Utopia thomas morus

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<ul><li><p>UTOPIA"de optimo statu reipublicae deque nova insula Utopia"</p><p>Thomas Morus</p><p>NDICETHOMAS MORUS: o autor e a obra.LIVRO PRIMEIRO.LIVRO SEGUNDO.Das cidades da Utopia e particularmente da cidade de Amaurota.Dos magistrados.Das artes e ofcios.Das relaes mtuas entre os cidados.</p><p>Utopia</p><p>file:///C|/site/LivrosGrtis/utopia.htm (1 of 62) [05/04/2001 17:09:01]</p></li><li><p>Das viagens dos utopianos.Dos escravos.Da guerra.Das religies da Utopia.Notas.</p><p>THOMAS MORUS: o autor e a obra Thomas Morus, forma alatinada por que literariamente conhecido Thomas Moore, GrandeChanceler da Inglaterra, nasceu em Londres em 1478 e foi a decapitado em 1535. Filho de um dos juizesdo banco dos reis, foi aos quinze anos colocado como pagem do Cardeal Morton, Arcebispo deCanturia. Em 1497 foi terminar seus estudos em Oxford, onde conheceu Erasmo. Fez durante trs anoso curso de Legislao, ao mesmo tempo que se preparava para exercer a advocacia. Pouco depois da ascenso de Henrique VII, foi referendrio e membro do Conselho Privado (1514).Acompanhou o rei da Inglaterra ao campo de Drap d'or em 1520. Aps a queda do cardeal Wolsey foinomeado Grande Chanceler (1529). Quando Henrique VIII abjurou o catolicismo, Morus, ento ligado Igreja Romana, pediu demissodo cargo (1532), descontentando com esse gesto o Rei. No ano seguinte ofendeu mortalmente AnaBolena, recusando-se a assistir sua coroao e a prestar fidelidade a seus descendentes. Foi condenado priso perptua e ao confisco de todos os seus bens. Pouco tempo depois foi condenado morte porcrime de alta traio e decapitado em Londres em 1535. A "Utopia", sua obra mais divulgada, e que lhe deu renome universal, foi editada em Basilia (Sua)por Erasmo a quem Morus estava ligado por fortes laos de amizade e a quem revelava, em suacorrespondncia particular, a repugnncia que sentia pela vida parasitria e faustosa da corte: "No podesavaliar", escrevia-lhe, "com que averso me encontro envolvido nesses negcios de prncipes; no hnada mais odioso que esta embaixada"... Referia-se embaixada diplomtica enviada pelo Rei daInglaterra a Flandres afim de resolver um dissdio surgido entre este pais e o prncipe Carlos de Castela. A "Utopia" representa a primeira crtica fundamentada do regime burgus e encerra uma anliseprofunda das particularidades inerentes ao feudalismo em decadncia. A forma muito simples; umaconversao ntima durante a qual Morus aborda ex-abrupto as questes mais novas e mais difceis. Suapalavra, s vezes satrica e jovial, outras, de uma sensibilidade comovedora, sempre cheia de fora. A primeira parte o espelho fiel das injustias e misrias da sociedade feudal; , em particular, omartirolgio do povo ingls sob o reinado de Henrique VII. Entretanto, o povo ingls no era vtimaunicamente da avareza do rei; outras causas de opresso e sofrimento o atormentavam. A nobreza e oclero possuam a maior parte do solo e das riquezas pblicas; estes bens permaneciam estreis para agrande massa de trabalhadores. Alm disso, nessa poca, os grandes senhores mantinham uma multidode vassalos, seja por amor ao fausto, seja para assegurar a impunidade de seus crimes ou ainda para</p><p>Utopia</p><p>file:///C|/site/LivrosGrtis/utopia.htm (2 of 62) [05/04/2001 17:09:01]</p></li><li><p>utiliz-los como instrumentos de violncia contra os viles. Esta vassalagem era o terror do campons edo trabalhador. De outro lado, o comrcio e a indstria da Inglaterra no tinham muita expanso antes das descobertasde Vasco da Gama e Colombo. E assim, as geraes se sucediam sem finalidade, sem trabalho e sem po.A agricultura estava em runas desde que a nascente indstria da l, prometendo lucros espantosos, fezcom que terras imensas fossem transformadas em pastagens para carneiros. Em conseqncia disto umamultido de camponeses viu-se reduzida misria, trazendo uma multiplicao de mendicidade,vagabundagem, roubos e assassnios. Por sua vez a lei inglesa era de uma severidade inaudita, punindocom a morte, indistintamente, o ladro, o vagabundo e o assassino. Com semelhante panorama social diante dos olhos, compreende-se a dureza e amargura das crticas deMorus contra uma sociedade to profundamente desorganizada e injusta. Thomas Morus, depois de ter na "Utopia" feito uma stira a todas as instituies da poca, edificauma sociedade imaginria, ideal, sem propriedade privada, com absoluta comunidade de bens e do solo,sem antagonismos entre a cidade e o campo, sem trabalho assalariado, sem gastos suprfluos e luxosexcessivos, com o Estado como rgo administrador da produo, etc. Embora o carter essencialmente imaginrio e quimrico da "Utopia", a obra de Morus fica na histriado socialismo como a primeira tentativa terica da edificao de uma sociedade baseada na comunidadedos bens. E o seu nome ficou para sempre incorporado ao vocabulrio universal como o significado dotodo sonho generoso de renovao social...</p><p>A UTOPIA</p><p>DISCURSO</p><p>DO MUITO EXCELENTE HOMEM</p><p>RAFAEL HITLODEU</p><p>SOBRE A MELHOR CONSTITUIO DE UMA REPBLICA</p><p>PELO</p><p>ILUSTRE</p><p>THOMAS MORUS</p><p>VISCONDE E CIDADO DE LONDRES</p><p>NOBRE CIDADE DA INGLATERRA</p><p>Utopia</p><p>file:///C|/site/LivrosGrtis/utopia.htm (3 of 62) [05/04/2001 17:09:01]</p></li><li><p>LIVRO PRIMEIRO O invencvel rei da Inglaterra, Henrique, oitavo do nome, prncipe de um gnio raro e superior, teve,no faz muito tempo, uma querela de certa importncia com o serenssimo Carlos, prncipe de Castela.Eu fui, ento, enviado s Flandres, como parlamentar, com a misso de tratar e resolver essa questo. Tinha por companheiro e colega, o incomparvel Cuthbert Tunstall, a quem o rei confiara a chancelado arcebispado de Canturia, com os aplausos de todos. Nada direi, aqui, em seu louvor. No por temerque se acuse a minha amizade de adulao; porm, a sua doutrina e as suas virtudes esto acima dosmeus elogios, e sua reputao to brilhante que celebrar o seu mrito seria, como diz o provrbio,chover no molhado. Encontramos em Bruges, lugar fixado para a conferncia, os delegados do prncipe Carlos, todospersonagens distintssimos. O governador de Bruges era o chefe e o cabea dessa deputao, e Jorge deTomsia, preboste de Mont-Cassel, era a boca e o corao. Este homem, que deve sua eloqncia, menosainda arte que natureza, passava por um dos mais sbios jurisconsultos em questes de Estado; e suacapacidade pessoal; aliada a longa prtica dos negcios, fazia dele um habilssimo diplomata. A conferncia j realizara duas sesses e no pudera ainda concordar sobre muitos artigos. Osenviados de Espanha despediram-se, ento de ns, para ir a Bruxelas consultar o prncipe. Aproveiteiesse lazer e rend-me a Anturpia. Durante a minha estada nesta cidade conheci muita gente; mas nenhuma relao me foi maisagradvel que a de Pedro Gil, antuerpiense de uma grande integridade. Este moo, que desfruta dehonrosa posio entre os seus concidados, merece, realmente, uma das mais elevadas, j pelos seusconhecimentos, j por sua moralidade, pois, a erudio que possui iguala qualidade do carter. Suaalma est aberta a todos; mas nutre por seus amigos tanta benevolncia, amor, fidelidade e devotamentoque poder-se-ia qualific-lo, muito justamente, como o perfeito modelo da amizade. Modesto e semfingimentos, simples e prudente, sabe falar com esprito, e seu gracejo no nunca uma injria. Emsuma, a intimidade que se estabeleceu entre ns foi to cheia de prazer e encanto, que suavizou em mima saudade da ptria, do lar, de minha mulher, de meus filhos, e acalmou as inquietaes de uma ausnciade mais de quatro meses. Um dia, estava eu na Notre-Dame, igreja da grande devoo do povo, e uma das obras primas maisbelas da arquitetura; depois de ter assistido ao ofcio divino, dispunha-me a voltar para o hotel, quando,de repente, dou de cara com Pedro Gil, que conversava com um estrangeiro j idoso. A tez trigueira dodesconhecido, sua longa barba, a capa, quase a cair-lhe, negligentemente, sua aparncia e aspectorevelavam um patro de navio. Logo que Pedro deu comigo, aproximou-se, e, saudando-me, afastou-se um pouco de seu interlocutorque iniciava uma resposta, e, a propsito deste, me disse: Vede este homem, pois bem, ia lev-lo diretamente vossa casa. - Meu amigo, respondi-lhe, por vossa causa, ele seria benvindo. - mesmo por causa dele, replicou Pedro, se o conhecsseis. No h sobre a terra outro ser vivo quepossa vos dar detalhes to completos e to interessantes sobre os homens e os pases desconhecidos. Ora,eu sei que sois excessivamente curioso por essa espcie de notcias. - No tinha adivinhado muito mal, disse eu, ento, pois que, logo primeira vista, tomei odesconhecido por um patro de navio. - Enganai-vos estranhamente; ele navegou, certo; mas no como Palinuro. Navegou como Ulisses, eat mesmo como Plato. Escutai sua histria: Rafael Hitiodeu (o primeiro destes nomes o de sua famlia) conhece bastante bem o latim e domina</p><p>Utopia</p><p>file:///C|/site/LivrosGrtis/utopia.htm (4 of 62) [05/04/2001 17:09:01]</p></li><li><p>o grego com perfeio. O estudo da filosofia ao qual se devotou exclusivamente, fe-lo cultivar a lnguade Atenas de preferncia de Roma. E, por isso, sobre assuntos de alguma importncia, s vos citarpassagens de Sneca e de Ccero. Portugal o seu pas. Jovem ainda, abandonou seu cabedal aos irmos;e, devorado pela paixo de correr mundo, amarrou-se pessoa e fortuna de Amrico Vespcio. Nodeixou por um s instante este grande navegador, durante as trs das quatro ltimas viagens, cujanarrativa se l hoje em todo o mundo. Porm, no voltou para a Europa com ele. Amrico, cedendo aosseus insistentes pedidos, lhe concedeu fazer parte dos VINTE E QUATRO ficaram nos confins daNOVA-CASTELA. Foi, ento, conforme seu desejo, largado nessa margem; pois, o nosso homem noteme a morte em terra estrangeira; pouco se lhe d a honra de apodrecer numa sepultura; e gosta derepetir este apotegma: O CADVER SEM SEPULTURA TEM O CU POR MORTALHA; H PORTODA A PARTE CAMINHO PARA CHEGAR A DEUS. Este carter aventureiro podia ter-lhe sidofatal, se a Providncia divina no o tivesse protegido. Como quer que fosse, depois da partida deVespcio ele percorreu, com cinco castelhanos, uma multido de pases, desembarcou em Taprobana,como por milagre, e. da chegou em Calicut, onde encontrou navios portugueses que o reconduziram aoseu pas, contra todas as expectativas. Assim que Pedro acabou essa narrativa, agradeci-lhe o empenho e solicitude em me fazer desfrutarconversao com homem to extraordinrio; depois, abordei Rafael, e, aps as saudaes e cortesiashabituais num primeiro encontro, levei-o minha casa com Pedro Gil. A, sentados no jardim, sobre umbanco de relva, a conversa comeou. Rafael me contou como, aps a partida de Vespcio, ele e seus companheiros, com afabilidade e bonsservios, grangearam a amizade dos indgenas, e como viveram com eles em paz e na melhor harmonia.Houve mesmo um prncipe, cujo pais e nome me escapam, que lhes deu proteo a mais afetuosa. Suagenerosidade os proveu de barcos, carros e tudo mais de que necessitavam para continuar a viagem, Umguia fiel teve ordem de acompanh-los e apresent-los aos prncipes com excelentes recomendaes. Depois de vrios dias de marcha descobriram burgos e cidades bem administradas, naes inmeras eEstados poderosos. No Equador, acrescentava Hitiodeu, de uma parte e de outra, no espao compreendido pela rbita dosol, no viram seno vastas solides eternamente devoradas por um cu de fogo. Ai, tudo os aturdia dehorror e espanto. A terra inculta tinha apenas como habitantes os animais mais ferozes, os reptis maisterrveis, ou homens mais selvagens que os animais. Afastando-se do Equador, a natureza se abrandavapouco a pouco; o calor menos abrasador, a terra se cobre de uma ridente verdura e os animais somenos selvagens. Mais longe ainda, aparecem povos, cidades, povoaes, em que se faz um comrcioativo por terra e por mar, no somente no interior e com as fronteiras, mas entre naes muito distantes. Estas descobertas inflamavam o ardor de Rafael e de seus companheiros. E o que alimentava essapaixo pelas viagens era o fato de serem admitidos sem dificuldade no primeiro navio a partir, qualquerque fosse o seu destino. As primeiras embarcaes que viram eram chatas, as velas formadas de vimes entrelaados ou defo1has de papiros, e algumas de couro. Em seguida, encontraram embarcaes terminadas em ponta, asvelas feitas de cnamo; e finalmente embarcaes inteiramente semelhantes s nossas, e hbeis nautasconhecendo muito bem o cu e o mar, mas sem nenhuma idia da bssola. Esses bons homens ficaram pasmados de admirao e cheios do mais vivo reconhecimento, quandonossos castelhanos lhes mostraram uma agulha imantada. Antes, era tremendo que se aventuravam aomar, e, ainda assim, atreviam-se a navegar apenas no vero. Hoje, bssola em mo, arrostam os ventos eo inverno mais confiados do que seguros; pois, se no tomam cuidado, essa bela inveno que pareciadever trazer-lhes tantos benefcios, poder transformar-se, por sua imprudncia, em uma fonte de males. Seria muito extenso se relatasse, aqui, tudo o que Rafael viu em suas viagens. Alis, no essa a</p><p>Utopia</p><p>file:///C|/site/LivrosGrtis/utopia.htm (5 of 62) [05/04/2001 17:09:01]</p></li><li><p>finalidade desta obra. Completarei talvez a sua narrativa num outro livro em que darei detalhes,principalmente, dos hbitos, costumes e sbias instituies dos povos civilizados, que freqentou Rafael. Sobre essas graves questes ns o importunamos com perguntas interminveis, e ele consentia,prazeirosamente, em satisfazer a nossa curiosidade. Ns nada lhe perguntamos sobre esses monstrosfamosos que j perderam o mrito da novidade: Cila (1), Celenos, Lestriges, comedores de gente, eoutras hrpias da mesma espcie que existem em quase toda parte. O que raro, uma sociedade s esabiamente organizada. Para dizer verdade, Rafael notou entre esses novos povos instituies to ruins quanto as nossas, mas,observou tambm um grande nmero de leis capazes de esclarecer, de regenerar as cidades, naes ereinos da velha Europa. Todas essas coisas, repito-o, sero objeto de uma outra obra. Nesta, relatarei apenas o que Rafael noscontou dos costumes e instituies do povo utopiano. Antes, quero mostrar ao leitor de que maneira aconversa foi levada para este terreno: Rafael entremeava a sua narrativa com as reflexes mais profundas. Examinando cada forma degoverno, analisava, com uma sagacidade maravilhosa, o que h de bom e verdadeiro numa, de mau e defalso noutra. Ao ouvi-lo discorrer to sabiamente sobre as instituies e os costumes dos diferentespovos, era de pensar-se que vivera toda a vida nos lugares por onde apenas passara. Pedro no podeconter a sua admirao. Na verdade, disse, meu caro Rafael, espanto-me que no vos tivsseis posto a servio de algum rei.Certamente no haveria um s que no encontrasse em vs utilidade e satisfao. Enchereis de encantoos seus lazeres com o vosso conhecimento universal das coisas e dos homens, e os incontveis exemplos,que podereis citar, proporcionar-lhe-iam um slido ensinamento e conselhos preciosos. Fareis, aomesmo tempo, uma brilhante fortuna para vs e os vossos. - Eu pouco me inquieto com a sorte dos meus, retomou Hitiodeu. Cr...</p></li></ul>