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  • MULTICULTURALIDADE E INTERDISCIPLJNARIDADE 85

    Capt:ulo 7

    MULTICULTURALIDADE E INTERDISCIPLINARIDADE lvone Mendes Richter

    Dais enfoques importantes presentes hoje no ensino das artes no Brasil, a multiculturalidade e a interdisciplinarida-de, apresentam mltiplas facetas e interpreta~es que vm preocupando os arte-educadores brasileiros.

    Torna-se necessrio, inicialmente, buscar urna concei-tua~o dos termos que vm senda utilizados em rela~o a esses dois enfoques. No que se refere a interdisciplinaridade, o enfoque tem estado sujeito a diferentes denomina~es, es-pecialmente a partir dos prefixos utilizados. Assim, o prfixo "multi"' no termo "multidisciplinar"' estara indicando a exis-tencia de um trabalho entre muitas disciplinas, sem que es-tas percam suas caractersticas ou suas fronteiras. J o prefi-xo "nter" vai indicar a inter-rela~o entre duas ou mais dis-ciplinas, sem que nenhuma se sobressaia sobre as outras, mas que se estabele~a urna rela~o de reciprocidade e colabora-

    ~o, com o desaparecimento de fronteiras entre as reas do conhecimento.

    Os trabalhos interdisciplinares so, muitas vezes, realiza-dos sob a forma de projetos. Trabalhar com artes de urna for-

  • 86 INQUI ETA
  • ________________________________ .................... ...

    g,sa visao tcm a ver com dois concoitos antropolgicos fun-:lamcntais: cducn~o e cultura. Para os antroplogos, a edu-

    :a~o referoso nos processos fonnais o i nformais por meio :los quais o cultura transmitida aos Individuos. A escola omento um dcsscs processos. A educa~o, no cntauto, unl->ersal, pois a experiencia bsica do sor humano para apren-ier a ser compotonto na sua cultura.

    A educo~o mullicultural. vista dcssu forma, en vol ve o :lesenvolvimonto de compelncias cm muilos sistemas cul-:urais. Ela rcconhece similaridades entre gnopos tnicos ao .nvs de salienlar as diferen~as, promovendo o cruzameoto :ultural das fronteiras entre as culturas. sojam olas quais fo-:em. e nao a sua permanncia. Justamente porque o ser bu-:nano capaz de mltiplas compel~nclas cullurais, a lroca ;ultural, asshn como a troca de cdigos, nao requer o aban-:lono de identifica~;oes primeiras do seu grupo cultural, como

    ~ proocupa~llo do algumas minorios, nom !ovar inevitavel-:nente h ruptura da pcssoa com seus sistemas de valores.

    Os educadores devem criar ambientes do npreodizagem ~ue promovom a otrabetiza~o cultural do seus alUllos nos :liferenles cdigos culturais, e condu.am 6 compreenso ge-:.ricn dos proccssos cullurais bsicos o ao reconhecimento :lo contexto mncrocultural em que a escoJa o a familia esliio .morsas.

    No en tonto. a educa~o multiculturol no nem moral-:nente nem politicamcnte neutra, mas t>a rte de urna ten :lencia reformista mais ampla que objetiva promover a igual :lado por intorm6dio dn mudan9a educacional. Sua caracte-:lstica principal rosido cm considerar o divcrsidade como u m :ecurso e umo for~;a para a educn~;o. em vez do um proble TOa. lslo cnvolve o rejei~o daquclas dcrivo6es do curr!culo 1ue considoram o conhecimento "real" como apoiado em um :onceito nico do cducn~o. que de fato resultante de urna

    :radi~o particular, masculin.a e europio. O problema para a educa~ao multicultural reside cm

    :lesenvolvcr um esquema conceitual transcultural cuja ex ?resso na Jrt icn educacional demonstro que o c:onhecimcnlo

    ..

    urna propriedado comum de todos os povos e de todos os grupos humanos. Negligonciar alguma parte dessc problema resulta, de um lado. cm um relativismo que afosta quolquer possibilidade de comprccnso inlercullural. ou, polo outro lodo. urna suporficinlidado que enfatiza o rolclrico ou o bi ?.arro.

    Precisamos ter cuidado para que a aplicac6o do ens ino multicullural cm oosso pafs no venba carrcgada do inOulin-cias norte-americanas ou ouropias. lraduzindo urna realida-dc que no a nosso. Para tanto. necessrio. om prlmciro lugar. conheccr as origons do ensino multicultural, como ele se apresenla naqueles pases. quais suas caractcrfslicns e sua

    evolu~o. e contra~r o isso o conhecimcnto do nossa reali-dado, extremamente complexa em seu amlgruno social. Ana Mae Barboso. embora no negando a importlincia do con he cimento e da anliso do processo de doseuvolvlmonto por que passou o enfoque do oduca9iio mullicultuool nos paises do Primeiro Mundo, lovnnto urna queslo extremomontc per-tinente para o cnsino multicultural em nosso pa(s. Olz e la:

    "Os esludos de multlculturalidade, divcrsldadc cultural e at de histria cultural produ:ddos pelo Primciro Mundo nAo aju dam muito o Tnrcolro Mundo porque sao rcsposto a problo-auu da sua soclodnde, o quo absolulamcoto justificado. O Primeiro Mundo nAo csl dando importAncia paro precoocei-to socia) nos scus o.siUdos sobre muJticuJturalidade l)()rque esta uma varitivcl significante somene no Tcrcciro Mundo"'. (T6-picos Utpicos. 1998: 87)

    Portanto, ao ubordHr o questiio da plurolldude cultural cm nosso pas, no podemos nos limitar ao estudo do riqueza do nossa diversidado cultura l. tantas vezes decantada, mas precisamos levantar. tombm, o problema da dcsiguoldode social e da discrimina~o. Por muito lempo, acobcrtoda pelo "milo das tres ra!;OS". a socicdado brasileira ncgou a discrimi

    na~o. lomando-a a indo mais cruel. pelo fato de no sor ex pllcita. Hoje. precisamos rever esta situa~o e tentar reverter csse quadro. Existo uma grande diferen~a entro o diversidade cultural, fruto da diforoncla~o entre as culturas o dn slngu

  • JO

    laridade de cada grupo social, e a desigualdade social, fruto da rela~o de domina~o existente em nossa sociedade. Pre-cisamos desenvolver urna conscincia cr!tica de nossa socie-dade, e buscar. por meio da escota, encontrar caminhos que nos conduzam a urna situa!fii.O social mais justa.

    Um educador que tem tido grande influencia sobre a educa9o multicu ltu.ral em nosso pals o canadense Peter MeLaren, cujos estudos sobre multiculturallsmo crtico, e mais recentemente, multicul turalismo revolucionrio, destacam as possibilidades abertas pela educa!;O mulcultural a partir de urna concepc;o critica do mulliculturalismo. Para ele. so-mente a resistencia crllica a dominac;o cultural pode condu-zlr o multicuJturalismo ao seu verdadeiro caminbo de huma-ni.zac;ilo e isso se dar por intermd io do dilogo e da paz. Da mesma forma, a educac;i\o mullicuJtural e intercultural deve familiarizar os al unos com as realiza9oes de culturas no do-minantes, de maneira a coloc-lo em contato com outros mundos. e levando-o a abrir-se para a riqueza cultural da humanidade. "O pluralismo. como filosofia do dilogo. deve-rA fazer parte integrante e essencial da educac;o do futuro" (1997: 16). Para ele, os sistemas existentes de diferen!;as. que organ izam a vida social de acordo com as eslruturas de do-

    mina~;o e subordina!;O devem ser reconstruidos. Um dos aspectos do multiculturalismo pouco enfatizado

    nos Parmetros Curriculares Nacionais a questo de gene-ro. No en tanto. essa questo apresenta-se da maior importin-cia quando pensamos no ensino da Arte, pois os padxes es-tticos familiares que as crian!;aS trazem de casa para a esco-ta so esscncialmente construidos a partir dos pad.res estti-cos rentininos. Pelo rato de que tu do o que se relaciona com o enreilar. o tornar agradvel, o fazer especial. ero nossa socie-dade, foi seudo transformado em un>a preocupa~iio exclusi-vamente feminina. e, portento. de certa forma subalterna as questes mais inlpOrtantes e pragmticas do ganhar a vida. tarefa predominantemente masculina- runda hoje. o trabalho da mulher considerado como inferior. em qualidade e valo-riza!;liO finaoceira. pois essa distor!;ao do papel feminino ai nda preponderante e m nossa socicdade.

    ..

    Essa questo se reproduz no ensino da Arte na escoJa, que usual~ente aparece ca.rregado dos cdigos begeml\ncos norte-amencanos e europeus. com urna visao distorcida de qu~ a Arte di~a erudita, ou importante. feita por brancos, do sexo. mascuhno, europeus ou de origem europia, segundo os canones form3ls da modermdade. Ficam usualmente ex-cluidas todas as man.ifesta9es artlsticas nao condizentes com esses padxes. ou relegadas as categoras de folclore arte po-pular, arte indigena e tc. '

    No nosso entender, o ensillo da Arte deve se caracterizar por ~ma educa?o predominantemente estlica, em que os pad.roes c~ltu.raJS e estticos da comunidade e da familia se-am res!-'etados e inseridos na educac;o, aceitas como cdi-g?s b.scos ~ partir dos quais deve-se construir a compreen-sao e_ rnersao. em o utros cdigos cultu rais. Trabalhar com a

    JJll;ll!icu.IWralidade no eosino da Arte supe ampliar o con-ce to de ~te, de um sentido mais restrito e excludente, para uro sentido ma1s amplo, de experincia esttica. Somente desta fo~~a posslvel combater os conceilos de arte ori un-dos da vsao das artes v isuais como "betas artes", "arte erudi-ta' ou "arte maior", ero conLTaposi~o A ida de artes meno res" ou "artes populares". A prpria denominaco de folclore

    ~ artesan~~o ve":' ca.rregada de preconceito, pois o termo folkclore ro1 uliJ.IZSdO para representar a arte ''do outro" d~quele que no tinha acesso as camadas mas eruditas da so:

    Cledade, e O termo artesanaiO tem s ido vinculado a idia da reproduco sem cria~o. ou sem urna maior perfei!;o tcnica. -

    A tendencia, no ensino da Arte. 6 reproduzir conceitos de Arte Modernista largamente aceitos nos meios acadmi-cos. Este enfoque exclui todas as Artes cham adas "menores", e coro elas toda a possibilidade de um trabalho mullicultural em Arte. At muito recentemente, historiadores, crlticos e professores de Artes visuais tem sido relutantes em estudar a~ arte_s p~pt~!ares. o folclore e o artesanato, que, por de(i.oi-~ao, nao sao Arte e rud1ta" nem "dcsign".

    Consideramos que o universo cultural da comuoidade em que a escota est inserida precisa s