Bem Vindo ao Deserto do Real - Stoa: Página -+Bem+Vindo+ao... · Bem vindo ao deserto do real ”…

Download Bem Vindo ao Deserto do Real - Stoa: Página -+Bem+Vindo+ao... · Bem vindo ao deserto do real ”…

Post on 09-Nov-2018

215 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • DUNKER, C. I. L. - A Paixo pelo Real e seus Desatinos (resenha). Margem Esquerda. v.3, p.171 - 177, 2004.

    A Paixo Pelo Real e seus Desatinos

    Bem Vindo ao Deserto do Real !

    De Slavoj Zizek

    Resenha

    Christian Ingo Lenz Dunker1

    A edio de um texto de Zizek em portugus, precisamente nesta data, dez anos

    aps as primeiras tradues, j em si um evento digno de nota. A recepo e o interesse

    por este autor no Brasil se concentrou, inicialmente, no mbito dos psicanalistas. Durante

    esta dcada de silenciamento editorial no Brasil, Zizek se transformou em um fenmeno de

    alta receptividade, principalmente no cenrio anglo-saxnico da crtica da cultura. Sua

    produo cresceu exponencialmente e a disperso de seu pblico se dilatou. Zizek escreve

    muito para jornais e para a internet 2 bem como participa de inmeros eventos ao longo do

    mundo, tornando-se assim uma espcie de intelectual itinerante.

    Esta recepo entusiasmada pode ser atribuda ao que se supunha estar presente no

    programa de Zizek. Um autor que parecia representar uma verdadeira e fiel reflexo acerca

    da desintegrao dos Estados socialistas do leste europeu. Um novo alento para os tericos

    da democracia radical e do ps-marxismo. Mas tambm um autor que parecia colocar,

    finalmente, o pensamento lacaniano para fora de sua clausura institucional, pondo-o em

    contato com as grandes questes do ps-estruturalismo francs, com a filosofia da

    linguagem anglo-saxnica e com a tradio dialtico-fenomenolgica germnica. Um autor

    que trazia, a partir de sua forma original de tratar a cultura e a poltica, uma franca

    interlocuo com o universo popular do cinema, com a teoria feminista e com o ativismo

    multiculturalista. Trs pblicos que tornaram Zizek convincente no ambiente acadmico

    1 Psicanalista, doutor em psicologia (USP), professor do mestrado em Psicologia da Universidade So Marcos, autor de Lacan e a Clnica da Interpretao (Hacker, 1996) e O Clculo Neurtico do Gozo (Escuta, 2002) chisdunker@uol.com.br. 2 Remeto o leitor ao site http://lacan.com/bibliographyzi.htm onde se poder encontrar muitos textos de Zizek.

    1

    http://lacan.com/bibliographyzi.htm

  • DUNKER, C. I. L. - A Paixo pelo Real e seus Desatinos (resenha). Margem Esquerda. v.3, p.171 - 177, 2004.

    norte-americano. Alm disso, suas reflexes sobre a religio e sobre a fragmentao

    poltica do capitalismo ps-moderno, tornavam Zizek um autor palatvel para um pblico

    amplo.

    Aps esta entrada fulgurante verificou-se uma espcie de decepo. O Marx, que se

    pressentia reinventado em suas primeiras publicaes na prestimosa revista New Left

    Rewiew, trazia consigo a perigosa sombra de Hegel e a ausncia de uma teoria especfica

    sobre os movimentos sociais. Hegel, rejuvenecido pelo contato com as questes da cultura

    contempornea, acabava encoberto por uma sombra lacaniana e sua problemtica herana

    recebida de Kojve. Finalmente o Lacan, arejado e funcional, que se intua de sua

    colaborao com Laclau e Mouffe, ressentia-se de reflexes mais verticalmente clnicas,

    comeando a mostrar a sombra de sua codificao milleriana3.

    ento, neste contrafluxo, que Zizek reaparece entre ns, editado pela Boitempo,

    integrando a alvissareira coleo Estado de Stio, coordenada por Paulo Arantes. Ou seja,

    Zizek reaparece justamente quando parece estar dizendo algo um pouco diferente do que

    um certo consenso de esquerda gostaria de ouvir.

    Bem vindo ao Deserto do Real um livro que rene textos em torno do ataque s

    torres gmeas de Nova York. Seu subttulo desloca a idia inicial de que se trataria de uma

    anlise do impacto simblico deste evento, com contextualizaes e desenvolvimentos que

    nos permitiriam entender melhor o acontecido, ao modo de um historicismo de ocasio.

    Cinco Ensaios sobre 11 de Setembro e Datas Relacionadas no uma aluso a datas

    sincrnicas ou sries histricas mas uma lio sobre como a tomada de posio faz parte da

    ao do terico crtico. Neste sentido talvez Zizek esteja inventado um novo sentido para a

    empoeirada expresso intelectual engajado. Aqui h, portanto, uma contribuio

    absolutamente atual para o leitor brasileiro, principalmente o que se v implicado em um

    novo contorno poltico da esquerda. As datas relacionadas, que seguem o padro desta

    mesma formao ideolgica, esto representadas pelo oriente mdio, pela guerra na Bsnia

    e no Afeganisto ... sem falar no ento por vir drama iraquiano. Situaes historicamente

    3 Referimo-nos a uma codificao do ensino de Lacan realizada por Jacques-Alain Miller, que implica em uma nfase formalista e uma sobrevalorizao dos ltimos escritos de Lacan. No plano institucional o millerianismo caracteriza-se por um forte centralismo doutrinrio e uma prtica formativa autocrtica.

    2

  • DUNKER, C. I. L. - A Paixo pelo Real e seus Desatinos (resenha). Margem Esquerda. v.3, p.171 - 177, 2004. distintas encampadas pela mesma captura ideolgica, que afinal o objeto de anlise de

    Zizek.

    A tese genrica do texto de que a escolha colocada em termos opositivos e

    inconciliveis, entre terrorismo e democracia liberal, revela a ideologia em estado puro. Ou

    seja, a montagem desta escolha, a propagao de sua narrativa e sua aplicao deslocada e

    automtica que deve ser objeto de crtica. Aceitar os termos em que a escolha se coloca

    condenar-se ideologia que esta prope. Mas a tarefa no se resume a fazer erodir a lgica

    desta escolha. preciso ainda tomar posio sobre os termos em que realmente a escolha se

    coloca. Os termos em que realmente a escolha se coloca jamais podero ser integralmente

    dados. E quando estes termos se tornam demasiadamente claros que se apresenta o

    momento de sua maior mistificao.

    Aqui entra a politizao do conceito lacaniano de ato, empreendida por Zizek. A

    frase Bem vindo ao deserto do real o comentrio feito por Morpheus, personagem do

    filme Matrix, ao apresentar o cenrio de devastao e explorao que se verifica fora da

    mquina de simulao da realidade, na qual o destinatrio da mensagem se encontrava at

    ento. Este comentrio s pode ser feito aps a escolha do protagonista (a famosa cena das

    plulas azuis ou vermelhas). Uma escolha que assume o risco de seu ato. A expresso deu

    ttulo a um dos primeiros e mais corrosivos artigos sobre o ataque de 11 de Setembro,

    escrito por Zizek no calor dos acontecimentos, infelizmente no includo na presente

    coletnea.

    Diferentemente dos tempos de guerra fria, onde a iminncia da catstrofe servia

    como elemento regulador, a atual ameaa de novos ataques terroristas, sob a qual se erige a

    doutrina Bush, parece legitimar e atualizar a prpria catstrofe. A verdadeira catstrofe j

    esta vida sob a sombra e a iminncia constante da catstrofe. Ela inaugura um estado de

    exceo permanente, tal como mencionado por Walter Benjamin. Um estado de exceo

    que se explicita e se atualiza como tal, sem o ocultamento ao qual nos habituamos. A

    legitimao global desta exceo estava a pedir uma data, como 11 de setembro, capaz de

    tornar a ao legtima uma vez que acrescenta a autoridade que lhe faltava, a autoridade da

    vtima. A guerra ao terror poderia ser entendida, nesta chave, como uma reao aos

    movimentos antiglobalizao, que se vem assim fundidos e neutralizados por sua suposta

    associao ao fundamentalismo. Como se a nica democracia possvel fosse a democracia

    3

  • DUNKER, C. I. L. - A Paixo pelo Real e seus Desatinos (resenha). Margem Esquerda. v.3, p.171 - 177, 2004. parlamentar liberal e como se tudo o que a ela se opusesse entrasse na alternativa excluda

    tacitamente pela enunciao dos termos da escolha.

    Zizek assertivo, o deserto do real o terceiro mundo. Todavia, no presente

    cenrio, a alternativa no se d entre o primeiro mundo e sua democracia liberal

    globalizada e o terror, supostamente coextensivo ao terceiro mundo. Esta a forma

    ideolgica assumida pelo foramento de uma escolha, foramento que tem dado direita

    nacionalista o papel de agente poltico vivo e ascendente. Para Zizek o verdadeiro problema

    saber qual ser a posio tomada pelo segundo mundo, a Europa. Aqui alm de lio

    metodolgica h tambm uma contribuio potencial para a reflexo estratgica sobre o

    lugar do experimento poltico brasileiro, atualmente em curso.

    O primeiro movimento para deslocar a forma ideolgica da alternativa assim

    colocada ligar o terror fundamentalista a uma expresso da paixo pelo Real (Badiou).

    Paixo que haveria dominado o sculo XX em sua obsesso por desmascarar a aparncia.

    Paixo, que assim conduzida, culmina em seu oposto aparente, o espetculo teatral. Em

    Zizek a dialtica entre o semblante e o Real no se confunde portanto com a virtualizao e

    nesmo se dilui em sua contrafaco esttica. O Real no se integra, ele no pode ser

    dominado por uma narrativa, assumindo a figura prnceps do antagonismo social. Em 11 de

    setembro no foi a realidade que invadiu a imagem, foi a imagem que invadiu a realidade.

    Na fantasia ideolgica americana o ataque j havia acontecido. Ele j vinha acontecendo na

    forma de uma paixo reacionria pelo real como endosso do reverso obsceno da Lei. a

    paixo pela purificao do excesso, pela destruio do elemento perturbador, que pode

    ser infinitesimalmente reduzido, em acordo com o sentido hegeliano do mal infinito. O

    caf sem cafena, o chocolate sem gordura, guerra sem baixas, a vida sem exageros, a

    legalizao da tortura para evitar excessos, so todos exemplos desta totalizao do Outro

    (o Outro sem alteridade). So exemplos desta trangresso da lei em nome da lei, que

    caracteriza um certo clculo do gozo. Com este movimento Zizek consegue mostrar uma

    curiosa identidade entre o ato terrorista e a guerra ao terrorismo. Ambos admitem uma

    posio perversa, onde o sujeito se faz instrumento direto da vontade do Outro. O

    MacWorld tambm a MacJihad Islmica.

    Mas a paixo pelo Real, admite ainda uma face progressista. Uma face que nos

    devia da obscena matemtica da culpa, na qual a qual se engajaram a interpretao da

    4

  • DUNKER, C. I. L. - A Paixo pelo Real e seus Desatinos (resenha). Margem Esquerda. v.3, p.171 - 177, 2004. esquerda pacifista, feminista e vingativa para a qual os americanos enfim eles tiveram o

    que mereciam. A paixo progressista pelo real se dirige confrontao do real do

    antagonismo de classe supondo um universal cuja chave a experincia do negativo, como

    alis destaca o brilhante psfcio de Vladimir Safatle. Ou seja, a universalidade no se d

    pelo trabalho infinito de traduo, nem pelo ideal comunicativo, mas se faz presente sob

    forma de um ato tico-poltico destruidor que faz aparecer o antagonismo. Nem o modelo

    atual de prosperidade capitalista, nem as posies ditas de resistncia, podem ser

    universalizados. Aqui reaparece o mote de Zizek por um retorno poltica propriamente

    dita (o retorno Lnin). Com ele se intui o prximo problema na agenda terica de Zizek: a

    violncia.

    Uma vez que a idia de uma revoluo sem excessos est descartada, pois seria uma

    revoluo sem revoluo, e uma vez que o excesso por si mesmo nada legitima, nem

    mesmo o desejo de erradic-lo, como pensar uma violncia revolucionria que no seja

    baseada na obscenidade do supereu ? Nesta via Zizek se dedica a pensar a curiosa figura do

    reverso espelhado da Bela Alma, a atitude herica daquele que entende que sua misso

    fazer o trabalho sujo, o crime pela ptria ou o mrtir stalinista que procura, por seu ato o

    ato recuperar a f incerta, provando a consistncia da lei. No neste tipo de ato que Zizek

    quer encontrar uma soluo progressista. Trata-se de pensar uma terceira posio, que

    exceda a diviso contempornea, que no seria mais entre esquerda e direita, mas entre o

    campo moderado da ps poltica e a repolitizao da extrema direita.

    Este problema se combina com o interessante debate com Agamben, que atravessa o

    presente texto. Ou seja, trata-se de saber se o homo sacer, este que est por definio

    excludo do campo da poltica, poderia, de fato, enriquecer uma posio alternativamente

    buscada. Primeiramente Zizek alega que o homo sacer, cuja figura seria as massas de

    miserveis, na verdade o objeto privilegiado da biopoltica, o controle da vida nua

    afirmado como essncia (falsa) da poltica. Como se v na crescente circulao livre de

    mercadorias enquanto a circulao das pessoas torna-se cada vez mais restrita. Nisso a

    biopoltica converge para a sustentao de um fetichismo desmaterializado. Resultado no

    plano da lei somos tratados como cidados (ou cidados potenciais), no plano do supereu,

    como homo sacer. Zizek universaliza a categoria de homo sacer em uma bela demonstrao

    do carter antagonstico do universal.

    5

  • DUNKER, C. I. L. - A Paixo pelo Real e seus Desatinos (resenha). Margem Esquerda. v.3, p.171 - 177, 2004.

    Na mesma linha Zizek critica a hiptese do choque de civilizaes (Huntington). O

    verdadeiro choque o choque dentro de cada civilizao. A hiptese do choque de

    civilizaes o reverso idntico da hiptese do fim da histria (Fukuiama), ambas

    concordam em identificar, por exemplo, o Isl e por metonmia, os choques tnicos e

    nacionais, como a ordem legtima do conflito. Zizek est interessado em outro lugar para a

    verdade do antagonismo, lugar que escape e incorpore, de certa maneira, a lgica de

    Schmidt do reconhecimento do inimigo como tarefa poltica primaz. Aqui reaparece o

    argumento levantado um texto anterior sobre o bombardeio da Bsnia pela ONU. A dupla

    chantagem, ao qual a retrica do foramento da escolha nos conduz, faz oposio,

    incondicionalmente, ao ataque. Mas isso passa por referendo poltica democraticamente

    opressiva. A opo incluir atos americanos e de outras potncias como atos terroristas.

    Zizek ressalta aqui o carter performativo do reconhecimento do inimigo. Ao localiz-lo

    como inimigo eu imediatamente o torno um inimigo atravs deste ato de reconhecimento.

    Portanto, com e contra Agamben, reencontramos a afirmao do ato como gesto

    tico-poltico primaz. O ato uma das respostas possveis ao trauma, a outra a resposta

    pelo supereu. O ato, como corte, uma tentativa de redominar o real pela ruptura das

    coodenadas simblicas que a ele se associam. Neste sentido o ato por excelncia no foi o

    ataque terrorista, mas a resposta a ele, que no deve ser identificada ao bombardeio

    aleatrio e dispersivo contra o terrorismo (acting out). O ataque como evento traumtico

    exige uma reordenao simblica, que se mostra na reacomodao ideolgica efetivada

    pela direita e por seu anunciado retorno ao bsico. Aqui se verifica a tese de que o

    significado ideolgico de um elemento no est nele mesmo, mas em como ele

    apropriado por uma cadeia significante.

    O trauma tem por efeito o rompimento da iluso objetiva do Outro, ele derruba

    no s nossas crenas mas a crena suposta no Outro, que acreditava em nome das pessoas.

    no papel de guardio desta crena deslocada que Zizek v no cinismo de muitos

    intelectuais ocidentais. Eles nos facultam a felicidade de sonhar com coisas que na verdade

    no queremos. A felicidade tem por condio um estado de necessidades no

    excessivamente satisfeitas, a possibilidade de ter um Outro para depositar a culpa e

    inversamente um...