medievais galego-portuguesas

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  • Revista ISSN 1646-740X

    online Nmero 12 | Julho - Dezembro 2012

    Ttulo: Algumas notas sobre a base de dados Cantigas Medievais Galego-Portuguesas

    Autor(es): Graa Videira Lopes

    Enquadramento Institucional: Instituto de Estudos Medievais FCSH UNL

    Contacto: [email protected]

    Fonte: Medievalista [Em linha]. N12, (Julho - Dezembro 2012). Dir. Jos Mattoso.

    Lisboa: IEM.

    Disponvel em: http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/

    ISSN: 1646-740X

    Data do artigo: Maro, 2012

    Algumas notas sobre a base de dados Cantigas

    Medievais Galego-Portuguesas

    Graa Videira Lopes

    Como a seu tempo a revista Medievalista online anunciou, desde finais de Outubro de

    2011 que se encontra disponvel na web, a nova base de dados Cantigas Medievais

    Galego-Portuguesas, plataforma multimdia que inclui a edio integral e anotada das

    cantigas medievais presentes nos cancioneiros galego-portugueses, as respectivas

    imagens dos manuscritos, a msica (quer a medieval, quer as verses ou composies

    originais contemporneas que tomam como ponto de partida os textos das cantigas

    medievais), informao sucinta sobre todos os autores nela includos, sobre as

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    http://cantigas.fcsh.unl.pt/index.asphttp://cantigas.fcsh.unl.pt/index.asp

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    personagens e lugares referidos nas cantigas, bem como a Arte de Trovar, o pequeno

    tratado de potica trovadoresca que abre o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, assim

    como diversos outros recursos, entre os quais ser de salientar a possibilidade de

    pesquisas mltiplas. Resultante do projecto Littera edio, actualizao e preservao

    do patrimnio literrio medieval portugus, projecto financiado pela FCT de 2007 a

    2010, o site deve a sua concretizao ao trabalho de uma pequena mas empenhada

    equipa multidisciplinar (que incluiu, com os jovens bolseiros e colaboradores, as reas

    cientficas da Literatura, da Msica, da Histria, mas tambm, e de toda a justia

    salient-lo, a rea mais tcnica da Informtica), cujos elementos sniores (eu prpria,

    Graa Videira Lopes, responsvel geral pelo Projecto, Manuel Pedro Ferreira,

    responsvel pela rea da msica e Nuno Jdice) h muito vinham trabalhando diversos

    aspectos do riqussimo patrimnio que so as cantigas trovadorescas galego-

    portuguesas. Seja como for, o certo que este trabalho especfico da construo da base

    de dados (BD) foi tambm, cientificamente, uma oportunidade nica de revisitar, na sua

    totalidade, e de forma global e integrada, o corpus das cantigas medievais conservadas.

    Foi desse trabalho que resultaram os dados disponibilizados no site, se bem que, dadas

    as caractersticas tcnicas deste tipo de plataformas, o espao seja pouco para

    justificaes ou reflexes demoradas sobre os mesmos. Nas observaes que se seguem

    procurarei, pois, dar conta, de forma um pouco mais elaborada, de alguns dos principais

    resultados cientficos desse trabalho.

    Antes, porm, no poderei deixar de fazer algumas consideraes preliminares sobre a

    prpria plataforma, a primeira das quais diz respeito ao critrio que presidiu ao seu

    desenho. Construda com vista a uma difuso na Web, a base de dados foi pensada,

    desde o seu incio, como um instrumento de carcter abrangente, visando um pblico-

    alvo composto quer pelos especialistas das mais diversas reas, quer pelo leitor comum

    interessado, mas no necessariamente familiarizado com a lngua, a msica ou o

    universo das cantigas medievais. Trata-se, nesta medida, de um plataforma dirigida,

    conjuntamente, investigao e divulgao, junto de um pblico mais vasto, do

    riqussimo patrimnio ibrico que constituem as cantigas medievais profanas. Todos os

    recursos nela disponibilizados procuraram, pois, ir ao encontro das necessidades e

    expectativas destes potenciais e distintos utilizadores. Para dar apenas um exemplo,

    assim que, ao mesmo tempo que anotamos com relativa abundncia os textos das

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    cantigas (notas explicativas, glossrio, etc.), damos igualmente a possibilidade, ao leitor

    que assim o deseje, de visualizar estes mesmos textos sem anotaes (bastando-lhe, para

    tal, desactivar este recurso). De resto, entre os recursos disponibilizados, e tirando

    partido de uma das mais poderosas funcionalidades deste tipo de instrumentos, os

    recursos de pesquisa sero talvez aqueles que podero constituir uma das suas mais-

    valias, particularmente no que toca investigao nos mais variados domnios. Foi esse

    pressuposto que nos levou a construir a pgina de entrada do site em torno desta

    funcionalidade, se bem que, na barra horizontal superior, o menu Pesquisa d ainda

    acesso a pesquisas mais especficas, nomeadamente Pesquisa em toda a base (cujos

    resultados incluem, no s as cantigas, mas todos os dados inseridos na BD). Tambm o

    menu Recursos disponibiliza um conjunto variado de dados gerais, entre os quais

    poderia salientar, por exemplo, e agora visando talvez um pblico mais lato, o que diz

    respeito aos Temas, ou assuntos abordados nas cantigas.

    Quanto aos critrios cientficos propriamente ditos definidos para a BD, acrescentarei

    ainda umas consideraes prvias. Na verdade, e embora os objectivos do projecto

    Littera fossem, no seu incio, mais modestos (o projecto apresentado FCT inclua

    apenas a edio integral das cantigas de amor, a que se juntava a edio integral das

    cantigas de dois ou trs trovadores, nomeadamente dos dois cuja msica parcialmente

    sobreviveu, D. Dinis e Martim Codax), rapidamente a equipa responsvel considerou

    que, dadas as circunstncias e as condies (talvez irrepetveis) de que dispunha, os seus

    objectivos poderiam ser mais ambiciosos, ou seja, que teria eventualmente

    disponibilidade e meios para, aproveitando as potencialidades e o impulso da jovem

    equipa ento formada, alargar o trabalho totalidade das cantigas transmitidas pelos

    Cancioneiros. Embora conscientes das dificuldades desta tarefa (que necessariamente se

    prolongou para alm do perodo financiado do projecto), a construo desta base de

    dados alargada constituiu assim, como dizia, uma oportunidade nica de revisitar, de

    forma integrada, o corpus profano trovadoresco, at pela necessidade de responder, de

    forma prtica e num espao de tempo necessariamente limitado, multiplicidade e

    variedade dos problemas que as cantigas ainda hoje nos colocam: dos relativos edio

    dos textos aos da sua interpretao, da msica aos contextos de produo, dos

    cancioneiros e tradio manuscrita s biografias dos autores ou autoria das cantigas,

    para referir apenas os mais evidentes. Muitos destes problemas foram e continuam a ser

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    objecto dos mais diversos estudos por parte de um vasto leque de fillogos,

    medievalistas e especialistas de vrias reas, de resto muito produtivos nestas ltimas

    dcadas, contribuies essas que de forma nenhuma poderiam ser ignoradas.

    Conscientes tambm da inevitabilidade de lapsos e falhas no que respeita a essa j longa

    lista de bibliografia (dadas at as dificuldades prticas de acesso a alguns trabalhos mais

    recentes, ou at mesmo a sua deficiente sinalizao), procurmos, pois, na medida das

    nossas possibilidades, integrar criticamente na BD os muitos e, em muitos casos,

    valiosos contributos que a investigao clssica e, sobretudo, a mais recente tem

    vindo incessantemente a fornecer sobre as diversas vertentes desta vasta matria e que

    tm permitido alargar consideravelmente o nosso conhecimento sobre as cantigas, os

    trovadores e jograis e o mundo que era o seu.

    Mas um projecto desta natureza, pelo menos como a equipa o entendeu desde o seu

    incio, comporta tambm, necessariamente, uma dimenso de trabalho directo sobre o

    corpus, assente na pesquisa e at mesmo de descoberta mais ou menos fortuita de dados

    novos, dados esses que, juntamente com as inevitveis escolhas feitas, nomeadamente

    no que toca edio dos textos, disponibilizmos igualmente na BD, muitas vezes em

    forma de proposta comunidade cientfica. Disseminadas ao longo dos milhares de

    pginas que comporta o site, muitas dessas novas propostas podero eventualmente ser

    pouco visveis, ou s-lo-o apenas para o especialista nessa matria especfica (que se

    disponha a procur-los). Da que, mesmo sendo impossvel anotar minuciosamente

    todas as diferentes escolhas que fizemos em relao a propostas anteriores ou todas as

    variaes ou alteraes de dados que introduzimos em muitos campos, creio que ser

    til fazer, neste momento, um ponto da situao no que toca a um conjunto mais restrito

    de propostas ou dados novos resultantes do nosso trabalho, particularmente os que

    dizem respeito a aspectos problemticos do corpus trovadoresco, at para, com esta

    chamada de ateno, possibilitar a sua discusso (e eventualmente a sua correco ou o

    seu aprofundamento, desgnio central num projecto que se quer aberto e dinmico).

    Embora muitas destas novas propostas introduzidas na base tenham dimenses

    mltiplas, no texto que se segue, por uma questo de legibilidade, irei organiz-las nas

    seguintes alneas: 1) Dados gerais; 2) Novas propostas de leitura (com duas notas breves

    sobre os manuscritos); 3) Citaes internas e relaes intertextuais; 4) Notas biogrficas

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    de autores e questes de autoria; 5) Novos dados de antroponmia e toponmia; 6)

    Contextos e interpretaes; 7) Perspectivas futuras.

    Gostaria apenas de acrescentar que nestas breves notas esto declaradamente ausentes

    as questes relacionadas com a dimenso musical da BD, tarefa que, com todo o gosto,

    deixarei a cargo do meu colega de equipa e amigo Manuel Pedro Ferreira, que to

    competente e eficazmente coordenou esta rea especfica do projecto Littera.

    Dados gerais

    A afirmao de que as cantigas medievais se inserem num tempo e num espao social

    politicamente definido no oferece novidade de maior. A investigao mais recente,

    dando continuidade a um tipo de abordagem j muito presente nos grandes

    investigadores clssicos, de Carolina Michalis a Rodrigues Lapa, tem vindo, alis, a

    reforar esta ideia, na srie contnua de novos dados avanados, nomeadamente sobre a

    origem e o percursos dos autores ou sobre as referncias antroponmicas ou toponmicas

    presentes nas cantigas. Abundantemente citados na presente base de dados, os

    excelentes e continuados trabalhos que Antnio Resende de Oliveira, Jos Antnio

    Souto Cabo ou Vicen Beltran, entre outros, tm vindo a publicar em anos recentes

    sobre estas matrias sero talvez o melhor exemplo disso mesmo. De qualquer forma,

    do trabalho por ns efectuado sobre o corpus integral da poesia profana trovadoresca,

    todos os gneros reunidos, um dos pontos gerais que me parece de salientar desde j a

    renovada constatao da ligao estreita dos textos trovadorescos com os contextos da

    sua produo, nomeadamente com os contextos polticos. Na alnea 6 destas notas

    retomarei, de forma mais detalhada e com exemplos concretos, este ponto. Mas a

    percepo de que as cantigas trovadorescas assentam no princpio de uma construo

    subtil e minuciosa, na qual, em geral, todos os elementos significam, e, em grande

    medida, significam politicamente, no pode deixar, desde j, de ser realada. Na

    verdade, se a questo do alcance poltico dos textos dos trovadores e jograis nunca

    levantou grandes dvidas no que toca a uma parte das cantigas satricas, as que

    abertamente referem elementos do xadrez poltico da sua poca (e a deposio de D.

    Sancho II , neste aspecto, um dos momentos satiricamente mais produtivos), dispomos

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    hoje de dados que permitem postular que a questo bem mais vasta, e no se resume

    s cantigas que declaradamente dizem ao que vm. Fazendo apelo a recursos

    diversificados e por vezes mnimos, muitas outras so o que poderamos chamar

    cantigas situadas, subtil mas decididamente remetendo para um tempo e um espao

    particulares. E assim, quer em cantigas satricas desde sempre consideradas meramente

    circunstanciais e ldicas, quer em cantigas de amigo ou de amor que jogam com

    elementos dissonantes (ou seja, que introduzem variaes mais ou menos marcadas s

    normas do gnero), a dimenso poltica torna-se evidente, uma vez descodificados os

    elementos (toponmicos, antroponmicos, intertextuais, ou outros) que, directa ou

    indirectamente, lhes servem de suporte.

    Estamos, pois, perante o que parece ser uma dimenso verdadeiramente estrutural da

    arte trovadoresca, assente num princpio que poderia ser definido como um mnimo de

    recursos para um mximo de efeito. Na verdade, se este tambm, embora com outra

    funcionalidade, o princpio detectvel numa boa parte das cantigas de amigo, creio

    poder afirmar-se que ainda ele que preside ao modo falsamente andino ou inocente

    como muitas aluses referenciais carregadas de sentido (e de sentido muitas vezes

    poltico) so introduzidas no canto pblico dos trovadores e jograis. Na leitura global e

    integrada que fizemos do corpus trovadoresco este mecanismo minimalista (ou, se

    quisermos, o apelo leitura lenta que fazem muitas cantigas, mesmo aquelas que no

    so construdas na forma do muito usado equvoco), esse mecanismo, dizia, tornou-se,

    para ns, evidente, determinando muitas das pistas interpretativas que seguimos. E se

    bem que muitos dos dados referenciais concretos que permitem esta leitura sejam, em

    muitas composies, ainda difceis ou problemticos de contextualizar com exactido,

    no parece haver dvidas de que a relao das cantigas trovadorescas com os seus

    contextos polticos imediatos bem mais estreita e efectiva do que geralmente se

    pressupunha ou do que poderamos pressupor a partir do punhado de cantigas satricas

    que declaradamente abordam questes e conflitos desta natureza. Deixando a

    explicitao deste ponto para um pouco mais tarde, o facto que, enquanto dado geral,

    este princpio no deixou de condicionar todas as restantes reas do trabalho que

    desenvolvemos sobre o corpus trovadoresco, da edio das cantigas s biografias dos

    trovadores, por exemplo, motivo que justifica esta alnea inicial. Mas antes de me

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    debruar mais demoradamente sobre o assunto, passarei, pois, a referir alguns dos

    resultados do nosso trabalho em reas mais especficas.

    Novas propostas de leitura (com duas breves notas sobre os manuscritos)

    A edio dos mais de 1700 textos que integram a presente base de dados foi, como se

    compreende, a tarefa mais longa, difcil e complexa deste projecto. No tendo partido

    do zero, mas apoiando-nos na j longa tradio filolgica sobre a matria, procurmos

    ter em conta, na leitura que fizemos dos manuscritos, no s as leituras dos grandes

    editores clssicos, como Oskar Nobiling, Henry Lang, Carolina Michalis ou Rodrigues

    Lapa, mas tambm as leituras mais recentes, seja por gnero (como o caso das 500

    Cantigas dAmigo de Rip Cohen1), sejam as propostas nas edies monogrficas de

    trovadores e jograis que nas ltimas dcadas tm vindo a ser publicadas com

    regularidade, sobretudo na Galiza e em Itlia (sempre que a elas tivemos acesso). Sendo

    certo, no entanto, que o mero bom senso dir que, nesta matrias, a antiguidade no

    sintoma de menor inteligncia ou argcia, no quereria deixar de referir aqui

    explicitamente a ajuda preciosa que constituiu, j numa fase adiantada do nosso

    trabalho, a muito recente srie de tradues de textos fundamentais da filologia

    portuguesa, a partir dos originais alemes de difcil acesso, tradues em boa hora

    levadas a cabo sob a coordenao de Yara Frateschi Vieira. Tanto nos estudos de

    Nobiling2 ou de Lang

    3, como nas muito citadas mas, at recentemente, pouco lidas

    Randglossen de D. Carolina4, os textos agora traduzidos, h abundante material relativo

    aos mais diversos aspectos da poesia trovadoresca, material imprescindvel quer sua

    edio, quer ao seu estudo. Sendo o Alemo uma lngua que poucos dominam, a

    oportuna iniciativa da Prof Yara Frateschi merece, pois, o mais justo reconhecimento

    por parte de todos os que trabalham neste campo.

    1 Campo das Letras, Porto, 2003

    2 As cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e estudos dispersos, Editora da Universidade Federal

    Fluminense, Niteri, 2010 3 Cancioneiro d'el rei Dom Denis e Estudos dispersos, Editora da Universidade Federal Fluminense,

    Niteri, 2010 4 Glosas Marginais ao Cancioneiro Medieval Portugus, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra,

    2004

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    Pese embora todo o importante trabalho filolgico, antigo ou recente, j efectuado sobre

    este corpus, o certo que, por questes que se prendem com as mais variadas

    deficincias da tradio manuscrita (textos incompletos ou visivelmente deturpados,

    variantes, etc.), muitas das cantigas trovadorescas continuam a levantar grandes

    problemas de edio. Procurmos resolv-los da forma que nos pareceu mais adequada,

    sobretudo tendo em conta os objectivos desta edio electrnica, j antes referidos.

    Sendo impossvel, como j antes referi, enumerar detalhadamente todos os passos em

    que divergimos de leituras anteriores (sobretudo em passos em que essas leituras eram

    j conjecturais), ou todas as pequenas ou mdias alteraes introduzidas nesta nossa

    edio5, chamarei a ateno apenas, neste ponto, para um punhado de novas propostas

    de leitura que nela avanamos, com mais ou menos certezas, mas sempre no sentido de

    abrir a discusso sobre estes passos problemticos do corpus trovadoresco. Sero

    referncias relativamente sucintas as que se seguem, j que o leitor destas notas poder

    seguir as hiperligaes indicadas e analisar mais demoradamente a questo (e consultar

    os manuscritos, se assim o entender6).

    Comearei por referir uma das mais interessantes mas tambm mais complicadas

    cantigas de todo o corpus, a composio Al u nasq la Torona, de D. Garcia Mendes

    dEixo, de resto tambm uma das composies mais antigas. Trata-se de uma cantiga

    que, em termos de edio, rene em si duas barreiras difceis de ultrapassar: o facto de

    nos ter sido transmitida de forma altamente deturpada pelo manuscrito (B, o nico que a

    transmite), e o facto de visivelmente se relacionar com um contexto poltico especfico,

    cujos contornos continuam a ser para ns assaz nebulosos (aspecto que retomarei no

    ponto 6). Atendendo a estas duas condicionantes, e se nenhum outro dado factual novo

    vier entretanto alterar a situao, por certo que dificilmente poderemos chegar a uma

    reconstruo mais ou menos fiel do texto original. Mas poderemos, eventualmente, ir

    melhorando a sua edio. Editada por mim num anterior trabalho7, ela agora

    apresentada na BD numa nova proposta de leitura, que procura seguir as pistas

    5 Para uma melhor clarificao deste ponto, remeto para os critrios de edio e anotao, disponveis no

    site (no menu Projeto Littera). 6 Por este motivo, tambm no indicarei neste texto a localizao das cantigas nos manuscritos, j que

    esta informao consta da pgina de cada cantiga. 7 Cantigas de escrnio e maldizer dos trovadores e jograis galego-portugueses, Lisboa, Editorial

    Estampa, 2002.

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=455&pv=sim

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    resultantes da investigao, alheia e prpria, entretanto efectuada. Podendo essa

    proposta ser consultada na base, no me irei deter especialmente sobre ela. Gostaria

    apenas de salientar aqui um outro dado resultante da nossa investigao e que me parece

    interessante, relacionado com a lngua em que est escrita a composio. Trata-se, na

    verdade, como desde sempre foi sinalizado, de uma cantiga (da nica cantiga deste

    corpus) que visivelmente no utiliza o galego-portugus, mas antes uma lngua ou

    dialecto provenal, e que Carolina Michalis sups ser limosino. Propomos, na base de

    dados, que se tratar antes do gasco. De facto, a cantiga vem acompanhada, no

    cancioneiro, de uma rubrica explicativa muitssimo deturpada (cuja edio tambm

    altermos), mas onde claro o nome de Rui dEspanha como o destinatrio da mesma.

    Ora, num artigo muito recente, Souto Cabo, procurando identificar esta personagem,

    avana que o apelido Espanha foi usado por uma linhagem de origem catal que parece

    ter tido como ncleo territorial o Vale de Aran, nos Pirinus e na fronteira francesa, mas

    que, em meados do sculo XIII, se fixou na Galiza8. Procurando essencialmente

    estabelecer a ligao dos Espanha (e especificamente de Rui dEspanha) com a Galiza,

    Souto Cabo no se detm especialmente nas origens geogrficas da linhagem. Mas o

    facto que o Vale de Aran um territrio onde se falava um dialecto especfico do

    occitnico, prximo do gasco (e de que resulta o arans, ainda hoje uma das lnguas

    oficiais do territrio, juntamente com o castelhano e o catalo). Assim sendo, pensamos

    ser muito possvel que a composio de D. Garcia de Sousa tenha sido escrita

    exactamente neste dialecto. Porque se trata, como dissemos, de uma das mais antigas

    cantigas que nos foram transmitidas, este dado poder constituir mais uma achega nas

    to discutidas quanto nebulosas origens da poesia galego-portuguesa. No sendo o meu

    propsito retomar essa questo aqui, limito-me a chamar a ateno para esta nova

    sugesto, deixando a discusso mais alargada das suas implicaes para um outro

    momento.

    Uma referncia breve edio que propomos para a famosa cantiga de amigo de

    Mendinho, Sedia-meu na ermida de Sam Simion, cujo problemtico refro tem feito

    correr rios de tinta. O problema, recordo, reside nos trs ou quatro caracteres que, nos

    8 "O eco das primeiras vozes", Voz, Actas do VIII Colquio Internacional da Seco Portuguesa da

    AHLM, Novembro de 2010, org. Elisa Maria Oliveira Gomes da Torre, UTAD, Vila Real, 2011, p. 30.

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=861&pv=sim

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 10 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    manuscritos, se seguem expresso, bem legvel, Eu atendendo meu amig, e que

    poderamos precariamente transcrever como . Desde sempre entendida como a

    indicao da repetio da frase anterior (no que seria um refro duplo Eu atendendo

    meu amigo/ eu atendendo meu amigo, forma que, at recentemente, surgia em todas as

    edies da cantiga), esta curta sequncia e o conjunto do refro foram, h uns anos,

    objecto de minucioso estudo por parte de Giuseppe Tavani9, que, contestando a leitura

    tradicional, props que o refro da cantiga seria Eu atendendo meu amigo. E verr?.

    Muito embora esta proposta do ilustre especialista italiano no tenha acolhido a

    unanimidade entre a comunidade cientfica que se dedica a estas matrias, ela que tem

    sido adoptada na maioria das edies mais recentes de Mendinho. Pela nossa parte,

    tendo igualmente dvidas, e at porque a questo, sendo polmica, no de fcil

    resoluo, optmos por uma leitura minimalista deste passo (Eu atendendo meu amig,

    eu a[tendendo]), leitura que procura evitar intervenes de fundo no testemunho pouco

    claro dos manuscritos e que semanticamente mais neutra. Como todas as outras que

    tm vindo a ser sugeridas, tambm a nossa proposta , no entanto, meramente

    conjectural, j que, mais uma vez, se nenhum outro dado vier acrescentar-se aos que

    possumos, dificilmente se poder chegar a uma reconstruo indiscutvel do original.

    A mesma incerteza rodeia a cantiga de Afonso Mendes de Besteiros, O arraes de Roi

    Garcia, cuja edio mais comum (a proposta por Rodrigues Lapa) tambm sofreu

    ligeiras alteraes. Desde logo por termos decidido manter, no verso final do refro, o

    verbo que claramente se l no manuscrito, enlinhoo, em lugar de seguir a sugesto de

    Lapa, que o corrige para enseinou-o, partindo do pressuposto que se trataria do

    antnimo do verbo usado no primeiro verso do refro desseinou-o. Muito embora seja

    esta, sem dvida, uma correco semanticamente interessante10

    , a repetida clareza do

    manuscrito neste passo (a forma enlinhoo repete-se trs vezes de forma integral e uma

    vez de forma parcial) levou-nos a optar, tambm aqui, por uma maior prudncia no que

    toca a intervenes de fundo na sua edio. De resto, e embora no se trate j de uma

    interveno editorial, discutimos tambm, na nota geral a esta cantiga de Afonso

    9 Publicado em 1988 na revista Grial, n99, retomado em Anda sobre Martn Codax e

    Mendinho, Actas do Congreso O Mar das Cantigas (Illa de San Simn, 21-23 de maio de 1998),

    Santiago de Compostela, 1999, p. 43-57. 10

    E que adoptei na minha edio anterior, j referida.

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1593&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1593&pv=sim

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    Mendes, e em dilogo com um excelente estudo que Resende de Oliveira publicou

    sobre a matria11

    , um novo sentido possvel para o termo arrais, em jeito de novo

    contributo para a clarificao desta complicada cantiga (que retomaremos igualmente no

    ponto 6).

    Termino este ponto com a indicao muito breve de algumas outras cantigas em que

    propomos pequenas alteraes editoriais, consultveis na base: Ora faz hosto senhor

    de Navarra, de Joo Soares de Paiva (neste caso, seguindo de perto a leitura de Jos

    Carlos Miranda para a primeira estrofe12

    ); a conhecida cantiga de Fernando Esquio -

    Que adubastes, amigo, al em Lugu andastes, onde lemos de maneira diferente do

    habitual o seu conhecido refro; a cantiga de Joo Servando Comerom [os] infanes,

    em outro dia, onde tambm propomos uma nova leitura para o refro; as cantigas de

    Afonso X Ao daiam de Clez eu achei (2 estrofe), Comeu em dia de Pscoa queria

    bem comer (neste caso, a nova proposta de edio resulta do trabalho do Manuel Pedro

    Ferreira sobre a cantiga, devido s referncias musicais nela presentes), Dom Gonalo,

    pois queredes ir daqui pera Sevilha (especialmente o complicado v. 12), Medhei do

    pertigueiro que tem Dea (neste caso, chamando a ateno para a nota de leitura ao v.

    4, onde se sugere uma leitura alternativa para o complicado refro), sem esquecer as

    duas Cantigas de Santa Maria presentes nos Cancioneiros (uma delas em lio nica),

    Falar quereu da senhor bem cousida e Deus te salve, Gloriosa (sendo que em

    ambas o trabalho do Manuel Pedro Ferreira foi igualmente central); a cantiga de Rui

    Fernandes de Santiago Ora nom deveu prear parecer (onde introduzimos um

    segundo verso, incompleto, no refro, com referncia a Sevilha, sugesto j avanada,

    mas no adoptada, por Rip Cohen13

    ); a cantiga de Airas Nunes O meu senhor bispo, na

    Redondela, um dia (com uma nova e hipottica proposta de leitura para a complicada

    2 estrofe); a muito estropiada cantiga de Joo Servando Dom Domingo Caorinha

    (com uma nova proposta de leitura para a 3 estrofe); a cantiga de Estvo da Guarda,

    Pois a todos avorrece (com uma leitura diferente do 1 verso do refro e um novo

    sentido para o termo pedrolo que nele surge); isto sem esquecer a quase totalidade das

    11 Rui Garcia de Paiva no escrnio Galego-Portugus, Revista Portuguesa de Histria, t. XXXVI, vol.

    I, 2002-2003, pp. 285-295 12

    Aurs mesxlatz ab argen. Sobre a primeira gerao de trovadores galego-portugueses, Edies

    Guarecer, Porto, 2004, pp. 22-32 13

    Ob. cit., p. 332

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1361&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1361&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1328http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1328http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1453http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1453http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=497&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=494&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=494&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=467&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=467&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=461&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=461&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=469&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=468&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=939&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=889&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=889&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1454&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1336

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 12 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    cantigas esprias presentes nos apgrafos italianos, algumas das quais, por se situarem

    numa zona pouco frequentada, em geral, pelos especialistas, editamos praticamente de

    raiz.

    Uma palavra tambm para a nova edio que fazemos da Arte de Trovar, o pequeno

    tratado de potica trovadoresca que abre o Cancioneiro da Biblioteca Nacional.

    Tratando-se, como sabido, de um texto muito problemtico (j que, para alm de se

    apresentar truncado no seu incio, apresenta igualmente muitos passos lacunares e

    outros de muito difcil leitura), a sua edio est longe de ser fcil. Procurando ter em

    conta as duas principais edies anteriores de que foi objecto, a de Jean Marie DHeur e

    a de Giuseppe Tavani14

    , arriscmos, mesmo assim, alteraes significativas s leituras

    que estes dois especialistas tinham proposto para alguns passos. As referidas

    dificuldades do manuscrito, no entanto, no so de molde a garantir que tenhamos

    efectivamente melhorado a sua edio.

    Esquecendo, muito provavelmente, outras intervenes editoriais que apresentamos na

    BD, o desejo da equipa que tanto as novas propostas de leitura acima explicitamente

    referidas como todas as outras possam ser objecto de discusso pela comunidade

    cientfica que se debrua sobre as cantigas, de forma a podermos ir gradualmente

    melhorando a edio deste to aliciante quanto complexo corpus trovadoresco.

    De resto, sobre a rea mais geral dos manuscritos, farei ainda duas breves

    consideraes. A primeira, para referir uma das tarefas nunca efectivamente realizadas,

    mas de cuja utilidade nenhum especialista certamente ter dvidas, e que diz respeito

    necessidade de se proceder, num futuro mais ou menos prximo, a uma anlise cuidada

    da iconografia do Cancioneiro da Ajuda. Refiro-me, bem entendido, s iluminuras (que

    disponibilizamos numa pgina independente, com uma muito breve descrio do

    Manuel Pedro Ferreira), mas tambm s iniciais trabalhadas (algumas com figuras

    antropomrficas, como o caso da discutida cantiga A 62, Pois nom hei de D. Elvira,

    cantiga a que regressarei adiante), ou mesmo a alguns outros objectos que

    comparecem nos flios deste cdice, como o caso da interessante e estranha imagem

    desenhada no final da cantiga A 252, imagem que, se no estou em erro, no mereceu

    14 Ver a pgina Bibliografia, para as referncias.

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantigasgenero.asphttp://cantigas.fcsh.unl.pt/artedetrovar.asphttp://cantigas.fcsh.unl.pt/manuscrito.asp?cdcant=150&cdmanu=228&nordem=1&x=1http://cantigas.fcsh.unl.pt/manuscrito.asp?cdcant=420&cdmanu=723&nordem=1&x=1

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 13 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    ainda qualquer referncia. Podendo representar um instrumento de sopro, com

    embocadura e pavilho em forma de cabea de animal e uma espcie de notas a

    formar um padro decorativo, espera ainda, de facto, uma ateno mais demorada (que

    incluiria, necessariamente, as razes da sua insero naquele lugar). Sendo certo que

    tambm na BD esta imagem apenas meramente assinalada, no queria deixar por isso

    de sinalizar a questo aqui.

    A outra referncia diz respeito aos apgrafos italianos, onde h igualmente pormenores

    curiosos, entre os quais saliento, de momento, apenas o facto de a cantiga de Pero

    Guterres Todos dizem que Deus nunca pecou, uma das sete cantigas satricas que, no

    nosso corpus, so dirigidas contra Deus, se apresentar claramente riscada no

    Cancioneiro da Vaticana (V 510), o que, sendo caso nico neste manuscrito, e no

    parecendo justificar-se pela deteco posterior de qualquer erro de cpia (a cantiga est

    correctamente inserida no seu lugar), tambm no parece ficar a dever-se ao acaso, mas

    antes, plausivelmente, ao prprio tema da composio. Como aquilo que sabemos em

    relao histria dos manuscritos galego-portugueses notoriamente pouco, este

    provvel vestgio concreto de uma leitura posterior do Cancioneiro da Vaticana merece,

    creio, ser destacado15

    .

    Por fim, e exactamente porque pouco sabemos destas matrias, uma referncia ao

    quadro geral comparativo das cantigas e dos cancioneiros em que so transcritas,

    recurso que julgmos til incluir na BD. Elaborado gradualmente ao longo do nosso

    trabalho, e finalizado tendo em conta os estudos efectuados pelas especialistas que se

    debruaram sobre os trs principais cdices (Anna Ferrari para os apgrafos italianos e

    Maria Ana Ramos para o cdice da Ajuda), no quisemos deixar de o disponibilizar na

    BD. Trata-se, de qualquer forma, de um recurso com um claro estatuto de rascunho

    (at mesmo na sua forma PDF), e que necessitar certamente de desenvolvimento

    posterior.

    15 Embora esta informao j esteja no site, aproveito para assinalar tambm aqui que, neste momento, se

    encontra disponvel para consulta, no IEM, um CD com novas fotografias de alta resoluo do

    Cancioneiro da Vaticana. Feitas especialmente para o Projecto, elas no podem ser disponibilizadas

    directamente online, nos termos do protocolo que fizemos com as autoridades da Biblioteca Vaticana,

    podendo, no entanto, ser livremente consultadas no Instituto.

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=930&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/manuscrito.asp?cdcant=930&cdmanu=1778&nordem=3&x=1http://cantigas.fcsh.unl.pt/quadrogeral.asp

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 14 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    Citaes internas e relaes intertextuais

    Uma das vantagens de se trabalhar com a totalidade do corpus trovadoresco profano, e,

    para mais, de se trabalhar com a sua edio electrnica, a possibilidade acrescida de se

    detectarem relaes cruzadas entre textos, ou seja, de se tornarem bem mais evidentes

    as ligaes que muitas cantigas estabelecem entre si. A existncia destas ligaes

    internas no , bem entendido, um facto novo, e desde h muito que a questo tem sido

    abordada nas suas diversas facetas, que podem ir do estudo de cantigas iguais ou

    semelhantes atribudas pelos manuscritos a dois autores (como o caso, entre outros, da

    clebre bailia das avelaneiras, de que temos duas verses, uma de Airas Nunes e outra

    de Joo Zorro), ao estudo das cantigas de seguir, uma das modalidades trovadorescas

    mais demoradamente explicadas pela Arte de Trovar, mas s quais, creio, ainda no

    foi dada a ateno que merecem (e que esta BD, de momento, tambm no lhes d,

    questo que abordarei no ltimo ponto destas notas). Igualmente sinalizadas tm sido

    algumas citaes internas, ou seja, cantigas que retomam versos de uma outra cantiga,

    seja de forma exacta, seja com ligeiras variaes. O processo ocorre no interior da obra

    de um mesmo trovador, com cantigas de amor e de amigo citando-se mutuamente, por

    exemplo (sendo o caso mais conhecido e notvel o de Joo Garcia de Guilhade), ou

    desenvolve-se a partir de cantigas alheias, neste caso assumindo frequentemente um

    valor satrico. A questo parece-me das mais interessantes, at por remeter novamente

    para a subtileza ou para a dimenso minimalista da arte trovadoresca, j antes

    referida. Porque, na verdade, estas citaes so sempre funcionais, ou seja, fornecem

    um sentido acrescentado aos textos, no caso, um sentido que, tambm j na poca, seria

    apenas eventualmente descodificado por um grupo reduzido de ouvintes, os do crculo

    restrito do autor da cantiga ou aqueles que possussem um conhecimento mais ou menos

    alargado do repertrio trovadoresco. Seja como for, no que toca a citaes alheias, e

    para alm dos casos h mais ou menos tempo sinalizados, enunciarei aqui alguns outros

    a que fazemos referncia na BD e que, a meu conhecimento, ou so inditos, ou pouca

    ateno tm merecido.

    Comearei, de resto, com um dos casos j h muito conhecidos, o de Airas Nunes,

    trovador muito dado a estes jogos intertextuais, nomeadamente a partir de composies

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=883&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1184&pv=sim

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 15 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    provenais (questo que no abordarei aqui), mas tambm a partir de composies

    galego-portuguesas, como acontece na pastorela O hojeu a pastor cantar. Trata-se,

    na verdade, de uma composio cujas quatro estrofes terminam com citaes de

    cantigas de amigo alheias, duas delas, bem localizadas (uma de Nuno Fernandes

    Torneol, na 3 estrofe, e outra de Joo Zorro na 4), e outras duas (ou trs) difceis de

    localizar (as utilizadas na 1 e na 2 estrofes, e talvez a citao final da 4 estrofe). No

    dispomos, infelizmente, da msica de nenhuma destas composies, o que seria,

    obviamente do maior interesse, at pelas variaes mtricas presentes nesses diferentes

    segmentos que Airas Nunes introduz na sua pastorela como refro. Mas, tal como

    Tavani16

    , adoptmos, no refro da 4 estrofe, por exemplo, a disposio grfica que os

    versos de Joo Zorro apresentam na composio do prprio (rea lateral em que estas

    citaes internas se mostram igualmente teis). De qualquer forma, o que Tavani no

    refere, e para isso chamarei a ateno aqui, o facto de, no caso do refro da 2 estrofe,

    um dos que no corresponde a nenhuma cantiga de amigo conhecida, o verso final (e

    damores hei mal) ser exactamente idntico ao refro de uma cantiga satrica de Rui

    Pais de Ribela, Mala ventura me venha. No se tratando, neste caso de Ribela, de uma

    cantiga de amigo, creio que o mais plausvel ambos os trovadores citarem uma

    composio alheia, cujo refro completo seria o que surge em Airas Nunes. A ser assim,

    essa fonte comum, podendo ser uma cantiga de amigo (perdida) de um outro trovador,

    poderia tambm ser uma cantiga da tradio oral popular (como eventualmente teria

    sido o caso, e cito a opinio de Rodrigues Lapa17

    , da bailia das avelaneiras, da qual

    temos as j referidas duas verses, uma de Airas Nunes e outra de Joo Zorro). Partindo

    desta hiptese de uma fonte tradicional comum a Airas Nunes e a Rui Pais de Ribela

    para o refro damores hei mal, no seria impossvel pensarmos ento que, na

    verdade, na sua pastorela, Airas Nunes citaria exclusivamente cantigas do repertrio

    popular, duas das quais teriam sido igualmente utilizadas por Nuno Fernandes Torneol e

    Joo Zorro para a composio das suas prprias cantigas de amigo. No seu prefcio

    edio galega de A poesia de Airas Nunes (a edio que cito em nota), Tavani,

    comentando a opinio de Rodrigues Lapa acima referida, mostra-se cptico em relao

    16 A poesia de Airas Nunes, Editorial Galxia, Vigo, 1992 (para a edio galega)

    17 Lapa, Manuel Rodrigues Recenso a Tavani, Giuseppe, Le poesie di Ayras Nunez, Ugo-Merendi

    Editore, Milo, 1964, in Boletim de Filologia, Tomo XXII, Centro de Estudos Filolgicos, Lisboa, 1964-

    1973.

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=877&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1450&pv=sim

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 16 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    ideia de que poderia ter havido um prstamo simultneo e autnomo de materiais de

    temas populares por parte de Airas Nunes e dos trovadores cujas cantigas parecem ser

    citadas na sua pastorela (Torneol e Zorro, os autores que Tavani refere). Penso que a

    sinalizao que agora fazemos da coincidncia entre o ltimo verso do refro da

    segunda estrofe da composio e o refro da cantiga satrica de Rui Pais de Ribela

    poder eventualmente relanar o debate.

    Ainda que menos discutido, um outro autor onde possvel detectar com relativa

    frequncia este jogo intertextual Afonso X. O caso mais flagrante o de uma das suas

    trs nicas cantigas de amor conservadas, Pois que mhei ora dalongar, cantiga de

    mestria cujas trs estrofes terminam com citaes de refres de cantigas de amor

    alheias, a primeira e a segunda citando textualmente duas cantigas de Joo Soares

    Coelho, a terceira citando, com variantes, uma cantiga de Pero dArmea (ou mesmo de

    Pero Garcia Burgals, j que tambm numa cantiga deste ltimo encontramos uma

    variao do mesmo segmento). Como dizemos na BD (na primeira das notas a esta

    cantiga de Afonso X), muito possvel que estas citaes no fossem um mero jogo de

    virtuosismo tcnico, mas tivessem um qualquer sentido especfico, hoje difcil de

    entender cabalmente. Na verdade, pensamos que, para alm do facto de esses versos

    finais das estrofes introduzirem o que parece ser um tom jocoso no universo fechado do

    canto de amor, a dupla citao de Joo Soares Coelho no ser certamente fortuita.

    Acrescente-se, de resto, que as duas cantigas de amor de Joo Soares citadas por Afonso

    X no parecem ser tematicamente alheias a esta problemtica, j que a primeira tem um

    incipit muito significativo, Pero meu hei amigos, nom hei ni um amigo, e a segunda

    (Deus, que mi hojaguisou de vos veeer) contm uma muito curiosa, se bem que

    crptica, referncia a uma filha de rei (v.13 e sgs.). J a citao da cantiga de Pero

    dArmea na terceira estrofe parece mais difcil explicar, visto tratar-se de uma cantiga

    de amor que aparentemente se limita a seguir os modelos cannicos do gnero. Seja

    como for, e partindo dos dados expostos, caberia talvez perguntar: no poderia a cantiga

    de Afonso X relacionar-se ainda, de alguma forma, com o clebre ciclo da ama,

    exactamente desencadeado por Joo Soares Coelho, e que tanto agitou a corte

    alfonsina? No cabe no espao destas curtas notas discutir o assunto, mas ser

    eventualmente uma pista a seguir (regressarei brevemente questo da ama no ponto

    6, mas a sem incluir este aspecto).

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=471&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=270&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=284&pv=sim

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 17 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    De Afonso X, e de entre outros casos j conhecidos, referirei ainda a composio Pero

    da Ponth feito gram pecado, cantiga satrica onde o rei brinca com um desaguisado,

    pessoal e artstico, entre o dito Pero da Ponte e Afonso Anes do Cotom. Como

    avanamos na BD, o facto de a cantiga insistir, nas duas primeiras estrofes, no verbo

    lazerar, sempre aplicado a Cotom (quantel lazerado/houve e quantel foi

    lazerar) poder ser um indcio de que o rei estar, na verdade, a citar irnica e

    jocosamente a nica cantiga de amor de Cotom (a nica que nos chegou), cujo incipit

    exactamente A gram dereito lazerei. A questo extravasa, de resto, a mera deteco de

    uma relao intertextual, j que, tendo em conta as indicaes contraditrias dos

    apgrafos italianos, a autoria desta ltima cantiga no absolutamente segura (V

    atribui-a a Airas Engeitado, enquanto B e C a atribuem a Cotom). A hiptese que

    avanamos (e que discutimos um pouco melhor na nota geral cantiga) seria, pois, mais

    um elemento que confirmaria a sua mais provvel atribuio a Cotom.

    Referiremos, por ltimo, dois outros casos igualmente pouco conhecidos neste campo

    das relaes intertextuais. Um deles o protagonizado pelas cantigas J lhi nunca

    pediram, de Afonso Mendes de Besteiros (uma das conhecidas cantigas contra os

    alcaides traidores), e a dona foi de pram, de Gonalo Anes do Vinhal, cantigas

    que partilham o refro com mnguas que havia (embora o refro da primeira seja

    apenas este verso, enquanto que o da segunda tem um outro verso suplementar).

    Tratando-se de duas cantigas satricas, o sentido desta partilha no to fcil de situar

    como nos casos em que uma cantiga satrica cita uma cantiga de amor ou de amigo. Mas

    ela no ser certamente fortuita. A cantiga de Vinhal, centrando-se nos favores que uma

    dona receberia da Ordem do Hospital, , de facto, uma crtica indirecta a essa Ordem.

    Teria Afonso Mendes de Besteiros sido um dos seus membros? No disponho de

    qualquer dado nesse sentido, mas poder ser eventualmente uma pista a seguir.

    O outro caso ainda mais problemtico. Trata-se de trs versos exactamente iguais que

    surgem em duas cantigas de amor bastante diferentes, uma de Joo Garcia de Guilhade,

    Estes meus olhos nunca perderm, e outra de Rodrigo Anes de Vasconcelos,

    Aquestas coitas que de sofrer hei. Os referidos versos so Guisado tm de nunca

    perder/ meus olhos coita e meu coraom,/ e estas coitas, senhor, minhas som (que, na

    cantiga de Guilhade, correspondem ao incio da segunda estrofe, e, na de Rodrigo Anes,

    ao incio da terceira). O problema tanto mais complicado quanto a cantiga de Rodrigo

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=489&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=489&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=977&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1592&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1592&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1426&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=404&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=333&pv=sim

  • A l g uma s n o t a s s o b r e a b a s e d e d a d o s C a n t i g a s M ed i e v a i s Ga l e g o - P o r t u g u e s a s G r a a V i d e i r a L o p e s

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    Anes assaz obscura, no sendo mesmo absolutamente claro se se trata efectivamente

    de uma cantiga de amor ou de uma cantiga de amigo (se estamos perante uma voz

    masculina ou feminina). O facto de partilhar estes trs versos com a cantiga de amor de

    Guilhade mais um elemento a juntar estranheza geral da composio. Podendo, neste

    caso, tratar-se de uma simples deficincia da tradio manuscrita (o copista teria

    copiado inadvertidamente versos errados numa das composies), tambm pode tratar-

    se de uma verdadeira relao intertextual, que anoto, mas para a qual no avano

    qualquer explicao.

    Notas biogrficas de autores e questes de autoria

    Desde Carolina Michalis, pelo menos, que uma das tarefas mais importantes mas

    tambm mais complicadas no que toca poesia trovadoresca galego-portuguesa tem

    sido a de identificar, tanto quanto possvel, os seus autores. Na verdade, se em relao a

    alguns deles (monarcas ou ricos-homens de reconhecida notoriedade) os dados

    biogrficos de que dispomos so relativamente abundantes, em relao larga maioria

    dos nomes que comparecem nos apgrafos italianos ou na longa lista de autores

    elaborada por Colocci (a Tavola Colocciana) esses dados so escassos ou mesmo

    totalmente inexistentes (o caso mais evidente sendo, como se compreende, o dos

    jograis). Atendendo s dificuldades da tarefa, mais notvel se torna o trabalho de D.

    Carolina nesta matria, trabalho do qual resultaram os numerosos e, ainda hoje, valiosos

    dados biogrficos que expe no volume II do Cancioneiro da Ajuda e que representam,

    no seu conjunto, uma parte substancial desse volume. A extensa erudio de D.

    Carolina e o rigor que ps no seu trabalho fazem dele uma fonte imprescindvel, e

    mesmo, durante largos anos, a nica fonte disponvel sobre a vida dos trovadores e

    jograis. Em termos gerais, s a partir de incios dos anos 1990 a situao conheceu um

    desenvolvimento significativo, muito particularmente com a publicao da tese de

    doutoramento de Antnio Resende de Oliveira, Depois do espectculo trovadoresco. A

    estrutura dos cancioneiros peninsulares e as recolhas dos sculos XIII e XIV18

    , trabalho

    que, entre outros mritos, inclua, nas suas pginas finais, uma preciosa resenha das

    18 Edies Colibri, Lisboa, 1994.

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 19 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    biografias de todos os autores presentes nos cancioneiros, e na qual o autor no s fazia

    uma reviso crtica dos dados de D. Carolina, como avanava inmeros dados novos

    relativos a um vasto conjunto de autores. A este e aos posteriores trabalhos de Resende

    de Oliveira sobre a matria, estudos hoje em dia incontornveis, vieram juntar-se, em

    anos mais recentes, um conjunto de novos trabalhos que, geralmente em dilogo com

    Resende de Oliveira, tm vindo a completar ou mesmo a alterar significativamente o

    que sabamos sobre as biografias dos trovadores e dos jograis galego-portugueses. Entre

    esses trabalhos destacarei, pela sua pertinncia e pelo seu carcter genrico, os de Ron

    Fernndez19

    , de Jos Antnio Souto Cabo ou de Vincen Beltran20

    .

    As breves notas biogrficas sobre os trovadores e jograis que disponibilizamos na BD

    muito devem a todos estes trabalhos, cujos dados (nem sempre coincidentes, diga-se)

    procurmos harmoniosamente integrar. A ttulo pessoal, aproveito, alis, para expressar

    publicamente aqui os meus agradecimentos ao Antnio Resende de Oliveira pela

    disponibilidade (e a pacincia) sempre demonstradas no que toca s numerosas dvidas

    que informalmente lhe fui colocando. O meu agradecimento extensivo ao Jos

    Antnio Souto Cabo, particularmente pela pronta disponibilizao de alguns trabalhos

    seus, inditos data da apresentao pblica da BD. Mas para alm destes

    incontornveis contributos, as notas biogrficas procuraram ainda ter em conta uma

    srie de outros dados, quer os directamente retirados os Livros de Linhagens ou de

    algumas outras fontes, quer os provenientes de edies monogrficas e de estudos

    diversos, e que no irei enumerar detalhadamente aqui, at porque essa origem sempre

    indicada nas notas bibliogrficas das pginas respectivas. No posso, no entanto, deixar

    de referir explicitamente a ajuda preciosa que constituiu o importante trabalho de Jos

    Augusto Pizarro, Linhagens Medievais Portuguesas: genealogias e estratgias, para

    mais em to boa hora disponibilizado online pela Universidade do Porto (como tese de

    doutoramento que foi)21

    . Embora se trate, como o seu nome indica, de um estudo geral

    sobre a nobreza portuguesa medieval, e no, obviamente, sobre os trovadores, nele nos

    19 Carolina Michalis e os trobadores representados no Cancioneiro da Ajuda, in Carolina Michalis e

    o Cancioneira da Ajuda hoxe, Xunta de Galicia, Santiago de Compostela, 2005 20

    No que toca aos trabalhos de Souto Cabo e tambm de Vincen Beltran, que so mltiplos, consulte-se

    a pgina da Bibliografia includa na BD. 21

    Centro de Estudos de Genealogia, Herldica e Histria da Famlia da Universidade Moderna, Porto,

    1999. Na pgina da Bibliografia do site indicamos o endereo electrnico onde a obra pode ser consultada

    (em pdf. pesquisvel).

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 20 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    basemos para introduzir algumas informaes suplementares nas biografias de alguns

    autores, informaes essas que, por mais recentes, ainda no constavam dos trabalhos

    especficos dos investigadores anteriormente referidos. Tratando-se, em geral, de

    pequenos dados, eles no deixam de ser importantes, j que, mesmo no caso dos autores

    sobre os quais no h dvidas sobre a sua linhagem ou sobre os aspectos gerais da sua

    biografia, conhecemos por vezes bastante mal o seu percurso concreto, elemento em

    muitos casos fundamental para a interpretao, datao, ou mesmo autoria das cantigas.

    As notas biogrficas disponibilizadas na BD tm, pois, um carcter compsito, nalguns

    momentos procurando avanar igualmente novas pistas e novas hipteses, suscitadas

    tanto pela anlise cruzada das diferentes propostas dos especialistas, como pela nossa

    prpria pesquisa. Sendo impossvel, tambm nesta matria, apontar minuciosamente

    todas elas, chamarei a ateno, desde j, e de forma mais global, para as reformulaes,

    por vezes muito significativas, que na BD sofreram as biografias de quase todos os

    autores das chamadas primeira e segunda geraes, reformulaes em grande parte

    apoiadas nas muito recentes investigaes de Souto Cabo. Os casos mais em evidncia

    sero eventualmente os de Ferno Pais de Tamalancos (Ferno Pais Capelo), de D.

    Juano ou D. Juio ou de Airas Soares ou Oares (nestes dois ltimos casos, at nos

    nomes h alterao, embora mantenhamos ainda activos os nomes tradicionais). Mas em

    quase todos os restantes autores mais recuados h dados novos, eventualmente a

    necessitar de confirmao e discusso mais detalhadas. Aguardando exactamente que

    essa discusso se processe, acrescente-se que, do impressionante nmero de dados

    factuais novos e novas hipteses avanadas por Souto Cabo nos seus ltimos artigos,

    nem todos (ou, sobretudo, nem todas essas hipteses) integram efectivamente a BD.

    Estou certa, de qualquer forma, que estas notas biogrficas, at por a sua matria se ligar

    muito estreitamente com o complicado problema das origens da poesia galego-

    portuguesa, sero aquelas que mais probabilidades tm de vir a sofrer modificaes a

    curto ou a mdio prazo.

    Feita esta referncia de conjunto s primeiras geraes, chamarei ainda a ateno em

    seguida, de forma muito breve, para um conjunto de outros autores em cujas biografias

    inclumos dados que podero suscitar igualmente alguma discusso.

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=45&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=26&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=26&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=19&pv=sim

  • A l g uma s n o t a s s o b r e a b a s e d e d a d o s C a n t i g a s M ed i e v a i s Ga l e g o - P o r t u g u e s a s G r a a V i d e i r a L o p e s

    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 21 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    Comearei por Lopo Lias, trovador cuja biografia est longe de ser pacfica, j que o

    arco cronolgico que lhe tem vindo a ser atribudo varia entre as primeiras dcadas

    (Souto Cabo22

    ) e os finais do sculo XIII e incios de XIV (Resende de Oliveira). Sendo

    as razes de um e de outro brevemente resumidas na nota biogrfica do trovador, sobre

    elas no me irei alongar aqui. Mas o certo que, como Souto Cabo, consideramos mais

    plausvel que a vida activa de D. Lopo Lias tenha decorrido nas primeira dcadas do

    sculo XIII, e que tenhamos, pois, de o integrar nas fases iniciais do movimento

    trovadoresco ibrico. Neste sentido, e tendo em conta a referncia a Benavente que

    feita na segunda das doze cantigas satricas que o trovador dirige a uns infanes de

    Lemos, chamo a ateno ainda para a nova proposta contextual para todo esse ciclo que

    avanamos na nota geral primeira das suas cantigas, e que vai exactamente no sentido

    dessa cronologia mais recuada (regressarei, de qualquer forma, ao assunto no ponto 6).

    A partir desta cronologia, alis, recolocamos em cima da mesa uma hiptese de D.

    Carolina Michalis relativa ao trovador Airas Moniz de Asma (a de que poderia ser ele

    o Airas Moniz referido por D. Lopo Lias numa sua composio), e a que fazemos

    referncia na nota biogrfica desse trovador.

    Um outro autor de biografia problemtica Pero Garcia de Ambroa. Utilizando a

    expresso um outro autor indicamos, desde j, a opo que tommos na BD, uma vez

    que, segundo Resende de Oliveira (numa proposta seguida por outros especialistas),

    estaramos face no a um, mas a dois indivduos: Pero de Ambroa e Pero Garcia de

    Ambroa. Pelas razes que avanamos na nota biogrfica respectiva, e que muito devem

    aos novos documentos localizados por Souto Cabo a referidos, no nos parece que seja

    este o caso. A opo que tommos est, no entanto, perfeitamente aberta discusso.

    Quanto ao trovador Mem Pais, de biografia muito incerta, propomos, na sua nota

    biogrfica, que se tratar da mesma personagem a quem Afonso X dirige duas cantigas

    satricas. Trata-se, neste caso, de uma proposta que apenas viria confirmar uma das duas

    hipteses de identificao j avanadas por Resende de Oliveira, no caso, a de que se

    trataria do galego Mem Pais de Souto Maior ou de Candarei. De resto, partindo dos

    22 E tambm Vicen Beltran, ainda que por razes diferentes e menos factuais.

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=87&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1369&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=15&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=122&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=99&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=99&pv=sim

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 22 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    dados avanados por Ron Fernndez para a biografia de Nuno Rodriges de Candarei,

    avanamos ainda a hiptese de Mem Pais poder ser seu tio.

    Gostaria tambm de fazer uma breve referncia ao chamado Annimo de Santarm.

    Tratando-se de um trovador apenas presente no Cancioneiro da Ajuda (manuscrito onde

    no constam os nomes dos autores), dificilmente poderemos vir a identific-lo com um

    mnimo de segurana. Optando por distingui-lo dos restantes annimos (que

    diferenciamos na habitual forma numrica) e por design-lo pelo nome que geralmente

    lhe dado ao correr de textos e estudos, avanamos tambm, na sua nota biogrfica,

    uma srie de sugestes quanto sua identidade, sugestes que tm, bem entendido, um

    carcter meramente indicativo, e cuja finalidade essencialmente a de suscitar o debate

    e a pesquisa. Tambm nesta entrada avanamos com uma simples pista para uma

    eventual identificao da senhora de Santarm, muito provavelmente residente em

    Alfanje, a quem se dirigem as cantigas do trovador, pista que retirmos de uma

    referncia de Jos Augusto Pizarro relativa a D. Estvo Peres de Aboim.

    Relacionada com Santarm, discutimos ainda brevemente, no final da sua nota

    biogrfica, uma identificao alternativa para Estvo Raimondo, que o faria neto do

    trovador Martim Soares. No temos quaisquer certezas a este respeito, mas decidimos

    introduzir essa nova pista, de forma a relanar o debate sobre um autor cuja

    identificao problemtica (at por desconhecermos o seu nome de famlia). De resto,

    e no que toca ao prprio Martim Soares, inclumos na sua nota biogrfica uma sugesto

    de Jos Augusto Pizarro, que vai no sentido de o ligar linhagem dos Ribeiro

    (indicao extensiva ao seu eventual irmo, Garcia Soares). J no que toca aos dois

    filhos trovadores de D. Garcia Mendes DEixo, Ferno Garcia Esgaravunha e Gonalo

    Garcia chamarei a ateno, para alm da reviso da data da morte do primeiro (e que vai

    no sentido de uma sugesto j avanada por Vicen Beltran), para a possvel estadia na

    Catalunha pelo menos do segundo, ao servio de D. Pedro Sanches, dado igualmente

    avanado por Pizarro. Uma sugesto, novamente eventual, para a efectiva ligao de

    Joo Garcia de Guilhade ao jogral Loureno avanada na notas biogrficas de ambos.

    Por ltimo, e dado no pretender alargar excessivamente estas notas, referirei, de forma

    sucinta, um conjunto de autores em cujas notas biogrficas inserimos informao

    pontual nova ou sugerimos novas pistas, como o caso de Joo Lobeira, Joo Peres de

    Aboim, o trovador judeu Josepe (que dialoga com Estvo da Guarda numa teno),

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=444&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=35&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=98&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=54&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=42&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=60&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=60&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=68&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=88&pv=sim

  • A l g uma s n o t a s s o b r e a b a s e d e d a d o s C a n t i g a s M ed i e v a i s Ga l e g o - P o r t u g u e s a s G r a a V i d e i r a L o p e s

    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 23 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    Martim Moxa (sobre o qual, novos e contraditrios dados foram avanados

    recentemente), Pero da Ponte, Pero de Ornelas, Pero Vivies, Rodrigo Anes Redondo,

    Vasco Praga de Sandim e Vasco Rodrigues de Calvelo.

    Sendo a presente BD um projecto que se quer activo, como disse, esperamos, pois, que

    da discusso das nossas propostas, e tambm das investigaes futuras, possam surgir

    novos dados que possibilitem a correco e o alargamento das notas biogrficas nela

    presentemente includas.

    Um problema que no pode deixar de ter em conta o anterior, embora seja de um mbito

    relativamente diferente, o da atribuio das cantigas ao respectivo autor, questo que

    num nmero significativo de casos no fcil de resolver. O problema prende-se,

    essencialmente, com dois aspectos: por um lado, com a j referida ausncia de nomes de

    autores no Cancioneiro da Ajuda (o que faz com que apenas as composies desse

    manuscrito igualmente transcritas nos apgrafos italianos possam ser atribudas com

    relativa segurana), e, por outro lado, com as indicaes contraditrias de autoria que

    encontramos nos apgrafos italianos e na Tavola Colocciana. Tambm neste campo, e

    ao mesmo tempo que assinalamos sempre a autoria duvidosa de uma cantiga,

    procurmos integrar na BD informao actualizada, proveniente quer de estudos

    alheios23

    , quer das nossas prprias opes (explicadas nas breves notas colocadas

    esquerda dos nomes indicados como mais provveis autores). Neste momento, e no que

    toca a esta questo, gostaria apenas de chamar brevemente a ateno para trs casos

    particulares, que me parecem dos mais interessantes.

    Um deles, o da cantiga de amor incompleta Meus olhos, gram coita damor, apenas

    transcrita pelo Cancioneiro da Ajuda, e at recentemente atribuda, sem contestao, a

    Paio Soares de Taveirs (j que a ltima de um conjunto de nove composies que,

    neste manuscrito, parecem ser de um mesmo autor, sendo que as cinco primeiras so

    igualmente transcritas por B, e a atribudas a Paio Soares). Na BD passamos a

    consider-la de autoria duvidosa, e isto tendo em conta a recente e relevante descoberta

    de Susana Tavares Pedro, que detectou o nome de Pero da Ponte minusculamente

    23 E neste aspecto tivemos particularmente em conta, embora nem sempre as segussemos, as propostas da

    equipa da Lrica Profana Galego-Portuguesa (coord. Mercedes Brea, Centro Ramn Pieiro, Xunta de

    Galicia, Santiago de Compostela, 1996).

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=125&pv=sim

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 24 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    escrito na margem esquerda da inicial de abertura (onde este nome efectivamente

    legvel, facto que passou despercebido no s a Carolina Michalis mas a todos os

    restantes especialistas que se debruaram sobre o cdice). Embora Susana Pedro j

    tenha tornado pblica a sua descoberta em 2004, ela ainda relativamente desconhecida

    (at por no terem ainda sido publicadas as actas do colquio onde foi apresentada24

    ), e

    para ela chamo aqui, pois, a ateno. A questo, como se compreende (sobretudo

    atendendo ao que antes se disse sobre a ausncia de nomes no Cancioneiro da Ajuda),

    ultrapassa em muito a mera autoria da referida cantiga. Mas tem tambm implicaes

    nesta matria, razo pela qual a refiro aqui.

    O segundo caso o da teno Vs que soedes em corte morar, uma das cantigas de

    mais difcil atribuio de todas as que nos chegaram, seno mesmo a mais difcil. Uma

    vez que expomos os dados do problema na nota geral da composio, no me vou

    alongar aqui sobre as razes que nos levaram a indicar como seus autores Martim Moxa

    e um Annimo. Seguindo, nessa nota, Resende de Oliveira na opinio de que se tratar

    de uma composio de finais do sculo XIII ou incios do XIV, gostaria apenas de

    acrescentar um outro dado que poder ter relevncia quer na autoria, quer na datao da

    cantiga (neste ltimo aspecto, eventualmente contrariando at as razes expostas na

    referida nota), e que diz respeito s formas que surgem na terceira estrofe em posio de

    rima: d/ (3 pessoa do pres. do conj. do v. dar, v. 16/ pres. v. ser, v. 18). Assim, e

    antes de mais, fao notar que esta mesma rima, que muito rara no nosso corpus, surge

    efectivamente numa outra cantiga de Martim Moxa (2 estrofe), dado este que vem no

    sentido da plausibilidade de ser ele um dos autores. De resto, seguindo D. Carolina

    Michalis, que na entrada dar do seu Glossrio25

    anota que d a forma mais antiga do

    conjuntivo, sendo que D. Dinis j rimava d com qu (como se poder verificar em

    B556/V159 e B585/V189), teramos necessariamente de recuar a composio para

    meados do sculo XIII (tornando plausvel que o outro autor fosse eventualmente

    Loureno, como indica V). De qualquer forma, ser tambm necessrio acrescentar que

    o nico trovador, para alm de Martim Moxa, onde encontramos esta mesma rima

    Joo Airas de Santiago (em B953/V541, 2 estrofe), em princpio um autor mais tardio.

    24 Consulte-se a Bibliografia da BD, no s para a indicao detalhada, mas tambm porque nela

    inclumos o link para o artigo, que se encontra disponvel online. 25

    Glossrio do Cancioneiro da Ajuda, p. 24, Cancioneiro da Ajuda, vol. I

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=892&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=899&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=580&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=610&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=961&pv=sim

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 25 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    Fica aqui, no entanto, esta nota suplementar como mais um contributo resoluo da

    intrincada questo da autoria desta teno.

    O terceiro e ltimo caso diz respeito opo que tommos quanto cantiga Senhor

    genta, geralmente conhecida como o Lais de Leonoreta. Trata-se, como se sabe, de

    uma composio que tem feito correr rios de tinta, uma vez que, surgindo igualmente na

    verso castelhana da clebre novela de cavalaria Amadis de Gaula, verso essa

    elaborada, em finais do sculo XV, por Garc Rodriguez de Montalvo, a partir de um

    original medieval hoje perdido, a sua autoria necessariamente se liga com a complexa e

    muito discutida questo da autoria da prpria novela (e da sua lngua original). No

    Cancioneiro da Biblioteca Nacional, nico manuscrito que a transmite, a cantiga de

    Leonoreta claramente atribuda por Colocci ao trovador Joo Lobeira, informao que

    a Tavola Colocciana reitera. De D. Carolina Michalis a Rodrigues Lapa, Joo Lobeira

    tem sido, pois, indicado como o autor do Amadis primitivo, cuja lngua seria assim o

    galego-portugus. Como explicamos um pouco melhor na nota geral da cantiga, mais

    recentemente vrios especialistas, tendo em conta a forma algo anmala como a

    composio se apresenta em B (a primeira estrofe no folio 64, em B 244, as duas

    seguintes no verso do mesmo folio, seguindo B 246, e sem numerao), defenderam que

    se trataria, na verdade, no de uma cantiga de Joo Lobeira, mas de uma composio

    espria, ou seja, de uma das vrias composies tardias, acrescentadas em poca

    posterior em espaos em branco do manuscrito medieval e copiadas igualmente por

    Colocci. Se a disposio anmala da composio no manuscrito indiscutvel e torna

    esta hiptese plausvel, tambm certo que algumas dvidas nos parecem ainda

    subsistir. Na verdade, sendo esta a primeira composio atribuda por Colocci a Joo

    Lobeira (que, em B, escreve o seu nome imediatamente antes da primeira estrofe), e no

    parecendo plausvel que, no manuscrito medieval primitivo ao nome do trovador se

    seguisse um espao em branco (onde algum teria inserido posteriormente uma cantiga),

    s poderemos concluir que, ou Colocci se enganou (e o nome do trovador, no

    manuscrito que copiava, seguia e no precedia essa estrofe, ou seja, o espao em branco

    estaria no final das composies do autor anterior, Ferno Garcia Esgaravunha), ou essa

    primeira estrofe ser efectivamente de Joo Lobeira (podendo as outras duas ter sido

    acrescentadas em poca posterior, eventualmente). Seja como for, e atendendo a toda

    esta problemtica, que nos parece necessitar ainda de melhor ateno, optmos por

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=231&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=231&pv=sim

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 26 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    considerar o Lais de Leonoreta uma composio de autoria duvidosa, indicando como

    seus mais provveis autores Joo Lobeira ou um Annimo.

    Novos dados de antroponmia e toponmia

    Como referimos no primeiro ponto destas notas, do trabalho de construo desta base de

    dados saiu reforada a constatao da ligao estreita que as cantigas trovadorescas

    mantm com os contextos sociais e polticos da sua produo. Dois dos elementos que

    melhor permitem detectar e interpretar essas ligaes so a antroponmia e a toponmia

    presentes nas cantigas. De facto, quer as pessoas, destinatrios ou no das cantigas, quer

    os lugares referidos pelo trovadores nas suas composies definem uma rede de sentido

    que, na maior parte dos casos, no fortuita ou meramente pessoal, mas sim social e

    politicamente orientada. Um dos esforos mais permanentes da equipa foi, pois, o de

    tentar identificar os lugares e as pessoas referidos mas ainda desconhecidos, tarefa

    difcil, demorada e frequentemente inconclusiva. Mesmo assim, creio que neste campo a

    BD apresenta novidades significativas. Irei referir em seguida as entradas de toponmia

    e de antroponmia nas quais apresentamos dados novos ou fazemos novas sugestes de

    identificao. Sendo certo que esta questo se liga estreitamente com a interpretao das

    cantigas e dos seus contextos, matria que tratarei no ponto seguinte, limitar-me-ei,

    neste ponto, a enumerar, de forma muito breve e resumida, os lugares e as pessoas em

    relao aos quais avanamos propostas novas ou alternativas de localizao e de

    identificao. Em algumas delas deter-me-ei um pouco mais demoradamente no ponto

    seguinte. Em relao restantes ficar apenas esta chamada de ateno, de forma a

    possibilitar a discusso dos dados avanados.

    No que diz respeito toponmia presente nas cantigas, e sendo certo que na esmagadora

    maioria dos casos ela perfeitamente reconhecvel ou reconhecida (cidades e lugares

    cujos nomes so ainda os mesmos ou cuja localizao foi j estabelecida com relativa

    segurana h mais ou menos tempo), creio que a novidade mais relevante ser a

    proposta que fazemos para o topnimo Losi, que surge numa cantiga de Vasco

    Rodrigues de Calvelo, e que identificamos como S. Joo de Luzim, nas margens do

    Tmega e perto de Penafiel. Esta localizao, que tem origem numa transcrio, feita

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1008&pv=sim

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 27 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    pelo Elucidrio de Viterbo, de um documento do sculo X onde surge a igreja

    respectiva (Vol. I, p. 4826

    ), parece, de resto, estar de acordo com a referncia a Maior

    Gil (de Jolda), a dama cantada pelo trovador numa sua outra cantiga, dama cuja

    linhagem tinha sede em Braves, nas cercanias de Calvelo (Resende de Oliveira), e no

    longe de S. Joo de Luzim. E permite tambm confirmar os dados biogrficos do

    trovador avanados por este investigador, que localizou duas filhas de um Vasco

    Rodrigues criadas na mesma rea geogrfica27

    . Creio, portanto, que Losi poder ser,

    efectivamente, S. Joo de Luzim. J sobre o sentido destas duas referncias muito

    concretas feitas em cantigas de amor no avanamos qualquer explicao. Mas ser

    este, certamente, um assunto a pedir alguma ateno.

    No que toca localizao das numerosas ermidas cantadas pelos trovadores e jograis

    nas suas cantigas de amigo (no sub-gnero habitualmente designado por cantigas de

    santurio), muita investigao tem sido feita, em tempos recentes, sobretudo na Galiza

    (onde se situa a maioria das ermidas), investigao essa cujos resultados procurmos

    integrar nas respectivas entradas toponmicas. Assim sendo, chamo apenas a ateno

    para a proposta de localizao que avanamos em relao ermida, at agora mal

    localizada, de S. Simo de Vale de Prados, cantada na conhecida e notvel cantiga de

    Pero Vivies Pois nossas madres vam a Sam Simom, e que se baseia no facto de D.

    Dinis ter dado foral povoao de Vale de Prados (Macedo de Cavaleiros), povoao

    por onde passava eventualmente um dos ramos do Caminho de Santiago, e que, alis,

    no fica longe de Chacim, sede da linhagem a que pertencia D. Nuno Martins,

    mordomo-mor do monarca. Trata-se, como evidente, de uma sugesto28

    , a qual,

    podendo coadunar-se com a cronologia de Pero Vivies, talvez no se coadune to bem

    com a sua eventual nacionalidade galega, sugerida por Resende de Oliveira.

    26 Aproveito para referir que o Elucidrio de Viterbo est (pelo menos no momento em que escrevo estas

    linhas) disponvel online, atravs do Google Books, e pesquisvel. As possibilidade novas que este tipo

    de recursos trazem investigao merecem, creio, ser sublinhadas. 27

    Acrescento que, para esta localizao, contei com a preciosa ajuda do meu colega e amigo Prof. Jos

    Cames (FLUL), a quem no quero deixar de agradecer publicamente aqui. 28

    J D. Carolina Michalis refere que Val de Prados, com a ermida de San Simo, parece ser uma

    localidade ao p de Segvia, ou em Trs os Montes (CA, II, p. 886, nota 6). Creio que, mais uma vez, as

    suas indicaes breves indicam caminhos muito produtivos.

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=755&pv=sim

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    Medievalista online N 12| Julho - Dezembro 2012 IEM - Instituto de Estudos Medievais 28 www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

    Mais brevemente referirei as propostas de localizao que fazemos para Ensar (Enxara

    dos Cavaleiros?) e Pavia (Mora, Alentejo), esta ltima uma das povoaes fundadas por

    D. Dinis, o que parece de acordo com a temtica da cantiga em que referida e a

    provvel cronologia do seu autor.

    Quanto antroponmia, fizemos um efectivo esforo para apresentar um mnimo de

    dados sobre todas as figuras que so referidas nas cantigas e que at agora ainda no

    tinham sido identificadas ou cuja identificao discutvel, e isto pelo menos em

    relao quelas que no so apenas referidas por um nome prprio (j que, como

    evidente, quando estamos face a uma D. Maria ou a um Rodrigo e no h qualquer outro

    dado mais concreto na cantiga, impossvel se torna localizar a personagem). Em relao

    a todos os restantes, a BD avana propostas de identificao, quer na forma de dados

    mais ou menos seguros que conseguimos apurar, quer na forma de sugestes mais ou

    menos hipotticas (e por vezes plurais). Sendo que sobre algumas destas personagens

    me debruarei um pouco melhor no ponto seguinte, enumerarei em seguida as entradas

    de antroponmia onde surgem essas novas propostas: Afonso Afonses, lvaro

    Rodrigues, Bispo de Cuenca, Camela, D. lvaro, D. Corral, D. Estvo, D. Joana, D.

    Leonor, D. Macia, Deo de Cdiz, Ferno Dias, Ferno Gil, Gonalo Martins, Joo

    Aranha, Joo de Froio, Joo Eanes, Joo Fernandes, Loureno Bouom, Martim

    Fernandes, Martim Xira, Mestre Joo, Mestre Reinel, Mestre Simion, Pero da Arruda,

    Pero Fernandes, Pero Garcia Galego, Pero Loureno, Pero Ordoez, Pero Peres, Pero

    Soares, Rui Fafes, Rui Gonalves, Rui Pais, Sancha Garcia, Sueiro Eanes e Tisso Prez.

    Nem todas as personagens desta lista tm, como evidente, a mesma importncia no

    corpus trovadoresco que nos chegou. Enquanto algumas delas aparecem em referncias

    mais ou menos pontuais numa ou noutra composio, outras, at pelo nmero de

    cantigas em que surgem, so personagens centrais do corpus galego-portugus (no caso,

    do corpus satrico). Entre estas ltimas, os casos mais salientes (e tambm os mais

    problemticos) sero certamente os de D. Estvo, Ferno Dias e Joo Fernandes,

    personagens volta das quais se desenvolveram verdadeiros ciclos satricos de cantigas,

    h muito delimitados. O que no quer dizer que a sua identificao seja fcil; entre

    outros motivos porque, como se pode verificar, para nenhum deles indicado o nome

    de famlia.

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    O caso de D. Estvo (ao qual so dirigidas oito cantigas e isto se se tratar sempre do

    mesmo D. Estvo, o que no seguro) talvez o mais enigmtico. Na verdade, sendo

    certo que se trata de um nobre, que as cantigas que lhe so dirigidas parecem ter

    claramente como contexto a guerra civil portuguesa, e que, como todas as restantes que

    abordam esta temtica, o fazem a partir do campo do jovem infante Afonso de Castela

    (futuro Afonso X), que tomou, como se sabe, o partido de Sancho II, mais estranha se

    torna a dificuldade que temos em localiz-lo. Durante muito tempo (de D. Carolina a

    Rodrigues Lapa), este D. Estvo foi identificado como D. Estvo Anes, o poderoso

    chanceler de Afonso III. Mas esta identificao no parece ter fundamento, como

    defende Resende de Oliveira29

    , opinio que partilho agora integralmente30

    (pelas razes

    que se explicam mais detalhadamente da nota geral a uma das cantigas). Assim sendo, e

    embora no tenhamos conseguido chegar a nenhuma outra identificao alternativa

    segura, no quisemos deixar de sugerir alguns nomes possveis, entre os quais talvez os

    mais plausveis sejam os de D. Estvo Martins de Briteiros ou de D. Estvo Peres de

    Aboim. Sendo certo que, at pela frequncia do nome na poca, uma identificao

    segura deste D. Estvo ser sempre difcil, esperamos que as sugestes avanadas

    possam reavivar o debate.

    J o caso de Ferno Dias, sempre referido como adiantado ou meirinho do rei (de

    Castela), ainda mais problemtico, uma vez que, no havendo notcia de nenhuma

    personagem com este nome nesses cargos, tambm no to claro o contexto poltico

    onde se inserem as seis ou sete cantigas que lhe so dirigidas (mas mais uma vez a partir

    do crculo afonsino). Cremos, como Vicen Beltran, que esse contexto ser o da

    rebelio nobilirquica contra Afonso X31

    , e avanamos, na nota geral a uma das

    cantigas, uma sugesto que procura desenvolver um pouco mais este ponto. Quanto

    identificao concreta da personagem, procurmos, como no caso anterior, localizar

    homnimos que se pudessem encaixar nas restantes peas do puzzle, e damos alguma

    sugestes nesse sentido na respectiva entrada, de entre as quais o galego Ferno Dias,

    29 Ver nomeadamente o captulo, da sua responsabilidade, Distraces e Cultura", in Leontina Ventura,

    Afonso III, Crculo de Leitores, Lisboa, 2006. 30

    Na minha anterior edio das cantigas satricas, e embora j na poca tivesse muitas dvidas, segui a

    identificao tradicional, que agora revejo. 31

    Mas no partilhamos a sua tese de que se trataria de D. Estvo Fernndez de Castro, um dos

    cabecilhas da rebelio, sendo o nome Ferno Dias apenas uma estratgia de disfarce.

    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1512&pv=simhttp://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1514http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.a