latim-os provrbios medievais

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    Os provrbios medievais em latim e aapropriao da cultura laica pelo discurso

    religioso algumas palavraslvaro Alfredo Bragana Junior (UFRJ)

    ResumoO discurso paremiolgico em latim medieval apresenta, aos estudiosos,

    vrias matizes acerca de normas comportamentais e de condutacondizentes com uma viso do mundo, cujo sustentculo a Igreja. Este

    artigo pretende demonstrar, de forma sucinta, porm, como temaspertencentes ao universo da Antigidade Clssica, bem como a

    representao dos animais como modelos de vcios e virtudes humanasso apropriados pelo discurso eclesistico, que transforma um saber e

    experincia laicos em provrbios com finalidade explicita ouimplicitamente educativas.

    I. guisa de introduo

    A pesquisa dos provrbios medievais rimados em latim noslevou observao sobre alguns eixos temticos, cujaincidncia, posteriormente, ajuda-nos a ratificar a hiptese deque os provrbios possuiriam funo didtico-moralizante dentroda sociedade medieval.

    A tradio fabulstica de Esopo, Fedro e Aviano legou humanidade o uso de animais como imagens refletidas,metforas do prprio homem, com seus sentimentos nobres evis. Joyce E. Salisbury em The beast within. Animals in theMiddle Ages (1994: 105) salienta o papel dos animais para oprprio autoconhecimento do homem, pois quando ... aspessoas podem ver um animal agindo como um homem, ametfora pode ser eficaz nos dois sentidos, revelando o animaldentro de cada ser humano.

    Com a incorporao do legado cultural clssico edesenvolvimento de uma cincia medieval em diversos ramosdo saber humano, como Arquitetura, Astronomia, Direito,Filosofia, Gramtica, Histria, Matemtica, Medicina, Msica eRetrica, dentre outros, a transmisso desse novo conhecimentodespertou uma busca sabedoria, quer atravs de discusses e

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    debates dentro das universidades e escolas seculares, quer nasruas e tavernas. Como monumento maior da cultura de entotemos a Summa theologica, de So Toms de Aquino, onde obrana qual a cincia do homem embasada pelo conhecimento dasabedoria divina.

    Destarte, o homem medieval une o profano ao sagrado paraconseguir sabedoria atravs da religio (etimologicamentereligao). O sagrado norteia a vida humana e o homem (reiou vassalo, nobre ou clrigo) precisa ter acesso verdade cristpara poder sobreviver na Terra, enquanto aguarda a eternidade.Em cadernos escolares, os jovens clrigos recebiam em seusprimeiros estudos, provrbios, muitos deles rimados, quecontinham, em doses diminutas, ensinamentos prticos para avida. Esses mesmos clrigos, mais tarde padres e monges,proferiam-nos diante da massa no litterata para servirem de fiocondutor de suas aes. Os provrbios refletiam atitudes,sentimentos, condutas, modos de agir e de pensar queconviriam ou no a um cristo. A mensagem simblica daquelesexpressaria e justificaria o seu uso.

    No campo da Literatura, Grcia e Roma forneceram para omundo medieval europeu autores, temas e personagens. Ovdio,Virglio, Ccero, Ulisses, Helena, Enas, Tirsias, Baco, Vnus,

    dentre inmeros nomes, entraram para a galeria depersonagens medievais como arqutipos de autoridade, astcia,beleza, coragem, sabedoria, prazeres mundanos e amor. Oscompndios de provrbios medievais as incluemconstantemente, representando deuses pagos ou simplesmortais, figuras hericas ou vils, que fazem parte da histriauniversal. Seus comportamentos so motivo de reprimenda oulouvor e caber ao homem saber discernir o que aquelasfiguras universais trazem de contribuio para suas vidas noclaustro, no palcio e na casa simples.

    A aluso a personagens da mitologia greco-romana demonstra,da mesma forma, o trabalho intelectivo com as fontes escritas,onde as mesmas se encontram. No labor dos scriptoria e nassalas de aula e trios de igrejas e universidades, o elementocultural pago, que podemos aqui associar a um conhecimentolaico, o qual segundo a definio de Aurlio Buarque de Holanda

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    (1995: 1004) pode ser compreendido como que vive no ou prprio do mundo, do sculo; secular (por oposio aeclesistico) assimilado e compreendido dentro de uma ticacrist e exercer a funo de espelhar vcios e virtudes comunsa quaisquer homens, em quaisquer pocas.

    A partir desta perspectiva sobre laicidade em contraste com aespiritualidade dogmatizada e hierarquizada da Igreja medievalsero comentados de forma sucinta os tpicos acima expostos.

    II. Os animais e a paremiologia medieval

    A partir da herana clssica, os animais ganharam cada vezmaior prestgio dentro da literatura medieval. Esopo, Fedro eAviano influenciaram na confeco de fabulrios, bestirios e

    livros de falcoaria, obras de grande circulao nos meiosintelectuais e entre os nobres. Intelectuais medievais comoBabrius, Marie de France, Odo de Cheridon, homens e mulheresda Igreja divulgavam estrias sobre animais que supostamenteinstavam as pessoas a uma conduta moral superior (apudSALISBURY, 1994: 105). A partir do sculo XII, foram includosnos sermes exempla eproverbia com o uso de animais para,segundo a recomendao de Bernardo de Claraval, estimular ointelecto do leitor (apud SALISBURY, 1994: 126).

    Vrias foram as funes dos animais presentes nos textosmedievais. Essencialmente, as principais referiam-se a elescomo smbolos do trabalho, de comida e de pardia aocomportamento humano. Dentre eles, temos o lobo, a raposa, oleo, o co, o cordeiro, a serpente, o boi, o sapo, o burro, omacaco, o gato, a cegonha, o esquilo e o veado. Dos animaisimaginrios, no constantes do corpus de nossa pesquisa eabundantes tambm na literatura da poca, temos o unicrnio,o drago e seres ambguos (metade ser humano, metade

    animal), como o centauro e a sereia.Portanto, os animais veiculavam mensagens que serviam para areflexo do ouvinte/leitor (se adotarmos a dualidade produoescrita, destinada a um pblico litteratusxoralidade, presente,por exemplo, nas homilias e sermes), mensagens essas queestavam imbudas de uma sabedoria experiencial aliada

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    sabedoria primeira oriunda do conhecimento e aplicao diriada palavra de Deus.

    II.1. Animais no corpus paremiolgico

    Vrios foram os nomes de animais arrolados no corpus rimadode Jakob Werner. Procedendo-se a uma anlise maispormenorizada, chegamos ao seguinte quadro esquemtico:

    A. Distribuio dos animais por ordem alfabtica:Letra A 3 ocorrncias,Letra B 4 ocorrncias;Letra C 12 ocorrncias;Letra D 8 ocorrncias;Letra E 11 ocorrncias;

    Letra F 5 ocorrncias;Letra G 1 ocorrncia;Letra H 2 ocorrncias;Letras I-J 6 ocorrncias;Letra L 3 ocorrncias;Letra M 9 ocorrncias;Letra N 11 ocorrncias;Letra O 5 ocorrncias;Letra P 9 ocorrncias;Letra Q 12 ocorrncias;Letra R 4 ocorrncias;Letra S 14 ocorrncias;Letra T 1 ocorrncia;Letras UV: 8 ocorrncias.

    Total: 128 ocorrncias.

    B. Nmero total de incidncia de cada animal:agnus (cordeiro) 5 ocorrncias;anguilla (enguia) 1 ocorrncia;

    asinus (asno) 6 ocorrncias;avis (ave) 8 ocorrncias;bos (boi) 7 ocorrncias;camelus (camelo) 1 ocorrncia;canis (co) 14 ocorrncias;cattus (gato) 9 ocorrncias;cervus (cervo) 1 ocorrncia;

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    cornix (gralha) 3 ocorrncias;corvus (corvo) 2 ocorrncias;equus (cavalo) 8 ocorrncias;formica (formiga) 1 ocorrncia;gallina (galinha) 1 ocorrncia;gallus (galo) 1 ocorrncia;grus (grou) 1 ocorrncia;lepus (lebre) 5 ocorrncias;lupus (lobo) 13 ocorrncias;milvus (milhafre) 2 ocorrncias;mus (rato) 11 ocorrncias;musca (mosca) 2 ocorrncias;ovis (ovelha) 6 ocorrncias;passer (pardal) 3 ocorrncias;

    piscis (peixe) 4 ocorrncias;psittachus (papagaio) 1 ocorrncia;pulex (pulga) 2 ocorrncias;pullus (frango) 4 ocorrncias;rana (r) 1 ocorrncia;rata (ratazana) 1 ocorrncia;serpens (serpente) 1 ocorrncia;sus (porco) 5 ocorrncias;taurus (touro) 3 ocorrncias;vacca (vaca) 3 ocorrncias;

    vitulus (bezerro) 2 ocorrncias;vulpes (raposa) 8 ocorrncias;Total: 141 ocorrncias.

    Os animais, cuja incidncia nas expresses proverbiais rimadasperfizeram cinco ou mais de cinco registros, foram selecionadose destes retiramos para anlise uma parmia retificadora denossa hiptese de trabalho. A seguir discorreremos acerca dealguns exemplos por ns encontrados.

    II.2. Provrbios

    Agnus et lupusProvrbio: Dum lupus instruitur in numen credere magnum,

    Semper dirigitur oculi respectus ad agnum.

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    Traduo: Enquanto o lobo se instrui em crer em um grandepoder,

    A ateno do seu olho sempre se dirige para ocordeiro.

    A partir do sculo XII, os animais tornam-se importantes comometforas, como guias para as verdades metafsicas, comoexemplares humanos. Deste modo, Joyce Salisbury (1994: 103)trata a questo da utilizao de animais para representarcaractersticas humanas.

    Neste dstico composto por versos collaterales aparecem doisdos mais importantes animais presentes na simbologiamedieval. Por um lado, o cordeiro, dentro do iderio cristo,remete-nos figura do agnus Dei, o cordeiro de Deus, JesusCristo. Joyce Salisbury assim sintetiza a opinio correntemedieval a esse respeito:

    Cristo foi tanto o cordeiro de Deus quanto o bom pastor juntando osbons ao rebanho. O cordeiro permaneceu como smbolo para o melhorno auto-sacrifcio conforme a tradio crist. S. Francisco (sempresimptico a todos os animais) gostava particularmente dos cordeiros,porque, como escreveu seu bigrafo S. Boaventura, os cordeirosapresentam um reflexo natural da misericordiosa bondade de Cristo e orepresentam no simbolismo das Escrituras (1994: 132).

    Entretanto, uma outra considerao sobre o animal, a partir deum ponto de vista mais ligado natureza, apresenta-nos ocordeiro como vtima natural de seus predadores, mormente olobo. Segundo esta perspectiva, as ovelhas e os cordeiros eramconsiderados estpidos e covardes, quase que merecendoaquilo que recebiam (SALISBURY, 1994: 132). Por isso, lemosno manuscrito Ba 53, Si lupus est agnum, non est mirabilemagnum, No nos causa grande admirao, se o lobo come ocordeiro.

    O papel do lobo dentro da imagstica medieval prende-se aocarter negativo a ele atribudo. Desde a fbula 1 do livro I deFedro, cujo ttulo seria Lupus et agnus, j se tomariaconhecimento sobre seu papel de dominador inescrupuloso dosoprimidos. Ele traria injustia ordem social em virtude de suaexcessiva ganncia, que o fez perder sua nobreza. Interessante

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    Aqueles que aspiram engrandecer a si mesmosE que desejam um lugar mais elevado Um que no apropriado s suas cinturasE na maioria dos casos, no ao seu nascimento.O mesmo resultado suceder

    A muitos, como ao asno espancado.*

    BosProvrbio: Bos bos dicetur, terris ubicumque videtur.Traduo: O boi se chamar boi em qualquer terra onde forvisto.

    Economicamente, a importncia do boi para a Idade Mdia era

    incontestvel. Como fornecedor de alimentao e utilizado paraarar o solo, o boi era considerado um animal domstico, cujadisseminao em terras europias j estava consolidada desde aAlta Idade Mdia. Seu valor como bem material era, pois,grande, como sintetiza Joyce Salisbury (1994: 34), depois dosanimais de guerra ou de caa, os mais valorizados eram aquelesutilizados para o trabalho. Bois e guas faziam a maior parte doduro trabalho de arar, desterroar, debulhar e puxar carros etodos os cdigos os colocavam em alto grau....

    Uma outra viso medieval do boi consistia em inseri-lo, assimcomo o cordeiro e o asno, dentro da histria crist, pois segundoos textos da poca pesquisados por Jeffrey Russell um boi

    jamais seria possudo pelo demnio, porque aquele estiverapresente no nascimento de Cristo e mais ainda, alm de suasassociaes com o nascimento de Jesus, o boi eraprovavelmente um animal to mundano, to associado propriedade, para ser unido presena diablica (apudSALISBURY, 1994: 171).

    Com toda certeza, esse grau de mundanidade transformou afigura do boi, no correr da Idade Mdia, em um animal inferior,ou seja, refletia exatamente as condies reais de seu trabalhoservil. Tecendo comparaes com os servos da gleba e demaistipos de vassalos, ento, vemos o animal representarmetaforicamente a classe servial, o que para ns se torna

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    evidente no provrbio acima exposto, composto em versoleonino, pois em qualquer lugar onde esteja, o boi servo dagleba, vassalo ser sempre reconhecido e chamado de acordocom seu status social.

    Um outro provrbio da poca, Bos fenum comedit, cumpectoris ira recedit, o boi come o feno, quando a ira de seupeito se afasta tambm mostra o quadrpede em aparentequietude, porm aqui aludindo a uma ira pectoris anterior, quenos leva a conjectura uma possvel tentativa de sublevaocontra sua vida - metaforicamente, a posio social do homemmedieval -, que termina com alguns bons feixes de feno, ouseja, tendo a alimentao como sustento nada mais h para ohomem comum almejar no mundo medieval. Nota-se nestaparmia em verso leonino a monotongao do ditongo ae em eno caso de faenum > fenum. Ressalte-se, do mesmo modo, ouso j corrente da forma verbal comeditcome e no edit,onde a primeira j suplanta a segunda, da qual um composto.

    *

    CanisProvrbio: Dum canis os rodit, socium quem diligit odit.Traduo: Enquanto o co ri o osso, odeia o companheiro, a

    quem estima.

    O co teria sido o primeiro animal a ser domesticado pelohomem. Descendente do seu ancestral lupino, o canis canispossua durante a Idade Mdia um valor que poderia serauferido de acordo com a tarefa qual era confiado. NoBestirio do sculo doze, citado por Salisbury (1994: 18), vemosexplicitadas no apenas algumas de suas espcies, mastambm suas qualidades e atribuies:

    H numerosas espcies de ces. Algumas seguem a pista das criaturasselvagens dos bosques para ca-las. Outras guardam vigilantemente osrebanhos contra as infestaes de lobos. Outras, os ces domsticos,cuidam das paliadas de seus donos, a fim de que no sejam roubados noite pelos ladres e para defender seus donos at a morte. Elesprazerosamente despedaam a caa com o dono e sempre guardaroseu corpo quando morto, e no o deixaro. Em suma, parte de suanatureza que eles no podem viver sem os homens.

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    fechada com um osso; Assim, para que o homem economize,torna-se evidente que possua bens.

    Este provrbio em versos caudati, que tem emprecluditurcom areduo do ditongo ae para e e com o significado de fechar,

    tapar, obstruir um termo com a monotongao tpica em textosmedievais, equipara o comportamento do co ao do homem,cada um cuidando de suas riquezas, o osso e os bens materiais,como se estivessem a guard-los com avidez, o que nos leva acorroborar as palavras de Joyce Salisbury (1994: 131) aoregistrar que

    na classificao metafrica medieval, os ces perderam seu grandestatus em conformidade por serem carnvoros, porque eles eram,portanto, servos. Na ordem social medieval que se tornou modelo para o

    mundo animal, os ces foram situados em uma classe social mais baixado que a dos predadores livres.

    *

    LepusProvrbio: Qui silva latitat, leporis mensam caro ditat.Traduo: A carne da lebre enriquece a mesa daquele que seesconde na floresta.

    Vistas apenas como meros animais, desprovidas de significadossimblicos, as lebres serviram de fonte de alimentao duranteas caadas medievais. Joyce Salisbury (1994: 52) escreve que asmesmas ofereciam a melhor caa e os mastins podiam sermantidos em forma para caar gamos seguindo a rpida eastuta lebre. Ao descrever uma iluminura da poca, a estudiosaafirma que caractersticas do seu comportamento podiam serat mesmo reconhecidas durante as caadas com mastins:

    Os caadores medievais teriam reconhecido que o mastim... estavapreparado para uma longa corrida, j que a lebre mostrada com suasorelhas voltadas para frente. De acordo com os tratados medievais decaa, isso indicava que ela era forte e estava confiante em escapar.Somente quando ela mantinha suas orelhas para trs quedemonstrava cansao.

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    A suspeita sobre a prtica sexual do animal levava vriosautores eclesisticos, que se ocupavam da medicina, a norecomendarem a carne da lebre para consumo. Todavia aquelafazia parte de diversos livros culinrios da poca. Essa posioambgua assim sintetizada por Joyce Salisbury (1994: 52):

    Alguns tratados mdicos alertam que a carne da lebre causa insnia eproduz humores de melancolia. Porm, a despeito de todas asadvertncias, os livros de receitas culinrias ofereciam receitas paracarne de lebre, e parece muito plausvel que as lebres tenham sempreformado uma parte da dieta medieval.

    Metaforicamente, pode-se pelo menos remontar a presena dalebre tradio fabulstica greco-latina. Fedro menciona emLepus et bubulcus, a lebre e o vaqueiro, a histria do animal

    que pede proteo a um vaqueiro para no denunciar seuesconderijo a um caador. Aquele no o faz com palavras, massim atravs do olhar, o que no percebido pelo caador. Aofinal, ao inquirir o animal sobre sua atitude que salvou sua vida,recebeu o vaqueiro esta resposta: Linguae prorsus non negohabere atque agere gratias me maximas; verum oculis ut

    priveris opto perfidis, ou seja, No nego absolutamente queme sinto (reconhecida) e agradeo muito tua lngua, masdesejo que sejas privado dos prfidos olhos.

    O provrbio oriundo da biblioteca da universidade de Paris,composto em verso leonino, parece querer estimular o leitor ase esforar na busca de algo melhor, pois a meno carne dalebre ditat, enriquece, enobrece aquele que se esfora poralcan-la, quase que espontaneamente nos levando a traarum paralelismo temtico com o conhecido provrbio, Deusajuda a quem cedo madruga.

    Uma outra fbula do mesmo autor, Passer ad leporemconsiliator, O pardal conselheiro para a lebre, tem como

    frmula moral que abre o texto, Sibi non cavere et aliisconsilium dare / stultum esse paucis ostendamus versibus, isto, Mostremos em poucos versos que insensato no seacautelar a si e dar conselhos aos outros. Na fbula, uma lebre censurada pelo pardal por ter-se deixado, inadvertidamente,capturar por uma guia, no momento em que um aor o apanhae o mata sem misericrdia. As palavras finais da lebre

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    moribunda refletem o ensinamento dos versos iniciais da fbula:Mortis en solacium! / Qui modo securus nostra inridebas mala, /simili querela fata deploras tua., i.e., Eis a consolao damorte! / (Tu) que h pouco descansado escarnecias de nossosmales, / choras os teus destinos com igual queixume.

    A capacidade de reproduo do animal citada em Quot campolepores, tot sunt in amore dolores, Tantas as lebres nos camposquanto as dores no amor, que, em verso leonino, compara agrande quantidade de lebres ao grande nmero de sofrimentos,ou em linguagem da lrica medieval galego-portuguesa, coitasde amor, sendo aqui, em nosso entender, a expresso proverbialum resultado da observao direta do mundo animaltransplantada para a realidade do corao humano.

    *

    SusProvrbio: Sus taciturna vorat, dum garrula voce laborat.Traduo: A porca silenciosa devora, enquanto trabalha com avoz loquaz.

    No que concerne ao interesse da Europa Ocidental pelo porcocomo animal domstico, temos os primeiros indcios com os

    anglo-saxes, que o incluam em suas comunidades, segundoSalisbury (1994: 27). Outras tribos germnicas, como a dosfrancos, estabeleciam cdigos legais que cuidavam dedisposies sobre os rebanhos de sunos:

    Nas leis dos francos, por exemplo, h mais leis regulamentando o tratocom os porcos do que com qualquer outra espcie animal. As leis fazemreferncia a rebanhos de porcos com mais de cinqenta cabeas queeram cuidados por um porqueiro. Pelo menos um porco em cadarebanho portava uma campainha e era designado como porco lder, de

    maior valor do que o restante. Algumas vezes eles estavam naspastagens e algumas vezes guardados em terrenos cercados (apudSALISBURY, 1994: 27).

    Como fonte de alimentao, sua carne era uma das maisapreciadas, inclusive porque podiam ser abatidos ainda jovens,o que proporcionaria uma carne ainda mais tenra.

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    Por outro lado, conforme as Sagradas Escrituras, a carne deporco era considerada impura. No Velho Testamento, emLevtico 11.7 l-se que no se pode comer o porco, o qual tema unha fendida, mas no rumina. Apesar de se dirigiressencialmente aos judeus, a mensagem bblica provocouquestionamentos entre os pensadores cristos. Joyce Salisbury(1994: 61) assim esquematiza a situao especial da carne deporco:

    O porco era biblicamente impuro, mas era um prato favorito entre astribos germnicas. Entretanto tambm havia precedentes bblicos paraignorar tais proibies nas cartas de S. Paulo. Conforme esta tradio,Ambrsio disse, Uma coisa (...) parece-me ridcula, que algum possajurar se abster da carne de porco (...) J que nenhuma criatura feita porDeus em ao de graas deve ser rejeitada.

    Com o aumento do requinte mesa dos nobres durante a BaixaIdade Mdia, a carne de porco comeou a perder prestgio,tornando-se praticamente refeio da classe servial.Especialmente na Inglaterra, aps a vitoriosa chegada dosnormandos em 1066, os porcos foram considerados animais dehomens pobres, enquanto os anglo-saxes o tinham em altaconta. Esta dieta alimentar dos servos parece ser exposta noprovrbio acima.

    A expresso em verso leonino descreve uma porca, que mesmodurante sua alimentao, solta seus grunhidos caractersticos.Tal fato alude aos modos inconvenientes dos vassalos mesa,pois uma das marcas do cdigo de tica da nobreza feudalgermnica seria azuht, alemo modernoZucht, querepresentaria a educao formal necessria a todo homempertencente classe dirigente ou que a ela aspirasse.

    Uma outra parmia ratifica essa imagem, ao afirmar que Susmagis in ceno gaudet quam fonte sereno, Um porco alegra-se

    mais por estar na lama do que em uma serena fonte. O textomedieval apresenta em cenum a forma reduzida do ditongoclssico ae, todavia deixa transparecer em sua mensagemconstatadora de uma condio social, que cada um tende,devido a sua prpria natureza, a preferir determinadosambientes, o porco, impuro, a lama e animais mais nobres umaserena fonte, ou seja, transportando para o mundo dos homens

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    as diferenas bsicas e naturalmente imutveis entre asclasses sociais.

    Como sntese, temos ento especialmente durante a BaixaIdade Mdia uma produo paremiolgica rimada que faz uso

    dos animais como espelhos do comportamento humano. Esteseram estimados conforme sua serventia dentro da comunidade,pois desde a poca dos germanos, em todos os cdigos, o valorde um animal era baseado na funo que ele servia para acomunidade mais do que em algum outro padro (apudSALISBURY, 1994: 33) e com eles estabeleciam-se pontos deinterseo e de afastamento com o homem.

    Como elementos delineadores e condutores de um discursosocial de manuteno de valores hierrquicos e perenes, osprovrbios ligados ao mundo animal contriburam, portanto, noapenas para divertir o pblico ouvinte e leitor, masprincipalmente para ajudar o ser humano, segundo a viso degrande parte da intelectualidade oriunda do clero, a trilhar oscaminhos deste mundo conforme os seus preceitos.

    III. A Antigidade Clssica nos provrbios medievais

    Ernst Robert Curtius, em Literatura europia e Idade Mdialatina (1957:51), ao tratar da questo de quais autores seriamos mais utilizados dentro do sistema educacional medieval, cita-nos uma lista de vinte e um nomes de autoria de Konrad vonHirsau, monge germnico do sculo XII:

    1) o gramtico Donato; 2) o aforista Cato ...; 3) Esopo ...; 4)Aviano ...; 5) Sedlio ...; 6) Juvenco ...; 7) Prspero deAquitnia ...; 8) Tedulo ...; 9) Artor ...; 10) Prudncio ...; 11)Ccero; 12) Salstio; 13) Bocio; 14) Lucano; 15) Horcio; 16)Ovdio; 17) Juvenal; 18) Homero; 19) Prsio; 20) Estcio; 21)

    Virglio...Dessa lista, prossegue Curtius (1957: 51),

    a escassa seleo compreende pagos (de preferncia da fase final daAntigidade) e cristos, sem levar em conta a cronologia; dos clssicos,somente Ccero, Salstio, Horcio e Virglio - quatro autores que, porm,pela sua associao com os outros quinze, perdem a sua posio

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    especial de clssicos e cujo mrito considerado quase exclusivamentepelo seu efeito moral.

    Atesta-se esta particularidade, ou seja, a utilidade dos autorespara veicular lies de moral, na literatura de cunho dogmtico-

    doutrinrio, que tinha, entre as suas formas de expresso, osexerccios escolares com provrbios rimados, muitos delesusados como preparo para o recreio do esprito e dainteligncia.

    O enfoque novo, pois, dado s obras da Antigidade Clssicarefletia a tomada de posicionamento da elite cultural de ento,isto , o clero. Utilizava-se o legado cultural dos textos antigos,porm no se pretendia imitar os seus padres. Como bemassevera Rgine Pernoud (s.d.: 113)

    se se v ento na Antigidade um reservatrio de imagens, de histriase de sentenas morais, no se vai ao ponto de a enaltecer como ummodelo, como o critrio de toda a obra de arte; admite-se que possvelfazer to bem e melhor do que ela; admiram-na, mas preservar-se-iamde a imitar.

    No a imitao pura e simples dos autores, mas sim o plgiocriativo, que nos casos dos libri proverbiorum, podia serencontrado na ampliao e modificao das palavras originais.

    Ruy Afonso da Costa Nunes (1979: 199) cita, como exemplo,referindo-se ao renascimento cultural do sculo XII, John ofSalisbury, um professor de literatura para quem a composioliterria devia inspirar-se nos grandes mestres do passado, massem plagi-los, e que procurava ensinar aos alunos a arte de lerbem e de bem redigir, acrescentando a seguir (1979: 199):

    Antes dos humanistas dos sculos XV e XVI, os estudiosos medievais deChartres, Paris, Orles, etc., redescobriram os encantos das belas-letrase deram o mximo realce no ensino leitura e imitao dos clssicoslatinos. Do ponto de vista educacional, o renascimento do sculo XII foisobretudo literrio.

    Tal assertiva do mesmo modo expressa por Jacques Le Goff(s.d.: 31), quando menciona o fato de os professores medievais,como clrigos, fazerem uso no apenas das fontes crists mastambm principalmente das obras das auctoritates greco-latinas, por consider-las trabalhos cientficos:

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    Se estes mestres que so clrigos, que so bons cristos, preferemcomo text-book Virglio ao Eclesiastes e Plato a Santo Agostinho, no ofazem apenas por estarem persuadidos de que Virglio e Plato contmensinamentos morais ricos e que, por dentro da casca existe o miolo...;fazem-no porque, para eles, a Eneida e o Timeu so antes de mais nada

    obras cientficas escritas por sbios e apropriadas para serem objectode ensino especializado, tcnico, enquanto as Escrituras e a Patrstica,que podem ser ricas em matria cientfica ..., o so apenassecundariamente.

    Sem negar, portanto, o embasamento cultural dos textos datradio crist-patrstica, os autores medievais, e, sobretudo, osdo sculo XII, retomam os autores antigos como alavancas paraa ampliao do horizonte cultural de ento, cuja importncia foitornada clebre atravs das palavras de Bernardo de Chartres(apud LE GOFF, s.d.: 32): Somos anes que treparam aosombros dos gigantes. Desse modo, vemos mais e mais longe doque eles, no porque a nossa vista seja mais aguda ou a nossaestatura maior, mas porque eles nos erguem no ar e nos elevamcom toda a sua altura gigantesca.

    Os exemplos de parmias rimadas dentro dos manuscritosselecionados por Werner, que contm nomes de autores e depersonagens famosos da Grcia e Roma antigas, fornecem-nosuma pequena amostra de sua aplicao e conhecimento dentro

    dos crculos intelectuais medievos.III.1 A Antigidade Clssica no corpus paremiolgico

    a) Distribuio dos nomes de autores e/ou depersonagens da Antigidade Clssica por ordemalfabtica:Letra A: 2 ocorrncias;Letra B: 1 ocorrncia;Letra C: 3 ocorrncias;

    Letra D: 1 ocorrncia;Letra G: 3 ocorrncias;Letra H: 1 ocorrncia;Letra N: 2 ocorrncias;Letra Q: 2 ocorrncias;Letra R: 1 ocorrncia;Letra S: 3 ocorrncias;

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    Letra T: 1 ocorrncia;Letras U-V: 2 ocorrncias.

    Total: 22 ocorrncias

    b) Nmero total de incidncia de cada autor e/ou de

    personagem da Antigidade Clssica:Aristoteles (Aristteles) 1 ocorrncia;Bachus (Baco) 3 ocorrncias;Boreas (Breas) 1 ocorrncia;Cato, Marcius Porcius (Cato) 1 ocorrncia;Erinnys (Ernis) 1 ocorrncia;Fortuna (Fortuna) 1 ocorrncia;Ianus (Jano) 1 ocorrncia;Iuppiter (Jpiter) 1 ocorrncia;Melampus (Melampo) 1 ocorrncia;Naso, Publius Ovidius ( Pblio Ovdio Naso) 2 ocorrncias;Neptunus (Netuno) 1 ocorrncia;

    Troya (Tria) 1 ocorrncia;Venus (Vnus) 8 ocorrncias.

    Total: 23 ocorrncias

    O maior nmero de citaes referentes a Baco, Vnus e Ovdionos leva a coment-los dentro do provrbio por ns escolhidopara anlise.

    III.2. Provrbios

    BachusProvrbio: Tesseribus, Bacho, stabili meretricis amore

    Qui committit ei, proprio privatur honore.Traduo: Nos dados, em Baco, no constante amor de umameretriz

    Quem nisso incorre, privado da prpria honra.

    Baco, o deus da vinha, teve uma histria atribulada. Era filho deJpiter e de Smele, princesa tebana, filha de Cadmo. Devidoaos cimes de Juno, esposa de Jpiter, o palcio onde vivia comsua me foi incendiado, vindo sua me, em conseqncia, aperecer, sendo ele, ainda nascituro, salvo por intermdio deMcris, filha de Aristeu e posteriormente entregue a Jpiter que

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    o introduziu em sua coxa at a hora de seu nascimento. Suaassociao ao vinho assim descrita por Commelin (1906: 75):

    Quando cresceu, conquistou as ndias com um bando de homens emulheres, conduzindo tirsos e tambores em vez de armas. A sua volta

    foi uma marcha triunfal, dia e noite. Em seguida esteve no Egito ondeensinou a agricultura e a arte de extrair o mel; plantou a vinha e foiadorado como deus do vinho.

    Commelin (1906:77-78) assim o descr fisicamente:

    Baco geralmente representado com cornos, smbolo da fora e dopoder, coroado de pmpanos, de hera ou de figueira, sob a aparncia deum jovem risonho e festivo. Com uma das mos segura um cacho deuvas ou um chifre em forma de taa; com a outra um tirso cercado defolhagens e de fitas. Os olhos so negros e, sobre as espduas, a sua

    longa cabeleira lisa com reflexos doirados, cai em tranas ondeadas.

    A sua relao com o suco fermentado do fruto da videira reflete-se nas oferendas feitas pelos seus seguidores. Como afirma oestudioso francs, imolavam-lhe a pega, porque o vinho solta alngua e torna os bebedores indiscretos. (1906: 78) Seus outrosnomes tambm se relacionavam com seu poder sobre o vinho(1996: 78-79):

    s vezes chamado Liber(Livre), porque o deus do vinho liberta o

    esprito de qualquer cuidado; Evan, porque as suas sacerdotisas,durante as orgias, corriam de todos os lados gritando: Evoh, Bacche,termo derivado de uma palavra grega que significa gritar, aluso aosgritos das bacantes e dos grandes bebedores. Tem ainda outrossobrenomes provenientes do seu pas de origem ou dos efeitos daembriaguez: Nysoeus, de Nysa, Lyaeus, que afugenta a mgoa.

    Pelo exposto, nota-se, a partir da definio de seus atributos,que o deus Baco e o vinho simbolizam uma unio, cujo resultado expresso basicamente em orgias e descontrole ao falar,derivados da embriaguez, que, segundo a viso eclesisticamedieval, afasta os homens da sobriedade e sapinciaindispensveis ao comportamento de um cristo.

    Jogo, bebida e prostitutas so temticas recorrentes na IdadeMdia como dignas de srias reprimendas queles que a elas sededicam. O fascnio exercido pelo jogo, onde sorte e azarconvivem lado a lado e levam os homens muitas vezes

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    completa runa financeira, sem falar na moral; ao vinho, quedesde os antigos era a bebida da verdade, pois in vino veritas,entregavam-se os homens sem limites; as mulheres de vida fcilfechavam o ciclo de prazeres mundanos, ofertando-se, em trocade pagamento, queles que as procuravam para a fruio dacarne.

    As meretrizes completam o quadro de caos moral e decostumes. Elas formariam a casta de mulheres, que, de maneiracontrria aos preceitos cristos, entregavam-se fisicamente aoshomens, no unidas pelos laos indissolveis do matrimnio,mas por dinheiro. Jacques Rossiaud emA Prostituio na IdadeMdia (1991:12) informa-nos sobre vrios tipos de prostituio,porm

    a partir do sculo XIII, no mundo novo e mutante constitudo pelacidade, sempre distinguia-se entre as prostitutas pblicas e as outras.Prostituies, portanto, no apenas uma, coexistentes e respondendo ademandas de prostituio... igualmente diferentes, nas quais osimperativos de natureza, cultura e sociabilidade ordenavam-se de formadesigual.

    Quaisquer que tenham sido os motivos que conduzissem amulher prostituio (pobreza, misria, no conformidade como cdigo sexual de valores para com a mulher, dentre outros), a

    qualidade da relao, ou seja, o que definia sua ilegitimidade eno consonncia com uma atitude crist seria a prpriacondio de prostituta e no o que ela adquiria com o comrciode seu corpo, fundamentando o seu valor moral, totalmenteantagnico aos preceitos cristos.

    A partir das consideraes acima expostas, acreditamos, pois,que o provrbio em dstico por ns analisado um veementeataque queles que preferem os prazeres do mundo santidadede vida, ou seja, referendando um discurso pedaggico de

    censura que tenciona nortear o mundo de acordo com um pontode vista espiritual. O elemento mitolgico da Antigidade greco-latina, aqui Baco, no estava imbudo de qualidades e virtudescrists, manifestando somente suas caractersticas perversorase nocivas a uma comunidade regulamentada pelas palavras deCristo.

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    Contra ele, o jogo e a prostituta se ergue a voz moral defundamento cristo. Seu efeito retrico persuasivo apeladiretamente aoproprius honos do censurado, de forma areconduzi-lo ao Pai com as bnos da Igreja.

    Um outro dstico medieval, em versos unisoni, tambm utiliza-sede Baco e introduz Vnus: Raro frigescit Bacho Venus, ipsacalescit; / Litigium vita! tibi res honesta petita, RaramenteVnus esfria com Baco, ela prpria se aquece; / Foge dacontenda! Tu deves te dirigir para coisas honestas. Aqui Vnus,simbolizando a beleza do sexo feminino, une-se a Baco, o deusdo vinho, aquele que, como anteriormente considerado,desestabiliza o homem atravs dos efeitos da bebida. Juntos osdois, o amor de uma mulher e o vinho corrompem e abalam asestruturas do edifcio individual do cristo medieval e devido aisso o autor do provrbio, em tom exclamativo, exorta o leitor-ouvinte a se abster de ambos, pois a res honesta petita certamente o cumprimento das palavras de Deus ensinadas pelamater ecclesia.

    *

    VenusProvrbio: Nescit quid doceat, quem Venus illaqueat

    Traduo: Desconhece o que deve ensinar, aquele a quemVnus seduz.

    Afrodite para os gregos e cultuada em Roma como Vnus, adeusa latina presidia os prazeres do amor. H duas versessobre o seu nascimento, uma que a descreve como filha de

    Jpiter e de Dionia, filha de Netuno e a outra, mais conhecida econtada por Homero, segundo a qual a deusa teria sido formada

    da espuma do mar aquecido pelo sangue de Celo ou Urano, que se lhe

    misturou, quando Saturno levantou mo sacrlega sobre seu pai.Acrescenta-se que dessa mistura nasceu a deusa, perto da ilha deChipre, dentro de uma madreprola. Diz Homero que ela foi conduzida aessa ilha por Zfiro, que a entregou entre as mos das Horas, que seencarregaram de educ-la. Essa deusa assim concebida seria averdadeira Afrodite, isto nascida da espuma, em grego Aphros. (apudCOMMELIN, 1906: 68)

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    No provrbio em verso leonino a deusa romana literalmente laa de in, dentro de e laqueare, verbo preso ao substantivolaqueus, lao aquele que no tem conscincia de que hassuntos mais importantes a serem aprendidos do que se deixarenredar pelas teias do amor.

    Esta total submisso aos caprichos da deusa e conseqentefalta de vigilncia tambm podem ser encontradas em outraparmia, Curis artatur, si quis Veneri famulatur, Se algum criado de Vnus, afligido de cuidados. Neste provrbio emverso leonino, o trao social de vassalagem medieval transposto para a relao entre Vnus e seu seguidor,sintetizada pelo verbo famulari, servir como criado. Aquelesque seguem os prazeres advindos do corpo da mulher, portanto,descuidam-se dos bens do esprito, cujas repercusses ulterioressero funestas fatal e eternamente.

    A tentao das filhas de Eva, adornadas pelo cinto de Vnus, do mesmo modo retratada em Cuius forma bona, Veneri sitfemina prona, A mulher, cuja beleza perfeita, est inclinadapara Vnus. Evidencia-se neste exemplo o poder de seduofeminino quase irresistvel exercido pela deusa, que apenasseria detido, se o homem se dispusesse a se armardefensivamente com o Verbo divino.

    Por fim, um outro provrbio, em dstico com rimas leoninas,rene Vnus a Baco e ao jogo, completando o quadrodesarticulador do cristo medieval:Alea, vina, Venus; tribus hiissum factus egenus; / Hec tria qui poterit spernere, dives erit,Os dados, os vinhos e Vnus; eu sou feito desprovido dessastrs coisas; / Quem puder essas trs coisas desprezar, ricoser. A monotongao do ditongo ae - em e no caso de hecaparece com bastante freqncia nos textos medievais.

    Nesse provrbio, os trs elementos talvez mais perniciososdentro da vida cotidiana do medievo, o jogo, o vinho e a mulher,simbolizada por Vnus, so criticados a partir do ponto de vistado autor, que afirma estar livre deles e em conseqncia disso,fixa um parmetro de riqueza, que no est contido neles. medida que o tom do discurso proverbial pedaggico-moralizante, logo podemos deduzir que o mesmo pretendia

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    afastar o pblico leitor e/ou ouvinte desse trinmiodesestruturador da vida social de fundamentao crist daIdade Mdia, o que, por fim, configuraria sua redao no seioeclesistico.

    Conforme o material por ns submetido anlise, portanto,vemos na figura de Vnus a imagem da mulher insinuante, queao lanar mo dos seus atributos fsicos e demais recursos deseduo, instaura um grande perigo para a cristandadeocidental em terras em sua grande maioria germnicas. Assim,a representao da deusa romana associada s suascaractersticas do amor carnal somente poderia suscitarreprimendas queles que desejassem servi-la, pois em ummundo, no qual o homem deveria estar se preparando para averdadeira vidapost mortem, a base moral da vida passageiracentrava-se na palavra da Igreja.

    *

    Publius Ovidius NasoProvrbio: Qui studium spernit simul et tua carmina, Naso!

    Nil sibi contingat melius quam fiat agaso.

    Traduo: Quem ao mesmo tempo despreza o estudo e os teus versos,

    Naso! No ter sorte melhor do que tornar-se lacaio.

    Publius Ovidius Naso nasceu em Sulmona no ano 43 a.C. Filhode um comerciante abastado, teve educao esmerada,estudando filosofia, retrica e gramtica junto a grandesmestres. Exerceu a funo de advogado e outros cargos dentroda magistratura romana, conforme desejo paterno. Entretanto, aposteridade lembra-se de Ovdio como poeta. Em Roma, recebeos amigos para festividades em sua rica moradia. Rmulo

    Augusto de Souza (1977: 220) traa os passos da produoliterria do poeta de Sulmona:

    As suas primeiras obras, representadas pelas elegias amorosas, refletemesse clima requintado e ertico em que vivia o poeta. Como bomdiscpulo da escola alexandrina, Ovdio procurou fazer um poema maissrio, com tonalidades picas e didticas, sobre a criao do mundo edas coisas, ao qual deu o ttulo de Metamorphoses, considerada a sua

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    melhor obra. Em seguida, publicou os Fasti, espcie de calendrioexplicado dos dias teis.

    J reconhecido dentro da corte de Augusto, Ovdio parecia terconsolidado sua posio como escritor, quando ao estar

    concluindo os Fasti

    foi surpreendido por um edito do imperador desterrando-o para o PontoEuxino, regio fria e inspita da sia. Os motivos dessa deciso deAugusto nunca ficaram bem esclarecidos. Uns dizem que foram as suaspublicaes erticas, sobretudo aArs Amandi que teriam suscitado arepreslia do imperador, h muito esperando um pretexto para afastarde Roma o poeta, cujas obras contrariavam sua poltica de moralizao.Outros afirmam que Ovdio sabia e favorecia os amores secretos de Jlia,neta de Augusto. Parece, entretanto, que os motivos polticosrelacionados com a sucesso de Augusto foram os verdadeiros fatores

    da decretao do exlio do poeta, que figurava entre os opositores dosplanos de Lvia, visando transmitir o imprio a Tibrio e no a Agripa.(apud SOUZA, 1977: 220)

    Ovdio passou os seus anos restantes de vida no Ponto, ondeescreveu Tristia, Epistolae ex Ponto, a parte final dos Fasti e astira Ibis, vindo a falecer durante o reinado de Tibrio aos 63anos de idade no ano 18 da nossa era.

    O talento artstico e o preciosismo literrio do poeta foram

    redescobertos pelos lectores medievais. Konrad von Hirsau primeira metade do sculo XII aceita a leitura dos Fasti e dasEpistolae ex Ponto, recusando as obras erticas e asMetamorphoses.180 Por outro lado, no final deste mesmosculo, Alexander Neckam (apud CURTIUS: 1957:52) admite aleitura das Metamorphoses e para combater os seus possveisefeitos, os Remedia amoris e seus poemas so analisados luzde artifcios retricos. Todavia, um outro aspecto importante dotrabalho com seus textos possibilitou aos clerici delesdepreender expresses proverbiais, as quais tiveram largo uso

    durante o medievo.

    Da Literatura para a Retrica, entremeado de exemplosmoralizantes, Ovdio foi uma das auctoritates mais significativasdentro do universo intelectual medieval. Tal assertiva pode serdefendida, se atentarmos para o provrbio por ns arrolado, emversos caudati, onde o vocbulo nil aparece grafado sem os

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    grafemas hi- da forma clssica nihil, tendncia essa jconstatvel a partir do sermo vulgaris. No que tangeexplicitamente parmia, notamos que a referncia ao poeta deSulmona se inicia praticamente com a equivalncia entre ostudium, entendido como o ingresso na universidade, e oconhecimento dos versos de Ovdio, o que confirma ser sualeitura indispensvel pelo menos para o curso das disciplinas dotrivium.

    Caso, contudo, seu estudo seja negligenciado oupropositalmente rejeitado, triste sina estar reservada ao autorde tal temeridade, pois no obter posio de destaque dentroda sociedade medieval, cabendo-lhe possivelmente o papel delacaio.

    Neste ponto, este provrbio mostra-se extremamente rico emconsideraes de ordem social sobre o medievo, a saber:

    1. No estudo universitrio, a leitura dos carmina ovidianos eraindispensvel;

    2. O conhecimento delas advindo poderia proporcionarfuturamente ascenso socialdentro do universo doslitterati medievais;

    3. O desconhecimento das obras do sulmons, emcontrapartida, poderia determinar uma posio deinferioridade no mbito do saber e a palavra agaso,lacaio, pode perfeitamente ser aplicada quase comosinnima de vassalus.

    Uma segunda parmia em versos caudati lembra o sofrimentode Naso por ter sido expatriado por Augusto: Dicas, cum

    pateris, que forsan non meruisti: / Hec modo Naso feres,quoniam maiora tulisti, Tu dirias aquelas coisas, que talvez nomereceste, embora as sofras: / Logo, Naso, suportars estas,

    visto que suportaste males maiores. Alm das observaes decunho gramatical, onde se destacam a monotongao doditongo ae em que e hec formas clssicas quae e haec e asintaxe do verbo dicere -formando uma orao subordinada,visualiza-se por trs da meno aos sofrimentos de Ovdio umamensagem de reconforto, pois muitas vezes cometem-se

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    Deus e na escritura da Igreja os sustentculos morais de suaprpria sobrevivncia!

    *V. Bibliografia

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