiental e educação: contribuições para o debate Environmental issues and education: contribution to the debate Gustavo da Costa Lima * RESUMO O trabalho introduz o debate sobre a relação entre a questão ambiental e a educação através de uma análise de algumas propostas educacionais voltadas ao ambiente. Parte da suposição de que as propostas educacionais dominantes tendem a enfatizar os aspectos técnicos e biológicos da questão ambiental em detrimento de suas essenciais dimensões política e ética. Essa tendência reduz a complexidade da questão ambiental e favorece concepções e práticas de educação ambiental conservadoras, despolitizadas e insustentáveis. Palavras-chave: meio ambiente, educação, cidadania, ética, sustentabilidade e questão ambiental. ABSTRACT This work introduces the debate between environmental issues and education, through an analysis of some educational proposals concerning the environment. It takes as its point of departure the supposition that dominant educational proposals tend to emphasize technical and biological aspects of environmental issues, in detriment to its essential political and ethical dimensions. This tendency reduces the complexity of environmental issues and favours conservative, depoliticized and unsustainable educational conceptions and practices. Keywords: environment, education, citizenship, ethics, sustainability, environmental issues. "O sumo bem é a própria vida" Bertold Brecht O PROBLEMA Este trabalho se inscreve no contexto da questão socioambiental que, nas décadas recentes, vem despertando preocupações e crescente interesse social. Os últimos anos têm testemunhado o caráter problemático que reveste a relação entre a sociedade e o meio ambiente. A questão ambiental, neste sentido, define, justamente, o conjunto de contradições resultantes das interações internas ao sistema social e deste com o meio envolvente. São situações marcadas pelo conflito, esgotamento e destrutividade que se expressam nos limites materiais ao crescimento econômico exponencial; na expansão urbana e demográfica; na tendência ao esgotamento de recursos naturais e energéticos não-renováveis; no crescimento acentuado das desigualdades sócio-econômicas intra e internacionais, que alimentam e tornam crônicos os processos de exclusão social; no avanço do desemprego estrutural; na perda da biodiversidade e na contaminação crescente dos ecossistemas terrestres, entre outros. São todas realidades que comprometem a qualidade da vida humana em particular e ameaçam a continuidade da vida global do planeta. De fato, a 1

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Trata dos aspectos políticos,históricos filosóficos da questão ambiental e seus desdobramentos na educação

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Ambiente & sociedade PrintISSN1414-753XAmbient. soc.no.5CampinasJuly/Dec.1999ARTIGOSQuesto ambiental e educao: contribuies para o debateEnvironmental issues and education: contribution to the debateGustavo da Costa Lima*RESUMO O trabalho introduz o debate sobre a relao entre a questo ambiental e a educao atravs de uma anlise de algumas propostas educacionais voltadas ao ambiente. Parte da suposio de que as propostas educacionais dominantes tendem a enfatizar os aspectos tcnicos e biolgicos da questo ambiental em detrimento de suas essenciais dimenses poltica e tica. Essa tendncia reduz a complexidade da questo ambiental e favorece concepes e prticas de educao ambiental conservadoras, despolitizadas e insustentveis.

Palavras-chave: meio ambiente, educao, cidadania, tica, sustentabilidade e questo ambiental.

ABSTRACT This work introduces the debate between environmental issues and education, through an analysis of some educational proposals concerning the environment. It takes as its point of departure the supposition that dominant educational proposals tend to emphasize technical and biological aspects of environmental issues, in detriment to its essential political and ethical dimensions. This tendency reduces the complexity of environmental issues and favours conservative, depoliticized and unsustainable educational conceptions and practices.

Keywords: environment, education, citizenship, ethics, sustainability, environmental issues.

"O sumo bem a prpria vida" Bertold Brecht

O PROBLEMA

Este trabalho se inscreve no contexto da questo socioambiental que, nas dcadas recentes, vem despertando preocupaes e crescente interesse social. Os ltimos anos tm testemunhado o carter problemtico que reveste a relao entre a sociedade e o meio ambiente. A questo ambiental, neste sentido, define, justamente, o conjunto de contradies resultantes das interaes internas ao sistema social e deste com o meio envolvente. So situaes marcadas pelo conflito, esgotamento e destrutividade que se expressam nos limites materiais ao crescimento econmico exponencial; na expanso urbana e demogrfica; na tendncia ao esgotamento de recursos naturais e energticos no-renovveis; no crescimento acentuado das desigualdades scio-econmicas intra e internacionais, que alimentam e tornam crnicos os processos de excluso social; no avano do desemprego estrutural; na perda da biodiversidade e na contaminao crescente dos ecossistemas terrestres, entre outros. So todas realidades que comprometem a qualidade da vida humana em particular e ameaam a continuidade da vida global do planeta. De fato, a questo ambiental revela o retrato de uma crise pluridimensional que aponta para a exausto de um determinado modelo de sociedade que produz, desproporcionalmente, mais problemas que solues e em que as solues propostas, por sua parcialidade, limitao, interesse ou m f, acabam por se constituir em novas fontes de problemas.

A questo ambiental, por outro lado, agrega realidade contempornea um carter inovador: por sua capacidade de relacionar realidades at ento, aparentemente desligadas; de mostrar a universalidade - embora com variaes regionais - dos problemas socioambientais contemporneos e por alertar para a necessidade de se promover mudanas efetivas que garantam a continuidade e a qualidade da vida no longo prazo. Isto significa que, s ameaas scio-polticas e econmicas de sempre, se acrescem os imperativos ambientais de como se administrar e garantir recursos vitais e finitos como o solo, a gua e a energia- para citar os mais bvios- em um sistema social caracterizado pela desigualdade e insustentabilidade.

Alm disso, o fato de problematizar a destrutividade potencial da sociedade industrial e a finitude dos recursos naturais traz tona a fragilidade e a provisoriedade do complexo vital, e nos remete a uma reflexo mais profunda e abrangente sobre o valor de nosso modelo civilizatrio, despertando novos sentidos e oportunidades de vida e mudana. A prpria natureza da crise ambiental, que coincide com outras mutaes histricas significativas no campo econmico, tecnolgico, cultural e poltico, tem propiciado curiosas oportunidades de reflexo e ao, orientadas para novas snteses que articulam economia e ecologia, tica e poltica, cincia e religio, cultura e natureza, cincias naturais e sociais, entre outras dicotomias. O momento, portanto, sugere um movimento de transio, um clima de incertezas, um desgaste de velhas frmulas sociais, uma apreenso angustiada com o futuro e uma possibilidade de novas snteses. Por essas razes, a questo ambiental tem, gradualmente, conquistado reconhecimento social e suscitado debates que buscam compreend-la e encontrar respostas compatveis com a magnitude do problema.

Mais especificamente, o presente estudo tem por objeto um recorte dessa questo socioambiental mais abrangente, concentrando-se em uma anlise da relao entre a educao e o meio ambiente. Neste sentido, se prope a debater a relao entre educao e questo ambiental atravs de uma anlise das concepes polticas e ticas subjacentes s principais propostas educacionais dirigidas ao meio ambiente.

A opo de articular a educao e o meio ambiente se deve a uma srie de motivos associados. Figura, em primeiro lugar, a importncia da educao enquanto instrumento privilegiado de humanizao, socializao e direcionamento social. Est claro que, como toda prtica social, ela guarda em si as possibilidades extremas de promover a liberdade ou a opresso, de transformar ou conservar a ordem socialmente estabelecida. Nesse sentido, embora no seja o nico agente possvel de mudana social, um dentre outros processos onde essa potencialidade se apresenta (ARANHA, 1989; BRANDO, 1995b). No entendemos a educao como uma panacia capaz de solucionar todos os problemas sociais, mas tambm consideramos no ser possvel pensar e exercitar a mudana social sem integrar a dimenso educacional. Vernier (1994), analisando a crise ambiental e seus impasses, sugere um conjunto de caminhos que, articulados, podem gerar respostas aos problemas ambientais. Esses caminhos apontam para: o estabelecimento de normas e princpios legais; os estmulos econmico e fiscais; a mobilizao dos cidados, da opinio pblica e associaes civis; a educao para o ambiente; a contribuio da pesquisa cientfica; a iniciativa dos organismos internacionais e a coordenao das polticas pblicas favorveis qualidade e defesa da vida (VERNIER, 1994).

A questo educacional, como j adiantamos, comporta uma dualidade e pode ser conduzida de uma forma libertadora ou opressora, a depender da luta entre concepes, valores e prticas sociais dos grupos que dividem e disputam o mesmo campo. Assim tanto a educao quanto a questo ambiental, apesar das mltiplas dimenses que envolvem so, em nosso entendimento, questes essencialmente polticas, que comportam vises de mundo e interesses diversificados. Observamos, entretanto, que as propostas educacionais para o meio ambiente tm em geral enfatizado os aspectos tcnicos e biolgicos da educao e da questo ambiental, em detrimento de suas dimenses polticas e ticas. Consideramos essa uma compreenso redutora e equivocada do problema que merece ser debatida e explicitada, j que se reflete na formao e na ao dos indivduos e grupos envolvidos com o tema e, por extenso, com toda a realidade socioambiental.

Buscaremos, assim, debater a relao entre meio ambiente e educao tendo como fio condutor uma anlise crtica das propostas educacionais voltadas ao ambiente. Para tanto, desenvolveremos o problema atravs de alguns passos que se apresentam: seus antecedentes histricos, uma anlise das principais tendncias da educao para o meio ambiente, a crtica dessas principais propostas e um exerccio de construo de uma nova proposta capaz de superar ou minimizar os reducionismos aqui observados.

O CONTEXTO HISTRICO

Conforme j indicamos, a questo ambiental emerge como problema significativo a nvel mundial em torno dos anos 70, expressando um conjunto de contradies entre o modelo dominante de desenvolvimento econmico-industrial e a realidade socioambiental. Essas contradies, engendradas pelo desenvolvimento tcnico-cientfico e pela explorao econmica, se revelaram na degradao dos ecossistemas e na qualidade de vida das populaes levantando, inclusive, ameaas continuidade da vida no longo prazo. Os reflexos desse processo podem ser observados nas mltiplas faces das crises social e ambiental e tm gerado reaes sociais, em escala mundial, e despertado a formao de uma conscincia e sensibilidade novas em torno das questes ambientais. Nacional e internacionalmente, embora de formas diferenciadas, essa conscincia ecolgica cresceu e gradualmente foi se materializando no seio da opinio pblica, nos movimentos sociais, nos meios cientficos, nas agncias e polticas pblicas, nos veculos de comunicao social, nos organismos e bancos internacionais, nas organizaes no-governamentais e nas iniciativas empresariais, entre outros. Viola e Leis (1991) analisam, com clareza, a evoluo do movimento e conscincia ambientalistas mundial e brasileiro. Constatam que o movimento no Brasil, iniciado a partir de minorias de cientistas e militantes ambientalistas organizados em torno da denncia de agresses e da defesa dos ecossistemas, foi gradualmente se ampliando, conquistando novos espaos, at ganhar a feio multissetorial que hoje o caracteriza. Do ponto de vista das preocupaes e temticas orientadoras, expandiu-se o foco de ateno, para incluir questes como a ecologia poltica, a questo demogrfica, a relao entre desigualdade social e degradao ambiental, a questo tica, as relaes norte-sul e a busca de um novo modelo de desenvolvimento.

O debate sobre a relao entre educao e meio ambiente se desenvolve no contexto de problematizao da prpria crise ambiental e se institucionaliza atravs da iniciativa da Organizao das Naes Unidas - ONU e de seus pases membros, que promoveram os primeiros encontros internacionais para discutir, estabelecer diretrizes, normas e objetivos para o problema. Carvalho (1991) observa o debate ecolgico dos anos 70 como uma disputa de foras em busca de afirmar uma determinada interpretao do problema socioambiental e apresenta o discurso ecolgico oficial- aquele produzido pelos organismos governamentais nacionais ou internacionais- como um esforo para instituir, mundialmente, uma interpretao da crise ecolgica que se torne "a verdade", o consenso mundial sobre o assunto.

Assim, a abordagem da educao para o meio ambiente aparece primeiramente, em 1972, na Conferncia das Naes Unidas para o Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, Sucia. A Recomendao 96, da Declarao de Estocolmo, indicava a necessidade de realizar uma educao ambiental, como instrumento estratgico na busca da melhoria da qualidade de vida e na construo do desenvolvimento ( REIGOTA, 1995; GRN, 1996).

Em 1975 a UNESCO, seguindo as recomendaes da Conferncia de Estocolmo, promove o Encontro de Belgrado, Iugoslvia, onde foram formulados alguns princpios bsicos para um programa de educao ambiental. Dois anos depois, em 1977, novamente a UNESCO e o Programa das Naes Unidas para o Meio Ambiente - PNUMA - promovem, em Tbilisi, Gergia, ex-URSS, a primeira Conferncia Intergovernamental sobre Educao Ambiental. Este encontro tem sido considerado um dos eventos decisivos para os rumos que a educao ambiental vem tomando, sobretudo porque figura como marco conceitual no novo campo. Nesta Conferncia foram elaborados os objetivos, princpios, estratgias e recomendaes para a educao ambiental. Entre os resultados da reunio emergiram critrios orientadores para o desenvolvimento da proposta, que sugerem que a educao deve:

a) ser atividade contnua, acompanhando o cidado em todas as fases de sua vida; b) ter carter interdisciplinar, integrando o conhecimento de diferentes reas; c) ter um perfil pluridimensional, associando os aspectos econmico, poltico, cultural, social e ecolgico da questo ambiental;

d) ser voltada para a participao social e para a soluo dos problemas ambientais;

e) visar a mudana de valores, atitudes e comportamentos sociais (DIAS, 1994). Em 1987, uma nova Conferncia Internacional foi promovida em Moscou, pela UNESCO e PNUMA, com o intuito de avaliar os resultados desenvolvidos durante a dcada e traar uma estratgia internacional de ao em educao ambiental para a dcada de 1990.

Neste mesmo ano, foi publicado o Relatrio "Nosso Futuro Comum", elaborado pela Comisso das Naes Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento- CNUMAD, criada pela ONU e presidida pela ento primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Bruntland. O Relatrio Bruntland, como ficou conhecido, a despeito de seus pontos polmicos, revela uma nova perspectiva de abordar a questo ambiental colocando-a como um problema planetrio, indissocivel do processo de desenvolvimento econmico e social. Apresenta o conceito de desenvolvimento sustentvel, que articula princpios de justia social, viabilidade econmica e prudncia ecolgica, como palavra de ordem e meta prioritria a ser a partir de ento perseguida. No interior da nova estratgia de sustentabilidade destacada a importncia da educao ambiental como alavanca indispensvel de sua construo (REIGOTA,1994).

Um dos ltimos e significativos documentos internacionais norteadores da educao para o ambiente o "Tratado de Educao Ambiental para Sociedades Sustentveis e Responsabilidade Global", elaborado pelo Grupo de Trabalho das Organizaes No-Governamentais - ONGs, durante a Conferncia da Sociedade Civil sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, simultaneamente Conferncia das Naes Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento no Rio de Janeiro em 1992. Esse documento, produzido pelas ONGs enquanto representantes da sociedade civil organizada, demonstra um discurso mais avanado e independente e tem sido usado como uma das principais referncias tico-polticas e tericas pelos estudiosos da questo.

De um modo geral, esses documentos oficiais so aceitos como referncias neutras e legtimas, e utilizados de uma forma relativamente acrtica por grande nmero de agentes sociais envolvidos com a questo ambiental. No entanto, h tambm, diversos estudiosos que os analisam criticamente, chamando ateno para suas contradies, nem sempre aparentes, suas omisses e principais matrizes ideolgicas.

Novaes (1993), comparando as propostas da Conferncia de Tbilisi em 1977 com aquelas do Frum das ONGs e Movimentos Sociais de 1992 - Tratado de Educao Ambiental para as Sociedades Sustentveis - conclui que, embora as referncias bsicas de Tbilisi tenham sido mantidas, alguns avanos importantes merecem registro. Destaca, em primeiro lugar, a incorporao de elementos da educao popular que aprofundam as questes scio-polticas no interior da proposta de educao ambiental. Ressalta, tambm, um reforo nas crticas ao modelo de desenvolvimento capitalista que se expressa na substituio do conceito de desenvolvimento sustentvel pelo de sociedade sustentvel. Com relao diferenciao desses conceitos, Diegues (1992) esclarece que o conceito de sociedade sustentvel permite a cada sociedade definir seus modelos de produo, consumo e bem-estar a partir de sua cultura, de sua histria e de seu ambiente natural, abandonando a transposio imitativa de solues padronizadas para contextos e realidades bastante diferenciadas. Segundo Novaes (1993), as propostas do Frum Global avanam na nfase dimenso da participao social e da cidadania e, portanto, no fortalecimento poltico da sociedade civil na construo da sustentabilidade social.

Brugger (1994), analisando propostas oficiais no documento "Estratgia Internacional de Ao em Matria de Educao e Formao Ambientais para o decnio de 1990", do PNUMA/UNESCO, aponta sua tnica de predomnio tcnico e naturalizante em detrimento dos aspectos ticos e polticos da questo ambiental. Segundo essa autora o contedo do documento revela uma tendncia a uma educao adestradora que define como

"uma instruo de carter, essencialmente tcnico, fruto de uma viso de mundo cientificista e unidimensional". (BRUGGER,1994: 14).

E mais adiante esclarece:

" possvel hoje, mais do que nunca, ocultar sob a fachada de um saber "tcnico" uma deciso na verdade poltica. Da mesma forma, o universo da locuo tcnica serve para reproduzir e legitimar o status quo e repelir outras alternativas que porventura se coloquem contra ele" ( BRUGGER, 1994: 80).

Carvalho (1991), por sua vez, desenvolve uma crtica mais detalhada sobre as principais expresses do discurso ecolgico oficial, definido como aquele produzido pelas instituies governamentais nacionais e internacionais com inteno de regular e disciplinar as prticas ecolgicas. Para ela, o discurso oficial pretende conciliar a preservao ambiental com o desenvolvimento industrial, dentro de um modelo capitalista. Nessa tica, os rgos oficiais se esforam para instituir uma interpretao da questo ambiental que possa aparecer como "a verdade" sobre o tema, apresentada como um consenso mundial. A partir da Conferncia de Estocolmo em 1972 criaram-se no mbito das Naes Unidas mecanismos centralizados de disciplinamento e controle dos problemas ambientais que, por um lado, apresentavam a "leitura correta" do problema e, por outro lado, "sugeriam" a direo de sua abordagem e soluo. Esses mecanismos, que demarcam as referncias da questo ambiental, so fundados numa perspectiva liberal e nos valores da sociedade industrial.

Com relao s orientaes de Tbilisi, Carvalho (1991) tambm observa o predomnio de uma viso liberal de sociedade onde a mudana socioambiental e o futuro dependem das esferas individual e comportamental. Para ela, mesmo quando esse discurso faz referncia cidadania e participao social, o faz delimitando-as a um molde comportado, formal e planejado, como se fora parte de uma estratgia normativa e disciplinadora de abordar o problema. Portanto, embora tenha forte conotao poltica ao definir o que, para que, e como deve ser tratada a relao entre educao e questo ambiental, aparece como um discurso tcnico e neutro sobre o qual no cabem questionamentos e discusses.

J no tocante ao conceito de desenvolvimento sustentvel veiculado pelo Relatrio Bruntland, Carvalho (1991), embora reconhea sua maior elaborao, observa seus limites dentro de uma concepo liberal, que evita os conflitos e que, em ltima instncia, busca garantir a manuteno da ordem estabelecida. Ou seja, embora apresente um novo conceito de desenvolvimento, construdo a partir da crtica do modelo em esgotamento, no altera fundamentalmente o sentido da dominao na ordem internacional. Esse mesmo conceito de desenvolvimento sustentvel tem sido alvo de crticas diversas, devido s suas ambigidades, indefinies e contradies, nfase economicista e desenvolvimentista, ausncia de uma perspectiva espacial e de classes sociais em seu interior, no explicitao de como conciliar preservao e crescimento no contexto do capitalismo e possibilidade de ser apenas uma nova cara para uma frmula velha e j esgotada (HERCULANO,1992; RODRIGUES,1996; BRUGGER,1994; STAHEL, 1995; LIMA,1997; SANTOS,1996).

BREVE ANLISE DAS PROPOSTAS EDUCACIONAIS

A primeira constatao relevante na anlise da relao entre educao e meio ambiente a de que no h "uma" educao para o ambiente mas, mltiplas propostas, proporcionais, em nmero e, variedade, s tantas concepes de mundo, de sociedade, e de questo ambiental existentes.

Sorrentino (1997), fazendo um esforo de classificar as principais correntes de educao ambiental define-as como:

a) conservacionista;

b) educao ao ar livre;

c) gesto ambiental;

d) economia ecolgica.

A corrente conservacionista, bastante presente nos pases do norte, mas tambm no Brasil, se organiza em torno da preocupao de preservar os recursos naturais intocados, protegendo a flora e a fauna do contato humano e da degradao.

A segunda corrente, da educao ao ar livre, que rene naturalistas, espelelogos, escoteiros e praticantes de modalidades de esporte e lazer na natureza, assumiu uma nova dimenso de educao ambiental, com a participao recente de grupos ligados ao ecoturismo e s trilhas ecolgicas. Inspiram-se em propostas cientficas e/ou filosficas de conhecimento da natureza e de sensibilizao ao autoconhecimento.

A terceira categoria, da gesto ambiental, de marcado interesse poltico, provm historicamente de movimentos de resistncia aos regimes autoritrios. Desenvolve uma crtica do sistema capitalista e de sua lgica predatria em defesa dos recursos naturais e da participao democrtica da sociedade civil na resoluo dos problemas socioambientais que vivencia.

A corrente da economia ecolgica, inspira-se no conceito de ecodesenvolvimento, e nas idias formuladas por Sachs e Schumacher nos anos 70. Ganha destaque a partir de meados da dcada de 80 medida que essas idias so apropriadas e reelaboradas por organismos e bancos internacionais - como a ONU, o PNUMA, a UNESCO e o BIRD entre outros - com o formato do desenvolvimento sustentvel. Comungam, secundariamente, dessa proposta algumas organizaes no-governamentais - ONGs, movimentos e associaes ambientalistas. Segundo Sorrentino, essa corrente se desdobra em duas tendncias, de diferentes significados, que vo polarizar o debate ambientalista no final do sculo. So elas:

1) a tendncia que defende a proposta do desenvolvimento sustentvel e que rene empresrios, agentes governamentais e membros de algumas ONGs, e

2) a tendncia que advoga a idia de "sociedade sustentvel", que se ope ao atual modelo de desenvolvimento e ao grupo anteriormente citado, por consider-lo adepto do status quo, embora com aparncia reciclada. Defendem uma sociedade mais justa, igualitria e ecologicamente preservada. Essa estratgia de sustentabilidade elege a sociedade civil como sujeito privilegiado da ao e gesto do processo de desenvolvimento.

Ainda segundo o autor, as quatro tendncias educacionais citadas permitem identificar quatro conjuntos de objetivos com os quais se identificam distintos projetos de educao ambiental. Podemos resum-los como:

a) biolgicos: referem-se a proteger, conservar e preservar espcies, o ecossistema e o planeta como um todo, incluindo a espcie humana como parte da natureza;

b) espirituais/culturais: dedicam-se a promover o autoconhecimento e o conhecimento do universo, segundo uma nova tica;

c) polticos: buscam desenvolver a democracia, a cidadania, a participao popular, o dilogo e a autogesto;

d) econmicos: defendem a gerao de empregos em atividades ambientais no-alienantes e no-exploradoras e tambm a autogesto e participao de grupos e indivduos nas decises polticas.

Brugger (1994) por sua vez reconhece a diversidade de abordagens da questo ambiental na educao. Contudo, devido forma de organizao do conhecimento na sociedade, distingue duas tendncias gerais:

a) as propostas educacionais oferecidas pelas cincias humanas, onde os fatores histricos e sociais so ressaltados, em detrimento dos aspectos tcnicos e naturais da questo ambiental .Tal tendncia, estaria mais ligada ao ensino formal e, especialmente aos nveis de graduao e ps-graduao;

b) a outra tendncia geral concentra sua abordagem, quase que exclusivamente, sob os aspectos tcnicos e naturais dos problemas ambientais. Essa tendncia, onde destacam-se os temas ecolgicos tem, segundo a autora, prevalecido sobre a tendncia anterior. Ela atribui essa prevalncia histrica fragmentao do saber, que divide as cincias sociais e naturais e dimenso instrumental do conhecimento institucionalizado pela sociedade industrial. Explica ainda que embora se possa falar em tendncias gerais, o campo da educao ambiental bastante diversificado, havendo um continuum que varia de uma extremidade outra e, tambm, a possibilidade de encontrar trabalhos que no se encaixam em nenhuma destas tendncias.

Grn (1996), Penteado (1994) e Reigota (1994) entre outros, concordam que subsiste o predomnio de uma perspectiva biolgica nas propostas de educao para o ambiente e alertam para os prejuzos desse reducionismo. Analisando essa inclinao, GRN pondera que: "ao confinar a educao ambiental quase exclusivamente ao ensino de biologia, acaba por reduzir a abordagem necessariamente complexa, multifacetada, tica e poltica das questes ambientais aos seus aspectos biolgicos" (GRN, 1996:105).

Carvalho (1995) outra autora que discute as tendncias das propostas educacionais para o ambiente postas em prtica no Brasil, ressaltando suas respectivas concepes pedaggicas, filosficas e polticas. Entende que tanto o discurso quanto a prtica dominante de educao ambiental no Brasil so marcados por caractersticas conservacionistas, individualistas e comportamentalistas. Segundo ela, concepes dessa natureza reduzem a questo ambiental a um problema exclusivo de sustentabilidade fsica/biolgica, de gesto dos recursos naturais, que esquecem a sustentabilidade poltica dos recursos naturais, em seu entender o ponto central do problema. Em suas palavras:

"Alm da sustentabilidade fsica, e mesmo constitutiva desta, est a sustentabilidade poltica que poderia ser descrita pelas relaes de fora que resultam numa gesto democrtica que no exclua grupos sociais do acesso aos bens ambientais, compreendidos como os bens materiais e simblicos sobre os quais suas vidas esto construdas" (CARVALHO,1995:60). Com base nessa compreenso reducionista, essas propostas pretendem reverter os processos de degradao apenas atravs da mudana de comportamentos individuais que reforcem a conservao do ambiente. Em outro estudo o autor defende que novos valores no so construdos, exclusivamente, atravs de programas educativos, mas nas prticas e no cotidiano da vida social. A outra tendncia possvel, a qual a autora se filia, situa "a educao ambiental dentro de uma matriz que considera as relaes sociais e ambientais sob o primado da poltica". Nesse sentido, defende uma educao ambiental articulada com os movimentos sociais, comprometida com a democracia, a participao social e a cidadania. Considera que o carter reducionista da vertente anterior, perde muito de sua capacidade de transformar a realidade, ao restringir a questo ambiental esfera privada no a integrando esfera pblica, territrio dos direitos de cidadania. Para a autora:

"a educao ambiental pode ser uma prtica de ao poltica que interpele a sociedade, problematizando a degradao das condies ambientais e das condies de vida como processos intrinsecamente articulados" (CARVALHO, 1995: 61).

Feita essa apresentao sinttica das principais tendncias da educao voltada para o ambiente, introduziremos uma avaliao crtica de algumas das concepes que orientam certas propostas educacionais implementadas no Brasil. Essa avaliao servir, tambm, para definir, negativamente, nossa concepo de educao para o ambiente, a qual ser complementada mais adiante.

CRTICA DAS PROPOSTAS EDUCACIONAIS

Inicio a crtica das propostas educacionais para o ambiente focalizando alguns reducionismos freqentes no discurso e na prtica dessas propostas que exercem ativa influncia na forma como os educandos passam a compreender e a reagir aos problemas socioambientais.

Figura, em primeiro lugar, a inclinao a reduzir o problema ambiental a um problema tcnico, desvinculado de outras consideraes. Esse tecnicismo, que alm de simplificador deformador, reduz a complexa multidimensionalidade da temtica ambiental unidimensionalidade tcnica. Tratar um problema resultante de fatores econmicos, polticos, culturais, sociais e ecolgicos como um problema estritamente tcnico no mnimo limitante. Desconsidera o fato de que a questo ambiental produto de um modelo de organizao geral da sociedade, que comporta decises e escolhas poltico-econmicas e culturais entre vrias opes possveis. Ora, decidir e desenhar um modelo de organizao social envolve mltiplos interesses e implica num jogo de foras que disputa a possibilidade de afirmar uma dada interpretao de sociedade e, uma dominao sobre os demais grupos que aspiram ao poder. Nesse sentido, a questo ambiental antes de tudo uma questo poltica e, consequentemente, econmica, cultural e tcnica. No se pode negar que a questo ambiental tem, entre outras, uma dimenso tcnica, mas, esta precedida e, condicionada por razes polticas e sociais e no o contrrio, como pretende a reduo tecnicista. Importa acrescentar que essa explicao redutora da questo ambiental obedece a um desvio tecnocrtico, que substitui a razo poltica pela razo tcnica e, trata a tcnica como um saber "neutro", acessvel apenas aos especialistas. Desta maneira, desvia-se dos reais motivos do problema, inverte a ordem entre meios e fins, atribui um poder excessivo tcnica e aos tcnicos - promovendo o imprio da tecnocracia - e afasta os cidados da possibilidade de participar da soluo de seus prprios problemas (MORIN, 1977; ADORNO & HORKHEIMER, 1994; SOBRAL,1985; BRUGGER, 1994).

Anloga anterior a tendncia a reduzir a questo ambiental a um problema estritamente ecolgico. Tal tendncia, limitante e enganadora por um lado, retira da questo ambiental, uma de suas caractersticas significativas que a de unir realidades, articular e relacionar dimenses complementares que constituem uma complexidade maior. Menosprezar esse potencial articulador implica em perder a viso sistmica da realidade que compreende a vida e a questo ambiental como um campo relacional, um todo integrado, onde todas as partes se comunicam entre si e com a totalidade (MORIN, 1977). Significa, por outro lado, interpretar a realidade socioambiental de uma perspectiva monodimensional das cincias biolgicas. Analisando este problema, Carvalho (1991) afirma que:

"esse deslocamento que concorre para a biologizao dos problemas sociais, tem alcanado enorme repercusso. notvel o crescente alcance que esse ramo da biologia tem alcanado. Da academia aos meios de comunicao de massa a ecologia evocada indiscriminadamente. Talvez como um novo ungento, que pode curar a angstia da sociedade moderna, restituindo-lhe o acesso a uma natureza e a um homem, novos e pacificados" (CARVALHO, 1991:21).

Esse reducionismo decorre, em ltima instncia, de uma confuso entre os conceitos de meio ambiente e natureza, e de uma concepo de natureza desumanizada, onde o homem foi excludo. Gonalves (1988) analisando o conceito de natureza predominante na cultura ocidental, confirma:

"a concepo de natureza que se tornou hegemnica no mundo ocidental se define por oposio a de homem, de cultura e de histria. Natureza e cultura se excluem" (GONALVES,1988:15).

Ainda nessa linha redutora destaca-se a leitura individualista e comportamentalista da questo e educao ambiental. Esta interpretao diagnostica o problema socioambiental como um problema de comportamentos individuais, e v sua soluo atravs da mudana de comportamento dos indivduos em sua relao com o ambiente. Mais uma vez, Carvalho (1995) chama a ateno para a parcialidade de se restringir a questo ambiental ao campo da esfera privada dissociada da esfera pblica, que consiste no espao da ao poltica e da cidadania.

Outra expresso que revela uma compreenso parcial e superficial da educao para o ambiente aparece em anlises que do excessiva ateno aos efeitos aparentes dos problemas ambientais sem questionar suas causas profundas, e que do origem crise atual. Ilustrativo dessa situao o modo freqente de se chamar muita ateno para o caso de espcies em extino sem questionar os modelos de ocupao e explorao dos recursos naturais, verdadeiros responsveis pela destruio de ecossistemas inteiros. Em geral, tal se d para satisfazer interesses econmicos e polticos de grupos, completamente alheios degradao que produzem. Assim, promover a reproduo de espcies em cativeiro em ilhas de conservao uma soluo que trata os efeitos do problema com se fossem causas. Representa, na verdade, paliativos superficiais que no tocam as principais razes do problema, que em nosso entendimento so polticas.

Todas essas crticas conduzem a duas constataes significativas e articuladas, presentes no cerne das interpretaes da educao e questo ambiental. A primeira delas ressalta, de modo recorrente, uma viso unilateral e fragmentada do problema que insiste em separar a realidade e em explicar a totalidade atravs de uma de suas partes. Assistimos, assim, a uma seqncia de explicaes dicotmicas que tendem a separar: a explicao tcnica da explicao poltica; a viso ecolgica da viso social; a abordagem comportamental da abordagem poltico-coletivista; a percepo dos efeitos da percepo das causas, entre outras dicotomias possveis. A segunda constatao a de que essa explicao dicotmica e fragmentada da realidade favorece uma compreenso despolitizada, alienada e redutora do problema na medida em que oculta seus motivos polticos e a inevitvel conexo de suas mltiplas dimenses.

Seguem-se outros pontos vulnerveis presentes em determinadas propostas educacionais para o ambiente. Entre eles, uma tendncia a ressaltar os problemas relacionados ao consumo - destino do lixo, reciclagem, poupar energia - em detrimento dos problemas ligados esfera da produo, ponto de origem de todo processo industrial onde se decide o que, quanto e como produzir. o caso, por exemplo, da escolha entre embalagens renovveis ou descartveis, entre produzir mais bens essenciais ou mais suprfluos, entre produtos com maior vida til e produtos que se tornam obsoletos rapidamente entre outros. Parece-nos que educar para o ambiente exige uma compreenso mais integrada do sistema de produo/consumo e um enfoque que privilegie a esfera da produo (causa) - que engendra e condiciona toda a dinmica produtiva - em lugar da esfera do consumo (efeito), do contrrio, estaremos invertendo e novamente parcializando a realidade.1

Verifica-se tambm com freqncia nos debates ambientais, o equvoco de atribuir as responsabilidades pela destruio ambiental ao homem enquanto espcie genrica. Repete-se, sistematicamente, que "o homem o grande predador da natureza", o maior perigo e inimigo da natureza.Tais afirmaes deixam de dizer que o homem vive em sociedades heterogneas formadas por grupos e classes sociais com poderes, atividades e interesses diferenciados. Os homens ocupam posies sociais e econmicas diferentes e se relacionam com seu ambiente diversamente. Alguns so governantes, outros so governados; alguns so proprietrios outros so assalariados; uns so produtores enquanto outros so consumidores; uns integrados outros excludos. Portanto, a afirmao genrica acima referida deve ser mais bem qualificada para evitar concluses apressadas e enganosas, como no caso de transferir para toda a coletividade as responsabilidades por agresses ambientais cometidas por um determinado grupo empresarial ou iniciativa governamental. Alm disso, esquece de contextualizar o fenmeno da degradao socioambiental, que no constante no tempo e no espao e que depende, fundamentalmente, de uma dada configurao histrico-social, e no de "homens" abstratos e descontextualizados.

Levanta-se ainda, no interior do debate da educao para o ambiente, uma contradio pedaggico-filosfica que se expressa na dificuldade de compatibilizar uma proposta educacional integradora e pluridisciplinar sobre uma estrutura de pensamento de base cartesiana, dualista e fragmentada, condicionada por uma tica antropocntrica e utilitria. Grn (1996) est entre os que afirmam a radical impossibilidade de desenvolver uma educao ambiental integradora nos marcos do paradigma cartesiano que, por um lado, separa cultura e natureza e, por outro, objetifica essa mesma natureza. Para ele

"a ciso entre natureza e cultura a base da educao moderna e constitui-se em um dos principais entraves para promoo de um educao ambiental realmente profcua" (GRN, 1996:55). Diante desse impasse resta a alternativa de descobrir, ou construir, um novo paradigma que supere as dificuldades do anterior e permita a prtica de um novo projeto de educao de carter multidimensional. Este autor realiza interessante anlise histrica que demonstra a influncia dominante e profunda do paradigma da modernidade fundado no racionalismo, no mecanicismo e no antropocentrismo sobre a estrutura conceitual da educao moderna desde o sculo XVII. Entre outras, a influncia dominante de Descartes, Bacon, Galileu e Newton foi decisiva sobre as concepes pedaggicas desde ento, e sobrevivem em nossos programas mentais, em nossa cultura e em nossos modos de pensar, sentir e agir como indivduos sociais. (GRN, 1996; BRUGGER, 1994)

Brando (1995a), analisando vises redutoras e utilitrias da questo e educao ambientais, prope com simplicidade e sabedoria uma compreenso onde o valor supremo a vida e pondera: " porque somos parte da cadeia, do fluxo e dos elos da vida, que sempre existiu para todos ns uma "questo ambiental". Somos seres vivos antes de sermos pessoas racionais ou sujeitos sociais. Compartilhamos a vida com outros seres da vida, somos todos o todo e a parte de uma mesma dimenso de tudo que existe. E tudo que existe parece converge ou parece querer convergir para ela: a vida" (BRANDO, 1995a: 223). Fao ainda referncia a uma idia recorrente nos debates que relacionam a educao e o ambiente, que superdimensiona o poder da educao na transformao dos problemas socioambientais, tratando-a como uma nova panacia para todos os problemas da sociedade contempornea. Assim, embora reconhea-se a importncia da educao na mudana social, convm trat-la como uma entre outras prticas sociais, capazes de compor uma estratgia integrada de mudana social e no como prtica isolada ou determinante no processo de transformao das relaes de poder na sociedade (CARVALHO, 1991; LEONARDI,1997).

Esta questo nos remete ao debate entre os tericos da Escola nova, os reprodutivistas e aqueles pensadores que sintetizam, dialeticamente, uma terceira via possvel de realizar a educao, como uma prtica que critica a ordem estabelecida e cria espaos de luta e mudana, explorando as brechas e contradies do sistema scio-poltico dominante. Assim os pedagogos da Escola Nova, de maneira otimista, entendiam que a educao tinha o poder de mudar a sociedade, de democratiz-la e de favorecer a mobilidade social dos educandos. Em contraposio essa tese, se levantam os pensadores crtico-reprodutivistas argumentando que a educao no democratizadora, mas reprodutora das relaes e desigualdades sociais. Partindo da compreenso de que a educao uma instituio social e um instrumento de socializao, organizada pelo Estado e pelas classes socialmente dominantes para transmitir sua viso de mundo, sua ideologia e seus interesses, no vem a possibilidade de uma escola transformadora, mas sim de uma escola que apenas reproduz as relaes sociais e polticas j estabelecidas. Para eles a educao s seria transformadora se a sociedade, como um todo, fosse transformada. A terceira posio, que articula uma sntese entre essas duas premissas, defendida, entre outros, pelo educador George Snyders, de que embora o sistema de reproduo social seja real ele no monoltico e isento de contradies, e sempre ser possvel exercer prticas que trabalhem a crtica e a resistncia reproduo e dominao ideolgicas. Para os partidrios dessa posio, que nos parece a mais sensata e realista, a educao e a escola so um espao possvel e importante de luta contra-hegemnica, mesmo que limitado (GADOTTI,1996; ARANHA & MARTINS 1986; BRUGGER, 1994).

A avaliao crtica exposta j deixa entrever, por contraste ou excluso, alguns pontos que consideramos importantes na construo de uma proposta para a educao relacionada ao ambiente. Preliminarmente, essa proposta conjuga elementos e prioridades defendidas por um conjunto de educadores, direta ou indiretamente envolvidos com a temtica em foco. Em dilogo com esses autores consideramos que a educao dirigida ao ambiente deve ser:

a) democrtica - que respeite e se desenvolva segundo o interesse da maioria dos cidados;

b) participativa - que estimule a participao social dos cidados no planejamento, execuo e avaliao das respostas formuladas para atender aos problemas vividos pela comunidade;

c) crtica - que exercite a capacidade de questionar e avaliar a realidade socioambiental, desenvolvendo a autonomia para refletir e decidir os prprios rumos;

d) transformadora - que busque a politizao e mudana das relaes sociais, dos valores e prticas contrrias ao bem-estar pblico;

e) dialgica - fundada no dilogo entre todos os participantes do processo educativo e da sociedade circundante;

f) multidimensional - que paute sua compreenso dos fatos na integrao dos diversos aspectos da realidade;

g) tica - que persiga o resgate ou construo de uma nova tica que priorize a defesa da vida, da solidariedade e da sustentabilidade socioambiental. (Freire, 1997,1977; Carvalho, 1991,1995; Sorrentino, 1991,1995; Reigota, 1991,1995; Brugger, 1994; Penteado, 1994; Grn, 1996; Gadotti, 1996; Giroux, 1988; Leonardi, 1997; Antuniassi, 1995); Manzochi, 1995).

Embora esquemtica essa definio procura estabelecer alguns princpios ticos, polticos e epistemolgicos, bsicos para a realizao de uma educao que se pretenda transformadora, comprometida com a vida, a liberdade e o interesse da maioria da populao.

Seus critrios polticos enfatizam a democracia, a participao e a transformao social e se preocupam em afirmar a necessidade de politizar a questo ambiental, por onde entendemos passam as possveis respostas crise socioambiental. Parece-nos, a princpio, invivel construir uma proposta educacional democrtica sem o exerccio da participao social porque , justamente, nela que est o solo de qualquer proposta educativa, que a enraiza, alimenta e d vida. Nesse sentido, a cultura poltica brasileira, com uma tradio marcada pelo hbito autoritrio e pela esquizofrenia entre o pblico e o privado, dificultam o exerccio da participao ao mesmo tempo que alimentam a apatia e a descrena da populao na possibilidade de contribuir para a superao de seus prprios problemas. Assim, importa desenvolver a relao entre o meio ambiente e a cidadania, fortalecendo a conscincia de que o ambiente um patrimnio pblico comum e sua defesa um direito poltico de todos os cidados. Ou seja, todos tm o direito e o dever de reivindicar e de participar da luta por um ambiente limpo e por uma vida digna e com qualidade (SORRENTINO,1991; PENTEADO, 1994; REIGOTA, 1995; DA MATTA, 1996).

O princpio democrtico, alm de garantir a participao social e respeitar a deciso das maiorias, assegura, na prtica, imunidade contra quaisquer tendncias autoritrias, elitistas ou excludentes que, porventura, ameacem a educao e o conjunto das relaes sociais.

O carter transformador da educao se justifica, por um lado, pelo reconhecimento de aspectos intrinsecamente contraditrios no modelo vigente de sociedade industrial e, por outro lado, pelo objetivo ou utopia de se aproximar o mximo de uma sociedade que compatibilize distribuio de riquezas, liberdade poltica, respeito vida em sentido amplo e viabilidade econmica. Isto porque observa-se hoje que o modelo de desenvolvimento vigente produz exatamente desigualdade social extrema, degradao ambiental acelerada, sistemas de representao poltica que desprezam a participao e economias divorciadas das realidades social e ambiental, compondo um quadro incompatvel e insustentvel com os problemas que formam as grandes crises contemporneas.

As demais caractersticas apontadas na definio acima citada qualificam uma atitude tico-filosfica e epistemolgica de abordar e responder questo da educao e do ambiente.

A educao crtica visa combater o comportamento mecnico, imitativo e dependente produzido por determinadas propostas e prticas pedaggicas. Implica, alm disso, numa curiosidade que busca o esclarecimento e, que a matriz de todos os saberes. Para Freire

"uma das tarefas precpuas da prtica educativo-progressista exatamente o desenvolvimento da curiosidade crtica, insatisfeita e indcil. Curiosidade com que podemos nos defender de "irracionalismos" decorrentes do ou produzidos por excesso de "racionalidade" de nosso tempo altamente tecnologizado" (FREIRE, 1997: 35-36).

O carter dialgico da educao representa um antdoto contra o autoritarismo, a imposio, a falta de participao, o formalismo e a apatia comuns em propostas educativas "burocrticas". Se considerarmos o dilogo como uma atividade articuladora que propicia a aproximao, o contato, o conhecimento do outro e da realidade - inclusive o auto-dilogo como meio de autoconhecimento - o esclarecimento, a superao de dvidas e do isolamento, a busca de respostas e de comunicao, em sentido amplo, fica fcil entender porque a educao e a prpria vida precisam do dilogo para se desenvolver. Freire, refletindo sobre a pedagogia dialgica, ressalta a importncia do dilogo como uma confirmao da inconcluso humana e como porta de abertura ao mundo e aos homens. Para ele, o dilogo est na essncia da educao libertadora (FREIRE,1977).

A multidimensionalidade, por sua vez, resgata as noes de multiplicidade, diversidade, inseparabilidade, antagonismo e complementariedade que compe a complexidade da prpria vida e, consequentemente da educao e da questo ambiental. Rompe, portanto, com as interpretaes reducionistas, fragmentadas, mutiladoras e unidimensionais da realidade. Morin, em sua teoria da complexidade, ressalta a importncia de distinguirmos as diversas dimenses da realidade, mas de jamais separ-las. Ao contrrio, importa integr-las e considerar os efeitos de seu mtuo relacionamento. Com relao educao para o ambiente isto significa levar em conta as influncias de todos os aspectos sociais, culturais, econmicos, polticos, ecolgicos, tcnicos e ticos entre outros, que intervm dinamicamente em seu campo terico-prtico ( PETRAGLIA, 1995).

A dimenso tica divide com a poltica os dois eixos centrais na relao entre educao e meio ambiente. Pressupe, por um lado, uma atitude de questionamento e de crtica aos valores e prticas estabelecidos socialmente, nas relaes entre os homens e destes com seu ambiente que, em nossa sociedade, so orientados pelo individualismo, utilitarismo e antropocentrismo. Significa, por outro lado, a conscincia de que o modo dominante de vida na nossa sociedade no o nico possvel e, da possibilidade de construir novos consensos pautados na participao social, na tica da responsabilidade e na defesa da vida (SUNG & SILVA, 1995).

CONSIDERAES FINAIS

O texto ora apresentado pretendeu muito mais a problematizao e o debate sobre a relao educao/ambiente do que esgotar o assunto ou produzir concluses acabadas sobre o tema, por natureza vasto e polmico.

Desejamos ressaltar a multiplicidade de pontos de vista sobre o assunto e denunciar um conjunto de noes reducionistas sobre a relao educao/ambiente que povoam o debate presente e que, ingnua ou astuciosamente, tentam se impor como dogmas ou verdades inquestionveis sobre o assunto.

Partimos da premissa bsica de que a educao e a problemtica ambiental so, antes de tudo, questes polticas que envolvem valores, interesses e concepes de mundo divergentes, e que podem assumir direes mais conservadoras ou emancipatrias. Da a importncia de investigar os contedos polticos e ticos que fundamentam as propostas educativas praticadas em nossa vida socio-cultural.

Sem negar a existncia da dimenso tcnica da educao e da questo ambiental defendemos, entretanto, que a tcnica e deve ser, subordinada poltica e a critrios ticos na elaborao e implementao de respostas aos problemas socioambientais. Entendemos que uma educao ambiental de nfase tcnica e biologizante reduz a complexidade do real e mascara os contedos e conflitos polticos inerentes questo ambiental, favorecendo uma compreenso alienada e limitada do problema por parte dos educandos. Portanto, a construo de um processo educativo identificado com a autonomia individual e a emancipao social no pode prescindir de uma atitude crtica, participativa e comprometida com a ampliao da cidadania.

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NOTAS* Gustavo Ferreira da Costa Lima professor adjunto do Departamento de Cincias Sociais da Universidade Federal da Paraba - UFPB e doutorando do Doutorado em Cincias Sociais, rea Ambiente, Tecnologia e Sociedade, do Instituto de Filosofia e Cincias Humanas - IFCH da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP.1 Contribuio extrada de debate com a Prof. Arlete Moyses Rodrigues, do Doutorado em Cincias Sociais do Instituto de Filosofia e Cincias Humanas - IFCH da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP. 2006 ANPPAS - UNICAMPCaixa Postal 616613081-970 Campinas SP BrasilTel: +55 19 3788-7631Fax: +55 19 [email protected]

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Electronic Document Format (ABNT)LIMA, Gustavo da Costa. Environmental issues and education: contribution to the debate. Ambient. soc., Campinas, n. 5, 1999. Available from: . Access on: 16 Nov 2006. doi: 10.1590/S1414-753X1999000200010.PAGE 2