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1. 94A Salsa comoFerramenta Pedaggicapara o Estudo doRitmo no Contexto daPercepo MusicalLourdes Saraiva 2. 95O objeto desse trabalho o aprendizado do ritmo utilizando a Salsacomo ferramenta pedaggica, no contexto da Percepo Musical. Oenfoque em repertrios com diversidades culturais para o ensino doritmo abre oportunidades de reflexes em vrios parmetros musicais.Assim, o objetivo principal desta pesquisa apresentar um material di-dticovoltado ao aprendizado do ritmo, com abordagem numa seleode ritmos afro-caribenhos denominados de Salsa. Esta caracterizadabasicamente pela presena da sncope e da polirritmia - contedos demaior complexidade rtmica presentes nos programas da disciplina dePercepo Musical das escolas de msica e universidades. A funda-mentaoterica para a elaborao desse material baseia-se principal-mentenos cinco parmetros de experinciao musical de Swanwick:composio, apreciao, execuo, literatura e tcnica - essenciais parao processo ensino-aprendizagem. A partir dos dados obtidos conclui--se que o estudo do ritmo pode ser realizado de forma mais orgnica,estimulante e contextualizada musicalmente a partir de repertrioscom diversidades culturais.IntroduoO objetivo desta pesquisa apresentar um material didtico volta-doao aprendizado do ritmo, no contexto da percepo musical,com abordagem nos ritmos afro-caribenhos denominados de Salsa.A escolha pelos ritmos afro-caribenhos deve-se pela presen-acaracterstica da sncope e da polirritmia - contedos de maiorcomplexidade rtmica presentes nos programas da disciplina de Per-cepoMusical das escolas de msica e universidades, e, por ser umtema raramente explorado por estas. Alm disso, a Salsa caracteriza--se basicamente pela combinao e sobreposio de seus variados rit-mosexecutados por instrumentos de percusso o que possibilitavariadas atividades rtmicas polifnicas em sala de aula.1 Texto adaptado ao elaborado para o Painel: Organizando a Histria do Ensino de Arte em Santa Ca-tarinarealizado no II Colquio sobre Ensino de Arte: Reflexes Inclusivas, que ocorreu em Flo-rianpolisde 26 a 28/09/2005, promovido pelo Centro de Artes - CEART, da UDESC, Plo Artena Escola CEART, ITACA Produes Culturais e Secretaria Estadual de Educao e Tecnologia. 3. 96Revista Nupeart Volume 8 2010A metodologia para elaborao do material didtico deu-seatravs das seguintes etapas: Reviso bibliogrfica. Seleo dos ritmos. Anlise e comparao dos ritmos baseado em trs autores demtodos de percusso de Salsa: Maulen (1993), Genton (2000) eUribe (1996), e, informaes de sites especializados na Internet. Pesquisa em material de udio de exemplos da literatura mu-sicalpriorizando gravaes originais. Anlise auditivo-comparativa dos arquivos em udio com ousem partitura.Abordagens didticas sobre o ritmo, contextualizadas em di-versidadesculturais, tm sido propostas e discutidas nas ltimas d-cadaspor vrios autores. Ognenska (1987) desenvolveu um mtodochamado Melopia. Um dos focos deste mtodo, segundo a auto-ra,est orientado para o desenvolvimento da percepo do ritmo damsica folclrica dos Blcs atravs de percusso das mos (palmas,batidas) e diferentes formas geomtricas para representar as curtas elongas dyals31 em mtricas irregulares. Ryan (1990) prope um estu-dode ritmo focalizando o samba. proposto que os exerccios sejamlidos multidirecionalmente (linearmente, em crculos, de baixo paracima, etc) com o auxlio de um CD de udio com padres rtmicosexecutados por um bombo para acompanhamento.O foco deste artigo abordar as diretrizes relativas elabo-raodo material didtico de ritmo contextualizado na Salsa, quaissejam: as caractersticas musicais bsicas da Salsa e, o referencial te-ricoe a abordagem pedaggica baseados em Swanwick (1989) e Og-nenska(2003).O material didtico elaborado acompanhado de um CD emudio e um anexo de 50 partituras abordando 16 ritmos afro-cari-benhosoriginados de Cuba, Porto Rico e Repblica Dominicana:Bomba, Bolero, Cha Cha Ch, Guahira, Guaracha, Giro, Moam-bique,Merengue, Plena, Mambo, Rumba Guaguanc, Rumba Yam-b,Rumba Columbia, Son, Son Montuno e Songo.31 Dyals, segundo Ognenska (p.256), so combinaes de pulsaes. Um dyal curto inclui 2 pulsaes e um dyallongo 3 pulsaes. Estas so comuns em compassos de 5, 7, 8, 9, 10, 11, 12 e 13 pulsaes na msica dos Blcs. 4. 97A Salsa como Ferramenta Pedaggica para o Estudo do Ritmo no Contexto daPercepo MusicalCaractersticas Musicais Bsicas da SalsaA) InstrumentaoA seo rtmica primria de grupos de Salsa consiste de piano, bai-xo,conga, bong, timbales, giro32 , e / ou maracas e claves. A seotripla dos metais inclui trompete, sax e trombone; dois trombonese flauta; dois trompetes e trombone, etc. A seo qudrupla de me-taisvaria de dois a quatro trompetes, incluindo sax alto e soprano,ou quatro trombones. Muitas outras variaes tm ocorrido nas l-timasdcadas, sendo que alguns grupos mantm o formato instru-mentalde conjunto ou charanga (flautas de madeira - substitudasmais tarde por madeiras e metais, dois violinos, piano, contrabai-xo,timbales e giro). Outros grupos ainda, combinam instrumentosemprestados de outros estilos. Um exemplo a instrumentao noestilo charanga vallenata que mistura elementos da charanga cubanae do conjunto (violo, tres33 , dois ou trs trompetes, piano, tumba-dora34- tambor grave e trs vocalistas que tocam percusso de mocomo maracas e claves) com o estilo Vallenato Colombiano que secaracteriza pela presena do acordeom. A combinao da charangacom os trombones tornou-se popular com o grupo Los Van Van deCuba que adicionaram na instrumentao sintetizadores e percussoeletrnica (MAULEN, 1993).B) O padro rtmico da ClaveSegundo Maulen (1993, p.46), talvez a caracterstica mais excepcio-nale nica na msica cubana seja o padro rtmico chamado de cla-ve(Figura 1). Este padro freqentemente tocado no instrumentode mesmo nome, as claves (dois bastes de madeira), ou sobre outrosinstrumentos de percusso.Figura 1: Padro rtmico de clave usado em Salsa atualmente.32 Instrumento construdo com cabaas ocas. Apresenta ranhuras na parte frontal e dois orifcios para os dedos naparte de trs. tocado friccionando-se uma vareta nas ranhuras (JACOB, 2003, p. 72).33 Violo de origem espanhola com trs cordas duplas (MAULEN, p. 29).34 A tumbadora tambm chamada de conga um tambor grave em forma cnica e de origem congolesa (GENTON,2000, p.26). 5. 98Revista Nupeart Volume 8 2010O padro de clave mostrado acima est escrito em notaocontempornea em compasso quaternrio. Tradicionalmente a claveera escrita em compasso binrio, mas sofreu algumas transformaesno decorrer do tempo35 . A clave um padro que consiste de duasfiguras rtmicas em uma relao de tensorelaxamento e est estru-turadaem uma frase de dois compassos sustentada por um pulso emmnima nas batidas um e trs (Figura 2). Percebendo o pulso em m-nimas,o terceiro tempo do segundo compasso resolve a tenso esta-belecidano contratempo do terceiro tempo do compasso um. o pulso que mantm a estabilidade do ritmo, j que mui-tasdas partes polirrtmicas tocadas pelos vrios instrumentos de umconjunto tendem a ser sincopadas e a acentuar os contratempos.Figura 2: relao entre clave e pulso.A clave subdividida em duas partes diferentes que permane-ceminvariveis. Consiste de um compasso de trs duraes e outrocom duas e pode ser tocado de duas maneiras, ou trs-dois (3-2) oudois-trs (2-3) - dependendo de qual lado (MAULEN,1993) ini-ciaa msica. Assim pode-se referir tambm cada compasso individu-almentepela diferenciao entre o lado trs e o lado dois da clave(Figuras 3 e 4).Lado trs Lado doisFigura 3: Clave em direo 3-2.35 Para mais informaes sobre as transformaes de clave no decorrer de sua histria, vide Maulen (1993: 49-57). 6. 99A Salsa como Ferramenta Pedaggica para o Estudo do Ritmo no Contexto daPercepo MusicalLado dois Lado trsFigura 4: Clave em direo 2-3.A clave a base da maior parte dos ritmos cubanos, de seuspadres instrumentais, de suas frases meldicas e mesmo da impro-visao.Todos esses elementos orbitam em torno da clave. Esta re-laoda clave com os outros instrumentos fixa. No sentido de queuma vez iniciado o padro de clave (trs-dois (3-2) ou dois-trs (2-3)) este no para e no reverte pelo menos no mbito de uma sesso(MAULEN,1993).As Figuras 536 e 637 abaixo, apresentam respectivamente pa-dresrtmicos instrumentais bsicos do Bolero com claves trsdois(3-2), e do Cha Cha Ch Oye Como V, de Tito Puente, em clavedois-trs (2-3).Figura 5: Ensemble bsico de Bolero com clave 3-2.36 Dicionrio Harvard de Msica, 2004, p. 173. Editorao da autora.37 Uribe, 1996 p. 187. Editorao da autora. 7. 100Revista Nupeart Volume 8 2010Figura 6: Cha Cha Ch Oye Como V de Tito Puente com clave 2-3.C) O Tresillo e o Quintillo: A clave do Son CubanoTradicionalmente, a clave caracterstica do Son era escrita em 2/4,o primeiro compasso, fuerte chamado de tresillo; e, o segundocompasso, dbil, assim definindo a relao de tenso relaxamento(MAULEN, 1993, p.51) (Figura 7).Figura 7: primeiro compasso da clave - tresillo. 8. 101A Salsa como Ferramenta Pedaggica para o Estudo do Ritmo no Contexto daPercepo MusicalA clave tambm associada a outras clulas rtmicas africa-nas,tambm chamadas de cinquillo. Assim como o tresillo em clavepadro, o cinquillo possui a mesma relao tenso-relaxamento gera-dapela sncope entre os tempos um e dois e o trmino em colcheiacom a sensao de resoluo (Figura 8).Figura 8 : Cinquillo.O pulso essencial para manter a estabilidade da clave por-queele prov o apoio de um ambiente altamente sincopado. Assim,a Salsa consiste em uma espessa trama polirrtmica de padres sin-copados,que trabalham juntos como uma engrenagem (MAULE-N,1993).Referencial TericoDa necessidade humana universal de perceber a formaA idia inicial que estimulou a realizao desta proposta deabordagem didtica do ritmo contextualizado musicalmente, partedo princpio universal da necessidade humana de perceber o mundoatravs da forma, que a base da teoria gestltica38 . Swanwick (1988,p. 31) ressalta que esta a mais efetiva em descrever a forma na quala msica estrutura