cira arqueologia

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N.º DEZ’15 4 Câmara Municipal de Vila Franca de Xira www.cm-vfxira.pt www.museumunicipalvfxira.pt

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N.º 4 (DEZ '15) | Câmara Municipal de Vila Franca de Xira

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  • N. DEZ154

    Cmara Municipal de Vila Franca de Xirawww.cm-vfxira.pt

    www.museumunicipalvfxira.pt

  • N.4DEZ15 CiraArqueologia

    Cmara Municipal de Vila Franca de Xirawww.cm-vfxira.pt

    www.museumunicipalvfxira.pt

  • PROPRIEDADE Cmara Municipal de Vila Franca de Xira

    Museu Municipal

    EDIO Cmara Municipal de Vila Franca de Xira

    Museu Municipal

    COORDENAO GERAL Ftima Roque

    COORDENAO DA EDIO Joo Pimenta

    TEXTOSAntnio M. Monge Soares, Carlos Fabio, Eurico Seplveda,

    Gonalo Costa, Henrique Mendes, Joo Pimenta, Joo Sequeira, Maria de Ftima Arajo, Marisol Ferreira, Marta Santos, Pedro Valrio,

    Tnia Casimiro, Teresa Rita, Vincenzo Soria

    REVISOJoo Pimenta, Patrcia Ramos

    CAPA Pormenor da marca impressa (trscele) proveniente de Ches de Alpomp. Fotografia de Joo Almeida

    DESIGN E PAGINAO Cmara Municipal de Vila Franca de Xira DIMRP/SDPG

    Patrcia Victorino

    EDIO CD-Rom | 100 exemplares

    DATA DA EDIO Dezembro de 2015

    Os artigos so da inteira responsabilidade dos autores.

    ISSN 2183069X

  • Apresentao 4

    1Composio elementar de artefactos metlicos de Vale de Tijolose da Eira da Alorna (Almeirim): A metalurgia do Bronze Finalno territrio nacional 11PEDRO VALRIO; JOO PIMENTA; MARIA DE FTIMA ARAJO; ANTNIO M. MONGE SOARES

    2Casal dos Pegos I e o Povoamento Orientalizante do Rioda Silveira Vila Franca de Xira 19JOO PIMENTA; HENRIQUE MENDES

    3Um conbio de sabedoria tcnica e novas modas conviviais: as taas em pasta cinzenta imitante TSI de Monte dos Castelinhos (Vila Franca de Xira) Campanhas de 2008 a 2013 55VINCENZO SORIA

    4 Os pesos de tear identificados nos contextos romano republicanos de Monte dos Castelinhos Campanhas de 2008 a 2013 65MARTA SANTOS

    5Coleo de metais do stio arqueolgico dos Chesde Alpomp Santarm 110CARLOS FABIO; TERESA RITA; JOO PIMENTA

    6Acerca da dinmica econmica do porto de Urbs Imperatoria Salacia: O estudo das nforas 151JOO PIMENTA; EURICO SEPLVEDA; MARISOL FERREIRA

    7Materiais do povoado islmico do Serradinho (Muge, Salvaterra de Magos) 171GONALO COSTA

    8Uma coleo de pcaros quinhentistas de Vila Franca de Xira 187HENRIQUE MENDES, JOO PIMENTA

    9Fragmentos do mundo contemporneo: objectos em grs recuperados no Tejo 209JOO SEQUEIRA E TNIA CASIMIRO

  • 4 CIRA-ARQUEOLOGIA IV

    Texto de apresentao Revista Cira Arqueologia n. 4

    O Municpio de Vila Franca de Xira, tem vindo, nos ltimos anos a efetuar uma forte aposta na atividade e investigao arqueolgica. Fruto desse labor, o ano de 2015, ficou marcado por momentos assaz relevantes para o Museu Municipal e para a afirmao da arqueologia enquanto disciplina estruturante no conhecimento da ocupao do nosso territrio.

    A 23 de Maro, com a inaugurao da Exposio internacional Lusitania Romana. Origen de dos pueblos / Lusitnia Romana. Origem de dois Povos no Museu Nacional de Arte Romana de Espanha - Mrida, assinalou-se a cedncia temporria de uma das peas mais emblemticas do acervo do Museu Municipal, o escudo romano de Monte dos Castelinhos.

    A 6 de Maio, teve lugar a apresentao pblica, da Revista CIRA Arqueologia n. 3. Neste volume com mais de 400 pginas, coordenado pelo Professor Carlos Fabio e pelo Arque-logo do Museu Municipal, Joo Pimenta, materializam-se os resultados do Congresso Inter-nacional de Arqueologia, Conquista e Romanizao do Vale do Tejo, realizado em Vila Franca de Xira em 2013.

    A 16 de Maio, inaugurmos, no Ncleo Museolgico do Mrtir Santo, a Exposio mono-grfica, O Stio arqueolgico de Monte dos Castelinhos. Em busca de Ierabriga. Esta mostra constituiu pretexto para darmos a conhecer o ponto de situao dos estudos sobre a presena romana no baixo-Tejo, sublinhando a centralidade do territrio de Vila Franca de Xira no quadro da Pennsula Ibrica.

    No de mais sublinhar que, a par da Exposio, o Museu Municipal apresentou um Catlogo com 200 pginas, em que aprofundado o conhecimento sobre este stio e sobre o territrio que o rodeia. De territrio desconhecido no mbito do estudo do mundo romano, Monte dos Castelinhos assume-se hoje como um stio incontornvel para o estudo da roma-nizao no ocidente da Pennsula Ibrica.

    A 19 de Maio realizmos uma visita, em colaborao com o Museu Nacional de Arqueo-logia e a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Exposio Lusitnia Romana: Origem de dois Povos, no Museu Nacional de Arte Romana, em Mrida. Esta iniciativa permitiu levar pblicos de Vila Franca de Xira a uma relevante exposio internacional, assu-mindo o municpio o seu papel de agente cultural.

    A 26 de Setembro, abrimos as portas do Centro de Estudos Arqueolgicos de Vila Franca de Xira CEAX. Este novo equipamento cultural do Municpio emerge na sequncia da dinmica da atividade arqueolgica e da sua subsequente divulgao pela comunidade. Na sua gnese, este Centro, tem como objetivos programticos, o estudo, investigao e promoo, dos mais antigos vestgios da ocupao humana no vale do Tejo. O CEAX, enquanto espao cientfico e cultural, rene assim as condies para o desenvolvimento de um conjunto de atividades no domnio da investigao e divulgao do patrimnio arqueolgico. Nas suas ins-talaes funcionam, alm dos gabinetes de trabalho destinados a acolher investigadores, uma ampla rea expositiva, o servio educativo, assim como as reservas municipais das Colees de Arqueologia.

    Sobre este ltimo ponto, ressalve-se que resulta da necessidade de criao de um novo espao de rea de reserva, planeado em moldes modernos e destinado a acolher a heteroge-neidade de esplios e registos. As novas instalaes permitem agora concentrar aquilo que se encontrava disperso e a, partir deste momento, receber outras colees e tornar visitvel (mediante marcao, e devidamente enquadrada pelos tcnicos) a rea de bastidores do Museu Municipal.

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    Desde o primeiro desenho deste novo projeto, foi acautelada a existncia de um servio educativo especfico, destinado educao patrimonial na rea da arqueologia. Nasceu assim o Ateli de Arqueologia experimental, que simula uma escavao arqueolgica, introdu-zindo conceitos, metodologias e prticas da atividade arqueolgica. Ainda que pensado para o pblico escolar do territrio onde este Centro se insere, encontra-se porm aberto a todos os interessados.

    A rea expositiva, que se pretende temporria, abriu com a mostra Arqueologia em Vila Franca de Xira. O desvelar de um patrimnio milenar, que d a conhecer algumas das escavaes e estudos mais relevantes ocorridas no concelho nos ltimos anos.

    Culminando um ano pleno de atividade, apresentamos hoje o mais recente volume da Revista CIRA Arqueologia. Trata-se do quarto volume de uma Revista que se tem vindo a afirmar na sua rea de especialidade, e que pretendemos que mantenha a sua periodicidade, apostando no princpio de que, o conhecimento sobre o passado do nosso territrio constitui papel estruturante da nossa filosofia de atuao.

    O VICE-PRESIDENTE DA CMARA MUNICIPAL

    FERNANDO PAULO FERREIRA

    [email protected]@museumunicipalvfxira.orgwww.museumunicipalvfxira.orgwww.cm-vfxira.pt

    Museu Municipal de Vila Franca de XiraRua Serpa Pinto, 652600-263 Vila Franca de XiraTel. 263 280 350

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    Figura 1 e 2Apresentao pblica da Revista CIRA Arqueologia N. 3, a 6 de Maio de 2015.

    Figura 3Inaugurao da Exposio internacional Lusitania Romana. Origen de dos pueblos / Lusitnia Romana. Origem de dois Povos no Museu Nacional de Arte Romana de Espanha - Mrida, a 23 de Maro de 2015.

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    Figura 5 e 6Inaugurao da Exposio O stio arqueolgico de Monte dos Castelinhos no Ncleo Museolgico do Mrtir Santo em Vila Franca de Xira, a 16 de Maio de 2015.

    Figura 4 O Secretrio de estado da Cultura de Portugal, Jorge Barreto Xavier, assiste explicao por parte do Diretor do Museu Nacional de Arte Romano de Mrida. Jos Maria Alvarez, em torno do escudo romano de Monte dos Castelinhos Vila Franca de Xira.

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    Figura 7, 8 e 9Inaugurao do Centro de Estudos Arqueolgicos de Vila Franca de Xira CEAX e da Exposio Arqueologia em Vila Franca de Xira. O desvelar de um patrimnio milenar, a 26 de Setembro de 2015.

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    Figura 10 a 13 Visita, em colaborao com o Museu Nacional de Arqueologia e a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Exposio Lusitnia Romana: Origem de dois Povos, no Museu Nacional de Arte Romana, em Mrida., a 19 de Maio de 2015.

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    Figura 14, 15 e 16Campo Arqueolgico Monte dos Castelinhos 2015.

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    Composio elementar de artefactos metlicos de Vale de Tijolos e da Eira da Alorna (Almeirim): A metalurgia do Bronze Final no territrio nacionalANTNIO M. MONGE SOARESMARIA FTIMA ARAJOPEDRO VALRIO

    JOO PIMENTA

    RESUMO

    Um conjunto de trs braceletes e uma ponta de lana do Bronze Final, provenientes, res-pectivamente, de Vale de Tijolos e da Eira da Alorna (Almeirim), foram analisados por micro espectrometria de fluorescncia de raios X dispersiva de energias para identificar a sua com-posio elementar. Os artefactos so compostos por ligas binrias de bronze (8,3-13,9 % de estanho) com teores reduzidos de outros elementos, tais como chumbo, arsnio e ferro. Os teores muito reduzidos de ferro (

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    depsitos votivos ou de fundidor, distribudos um pouco por todo o territrio nacional, tais como os do habitat de Baies, Viseu (Figueiredo et al., 2010), de Figueiredo das Donas, Vouzela (Figueiredo et al., 2011), do depsito de Freixianda, Ourm (Gutirrez Neira et al., 2011), os metais de Casais da Pedreira (Alenquer), Moinho do Raposo (Alenquer) e Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra (Bottaini et al., 2012), o machado de Alpriate, Vila Franca de Xira (Senna-Martinez et al., 2013) e os metais dos povoados de Entre guas 5, Serpa (Valrio et al., 2013a) e do Outeiro do Circo, Beja (Valrio et al., 2013b).

    O presente trabalho consiste na caracterizao elementar de trs braceletes provenien-tes de Vale de Tijolos (Almeirim) e de uma ponta de lana da Eira da Alorna (Almeirim). Pretende-se desta forma incrementar o conhecimento sobre as provveis ocupaes destes dois stios arqueolgicos e contribuir para o conhecimento da metalurgia do Bronze Final em territrio nacional.

    2. Enquadramento arqueolgico e caracterizao tipolgicaOs materiais em epgrafe so o resultado de recolhas espordicas resultantes da realizao de trabalhos agrcolas nos frteis terrenos das margens do Tejo. Apesar de, desde cedo, ter sido reconhecida a riqueza arqueolgica desta regio (Marques e Andrade, 1974), o seu estudo tarda em ser efectuado. A Associao de Defesa do Patrimnio Histrico e Cultural do Con-celho de Almeirim tem tido, desde os anos oitenta do sculo passado, um papel relevante na recolha e inventariao dos mais remotos vestgios de ocupao do seu territrio, impedindo assim a sua nefasta destruio sem qualquer registo para memria futura.

    Recentemente, estabeleceu-se uma frutfera colaborao com um dos signatrios (J.P.), o que tem conduzido ao estudo e divulgao das ricas coleces depositadas, quer no Museu da Associao de Defesa do Patrimnio Histrico e Cultural, quer no Museu Municipal de Almeirim (Pimenta et al., 2012).

    As peas agora em estudo so provenientes de dois stios arqueolgicos distintos. O stio arqueolgico da Eira da Alorna, Almeirim (Figura 1), correspondente ao CNS N. 2165, situa--se num terrao do Tejo sobre a vala de Alpiara, mesmo em frente cidade de Santarm, gozando de uma boa visibilidade sobre o planalto da antiga alcova. As mais antigas refern-cias a uma eventual ocupao proto-histrica deste stio remontam aos anos setenta, quando Schubart (1971), no mbito de um trabalho de reviso sobre a cermica da Idade do Bronze tardio, refere a existncia de materiais com esta provenincia no Museu Nacional de Arqueo-logia. Posteriormente, Gustavo Marques e Gil Migueis de Andrade, no mbito do inventrio das estaes proto-histricas que inserem dentro do seu questionvel conceito de cultura de Alpiara, mencionam a Eira da Alorna sob o n. 51 (Marques e Andrade, 1974). No Museu de Almeirim, encontra-se depositado um vasto esplio com esta provenincia, o qual se encontra em fase de estudo. Da sua anlise, mesmo preliminar, possvel aferir uma relevante ocupao da Idade do Bronze Final, podendo corresponder a um povoado de cariz agrcola sem quaisquer condies naturais de defesa. interessante sublinhar que a ocupao no termina com o advento da Idade do Ferro, mas que este estabelecimento se mantm activo, recebendo fortes influncias do mundo fencio. Em data indeterminada foi recolhido, a par de um vasto conjunto de cermica manual com caractersticas da Idade do Bronze Final, uma ponta de lana em bronze (Figura 2, n. 1). A ponta de lana da Eira da Alorna insere--se dentro da famlia das pontas de lana com alvado e nervura central. Tendo em conta o estudo exaustivo efectuado por Cardoso et al. (1992) sobre as diversas tipologias deste tipo de artefacto, a propsito do depsito do Bronze Final de Alqueva, pode-se incluir o presente

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    exemplar dentro do tipo Baies, devendo a sua cronologia oscilar entre os finais da Idade do Bronze e a 1. Idade do Ferro.

    O stio arqueolgico de Vale de Tijolos, Almeirim (Figura 1), correspondente ao CNS N. 3110, conhecido, na literatura arqueolgica, pelos vastos vestgios de poca romana, que devem corresponder a uma Villa (Silva, 2012). A sua ocupao anterior, de poca proto--histrica, encontra-se escassamente conhecida. Contudo, alguns materiais de cermica manual, a par do conjunto de braceletes em bronze ora trazido a pblico, podem atestar a existncia de uma ocupao mais antiga situada nas imediaes. Tendo em conta o conjunto, assaz homogneo, de um bracelete completo e dois fragmentos distintos de outros dois exemplares, a par da referncia de terem sido identificados juntamente com fragmentos de cermica manual, indicia que podemos estar perante uma necrpole dos finais da Idade do Bronze. Deposies rituais de caractersticas similares encontram-se bem atestadas nas duas necrpoles de incinerao de Alpiara, situadas em torno do grande povoado de Alto do Castelo, nomeadamente as necrpoles do Tanchoal e do Meijo (Marques, 1972; Kalb e Hck, 1985; Vilaa et al., 1999). Os braceletes de Vale de Tijolos enquadram-se assim dentro de uma tipologia bem conhecida dentro da Idade do Bronze, com vasta disperso espacial e que se encontram representados, tanto em necrpoles e depsitos rituais, como em stios de habitat (Coffyn, 1983).

    Figura 1Localizao dos stios arqueolgicos de Eira da Alorna e Vale de Tijolos (Almeirim).

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    Figura 2N. 1 - Ponta de lana (EA-1) do tipo aletas proveniente do stio de Eira da Alorna (Almeirim). N. 2 a 4 - Pulseiras (VT-1 a 3) identificadas no stio de Vale de Tijolos (Almeirim).

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    3. MetodologiaOs artefactos arqueolgicos em liga de cobre apresentam invariavelmente uma camada de alterao superficial resultante de processos de corroso que, tambm frequentemente, incorporam partculas do solo. Deste modo, a determinao da composio elementar da liga requer a preparao prvia dos artefactos, isto , a remoo das camadas de alterao numa pequena rea da superfcie dos mesmos (Arajo et al., 2013).

    As anlises por micro espectrometria de fluorescncia de raios X, dispersiva de energias (micro-EDXRF), foram realizadas num espectrmetro ArtTAX Pro equipado com um sis-tema de focagem do feixe de raios X, que permite a anlise de reas de dimetro inferior a 100 m (Bronk et al., 2001). Cada artefacto foi analisado em trs pontos utilizando 40 kV, 600 A e 100 s. A quantificao foi realizada com o programa WinAxil, mediante factores de calibrao calculados com os padres Phosphor Bronze 551 (British Chemical Standards) e Bronze 5 (Des Industries de la Fonderie). O erro relativo do mtodo inferior a 10 % e os limites de quantificao dos elementos de interesse so 0.50 % Sb, 0.20 % Zn, 0.10 % Pb, 0.10 % As, 0.10 % Ni e 0.05 % Fe.

    4. Resultados e discussoA anlise elementar por micro-EDXRF demonstrou que os artefactos de Vale de Tijolos e Eira da Alorna so compostos por ligas binrias de bronze (Cu-Sn) com teores reduzidos de outros elementos, tais como chumbo (Pb), arsnio (As) e ferro (Fe) (Tabela 1).

    Stio Tipologia Referncia Cu Sn Pb As FeVale de Tijolos Bracelete VT-1 85,6 13,9 0,40 n.d.

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    O ferro apresenta-se como o elemento vestigial mais significativo nestes artefactos e as baixas concentraes medidas (

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    Nos povoados indgenas a utilizao quase exclusiva de bronzes binrios continua a fazer-se sentir mesmo aps a implantao das feitorias fencias como a Quinta do Almaraz (Almada). Aqui, o conjunto artefactual apresenta, para alm dos habituais bronzes binrios, uma percentagem aprecivel de cobres e alguns bronzes com chumbo (Valrio et al., 2012). Contudo, cerca de 30 km rio acima, no depsito do sc. VIII da Moita da Ladra (Vila Franca de Xira), continuam a utilizar-se exclusivamente os bronzes binrios (Valrio et al., 2015). De igual modo, o conjunto de ornamentos proveniente da gruta do Medronhal (Condeixa a Nova), provavelmente um enterramento do sculo VIII a.C., provou ser inteiramente com-posto por bronzes binrios (Figueiredo et al., 2013). De referir que esta continuidade tecno-lgica tinha j sido constatada nos metais dos sculos IX-VIII a.C. do povoado do Castro dos Ratinhos, Moura (Valrio et al., 2010), embora neste caso tal possa estar relacionado com a localizao interior do povoado, mais afastado do litoral onde a influncia fencia seria mais intensa (Arruda, 2015).

    5. ConclusesO pequeno conjunto de metais de Vale de Tijolos e da Eira da Alorna enquadra-se perfeita-mente na metalurgia tpica do Bronze Final do actual territrio portugus. Os teores apro-priados de estanho destas ligas binrias de bronze indicam um fornecimento regular desta matria prima. Por outro lado, os teores muito reduzidos de ferro sugerem a utilizao de mtodos primitivos de obteno de metal (reduo de minrios em cadinhos/vasilhas-forno), a qual se enquadra numa metalurgia domstica de produo de artefactos numa escala rela-tivamente pequena.

    AGRADECIMENTOSOs autores agradecem o apoio financeiro concedido pela Fundao para a Cincia e Tecnologia ao Centro de Cincias e Tecnologias Nucleares atravs do Projecto UID/Multi/04349/2013. Os autores agradecem ainda ao Departamento de Conservao Restauro (DCR/FCT/UNL) pela utilizao do espectrmetro de micro-EDXRF.

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    Casal dos Pegos I e o Povoamento Orientalizante do Rio da Silveira (Vila Franca de Xira)1JOO PIMENTA CENTRO DE ESTUDOS ARQUEOLGICOS VILA FRANCA DE XIRA CEAX/UNIARQHENRIQUE MENDES CENTRO DE ESTUDOS ARQUEOLGICOS VILA FRANCA DE XIRA CEAX

    No meio da profuso de dados provenientes da pennsula de Lisboa, s a delimitao de reas de estudo especficas pode trazer algumas novas respostas. (SouSa, 1998 p. 171)

    RESUMO

    O presente trabalho emerge das problemticas suscitadas com a escavao do povoado de Santa Sofia, em Vila Franca de Xira. O alargar do quadro de indagaes, ao territrio vizi-nho, atravs de um projeto de prospeo sistemtica, permitiu comear a antever um quadro de povoamento totalmente insuspeito. No mbito deste projeto, foi possvel identificar em reas de meia encosta, diversos stios dos finais da Idade do Bronze e da Idade do Ferro, que podem enquadrar-se dentro daquilo que usualmente se classifica como casais agrcolas, assim como, outros de maior dimenso e de posio destacada na paisagem. Entre as diversas reas analisadas, o Vale do Rio da Silveira apresenta-se como um espao geogrfico bem definido e com uma dinmica de ocupao que justifica o desenvolvimento de um projeto de estudo futuro.

    SUMMARY

    This paper emerges from the problems raised with the excavation of the Santa Sofia archaeo-logical site in Vila Franca de Xira. The widening of the inquiry into the neighboring territory, through a systematic exploration project, allowed start to envision a totally unsuspected settlement framework.Under this project, it was identified in hillside areas, various sites of the late Bronze Age and Iron Age, which can be framed by what usually is classified as agricultural couples, as well as other larger and prominent position in the landscape.Among the various areas analyzed, the Silveira River valley presents itself as a well-defined geographic area and with a dynamic of occupation that justifies the development of a future study project.

    1. IntroduoA descoberta e posterior escavao do povoado proto-histrico de Santa Sofia, em pleno ncleo urbano da cidade de Vila Franca de Xira, conduziu a um quadro de problemticas a que urgia dar resposta (Pimenta e Mendes, 2007).

    Ao iniciarmos o estudo deste povoado, este apresentava-se regionalmente como um caso nico de povoamento para a Idade do Bronze e Idade do Ferro, no existindo estaes con-

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    temporneas no concelho de Vila Franca de Xira, nem nas reas mais prximas, que nos permitissem contextualizar as realidades registadas em Santa Sofia.

    Perante este desconhecimento, desenvolveu-se um projeto de prospees sistemticas do territrio, que permitiu identificar diversos novos stios, demonstrando claramente a interao entre o mundo indgena e os navegadores semitas, embora falte ainda precisar a cronologia dessa interao.

    Num primeiro momento, tivemos j oportunidade de apresentar os resultados destes trabalhos, tendo-nos ento detido nos dados obtidos para o vale do Rio Grande da Pipa (Pimenta e Mendes, 2010/2011).

    Com o presente trabalho pretendemos trazer a pblico um conjunto de dados coerentes e que, a nosso ver, permitem uma viso de conjunto para o vale do Rio da Silveira.

    2. Enquadramento GeogrficoO territrio de Vila Franca de Xira espraia-se pelas duas margens do Rio Tejo, contendo em si mesmo uma diversidade geogrfica que condicionou, ao longo da histria, a sua ocupao.

    Na margem direita, deparamo-nos com uma ampla faixa ribeirinha, recortada por signi-ficativas linhas de gua, descendo dos montes a jusante, que marcam o incio da paisagem da Estremadura. Nesta zona reuniam-se as condies para a implantao de ncleos habitacio-nais, tendo desde cedo os seus terraos fluviais sido escolhidos para esse efeito.

    A margem esquerda espraia-se pelas frteis lezrias Taganas, at ao vale do Rio Sorraia. Este amplo territrio tem, ainda hoje, um aprovei-tamento essencialmente agrcola e pecurio, sendo uma das zonas mais frteis do pas.

    O Rio da Silveira (Fig. 1), apesar de hoje em dia se encontrar muito assoreado, continua a ser um importante afluente do Tejo, com caudais variveis que deixam vislumbrar a sua impor-tncia de outros tempos.

    Este rio nasce a cerca de 350 metros de alti-tude na localidade de So Romo e recebe, ao longo do seu sinuoso percurso de cerca 13 km, os afluentes de Trancoso, vale de Calhandriz, Rio do Fojo e Ponte Nova.

    O seu percurso inicial encontra-se encaixado num vale estreito onde existem fortes indcios de explorao mineira antiga, patentes nos ves-tgios de conheiras resultantes possivelmente do desmonte dos terraos fluviais para a pesquisa de ouro (Trancoso de Cima II CNS n. 30371).

    Aps a localidade de Trancoso, o vale do Rio da Silveira, espraia-se numa frtil plancie con-tornada por montes de dimenses consider-veis, mas de encostas suaves. Como iremos ver, nesta rea mais resguardada que encontramos diversos stios de cronologias proto-histricas.

    Figura 1Localizao do Vale do Rio da Silveira no Vale do Tejo com a implantao dos principais stios de altura da Idade do Bronze Final. Base cartogrfica, Boaventura, 2009.

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    Esta plancie, na zona da Calhandriz, desemboca num vale esguio e apertado por onde o Rio da Silveira corre at desaguar nas amplas margens aluvionares do Tejo.

    A ausncia de dados paleogeogrficos impede-nos de conhecer a evoluo da fase terminal do Rio da Silveira, ao longo do tempo, e, em particular, para o perodo a que nos reportamos. Por isso, apenas podemos supor que esta acompanha o processo geral de assoreamento das zonas estuarinas, deixando em aberto a possibilidade de a sua navegabilidade, atestada em pocas histricas at colina do Castelo de Alverca, poder ter-se efetuado, pelo menos, at zona com o topnimo bem apelativo de Quinta dos Barcos.

    3. Os trabalhos de prospeoOs trabalhos de campo foram efetuados nos anos de 2006 e 2007 no mbito do projeto, Conhecer o patrimnio de Vila Franca de Xira. Patrimnio mvel e imvel, patrocinado pelo Programa Operacional da Cultura (Pimenta e Mendes, 2007a).

    Apesar de um inventrio desta natureza nunca estar concludo, o trabalho que podemos desenvolver permitiu revelar um potencial arqueolgico insuspeito.

    Embora sejam desde h muito conhecidos diversos stios arqueolgicos nesta rea, as investigaes do Museu Municipal permitiram detetar trs dezenas de novas estaes, algu-

    Figura 2Excerto da Carta Militar de Vila Franca de Xira, 1: 25.000, Folha n. 390, com a localizao dos stios proto-histricos identificados no Vale do Rio da Silveira: 1 Castelo de Alverca; 2 Alto do Pinheiro; 3 Adanaia; 4 Castelo; 5 Quinta do Bulhaco II; 6 Casal dos Pegos I.

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    mas delas de grande importncia cientfica e patrimonial a carecerem de projetos de investi-gao e salvaguarda. Entre estas, destacam-se pela sua raridade, as estaes proto-histricas (da Idade do Bronze Final e da Idade do Ferro) (Fig. 2) reveladoras de uma dinmica de povoamento, at ao momento, desconhecida.

    A metodologia de prospeo foi a de batida sistemtica do espao, privilegiando a importncia da micro anlise territorial e o microcosmos do vale de uma ribeira ou de um rio.

    No presente caso do Rio da Silveira, efetuou-se a leitura do territrio desde a antiga foz at nascente (Figs. 2 e 3), tentando-se, tanto quanto possvel, efetuar a prospeo efetiva do espao em diversas fases do ano (ver Pimenta e Mendes, 2007a).

    Figura 3Vista do Vale do Rio da Silveira a partir da Quinta da Bela Vista.

    Figura 4Vista do Rio da Silveira junto ao Casal da Azenha.

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    4. O Povoado do Morro do Castelo de Alverca do RibatejoO morro onde se veio a erguer o antigo castelo medieval de Alverca (Fig. 5) apresenta uma implantao estratgica sobre a antiga via de penetrao paralela ao Rio Tejo, mais tarde estrada romana, e um amplo domnio visual sobre a antiga foz do Rio Crs Cs e o Rio da Silveira (Fig. 2). Esta localizao privilegiada, associada a condies naturais de defesa em duas das suas vertentes, fez com que este local fosse ocupado desde pocas remotas.

    Ainda que os dados disponveis sobre as mais antigas fases de ocupao deste espao sejam escassos, a interveno levada a cabo no Ncleo de Alverca do Museu Municipal de Vila Franca de Xira (CNS 23634), permite, pela primeira vez, recuar a presena humana no ncleo histrico at incios do primeiro milnio antes de Cristo (Pimenta e Mendes 2007b).

    4.1. Resumo dos trabalhos efetuados

    Face ao projeto de recuperao do antigo edifcio da Casa da Cmara de Alverca para ins-talar o novo ncleo do Museu Municipal, a Cmara Municipal de Vila Franca de Xira decidiu, desde o primeiro momento, efetuar trabalhos arqueolgicos preventivos.

    Apesar de todas as subtraes de informao resultantes da ocupao deste edificado ao longo dos sculos, a interveno arqueolgica desenvolvida nas diversas sondagens, efetuadas dentro e fora do edifcio, permitiu identificar uma potncia estratigrfica varivel de cerca dois metros. A sua leitura permitiu analisar, pela primeira vez, a sequncia de ocupao humana do antigo aglomerado de Alverca, ao longo de cerca de trs mil anos. O estudo dos dados obtidos e a anlise dos relatrios da interveno de campo, registos e esplio exumado permite-nos distinguir cinco grandes fases para a sua ocupao:

    Um dos dados inesperados na escavao do interior do edifcio da Casa da Cmara foi a deteo de uma importante ocupao proto-histrica, datada dos finais da Idade do Bronze (Pimenta e Mendes 2007b).

    Figura 5Vista do morro do Castelo de Alverca a partir do Alto da Forca.

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    Estas evidncias foram reveladas pela leitura estratigrfica efetuada na Sala Sul. Aqui, o pavimento setecentista em grandes lajes calcrias permitiu a preservao dos nveis prece-dentes entre os quais se destacam as unidades estratigrficas 4 e 5 da Sondagem A1/ B1/A2/B2 e as Camadas 6 e 7 da Sondagem A3/A4/B3/B4.

    Estes nveis de sedimento argiloso apresentavam-se bastante homogneos sendo particu-larmente ricos em fauna malacolgica (ameijoa, berbigo e ostra). Infelizmente, a exiguidade da rea intervencionada no permitiu registar quaisquer vestgios de estruturas que nos per-mitam elucidar acerca do tipo de ocupao aqui ocorrida.

    O esplio recolhido constitudo essencialmente por cermica manual. A anlise da tota-lidade da amostra revela uma predominncia de grandes contentores de armazenamento, que deveriam servir para guardar os excedentes agrcolas (Figura 6, n. 3 a 7 e n. 9 a 15). Regista-se ainda a presena de taas carenadas e potes de acabamento cuidado com as super-fcies polidas e espatuladas devendo pertencer a servios mais requintados (Figura 6, n. 1 e 2 e Figura 7, n. 16 a 19).

    Figura 6Cermicas manuais da Idade do Bronze Final.

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    Figura 7Cermicas manuais da Idade do Bronze Final; N. 22 e 23 nforas pr-romanas; N. 21 conta em pasta vtrea.

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    O conjunto cermico apresenta bons paralelos nos stios da Idade do Bronze Final da rea do esturio do Tejo como Tapada da Ajuda (Cardoso e Silva, 2004); Cabeo do Mouro Cascais (Cardoso, 2006) e em diversos stios do vale do Tejo (Cardoso, 2004; Vilaa e Arruda, 2004 e Flix, 2006).

    A par das cermicas identificou-se ainda a presena de dois pequenos artefactos em slex (uma lamela e um pequeno raspador), dois fragmentos de uma argola em bronze e uma conta em pasta vtrea de tom azul (Figura 7, n. 22).

    Ainda que no se tenham detetado quaisquer nveis da Idade do Ferro, a presena em nveis posteriores, de poca romana e medieval, de materiais claramente pr-romanos de cariz orientalizante, autoriza-nos a supor a sua existncia.

    Estes materiais, ainda que escassos e carecendo de um contexto primrio, merecem a nosso ver umas breves observaes. Tratam-se, essencialmente, de fragmentos de bojos de grandes recipientes de tipo pithoi. Apenas trs fragmentos permitem reconstituio formal: um bocal de pihtos com vestgios do arranque de asa bfida e dois fragmentos correspondendo a nforas de tipologia pr-romana, nomeadamente uma asa de rolo e um bocal de nfora (Figura 7, n. 20 e 21). Este contentor corresponde a uma produo do Esturio do Tejo, recentemente designada como Tipo 1 (Sousa e Pimenta, 2014). Este Tipo engloba recipientes inspirados nas nforas de saco (tipos 10.1.1.1 e 10.1.2.1. de Ramon Torres), que adquirem, nesta rea geogrfica, caractersticas especficas, concretamente uma maior amplitude do bordo, assim como uma notvel diversidade ao nvel da sua seco, que se acentua particular-mente nos exemplares mais tardios (Sousa e Pimenta, 2014). O incio desta produo parece recuar a finais do sc. VIII / incios do sc. VII a.C., sendo, contudo, certo que perdura at meados do 1 milnio a.C., como foi possvel constatar na Rua dos Correeiros (Lisboa), onde integra o grupo 1B (Sousa, 2014).

    Qual a extenso da ocupao proto-histria do morro do Castelo de Alverca e a sua real importncia, s a realizao de novas intervenes com um quadro de indagaes previa-mente definido, poder vir esclarecer.

    A anlise da sua localizao e implantao topogrfica faz supor podermos estar perante um povoado fortificado que tiraria partido da sua implantao como rea de bom ancora-douro, junto a uma via principal de comunicao terrestre e controlando o acesso ao interior do territrio pelo vale do Rio Crs Cs e vale do Rio da Silveira.

    Apesar de escassos, os elementos disponveis permitem vislumbrar que este povoado ter interagido com os primeiros contactos com o mundo fencio, desde uma fase precoce do processo de orientalizao do esturio do Tejo. Destas trocas surgem-nos como evidncias a pequena conta em pasta vtrea, recolhida em contextos interpretados como da Idade do Bronze Final e onde no foi detetada qualquer cermica a torno, assim como, os contentores de tipo pithoi e as nforas recolhidos em contextos secundrios.

    5. Necrpole do Alto do PinheiroO stio arqueolgico do Alto do Pinheiro (CNS 30442) localiza-se numa plataforma aplanada no topo de um monte, implantado sobre uma curva do Rio da Silveira, nas imediaes da povoao do Sobralinho.

    Corresponde a uma necrpole de cistas datada do Calcoltico, nunca devidamente investi-gada em moldes modernos (Parreira, 1986, p. 77). Os dados disponveis resumem-se a uma interveno arqueolgica aqui efetuada a 6 de Abril de 1956 por Hiplito Cabao, tendo ento sido escavada uma cista de um conjunto maior que ficou por intervir. O esplio dessa

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    interveno permanece praticamente indito nas reservas do Museu Municipal, sendo cons-titudo por um vaso campaniforme de tipo martimo e uma taa lisa.

    Os trabalhos de prospeo permitiram revisitar este stio arqueolgico, tendo-se verifi-cado infortunadamente que a ampliao do adutor de gua da EPAL, que conduz gua cidade de Lisboa, ter afetado profundamente o que restava desta estao.

    Recolheram-se, porm, alguns materiais superfcie, nomeadamente um fragmento de taa carenada com acabamento polido, que parece indicar que o stio teve uma reocupao durante a Idade do Bronze Final. Se estaremos ou no igualmente, perante um uso funerrio nesta fase, s futuros trabalhos de campo podero vir a esclarecer.

    6. AdanaiaO stio de Adanaia, freguesia de Calhandriz, situa-se numa encosta suave sobranceira ao Rio da Silveira, encontrando-se delimitado a norte por uma pequena linha de gua.

    Em 2006, em visita ao local deparmo-nos, numa extensa frao de terreno perto da estrada nacional, com um desaterro recente de cerca de dois metros, para a construo de uma moradia (Figs. 8 e 9). A observao dos cortes preservados e do terreno permitiu identificar uma ampla rea de disperso de cermica manual, ossos e conchas (Pimenta e Mendes, 2007A).

    Figura 8Vista de Oeste do stio arqueolgico de Adanaia. A vermelho encontra-se delimitado a rea alvo de desaterro e onde se detetou a ocupao da Idade do Bronze. Em plano de fundo, sobre as vivendas, visvel o stio do Castelo, ento ainda densamente arborizado.

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    Face situao de destruio generalizada, tendo o desaterro atingido o nvel geolgico em toda a rea, apenas foi possvel registar a informao e recolher o imenso esplio que se encontrava ainda disperso pela rea.

    A anlise do conjunto cermico permite-nos identificar duas ocupaes distintas: uma da Idade do Bronze Final, que parece estender-se a toda a rea, e uma posterior, de poca romana alto-imperial.

    Desta ltima, exumou-se apenas material de construo, fragmentos de bojos de nforas e dois elementos de Terra Sigillata hispnica, que apontam para uma ocupao romana, pos-sivelmente a uma cota superior da encosta.

    A ocupao proto-histrica bastante expressiva. Muito embora no tenhamos as devidas coordenadas estratigrficas e contextuais para a correta interpretao das vrias centenas de fragmentos de cermica manual recolhidos, estes atestam pela sua morfologia e acaba-mentos um leque variado de funes, para cuja definio muito contribui a homogeneidade cronolgica do conjunto, centrado, face aos paralelos estabelecidos, naquilo que tem vindo a ser definido para a pennsula de Lisboa como Bronze Final I (Cardoso e Carreira, 1993 e Cardoso, 1999-2000).

    Entre o conjunto predominam os grandes contentores de armazenamento de colo alto e lbio simples (Figuras 10, 11 e 12). Estes apresentam bons paralelos em nveis da Idade do Bronze Final em Alpiara (Marques, 1972; Kalb & Hck, 1985). Esta forma encontra-se igual-mente bem atestada em diversas estaes na pennsula de Lisboa em contextos coetneos (Car-doso, 1997/98, 2003, 2006, 2010/2011, Cardoso e Silva, 2004), assim como no povoado de Santa Sofia em Vila Franca de Xira, aqui j com uma cronologia de incios da Idade do Ferro, ainda que com fortes tradies indgenas do Bronze Final (Pimenta e Henrique, 2010/2011).

    Os potes de menor dimenso e de colo exvertido, com bons paralelos na pennsula de Lisboa nos povoados da Tapada da Ajuda e Cabeo do Mouro, Cascais (Cardoso e Silva, 2004 e Cardoso, 2006), encontram-se igualmente bem atestados (Figura 13 e 14).

    Figura 9Vista da rea alvo de desaterro e que conduziu deteo da ocupao proto-histrica.

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    Figura 10Potes de armazenamento em cermica manual.

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    Figura 11Potes de armazenamento em cermica manual.

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    Figura 12Potes de armazenamento em cermica manual.

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    Figura 13Potes de cermica manual.

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    A nvel de fabrico, estes contentores evidenciam pastas mdias, muito raramente gros-seiras, nelas avultando os elementos no plsticos de quartzos, micas douradas e gros car-bonatados, apresentando-se em geral compactas e duras, com ncleos escuros e superfcies castanho-anegradas. O acabamento destas pode apresentar-se cuidado, ou mais irregular, mas sempre alisadas, por vezes recorrendo tcnica a cepillo

    Entre o conjunto cermico, destaca-se um conjunto de materiais com um claro trata-mento diferenciado a nvel das suas superfcies e com fabrico distinto, evidenciando pastas de textura fina e mdia com escassos elementos no plsticos, bem distribudos. As superfcies encontram-se alisadas e brunidas, incluindo algumas delas a aplicao prvia de uma aguada. A nvel formal, destaca-se com este fabrico a presena de taas com carenas altas bem evi-denciadas (figuras 15 e 16).

    Tal como no povoado da Tapada da Ajuda, a decorao em ornatos brunidos, encontra-se ausente do conjunto. Poder este dado ter uma explicao cronolgica? Remetendo-se assim,

    Figura 14Pequenos potes de cermica manual.

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    Figura 15N. 38 a 42 taas carenadas, n. 43 taa hemisfrica em cermica manual.

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    Figura 16Taas carenadas em cermica manual.

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    Figura 17Fundos planos em cermica manual.

    o stio de Adanaia para uma cronologia mais recuada dentro da Idade do Bronze, datada esta, tendo por base essencialmente o stio da Tapada de Ajuda, dos sculos XIV/XIII a XI a.C. (Cardoso, 2004). Apesar de pertinente esta hiptese, temos que ter conscincia, que em stios de encosta como o caso em estudo, estas decoraes so escassas, podendo a sua ausncia ser apenas uma questo de amostragem.

    A nvel de decorao, apenas se identificaram escassos exemplares (ver Figura 18). Entre estes destacam-se dois bocais denteados, n. 59 e 60, e um fragmento de fundo plano com retcula interna efetuada por inciso ps-cozedura, n. 61, afastando-se assim das decoraes similares efetuadas atravs de brunimento, designadas de Tipo Andaluz.

    Por ltimo, recolheu-se um pequeno machado votivo de fibrolite, no sendo claro se este est associado a esta fase, ou corresponder a um perodo de ocupao pretrito ainda no sustentado por outros elementos, (figura 19).

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    Figura 18N. 59 e 69 cermica manual com bordos denteados; n. 61 fundo com decorao incisa; n. 62 e 63 elementos de preenso.

    Figura 19Pequeno machado votivo de fibrolite.

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    Ainda que no tenha sido possvel vislumbrar a existncia de estruturas, a recorrente presena de fragmentos de placas de barro de revestimento, denotando o negativo de restos de material orgnico, assim como a abundncia de blocos calcrios dispersos pela rea, so um forte indicador da sua existncia.

    A anlise da sua implantao, sem quaisquer caractersticas de defesa natural e a proximi-dade de linhas de gua, insere-se dentro do que tem vindo a ser caracterizado para a pennsula de Lisboa como casal agrcola (Marques & Andrade, 1974; Cardoso, 2004). Poderamos, assim, estar perante uma ocupao sob a direta influncia ou interdependncia do vizinho stio do Castelo.

    7. Castelo O stio do Castelo (Fig. 20), no lugar de Adanaia, freguesia de Calhandriz (sem CNS) pela primeira vez referenciado no levantamento do patrimnio arqueolgico de Vila Franca de Xira efetuado por Rui Parreira (1986). Nessa notcia, menciona-se que se trata de uma for-mao natural com uma ocupao humana indeterminada. De facto, apesar de a tradio local referenciar a existncia de uma ocupao humana no alto, essa no pode ser comprovada no terreno (Idem, p. 74).

    Figura 20Vista geral do stio do Castelo.

    Figura 21Fotografia parcial da muralha ptrea que protege o stio.

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    Nos trabalhos de prospeo que efetuamos em 2006 e 2007 revisitmos o stio tentando confirmar ou infirmar a existncia de um stio arqueolgico. Porm a situao de invisibili-dade arqueolgica impossibilitou de todo uma leitura (Pimenta e Mendes, 2007a).

    Apenas no corrente ano, na sequncia de um incndio florestal ocorrido no passado vero de 2014, foi possvel visitar o denominado Castelo, agora livre do denso manto vegetal de giestas. Trata-se de uma formao geolgica calcria singular, em que emergem dois extensos afloramentos configurando uma muralha natural de propores verdadeiramente ciclpicas, que foi aproveitada e incrementada pelo homem com a construo de uma ampla muralha de planta semicircular no lado de mais fcil acesso (Figs. 21 e 22).

    O seu interior afigura-se estar bem preservado, no sendo desde h muito agricultado. superfcie foi possvel recolher alguns materiais (Fig. 23). Perante a anlise das cermicas manuais e dos artefactos lticos recolhidos plausvel supor uma ocupao do final da Idade do Bronze, em tudo similar j atestada no seu sop no lugar de Adanaia. Destaca-se a pre-sena de taas carenadas em cermica manual com acabamento cuidado e polimento externo, ainda que sem a tpica decorao de ornatos brunidos.

    Figura 22Vista do topo do stio do Castelo para Norte. Sendo visvel:1 Casal dos Pegos I;2 Quinta do Bulhaco II.

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    Figura 23Conjunto cermico recolhido superfcie, no interior das muralhas. N. 1 a 3 taas de carena alta; n. 4 a 7 pequenos potes de acabamento cuidado.

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    8. Casal dos Pegos INo decorrer dos trabalhos de prospeo deparmo-nos, numa rea de vinha ocupando o sop de um monte sobranceiro ao vale do Rio da Silveira e Quinta do Bulhaco (ver Fig. 2), com uma invulgar ocorrncia (Pimenta e Mendes, 2007a). A sua anlise permitiu aferir estarmos perante um stio arqueolgico indito que denominmos de Casal dos Pegos I (CNS 30367). Corresponde a uma densa disperso de materiais numa rea de encosta com pendente para oeste e sem condies naturais de defesa (Fig. 24).

    A construo da autoestrada n. 10, a norte, e de uma estrada rural, a sul, levou a que o stio tenha sido muito afetado, sendo observvel no corte (Fig. 25) ainda a visvel, restos de alinhamentos ptreos, correspondendo possivelmente a estruturas de cariz habitacional.

    O esplio particularmente abundante, sendo constitudo maioritariamente por cermi-cas a torno de cariz orientalizante. As cermicas manuais de tradio indgena encontram-se igualmente patentes ainda que claramente minoritrias.

    Entre as cermicas a torno, destaca-se o conjunto de fragmentos de nforas. Estes encon-tram-se particularmente bem representados e so reveladores da dinmica aquisitiva do stio. Foi possvel registar onze fragmentos de bocais e nove asas. No deixa de ser interessante a comparao com o stio de Santa Sofia, extensamente escavado, onde apenas se recuperou um fragmento de bocal (Pimenta, Soares e Mendes, 2012).

    Entre as nforas recolhidas possvel estabelecer dois grupos distintos, tendo em conta a anlise das suas pastas, o que nos permite propor provenincias distintas.

    Os exemplares n. 1 e 2 evidenciam uma pasta assaz caracterstica que, tendo em conta os grupos definidos por Ramon Torres (1995, p. 256-261), nos permite identific-los como do Grupo Baa de Cdis. Correspondem ao Tipo 10.1.2.1. de Ramon Torres, de provenincia meridional, possivelmente da rea de Cdis e com cronologias centradas entre os sculos VII e VI a.C.

    Os restantes exemplares englobam-se no Grupo I de fabrico definido para as nforas de produo pr-romana no esturio do Tejo (Sousa e Pimenta, 2014, p. 251), tratando-se assim de produes de cariz regional.

    Os exemplares n. 3 a 9 correspondem ao Tipo 1 desta Tipologia. O incio desta produo parece recuar a finais do sc. VIII / incios do sc. VII a.C., sendo, contudo, certo que perdura at meados do 1 milnio a.C. (Sousa e Pimenta, 2014).

    O bocal n. 10 corresponde ao Tipo 3. A sua produo parece centrar-se a partir de meados do sculo VI a.C., encontrando-se esta forma bem atestada em nveis do sculo V a.C. no Ncleo Arqueolgico da Rua dos Correeiros (Sousa, 2014).

    Figura 24 Vista geral do stio de Casal dos Pegos I no decorrer dos trabalhos de prospeo. Em fundo o vale do rio da Silveira.

    Figura 25Corte recente resultante da abertura de uma estrada e que afeta profundamente o stio de Casal dos Pegos I.

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    A nfora n. 11 pode identificar-se com o Tipo 4 destas produes do esturio do Tejo (Sousa e Pimenta, 2014). Trata-se de um contentor que se encontra amplamente difundido no vale do Tejo, e cuja cronologia parece centrar-se em torno do sculo V a.C.

    Entre as asas de nfora identificam-se dois tipos distintos: um de asas espessas e de seco ovoide (n. 12 a 14 da figura 26) e outro, melhor representado, n. 15 a 20 da figura 26, de asas com uma caracterstica depresso longitudinal, tpica da segunda metade do primeiro milnio (Sousa, 2014).

    A par das nforas identificou-se um amplo conjunto de contentores cermicos destinados ao armazenamento. Os exemplares n. 21 e 22 assim como as asas bfidas n. 23 e 24, cor-respondem a contentores Tipo pithoi tpicos do mundo de influncia fencio (Arruda, 2002). Os bocais n. 25 a 32 parecem j corresponder a contentores de armazenamento de distinta morfologia. Formas e fabricos idnticos foram recentemente sistematizados sob a Srie 10 da tipologia estabelecida com base no estudo do esplio cermico recolhido na escavao do Ncleo Arqueolgico da Rua dos Correeiros, com cronologias de meados do sculo V a.C.

    Figura 26Conjunto cermico recolhido superfcie e produzido a torno. N. 1 a 20 nforas de tradio do mundo fencio-pnico. N. 15 a 20 asas de nfora com caracterstica depresso longitudinal tpica da segunda metade do primeiro milnio.

  • 43 CIRA-ARQUEOLOGIA IV

    Figura 27Conjunto cermico recolhido superfcie e produzido a torno. N. 21 a 24 contentores de armazenamento do tipo pithoi. N. 25 a 32 contentores de armazenamento.

    Figura 28Conjunto cermico recolhido superfcie e produzido a torno. N. 33 ampla taa globular revestida externamente com engobe vermelho. N. 34 fragmento de prato de engobe vermelho. N 35 a 40 cermicas cinzentas finas polidas.

  • 44 CIRA-ARQUEOLOGIA IV

    (Sousa, 2014). Formas similares encontram-se bem representadas no povoado pr-romano de Castanheira do Ribatejo, a com cronologias dos finais da Idade do Ferro (Pimenta, Mendes e Madeira, 2009).

    A cermica de engobe vermelho encontra-se atestada por duas peas, ambas com pastas que nos permitem supor uma produo do vale do Tejo, possivelmente da rea da foz (Calado et al. 2013). A pea n. 27 corresponde a um contentor de tendncia esfrica, com caneluras junto ao bordo, e revestimento externo a engobe vermelho. Esta forma encontra-se bem representada em contextos da primeira metade do sculo VII a.C. em Huelva (Forma C1a de Rufete Tomico, 1988-89). Curiosamente, forma similar foi identificada no povoado de

    Figura 29Conjunto cermico e ltico recolhido superfcie. N. 41 a 43 contentores de cermica manual. N. 44 e 45 machados de pedra polida em anfibolite.

  • 45 CIRA-ARQUEOLOGIA IV

    cabanas de Santa Sofia (Pimenta e Mendes, 2010-11, figura 7, n. 25). O exemplar n. 28 corresponde a um fragmento de parede de um prato com revestimento interno e externo de um engobe vermelho espesso e bem aderente.

    A cermica cinzenta fina polida est escassamente representada, por apenas seis fragmen-tos. Os exemplares n. 35 a 37 correspondem a tigelas hemisfricas de perfil simples, simi-lares ao tipo 1, do conjunto de cermica cinzenta da S de Lisboa (Arruda, Freitas e Vallejo Snchez, 2000) e Srie 1, Grupo 1A, da cermica cinzenta do Ncleo Arqueolgico da Rua dos Correeiros (Sousa, 2014). Os bocais n. 39 e 40 so atribuveis a pequenos potes, Srie 3, Grupo 3A da mesma Tipologia (Sousa, 2014, p. 132). O n. 39 encontra paralelo idntico entre o material da Rua dos Correeiros em Lisboa, onde foi recolhido um pote completo desta forma (variante 3Aa). A pea de cermica cinzenta, que apresentamos com o n. 38, de mais difcil classificao, podendo mesmo corresponder a uma pea de cronologia pos-terior.

    Como referimos, a par da cermica a torno encontra-se atestada a presena de cermica manual de tradio da Idade do Bronze Final (n. 41 a 43 da figura 29).

    Por ltimo, recolheram-se dois exemplares de machados de pedra polida em anfibolite, j muito gastos (n. 44 e 45 da figura 29).

    A anlise do conjunto artefactual, recolhido superfcie, permite tecer algumas breves consideraes acerca do tipo e da cronologia de ocupao deste stio, embora esta leitura carea de coordenadas contextuais:

    Os dados registados parecem sustentar, como hiptese de trabalho, estarmos perante um stio datado j da Idade do Ferro, denotando fortes e precoces influncias do mundo orientalizante. Face presena de cermica de engobe vermelho, nforas do Tipo 10.1.2.1. importadas do sul peninsular, assim como de alguns pithoi, possvel situar a sua fundao em meados do sculo VII a.C. Apesar desta remota antiguidade o grosso do material situa-se j em meados da segunda metade do primeiro milnio a.C..

    A recolha na rea do corte, de alguns restos osteolgicos e malacolgicos permitiu efetuar duas dataes pelo radiocabono:

    REF. DE LABORATRIO

    TIPO DE AMOSTRA

    13C()

    DATA 14C(BP)

    DATA CALIBRADA (CAL BC) *1 2

    Sac-2375 Ossos (colagnio) -21,60 248040 758-726; 672-541 775-472

    Sac-2374 Venerupis decussata -1,40 269035 380-291 400-197

    * Calibrao fazendo uso das curvas IntCal13 e Marine13 (Reimer et al., 2013) e do programa CALIB 7.0 (Stuiver e Reimer, 1993). Utilizou-se o valor de R=9515 anos 14C (Soares e Dias, 2006) na calibrao da data obtida com conchas marinhas.

    As datas obtidas no pem em causa a cronologia inferida a partir da anlise artefactual. Pelo contrrio, parecem confirm-la. No entanto, a sua validade seria maior se as pudssemos associar a contextos especficos.

    9. Quinta do Bulhaco IIA Quinta e Palcio do Bulhaco (ver Fig. 2 e 30) um extenso e bem preservado exemplo de arquitetura civil setecentista, propriedade dos Condes da Cunha. Nas suas imediaes detetou-se, em 2006, evidncias de ocupaes pretritas de grande interesse, reveladas na sequncia de trabalhos agrcolas (Pimenta e Mendes, 2007a).

    Entre estas, destaca-se por se enquadrar no presente enquadramento temporal, a cor-respondente aos vestgios que ento designmos como Quinta do Bulhaco II, (CNS 30359).

  • 46 CIRA-ARQUEOLOGIA IV

    Situado numa rea aplanada na margem esquerda do Rio da Silveira, os vestgios de uma ocupao datada da Idade do Ferro, estendem-se por uma rea de cerca trezentos metros quadrados.

    Na zona central do terreno, detetmos uma maior concentrao de materiais cermicos de cronologia da Idade do Ferro (Fig. 31 e 32). Entre estes destaca-se a presena de bocais de potes de perfil em esse; cermica cinzenta fina, asas de rolo e alguns bocais de nforas pr-romanas.

    Entre o conjunto de nforas, foi possvel classificar sete fragmentos de bocal, que permi-tem tecer algumas observaes. Da anlise das suas pastas possvel individualizar trs grupos distintos de fabricos, que parecem corresponder a distintas provenincias.

    O primeiro Grupo (Fig. 31) encontra-se atestado, por um nico exemplar de provenincia meridional, o bocal n. 1. Trata-se de um fabrico meridional da rea da Baa de Cdis do Tipo 12. 1.1.1. (Ma-Pascual A4) (Ramon Torres, 1995). As nforas desta forma parecem ter uma

    Figura 30Vista geral da implantao do stio de Quinta do Bulhaco II. Em fundo o edifcio da Quinta.

  • 47 CIRA-ARQUEOLOGIA IV

    longa durao, estando documentadas em diversas estaes desde meados do sculo IV a.C. at um momento indeterminado do sculo I a.C.

    O segundo Grupo o melhor representado, correspondendo ao Grupo 1, definido para as produes de nforas do Esturio do Tejo (Sousa e Pimenta, 2014). Neste grupo inclui-se o restante conjunto de fragmentos de nforas, exceo do exemplar n. 7.

    A nfora n. 2 insere-se no Tipo 7 destas produes do esturio do Tejo, datada de momen-tos finais da Idade do Ferro, sculos III-II a.C. (Sousa e Pimenta, 2014).

    Os contentores n. 3 a 6 englobam-se no Tipo 6 desta Tipologia, com cronologias da segunda metade do primeiro milnio at aos alvores da romanizao (sc. V a II a.C.) (Sousa e Pimenta, 2014).

    O terceiro Grupo caracteriza-se por uma pasta muito caracterstica das produes de nforas do interior do esturio do Tejo (Grupo II da tipologia recentemente apresentada Sousa e Pimenta, 2014). Encontra-se bem atestada em stios como o Porto do Sabugueiro (Pimenta e Mendes, 2008), Alcova de Santarm (Arruda, 2002) e Ches de Alpomp, (Diogo, 1993). Foi apenas identificado um fragmento, n. 7, correspondendo a um bocal do Tipo 6 (Sousa e Pimenta, 2014).

    A par das produes de nforas, sobressaem entre o conjunto de material recolhido, diversos fragmentos de bocal e de asas de jarros em cermica cinzenta fina polida (n. 22 a 26). Trata-se de uma forma bem individualizada, destinada a conter e transportar lquidos. Este modelo formal encontra-se particularmente bem representado nos casais agrcolas da Idade do Ferro em torno de Lisboa, com cronologias de meados do sculo V a.C., como os estudados da regio de Oeiras: Outurela (Cardoso, 1995) e Gamelas 3 (Cardoso e Silva, 2012), assim como na zona da Amadora (Sousa, 2013). No povoado da colina do Castelo em Lisboa, foram identificados jarros similares, com cronologias ulteriores e que alcanam os finais da Idade do Ferro (Pimenta, Calado e Leito, 2013).

    Da anlise do conjunto de materiais recolhidos no stio da Quinta do Bulhaco II, ressalta a sua cronologia tardia, dentro da Idade do Ferro. Tendo em conta as produes de nforas aqui atestadas possvel que muitos destes contentores de produtos alimentares tenham aqui chegado j no sculo III-II a.C., podendo mesmo, alguns deles corresponder j a produes coetneas com as primeiras movimentaes militares romanas no Vale do Tejo. Ressalve-se que apesar de no ter sido possvel registar nenhum fragmento classificvel, foram aqui reco-lhidos alguns fragmentos de parede de nforas itlicas com as tpicas pastas campanienses, podendo corresponder a modelos de nforas vinrias do tipo Dressel 1 ou Greco-Itlicas.

    10. Tentativa de SnteseA gnese deste trabalho emergiu das problemticas suscitadas com a escavao em 2006 e 2007 do povoado de Santa Sofia, em Vila Franca de Xira. O alargar do quadro de indagaes, ao territrio vizinho, atravs de um projeto de prospeo sistemtica, permitiu comear a antever um quadro de povoamento totalmente insuspeito.

    No mbito deste projeto, foi possvel identificar e georreferenciar em reas de meia encosta, nas imediaes de importantes linhas de gua, diversos stios dos finais da Idade do Bronze, e da Idade do Ferro, que podem enquadrar-se dentro daquilo que usualmente se classifica como casais agrcolas (Cardoso, 2004), assim como, outros de maior dimenso e de posio destacada na paisagem, evidenciando vestgios de potentes sistemas defensivos, que tero certamente assumido um papel de destaque na organizao e hierarquizao do povoamento.

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    Figura 31Conjunto de nforas pr-romanas da Quinta do Bulhaco II. N. 1 Tipo 12. 1.1.1. (Ma-Pascual A4) de produo Gaditana; N. 1 Tipo 7; N. 3 a 7 Tipo 6; N. 8 a 15 asas de seco ovoide.

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    Figura 32Materiais da Quinta do Bulhaco II. N. 16 a 18 Cermica manual; N. 19 a 26 Cermica cinzenta fina polida; N. 27 a 30 Contentores de armazenamento; N. 31 Pequena asa de pote (?) com depresso longitudinal.

  • 50 CIRA-ARQUEOLOGIA IV

    Entre as diversas reas analisadas, o Vale do Rio da Silveira apresenta-se como um espao geogrfico bem definido e com uma dinmica de ocupao que justifica o desenvolvimento de um projeto de estudo futuro.

    Ainda que tenhamos conscincia, da limitao dos dados com que estamos a trabalhar, entenda-se, dos diversos stios, reconhecidos ao longo das margens do Rio da Silveira, apenas um foi alvo de escavao arqueolgica recente, tendo os restantes, sido apenas alvo de pros-pees sistemticas. Julgamos, contudo, pertinente trazer coao estes novos elementos, apresentando e discutindo os dados disponveis, no como um fim em si mesmo, mas como o incio de um percurso de investigao que esperamos poder trilhar.

    Temos, assim, dados consistentes, para afirmar, que, no final da Idade do Bronze, o vale do Rio da Silveira, assistiu emergncia de dois povoados de altura. O Castelo de Alverca, junto sua foz, e o stio do Castelo, junto povoao de Adanaia, onde o vale se espraia em encostas frteis ainda hoje alvo de aproveitamento para a produo cerealfera.

    Para a mesma fase, no sop da fortificao do Castelo foi detetado o stio de Adanaia. A informao disponvel, ainda que truncada, permite sustentar estarmos perante uma rea habitacional de alguma dimenso, correlacionada com o aproveitamento agrcola e pecurio do vale. Face sua implantao sob o stio do Castelo, estaremos perante dois stios em direta correlao e codependncia.

    A informao disponvel, no permite entender, de forma clara, como que esta rede de povoamento da Idade do Bronze Final interagiu com a chegada dos mercadores fencios, em meados do sculo VIII a.C., ao vale do Tejo.

    Para o stio do Castelo de Alverca, apesar de escassos, alguns elementos recolhidos permi-tem sustentar que existiu uma precoce interao entre ambas as comunidades. Dela, nos pode falar, a conta de pasta vtrea, recolhida em nveis onde ainda no se encontra qualquer cer-mica a torno e em que apenas esto representadas cermicas manuais tpicas do Bronze Final. Tendo em conta, alguns materiais recolhidos em intervenes no casco antigo de Alverca, este povoado ter continuado ao longo da Idade do Ferro e perodo romano republicano, sendo assim um caso de longevidade assinalvel, que encontra a sua justificao no seu cariz porturio.

    Ao longo do vale, os restantes stios da Idade do Bronze Final, parecem ter sido abando-nados com o alvor da Idade do Ferro. Entre os elementos recolhidos em stios como o Alto do Pinheiro, Castelo e Adanaia, nada nos indica a sua continuao alm do sculo VIII a.C.

    Apesar desta aparente retrao do povoamento, no interior do vale e em posio de controlo de uma zona de portela de caminho natural de acesso serra, onde existem fortes indcios de explorao mineira antiga, foi fundado nos incios da Idade do Ferro o stio de Casal do Pego I.

    Na ausncia de escavaes arqueolgicas, difcil determo-nos na interpretao deste stio e da sua real relevncia. Contudo, a presena de importaes da rea da baa Gaditana, numa fase precoce do processo de orientalizao do vale do Tejo (sculos VII-VI a.C.), leva a sublinhar a sua relevncia, e supor que esta fundao possa se ter enquadrado numa estra-tgia deliberada de povoamento. Estaremos perante um casal agrcola dos incios da Idade do Ferro, similar ao detetado em Santa Sofia e aos que tem vindo a ser estudados na regio de Oeiras: Outorela (Cardoso, 1995), Leio (Cardoso et al. 2010-11), Gamelas 3 (Cardoso e Silva, 2012) e na zona da Amadora (Sousa, 2013)? Ou perante algo mais complexo?

    O recente conhecimento, que se tem vindo a consolidar, sobre a Idade do Ferro do interior da pennsula de Lisboa, leva-nos a sublinhar a relevncia do povoamento proto-

  • 51 CIRA-ARQUEOLOGIA IV

    -histrico detetado nos vales do rio Grande da Pipa e, do ora aqui exposto, do Rio da Sil-veira. Estes vales so vias de acesso e de transitabilidade natural para o interior para a atual zona de Arruda dos Vinhos, Sobral de Monte Agrao e Torres Vedras, assim como de rpida ligao destas reas com as margens do Tejo. Tambm por aqui fluram ideias, tcnicas e mercadorias que sustentam o processo de orientalizao que se assiste nas comunidades indgenas.

    No queremos aqui defender, que apenas estes dois vales foram utilizados como vias de penetrao, antes pretendemos sublinhar a relevncia da realizao de estudos similares de povoamento em vales como o de Chelas em Lisboa, do rio Tranco em Loures, do rio de Alenquer e da Ota em Alenquer, onde certamente existem stios relevantes por detetar e explorar.

    No sendo aqui o stio para abordar o volume de informao sobre os stios da Idade do Ferro no interior da pennsula de Lisboa, nem tendo este trabalho a inteno de discutir esplios e cronologia dos mesmos, no podemos deixar aqui, de expor algumas novidades da investigao que vem dar colorido ao parco conhecimento disponvel.

    Um pouco a norte da nascente do Rio da Silveira, foram recentemente dados a conhecer dois stios de altura, com condies naturais de defesa, e gozando de ampla visibilidade, ainda mal caracterizados do ponto de vista cronolgico, mas com ocupaes atestadas da Idade do Bronze e Idade do Ferro. O Stio do Forte da Casal do Cego (Cardoso, 2012), e o do Moinho do Custdio - Arranh (Cardoso e Gonalez, 2008), ambos no municpio de Arruda dos Vinhos.

    No seguimento da mesma Serra, destaca-se a relevante ocupao proto-histrica do Forte do Alqueido Sobral de Monte Agrao (Rocha e Reprezas, 2014). Alvo de escavaes recen-tes, os elementos disponveis so particularmente interessantes e reveladores da precoce penetrao do mundo orientalizante e da sua forte interao com o mundo indgena da Idade do Bronze Final. Aqui se recolheram a par de cermicas manuais tpicas do mundo indgena, um conjunto de nforas do Tipo 10.1.2.1, contentores de tipo pithoi, cermica cinzenta e cermica com engobe vermelho. A aduzir a este panorama foi ainda identificada uma conta oculada em pasta vtrea (Rocha e Reprezas, 2014).

    Dominando de uma forma singular uma rea de enorme relevncia no quadro da transita-bilidade da pennsula de Lisboa o povoado fortificado da Serra do Socorro, mantem-se ainda hoje mal conhecido. Os elementos disponveis permitem sustentar a sua origem na Idade do Bronze Final e uma continuidade durante a Idade do Ferro, ainda que os materiais trazidos a pblico se enquadrem em cronologias algo tardias, enquadrveis nos meados do sculo VI-V a.C. (Matias, 2003; Cardoso, 2004).

    Nas proximidades da Serra do Socorro, e aparentemente correlacionado com este povoado, existe uma relevante, ainda que mal conhecida ocupao, dos incios da Idade do Ferro, em torno do alto do Moinho da Mariquitas (Caninas, et al., 2006). Na breve notcia em que dado conhecimento da sua descoberta so referidos trs stios distintos: a Quinta de Alm; o Moinho da Mariquitas propriamente dito, em que mencionada a existncia de um recinto fortificado, e uma outra ocorrncia a sul da povoao de Mesquita em que proposta a existncia de uma necrpole da Idade do Ferro, onde foram recolhidas inmeras contas de pasta vtrea (Caninas et al. 2006).

    Temos assim, como podemos ver, um quadro algo distinto do que tem vindo a ser traado e onde comea a emergir uma forte presena de elementos orientalizantes num eixo Este--Oeste, ao longo de uma relevante via natural que liga as margens do Tejo fachada atlntica.

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    A emergem dois grandes povoados de altura, que certamente assumiram papel de relevo na estruturao do povoamento, a Serra do Socorro e o Forte do Alqueido.

    Por ltimo, no mbito do gizar do povoamento do rio da Silveira, importa determo-nos no stio de Quinta do Bulhaco II. Aparentemente, este novo estabelecimento surge aps o abandono do stio de Casal do Pego I, datando a sua ocupao dos finais da Idade do Ferro, sculos III/II a.C., sendo, aparentemente, j coetneo da presena das primeiras movimen-taes do exrcito romano no Vale do Tejo.

    Em jeito de concluso, importa reforar que apenas a realizao de trabalhos de escava-o, devidamente programados e realizados com um quadro de indagaes pr-definido que poder clarificar algumas das questes ora expostas.

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    NOTAS

    1 No decorrer e execuo deste trabalho podemos contar com apoio e amizade do Engenheiro Monge Soares, a quem muito agrade-cemos. So de sua autoria e responsabilidade as dataes absolutas obtidas para o Casal do Pego, assim como a sua devida calibrao. Apesar de este trabalho muito lhe dever, no lhe so imputadas quaisquer culpas a qualquer interpretao mais temerria por parte dos autores.

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    Um conbio de sabedoria tcnica e novas modas conviviais: as taas em pasta cinzenta imitante TSI de Monte dos Castelinhos (Vila Franca de Xira)1

    VINCENZO SORIA DOUTORANDO DA UNIARQ, UNIVERSIDADE DE LISBOA

    RESUMO

    No presente estudo tratar-se- dum notvel conjunto de taas em pasta cinzenta imitante Terra Sigillata itlica e proveniente das escavaes dos anos 2008-2013 do stio de Monte dos Castelinhos (Vila Franca de Xira Portugal). A colocao estratigrfica do conjunto permite a sua insero num horizonte cronolgico de incios do sc. I d.C. (fase 4), perodo pouco conhecido em termos urbansticos mas que atualmente est comprovado pelo esplio arte-fatual exumado. O conceito de imitao com o qual se interpretam estes artefactos particularmente apto a sugerir uma explicao da logica produtiva e de consumo que causaram a apario desta classe de artefactos no somente em termos cronolgicos mas tambm do ponto de vista do processo de adaptao de hbitos conviviais das comunidades em relao mudana dos tempos e das modas.

    SUMMARY

    The main goal of the present study is the analysis of a group of grey clay bowls imitating Italic Terra Sigillata and coming from the 2008-2013 excavation seasons in the site of Monte dos Cas-telinhos (Vila Franca de Xira Portugal). The chronology attributed to these materials (early 1st century CE) is based on the recognition of a particular phase of the site (phase 4), currently under study. The concept of imitation is particularly suitable and flexible to shed light on the productive and consumer logics at the heart of the spread of these materials in Monte dos Castelinhos as well as in other Portuguese sites. Their occurrence could be due to the change in the daily consumption of the local community at the turn of the current Era.

    1. A problemtica Graas s intervenes arqueolgicas levadas a cabo no stio de Monte dos Castelinhos nos anos 2008-2013, foi possvel exumar um notvel conjunto de manufatos cermicos, claros testemunhos da vivncia quotidiana da comunidade aqui instalada. Nesta sede analisar-se-- uma parte deste conjunto artefatual considerando um lote de taas que pelas prprias caractersticas tcnicas e morfolgicas so particularmente interessantes para a investiga-o dos hbitos conviviais desta comunidade. Tratando-se de produes que em termos tipolgicos se situam entre as duas grandes categorias cermicas, as de verniz negro e as de

    1 Este trabalho devedor do incansvel apoio e da ilimitada boa disposio dos Drs. Joo Pimenta e Henrique Mendes. Para a realizao deste trabalho gostaria de agradecer Fundao para a Cincia e a Tecnologia FCT pelo suporte financeiro

    atravs de uma Bolsa de Doutoramento (SFRH/BD/87209/2012).

  • 56 CIRA-ARQUEOLOGIA IV

    verniz vermelho itlico, que tanto marcaram o territrio portugus quer em termos sociais quer em termos de dinmicas de aquisio, no resulta fcil estabelecer uma sequncia diacrnica de utilizao linear destes produtos. Embora este seja um dos aspetos em que a anlise ceramolgica tem que se debruar, a natureza do conjunto transcende estas consi-deraes situando-se no campo do constante processo de adaptao de hbitos conviviais em relao mudana dos tempos.

    2. Apontamentos terminolgicos As formas alvo deste estudo puseram problemas de denominao, sendo formas que encaixam quer no repertrio da cermica de verniz negro itlico (Lamboglia 1952; Morel 1981) quer no da terra sigillata itlica (TSI; Conspectus 2000). Optou-se para manter as duas designaes2 sem avanar novas propostas sendo o estudo destes produtos ainda preliminar em termos de reco-nhecimento de lugares de fabrico, no obstante a sua disperso est a ser cada vez mais frequente (Sora 2014). Uma outra razo para esta preferncia o facto de entender estes artefactos como o resultado de competncias oleiras e de escolhas de consumidores resultantes de dcadas de utilizao de determinados repertrios cermicos como os de verniz negro juntos com novas e massivas influncias vindas sempre da Pennsula itlica como o caso da terra sigillata itlica.

    Como sublinham alguns autores (Fernndez Ochoa et al. 2014: 60, nota 13) as propuestas de concordancia tienen repercusin en el horizonte cronolgico de inicio de las imitaciones. Se por um lado este caveat alerta sobre as implicaes do termo imitao, do outro lado ser preciso valorar a unicidade e as peculiaridades de cada contexto face mera aplicao de critrios cronolgicos ou funcionais estabelecidos em outros lugares.

    Nos prximos pargrafos ser apresentado o conjunto do ponto de vista composicional, morfolgico e funcional sem nenhuma pretensa de exaustividade nem propsitos de limi-tao de eventuais incorporaes futuras de outras formas e diferentes funcionalidades que apresentem similares caractersticas