apostila de introducao a ergonomia

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SUMRIO

1. Os precursores da ergonomia 2. As mquinas no lutam sozinhas 3. O batismo da ergonomia 4. A evoluo da ergonomia 5. A ergonomia e os novos conflitos homem X mquina 6. Definies de ergonomia 6.1 Ergonomia: cincia ou tecnologia 6.2 Uma proposta de definio 7. Afluentes, efluentes e fronteiras da ergonomia 8. Tipificao da ergonomia 8.1. Quanto ao objeto de atuao 8.2. Quanto ao objetivo da interveno 8.3. Quanto s nfases 9. Ergonomia: segurana, produtividade e qualidade 10. Temas atuais em ergonomia 11. A ergonomia no Brasil 11.1 A implantao da Ergonomia no Brasil 11.2 A Associao Brasileira de Ergonomia 11.3 O SisCEB Sistema de Certificao do Ergonomista Brasileiro 12. Bibliografia recomendada em Ergonomia 12.1 Livros 12.2 Jornais cientficos na rea de Ergonomia 12.3 Jornais cientficos em reas afins a Ergonomia [portugus]

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1. OS PRECURSORES DA ERGONOMIA1

Desde civilizaes antigas, o homem sempre buscou melhorar as ferramentas, os instrumentos e os utenslios que usa na sua vida cotidiana. Existem exemplos de empunhaduras de foices, datadas de sculos atrs, que demonstram a preocupao em adequar a forma da pega s caractersticas da mo humana, de modo a propiciar mais conforto durante sua utilizao. Enquanto a produo se dava de modo artesanal, era possvel obter formas teis, funcionais e ergonmicas sem excessivos requisitos projetuais. A produo em srie - em larga escala ou mesmo em poucas unidades - impossibilita, no entanto, tcnica e economicamente, a compatibilizao e a adequao de produtos a partir do uso e de adaptaes sucessivas. Paradoxalmente, a evoluo tecnolgica, com suas maravilhosas mquinas informacionais, voadoras e inteligentes, exigiu e enfatizou a necessidade de conhecer o homem. Depois de contnuos avanos em engenharia, onde o homem se adaptou, mal ou bem, s condies impostas pelos maquinismos, evidenciou-se que os fatores humanos so primordiais. Mais ainda, em sistemas complexos, onde parte das funes classicamente executadas pelos homens pode ser alocada s mquinas, uma incorreta adequao s capacidades humanas pode invalidar a confiabilidade de todo o sistema. Assim, faz-se necessrio conhecer a priori os fatores determinantes da melhor adaptao de produtos, mquinas, equipamentos, trabalho e ambiente, aos usurios, operadores, operrios, manutenidores (aqueles responsveis pela manuteno), indivduos em geral e pessoas portadoras de deficincias. A ergonomia se constituiu a partir da reunio de psiclogos, fisilogos e engenheiros. A psicologia e a fisiologia so as duas principais cincias que fornecem aos ergonomistas referncias sobre o funcionamento fsico, psquico e cognitivo do homem. O desempenho do homem no trabalho cada vez mais complexo e a ergonomia ampliou progressivamente o campo de seus fundamentos cientficos. A inteligncia artificial, a semitica, a antropologia e a sociologia passaram a fazer parte do acervo de conhecimentos do ergonomista. Embora, como veremos adiante, o nascimento oficial da ergonomia possa ser definido com preciso, o seu primrdio remonta ao primeiro homem pr-histrico, quando este escolheu uma pedra ou pedao de madeira, de formato que melhor se adaptasse a forma e movimentos de sua mo, para us-los como arma. Durante sculos o homem dependeu de ferramentas e utenslios rsticos construdos para abrig-lo, auxili-lo na sobrevivncia e tornar sua vida mais tolervel. Esta adaptao de objetos artificiais ao ambiente natural foi produzida de forma artesanal at o advento da era mecanizada. Com a revoluo industrial, e a conseqente produo em srie de bens de consumo, a relao direta entre produtor e consumidor passou a incorporar a figura do intermediador (ou revendedor). O produto que era antes encomendado de acordo com as necessidades especficas do usurio, passou a ser produzido em srie de forma a atender as necessidades de um universo bem mais amplo de usurios. O sculo 18 testemunhou o surgimento das primeiras fbricas mecanizadas, que caracterizavam-se por ser sujas, barulhentas, perigosas, escuras e as jornadas de trabalho atingiam correntemente 12, 14 ou mesmo 16 horas por dia, com o emprego de crianas na produo industrial, algumas vezes a partir dos 3 anos e, mais freqentemente, a partir dos 7 anos. Tal prtica veio a se consolidar, no sculo seguinte, como um perodo de desenvolvimento do capitalismo1

Esta apostila faz parte do primeiro captulo do livro ERGONOMIA E INTERVENO ERGONOMIZA-DORA: PESQUISA E AO TECNOLGICA, atualmente em elaborao, tendo como autores os Professores Anamaria de Moraes e Marcelo Mrcio Soares..

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industrial com um substancial crescimento da produo, xodo rural e concentrao de novas populaes urbanas. DEJOUR (1998) aponta esta poca como sendo de absoluta falta de higiene, promiscuidade, esgotamento fsico, acidentes de trabalho, subalimentao com a criao para condies de uma alta morbidade, alta mortalidade e de uma longevidade dramaticamente reduzida. Ainda, segundo o autor, a luta pela sade entre os operrios do sculo passado, identifica-se com a luta pela sobrevivncia: viver, para o operrio, no morrer. A fase de incubao da Ergonomia durou aproximadamente um sculo, comeando em cerca de 1850 e permanecendo at o trmino da Segunda Guerra Mundial. Nesta fase h diversas tentativas de aplicar os conhecimentos emergentes de fisiologia, antropometria e psicologia para melhorar o trabalho humano. De acordo com LAVILLE (1986), MONOD e VALENTIN (1979) e VALENTIN (1978), so vrios os estudos e pesquisas que antecederam a criao da ergonomia. Um resumo destes apresentado a seguir. [i] Fsicos e fisilogos As informaes sobre os componentes humanos dos sistemas humanos-mquinas comearam a ser sistematicamente coletadas antes do aparecimento oficial da ergonomia. So os pesquisadores - fsicos e fisiologistas -, que se interessam pelo estudo do homem em atividade, para compreender o funcionamento do organismo humano, que geram as primeiras informaes sistemticas sobre a mquina humana. Cumpre registrar a contribuio de trs grandes gnios: a) Leonardo da Vinci (em 1500) que descreveu a amplitude dos movimentos articulares, estudou os segmentos funcionais e o deslocamento do centro de gravidade; b) Coulomb (1736-1806) que publicou em 1775 suas primeiras memrias Sobre a fora dos homens, avaliando atravs de experincias e clculos, os meios de trabalho cotidianos e as reaes compensatrias dos trabalhadores; e c) Lavoisier (1743-1794) que realizou experincias sobre O homem em trabalho e em repouso, baseado na anlise de gases respiratrios a partir de uma tarefa descrita com preciso (mtodo utilizado atualmente). No incio deste sculo, Jules Amar fornece as bases da ergonomia do trabalho fsico estudando os diferentes tipos de contrao muscular (dinmica e esttica). Interessa-se pelos problemas de fadiga, pelas influncias do meio ambiente (temperatura, rudo, iluminao). Multiplica os sistemas de registro. Seu livro "O motor humano", de 1914, descreve mtodos de avaliao e tcnicas experimentais e fornece as bases fisiolgicas do trabalho muscular e relaciona-as com as atividades profissionais. [ii] Mdicos e higienistas Os mdicos higienistas preocuparam-se, desde cedo, com a sade do trabalhador. Os primeiros registro apontam para Arnauld de Villeneuve (1235-1313) que no sculo XIII estudou o que denominou como os males das profisses, com referncias sistemticas a fatores ambientais - como calor, umidade, toxidez - e problemas posturais de operadores de diversos ofcios. No sculo XVII, Ramazzini, verdadeiro criador da medicina do trabalho, interessa-se pelas conseqncias das condies de trabalho e descreve, atravs de monografias, as primeiras doenas profissionais: problemas oculares de pessoas que fabricam pequenos objetos, custos humanos posturais dos alfaiates, danos a coluna vertebral relacionados a movimentao de cargas pesadas, surdez dos caldeireiros de Veneza.

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No sculo XVIII, Tissot interessa-se pela climatizao dos locais de trabalho e prope a criao de servios nos hospitais para atender artesos doentes. No mesmo perodo, Patissier realiza as primeiras estatsticas sobre mortalidade e morbidade da populao operria. No sculo seguinte, Villerm faz estudos sobre as condies de trabalho em vrias fbricas de diversas regies da Frana, que resultam num relatrio (de 1840) sobre o estado fsico dos operrios. Este documento propicia as primeiras medidas legais de proteo criana no trabalho e de limitao da jornada de trabalho. [iii]) Psiclogos Os psiclogos criam na Alemanha, nos Estados Unidos e, depois, na Inglaterra, a partir do incio do sculo, os primeiros institutos e centros de pesquisa com o objetivo de estudar o trabalho. Na Frana, pode-se citar o trabalho de J.M. Lahy, cuja repercusso foi profunda e influencia correntes atuais at hoje. A preocupao da psicologia empresarial com mtodos para avaliar as diferenas individuais, de modo a definir critrios de recrutamento, privilegiou a psicologia diferencial e enfatizou pesquisas sobre liderana. parte algumas tentativas isoladas, somente na metade deste sculo que a psicologia passa a desenvolver pesquisas sobre a atividade do homem no trabalho. Entretanto, os mtodos de pesquisas nas reas de recrutamento, seleo e treinamento sofreram adaptaes. Como conseqncia, o estudo do comportamento nas empresas passou a ser supervisionado por pesquisadores que, antes, no se identificavam com a psicologia empresarial. Por volta de 1930, alguns especialistas passaram a defender a necessidade de modificar o estilo das relaes entre os trabalhadores e a chefia, em vez de mudar apenas os aspectos materiais do trabalho. O estudo de Elton Mayo e de Rothis Berger na Western Electric origina a Escola de Relaes Humanas - Estados Unidos, que se prope a enfrentar os problemas de produo mas tambm os acidentes, a fadiga industrial, a psicopatologia do trabalho, etc. Com a Segunda Guerra Mundial, desenvolveu-se uma nova categoria de maquinaria que no necessi