estudos medievais

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    PROGRAMA DE ESTUDOS MEDIEVAIS

    UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

    ATAS DA

    V SEMANA DE

    ESTUDOS MEDIEVAIS

    Rio de Janeiro

    17 a 19 de Novembro de 2003

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    Preparao, editorao eletrnica e reviso:Andria Cristina Lopes Frazoda Silva e Leila Rodrigues da SilvaImagem:Detalhe do Beatus de Saint-Sever(sculo XI)Capa: Andria Cristina Lopes Frazo da Silva e Leila Rodrigues da SilvaI mpresso e acabamento:Alphagraphics

    ______________________________________________________________SILVA, Andria Cristina Lopes Frazo da, SILVA, Leila Rodrigues. (Org.)Atas da V Semana de Estudos Medievais do Programa de Estudos Medievais daUFRJ.Realizada no Instituto de Filosofia e Cincias Sociais da UFRJ de 17 a 19 deNovembro de 2003.368 p. - Rio de Janeiro, fevereiro de 2003.Programa de Estudos Medievais ISBN 85-88597-04-7Idade Mdia

    HistriaFilosofiaLiteraturaArteTeologia______________________________________________________________

    Programa de Estudos MedievaisLargo de So Francisco, 1 - sala 325-BCentro - Rio de Janeiro - RJCEP 20051-070E-mail: [email protected]: www.pem.ifcs.ufrj.br

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    V SEMANA DE ESTUDOS MEDIEVAIS

    17 a 19 de Novembro de 2003

    Realizao:Programa de Estudos Medievais da UFRJ

    http:/ / www.pem.ifcs.ufrj.br/

    Coordenao Geral:Leila Rodrigues da Silva

    Andria Cristina Lopes Frazo da Silva

    Comisso Organizadora:

    Carolina Coelho Fortes (Pem - UFRJ/ UGF)Daniele G. Gonalves e Souza (Pem - Mestranda PPGHC - UFRJ)Elisabeth da Silva dos Passos (Pem - Mestranda PPGHC - UFRJ)Fabrcia A. T. de Carvalho (Pem - Mestranda PPGHC - UFRJ)

    Apoio:ABREM - Associao Brasileira de Estudos Medievais

    ITF - Instituto Teolgico Franciscano de PetrpolisPROEG - Programa de Estudos Galegos da UERJPPGHC- Programa de Ps-Graduao em Histria Comparada da UFRJ

    NUEG - Ncleo de Estudos Galegos da UFFPR-5 - Pro-Reitoria de Extenso - UFRJ

    Patrocnio:Fundao Jos Bonifcio

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    Comisso Editorial:

    lvaro Alfredo Bragana Jnior (UFRJ)Mestre em Filologia Romnica (UFRJ)Doutor em Letras Clssicas (UFRJ)

    Andria Cristina Lopes Frazo da Silva (UFRJ)Mestre em Histria Antiga e Medieval (UFRJ)Doutora em Histria Social (UFRJ)

    Claudia Beltro da Rosa (UNIRIO)Mestre em Histria Antiga e Medieval (UFRJ)Doutora em Histria Antiga e Medieval (UFF)

    Leila Rodrigues da Silva (UFRJ)Mestre em Histria Antiga e Medieval (UFRJ)

    Doutora em Histria Social (UFRJ)

    Mrio Jorge da Motta Bastos (UFF)

    Mestre em Histria Social (UFF)Doutor em Histria Social (USP)

    Sandro Roberto da Costa (ITF)Doutor em Histria da Igreja

    (Universidade Pontifcia Gregoriana de Roma)

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    ndice

    Apresentao................................................................................................................11

    Programao................................................................................................................15

    ConfernciasMrio Jorge da Motta BASTOS Cristianismo, paganismo, relaes de poder e de produo na A lta Idade MdiaIbrica (sculos V / V III)......................................................................................23

    Sandro Roberto da COSTA "Deus o quer!" , mas... e Francisco? Os franciscanos e a pregao dasCruzadas.........................................................................................................................39

    Comunicaes GraduandosJimmy Sudrio CABRAL Leituras androcntricas em Tertuliano: um projeto de interdio do feminino

    mediante os alicerces de institucionalizao do discurso na igrejacrist.................................................................................................................................57

    Ana Paula Sampaio CALDEIRA Para alm de uma leitura literal do texto bblico................................................65

    Eber Cimas Ribeiro Bull das CHAGAS Judasmo e heresia......................................................................................................71

    Joo Fernando Silveira CORRA A cristianizao na Galiza do Sculo V I d.C. na perspectiva de Martinho deBraga....................................................................................................................75

    Nilton Lavatori CORRA So Boaventura e a iconografia franciscana..............................................................80

    Csar Chrisstomo MENDONA JUNIOR e

    Rodrigo dos Santos RAINHA A concepo e produo da traduo crtica do fragmento do epistolrio de S.Brulio.............................................................................................................................88

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    Anderson dos Santos MOURA Bispo, prncipe e obstinado: As "culpas" de frei Elias na Crnica de Salimbene deParma..............................................................................................................................96

    Carlos Gustavo Costa MOREIRA Fe Razo na obra Maimnides............................................................................103

    Bruno Borguignon MOTA Religio e hierarquias sociais na A lta Idade Mdia (Pennsula Ibrica SculosIV /V I I I ) ....................................................................................................................110Vanessa Pereira do NASCIMENTO

    O imaginrio medieval da morte atravs da literatura vicentina........................115Bruno de Melo OLIVEIRA A guerra no poema do Cid..............................................................................122

    Miguel de Almeida PADILHA FILHO A Igreja nos sculos X II e XIII e sua fora na consolidao de um senso comum;os hereges, o obstculo..........................................................................................130

    Thiago de Azevedo PORTO A tipologia da santidade na Pennsula Ibrica entre os sculos XI e X III........134

    Ana Cristina Campos RODRIGUES Os Votos do Faiso: ideais de cavalaria na corte borgonhesa do sculo XV.....140

    Vanessa Monique Menduia RODRIGUES V ida de San Milln de la Cogollae IV Conclio de Latro: a Igreja e o combate

    ao diabo na Pennsula Ibrica do sculo XIII...........................................................148

    Daniele SANDES F, Poder e Guerra: A Jihad do Profeta.........................................................156

    Marcos Antonio da SILVA FILHO V ontade em Santo Agostinho e Schopenhauer: L iberdade XFatalidade.................................................................................................163

    Victor de Azevedo TAIAR Seguindo para o salo dourado: A simbologia do poder no Beowulf..................170

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    Comunicaes Graduados e Ps-GraduandosLeonardo Ferreira ALMADA O problema da conciliao entre o livre-arbtrio e a prescincia divina em SantoAgostinho......................................................................................................................181

    Maria Augusta ANDR A concepo isidoriana de arianismo presente na obra H istria dos Godos........189

    Fabrcia A. Teixeira de CARVALHO A linguagem e a imagem..........................................................................................196

    Andra Alvares da CUNHA Os Mouros nas Ordenaes A fonsinas..................................................................202

    Tatiana Rocha CUSTODIO A reforma e a cavalaria..........................................................................................208

    Rita de Cssia Damil DINIZ A concepo de Caridade em duas obras de Isidoro deSevilha...........................................................................................................................216

    Ana Leticia Pereira Marques FERREIRA A presena do medieval em A vida de Lazarillo de Tormes e das suas Fortunas eAdversidades.................................................................................................................223

    Ava Batista FERREIRA Cnone e dissidncia na Cano dos N ibelungos Um estudo da personagemHagen De Tronje..........................................................................................................229

    Carolina Coelho FORTES Elizabeth da Hungria: mais um exemplo de masculinizao da santidadefeminina em Tiago de V oragine...................................................................................236

    Beatris dos Santos GONALVES O caso dos benzedeiros: um estudo das atuaes mgicas sobre os corpos enfermosno medievo portugus (sc. XV )..................................................................................245

    Edna Mrcia Borges de JESUS

    Imagens agostinianas no sculo XV II....................................................................253

    Leonila Maria Murinelly LIMA A movncia do lugar de Deus e da morte em o Stimo Selo de Ingmar Bergman......................262

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    Nelson de Aguiar MENEZES NETO Teoria tomsica do conhecimento......................................................................272

    Sonia Amoedo MIGUEZ As vivas nos conclios visigticos - sculo V II......................................................279

    Denise da Silva Menezes do NASCIMENTO As beguinas e o amor s virtudes.....................................................................288

    Elisabeth da Silva dos PASSOSKarina Dias MURTHA Os gestos nos textos normativos da Ordem dos Frades Menores: a Regra para os

    eremitrios, a Regra No-Bulada e a Regra Bulada..................................................297

    Danbia Tupinamb PIMENTEL A peregrinatio em Auto da A lma e Morte e V ida Severina............................305

    Leandro Duarte RUST Entre a norma e a insurreio: consideraes sobre a aplicao do conceitobourdieuriano de "campo" ao universo religioso do Ocidente Medieval entre 1198 e

    1215...................................................................................................................312Renata Rozental SANCOVSKY Converses foradas e resistncia na obra de Maimnides (1135-1204): Umestudo sobre a intolerncia religiosa medieval.........................................................322

    Ivanise de Souza SANTOS O cavaleiro medieval no sculo X IX.......................................................................329

    Daniele Gallindo Gonalves e SOUZA Wolfram von Eschenbach e sua obra Parzival: questionamentos acerca daapropriao do texto literrio pela historiografia.........................................................338

    Fernando Gralha de SOUZA A Idade Mdia nas relaes entre Cinema e Histria...........................................347Maria Carolina Viana VIEIRA

    O heri medievo revisitado na narrativa galega contempornea.............................354

    Guilherme WYLLIE A teoria ockhamista da conotao..........................................................................362

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    Apresentao

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    Apresentao

    com muita satisfao que lanamos as Atas daV Semana

    de Estudos Medievais. Neste volume encontram-se os textos

    selecionados pela comisso editoral dentre os apresentados noreferido evento e remetidos apreciao. A atividade, realizadaentre os dias 17 a 19 de Novembro de 2003, foi promovida peloPrograma de Estudos Medievais da UFRJ, patrocinada pelaFundao Jos Bonifcio e apoiada pela Associao Brasileira deEstudos Medievais - ABREM; Instituto Teolgico Franciscano dePetrpolis - ITF; Programa de Estudos Galegos da UERJ -

    PROEG; Programa de Ps-graduao em Histria Comparada daUFRJ - PPGHC; Ncleo de Estudos Galegos da UFF - NUEG, ePro-Reitoria de Extenso - UFRJ - PR-5.

    O encontro, cuja programao figura nesta publicao,insere-se no processo de consolidao das Semanas de EstudosMedievaiscomo um espao que privilega o intercmbio acadmico ea divulgao das pesquisas desenvolvidas por estudiosos do

    perodo medieval ainda em fase de formao. Concebida comouma atividade de carter interdisciplinar, a V Semana de EstudosMedievais contou com a participao de pesquisadores einteressados provenientes das reas de Histria, Literatura,Filosofia, Teologia e afins.

    As presentes A tas esto divididas em trs sees. Naprimeira, reproduzimos, seguindo a ordem da programao, duasdas conferncias proferidas. Na segunda e terceira sees, porordem alfabtica do sobrenome dos autores, reunimos os textosdos trabalhos selecionados pela comisso editorial formada pelosProfessores Doutores lvaro Alfredo Bragana Jnior (UFRJ);Andria Cristina Lopes Frazo da Silva (UFRJ), Claudia Beltro daRosa (UNIRIO); Leila Rodrigues da Silva (UFRJ); Mrio Jorge daMotta Bastos (UFF) e Sandro Roberto da Costa (ITF).Respeitando os diferentes nveis das pesquisas apresentadas

    durante a V Semana de Estudos Medievais, reunimos na segundaseo os textos identificados com os primeiros estgios dainvestigao cientfica, redigidos por alunos que ainda esto

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    cursando a Graduao, e reservamos a terceira seo para ascomunicaes elaboradas por graduados e ps-graduados, quefinalizaram seus trabalhos no decorrer do ano letivo de 2003, eps-graduandos.

    Embora o contedo e o estilo de cada trabalho tenhamsido rigorosamente respeitados, buscamos, na medida do possvel,para facilitar a consulta e leitura desta obra coletiva, suprimireventuais listas bibliogrficas apresentadas pelos autores, euniformizar a apresentao formal dos textos e das notas. Para taltarefa nos baseamos no Manual de organizao de referncias e citaesbibliogrficas para documentos impressos e eletrnicos, de Gildenir Carolino

    Santos, editada pela UNESP em 2000. Esta obra, conformeindicado em suas primeiras pginas, alm de atender as indicaesestabelecidas pela Associao Brasileira de Normas Tcnicas(ABNT), fornece orientaes para as referncias de materiaisprovenientes da Internete suportes eletrnicos.

    Com a presente publicao esperamos fornecer umaimportante amostragem dos estudos realizados no Rio Janeiro

    sobre a Idade Mdia. Cabe salientar, por fim, que as tendnciastemticas e terico-metodolgicas aqui contidas evidenciam noapenas a afinidade com as abordagens e perspectivas internacionaismais recentes, mas tambm o crescente interesse pelo universomedieval existente no mbito das instituies fluminenses.

    Andria Cristina Lopes Frazo da SilvaLeila Rodrigues da Silva

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    Programao

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    Programao

    Dia 17 de novembro, Quarta-feiraSesses de Comunicao: 14h s 16h

    Mesa 1:A proximaes ao Franciscanismo MedievalCoordenao: Prof. Dr. Fr. Sandro Roberto da Costa (ITF) Fr. Nelson de Aguiar Menezes Neto (Teologia - ITF) - Teoria Tomsica

    do conhecimento Andr Luis Pereira (Teologia - ITF) - A Igreja hierrquica e o

    Franciscanismo medieval: entrecruzamento e dilogo. Um estudo dosOpusculaSancti Patris Francisci A ssisiensis

    Fr. Alex Sandro Ciarnoscki (Teologia - ITF) - V iso Franciscana do SerHumano

    Fr. Jos Francisco de Cssia dos Santos (Teologia - ITF) - O leproso noprocesso de converso de Francisco de A ssisMesa 2:A Tradio Medieval RevisitadaCoordenao: Prof Ms. Carolina Coelho Fortes (UGF)

    Ana Tereza de Andrade (Histria - UERJ) - A uto da Compadecida: o jogocnico do bufo

    Ivanise de Souza Santos (Letras - UERJ) - O cavaleiro medieval no sculoX IX

    Leonila Maria Murinelly Lima (Letras - UERJ) -A Movncia do lugar deDeus e da morte emO Stimo Selode Ingmar Bergman

    Mesa 3:Poder e Religio na Idade MdiaCoordenao: Prof. Dr. Mrio Jorge da Motta Bastos (UFF)

    Daniele Sandes (Histria - UFF) -F, Poder e Guerra: ajihaddo Profeta Bruno de Melo Oliveira (Histria - UFF) -A guerra no Poema do Cid Elisa Tavares Duarte (Histria - UFF) - A imagem rgia na Baixa Idade

    Mdia: o espelho em lvaro Pais

    Victor de Azevedo Taiar (Histria - UFF) - Seguindo para o salo dourado:a simbologia do poder em Beowulf

    Sesses de Comunicao: 16h15 s 18h15Mesa 4:Idade Mdia: temtica, abordagens e perspectivasCoordenao: Prof. Dr. Marcos da Silva Cruz (FIS)

    Fernando Gralha de Souza (Histria - UCAM) - A Idade Mdia nasrelaes entre Cinema e H istria

    Bruno lvaro (Histria - FIS) - Georges Duby e o Domigo de Bouvines Valria Gonalves (Histria - FIS) - Comportamentos femininos desviantes

    nos sculos X II-X III Ricardo de Oliveira Reis (Histria - UERJ) - A gastronomia na Idade

    Mdia: uma receita de sociedade

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    Mesa 5:Fragmentos de Teologia na Idade MdiaCoordenao: Prof. Ms. Valtair Miranda (STBSB)

    Valtair Miranda (Teologia - STBSB) -Leituras do Apocalipse em Eusbio deCesaria

    Osvaldo Luis Ribeiro (Teologia - STBSB) - Estatutos da InterpretaoOficial de textos cannicos da Igreja Cristnos marcos de entrada e de sada daIdade Mdia

    Jimmy Sudrio Cabral (Teologia - STBSB) - Leituras A ndrocntricas emTertuliano: um projeto de interdio do feminino mediante os alicerces deinstitucionalizao do discurso na igreja crist

    Iracema Andrade de Alencar (Histria - UFRJ) - O fim dos tempos e suasrepresentaes medievais

    Mesa 6:O Homem Medieval e a Intolerncia: estudos sobre opresso e resistncia

    Coordenao: Prof. Ms. Renata Sancovsky (UGF - USP) Renata Rozental Sancovsky (Histria - UGF - USP) - ConversesForadas e Resistncia na obra de Maimnides (1135-1204): um estudo sobre aintolerncia religiosa medieval

    Fabiana Pequeno Almeida da Silva (Histria - UGF) - A s Origens doanti-semitismo cristo na H istria Eclesistica de Eusbio de Cesaria

    Eber Cimas Ribeiro Bulle das Chagas (Histria - UGF) - Judasmo eHeresia

    Daniel K limroth Soares (Histria - UGF) - Contos populares medievais: osfabliaux

    Conferncia: 18h30 s 20h" Deus o quer" , mas... e Francisco?: os franci scanos e a pregao dasCruzadasProf. Dr. Fr. Sandro Roberto da Costa, OFM (Teologia - ITF)

    Atividade Cultural: 20hLeitura da peaAbelardo, H eloisade Clara de Ges

    Dia 18 de novembro, Quinta-feiraSesses de Comunicao: 14h s 16hMesa 7:Igreja, heresia e poder na Pennsula I brica nos sculos IV -V ICoordenao: Prof. Ms. Marcelo Pereira Lima (SME - Angra dos Reis/ SEE -RJ)

    Andr Lus V. B. Tavares Reis (Histria - UFRJ) - O II I Conclio deToledo e o fortalecimento da figura real

    Joo Fernando Silveira Corra (Histria UFRJ - PIBIC) - Acristianizao da Galiza no sculo V I na perspectiva de Martinho de Braga

    Jaqueline de Calazans (Histria Comparada - UFRJ) - Um olhar sobre oPriscilianismo: aspectos da trajetria do movimento do sculo IV ao V I

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    Mesa 8:Mulher, corpo e religiosidade na Idade MdiaCoordenao: Prof Dr Gracilda Alves (UFRJ)

    Denise da Silva Menezes do Nascimento (Histria Comparada - UFRJ)-A s Beguinas e o Amor s V irtudes

    Beatris dos Santos Gonalves (Histria Comparada - UFRJ) - O caso dosbenzedeiros: um estudo das atuaes mgicas sobre os corpos enfermos no medievoportugus (sculo XV )

    Elisabeth da Silva dos Passos (Histria Comparada - UFRJ) e KarinaDias Murtha (Histria - SES-RJ) -Os gestos nos textos normativos da Ordemdos Frades Menores: aRegra para os Eremitrios, aRegra No-Bulada e aRegraBulada

    Carolina Coelho Fortes (Histria - UFRJ/ UGF) - Elizabeth da Hungria:mais um exemplo de masculinizao da santidade feminina em Tiago de V orgine

    Mesa 9:A spectos da Pennsula Ibrica Medieval no MedievoCoordenao: Prof Dr Maria do Carmo Parente Santos (UERJ) Leandro Augusto Martins Jnior (Histria - UERJ) - V isigodos na

    Pennsula Ibrica

    Rita de Cssia Damil Diniz (Histria Comparada - UFRJ) A concepoda caridade em duas obras de Isidoro de Sevilha

    Maria Augusta Andr (Histria - UFRJ) - A concepo isidoriana dearianismo presente na obraHistria dos Godos

    Carlos Gustavo Costa Moreira (Histria - UERJ) - Fe Razo na obraMaimnides

    Sesses de Comunicao: 16h15 s 18h15Mesa 10:Sociedade e Poder no Ocidente Cristo MedievalCoordenao: Prof. Dr. Mrio Jorge da Motta Bastos (UFF)

    Bruno Borguignon Mota (Histria - UFF - PIBIC) - Religio ehierarquias sociais na A lta Idade Mdia: Pennsula Ibrica, sculos IV a V III

    Ana Cristina Campos Rodrigues (Histria - UFF) - Os votos do Faiso:ideias de cavalaria na cortes borgonhesa do sculo XV

    Viviane Negreiros (Histria - UFF) - Tempo, Espao e Ritual: L es TrsRichies Heures du Duc de Berry

    Andra Alvares da Cunha (Histria - UFF) - Os mouros nas OrdenaesA lfonsinas

    Mesa 11:Expresses daFilosofia MedievalCoordenao: Cludia Beltro da Rosa (UNIRIO)

    Leonardo Ferreira Almada (Filosofia - UFRJ/ CAPES) - O problema daconciliao entre o livre-arbtrio e a prescincia divina em A gostinho

    Marcos Antonio da Silva Filho (Filosofia - UFRJ) - V ontade em SantoA gostinho e Schopenhauer: L iberdade X Fatalidade Guilherme Wyllie(UCP - PUC - RJ) - A teoria ockhmista da conotao

    Fbio Cndido (Filosofia - UFRJ) -A morte triunfal de Deus

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    Mesa 12:A Idade Mdia Hoje: trabalhando com fontesCoordenao: Prof. Dr. Fbio Lessa (UFRJ)

    Priscila Gonsalez Falci (Histria - UFRJ - PIBIC) - Banco de Dados sobretextos hagiogrficos produzidos por e/ ou sobre membros das Ordens Mendicantes

    nas Pennsulas Ibrica e Itlica Thiago de Azevedo Porto (Histria - UFRJ - PIBIC) - A Tipologia da

    Santidade na Pennsula Ibrica entre os sculos X I e X III Csar C. Mendona Jnior (Histria - UFRJ) e Rodrigo dos S. Rainha

    (Histria UFRJ - PIBIC) - A concepo e produo da traduo crtica dofragmento doEpistolrio de So Bulio

    Marilak Ambrosia N. dos S. Fonseca (Histria - UERJ) - A s repercussesda Guerra dos Cem A nos na Pennsula Ibrica

    Mesa 13:Consideraes sobre a L iteratura Germnica MedievalCoordenao: Prof. Dr. lvaro Bragana (UFRJ) Daniele Silva de Oliveira (Letras - UFRJ) - O Drama Gtz von

    Berlichingencomo forma de interpretao e expresso do medievo: algumasconsideraes

    Elizabeth Maria da Penha Gama (Letras - UFRJ) -Uma evoluo histrico-cultural do conceito devirtus/ tugentda A ntigidade atos cavaleiros medievais:uma viso da L iteratura

    Ava Batista Ferreira (Letras - UFRJ) - Cnone e dissidncia na Cano dosN ibelungos - um estudo da personagem Hagen de Tronje

    Rejane Barboza da Silva (Letras - UFRJ) - Meister Eckhart e o L ivro daDivina Consolao: consideraes histrico-literrias sobre o misticismo alemo daBaixa Idade Mdia

    Conferncia: 18h30 s 20hCristianismo, paganismo, relaes de poder e de produo na Alta IdadeMdia Ibrica (sculos V - VIII)Prof. Dr. Mrio Jorge da Motta Bastos (Histria - UFF)

    Dia 19 de novembro, Sexta-feiraSesses de Comunicao: 14h s 16hMesa 14:Igreja, marginal idade e excluso na Idade MdiaCoordenao: Prof Ms. Marta Silveira Bedjer (UGF)

    Miguel de Almeida Padilha Filho (Histria - UGF) - A Igreja nos sculosX II e X II I e sua fora na consolidao de um senso comum; os hereges, o obstculo

    Eduardo Vito Barbosa (Histria - UGF) - A dupla face do discurso cristo:hipocrisia e perseguio s prostitutas no sculo X III

    Eber Cimas Ribeiro Bulle das Chagas (Histria - UGF) - Os Judeus e aIgreja

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    Mesa 15:A tualizaes de Idade MdiaCoordenao: Prof Dr Maria do Amparo Maleval (UERJ)

    Danbia Tupinamb Pimentel (Letras - UERJ) - A peregrinatio no A utoda alma e em Morte e V ida Severina

    Caroline Moreira Reis (Letras - UERJ) - Da necessidade do estudo daliteratura medieval galego-portuguesa Maria Carolina Viana Vieira (Histria - UERJ) - O heri medievo revisitado

    na narrativa galega contempornea Ana Letcia Pereira Marques Ferreira (Histria - UERJ) - A presena do

    medieval emA vida de L azarillo de Tormes e das suas fortunas e adversidades

    Mesa 16:Reflexes sobre o mal e o pecado na Idade MdiaCoordenao: Prof Dr Ana Paula Pereira (Sreder Bastos / UERJ)

    Iamara da Silva Viana (Histria - UFRJ)- Consideraes acerca dos trspecados da carne na obra Os Sinnimosde Isidoro de Sevilha Juliana Ribeiro Bonfim (Histria - UFRJ)-Os pecados medievais Vanessa Monique Menduia Rodrigues (Histria - UFRJ)- V ida de San

    Millan de la Cogolla e IV Conclio de L atro: a Igreja e o combate ao diabo naPennsula Ibrica do sculo X III

    Anderson dos Santos Moura (Histria - UFRJ) - Bispo, prncipe eobstinado: as culpas de frei Elias naCrnicade Salimbene de Parma

    Mesa 17:Expresses do Cristianismo nos Sculos X II-X II ICoordenao: Prof Cristina da Silva Melo

    Claudia Mendes dos Santos Gonalves (Histria - UFRJ) - A rquiteturagtica em terras germnicas

    Jlio Cesar Salles Boaventura (Histria - UFRJ) - Francisco de A ssis entreos ideiais evanglicos e a ortodoxia

    Natalia Barbosa de Andrade (Histria - UFRJ) -A importncia da liturgiana vida do monge cluniacense

    Tatiana Rocha Custdio (Histria - UFRJ) - A Igreja e a Cavalaria

    Sesses de Comunicao: 16h15 s 18h15Mesa 18:Objetos e A bordagens em H istria MedievalCoordenao: Prof. Dr. Francisco Jos Silva Gomes (UFRJ)

    Andr da Motta Paiva (Histria - UFRJ) -Hagiografia Cltica Vanessa Pereira do Nascimento (Histria - UFRJ) - O imaginrio

    medieval da morte atravs da literatura vicentina Juliana Spohr (Histria - UFRJ) - O Manual do Inquisidor: uma anlise da

    heresia dos Pseudo-A pstolos Thiago de Niemeyer Matheus Loureiro (Histria - UFRJ) -Missionao e

    Poltica Externa no Imprio Bizantino, sculos IX e X

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    Mesa 19:Iconografia dos santos medievaisCoordenao: Prof. Vicente Saul M. dos Santos

    Edna Marcia Borges de Jesus (Histria - UFRJ) - Imagens agostinianas nosculo XV II

    Karen do Nascimento Moreno (Histria - UFRJ) - A obra hagiogrfica deDiogo do Rosrio, O.P. Nilton Lavatori Corra (Histria - UFRJ)-So Boaventura e a iconografia

    franciscana

    Mesa 20:Reflexes sobre a produo intelectual na Idade MdiaCoordenao: Prof Dr Miriam Lourdes Impellizieri Silva (UERJ)

    Ana Paula Sampaio Caldeira (Histria - UFRJ)- Para alm de uma leituraliteral da Bblia

    Jefferson Eduardo dos Santos Machado (Histria - UFRJ) - Aimportncia da cultura adquirida em Portugal na construo da obra intelectualantoniana

    Sabina dos Santos Costa (Histria - UFF)- O carter pedaggico dos"espelhos de prncipes" : o exemplo do Speculum Regum de D. lvaro Pais(Portugal -sculo XIV )

    Daniele Gallindo Gonalves e Souza(Histria Comparada - UFRJ)-Wolfram von Eschenbach e sua obra Parzival: questinamentos acerca daapropriao do texto literrio pela historiografia

    Mesa 21:Os espaos do sagrado na Idade MdiaCoordenao: Prof Dr Regina Bustamante (UFRJ)

    Mrcia Cardoso de Cardoso (Histria - UFRJ/ Filosofia - UERJ)ePlcido Rios Moreira Jnior (Histria - UFRJ)- Etria: a viagem e o espaomedieval em perspectiva religiosa

    Edilaine Vieira Costa (Histria - UFRJ)- Consideraes sobre a peregrinaode Egria como forma de busca da salvao

    Leandro Duarte Rust(Histria Comparada - UFRJ)-Entre a norma e aressurreio: consideraes sobre a aplicao do conceito bourdieuriano de campo ao

    universo religioso do Ocidente Medieval entre 1198 e 1215 Fabrcia Anglica Teixeira de Carvalho (Histria Comparada - UFRJ)-

    A linguagem e a imagem

    Conferncia: 18h30 s 20hUm pequeno regimento contra a pesteProf Dr Maria Carlota Rosa (Lingstica e Filologia - UFRJ)

    Atividade Cultural: 20hLanamento dos livros A cidade medieval. Os grandes debateshi storogrfi ose Cidade e H istria do Prof. Dr. Jos D'Assuno Barros(Universidade Severino Sombra)

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    Conferncias

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    Cristianismo, paganismo, relaes de poder e de produona Alta Idade Mdia Ibrica (sculos V/ VIII)

    Mrio Jorge da Motta Bastos\

    O objeto central desta conferncia consiste na anlise da afirmaoda hegemonia aristocrtica no contexto da implantao do regimesenhorial na Pennsula Ibrica entre os sculos IV e VIII, enfatizando,para a caracterizao deste processo, as articulaes entre cultura, religioe relaes sociais de produo. Considero, pois, que o mbito essencialpara a anlise do binmio religio/ cultura no perodo no que se refere,inclusive, s complexas questes relacionadas converso ao

    cristianismo, s "sobrevivncias pags" e constituio de uma "religiopopular" seja o da prpria sociedade, em seus mecanismos deconstituio, ordenao e funcionamento, com as contradies econflitos internos que a caracterizaram.

    Estabelecida a perspectiva de fundo que orienta a minhaabordagem, passo a caracterizar os principais tpicos ou questes que searticulam no seu desenvolvimento. A primeira delas refere-se prpriaconfigurao de um processo em suas linhas de fora essenciais, que para

    efeitos de nomenclatura poder-se-ia configurar como o da formao dasociedade senhorial na Pennsula Ibrica entre os sculos IV e VIII. Embusca de sua dinmica global, parto da caracterizao da expanso de umregime hegemnico articulador das relaes entre dominantes (classeexploradora que defino como senhorial) e dominados (submetidos arelaes de explorao diversas mas, em particular, pela tendncia daprogressiva homogeneizao no interior de uma classe servil), calcado nareduo do campesinato independente e nas transformaes sofridas

    pelas instituies familiares, submetidas a um movimento paralelo defracionamento e inter-relao.Trata-se, portanto, de abordar, na constituio e funcionamento

    desta sociedade, os elementos cruciais que, em sua articulao oudependncia recproca, fundamentavam a afirmao da ascendnciaaristocrtica sobre as comunidades camponesas dependentes. Para tanto,em primeiro lugar, oponho-me a qualquer abordagem que mais oumenos sofisticadamente considere a sociedade ou o "mundo" como

    \Professor do Departamento de Histria da Universidade Federal Fluminense. Mestreem Histria Social pela Universidade Federal Fluminense e Doutor em Histria Socialpela Universidade de So Paulo.

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    realidades exteriores Igreja. Seus processos fundamentais lhe dizemrespeito, impelem esta instituio "atemporal" ao movimento, inserindo-a na dinmica da Histria. Assim, a prpria implantao e disseminaoda "estrutura fsica" (rede de templos, fossem igrejas ou mosteiros) e

    hierrquica da Igreja, ampliando-se e promovendo o enquadramentoterritorial da Pennsula processo que avanou a passos largos desdemeados do sculo V guarda ntima relao com o verdadeiro assalto doepiscopado hispano pelos epgonos da poderosa aristocracia senatorialtardo-romana, a par da rpida proliferao das igrejas e mosteiros"prprios" edificados no interior dos patrimnios laicos.1A progressivaascendncia aristocrtica sobre os postos chave da Igreja, e o carter dasrelaes estabelecidas no seu "interior" constituem-se em elementos

    essenciais compreenso de sua insero social, e do cartertranscendente que a instituio chega a assumir, residindo este menos emuma contraposio entre seu teor sagrado especfico e a sociedadeterrena do que nos vnculos entre ambos estabelecidos.

    Em segundo lugar, parece-me indispensvel reequacionar asbases em que tradicionalmente vem desenvolvendo-se as anlisesrelativas converso das sociedades ocidentais europias ao cristianismodurante a Alta Idade Mdia. Em linhas muito gerais, subjaz a diversas

    correntes analticas,2 obviamente segundo diferentes matizes, umaperspectiva central que lhes d o tom, delineia e unifica: a cultura onvel essencial a ser considerado, pois nele que se insere pleno ofenmeno da converso e da religio popular. Assim, o problemaessencial parece residir nas nuanas que marcaram um complexoprocesso de contato cultural, oscilando os especialistas na avaliao doseu elemento dinmico e, na extenso, definidor. Variando os nveisconsignados de rejeio ou assimilao mtua entre as culturas (cultura

    da elite e cultura popular), delineia-se tanto um processo cuja marcaessencial teria sido o conflito e a rejeio, como outro no qual a tnicaresidiu em uma mtua assimilao, mais ou menos pacfica, que se teriaproduzido naturalmente, ao longo do tempo.

    A meu juzo, insistir em um dos plos, em detrimento do outro,implica menos em qualificar do que em atomizar o processo, privando-ode seu elemento dinmico, a dialtica com que se moveu. E se esta no

    1Ver GARCA MORENO, L.A. lites e Iglesia hispanas en la transicin del imperioromano al reino visigodo. In: CANDAU, Jos Maria et al. La Conversin de Roma.Cristianismo y Paganismo. Madrid: Ediciones Clsicas, 1990. p. 223-258.2Ver, entre outros, JOLLY, Karen L. Popular Religion in L ate Saxon England.North Carolina: The University of North Carolina Press, 1996.

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    se traduz em uma oposio radical, alheia a nveis de contato einfluncias recprocas, tambm no se manifesta por uma plena eequilibrada assimilao que viesse a redundar em uma criao culturalnica. H manifestaes contraditrias, qui sobretudo relaes

    conflitantes cuja expresso desafiam a suposta vigncia de um amploconsenso, destacando um processo de converso dificilmente redutvel aqualquer direcionalidade uniforme.

    A dificuldade talvez resida na concepo de sua concluso. Oconceito antropolgico de aculturao investe, fundamentalmente, napremissa de uma direcionalidade que envolve "perda", imposio e"adaptao",3reduzindo a complexidade do fenmeno a uma equaoque perde de vista os elementos de criao, distanciamento e confronto.

    Ainda que se afirme como elemento central converso um processo demtua assimilao cultural, resisto a conceber a transformao dadecorrente como expresso de um lento percurso em direo plenaidentidade. Outro aspecto a considerar refere-se ao conceito de culturacorrentemente adotado nas abordagens da converso. Pautadas por umavigorosa inflexo da antropologia, a referncia dominante investe naperspectiva dos "valores partilhados" ou de um "sistema de valores,crenas, idias e viso de mundo, e os rituais e prticas que expressam

    tais valores". Seja qual for a utilidade deste conceito para a anlise desistemas sociais relativamente igualitrios, ele no adequado abordagem de sociedades de classe. Em situaes de conflito de classe, anoo de valores partilhados no pode ser mais do que um ponto departida para um conceito mais especfico, visando a compreenso tantoda imposio da hegemonia cultural das classes dominantes quanto aformao de culturas oposicionistas.

    A prossecuo desta abordagem demanda o recurso a um

    conceito de cultura que ultrapasse as definies centradas no seucontedo e circunscreva o sentido das articulaes entre cultura erelaes sociais. Matizando a conceituao proposta por Gerald M.Sider,4proponho que a essncia da cultura, e da religio como campoprimordial de sua manifestao, consiste na maneira pela qual osindivduos entendem, definem, articulam e expressam as relaesestabelecidas entre si e com a natureza. Em sociedades de classe, oumesmo naquelas caracterizadas por uma profunda hierarquizao e

    3Perspectiva patente, por exemplo, em JOLLY, Karen L. Ibid. passim.4SIDER, Gerald M. Culture and class in anthropology and hi story. A Newfoundlandillustration.Cambridge: Cambridge University Press, 1989. p. 120.

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    apropriao desigual da produo, esta forma de percepo social emodo de comportamento esto mediados, de um lado, pelos aspectosrelativamente igualitrios da organizao do trabalho e da vida cotidiana(e da reproduo deste domnio ao longo do tempo) e, de outro, pelo

    domnio primariamente desigual da apropriao do produto e dareproduo da apropriao. O conceito marxista de produo destaca aprofunda articulao existente entre a organizao do trabalho e aapropriao do seu produto e, de fato, sob o capitalismo a prpriaorganizao do trabalho reproduz formas de domnio e controle. Mas,nem mesmo sob este sistema uma tal conexo, ainda que muito slida eestreita, total. E nas formas pr-capitalistas de organizao social eprodutiva, onde as comunidades e famlias so o mbito da organizao

    do trabalho, a conjuno entre este e a apropriao feita atravs demltiplas e diversas conexes. No contexto de minha anlise, a relaode dominao impunha-se como relao essencial de apropriao, e noquadro de uma sociedade na qual os grupos humanos encontram-se emntima relao com a natureza, instaurando-se uma "unidade" quepermite que o poder do proprietrio possa sustentar-se em relaespessoais, em uma espcie de comunidade.

    Nestas, as unidades familiares produtoras, em que pese a maior

    ou menor fragilidade, ou a mediao, e at mesmo os limites que seimpunham s suas relaes comunitrias, eram ncleos de produo desubsistncia no sentido mais vigoroso da expresso. Satisfaziam por siprprias as pores chave de suas necessidades, organizavam grandeparte do processo de trabalho no seu interior e no da prpria aldeia, eademais detinham, produziam, e reproduziam os meios fundamentais deproduo que, no caso da sociedade de que tratamos, inclua aquilo que,na esteira de Maurice Godelier, poderamos configurar como a "a parte

    ideal do real",5o ritos propiciatrios e de fertilidade que integravam asforas produtivas no perodo. Se no h histria sem produo, arrisco-me a afirmar que tambm no h produo,6e sequer apropriao, semcultura. Se os camponeses serviam a seus senhores de acordo com ocostume, estes constituem-se tanto em uma arena de confrontos quantoem uma base de colaborao duradoura com as foras sociais dedominao.

    5GODELIER, M. L idel et le matriel.Pense, conomies, socits.Paris: Fayard, 1984.6Matizo a perspectiva enunciada por E.P. Thompson. Folclor, antropologa e historiasocial. In: ___.H istori a Social y Antropologa. Mxico: Instituto Mora, 1997. p. 77.

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    Visando caracterizar a amplitude da relao de dominium, masinclusive suas defasagens e contradies, recorro, matizando-o, aoconceito gramsciano de hegemonia.7Se a autonomia relativa da culturareside no seu embasamento em diversas estruturaes da ordem social,

    proponho que a hegemonia seja aquele aspecto da cultura que, napresena do conflito ou oposio, visa mais diretamente unificar trabalhoe apropriao, estendendo-a para alm do trabalho, ao interior da famlia,da comunidade e, enfim, para a prpria vida cotidiana. Proponho que areligio, e a cultura partilhada no perodo possam, no intercmbiodialtico que mantm com as relaes sociais, ter sido elementos deafirmao do statuse das pretenses das elites, atuando, portanto, emprol da afirmao de sua ascendncia social. Em outras palavras, ao

    propalado domnio da religio sobre os espritos no perodo em questobusca-se delinear as bases complexas de sua efetiva realizao. Quanto aestas, seu elemento de fundo parece-me residir na conjugao de doisprocessos, ou, antes, na intrnseca articulao que os vincula, o datransformao das relaes de produo, das formas do exerccio dopoder e da dominao e o da implantao e expanso do cristianismo,com as concepes que elabora, divulga e busca afirmar socialmenteacerca das relaes humanas com a "esfera do sagrado". Dedico-me,

    pois, na seqncia, a abordar, ainda de que forma esquemtica, algumasdas perspectivas centrais relativas a estas relaes expressas em fontesdiversas da Pennsula Ibrica do perodo.

    A documentao visigtica traz tona, reiteradamente, umconjunto de crenas e prticas definidas como pags e, na extenso,condenadas e combatidas pelas autoridades. Considerando os seuscampos de manifestao, destaca-se uma elevada incidncia de crenas eprticas inseridas no mbito de atividades e necessidades vrias,

    fundamentais e correntes na vida quotidiana e trabalho das comunidadescamponesas como a fertilidade dos campos, a garantia e preservaodas colheitas, a proteo da casa e do trabalho domstico almdaquelas que podem estar diretamente associadas importncia crucialdas atividades nas reas incultas (cultos s rvores, rios, mar, fontes).Referimo-me, assim, a um campo essencial da estruturao dassociedades humanas, aquele que se refere s relaes entre os homens e anatureza. Nenhuma ao material do homem sobre a natureza, nenhuma

    ao intencional, pode desenvolver-se sem envolver, desde seu incio, na7GRAMSCI, Antonio. Prison notebooks.New York: International, 1971; SIDER,Gerald M. op. cit., em especial p. 119-128.

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    inteno, as realidades "ideais", isto , as representaes, os julgamentos,os princpios do prprio pensamento que no so apenas os reflexos nopensamento das relaes materiais nascidas fora dele, antes dele e semele.

    "No mago das prprias relaes materiais do homem coma natureza manifesta-se uma parte ideal na qual seexpressam e imiscuem-se trs funes do pensamento, qualsejam, a de representar, organizar e legitimar as relaes doshomens entre si e com a natureza."8

    imperioso notar a equivalncia das funes atribudas porJean-Claude Schmitt9 religio na Idade Mdia, concebida como umimaginrio social que concorre ao mesmo "objetivo" definido acima. Opensamento no existe como uma instncia separada das relaes sociais.Quando analisamos o aspecto mais "material" das realidades sociais, asforas produtivas de que a sociedade dispe para agir sobre a naturezaque a cerca, constata-se a existncia de dois componentesintrinsecamente articulados, uma parte material, composta pelosutenslios, ferramentas, pelo prprio homem, e uma parte ideal manifestanas representaes da natureza, nas regras de fabricao e emprego dosutenslios, etc.. Todas as esferas de atividades concretas elaboradas pelohomem para apropriar-se das realidades materiais contm e combinam,ao mesmo tempo e necessariamente, os gestos e as condutas "materiais"para agir sobre seus aspectos visveis e tangveis, alm dos gestos econdutas que designaramos como "simblicas", visando agir sobre seufundo ltimo invisvel, como nos ritos propiciatrios e de fertilidade naagricultura.

    Assim, se o desvendar da ordem do mundo constitui-se emelemento crucial consecuo da produo, um mesmo sistema podeestar atravessado por "idealidades" distintas, mais ou menos

    concorrentes, conflitantes e irredutveis entre si, sobretudo em situaesde profundas clivagens sociais. Portanto, e em sentido amplo, oestabelecimento de relaes de produo especficas transcende o mbitomaterial restrito at envolver a construo e a partilha das representaesda ordem do mundo, das relaes dos homens com a natureza, que sotambm relaes estabelecidas pelos homens entre si, como elementoindispensvel produo e reproduo destas relaes.

    8GODELIER, M. op. cit., p. 188.9SCHMITT, Jean-Claude. Une histoire religieuse du Moyen Age est-elle posible?.Prfaces,n. 19, p.77-78, 1990.

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    Em toda sociedade, as formas de propriedade do territrio tomama forma de relaes sociais que funcionam como quadros da produo,isto , como relaes sociais de produo. Portanto, a propriedade,menos que um bem, uma forma tomada pelas relaes sociais. E a

    cultura, segundo proponho, outra. Ambos os domnios, em sociedadesde classes, esto vinculados, remetendo-nos s expresses e srepresentaes das relaes dos homens entre si e com a natureza. Aindistino do vocabulrio relativo s diversas esferas da atividadehumana na sociedade visigtica do perodo permite-nos circunscreveralguns dos seus referenciais culturais crticos dominus, famulus, servi,patronus, fidelis, servitium recorrentes nas leis, frmulas notariais, atasconciliares e liturgia. Mais do que vnculos fortuitos, ou impreciso

    vocabular, tais expresses articulam os "campos" da religio, da cultura,da poltica, da economia, relacionando-os ao mundo material e espiritualem geral e a "formas de propriedade" em particular e, assim,implicitamente, a relaes sociais antagnicas. Sugere-se, pois, que nobojo da concepo de cultura/ religio como "valores partilhados"manifestam-se, de fato, fenmenos de classe especficos. Cumpre-nos,portanto, considerar as concepes crists relativas a este amplo, efundamental, leque das relaes sociais no interior da sociedade

    visigtica.A primeira e avassaladora caracterstica que a documentao nosimpe refere-se diversidade e profuso de campos abordados pelocristianismo. Seguindo a orientao de circunscrever os nveis(articulados) em que se opera a exigncia ou objetivo bsico dacristianizao do mundus, vislumbra-se a perspectiva de sua insero navida cotidiana das populaes, e o anseio de recobrir com o seureferencial as vrias atividades e temporalidades que lhe ritmam a

    existncia. este o mbito que o cristianismo, contatando uma ordemsagrada prvia, ou alternativa, mais ou menos contraditria e irredutvels concepes que divulga, mas, sobretudo, profundamente enraizada navida das comunidades, configurar como foco essencial afirmao desua concepo de mundo e das relaes que a sustentam.Circunscrevendo a vida do cristo em meio a uma articulao entre opassado, o presente e o futuro, vinculando-a integralmente ao projetodivino de salvao, a conduta diria do indivduo submete-se ao crivo do

    supremo Senhor, secundado na vigilncia pelos seus representantesterrenos. Traduzindo-a em uma expresso, a concepo crist de mundoveiculada pelas elites ibricas fundamenta-se, concentra-se e articula-seem torno ao exerccio e a manifestao de poder. O cristianismo afirma

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    uma vigorosa cosmogonia que, restrita interveno da livre vontade deum demiurgo, vincula todo o universo expresso oral de seu poder eautoridade. Este, por intermdio de um mesmo e nico ato, criou, eassenhoreou-se de toda a Criao. A concepo primeva do Senhor

    Criador projeta-se sobre toda a Histria, determinando-lhe um sentido,como um seu vasto campo de atuao e direo que se explicita pelocarter e pelo teor das relaes que estabelece com os seres originadosdo seu comando.

    Concentremo-nos, em primeiro lugar, no carter contratual comque era concebido o "rito de passagem" essencial, aquele que constitua ocristo. Entre os autores hispnicos encontramos, em Ildefonso de

    Toledo, uma verdadeira exegese da cerimnia do batismo. Concebido

    como parte, e expresso mor da obra de Criao, deriva o homem deuma particular e ntima relao "de mo e boca" com Deus. Foi estecontato fsico que criou o homem a partir de uma relao pessoal edireta, este ser que s existe a partir da relao, e que se concebe apenasno interior destas mesmas relaes. Mas, e quanto ao seu teor? ParaIldefonso, todos os seres celestes, terrestres e do "submundo servem a Deus;tudo esta seu servio."10 esta a verdade original que vincula, submetendo,todos os seres a Deus, e, entre eles, o homem. E tal sua essncia que,

    segundo Isidoro,11a prpria divindade, qual um senhor lesado em seudireito, compele as criaturas relao.Ademais, este ato fundamental no se encerra em si mesmo, mas

    institui uma relao que se realiza e se verifica cotidianamente,projetando-se sobre toda a vida, ainda que a principal remuneraoacordada e prometida tenha lugar apenas aps o seu termo. Delimita-se,pois, uma relao que, alm de perene e restabelecida por acordo mtuo,desvela a hierarquia e a diversidade extrema da condio "social"

    assumida por seus intervenientes, vinculando quele que detm econcentra todo o poder e autoridade o indivduo que se lhe submete. Asuprema ascendncia de Deus fundamenta uma relao na qual as aese intervenes deste decorrem menos da importncia do crente do queda inferioridade extrema da sua condio, cuja existncia social derivavaplenamente das graas, concesses e benesses do Senhor provedor. Masesta conduta humana, cotidiana e determinante da futura recompensa,expressa-se menos por uma ao positiva e deliberada do indivduo do

    10CAMPOS RUIZ, Julio (Ed.).El conocim iento del bautismo. Madrid: BAC, 1971. p.237. (Santos Padres Espaoles, I).11CAMPOS RUIZ, Julio et al. (Ed.). Los Tres L ib ros de las Sentencias.Madrid:BAC, 1971. p. 327. (Santos Padres Espaoles, II).

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    que pela determinao e limites que o jugo divino lhe impe,reafirmando uma extrema condio de dependncia que desvela oprprio sentido e a orientao de sua ao. Aparentemente, a nicaefetiva iniciativa humana o pecado, a insubmisso aos preceitos

    divinos, uma transgresso absoluta de toda a ordem do mundo namedida em que fere, ou subverte, o princpio do seu funcionamento, amanuteno da Lei e a ao conseqente, regida por ela.

    Configurado o carter englobante do poder divino, vejamoscomo ele se manifesta por intermdio de seus representantes terrenos, ossantos, e no cotidiano das prticas e dos rituais litrgicos.Importa-nossobretudo considerar, naunanimitasque o santo representa, a qualidade ea natureza das relaes sociais que faz convergir em torno de si.

    Concentremo-nos nasV itas Sanctorum Patrum Emeretensium, obra de autorannimo, redigida no sculo VII, e particularmente voltada celebraodos bispos de Mrida, patronos urbanos cuja posio era exaltada pelacapitalizao do culto de Santa Eullia. Sempre que a sede de um bispocoincidiu com a tumba de um santo famoso este locusconstituiu-se emcentro de uma ampla rede de correspondncias, de intercmbio derelquias, e de afirmao global do poder senhorial na regio.

    em torno do episcopado do bispo Masona (ca. de 573-ca. de

    605) que se concentra, na narrativa, a multiplicidade das "faces" eexpresses daunanimitasrepresentada pelo homem de Deus. Nobre deorigem, servo de Santa Eullia, sua atuao efetiva-se na condio de umverdadeiropontifex, promotor da paz social que decorre da amplitude deseu poder e dos "campos" que articula em funo dos seus vnculos ecanais de interseo. Congregando o povo sob sua liderana em rogaesao Senhor, foi banida "de Mrida e de toda a Lusitnia a peste, e todanecessidade decorrente da escassez de alimento." Restabelecidas a sade e a

    fartura, nem "mesmo os pobres e miserveis foram oprimidos por qualquernecessidade; mas tanto estes como os ricos viveram em abundncia, e todo o povoregozijou-se na terra com os mritos de um to grande bispo." E boa parte de seusmritos concentram-se na generosidade que distingue o reto senhor."Concedeu muitos presentes, prodigalizou a muitos, enriqueceu a todos com presentesmunificentes e era considerado prdigo em generosidade." Ressaltada sua condiode patronus, de grande senhor local, em Masona convergem asconcepes acerca da honra, do prestgio e do reconhecimento que lhe

    devido por tal condio. No dia sagrado da Pscoa, quando o bispodirigia-se em procisso igreja, "vrios servidores caminhavam diante dele como

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    se estivessem a frente de um rei, vestidos com mantos de seda e prestando-lhe ahomenagem que lhe era de direito."12

    Inseridos na comunidade crist pelo ritual do batismo, a liturgiaapresentava-se aos crentes como o principal veculo de expresso da f e

    da comunho com Deus intermediada pela ao dos sacerdotes. Nafuno e interveno deste ordorealizava-se, ordinariamente, o princpiocristo da plena ascendncia do Deus nico sobre a globalidade douniverso, do Criador e Senhor cuja insero e manifestao cotidiana nocurso da histria concretizava-se com base em uma ampla cadeia derelaes verticais. Expressando a hierarquia, no que se refere liturgia, asua composio foi tarefa assumida em particular pelos bispos,responsveis pela composio do corpus liturgicumvisigtico e pelas aes

    voltadas sua regulamentao e superviso. Da perspectiva destes, aliturgia parece consistir em um conjunto de ritos dos quais esperava-sealcanar objetivos bem precisos, mas decorrentes da interveno dosespecialistas da orao. Se o abismo entre o clero e o comum dos fiisdistingue o culto cristo no perodo, em tal distino reside uma dasexpresses da verticalidade que se impe s relaes humanas com aesfera do sagrado, em que pese a sua plena insero na vida cotidiana.

    Um dos traos mais marcantes dos livros litrgicos visigticos

    a profuso de rituais, exorcismos e bnos propostas a recobrir toda avida do crente. A cada uma das ocasies importantes, mesmo naquelascorriqueiras, o cristianismo buscava afixar o selo das benesses daproteo divina por bnos dirigidas a pessoas e objetos, das quaisconstituem exemplos a celebrao de "ritos de passagem" quereatualizam, periodicamente, o vnculo e a dependncia original docrente celebrada no batismo, e a proteo divina dele decorrente.

    A missa e a comunho eucarstica constituam o centro de toda a

    vida crist. Pelo ritual da Missa omnimoda,13uma missa votiva comum, acerimnia inicial supunha o estabelecimento de um vnculo estreito entreo cu e a terra, e a supresso de suas "barreiras" pela presena no recintosagrado de um dos Serafins enviados por Deus. A primeira orao clamapelo auxlio (auxilium) e pela consolao divina contra males de naturezadiversa. O ofertrio consistia na primeira cerimnia da segunda parte da

    12GARVIN, J. N. (Ed.). Vi tas Sanctorum Patrum Emeretensium.Washington D.C.:

    The Catholic University of America Press, 1946. p. 191, 193 e 196.13FROTIN, Marius. (Ed.).Le L iber Ordinum en usage dans lgli se Wisigothiqueet M ozarabe dEspagne du Cinquime au Onzime Sicle. Rimpression deledition de 1904 par Anthony Ward et al. Roma: Edizioni Liturgiche, 1996.cols. 229-243.

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    missa, tambm chamado sacrificium. Era neste momento que ossubdiconos recolhiam as oblaes dos fiis, em especial s constitudaspor po e vinho, ao passo que outros ministros reuniam as oferendas degneros diversos, inclusive em moedas. Recolhidas, as oblaes eram

    conduzidas ao altar e oferecidas divindade como dons, implorando-separa que as recebesse como sacrifcio em favor de seu povo. Seguiam-seuma srie de splicas dirigidas a Deus, cuja caracterstica reside em umcontraponto corrente entre o pedido de que aceite as oblaes, e de que,a par dela, mostre-se propcio aos apelos dos fiis, dirigidos pelossacerdotes.

    O processo culmina e atinge seu auge com a sexta orao, o PostSanctus, a invocao que precede a consagrao das oferendas, recitada

    pelo sacerdote alheio aos olhares dos assistentes pelo vu do altar.Produzia-se, na Missa Secreta, o "mistrio da transubstanciao",expresso da ascendncia e da fundamental interveno do sacerdote.Com base nesta, as oferendas transformam-se completamente em suassubstncias, tomando a forma do corpo e do sangue de Cristo. Com acomunho e a stima e ltima orao a Oratio Dominica parececaracterizar-se, enfim, esquematicamente, a reciprocidade assimtrica queAlain Guerreau v manifesta no culto cristo, e que contribuiu obra de

    coeso e sacralizao do sistema senhorial. Articulada, a segunda parte damissa em trs tempos, os fiis oferecem o po e o vinho, suplicando quesejam aceitos (ofertrio); o sacerdote consagra-os (sacrifcio), e emseguida os fiis imploram pelo pane nostrum quotidianum, que o Senhorconcede por pura indulgncia (comunho). "O modelo da relaodominus/ famulis evidentemente sacralizado ao mximo".14

    O fundamento de toda a relao instituda na missa, isto , doscrentes (famulis) abordando seu Senhor pela mediao do sacerdote,

    sustenta-se no apelo a Ele para que aceite os dons oferecidos, junto comas peties que lhe so endereadas. As oblaes constituem-se assim ementregas regulares sem que seja possvel definir a sua periodicidade aum Senhor superior cujas contrapartidas, englobadas em um campoamplo de proteo e assistncia, decorrem, na perspectiva das eliteseclesisticas, da sua livre disposio de assistir a um dependentesubmetido sua extrema autoridade. Na contra-face da subordinaoreside a misericrdia do poderoso.

    14GUERREAU, Alain. O Feudalismo. Um Horizonte Terico.Lisboa: Edies 70, [s/ d.]p. 251-252.

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    A gama de frmulas rituais providenciadas pela Igreja no seresumiu aos "ritos de passagem", ou celebrao dos tempos sagrados, adespeito de sua fundamental importncia no intuito de impregnar asconscincias de todos os fiis pelos valores cristos, alm de afirmar as

    hierarquias, as relaes de dependncia e sacralizar a ordem socialestabelecida. A par das grandes celebraes litrgicas, o L iber Ordinumregistra uma longa srie de cerimnias de exorcismos e bnos quetraduzem, alm de uma efetiva percepo dos campos de manifestaodas crenas e prticas alternativas condenadas, a alternativa cristapresentada aos fiis visando superao de seus temores e satisfaode seus anseios mais profundos. O cristianismo ensejou, de fato, ritosvrios que significam mais do que a simples depurao de prticas

    tradicionais "pela gua do batismo",15 posto que expressam em basesespecficas as relaes dos homens entre si e com a natureza. Um dosprimeiros rituais fixados no L iber Ordinum refere-se ao exorcismo ebno do leo, para que por seu intermdio fosse expelido um amploespectro de doenas. Vrias so tambm as frmulas de exorcismo ebno do sal e da gua, utilizados em cerimnias de purificao emcondies e ambientes diversos, alternativas, por exemplo, s cerimniaspags condenadas por So Martinho. Ainda no primeiro item do livro

    litrgico localizam-se algumas destas frmulas, vinculadas purificaode uma casa, semelhante quela utilizada por So Milo no exorcismo dadomusde um senador. O sal era oferecido ante o altar, sob o olhar doSenhor, a fim de que afastasse todas as criaturas imundas, encantamentose monstros dos lugares onde fosse aspergido, preservando a fidelssimaproteo de Cristo. Misturado gua benta, teriam ambos o poder derepelir todos os demnios, "quaisquer que sejam e de onde quer que advenham,seja das grutas, de todos os lugares, das fendas das pedras, dos rios e das fontes",

    elementos cujo culto fora condenado por S. Martinho e pelos cnonesconciliares, e que so aqui reafirmados como loca da manifestaodemonaca. Esta mesma mistura devia ser espargida na casa, em suasparedes e fundao, e at nas esterqueiras, alm de aplicada no caso defebres e contuses na virilha, e mesmo nas chagas dos animais, paraafastar as incurses malignas e restabelecer a sade original.

    Da longa srie de preces e missas destinadas aos fiis que viriama empreender uma longa viagem revela-se a autoridade divina expressa

    15Ver LE GOFF, Jacques. Maravilhoso. In:LE GOFF, Jacques, SCHMITT, Jean-Claude(Coord.).Dicionrio T emti co do Ocidente M edieval. So Paulo: EDUSC, 2002. V.2.p. 105- 120. p. 113.

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    no comando da natureza. Na "Orao sobre aquele que seguirem viagem", osacerdote implora ao Pai indulgente que defenda seus servos (famuli) emtal caminho, para que no estejam expostos aos perigos dos rios, dastempestades, dos ladres ou das feras. "E quando tenham chegado ao local

    desejado com segurana e sade, imolem em louvor a ti uma hstia, devedores, sempre,pelo futuro, da graa". Ressalte-se, nesta ltima referncia, o aspectomanifesto do carter da relao entre o crente e a divindade. Explicita-seuma vez mais a natureza assimtrica de uma relao que, pautada peloprincpio da troca de presentes, revela a extrema ascendncia de umSenhor que concede gratuitamente, e que alheio a qualquer deficincia,o que na extenso suprime a possibilidade da reciprocidade e afirma, naausncia desta, a eterna dependncia. Na cerimnia da bno da uva,

    cujas primcias os fiis levavam ao trio da igreja, o sacerdote relaciona aoferenda garantia da fecundidade. Rogando a Deus que as aceite,generosamente, das mos de seus servos, destaca: "No que necessites delas,Senhor, porquanto tudo preenches e contns." Tal modelo consagra, pois, aconcepo senhorial das relaes sociais fundadas na munificncia, naliberalidade caracterstica da aristocracia, mas que atuam em prol dofortalecimento de seu prestgio social, do seu poder, e, em ltima anlise,da sua capacidade de impor-se ao contingente de seus dependentes.

    Por fim, oL iber Ordinumregistra uma srie de bnos e oraesreveladores da concepo da divindade provedora, do Deus Produtor.Fonte do milagre da reproduo das sementes, e garante das condiesideais da produo, uma srie de ritos definem o sentido cristo dasrelaes do homem com a natureza, contrapondo-se aos rituais defertilidade e de proteo circunscritos e combatidos sobre a acusao depagos. Na bno das sementes, o oficiante refere-se a Deus comoCriador de todas as criaturas,

    "que deste condio de todas as sementes gerar, criar efrutificar; rogamos-te que piedoso voltes o olhar nossaprece, e assim atribuas uma graa aumentada nos cultivosdas sementes, a fim de que retorne cem vezes maisaumentada e fecunda pelos anos seguintes."

    Na bno das primcias, objeto de controvrsia e decondenaes no Conclio de Elvira, em princpios do sculo IV, osacerdote invoca o Senhor na sua condio de pleno proprietrio da terra

    que foi entregue ao homem em usufruto elemento material central darelao rogando-lhe que se volte sobre as primcias

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    "dos frutos ou qualquer gnero de alimento, o qual ns, teusservos, oferecemos a ti; (...) pelas quais imploramos a tuaclemncia, Deus Nosso Senhor, para que o sol no abrase aterra e as plantas, que o granizo no irrompa, nem atempestade destrua; mas, com tua proteo, sejamconduzidas maturidade, para que teu povo te bendiga portodos os dias de sua vida."

    Em uma outra orao de bno dos gros, a liturgia avana emum paralelismo simblico entre a "germinao" sagrada de Jesus Cristo eo milagre cotidiano da reproduo da semente, originado da concessodivina aos homens da chuva, "a fim de que germinasse a erva na terra, econduziste ata maturidade." Na orao dos feixes, a oferenda e a bnodas primeiras espigas semeadas seguida do apelo clemncia

    auxiliadora do Senhor Deus onipotente para que nem o granizo nem atempestade viessem a destruir as searas.Na liturgia visigtica, os rituais cristos de fertilidade, proteo e

    "controle" da natureza, submetidos em conjunto ao poder amplo ediscricionrio e aos dons divinos, dirigissem-se tambm ao exorcismo e bno dos meios de produo. Aps o arroteamento de um novocampo, na cerimnia de sua sagrao, o oficiante vincula a prpriaatividade produtiva prescrio divina ao homem para que trabalhasse a

    terra e fosse alimentado pelo po, rogando, em seguida, ao Onipotente, aconcesso do benefcio da abundncia a seus servos. Na bno dasnovas foices a serem utilizadas na poda das vinhas e de rvores frutferas,o produto dos campos caracteriza-se, ainda uma vez, comodonumdivino,decorrendo a abundncia dos frutos do contato "mgico" com oinstrumento ungido pelo Senhor. E seria possvel considerar, a par desteltimo, o ritual da bno da rede de pesca, ampliando-se a umaatividade vinculada ao saltusa concepo ampla da divindade provedora

    que envolve, antes de mais, o prprio instrumento, neste locustradicionalde "manifestao demonaca". rede, submetida ao olhar divino diantede seu altar, requisitava o oficiante a proteo crucial que lhe permitiriaproduzir o alimento em abundncia. "No permitas embara-la com algumaarte dos inimigos, nem emaranhar-se pelas palavras detestveis dos encantadores."Isto posto, a bno consecutiva requisitava "apenas" a cotidianamanifestao do dispensador de todos os bens, concepo com base naqual o alimento, ou o produto do trabalho, decorre menos da ao

    humana do que da misericrdia do Senhor: "Sustenta-nos, Deus, para quesejamos cumulados pela exibio desta rede, e gratos pelos presentes da tua graa."Enfim, a concepo do Deus nico, Criador e Senhor de todas

    as criaturas do universo, reitor de todos os elementos, prdigo

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    dispensador de dons e benesses, e da vida inteira, no poderia manter-sealheia sua fonte essencial, a gua, que fertiliza a terra e o homem,regenerando-o pelo batismo. Contra qualquer perspectiva de divinizaoda criatura, o sagrado que regurgita da terra em forma de nascente uma

    manifestao do poder regenerador de Deus, que sustem a aridez daterra, e um smbolo do milagre restaurador que ocorre na fonte batismal,onde os homens, redimidos, renovam-se e renascem. Na bno donovo poo ou cisterna, o sacerdote invoca a clemncia da piedade divinapara santificar a gua de uso cotidiano, afastando do cerne da vida dacomunidade toda e qualquer incurso da tentao diablica, "para quesejam merecedores de render-te graas todos os dias, Senhor santificador e salvador detodos".16

    A despeito das dvidas e discusses relativas maior ou menor"proximidade" da liturgia da linguagem do comum dos crentes, aorebuscamento de muitas das suas frmulas, provvel que vrios destesrituais tenham se originado de prticas institudas nas pequenas igrejasrurais onde o proco, inserido nas comunidades camponesas, dividindo-se muitas vezes entre o ofcio divino e o labor dos campos, partilhava osanseios e urgncias de uma vida exaurida pela dura rotina das atividadesagrcolas, de resultados incertos, rendimentos pfios, e em parte

    considervel apropriados por mos alheias. A proliferao das igrejaspelos campos, em que pese os conflitos gerados no seio da aristocraciapelo seu controle e gesto de suas rendas, e as crticas recorrentes baixaformao do clero local, foi um elemento determinante da efetivainsero do cristianismo na vida cotidiana do indivduo, da famlia e dacomunidade. A urgncia da experincia integral da f parece ter, dealguma forma, ou em algum nvel, se realizado, e a "religio importadado Oriente" espraiou-se pelos campos ocidentais.

    No faltaram, ao menos, e a profuso de santos patronos locais edos ritos litrgicos parecem comprov-lo, canais ortodoxos acessveisaos fiis nos vrios momentos e atividades cruciais da vida quedemandavam o apoio e o aval das potncias superiores do Universo,ainda que domesticadas, hierarquizadas, monopolizadas e submetidas total ascendncia do Deus nico. Senhor provedor, de sua benficainterveno origina-se o milagre da reproduo das sementes, a chuvarestauradora e fertilizante, a chama do fogo domstico que aquece e

    protege a casa at que a face serena do Pai se manifeste refletida no16FROTIN, Marius. (Ed.). op. cit., respectivamente, cols. 15, 29-30, 166, 167, 168, 169,173 e 174.

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    brilho do astro matutino. Transgredida a sua lei, do seu poder de mandoultrajado decorrem as fomes, as epidemias e as pragas devastadoras,sanes que visam reparao, o restabelecimento do sentido correto darelao por intermdio do apelo do nfimo dependente misericrdia do

    poderoso. Toda a ordem, ou a momentnea desordem, que rege oUniverso decorre da manifestao de um poder nico, restrito econcentrado, acessvel apenas atravs da intermediao de seusrepresentantes terrenos. Homem e natureza, criaturas divinas, partilhama mesma condio, isto , so alheios a qualquer virtude intrnseca queno decorra de uma concesso superior. Tornada passiva, privada desuas foras misteriosas, ou reduzidas estas ao diablica, a identidadeentre homem e natureza insere-se no mbito das relaes de

    dependncia. Esta j no diretamente acessvel, material e idealmente,uma vez que o contato com o poder superior que lhe controla prev orecurso aos indispensveis vnculos sociais de submisso e deferncia.

    Mas tais preceitos no "encerram toda a histria", assim como aafirmao do poder jamais se efetua alheia dialtica da sua contestao.Apesar dos limites impostos pela natureza das fontes disponveis, assucessivas condenaes de crenas e prticas contraditrias com aortodoxia crist parecem revelar que a relativa autonomia preservada

    pelas comunidades camponesas sustentaram uma base de contnuaelaborao e reelaborao de uma cosmoviso irredutvel, plenamente,aos preceitos ditados pelas elites eclesisticas. Numa poca em que ossacerdotes cristos se arrogavam, e impunham pela fora, o exclusivo damediao com os cus, erguiam-se fceis e ao alcance de todos as rvoressagradas! O msero campons preservou, assim, centros de ascenso porintermdio dos quais era ainda possvel um direto contato com osagrado.

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    "Deus o quer!", mas... e Francisco? Os franciscanos e a pregaodas Cruzadas

    Sandro Roberto da Costa\

    1. IntroduoNo ano de 1234 os ministros da Ordem dos Frades Menores eda Ordem dos Pregadores da Lombardia recebiam uma bula,determinando que fossem nomeados dois frades para a pregao dacruzada naquelas regies. No ano seguinte, no dia 30 de dezembro de1235 era mandada uma bula a todos os arcebispos, bispos e prelados daFrana, anunciando a nomeao de frei Guilherme de la Cordelle, daOrdem dos Frades Menores, para pregar as cruzadas nos seus domnios.

    Frei Guilherme deveria recolher os fundos necessrios organizao dosexrcitos, alm de receber os votos dos que se dispusessem a partir.Esses dois documentos marcam o incio do envolvimento dos fradesmenores com onegotium crucis, as cruzadas.

    Nosso objetivo, na presente exposio, no fazer uma histriadas cruzadas. Pretendemos, sob a chave de leitura da pregao decruzadas pelos franciscanos, fazer uma averiguao do processo atravsdo qual a Ordem, surgida num contexto de simplicidade, de

    "minoridade", aos poucos vai assumindo cargos e ofcios que parecem secontrapor aos princpios sobre os quais a mesma tinha sido fundada. Ofato de a Ordem se destacar, com vrios nomes, no ofcio da pregaode cruzadas, um dos fatores onde melhor aparece o seu possvel"alinhamento" com o poder papal, com a Cria romana. Como sechegou a esse alinhamento? Pode-se afirmar, como querem algunshistoriadores, que ao assumir a defesa da Cria papal, os franciscanostraram o projeto de Francisco de Assis? Teria a Cria papal cooptado a

    Ordem, de tal modo que, apenas alguns anos aps a morte do fundador,esta teria pouco do primitivo ideal? Numa poca em que toda acristandade era exortada veementemente a pegar em armas contra os"infiis", o "usurpador" da Terra Santa, Francisco de Assis foi ao Egito,tentar converter o sulto, usando as armas do dilogo ao invs daviolncia. Como, em to pouco tempo (oito anos aps sua morte), seusseguidores recebem do prprio papa que tinha sido um dos maioresamigos de Francisco, o cardeal-protetor da Ordem, uma misso que

    parece trair os ideais de Francisco? o que pretendemos analisar nesta\Professor do Instituto Teolgico Franciscano (Petrpolis, RJ). Doutor em Histria daIgreja pela Universidade Pontifcia Gregoriana de Roma.

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    exposio. Nos ocuparemos do perodo que cobre aproximadamente os30 primeiros anos da Ordem franciscana, de 1210 a 1240.1

    2. As cruzadas nos incios da Ordem Franciscana2

    O apelo do papa Urbano II no conclio de Clermont, em 1095,"Deus o quer!", (Deus lo vult!) tinha sido amplamente ouvido. At os inciosdo sculo XIII, quatro expedies armadas tinham se dirigido s terrasdo Oriente, para combater os infiis. A quarta cruzada atacouConstantinopla, deixando s claras todo o jogo de interesses nadaespirituais que motivavam os senhores da guerra. Apesar da deturpaoda idia de cruzada, que acabou opondo cristos a cristos, Inocncio III(1198-1216) acalentava o projeto de uma nova expedio, e na abertura

    do IV conclio do Latro externou seus sentimentos. Coube a seusucessor Honrio III (1216-1227) levar em frente seu projeto. A quintacruzada atacou o Egito, tomando a cidade de Damieta, em 1219. durante esta cruzada que acontece o encontro de Francisco com osulto.3

    1Para se conhecer o progressivo e rpido envolvimento dos frades menores com asCruzadas, as fontes mais importantes so os documentos conservados no Bullarium

    Franciscanum, a obra de Lucas Wadding, Analles Minorum, e a obra de G. Golubovitch,Bibliotheca Bio-bibliografica della Terra Santa e dellOriente Francescano. Alm disso existemartigos de vrios historiadores, esparsos nas vrias revistas especializadas de histria daOrdem, como A rchivum Franciscanum Historicum, Studi Francescani, La France Franciscaine,Analecta franciscana, etc.2Por "Cruzada" entendemos as guerras pregadas e dirigidas em nome do papa enquantochefe da cristandade, contra os inimigos da f ou da Igreja. De carter supranacional,participam soldados de diversas nacionalidades crists. O papa concede a indulgnciaplenria de todos os pecados a todos os que se alistam sob o estandarte da Cruz (oV exillum CrucisouV exillum Sancti Petri), estandarte que o prprio papa entrega a um seulegado, para que o leve em combate. Veja-se sobre as cruzadas: ROUSSET, Paul.H istria das Cruzadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1980; RUNCIMAN, Steve.H istria das Cruzadas.Rio de Janeiro: Imago, 2002.3Vrias fontes nos relatam a viagem de Francisco ao Egito. Celano o nico que relataas duas precedentes tentativas, quando Francisco teve que voltar da costa da Dalmcia, equando voltou, doente, da Espanha. A terceira tentativa, de 1219, que teve xito, relatada tambm por Jordo de Jano e por Jacques de Vitry. No nos toca aqui fazer oestudo crtico deste episdio. Apenas atestamos, com os historiadores, que no existemdvidas sobre o fato de que Francisco esteve no Egito, em 1219, durante o assdio deDamieta, e que de fato encontrou-se com o sulto. O que aconteceu neste encontro envolto em mistrio. Francisco foi, conversou com o sulto, e voltou so e salvo.Francisco no foi a Damieta com o intuito de opor-se quinta cruzada. Ao contrrio, seu

    objetivo era o mesmo dos cruzados. Como os cruzados, e como todo cristo, Franciscoqueria liberar os lugares santos na Palestina dos muulmanos. O que era diferente era aestratgia. Francisco quer sua total submisso f crist. Fora disso no haveria paz. Adiferena que Francisco vai ao encontro do sulto usando no as armas dos cruzados,mas a arma da palavra, da pregao, mesmo que isso lhe custasse a prpria vida, atravs

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    Com a morte de Honrio, foi eleito Gregrio IX (1227-1241).Em 1229 o imperador Frederico II estabeleceu uma trgua de 10 anoscom o sulto. Chegando ao fim desse perodo, a organizao de umanova cruzada se fazia urgente. Gregrio IX mandou pregadores, a partir

    de 1235, para a Frana, e em 1239 partia a expedio, deaproximadamente mil cavaleiros, sob o comando de Thibaud, rei deNavarra.

    Alm de todo o aspecto espiritual envolvido na idia de cruzada,representado pela "peregrinatio" a Jerusalm, pela penitncia e purificaodas prprias faltas, pela indulgncia, a cruzada desempenhava umimportante papel poltico na Cria romana: alm de ajudar a manter adisciplina e aplacar a violncia que grassava pela europa, atravs do

    "voto" cruzado, as cruzadas eram um instrumento de confirmao daautoridade papal. As entradas oriundas das esmolas e dcimas tambmno podiam ser ignoradas. Por estes e outros motivos, as cruzadas erammuito bem vistas pela prpria hierarquia papal: no por acaso que,entre os papas do sculo XIII, vrios vieram dos reinos latinos do alm-mar, criados e defendidos (a duras-penas) pelos cruzados e pela Igreja:

    Tiago Pantaleo, Patriarca de Jerusalm, em 1261 eleito papa, com onome de Urbano IV; Tebaldo Visconti, arcidiacono de Liegi, participou

    da cruzada de Eduardo de Cornualha, e foi ainda na Terra Santa querecebeu a notcia de ter sido eleito papa, escolhendo o nome de GregrioX. Era de bom tom defender e incentivar as cruzadas. Opor-se a elas,ainda quando fracassavam, era um mal negcio. Basta ver que as maioreslideranas da cristandade se envolveram, de um modo ou de outro, nascruzadas: os reis da Frana, da Alemanha, da Inglaterra, da Hungria, almde nobres das mais altas estirpes europias.

    O IV Conclio do Latro, em 1215, sob o comando de

    Inocncio III (1198-1216), organizou a cruzada no sculo XIII.4Inocncio reforou o suporte financeiro s cruzadas: instituiu a redenoe a comutao do voto cruzado, o direito de conseguir indulgnciaparcial em troca de ajuda material, a coleta de dinheiro e taxas.Organizou tambm o apoio moral-espiritual aos cruzados da partedo martrio. Alguns autores que tratam do assunto: LEMMENS, L. De Sancto FranciscoChristum Praedicante coram sultano Aegypti.A rchivum Franciscanum Historicum, (citaremossempreAFH) n. 19, p. 559-578, 1926. CARDINI, F., Nella presenza del soldan superba:

    Bernardo, Francesco, Bonaventura e il superamento spirituale dellidea di crociata. StudiFrancescani, n. 71, p. 199-250, 1974.4Trata-se do cnon A d liberanda. A partir de 1215 todas as bulas de cruzada oreproduziro, ou a ele se referiro. Cf.: ALBERIGO, Giuseppe et al. ConciliorumOecumenicorum Decreta. Bolonha: Edizione Dehoniane Bologna, 1991. p. 267-270.

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    daqueles que ficavam e toda uma srie de prticas litrgicas ligadas cruzada, atravs de oraes, procisses, e outras formas de intercesso.No menos importante o aparato teolgico que se criou, com telogos,inclusive franciscanos, empenhando-se em justificar a "guerra justa".5

    Para Inocncio III, a reorganizao da cruzada fazia parte do programamuito mais amplo de reforma da Igreja. Tal mentalidade vai guiar ospontfices seus sucessores.

    3. As cruzadas e os frades menoresPor que um clrigo tinha que pregar a cruzada? Antes de mais

    nada, porque era um evento "religioso", uma "peregrinao".6 A"propaganda", atravs da pregao, foi no incio confiada aos legados

    papais e ao clero local. Este nem sempre correspondeu: os bispos viviamenvolvidos em questes polticas locais, o clero secular nem sempre tinhao nvel intelectual exigido para a pregao; alm do mais, ordens vindasde Roma eram recebidas como ingerncia no devida nos negcios daIgreja local. Devido a esses contratempos, desde cedo a Igreja recorreuao auxlio de pessoas especializadas na pregao, especialmente membrosdas ordens monsticas, muito prximas do ambiente da Cria papal.Basta lembrarmos a lendria figura de Bernardo de Claraval, pregador de

    grande impacto. O sucesso dos pregadores deixou claro que umacruzada, para ter bom xito, tanto quanto do nmero de combatentes,dependia tambm da qualidade do pregador. Nas primeiras dcadas de1200, o papel desempenhado outrora pelas ordens monsticas, passa aser exercido pelas ordens mendicantes.7

    5Entre estes telogos destacamos os prprios pregadores de cruzadas, como Gilberto de

    Tournai, Humberto de Romans, e outros. "La necessitdi galvanizzare lopinione pubblicanonostante i molti rovesci subti dalle armi crociate e di controbattere al crescente spirito anticrociatoobblig i pontefici a servirsi largamente duno strumento di pressione propagandistica che lesperienza degliordini mendicanti e la tecnica intellettuale scolastica avevano nel frattempo affinato: la predicazione".CARDINI, Franco. Gilberto de Tournai: Un francescano predicatore della Crociata.StudiFrancescani, n. 72. p. 31-48, 1975.6 A princpio no se dizia cruzada, mas via, profectio ou expedictio transmarina, iterhierosolymitanum, ultramarinumou sancti sepulcri, passagium, peregrinatio contra paganos, etc. Ocruzado se chamava miles cruce signatus, crucem portans, cruciferou signatus. GARCA-VILLOSLADA, R-G. Historia de la Iglesia Catolica. In: ___., LORCA, B., MARIALABOA, J.H istoria de la Iglesia Catoli ca.Edad Media (800-1303). L a cristiandad en elmundo europeo y feudal. 5 ed. Madrid: BAC, 1988. p. 367, nota 15.7Quando nos referimos aos "mendicantes", estamos nos referindo principalmente aosdominicanos e aos franciscanos. Muito do que afirmamos aqui em relao aosfranciscanos poderia ser dito tambm em relao aos dominicanos (Ordem dospregadores), que tambm contaram com a total confiana dos pontfices.

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    A Ordem dos pregadores (dominicanos) e a Ordem dos fradesmenores (franciscanos) surgem com a explcita misso de pregar oEvangelho. Espalhados em pouco tempo por toda a europa, com umagrande mobilidade, sem o impedimento da stabilitas loci, prpria dos

    monges, recebendo desde o incio entre seus quadros pessoas dealtssimo nvel intelectual e moral, logo atraem a ateno da Criaromana, que percebe o enorme potencial que se esconde entre aquelesclricos aparentemente simples e humildes.8

    3.1. Os frades menores e a Cria romanaO Cardeal Hugolino de stia, amigo de So Francisco, foi, a

    pedido deste, nomeado cardeal protetor da Ordem. Eleito papa com o

    nome de Gregrio IX, Hugolino demonstra desde cedo sua confiananos frades menores, escolhendo entre eles vrios de seus colaboradoresdiretos. Alguns foram escolhidos como capeles e penitencirios daCria papal.9A outros foram confiadas misses diplomticas delicadas;foi-lhes confiada a inquisio contra os hereges;10aos poucos os fradescomeam a ser escolhidos tambm para as dignidades eclesisticas maisaltas: em 1241 frei Leo de Perego foi nomeado arcebispo de Milo, eem 1248 frei Eudes Rigaud foi consagrado arcebispo de Rouen.11Os

    capeles e penitencirios viviam na Cria romana; eram os colaboradoresdiretos e de confiana do romano pontfice, desempenhando as maisvariadas funes, inclusive diplomticas, nas regies mais distantes.12Os

    8 Pregao, itinerncia, pobreza evanglica eram os trs elementos constitutivos dasordens mendicantes: exatamente o que se exigia de um pregador de cruzadas.9OLIGER, L. I Penitenzieri Francescani a S. Giovanni in Laterano. Studi Francescani, n.22. p. 495-522, 1925.10No objetivo desta exposio tratar dos franciscanos envolvidos com a inquisio.

    Apenas acenamos ao fato de que o primeiro frade menor inquisidor foi frei Ethienne deSaint-Thibry, nomeado em 1237 pelo papa Gregrio IX. "A 29 e a 30 de maio de 1254,com a bula L icet ex Omnibus, Inocncio IV dividiu a Itlia em duas zonas inquisitoriais: a primeira...foi confiada ainda uma vez aos dominicanos; a segunda,... foi confiada aos menores. A ssim, depois de umempenho apenas ocasional de alguns frades individualmente no ofcio inquisitorial... a Ordem [dosmenores] foi organicamente inserida tambm no sistema repressivo institudo pela Igreja de Roma". Cf.:MICCOLLI, G. Francesco D Assisi e lOrdine dei M inori. Milo: Edizione BibliotecaFrancescana, 1999. p. 78-79.11 A nomeao de Leone de Perego deu-se em 1241. No podemos afirmar queHugolino, uma vez papa, tenha trado os ideais de So Francisco em relao s suasreticncias sobre frades-bispos. Gregrio IX nomeou apenas um bispo da Ordem dos

    menores, enquanto nomeou 31 dominicanos. Convegno Internazionale, 27, Assis, 1998,Dall pulpito alla Catedra. I vescovi degli ordini mendicanti nell200 e nel primo300. Atti...Spoleto:Centro Italiano di Studi SullAlto Medioevo, 1999.12Entre os mais clebres penitencirios dos papas destacam-se os frades Grard dePrato, penitencirio de Urbano IV, Jean de Samois, penitencirio de Nicolau III e de

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    papas sabiam que podiam contar com os mendicantes.13 Entre asmisses confiadas aos menores e aos dominicanos, estava a depregadores das cruzadas.

    3.2. Os pregadores de cruzadasO processo de nomeao de frades para pregar as cruzadas seinicia com Gregrio IX. No apenas na pregao da cruzada"ultramarina", mas tambm na "cismarina", contra os hereges, noprprio continente. As bulas eram enviadas ao Ministro Geral ou aosprovinciais, que nomeavam os pregadores e coletores de subsdios. Asbulas continham instrues minuciosas sobre os poderes concedidos aospregadores: conceder indulgncias e comutar os votos, dispensar de

    certas obrigaes da Regra, como por exemplo a proibio de andar acavalo; ordenava de proteger aqueles que se alistassem nas cruzadas,permitia receber os proventos pecunirios, os dons voluntrios, as taxassobre os bens do clero, os legados testamentrios, as restituies, etc.

    Tinham que prestar contas anualmente de sua gesto, dos trabalhos eresultados obtidos. O dinheiro arrecadado deveria ser colocado em lugarseguro, em geral nos conventos dos frades.

    Para a pregao da cruzada eram escolhidos religiosos que se

    destacavam pelos dotes oratrios e intelectuais, conhecedores dadoutrina que iriam pregar, alm de comprovada conduta moral ereligiosa. No que consistia a pregao? Era antes de mais nada umapregao em nome de Deus, expressa por intermdio do Papa, seu

    Bonifcio VIII, lvaro Paes, penitencirio de Clemente V e de Joo XXII. Entre estessobressai-se frei Velasco, penitencirio de Inocncio IV e de Alexandre IV. Velascodesempenhou misses diplomticas dos mais variados tipos, atravessando praticamentetoda a Europa. Viajou pela Itlia, pela Bohmia, pela Espanha, Inglaterra, Frana.

    Nomeado para a sede episcopal de Famagouse (Chipre), transferiu-se para Idanna(Portugal). Morreu em Roma em 1278. GRATIEN DE PARIS. H istoire de lafondation et de levolut ion de lO rdre des Frres M ineurs au XI I Iesicle.Roma:Istituto Storico dei Cappuccini, 1982. p 358, nota 17. Alm das misses diplomticas emnome da Cria, vrios franciscanos acompanharam as expedies cruzadas, como nocaso dos frades Eudes de Rigaud, Gilberto de Tournai e Joo de Mons, que estiveram aolado do rei Luis IX. O ingls frei Guilherme de Hedley esteve na cruzada com o reiEduardo I, da Inglaterra. Cf.: CALLEBAUT, A. La deuxime croizade de S. Louis et lesFranciscains.La France Franciscaine, n. 5. p. 282-288, 1922.13"Le Bullaire Franciscain ou les Registres des Papes publis par lEcole Franaise de Rome nousmontrent que ces commissions furent trs nombreuses. Frquentemment les papes chargeaient les frres du

    soin dnquter sur la conduite de certains vques, dexaminer, de confirmer ou dannuler des lectionspiscopales ou abbatiales, de rformer les abus ecclsiastiques dans les royaumes, les diocses, les glises etles monastres, dtre les arbitres dans les conflits entre les vques ou entre les autorits civiles etecclsiastiques, dabsoudre des particuliers, des princes ou de villes des censures encourues, daccorder desdispenses de mariage". Citado em GRATIEN DE PARIS. op. cit., p. 539.

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    porta-voz: "Deus o quer!", era o mote que se tornou famoso desde oconclio de Clermont. Os pregadores iam de cidade em cidade, pregando,numa espcie de misso volante, dormindo nos mosteiros ou nosconventos da prpria Ordem, ou nos albergues. A pregao acontecia

    normalmente onde se reuniam multides: nas praas, nas feiras, nostorneios, nos dias de festas, nas igrejas. Era um ofcio de comunicao,de propaganda, que deveria atingir o maior nmero de pessoas.

    3.2.1. Os frades pregadores de cruzadas: alguns nomes Os trs primeiros religiosos das ordens mendicantes nomeadospregadores de cruzadas eram ntimos do crculo de amizade do papaGregrio IX. Todos eram penitencirios papais, e estiveram envolvidos

    em vrias atividades diplomticas a servio do papado.14 O primeirofranciscano nomeado foi o francs frei Guilherme de la Cordelle,nomeado por bula de 1235. Guilherme era um dos onze penitenciriosde Gregrio IX. Em 1236 foi o mediador num litgio entre o rei Luis daFrana e o bispo de Beauvais. Em 1238 partiu para a cruzada guiada por

    Thibaud de Champagne. Esteve at 1243 na Terra Santa, pregando aoscruzados.

    Outro nome de destaque, bem mais conhecido, o do francs

    frei Gilberto de Tournai.15Nascido por volta de 1200, estudou em Paris,onde ensinou teologia at 1240. Entre seus colegas de ensino estavamBoaventura de Bagnoregio, Alexandre de Halles, Giovanni de LaRochelle. Em 1240 resolveu entrar na Ordem franciscana. Existemdvidas a respeito de uma sua suposta participao na cruzada de 1248-1254, ao lado do rei Luis IX. Em 1259, mandado, por obedincia, devolta a Paris, onde assume o cargo de mestre-regente do studiumfranciscano daquela cidade. Em 1270 ainda se encontrava ativo na

    Frana. Entre suas vrias obras, algumas eruditas, encontramos trsSermes aos Cruzados.16 Gilberto tambm escrevia sermes para ospregadores de cruzadas.

    14Cf.: MAIER, Christoph T. Preaching the Cruzades.Mendicant friars and the cross in thethirteenth century. Cambridge: Cambridge University Press. p. 34.15DELORME, F. Trois bulles Fr. Hugues de Turenne, ofm. AFH, n. 18. p. 291-293,1925. Veja-se tambm: DELORME, F. De praedicatione cruciatae saec. XIII per fratresminores.AFH, n. 9. p. 99-117, 1916.16Nesta obra Gilberto desenvolve sua pregao acentuando as glrias e benefcios dacruz. Expe os argumentos para assumir a cruzada, sem dar ouvidos aos apelos dafamlia, exaltando a coragem em enfrentar as fadigas e os sofrimentos de Cristo,comparando os cavaleiros aos mrtires. Estes se tornaram vassalos de Cristo, e foraminvestidos em seu reino por terem assumido a Cruz. Cf.: PAPI, M. Crociati, pellegrini e

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    No contexto da pregao das cruzadas pelos frades menores,merece destaque o nome de frei Benedito de Alignano. Antes de seuingresso na Ordem, este frade foi monge beneditino. Em 1224 era abadeda Abadia de Nossa Senhora da la Grasse, em Aude (Frana). Em