praticas cotidianas ei

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Relatório de Práticas Cotidianas para a Educação Infantil - 2010

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  • MINISTRIO DA EDUCAO

    Secretaria de Educao Bsica Universidade Federal do Rio Grande do Sul

    PROJETO DE COOPERAO TCNICA MEC E UFRGS PARA CONSTRUO DE ORIENTAES CURRICULARES PARA A EDUCAO

    INFANTIL

    PRTICAS COTIDIANAS NA EDUCAO INFANTIL- BASES PARA A REFLEXO SOBRE AS ORIENTAES CURRICULARES -

    MARIA CARMEN SILVEIRA BARBOSACONSULTORA

    BRASLIA2009

  • MINISTRIO DA EDUCAO

    SECRETARIA DE EDUCAO BSICA

    DIRETORIA DE CONCEPES E ORIENTAES CURRICULARES PARA A EDUCAO BSICA

    COORDENAO GERAL DE EDUCAO INFANTIL

    UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

    FACULDADE DE EDUCAO

    DEPARTAMENTO DE ESTUDOS ESPECIALIZADOS

    GRUPO DE ESTUDOS EM EDUCAO INFANTIL

    2

  • PRTICAS COTIDIANAS NA EDUCAO INFANTIL

    - Bases para a reflexo sobre as orientaes curriculares -

    SUMRIO

    INTRODUO...................................................................................p.3

    1 A ESCOLA DE EDUCAO INFANTIL NOS CONTEXTOS

    CONTEMPORNEOS..........................................................................p.9

    1.1 Uma sociedade em transformao....................................................p.9

    1.2 O significado da educao infantil na Educao Bsica......................p.16

    2 AUTORES DA ESCOLA DA INFNCIA............................................p.20

    4.1 As crianas e as infncias: concepes plurais.................................p.20

    4.2 Os adultos responsveis: papis diferenciados.................................p.30

    3 A PEDAGOGIA COMO PRTICA TERICA.....................................p.39

    3.1 Como situamos a pedagogia..........................................................p.39

    3.2 Como entendemos o conhecimento................................................p.43

    3.2 Como compreendemos o currculo..................................................p.47

    4 PRINCPIOS EDUCATIVOS PARA A EDUCAAO INFANTIL............p.56

    4.1 Perspectivas para a educao infantil..............................................p.56

    4.1.1 Diversidade e singularidade........................................................p.57

    4.1.2 Sustentabilidade, democracia e participao.................................p.62

    4.1.3 Indissociabilidade entre educar e cuidar.......................................p.66

    4.1.4 Ludicidade e brincadeira.............................................................p.68

    4.1.5 Esttica como experincia individual e coletiva..............................p.72.............................................................................................................

    3

  • 5 UM CURRCULO QUE PODE EMERGIR DO DILOGO ENTRE

    CRIANAS, FAMLIAS E DOCENTES.................................................p.77

    5.1 O contedo da educao infantil como prtica social e linguagens ......p.78

    5.2 A gesto da escola de educao infantil .........................................p.85

    5.3 Organizao da vida cotidiana.......................................................p.87

    5.4 Prticas educativas da professora: sentir, pensar, saber e fazer.........p.98

    6 RESPONSABILIDADE E PRIVILGIO DA DOCNCIA NA EDUCAO

    INFANTIL....................................................................................p.105

    4

  • INTRODUO

    Vinde, vinde,moos e velhos,

    vinde todos, apreciar.Como isso bom,como isso belo.Como isso bom,

    bom demais.Olhai, olhai,

    admirai.Como isso bom,

    bom demais.

    Antonio Nbrega [Domnio pblico]

    Prezadas Professoras e Professores

    Este documento dirigido ao leitor-professor1 que trabalha com a

    formao e a educao de crianas de 0 a 6 anos, com nfase no 0 a 3

    anos2. Tem como objetivo central problematizar, inspirar e aperfeioar

    as prticas cotidianas realizadas nos estabelecimentos educacionais de

    educao infantil.

    Nele procuramos explicitar uma concepo de educao para as

    crianas pequenas. Quais so as funes especficas de uma escola que

    atende bebs e crianas bem pequenas? Quais as estratgias

    consideradas adequadas ao trabalho pedaggico com crianas

    1 Este documento foi escrito tendo em vista tanto as professoras de educao infantil que, em sua grande maioria, so mulheres, como tambm procura ser um convite para que os homens assumam maior compromisso com a educao das crianas pequenas, especialmente nos estabelecimentos escolares.2 Tendo em vista que o Estatuto da Criana e do Adolescente - ECA considera as pessoas de at 12 anos de idade incompletos como crianas, este documento, voltado para a educao de crianas de 0 a 6 anos utilizar uma nomenclatura diferenciada para destacar as especificidades requeridas pela faixa etria dos 0 a 3 anos. Assim, estamos compreendendo bebs como crianas de 0 a 18 meses; crianas bem pequenas como crianas entre 19 meses e 3 anos e 11 meses; crianas pequenas como crianas entre 4 anos e 6 anos e 11 meses. Reservamos a denominao de crianas maiores para as crianas entre 7 e 12 anos incompletos.

    5

  • pequenas? Que possibilidades de conhecimento podem ser propiciadas

    para as crianas? Quais as relaes de aproximao e de diferenciao

    dos papis da escola e da famlia? As caractersticas da faixa etria das

    crianas exigem conceber um outro tipo de estabelecimento

    educacional e revisar alguns conceitos naturalizados em nossa

    sociedade sobre escola, infncia, conhecimento e currculo.

    As idias aqui apresentadas emergiram de um processo

    significativo de consulta e participao de vrias instncias

    comprometidas com a educao infantil no Brasil, desenvolvido no

    segundo semestre de 2008. A imensido de nosso pas fez com que a

    participao no fosse direta, mas representativa. Essa representao

    ocorreu a partir de uma multiplicidade de fontes que contriburam para

    a autoria coletiva deste documento:

    a anlise de propostas pedaggicas para a educao infantil de vrios municpios brasileiros, principalmente aqueles que atendem a maior parcela de crianas de 0 a 6 anos e 11 meses do nosso pas, isto , as capitais e as grandes cidades;

    a anlise das respostas dos pesquisadores nacionais ao questionrio consulta sobre suas concepes de infncia e de educao infantil;

    uma bibliografia anotada das recentes produes acadmicas brasileiras sobre educao infantil;

    a voz de professores e militantes que h muitos anos atuam em defesa da educao infantil, atravs da anlise tanto das respostas aos questionrios enviados ao Movimento Interfruns de Educao Infantil Brasileiro MIEIB quanto da discusso sobre prticas cotidianas na Educao infantil, realizada em encontro nacional ocorrido em Porto Alegre;

    a interlocuo com a bibliografia nacional e internacional sobre educao de bebs e crianas bem pequenas que vem sendo divulgada nos ltimos anos.

    6

  • Sabemos que algumas vozes no foram escutadas diretamente:

    as das crianas e de suas famlias. Porm, nos artigos, nas dissertaes

    e teses, assim como nas respostas aos questionrios, essas vozes

    puderam se fazer ouvir, na medida em que esses textos acadmicos

    costumam partir da observao de situaes cotidianas. Este texto,

    portanto, polifnico.

    complexo redigir um texto assim, pois as posies que cada

    interlocutor ocupa oportunizam que sua voz oferea uma perspectiva

    especfica. Nesse processo, por um lado, h muitos confrontos de idias

    mas, por outro, h a compreenso de que so eles que dinamizam a

    conversa, provocam o embate e promovem o movimento de

    argumentos, disposies necessrias para a explicitao de outros

    pontos de vista. Talvez, apenas enfrentando as diferentes perspectivas

    possamos gerar negociaes e alcanar algumas concordncias no

    plano das concepes sobre educao da infncia.

    O resultado da construo desse dilogo - entre Ministrio da

    Educao, universidades, secretarias municipais e estaduais de

    educao e organizaes da sociedade civil - indica um caminho e

    tambm pode auxiliar a compreender a complexidade da sociedade

    brasileira e o imenso desafio poltico do Estado sistemas federal,

    estadual e municipal tanto para expandir as redes pblicas de

    educao infantil, quanto para garantir polticas educacionais

    propositivas sustentadas na interlocuo entre diferentes atores sociais.

    Portanto, o contexto histrico em que vivemos exige que o Ministrio

    da Educao aponte caminhos para atender as inmeras demandas da

    sociedade.

    A educao infantil recentemente foi integrada ao sistema

    educacional brasileiro e ainda precisa construir muitos consensos.

    Estamos, nesse momento histrico, simultaneamente, enfrentando o

    desafio de ampliar as polticas para a educao das crianas de zero a

    seis anos e onze meses, de refletir sobre as diferentes infncias

    7

  • indgenas, quilombolas, ribeirinhas, urbanas, do campo, da floresta

    de definir as bases curriculares nacionais, de constituir pedagogias

    especficas para essa etapa da educao bsica e de afirmar a

    importncia do trabalho docente ser realizado em creches e pr-escolas

    por professores com formao especfica.

    As pesquisas no campo educacional sobre a pedagogia para a

    educao de bebs e crianas bem pequenas em ambientes coletivos e

    formais so recentes no pas e quase inexistem publicaes que

    abordem diretamente a questo curricular nesse primeiro nvel da

    educao bsica. Geralmente as legislaes, os documentos, as

    propostas pedaggicas e a bibliografia pedaggica privilegiam as

    crianas maiores e tm em vista a adaptao da educao infantil ao

    modelo convencional que orienta os sistemas educacionais no pas.

    Refletir sobre o modo de realizar a formao de crianas

    pequenas em espaos pblicos de educao coletiva significa repensar

    quais as concepes a defender em um estabelecimento educacional.

    Ao mesmo tempo, impe considerar quais so suas funes, de que

    maneira pode organizar seus modelos de gesto e sua proposta

    pedaggica, assim como instiga a se deter em qual ser seu currculo,

    tendo em vista a perspectiva de um longo processo de escolarizao.

    As crianas pequenas solicitam aos educadores uma pedagogia

    sustentada nas relaes, nas interaes e em prticas educativas

    intencionalmente voltadas para suas experincias cotidianas e seus

    processos de aprendizagem no espao coletivo, diferente de uma

    intencionalidade pedaggica voltada para resultados individualizados

    nas diferentes reas do conhecimento. Para evitar o risco de fazer da

    educao infantil uma escola elementar simplificada, torna-se

    necessrio reunir foras e investir na proposio de outro tipo de

    estabelecimento educacional. Um estabelecimento que tenha como foco

    a criana e como opo pedaggica ofertar uma experincia de infncia

    potente, diversificada, qualificada, aprofundada, complexificada,

    8

  • sistematizada, na qual a qualidade seja discutida e socialmente

    partilhada, ou seja, uma instituio aberta famlia e sociedade.

    Nessa perspectiva, podemos reivindicar trs funes

    indissociveis para as creches e pr-escolas. Primeiramente uma

    funo social, que consiste em acolher, para educar e cuidar, crianas

    entre 0 e 6 anos e 11 meses, compartilhando com as famlias o

    processo de formao e constituio da criana pequena em sua

    integralidade. Em segundo lugar, a funo poltica de contribuir para

    que meninos e meninas usufruam de seus direitos sociais e polticos e

    exeram seu direito de participao, tendo em vista a sua formao na

    cidadania. Por fim, a funo pedaggica de ser um lugar privilegiado de

    convivncia e ampliao de saberes e conhecimentos de diferentes

    naturezas entre crianas e adultos. A articulao entre essas trs

    funes promove a garantia de bem-estar s crianas, aos profissionais

    e s famlias.

    A inteno desse documento apresentar subsdios, reunidos a

    partir de um processo de consulta nacional, que permitam aos sistemas

    de ensino e, principalmente, aos profissionais responsveis pela ao

    cotidiana com as crianas, no apenas pautarem, mas tambm

    interrogarem suas opes na difcil tarefa de elaborar propostas

    pedaggicas para bebs e crianas pequenas. Nesse sentido, no pode

    e nem aspira dar conta de todas as questes implicadas nesse

    complexo processo, muito menos abordar conclusivamente aquelas que

    apresenta. Antes, pretende oferecer um panorama abrangente para a

    reflexo, ao respeitar a legislao atual que afirma que a elaborao

    dos currculos uma competncia dos sistemas de ensino, a partir do

    iderio da gesto democrtica presente na legislao brasileira.

    Desde a Constituio Federal (1988), ficou afirmado que o

    currculo dos estabelecimentos educacionais ser elaborado a partir da

    sntese entre as consideraes das Diretrizes Curriculares Nacionais,

    deliberadas pelo Conselho Nacional de Educao, as metas definidas

    9

  • pelo Ministrio da Educao e as demandas da realidade de cada

    escola. Esses documentos garantem a formao comum nacional, isto

    , explicitam os princpios que devem constar nos documentos

    orientadores e afirmam que todas as crianas que frequentam as

    escolas brasileiras tm o direito de aprender.

    Seguindo, ainda, o esprito da Constituio Federal (1988), da Lei

    de Diretrizes e Bases (1996) e das Diretrizes Curriculares para a

    Educao Infantil (1999) que afirmam a importncia do exerccio da

    cidadania e da participao social, os sistemas de ensino e os

    estabelecimentos escolares tm o direito e o dever de elaborar uma

    proposta curricular prpria, que estabelea as relaes entre o

    universal, aquilo que deve pautar a educao de todos e que est

    expresso nas Diretrizes Curriculares Nacionais, e o singular, ou seja o

    contexto de cada sistema e/ou estabelecimento, contemplando as

    diversidades e especificidades de cada coletivo.

    Este documento apresenta, a partir da discusso sobre a infncia,

    a famlia, o Estado e a educao escolar na sociedade contempornea,

    uma outra dimenso para a educao e o cuidado das crianas entre 0

    e 6 anos e 11 meses que se consolida atravs de uma escola com e

    para as crianas.

    10

  • 1 A ESCOLA DE EDUCAO INFANTIL NOS CONTEXTOS

    CONTEMPORNEOS

    Foi na fazenda de meu pai antigamente.Eu teria dois anos; meu irmo, nove...................................................

    No caminho, antes, a gente precisavade atravessar um rio inventado.

    Na travessia o carro afundoue os bois morreram afogados.

    Eu no morri porque o rio era inventado.

    Manoel de Barros Exerccios de ser criana

    1.1 Uma sociedade em transformao

    As sociedades sempre viveram processos de mudanas, porm

    nunca tantas transformaes na amplitude e na velocidade daquelas

    que estamos vivendo. As mudanas aconteciam de modo lento e eram

    incorporadas gradativamente pelas populaes atravs das geraes.

    A partir da segunda metade do sculo XX, as alteraes

    comearam a se intensificar e a incidir em diferentes campos da vida.

    Vivemos mudanas tecnolgicas, cientficas, religiosas e polticas o que

    vem causando alteraes no comportamento humano. A mdia e o

    consumo, por exemplo, acabaram por estabelecer um estilo de vida

    onde sempre h uma nova necessidade a ser atingida, um novo objeto

    a ser consumido. Mesmo os relacionamentos humanos que eram

    projetados para toda a vida atualmente podem ter pouca durao. Esse

    novo tipo de vida, pautado na incerteza, provoca nas pessoas a

    necessidade de tranqilidade e vnculos fortes para evitar a ansiedade

    causada pela instabilidade.

    11

  • Se, por um lado, as sociedades mais tradicionais ofereciam a

    segurana, a proteo e a estabilidade, elas dificultavam, e muitas

    vezes impediam, as transformaes, a criatividade e a liberdade.

    Atualmente so enfatizadas para os indivduos suas infinitas

    possibilidades, suas capacidades de pensar e realizar, em curto prazo,

    desejos e projetos. Porm, por vezes, eles so abandonados solido,

    excluso, desigualdade social e econmica, competitividade.

    preciso, ento, lembrar que a vida humana em sua integralidade -

    torna-se sem sentido quando no se tem uma perspectiva de

    pertencimento, de convvio com os outros em temporalidades longas.

    Um projeto educacional no apenas uma escolha entre um ou

    outro modelo de vida. O processo educacional, principalmente aquele

    presente nos sistemas de ensino, uma deciso poltica acerca do

    futuro de uma sociedade. preciso pensar projetos educacionais que

    possam, em sua complexidade, dar conta tanto das necessidades de

    segurana, proteo e pertencimento, quanto das de liberdade e

    autonomia.

    A funo da educao infantil nas sociedades contemporneas a

    de possibilitar a vivncia em comunidade, aprendendo a respeitar, a

    acolher e a celebrar a diversidade dos demais, a sair da percepo

    exclusiva do seu universo pessoal, assim como a ver o mundo a partir

    do olhar do outro e da compreenso de outros mundos sociais. Isso

    implica em uma profunda aprendizagem da cultura atravs de aes,

    experincias e prticas de convvio social que tenham solidez,

    constncia e compromisso, possibilitando criana internalizar as

    formas cognitivas de pensar, agir e operar que sua comunidade

    construiu ao longo da histria. Prticas sociais que se aprendem

    atravs do conhecimento de outras culturas, das narrativas tradicionais

    e contemporneas que possam contar sobre a vida humana por meio

    da literatura, da msica, da pintura, da dana. Isso , histrias

    coletivas que, ao serem ouvidas, se encontram com as histrias

    12

  • pessoais, alargando os horizontes cognitivos e emocionais atravs do

    dilogo, das conversas, da participao e da vida democrtica.

    No nascemos sabendo nos relacionar com os demais. Embora

    sejamos biologicamente sociais, precisamos, no convvio, aprender as

    formas de relacionamento. Essa a grande tarefa da educao da

    primeira infncia e realizada nas suas prticas cotidianas embasadas

    naquilo que a cultura universal oferece de melhor para as crianas. Nas

    tarefas do dia-a-dia, aquelas que realizamos junto com as crianas,

    produzimos e veiculamos concepes de educao. Essas concepes

    no acontecem simplesmente na transmisso da informao, neutra e

    direta se assim o fosse j teramos resolvido a crise educacional de

    nosso pas mas se efetivam em vivncias e aes cotidianas nos

    estabelecimentos de educao infantil, pois tm um significado tico.

    atravs das conversas, da resoluo de conflitos, dos dilogos, da

    fantasia, das experincias compartilhadas que, esperamos, possamos

    tornar o mundo mais acolhedor.

    Em certos contextos, ao longo dos anos, as crianas tiveram

    como ambiente de socializao inicial a famlia. Elas nasciam e

    cresciam cuidadas basicamente por suas mes e pais, avs e tios,

    irms e irmos mais velhos. Suas interaes com outras crianas eram

    feitas atravs das brincadeiras de rua, com os parentes e vizinhos. As

    famlias e as comunidades tinham hbitos, rituais e formas de educao

    que eram transmitidos de modo muito especfico.

    Nas cidades, vilas e aldeias pequenas, os comportamentos eram

    bastante padronizados e controlados socialmente. Assim, os processos

    de socializao das crianas eram bem definidos e sintonizados com o

    contexto de sua cultura local.

    Aps longo convvio, basicamente com familiares e vizinhana, as

    crianas tinham uma segunda experincia de socializao que acontecia

    apenas ao ingressarem na escola de ensino fundamental. A partir deste

    13

  • momento, em torno dos sete anos, as crianas, alm de receberem as

    influncias de suas tradies familiares e da vizinhana, ampliavam

    suas vivncias com as experincias que a escola e a comunidade no

    convvio com professoras, colegas e outras famlias poderiam

    oportunizar. Na escola as crianas tambm tinham a oportunidade de

    ter contato com o universo cientfico, artstico, cultural, tecnolgico, ou

    ainda acesso a conhecimentos, experincias e vivncias que no seriam

    possveis em suas famlias. Em muitos casos, esses conhecimentos e

    experincias auxiliavam as crianas a problematizarem seus modos de

    ser, pensar, fazer. Apesar de hoje os meios de comunicao, a cidade e

    as tecnologias audiovisuais, influenciarem nos modos como as crianas

    aprendem a realizar sua participao na cultura, a escola ainda cumpre

    esse papel em muitos lugares do Brasil, principalmente em regies

    como campos, florestas, reas ribeirinhas ou em pequenas cidades do

    interior ou do litoral.

    Entretanto, nas sociedades complexas mundializadas e

    midiatizadas que existem no mundo urbano contemporneo,

    dificilmente podemos falar desses dois momentos como etapas

    subseqentes. A socializao das crianas ocorre ao mesmo tempo no

    meio prximo, familiar e em um ambiente social, o estabelecimento

    educacional. As crianas, ao ingressarem na escola, comeam a

    conviver com adultos e outras crianas que no pertencem s suas

    famlias e que possuem hbitos, modos de falar, brincar e agir algumas

    vezes muito diferentes dos seus.

    Assim, atualmente, as crianas so socializadas nas relaes que

    estabelecem com muitas pessoas e nas experincias concretas de vida

    diferenciadas, com grande presena dos meios de comunicao social

    que trazem mundos distantes para dentro das casas. Isso abre

    perspectivas para a aprendizagem de configuraes de outros modos

    de socializao. As crianas, com experincias ampliadas, aprendem a

    viver e a conhecer um mundo permeado pela pluralidade desde muito

    14

  • cedo. Desse modo, a socializao das crianas se faz com a construo

    de identidade(s) mltipla(s) e com possibilidades de pertencimento

    ampliadas.

    Alm das mudanas sociais, que provocaram outro modo de

    analisar a socializao das crianas, tambm as concepes sobre os

    processos verticais de socializao vm sendo colocados em discusso

    nas ltimas dcadas. Durante muitos anos a socializao foi percebida

    como um processo hierrquico que possua uma direo vertical

    descendente, na qual os adultos ocupavam o vrtice superior e as

    crianas o inferior. O sentido era sempre de cima para baixo.

    Nessa perspectiva, as crianas chegavam ao mundo sem nada

    saberem, concebidas como seres incapazes, enquanto os adultos eram

    responsveis por apresentarem o mundo para elas. Essa situao

    deveria resultar na incorporao passiva de um mundo dado e

    definitivo, desconsiderando as possibilidades de resistncia das crianas

    a esse modelo. Essa viso de socializao pressupunha uma concepo

    de aprendizagem como um movimento do mundo externo em direo

    ao interno dos seres humanos.

    Nos ltimos anos, essa relao unidirecional do processo de

    socializao passou a ser questionada. Primeiro os conhecimentos

    cientficos que temos hoje sobre os bebs indicam que, desde muito

    pequenos, mesmo antes do nascimento, j esto em relao com o

    mundo. Tambm as mudanas nos costumes demonstraram que as

    crianas no so passivas: elas observam, tocam, pensam, interagem o

    que nos possibilita afirmar que elas sempre foram ativas em suas

    interaes com as pessoas adultas e os meios em que estavam

    situadas, mas a sociedade no reconhecia essa participao.

    O mundo material e simblico se oferece criana atravs das

    pessoas, da cultura, dos alimentos, da natureza e certo que ela o

    incorpora. Porm, a criana no o compreende a partir da lgica adulta,

    15

  • pois com ele se relaciona de modo particular. As crianas, em suas

    brincadeiras, em seus modos de falar, comer, andar, desenhar, no

    apenas se apropriam com o corpo, a mente e a emoo daquilo que as

    suas culturas lhes propiciam, mas investigam e questionam criando, a

    partir das tradies recebidas, novas contribuies para as culturas

    existentes.

    Nesse sentido, ao falarmos de socializao, estamos tambm

    discutindo uma compreenso sobre processos de aprendizagem. As

    teorias de aprendizagem, elaboradas ao longo dos anos, subsidiaram as

    idias de socializao e, atravs delas, tambm eram pensadas.

    Tnhamos a viso de que ou os seres humanos nasciam fadados a um

    destino independentemente das aes e experincias que tivessem

    ou, ao nascer, no possuam nenhuma capacidade nem referncia e qo

    mundo ao seu redor as modelava. Tanto as mudanas no conceito de

    socializao quanto as no de aprendizagem esto enraizadas em outros

    modelos de compreenso dos seres humanos e das relaes sociais.

    Pensar os seres humanos como sujeitos de interaes e a sociedade

    como uma democracia exige conceber a socializao e a aprendizagem

    numa relao dialgica.

    A famlia, por exemplo, foi uma das instncias de socializao que

    sofreu grandes mudanas nos modos de ser concebida ao longo dos

    trs ltimos sculos no ocidente. A princpio, a famlia nuclear foi

    considerada o modelo adequado para avaliar, compreender e pesquisar

    as famlias. Se recorrermos s imagens dos livros didticos, as fotos

    das propagandas e aos demais discursos que possuem vitalidade em

    nossa sociedade como os da televiso, da propaganda e tambm da

    religio e da justia podemos verificar que as famlias so

    representadas como grupos de pessoas, geralmente ligadas por laos

    sanguneos, que incluem um homem, uma mulher e crianas, na

    maioria das vezes um menino e uma menina. O homem o

    responsvel pelo sustento material da famlia e a mulher pela

    16

  • reproduo e organizao da vida familiar. Apesar dessa famlia no

    ter tido no Brasil uma existncia real, ela ainda est presente em

    grande parte do imaginrio nacional.

    Contudo, se olharmos com ateno ao nosso redor e se lermos

    atentamente as estatsticas, veremos que essa composio, alm de

    no ser natural, nunca foi predominante, e vem sendo substituda por

    uma pluralidade radical de formaes familiares como a

    monoparentalidade e a homoparentalidade, tornando explcito o dilogo

    transformativo inerente aos processos sociais.

    Se as mulheres lutaram, e lutam ainda, para romper com o

    modelo nico de famlia e a fixidez do lugar social a elas determinado,

    foi a partilha da educao das crianas com a escola que pode tornar

    vivel novas configuraes e organizaes familiares. Ou seja, a

    igualdade dos direitos entre homens e mulheres na sociedade s

    poder se consolidar se as instituies sociais tiverem novas

    significaes.

    Dentre as instituies sociais que mais contriburam para a

    possibilidade de constituio de novas oportunidades para as mulheres

    na sociedade e de formas alternativas de realizar a maternidade esto

    as creches e as pr-escolas. Afinal, elas desempenham um importante

    papel na liberao das mulheres como principais responsveis pela

    educao das crianas pequenas.

    Desse modo, vemos concretamente a dinmica das relaes

    sociais quando percebemos que instituies como as creches, que

    foram criadas pelas necessidades econmicas do capitalismo industrial

    com o objetivo central de substituir as atividades maternas enquanto

    as mes trabalhavam, tornaram-se, nesse momento, parceiras das

    mulheres na sua busca pelo exerccio de outras funes sociais. Assim,

    as escolas infantis foram sendo reinventadas, desde meados do sculo

    17

  • XX, para se tornarem colaboradoras dos homens e das mulheres

    contemporneos na educao e cuidado das crianas.

    O modo como os estabelecimentos de educao infantil so

    organizados j demonstram o quanto foram pensados para, alm de

    propiciarem s crianas espaos para as aprendizagens, realizar, em

    um espao pblico e de vida coletiva, aes para o cuidado e a

    educao das crianas que sempre foram consideradas como da vida

    privada: a alimentao, a higiene e o repouso.

    A situao de compartilhar a educao das crianas traz a

    necessidade social de um dilogo contnuo entre famlia, sociedade e

    escola. Ambas necessitam determinar os papis de cada uma o que

    compete escola e o que compete s famlias considerando a

    impossibilidade de haver uma regra nica. As atribuies nascem das

    necessidades e das possibilidades de ambas as instituies e do dilogo

    entre elas. A isso denominamos colaborao entre as partes.

    1.2 O significado da Educao Infantil na Educao Bsica

    No sistema educacional brasileiro, a Educao Bsica composta

    por trs blocos de formao: a educao infantil, o ensino fundamental

    e o ensino mdio. Apesar de esse ser o caminho indicado para a

    formao educacional de todo o cidado nascido no Brasil, importante

    lembrarmos que esse percurso no uma trajetria obrigatria, pois

    muitas crianas pequenas no frequentam a creche nem a pr-escola,

    assim como muitos jovens ainda no tm acesso ao ensino mdio.

    Apesar de a Constituio Federal em seu artigo 205 afirmar que a

    educao direito de todos e dever do Estado e da famlia, a

    universalizao dessa oportunidade no uma realidade. A Educao

    Bsica um direito assegurado a todo cidado e torna-se urgente que

    18

  • o Estado cumpra seu dever constitucional mediante oferta de vagas em

    estabelecimentos qualificados.

    Com o apoio da unio e dos estados, os municpios vm

    ampliando suas redes de educao infantil em defesa da

    universalizao das vagas para aqueles que assim o desejam. Se por

    muito tempo a educao infantil vem sendo afirmada como um direito

    apenas da famlia trabalhadora, atualmente novas necessidades e

    perspectivas so a ela agregadas: garantir o direito de todas as

    famlias, independente de suas configuraes, creche e pr-escola e,

    especialmente, defend-la enquanto um direito de toda criana

    educao e infncia. Com a mobilizao social, a expectativa a de

    que, em poucos anos, esses direitos das crianas sejam tambm um

    fator para a existncia de vagas nas creches e pr-escolas.

    As perspectivas temporal e processual da Educao Bsica so

    relevantes, pois apontam tanto para a continuidade quanto para a

    articulao entre as distintas etapas de ensino. Cada segmento possui

    especificidades adequadas aos diferentes momentos de vida e as

    aprendizagens particulares que devem promover nas crianas ou nos

    jovens, embora seja relevante salientar que alguns anseios e objetivos

    fundamentam, ou deveriam fundamentar, os processos educativos em

    qualquer nvel de ensino.

    A educao infantil, em sua especificidade de primeira etapa da

    educao bsica, exige ser pensada na perspectiva da

    complementaridade e da continuidade. Os primeiros anos de

    escolarizao so momentos de intensas e rpidas aprendizagens para

    as crianas. Elas esto chegando ao mundo aprendendo a compreender

    seu corpo e suas aes, a interagir com diferentes parceiros e

    gradualmente se integrando com e na complexidade de sua(s)

    cultura(s) ao corporaliz-la(s).

    19

  • Uma das caractersticas polticas importantes da educao infantil

    a de que ela desempenha um papel complexo no atendimento

    integral das crianas, que inclui aspectos relacionados educao,

    sade, cultura e proteo, o que torna imprescindvel a interlocuo

    com outras reas dos servios pblicos. Desse modo, as polticas de

    educao infantil precisam estar integradas com as polticas das

    secretarias de sade, de justia, de meio-ambiente e outras, pois todos

    esses mbitos tem grande expectativa com um servio de educao

    infantil de qualidade.

    A articulao e a integrao propicia espao para que alguns

    regramentos e aes relacionados segurana e sade das crianas

    na creche possam ser modificados. Os estabelecimentos de educao

    infantil, para garantir seu funcionamento legal e para receber

    financiamento, necessitam de uma srie de atributos designados por

    outras instituies como secretarias de obras, secretarias de sade,

    corpo de bombeiros, etc.

    Nesse momento histrico, no basta apenas cumprir as

    designaes apontadas pelos diferentes setores, mas articular o debate

    sobre o significado da educao das crianas pequenas em

    estabelecimentos educacionais e suas prticas para, assim, permitir

    que as idias e as aes oriundas das diferentes secretarias possam

    colaborar e potencializar a educao infantil. A intersetorialidade o

    caminho para garantir o bem-estar de todos: famlias, crianas,

    professores e demais profissionais. Os responsveis pela educao das

    crianas em espaos coletivos tm o compromisso de problematizar e

    viabilizar essa interlocuo para poder qualificar o atendimento

    pedaggico e tambm para contribuir na defesa dos direitos

    inalienveis das crianas.

    No contexto de nossa sociedade os direitos, as necessidades de

    bem-estar, a aprendizagem de formas de pensamento e a ampliao

    dos conhecimentos cotidianos e cientficos das crianas precisam ser o

    20

  • foco para conceber os estabelecimentos educacionais, estando

    presentes em seus objetivos, suas finalidades, sua organizao e suas

    prticas cotidianas. A promoo dos direitos das crianas educao e

    infncia comea a ser efetivada desde a defesa de princpios como a

    equidade e a qualidade no atendimento at a definio da proposta

    pedaggica dos estabelecimentos de educao infantil enquanto

    promotores dos direitos humanos, especialmente os dos bebs e das

    crianas pequenas.

    Portanto, para alm do importante lugar como primeira etapa da

    Educao Bsica, duas caractersticas definem a educao infantil ao

    longo da sua histria. Primeiramente, a necessidade imprescindvel de

    articular a educao e o cuidado das crianas pequenas com diferentes

    setores como cultura, sade, justia e assistncia social, o que exige

    polticas pblicas integradas com propostas que reflitam essa

    integrao nas concepes, nas prticas e no atendimento em tempo

    integral. Em segundo lugar, a multiplicidade de configuraes

    institucionais que oferecem alternativas educacionais adequadas s

    demandas das crianas e das suas famlias. Essas caractersticas, na

    ltima dcada, ultrapassaram sua especificidade na educao infantil

    para tambm ingressarem na pauta de debate dos demais nveis de

    ensino.

    21

  • 2 AUTORES DA ESCOLA DA INFNCIA

    O equilibrista ainda era bem jovem quando descobriu que ele mesmo que tinha de ir

    inventando o que acontecia com o fio.

    Fernanda Lopes de Almeida O equilibrista

    2.1 As crianas e as infncias: concepes plurais

    Durante muitos anos, na educao brasileira, tratamos os

    conceitos de infncia e crianas como semelhantes. Os estudos, no

    campo da histria da infncia, foram os primeiros a apontar a diferena

    entre esses dois conceitos mostrando como eles foram formulados em

    momentos distintos. Sabemos que as crianas sempre existiram como

    seres humanos de pouca idade, mas que as sociedades, em momentos

    diferentes da histria, criaram formas de pensar sobre o que ou como

    deve ser a vida nesta faixa de idade.

    Nos ltimos anos, temos concebido as crianas como seres

    humanos concretos, um corpo presente no aqui e agora em interao

    com outros, portanto, com direitos civis. As infncias, temos pensado

    como a forma especfica de conceber, produzir e legitimar as

    experincias das crianas. Assim, falamos em infncias no plural, pois

    elas so vividas de modo muito diverso. Ser criana no implica em ter

    que vivenciar um nico tipo de infncia. As crianas, por serem

    crianas, no esto condicionadas as mesmas experincias.

    Os estabelecimentos de educao infantil ocupam atualmente, na

    sociedade, importante lugar como produtores e divulgadores de uma

    cultura de defesa da infncia, ou seja, possuem o compromisso poltico

    22

  • e social de garantir as especificidades das infncias na sociedade

    contempornea.

    As crianas

    As crianas possuem diversas caractersticas que as diferenciam

    entre si. Podem ser meninos ou meninas; negros, amarelos, brancos;

    surdas ou ouvintes; alegres ou quietas. Podem viver na cidade ou no

    campo, no litoral, na floresta ou na regio ribeirinha. Simultaneamente,

    apresentam caractersticas universais como, por exemplo, a

    vulnerabilidade com a qual nascem, a intensidade no ritmo de seu

    crescimento nos primeiros anos de vida e a possibilidade de interagir e

    aprender em qualquer situao. As crianas pequenas e os bebs so

    sujeitos que necessitam de ateno, proteo, alimentao,

    brincadeiras, higiene, escuta, afeto. O fato de serem simultaneamente

    frgeis e potentes em relao ao mundo, de serem biologicamente

    sociais, os torna refns da interao, da presena efetiva do outro e,

    principalmente, do investimento afetivo dado pela confiana do outro.

    Apesar de geralmente ser enfatizada apenas sua fragilidade, os

    bebs e as crianas bem pequenas so, paradoxalmente,

    extremamente capazes de tomarem iniciativas e agirem, ou seja,

    podem perceber e movimentar-se, dispondo assim de amplos recursos,

    desde que nascem, para interagir com e no mundo. O longo tempo que

    necessitam para seu crescimento possibilita que, a partir de

    circunstncias favorveis e exitosas, possam conquistar sua

    independncia na simultaneidade em que vo gradualmente exercendo

    sua autonomia.

    As crianas, nas suas diferenas e diversidades, so completas,

    pois tm um corpo capaz de sentir, pensar, emocionar-se, imaginar,

    transformar, inventar, criar, dialogar: um corpo produtor de histria e

    cultura. Porm, para tornarem-se sujeitos precisam se relacionar com

    23

  • outras crianas e adultos. Estar junto aos outros significa estabelecer

    relacionamentos e interaes vinculados aos contextos sociais e

    culturais.

    As crianas pequenas se constituem sujeitos marcadas pelo

    pertencimento de classe social, de gnero, de etnia, de religio, isto ,

    todas as inscries sociais que afetam as vidas dos adultos tambm

    afetam a vida das crianas. Ao longo de suas existncias vo

    configurando seu percurso singular no mundo, em profunda

    interlocuo com as histrias das pessoas e dos contextos nas quais

    convivem.

    Alm de promoverem sua formao atravs de suas interaes,

    as crianas tambm produzem culturas. Tal afirmao implica

    compreender que, brincando, so capazes de agirem incorporando

    elementos do mundo no qual vivem. Atravs de suas aes ldicas, de

    suas primeiras interaes com e no mundo brincando consigo mesmas

    e com seus pares, produzem outra forma cultural de estabelecer

    relaes sociais. Essas aes e interaes, geralmente ldicas, so

    denominadas de culturas infantis e so transmitidas atravs de

    geraes de crianas.

    Ao considerar as crianas pequenas preciso conceb-las como

    um todo, incluindo a sua multidimensionalidade. H uma tendncia

    educacional bastante comum, de dividir a compreenso integral das

    crianas a partir do estudo em separado das reas de desenvolvimento.

    Uma das clssicas subdivises utilizadas pela Pedagogia no momento

    de elaborar as propostas pedaggicas fragmentar e retirar as crianas

    pequenas de seus contextos ao reduzi-las s reas motora, afetiva,

    social e cognitiva. Como se fosse possvel fazer uma atividade motora

    sem a presena da emoo e da cognio dentro das prticas sociais de

    uma dada cultura. A Pedagogia, ao destacar e considerar apenas reas

    estanques, deixa de fora muitas outras dimenses, to ou mais

    24

  • importantes, como a social, a imaginria, a cultural, a ldica, a tica, a

    esttica extremamente importantes para a formao humana.

    As infncias

    A infncia somente existe em complementaridade ou em

    contraposio aos demais grupos etrios que nossa sociedade produz

    isto , as infncias se definem em relao aos jovens e tambm aos

    adultos e idosos.

    A infncia uma das categorias geracionais mais recentes.

    claro, como dissemos anteriormente, que sempre houve crianas, mas

    elas no eram reconhecidas como grupo social com especificidades

    prprias. Foi ao longo dos ltimos sculos que a idia da infncia como

    perodo separado e diferenciado da idade adulta emergiu. Essa

    separao e a polarizao propiciaram, por um lado, a valorizao do

    pensamento de proteo das crianas, como a defesa contra a

    explorao pelo trabalho ou o abuso sexual, mas, ao mesmo tempo,

    constituiu um controle, s vezes excessivo, sobre as crianas.

    O lugar de oposio das crianas frente aos adultos acentuou as

    diferenas entre ambos porm, apesar de as crianas possurem

    caractersticas distintas das dos adultos, elas tambm tm pontos de

    conexo. As crianas so criativas, sonhadoras e inventivas como

    muitos adultos e tambm esto imersas em problemas e dvidas como

    todas as pessoas.

    As relaes hierrquicas entre os grupos sociais so uma

    realidade perversa presente na histria. Os grupos guerreiros

    escravizavam os povos derrotados, os homens sempre tiveram grande

    poder e controle sobre mulheres e crianas, assim como os brancos, a

    partir de uma viso etnocntrica, sempre se consideraram superiores a

    25

  • negros e amarelos. Porm, essas concepes e as prticas delas

    derivadas, como a escravido, a explorao e a submisso, vm, pouco

    a pouco, a partir das lutas sociais, se modificando. E as crianas, como

    grupo especfico, com pouco reconhecimento e poder social, necessitam

    de aliados na busca pela cidadania e pelo direito ao respeito.

    O encontro entre geraes, crianas e adultos, extremamente

    importante para o movimento histrico e cultural que congrega tanto a

    transmisso da tradio como a projeo de novidades. As crianas no

    nascem com a conscincia de si. O conhecimento sobre si mesmo se

    manifestar atravs da imitao e da oposio frente ao outro, como

    possibilidade de se afirmar como algum distinto. Assim, os modos

    como uma sociedade define o que importante para seus adultos e

    jovens tambm define os modos como pretende que as crianas vivam

    suas infncias.

    Crianas e alunos

    Outra diferenciao importante aquela que distingue crianas e

    alunos. Como nossa sociedade defende que o lugar de criana na

    escola, muitas vezes essas palavras acabam se tornando e sendo

    usadas como sinnimas. Contudo, preciso constatar que aluno pode

    ser apenas um dos papis sociais desempenhado pelas crianas, papel

    que tambm pode ser representado por jovens e adultos.

    As crianas, ao ingressarem na escola, tornam-se alunos e,

    dependendo da proposta educacional que vivenciam, so reduzidas as

    suas cabeas isto , s possibilidades de seu desempenho cognitivo,

    como se a mente e as emoes fossem algo etreo, separado do corpo.

    As concepes dominantes em nossa sociedade sobre os alunos, muitas

    vezes estereotipadas, carregam em si elementos que seguidamente

    26

  • antagonizam com as de crianas, excluindo a possibilidade da

    experincia peculiar de infncia.

    Para ser aluno, na concepo que tem sido hegemnica nas

    praticas escolares, a criana precisa negar seu corpo, cuja

    multidimensionalidade precisa ser esquecida, ou propositadamente

    controlada. como se fosse possvel negar a presena viva, real e

    autntica das crianas [que vivem atravs de pensamentos-palavras-

    corporeidade] e das interaes sociais por elas estabelecidas. mais do

    que evidente que essa viso de criana aluno torna-se inadequada na

    sociedade contempornea.

    O papel de aluno tambm inclui um modo de se relacionar com o

    conhecimento e a aprendizagem. Geralmente o esteretipo de aluno,

    produzido h duzentos anos atrs, afirma que para aprender a ateno

    das crianas precisa estar focada a criana imvel em seu lugar e em

    silncio e que se aprende individualmente.

    J existe extensa bibliografia afirmando que as crianas

    aprendem nas interaes com os demais, que elas tm capacidade de

    se concentrar desde muito jovens, e que isso ocorre quando esto

    efetivamente interessadas e envolvidas no que fazem. As novas

    crianas pequenas miditicas e virtuais aprendem de modo

    diferente. Tambm vrias experincias pedaggicas demonstraram que

    os meninos e as meninas tm a capacidade de pensar, imaginar e

    participar da gesto da sua educao, da sua aprendizagem e de sua

    escola.

    A possibilidade de fazer parte da vida coletiva da escola no

    apenas uma meta a ser atingida por vivermos numa sociedade

    democrtica e que vem buscando, cada vez mais, a participao e o

    respeito por todos. A participao tem um papel importantssimo na

    aprendizagem das crianas pequenas. no convvio com os diferentes

    parceiros, inicialmente os adultos e depois outras crianas, que elas

    27

  • fazem suas primeiras aprendizagens. ao fazer junto, ao colaborar em

    tarefas, ao decidir em conjunto com outras pessoas mais experientes,

    que as crianas aprendem. Portanto, no convvio, nas aes e

    iniciativas que realizam, elas vo constituindo seus prprios percursos

    formativos, ou seja, criam seus caminhos dentro de uma cultura,

    aprendendo a se desenvolver com autonomia.

    Quando se prope que os estabelecimentos de educao infantil

    sejam espaos para a produo de culturas infantis, de processos de

    construo de conhecimentos em situaes de interao e de insero

    das crianas nas prticas sociais e linguagens de sua cultura, o modelo

    convencional de escola, historicamente estabelecido e vigente em

    grande parte das prticas escolares, dificulta a construo de uma nova

    dimenso educacional.

    Os bebs e as crianas pequenas

    A educao infantil, como rea de estudos da Pedagogia, tem se

    preocupado, desde o sculo XIX, com a educao das crianas bem

    pequenas. Porm, durante muitos anos, os estudos e propostas

    educacionais foram pensados, quase que exclusivamente, para as

    crianas entre quatro e seis anos. As propostas educacionais focadas

    em crianas de dois e trs anos eram profundamente questionadas

    tendo em vista que os discursos dominantes afirmavam que os

    cuidados maternos seriam o modo adequado de educar os bebs e as

    crianas bem pequenas. As propostas para bebs ou crianas bem

    pequenas eram vistas apenas como necessidades para rfos ou

    crianas em situao de risco.

    Nos ltimos anos a demanda pelo atendimento educacional de

    bebs em creches e pr-escolas vem se ampliando. Grande parte do

    preconceito com relao a essas instituies est sendo superado, pois

    28

  • os estudos vm demonstrando o quanto essa experincia educacional,

    quando realizada em estabelecimentos adequados, traz benefcios para

    as crianas e contribui com a educao realizada pelas escolas e pelas

    famlias.

    Tambm os conhecimentos cientficos sobre os recm-nascidos e

    suas capacidades vm se atualizando no sentido de tir-los do lugar de

    seres incapazes de interagir com o mundo. Sabemos hoje que os bebs

    enxergam, reconhecem vozes e contribuem ativamente nos seus

    processos de aprendizagem. Por exemplo, ao pegar um objeto, um

    beb, a partir de um movimento biolgico, emotivo e cultural, constri

    um gesto. Ela imita e, ao agir, desenvolve a percepo, a memria e a

    motricidade que iro se tornar recursos valiosos para seu

    desenvolvimento posterior. O gesto inicial vai sugerindo novos modos

    de compreenso de movimentos como chacoalhar, apertar. Finalmente,

    os bebs comeam a ser reconhecidos como pessoas potentes que

    interagem no mundo e aprendem desde que nascem.

    No possvel continuar subestimando suas capacidades. Os

    bebs sabem muitas coisas que ns no reconhecemos porque ainda

    no conseguimos ver, compreender, analisar, ou seja, reconhecer como

    um saber. As suas formas de comunicao, por exemplo, acontecem

    atravs dos gestos, dos olhares e dos choros que so movimentos

    expressivos e que constituem os canais de comunicao no verbal

    com o mundo.

    Muitas vezes ns, adultos, que no estamos alfabetizados

    nessas linguagens e, portanto, no podemos compreender o que falam.

    O professor como adulto responsvel tem o papel de estar presente,

    observar e procurar compreender as linguagens da criana e

    responder-lhe adequadamente

    As crianas pequenas, especialmente os bebs, tm um

    crescimento muito rpido. Do um ponto de vista orgnico, as crianas,

    29

  • nos primeiros anos de vida, realizam grandes conquistas, como a

    aquisio da marcha e da linguagem. Esse ritmo acelerado de

    aprendizagens, que geralmente comum nas crianas (excetuando

    aquelas que apresentam algum transtorno de desenvolvimento, mas

    que podem, num ritmo mais lento, ou de modo diferenciado, alcanar

    tais capacidades) tambm apresenta diferenas que podem ser

    pessoais ou culturais.

    As caractersticas dos bebs exigem que o dia-a-dia seja muito

    bem planejado, pois h um grande dinamismo e diversidade no grupo.

    Enquanto duas crianas dormem, uma quer comer, outra brinca ou l

    em seus livros-brinquedos e outro beb precisa ser trocado. Toda essa

    diversidade, em uma situao de dependncia, exige ateno

    permanente do adulto segurana das crianas, atravs de um

    conjunto de fatores ambientais e relacionais, para efetivamente dar

    conta das suas singularidades. A criao de espaos pedaggicos, de

    materiais e a construo de situaes didticas que desafiem e

    contribuam para o desenvolvimento das crianas exige preparo,

    conhecimento e disponibilidade das professoras.

    Todo o conhecimento posterior est calcado nas aes que as

    crianas pequenas realizam sobre si e no mundo em suas experincias

    cotidianas. As primeiras noes sobre o mundo social se constituem no

    encontro e nas interaes com adultos e outras crianas, marcados

    pelas relaes de emoo e afeto e pelas oportunidades que as prticas

    culturais e as linguagens simblicas daquela sociedade sugerem.

    As crianas bem pequenas possuem grandes diferenas em

    relao s crianas maiores. A especificidade das crianas de zero a

    trs anos advm de sua totalidade, de sua vulnerabilidade, de sua

    dependncia dos adultos (em especial da famlia), de seu rpido

    crescimento e possibilidade de desenvolvimento, das instituies sociais

    e educativas, alm de suas formas prprias de conhecer o mundo.

    30

  • Os avanos cientficos nos mostram a importncia das interaes

    sociais para o desenvolvimento das crianas, desde a mais tenra idade,

    como tambm evidenciam a relevncia da interlocuo com as

    linguagens simblicas da famlia, do professor e das demais crianas. A

    formao das crianas acontece em processos de interao, negociao

    com os outros ou por oposio a eles.

    Se, nos primeiros anos, as crianas experimentam muitas

    novidades, posteriormente elas comeam a consolidar e a compartilhar

    seus mundos com os demais. J falam e gostam de conversar e relatar

    histrias, se interessam por produzir movimentos cada vez mais

    complexos e por participar de atividades coletivas, envolvendo vrias

    outras crianas. Nesse momento, seus atos de linguagem so potentes

    e podem referir as complexas relaes sociais e culturais que desde o

    nascimento estabeleceram com o entorno. Agora, a linguagem verbal

    viabiliza que a curiosidade e a descoberta em relao aos outros e ao

    mundo se extravase. Muitas vezes, nos estabelecimentos de educao

    infantil, as crianas, depois dos trs ou quatro anos, so tratadas como

    os grandes. claro que, em relao aos bebs, elas j possuem

    outras possibilidades, mesmo assim so pessoas com pouca

    experincia e que necessitam apoio.

    A cultura de pares aquela produzida no encontro de crianas de

    idade aproximada. O uso deste conceito surgiu nos estudos sobre o

    desenvolvimento infantil, mostrando a importncia da vida em grupo,

    mesmo para as crianas pequenas. A palavra pares nessa expresso

    no est ligada idia de dupla, de par, mas a noo de grupo.

    A expresso culturas infantis, de uso mais recente, se refere s

    configuraes espaciais e temporais do contexto em que as crianas

    vivem com outras crianas, mediadas pela cultura. Para as crianas,

    essas produes lhes possibilitam dar sentido ao mundo. As crianas,

    em suas culturas infantis, recompem a cultura material e simblica de

    uma sociedade. Elas fazem sua releitura do mundo, isso , leem o

    31

  • mundo adicionando novos elementos geracionais, recriando-o e

    reinventando-o.

    Na educao infantil, a organizao do tempo e do espao precisa

    oferecer a oportunidade de momentos de troca com outras crianas e

    de brincadeiras que efetivamente promovam aprendizagens, garantindo

    o desenvolvimento. necessrio lembrar que, se em muitos contextos

    sociais de nosso pas as brincadeiras na rua envolvendo crianas

    pequenas, bebs, crianas maiores acontecem cotidianamente, em

    outros espaos, como nos apartamentos das regies centrais das

    grandes cidades, as crianas pequenas vivem sem irmos ou contato

    com crianas de idade diferente. Por esse motivo, os estabelecimentos

    educacionais para crianas pequenas precisam revisar a organizao

    das turmas apenas por faixa etria similar e propiciar oportunidades de

    interaes tanto de crianas da mesma idade quanto de crianas de

    idades diferentes, na perspectiva de favorecer a transmisso e a

    reelaborao das culturas de infncia.

    Algumas perspectivas de compreenso da infncia mostram que

    ela no apenas um momento no desenvolvimento das pessoas ou de

    uma faixa etria especfica. A infncia no pode ser vista como uma

    etapa estanque da vida, algo a ser superado ou, ainda, que termina

    com a juventude. A infncia deixa marcas, permanece e habita os seres

    humanos ao longo de toda a vida, como uma intensidade, uma

    presena, um jeito de ser e estar no mundo. Como uma reserva de

    sonhos, de descobertas, de tristezas, de encanto e entusiasmos.

    2.2 Os adultos responsveis: papis diferenciados

    H nos estabelecimentos de educao infantil duas geraes:

    crianas e adultos. Das crianas j falamos e agora vamos conversar

    sobre os adultos. H trs grupos de adultos com os quais as crianas

    32

  • convivem: os familiares, os profissionais docentes e os demais

    profissionais da escola.

    Iniciamos pelas famlias, pois nelas podemos identificar os

    adultos que so os responsveis diretos pelas crianas e com eles a

    escola precisa estabelecer fortes laos de confiana no sentido de

    compartilhar valores e procedimentos para fazer da educao infantil

    uma ao de complementaridade. Porm, alm dos pais, muitos outros

    adultos, e algumas vezes outras crianas, podem ser importantes e

    responsveis pela vida das crianas na educao infantil. Os avs,

    irmos mais velhos, tios, tias e dindos so referncias de afeto, de

    comportamento, de vocabulrio e cabe escola reconhec-los.

    As famlias e seus contextos

    As famlias so elementos constituintes das relaes que

    acontecem na instituio educativa, afinal as crianas so pequenas e,

    para se sentirem acolhidas na creche dependem da sintonia entre a

    famlia e os profissionais da escola. Essa mais uma das

    especificidades dos estabelecimentos de educao infantil. Nesse

    sentido, complementaridade e partilha so palavras decisivas na

    relao escola, criana e famlia.

    As relaes no cotidiano da educao infantil so pautadas, alm

    dos contextos familiares, pelos contextos sociais e polticos que tanto

    as famlias das crianas quanto as escolas pertencem. Ambas as

    instituies famlias e escolas esto enraizadas em identidades

    sociais, tnicas, culturais e religiosas. Portanto, a convivncia produtiva

    com padres e valores familiares e comunitrios na instituio de

    educao infantil necessria para manter relaes que discutam e

    reflitam sobre as identidades e as diversidades das crianas.

    33

  • Interagir com as famlias significa ser uma instituio aberta s

    diferentes formas que as configuraes familiares adquirem na

    contemporaneidade e participao das famlias em diferentes

    instncias. A educao infantil inicia sua relao com as famlias antes

    mesmo da relao com as crianas, pois so aquelas as que primeiro

    chegam escola demandando o atendimento para seus filhos. Desse

    modo, as creches e pr-escolas precisam demonstrar sua

    disponibilidade e interesse em apresentarem-se para a sociedade, tanto

    atendendo aqueles que solicitam seus servios, quanto mostrando,

    atravs de diferentes estratgias, suas aes educacionais para a

    comunidade, tornando-se assim conhecida, e respeitada,.

    Como qualquer contato entre pessoas e grupos sociais, a relao

    escola-famlia no pode ser unidirecional. A escola e os profissionais

    que nela atuam necessitam regular seu relacionamento com as famlias

    como uma via de mo dupla, pautada na dialogia, o que significa

    enfatizar a possibilidade de estabelecer conversas e trocas que

    somente acontecem se h escuta e respeito ao ponto de vista do outro,

    se h dilogo mediado pela tica.

    muito importante que as instituies que atendem crianas

    pequenas, principalmente aquelas de zero a trs anos, caracterizem-se

    por serem cuidadosas, protetoras, afetuosas e provocadoras. As suas

    rotinas devem visar o bem-estar das crianas, de modo que elas se

    sintam seguras e orientadas. Isso inicia com a ateno do educador por

    si mesmo, por suas emoes, por seus sentimentos e pela anlise de

    suas aes, e prossegue na ateno ao outro seja ele um adulto ou

    uma criana.

    Quando os profissionais docentes tm caractersticas sociais e

    culturais diferenciadas da comunidade e das famlias com as quais

    trabalham, lhes exigido romper com preconceitos e conhecer as

    culturas locais para contempl-las no dia-a-dia da escola, pensando em

    estratgias no sentido de vincular e valorizar essas diferenas. Enfim, a

    34

  • docncia exige aprender a efetivar uma educao que garanta as

    especificidades das diferentes regies brasileiras e suas comunidades,

    como as quilombolas, ribeirinhas, urbanas camponesas, operrias,

    indgenas, faveladas, suburbanas, etc.

    Os profissionais docentes e os demais profissionais

    A presena de profissionais docentes nos estabelecimentos de

    educao infantil uma novidade, apesar de existirem docentes

    envolvidos nessa modalidade de educao desde os primeiros jardins

    de infncia e jardins de praa. Durante muitos anos esse trabalho foi

    realizado por profissionais sem formao especfica, pois a educao e

    o cuidado de crianas no eram vistos como tarefa e responsabilidade

    educacional, apenas como um direito assistencial das famlias.

    Ora, todas as profisses tm uma histria que inicia com seus

    prticos. No Brasil, era muito comum, at os anos 50, existirem

    prticos dentistas, mdicos, farmacuticos, isso , pessoas sem

    formao especfica que haviam aprendido um ofcio observando outros

    o exercerem. Porm, h muitos anos, na rea da sade, no se

    reconhecem os prticos. Entretanto, na educao, parece que estamos

    perpetuando essa situao. E isso muito grave. Trabalhar com

    crianas pequenas exige formao, pois no apenas uma tarefa de

    guarda ou proteo, mas uma responsabilidade educacional na qual so

    necessrias proposies tericas claras, planejamento e registros.

    Um exemplo importante dessa problemtica a relao que se

    estabelece entre o professor e o auxiliar. Ambos esto na sala,

    atendem o grupo de crianas e suas famlias, porm h grande

    diferenciao salarial nas funes, no horrio de trabalho e no tipo de

    atividades realizadas. Uns educam e outros cuidam das crianas,

    rompendo, de modo inaceitvel, a articulao educar e cuidar. Alm

    35

  • disso, essa dissociao acaba sugerindo a vinculao entre menor

    formao e as aes relativas ao corpo e maior formao e as tarefas

    dirigidas mente, o que se coloca em completo antagonismo com as

    afirmaes dos documentos legais e acadmicos. H mais de dez anos

    atrs a LDB deixou claro que para o exerccio da docncia era

    necessria, preferencialmente, a formao em curso de Pedagogia e, se

    necessrio, a formao em nvel mdio. Contudo, muitos sistemas e

    estabelecimentos educacionais perpetuam a situao de ter muitos

    profissionais sem formao ou com ensino mdio e poucos com curso

    de Pedagogia.

    As atribuies e as funes do professor de educao infantil

    ainda tm pontos de controvrsias. Est claro que a formao e as

    caractersticas do professor em uma escola convencional no so as

    necessrias, nem as suficientes para realizar uma docncia com

    especificidades de integrar as vrias instncias de educao, proteo,

    cultura e sade. Desse modo, os professores da educao infantil esto

    vivendo um importante momento histrico relacionado construo de

    sua identidade profissional, o que aponta para a necessidade de

    formao constante e de reflexo sobre a prtica pedaggica nas

    escolas infantis como horizonte para essa caminhada.

    A educao infantil rompe com a lgica do ensino fundamental

    que a de um professor sozinho na sua sala, com sua turma pois ela

    precisa ser realizada em parceria. Isso significa propor uma formao

    que no seja a do trabalho individual, mas coletivo. O adulto deixa de

    ser o centro para compartilhar, com outro adulto e com as crianas, o

    papel de gerir diferentes aspectos da sala e seu funcionamento. Para

    que isso seja possvel, preciso investir nas relaes humanas e no

    trabalho cooperativo.

    Planejar estudar e organizar situaes de aprendizagem para as

    crianas. Se o professor tem boa formao e investigativo, ele no

    precisa dominar todos os conhecimentos que podem se fazer presentes

    36

  • no grupo, ele faz sua formao continuamente junto com as crianas e

    em momentos de pesquisa e reflexo com seus colegas. A postura do

    professor deve ser a de organizador, mediador e elaborador de

    materiais, ambientes e atividades que permitiro s crianas construir

    aes sobre objetos e formas de pensamento. Numa nova perspectiva,

    compreende-se o papel do professor como o de um orientador da busca

    do conhecimento, principalmente quando ela surge como necessidade

    para desenvolver o projeto do grupo e as necessidades e desejos

    individuais das crianas. No h necessidade de material didtico

    pronto para o professor aplicar e nem de cartilhas ou livros didticos

    para as crianas. Mas, h relevncia na criao de espaos de

    participao onde as crianas coloquem seus conhecimentos em jogo,

    permitindo confronto de idias e opinies, formas diferenciadas de

    resoluo de problemas e questes, assim como a proposio de novos

    desafios, que ensinaro s crianas a se apropriarem da cultura e a

    desenvolverem seu pensamento.

    A docncia exige, na atualidade, uma formao que integre, por

    um lado, formao cultural, tica e esttica nas diferentes linguagens

    expressivas, e, por outro, que considere a construo de processos de

    afirmao de auto-estima e de identidade dos professores. Em suma,

    uma formao que integre razo e imaginao.

    Afinal, ao educar e cuidar de crianas pequenas, o professor no

    oferece apenas aquilo que sabe, mas tambm aquilo que atravs das

    interaes. H uma especificidade clara no trabalho do professor de

    educao infantil que a de ter a sensibilidade para as linguagens da

    criana, para o estmulo autonomia, para mediar a construo de

    conhecimentos cientficos, artsticos e tecnolgicos e, tambm, para se

    colocar no lugar do outro, aspectos imprescindveis no estabelecimento

    de vnculos com bebs e crianas pequenas. A formao precisa

    integrar o desenvolvimento das sensibilidades e das capacidades

    37

  • intelectuais dos professores, pois eles so profissionais, como tantos

    outros, para os quais a relao uma ferramenta de trabalho.

    As condies de trabalho docente tambm podem garantir maior

    qualidade tarefa educativa do professor. Entre elas ressaltamos:

    tempo e espao garantido para planejar, comunicar, interagir e organizar, isso , hora atividade de estudo e planejamento;

    proporo adequada do nmero de crianas por professor, relacionado ao tamanho do espao fsico;

    participao na elaborao da proposta pedaggica da escola e autoria de seu planejamento e ao educacional.

    Essa luta tambm envolve uma sindicalizao, a organizao de

    um plano de carreira e salrio adequados s caractersticas desse nvel,

    rompendo com a baixa valorizao dos profissionais que lidam

    diretamente com as crianas. Importa salientar que temos, na

    educao da infncia, um grupo duplamente discriminado: profissionais

    do gnero feminino cujos salrios so os mais baixos na realidade

    nacional que atendem crianas outro grupo social negligenciado em

    nossa sociedade.

    Esse lugar de docente est em construo por ns que fazemos a

    educao infantil hoje, seja na prtica ou teoricamente. Estamos

    consolidando a diferena para crianas, pais e comunidade em geral

    da relevncia de uma criana ser educada por um profissional

    formado. Ns mudamos a realidade da no formao mostrando nossas

    realizaes para a sociedade, permitindo que ela valorize e admire o

    trabalho realizado pelos profissionais com formao.

    O estabelecimento educacional da infncia possui, alm de

    professores, muitos outros profissionais que cuidam e educam as

    crianas. A educao, como um projeto coletivo e comunitrio,

    constituda e implementada atravs das relaes entre as pessoas, e

    38

  • est em constante ao na escola. Todos os adultos que trabalham na

    creche interagem com as crianas e, desse modo, so potencialmente

    educadores.

    Quando as famlias chegam escola e encontram um guarda no

    porto ou uma funcionria que as recebe, as crianas logo

    cumprimentam, conversam, mostram suas mochilas e brinquedos,

    assim como as famlias tambm interagem com eles. Esses

    profissionais, apesar de estarem exercendo funes ligadas proteo

    e recepo, tambm esto no papel de educadores, ensinando

    valores e conhecimentos para as crianas como cumprimentar,

    conversar, etc. A realizao dessas aes com respeito e ateno s

    crianas, exige sintonia com o pensamento educacional da creche.

    Para que ocorra essa sintonia entre os diferentes profissionais e

    para que eles compartilhem e ofeream no seu cotidiano os valores

    educacionais preconizados pelo estabelecimento educacional, preciso

    criar oportunidades de formao em servio para todos. Se em

    determinados momentos a formao necessita ser especifica por

    exemplo, a professora faz curso de msica para bebs e a cozinheira

    curso de biscoitos necessrio tambm, haver oportunidades de

    formao dentro da instituio com todos os adultos, objetivando a

    construo de consensos pedaggicos, ainda que provisrios, que

    explicitem a proposta pedaggica, pensando e amadurecendo as

    decises sobre a vida coletiva na escola.

    Nesse sentido todos os colaboradores: a cozinheira, a secretria,

    a servente, a monitora, o guarda, a professora, de acordo com

    contextos e especificidades, iro discutir e participar das decises

    educacionais da escola: compartilhar idias, discutir as dificuldades de

    dividir um espao comum, trocar opinies, construir posies, etc.

    Constituir, em servio, a formao especfica e a identidade como

    cozinheira de uma escola de educao infantil diferente de ter uma

    39

  • identidade como cozinheira de um restaurante ou hospital. Todos os

    adultos so trabalhadores da educao, todos esto implicados no

    coletivo da instituio. E o compartilhamento de decises, de posies

    de avaliao e redimensionamento do projeto educacional precisa ser

    ao de todos. Esse compartilhamento no pode acontecer apenas nas

    idias, mas preciso que se torne a pauta para as formaes dos

    profissionais e uma referncia na proposio de aes.

    Todos os adultos que participam da escola so educadores. Pois,

    mesmo quando esto executando suas funes especficas, ensinam as

    crianas o respeito s suas tarefas profissionais e o cuidado com os

    outros. Compartilham com elas prticas sociais ligadas alimentao,

    ao cuidado do corpo e do ambiente, ao pertencimento a um grupo

    cultural, ao brincar, segurana da escola, afinal esses so contedos

    educacionais na educao infantil. As aes cotidianas realizadas nas

    escolas fazem parte do currculo, por isso preciso que grande ateno

    seja dada tanto aos modos como so realizadas essas aes quanto

    formao dos profissionais que as executam. Construir uma autoria

    coletiva envolve muitos personagens, que pouco a pouco assumem a

    participao no processo de constituio de uma escola de educao

    infantil.

    40

  • 3 A PEDAGOGIA COMO PRTICA TERICA

    Para viver no tempo de Pindorama era preciso muito conhecimentoe sabedoria, que se aprendia de pai pra filho, todo dia. O saber era e

    ainda de todos da tribo, mesmo com as tarefas divididas entre os homens, as mulheres, os velhos e as crianas.[...] Pindorama reinava

    com sol ou chuva nas brincadeiras dos curumins, nos banhos de rio, nas danas e no descanso do fim do dia.

    Marilda CastanhaPindorama

    3.1 Como situamos a pedagogia

    Toda a histria da humanidade est marcada por processos

    educacionais. Os grupos sociais sempre propiciaram modos de educar e

    cuidar as crianas que expressavam suas concepes polticas e

    religiosas, seus hbitos e suas tradies. Isto , as sociedades sempre

    organizaram ambientes, formais ou no-formais, para garantir a sua

    manuteno e continuidade. Cada grupo social, a partir de suas

    crenas, princpios, interesses, concepes cientficas e polticas,

    criaram modelos educacionais e esses modelos racionalizados em

    princpios claros e coerentes com suas prticas denominamos de

    pedagogias.

    As pedagogias, portanto, conformam uma rea do conhecimento

    que se constituiu historicamente atravs de prticas, reflexes e,

    recentemente, de pesquisas. Isso equivale a dizer que a pedagogia, em

    sua especificidade de uma prtica terica, apresenta-se como campo

    tanto descritivo ou especulativo quanto de interveno social, de ao

    transformativa da realidade. Nesse sentido, precisa atentar para as

    escolhas ticas, as decises polticas e as aes prticas, pois realizar

    atos com intencionalidade pedaggica no significa formatar as

    pessoas, mas agir com elas no mundo. atravs de suas escolhas de

    41

  • percursos e de suas prticas que a pedagogia expressa a

    intencionalidade e seu compromisso educacional.

    A pedagogia uma disciplina de fronteiras, pois sua constituio

    implica o dilogo com muitas outras disciplinas como, por exemplo, a

    histria, a psicologia, a filosofia. Por muito tempo, tal caracterstica foi

    desvalorizada. Hoje, porm, verificamos que muitos outros campos do

    saber e do conhecimento cientfico, como a engenharia, a enfermagem

    e a medicina, so tambm prticas tericas: campos de produo de

    prticas que dialogam com diferentes disciplinas tericas e organizam o

    pensamento e a ao em determinadas situaes e contextos.

    O pensamento pedaggico tem como objeto de investigao os

    sistemas de ao inerentes s situaes educativas, ou seja, a

    materializao da experincia educativa. A pedagogia descreve,

    problematiza, questiona e complementa. Assim, onde estiver presente

    uma situao de produo de conhecimento, de saber, de

    aprendizagem, onde houver uma prtica social de construo de

    conhecimentos, tambm estar presente uma pedagogia.

    A pedagogia implica a reflexo acerca do mundo social, cultural e

    econmico, assim como os modos de estabelecer as relaes e as

    interaes entre as pessoas. O pensamento pedaggico engendra tanto

    os grandes discursos sociais, polticos, ambientais, entre outros, quanto

    os pequenos discursos do cotidiano, articulando os contextos aos

    processos concretos de produo dos saberes. Por esse motivo, as

    pedagogias so plurais. Isso significa que as formas de articular,

    propor, programar e realizar os processos pedaggicos sempre sero

    singulares e complexos.

    As pedagogias da educao infantil que emergiram no final do

    sculo XIX e no incio do sculo XX foram constitudas por um

    pensamento muito prximo ao da psicologia, cincia emergente na

    poca que tambm tinha como um de seus objetivos o estudo das

    42

  • crianas, seus processos de desenvolvimento e de aprendizagem.

    Durante muitos anos, a pedagogia para a pequena infncia, em grande

    parte dos pases, tornou-se um espao de aplicao prtica das

    pesquisas e conhecimentos estabelecidos principalmente pelas

    diferentes linhas da psicologia, porm, na creche, predominou, por

    muitos anos, os saberes da puericultura.

    a partir da dcada de 60 que algumas outras cincias

    comearam a construir conhecimentos sobre as crianas e as infncias.

    A histria, a sociologia, a antropologia, a filosofia, a neurologia e a

    geografia, entre outras, passaram a informar e a subsidiar o campo da

    pedagogia a partir de seus diferentes pontos de vista. Nesse processo,

    passam a interrogar e problematizar as prticas pedaggicas

    sustentadas na concepo de desenvolvimento como evoluo linear,

    de aprendizagem como resultado individual e de pedagogia como ao

    comprometida apenas com os aspectos cognitivos do processo

    educacional.

    Nos ltimos trinta anos, as propostas pedaggicas para a

    educao infantil enfrentaram momentos de questionamento, reflexo

    e reelaborao das suas prticas. Somente uma outra concepo de

    pedagogia mais abrangente e complexa, aquela que articula a

    educao e o cuidado fundada na observao, na investigao e na

    busca contnua de prticas cotidianas comprometidas com o

    acompanhamento, a anlise e a reconsiderao das mesmas, pode

    evidenciar as pistas para a formulao dessa outra pedagogia que

    emerge como metapedagogia porque se percebe relacional e dialgica,

    enquanto processo capaz de pensar a si mesma.

    A ao pedaggica, portanto, um ato educacional que evidencia

    a sua intencionalidade. Se todas as aes que acontecem no

    estabelecimento educacional forem resultado do pensamento, do

    planejamento, das problematizaes, dos debates e das avaliaes, isto

    43

  • significa que tais aes explicitam as opes pedaggicas da instituio

    e seus profissionais, configurando uma pedagogia.

    Por exemplo, a chegada das crianas no estabelecimento

    educacional uma prtica social cotidiana. Porm, se a escolha sobre o

    horrio da entrada e o modo como so recebidas as famlias e as

    crianas foram decises tomadas a partir da anlise das necessidades

    das famlias, da discusso e negociao com a comunidade, da reflexo

    sobre os critrios de atendimento s diversidades familiares e, ainda,

    da discusso sobre a implicao dessa ao nos contratos dos

    profissionais e no desempenho educacional das crianas e dos projetos

    pedaggicos, essa deciso deixa de ser apenas uma atividade da rotina

    cotidiana para se constituir em uma ao pedaggica com

    intencionalidade.

    Esse modo de educar considerando a articulao entre saberes,

    fazeres, pensares, sentires, define a pedagogia. Porm, importante

    lembrar dois aspectos fundamentais nem sempre explcitos nas

    proposies educativas: primeiramente, o fato de que nem todas as

    aes, por mais intencionais que sejam, podem, efetivamente, garantir

    a aprendizagem simultnea em todas as crianas e, em segundo lugar,

    a evidncia bvia de que nem todas as aprendizagens acontecem

    somente porque houve uma intencionalidade pedaggica. A vida

    cotidiana de um grupo de crianas em um determinado lugar sempre

    mais rica do que aquilo que possa ser previamente pensado ou

    planejado, pois a convivncia cotidiana implica a existncia do

    inesperado.

    Contudo, no podemos esquecer que a intencionalidade

    pedaggica que define o trabalho docente e ela somente conquistada

    atravs de uma formao profissional slida, um olhar sensvel e

    atento, assim como disposio em oferecer s crianas oportunidades

    de conhecerem aquilo de mais instigante e importante que o mundo

    44

  • apresenta nossa sensibilidade e racionalidade, atravs de situaes

    que as desafiem e, ao mesmo tempo, aconcheguem.

    3.2 Como entendemos conhecimento

    Ao longo da histria os seres humanos viveram imersos em

    diferentes sistemas de conhecimento. Para quem os percebe desde o

    seu interior, cada sistema de conhecimento lhe parece claro e evidente,

    afinal sua organizao constitui o senso-comum. Outros sistemas de

    conhecimentos, estranhos a ns porque produzidos por grupos que

    vivem de modos diferentes, em espaos e tempos diversos como, por

    exemplo, nossas naes indgenas, ou aqueles baseados nas culturas

    populares, ou ainda os sistemas de conhecimentos dos grupos de

    crianas, que nos parecem inapropriados e desarticulados.

    Os conhecimentos cotidianos foram estruturados e organizados

    inicialmente pelas religies, depois pelas artes e pelas cincias e

    ocuparam, por muitos sculos, o lugar de absolutos inquestionveis.

    Porm, desde o final do sculo XX, as discusses sobre as concepes

    de conhecimento nos mostraram que os conceitos sociais, cientficos,

    artsticos e religiosos foram produzidos e construdos socialmente, que

    eles no so nicos, nem definitivos, mas verses parciais

    comprometidas historicamente com vises de mundo e de humanidade.

    Atualmente o conhecimento cientfico aquele conhecimento que

    teve centralidade ao longo da histria do ocidente e, especialmente, na

    escola vem sendo questionado. Essa crtica no nasceu externa ao

    campo cientfico, ela foi originada pelos prprios cientistas que, diante

    da constatao de que a dissociao entre a vida e o conhecimento

    alcanou, no sculo XX, seu limite, procederam a uma reviso de seus

    princpios, conhecimentos e prticas. Equivale a dizer que eles

    colocaram em cheque seus mtodos e suas verdades.

    45

  • Nos ltimos cinqenta anos, acompanhamos mudanas

    importantes nos modos de produzir e de organizar os conhecimentos

    nas sociedades ocidentais contemporneas. Por exemplo, a ecologia,

    que at pouco tempo atrs era uma pequena parte do conhecimento da

    biologia, atualmente forma um campo cientfico amplo, com vrias

    conexes com cincias como a economia, a sociologia, a engenharia.

    Portanto, de um conhecimento disciplinar, ensinado apenas em um

    semestre do ensino mdio, ela passou a permear todo o sistema

    educacional, tanto na concepo de prdios auto-sustentveis, quanto

    ao compor situaes cotidianas onde as crianas bem pequenas

    possam vivenciar e aprender princpios ecolgicos.

    Muitos conhecimentos que eram tidos como universais e

    verdadeiros podem hoje ser avaliados como produtos da elaborao de

    uma classe social, de um gnero, ou de uma etnia com sua experincia

    histrica. Poderamos tomar como exemplo as concepes que

    validaram a existncia de uma natureza diferenciada entre brancos e

    negros, produzindo a escravido, ou ento a da incapacidade das

    mulheres em relao aos homens, que assegurou o patriarcado e

    ainda, a da hierarquizao e discriminao entre adultos e crianas,

    isso , a perspectiva adultocntrica de compreender o mundo.

    Hoje, em nosso pas, sabemos que as diferenas culturais,

    tnicas, etrias, de gnero e de insero nos modos de produo

    influenciam na seleo e na organizao dos saberes e dos

    conhecimentos escolares. Atravs de vrias situaes identificamos

    essas influncias, compreendendo que os conhecimentos no so

    neutros e muito menos imutveis. Porm, ainda temos um longo

    caminho para transformar esses saberes e conhecimentos em prticas

    cotidianas que possibilitem s novas geraes romper com os pr-

    conceitos cientficos e polticos to presentes no cotidiano da sociedade

    brasileira.

    46

  • A hierarquia entre os campos de conhecimentos outra

    caracterstica que vem sendo questionada na medida em que, atravs

    delas, so estabelecidas diferenas e valoraes entre as reas. Nos

    estabelecimentos educacionais isso fica evidenciado pela distribuio do

    tempo das atividades oferecidas para as crianas, ou pela regularidade

    com que certas situaes so propostas. Os conhecimentos so de

    ordens diferentes e no obedecem a uma nica hierarquia. Enfatizar

    apenas as reas acadmicas reconhecidamente sistematizadas , nessa

    faixa etria, uma ausncia da compreenso da multidimensionalidade

    dos processos de aprendizagem das crianas.

    Atualmente, a cincia mesma reconhece que os saberes

    cotidianos esto em processo de se tornarem conhecimentos cientficos

    e a ateno e a reflexo sobre eles que permite sua sistematizao e

    legitimao. A educao das crianas pequenas exige que muitos

    conhecimentos antes desconsiderados nos processos escolares passem

    a ser, nesse momento histrico, legitimados.

    Tambm ao analisar a conjuntura mundial observamos que certos

    conhecimentos tm hoje muito mais importncia na vida das pessoas

    que em outros tempos. Por exemplo, as tecnologias, a mdia e o meio-

    ambiente invadem a vida cotidiana das pessoas que vivem nas

    sociedades urbanas e rurais. Porm, nas propostas educacionais, so

    temas pouco evidenciados. Todavia, convm enfatizar que a educao

    de crianas pequenas exige tambm questionar quais so os

    conhecimentos e as aprendizagens oportunos e adequados para uma

    gerao que ser adulta em 2030. As intenes e as aes da escola

    hoje, da professora de agora, precisam estar conectadas com a

    reflexo, o questionamento e a interrogao de como queremos viver o

    futuro.

    O objetivo da educao infantil, do ponto de vista do

    conhecimento e da aprendizagem, o de favorecer experincias que

    permitam s crianas a apropriao e a imerso em sua sociedade,

    47

  • atravs das prticas sociais de sua cultura, das linguagens que essa

    cultura produz, e produziu, para construir, expressar e comunicar

    significados e sentidos.

    evidente que se torna imprescindvel oferecer s crianas

    situaes prticas e vivncias que possam ser processadas e

    sistematizadas por um corpo que sente e pensa, desde o nascimento.

    Por esse