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entrevista Bernardete Gatti

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  • O que se percebe que a questO da dOcncia sempre relegada

    cOmO se fOsse algO menOr

    What We nOtice is that the teaching issue is alWays treated

    as sOmething inferiOr

  • O que se percebe que a questo da docncia sempre relegada como se fosse algo menor

    249cadernoscenpec | So Paulo | v.4 | n.2 | p.248-275 | dez. 2014

    Bernardete Angelina Gatti, paulista de Mato (SP), uma das principais

    referncias na temtica de formao de professores no pas. Sua formao

    acadmica inclui graduao em Pedagogia pela Universidade de So

    Paulo (1962), formao parcial na licenciatura em Matemtica na mesma

    universidade, doutorado em Psicologia pela Universit de Paris VII (1972)

    e dois ps-doutorados, um na Universit de Montreal (Canad) e outro na

    Pennsylvania State University (EUA).

    Tem um extenso currculo na docncia e na pesquisa. Na educao bsica,

    trabalhou como professora alfabetizadora, professora de matemtica e

    orientadora educacional. Na educao superior, foi professora do Instituto

    de Matemtica e Estatstica da USP e do programa de ps-graduao em

    Educao da PUC-SP. Presidiu o Comit Cientfico de Educao do CNPq, foi

    coordenadora da rea de Educao da Capes e membro do Conselho Estadual

    de Educao de So Paulo, entre muitas outras atuaes de destaque.

    H mais de 40 anos na Fundao Carlos Chagas, atualmente vice-presidente

    da instituio. Relata que foi l que se aprofundou na temtica do trabalho

    docente. Tem especial interesse nas pesquisas que privilegiam um enfoque

    amplo, de anlise do cenrio macro da formao e atuao do professor e sua

    relao com o aluno a partir de grandes bases de dados.

    Nesta entrevista Cadernos Cenpec, Bernardete fala sobre os problemas, con-

    flitos e desafios que permeiam a formao de professores no pas. Participaram

    Maria Ambile Mansutti, coordenadora tcnica do Cenpec, Vanda Mendes

    Ribeiro e Joana Buarque de Gusmo, editoras da Cadernos Cenpec.

  • cadernoscenpec | 250

    Entrevista com Bernardete Gatti

    CADERNOS CENPEC Gostaramos que voc falasse um pouco sobre sua

    experincia na rea da educao e sobre sua trajetria profissional.

    BERNARDETE GATTI Comecei como professora alfabetizadora dos primeiros

    anos do ensino fundamental. Depois cursei Pedagogia e fiz uma parte do

    curso de Matemtica, dei aula de matemtica no antigo ginasial (atual ensino

    fundamental II). Nesse mesmo perodo, trabalhei no Colgio de Aplicao da

    USP como orientadora educacional. Na Faculdade de Educao trabalhei no

    departamento de Estatstica.

    A partir da fiquei na universidade, na rea de Estatstica Aplicada a Cincias

    Humanas. Minha ligao com a educao nunca se desfez. Depois fui fazer

    doutorado na Frana. O tema era em Educao, mas eu fiz na Psicologia, com

    algumas disciplinas de matemtica aplicada. Na poca em que fui fazer o

    doutorado eu trabalhava no Colgio de Aplicao com adolescentes. Fazia uma

    dinmica com os alunos em que discutamos questes da atualidade, e acabei

    usando esse trabalho na minha tese. Quando voltei, continuei na Estatstica;

    no me deixaram sair, afinal, ningum queria trabalhar com Pedagogia e

    Estatstica. O Colgio de Aplicao tinha sido fechado, e fui convidada para

    trabalhar na Fundao Carlos Chagas (FCC), que estava montando um corpo

    de pesquisadores. E foi assim que fiquei meio perodo na Universidade de

    So Paulo (USP) e meio perodo na Fundao. Mas foi na Fundao que eu me

    encontrei profissionalmente.

    Com o tempo fui me afastando da USP e me dedicando mais Fundao,

    at que me aposentei da universidade. Logo depois, continuei na Fundao e

    passei um perodo na Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUC-SP),

    onde realizei alguns trabalhos na ps-graduao da Psicologia da Educao.

    Foi um perodo muito bom.

    Agora faz oito anos que estou somente na Fundao. Tudo o que eu fiz de

    pesquisa, tudo o que pude fazer de trabalhos de investigao na educao, fiz

    graas ao apoio que tive na FCC. Nela h uma estrutura de que a universidade

    no dispe: mais financiamento, alguns suportes que podem ser contratados,

    alm de suportes tcnicos da prpria casa o que faz muita diferena na hora

    de desenvolver as pesquisas. Posso dizer que a Fundao a minha casa: fui

    coordenadora de departamento, superintendente de Educao e Pesquisa e,

    agora, estou na vice-presidncia, onde sou responsvel pela rea de Pesquisa

    e Educao. Essa a minha trajetria.

    Estudo formao de professores desde sempre. Quando voltei da Frana com

    o meu doutorado, j vim com essa preocupao de que quem trabalha com

  • O que se percebe que a questo da docncia sempre relegada como se fosse algo menor

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    alunos, com ensino-aprendizagem, como eu fazia, com questes do dia a dia

    da escola, acabava esbarrando na figura do professor. Ao chegar Fundao,

    meu primeiro projeto foi avaliar um treinamento de professores hoje se

    fala educao continuada. Falava-se treinamento, e agora feio falar isso...

    Era um treinamento de formao de professores e assistentes pedaggicos

    da Prefeitura de So Paulo. A partir da, o tema nunca deixou a minha vida.

    Trabalhei com essas questes sob vrios enfoques; mas eu gosto mesmo de

    trabalhar com grandes bases de dados para entender o problema educacional

    de forma mais ampla.

    Muitos dos estudos de formao de professores so estudos de caso, ou

    questes muito especficas do trabalho do professor, relao professor-

    aluno... Mas eu gosto mesmo de olhar o cenrio macro. E este tem sido o meu

    trabalho nos ltimos dez anos: enfoque amplo e realizado em equipe. No d

    para fazer estudos dessa natureza se voc no contar com uma equipe. As

    minhas grandes parceiras so a Elba Barretto e a Marli Andr, alm dos meus

    outros parceiros pesquisadores da Fundao.

    CADERNOS CENPEC Gostaramos que voc falasse um pouco sobre os

    conflitos envolvidos na formao de professores: o que tem estado

    em pauta nos ltimos anos nas secretarias de Educao, nos rgos

    pblicos e na academia?

    BERNARDETE GATTI Tenho acompanhado muitas das reunies e propostas da

    Unio Nacional dos Dirigentes Municipais de Educao (Undime) e do Conselho

    Nacional de Secretrios de Educao (Consed). Desenvolvi estudos para o

    Consed. Os secretrios vm anunciando suas preocupaes com o desempenho

    de suas redes no que eles atribuam isso somente aos professores, pois

    reconhecem que existem outras dificuldades. Mas, de fato, os professores tm

    revelado alguma dificuldade para lidar com a sala de aula. Os gestores vieram

    da rea da educao, das licenciaturas, e avaliam, com bastante preciso, que

    a formao do professor, hoje, no est atendendo necessidade atual da

    escola, do seu dia a dia. Eles colocam isso nas discusses com o Ministrio. Mas

    o que de fato os despertou para essas questes foram as grandes avaliaes

    e o foco que a elas foi dado. Nas avaliaes nacionais e internacionais, em que

    ficamos sempre em penltimo lugar, as nossas fragilidades, no que diz respeito

    aprendizagem dos alunos, ficam muito evidentes. H aspectos didtico-

    pedaggicos envolvidos a. A crianada, o jovem que chega escola hoje no

    mais um ser passivo. Ele j vem estimulado por um ambiente de mdias; vem

    com outras linguagens. E no tranquilo lidar com ele na escola, especialmente

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    Entrevista com Bernardete Gatti

    a partir de dois pontos de vista: primeiro, o da motivao, o que o faz estar

    ali e permanecer ali em trajetria crescente; e, segundo, o do interesse pelo

    conhecimento, porque, muitas vezes, os currculos e as formas de trabalhar

    na escola no tm sentido para aqueles adolescentes, para aqueles jovens. E

    para esse tipo de trabalho do cotidiano escolar, em relao aos contedos

    selecionados para o processo de escolarizao, que h muitos conflitos quanto

    ao currculo de formao dos professores. As dificuldades ocorrem, sobretudo,

    em funo da estrutura das licenciaturas.

    CADERNOS CENPEC Poderia falar um pouco sobre como a formao

    inicial est configurada no pas perante os desafios enfrentados pelos professores?

    BERNARDETE GATTI Acho que, depois dos estudos que fiz com a minha equipe

    e estudos realizados por outros pesquisadores de 2009 a 2013, o conceito

    segundo o qual estava tudo muito certinho nessa formao foi abalado: vimos

    que as licenciaturas no estavam fazendo o trabalho que deveria ser feito.

    Nesse ponto aparecem algumas questes que esto relacionadas nossa

    tradio cultural: a maneira como esses cursos foram institucionalizados. Eles

    foram institucionalizados nos anos 1930, sob a gide da viso cientificista do

    sculo XIX, que fragmenta a cincia. Tnhamos a formao de bacharel e, de

    repente, descobriu-se que a escola bsica comeava a ser ampliada, para o

    que se precisavam de professores.

    Professores para o chamado primrio j existiam eles vinham das Escolas

    Normais. Eram poucas, porque no tnhamos educao para todos nesse

    perodo. Tnhamos as Escolas Normais, mas no tnhamos professores

    especificamente formados para o chamado secundrio. Ento, agregou-se

    um ano de disciplinas de educao aos bacharelados, como adendo, e esse

    formato est at hoje na representao das universidades e faculdades que

    formam professores. Ou seja, voc segmenta, valoriza o conhecimento formal

    da disciplina da rea e d uma tintura leve de