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  • Prticas de Glosa e Anamnese

    CLAUDIO CHAVES BEATO FILHO *

    Um dos elementos essenciais confeco de diagnsticos mdicos a anamnese realizada com os pacientes, mediante a qual se buscam elementos em sua biografia que corroborem alguma hiptese de diagnstico. Trata-se de uma tarefa essencialmente interpretativa, em que h uma relao reflexiva entre as hipteses formuladas pelos mdicos e os comportamentos e motivaes associados ao diagnstico.

    Uma questo crucial, para efeitos prticos da atividade mdica, a de quando deve cessar o processo interpretativo. Em termos fenomenolgicos, trata-se de saber como possvel evitar o crculo de "interpretao das interpretaes" que conduziria a interao mdico/paciente a uma regresso ao infinito, o que terminaria por inviabilizar a prpria interao. Minha hiptese a de que este um problema que resolvido em contextos especficos de ao, mediante a adoo de prticas de glosa que estabilizam o sentido da interao para efeitos prticos.

    * Doutor em Cincias Humanas pelo IUPERJ e Professor Adjunto do Departamento de Sociologia e Antropologia, e dos programas de Mestrado em Sociologia e Doutorado em Sociologia Poltica da Universidade Federal de Minas Gerais. Tem atuado nas reas de Sociologia das Profisses, Sociologia do Conhecimento Cientfico, Teoria Social e Metodologia e Criminalidade e Violncia.

  • 42 PHYSIS - Revista de Sade Coletiva VaI. 4, Nmero 1,1994

    o problema da descrio

    Relatos, tais como as anamneses realizadas pelos mdicos no atendimento de pacientes categorizados como suicidas,l compartilham dos mesmos problemas de outras formas de descrio. A soluo desses problemas necessria para que o relato emerja como uma pea narrativa factvel perante outros membros da comunidade profissional.

    Segundo uma estratgia muito comum s vertentes tericas que compem as perspectivas absolutistas,2 signos tm um significado nico e inequvoco, passvel de leitura literal e de uma interpretao totalmente desvinculada do contexto social que envolve o sistema simblico. Trata-se, contudo, de uma crena de senso comum que a realidade social est sujeita a uma leitura dessa natureza. Por outro lado, em algumas verses interpretativas mais radicais so possveis tantos pontos de vista quanto referentes tomados. Cada comunidade desenvolve as referncias interpretativas que balizam as descries. 3 Na vida prtica, entretanto, operamos com um estoque limitado de esquemas interpretativos para a interpretao de situaes cotidianas, tornando finito o nmero de possibilidades de descrio. Para que essas possibilidades existam, necessrio, em uma interpretao wittgensteiniana, que elas sejam entendidas pelos outros membros da comunidade em jogos de linguagem cujas regras so do conhecimento comum. Portanto, significados so compreendidos em situaes de linguagem, e no em referncia a alguma coisa; no so elementos invariantes tais como rtulos a serem utilizados oportunamente, mas definem-se nos contextos especficos de sua utilizao. A montagem e a compreenso de uma descrio emergem na forma de um contexto cultural mais amplo, que o resultado, mas ao mesmo tempo fornece aos falantes e ouvintes os esquemas interpretativos adequados a essa compreenso.

    A estratgia epistemolgica das teorias da correspondncia repousa na crena de que possvel produzir relatos da vida social desindexicalizados, universalmente orientados e independentes do contexto em que foram produzidos, isto , literais. Assim, as fichas de atendimento estariam reproduzindo, literalmente, as condies fsicas e psicolgicas dos pacientes, ainda que

    1. C. C. Beato Filho, "Mdicos, Suicidas e Senso PrticoH, Revista Brasileira de Cincias Sociais, ano 6, nO 15, fevereiro de 1991, pp. 53-63.

    2. B. Barnes e J. Law, "Whatever should Be Dane with lndexical Expressions?H, Theory and Society, vaI. 3, nO 2, 1976.

    3. S. Fish,Is There a Text in this Class? The Autlwrity ofInterpretive Communities, Cambridge, Harvard University Press, 1980.

  • Prticas de Glosa e Anamnese 43

    somente para efeitos prticos das atividades do Servio. Entre os plantonistas, no se coloca em questo as informaes ali contidas, especialmente as que se supe de carte'r meramente tcnico, tais como informaes sobre as condies fsicas dos pacientes. Dados mensurveis por meio de instrumentos no necessitam de operaes de reparo de elementos indxicos para serem compreendidos.4 A temperatura corporal adequada, ou o nmero de batimentos cardacos de algum paciente so informaes factuais, indicando a possibilidade de leituras literais do texto, ainda que possamos imputar algum grau de indetermin~o na anamnese realizada com os pacientes. Contudo, conforme argumentarei, a utilizao de estratgias especficas que permite que esses dados emerjam como dot dos de propriedades factuais.

    Prticas de glosa e relatos mdicos

    Isso possvel somente em virtude de prticas de glosa (glosses practices) utilizadas pelos plantonistas nas descries de seus pacientes e realizadas por intermdio das fichas mdicas. Um plantonista no tem que dar esclarecimentos constantes aos outros membros da comunidade profissional sobre o sentido das afirmaes contidas nos relatos. Pelo contrrio, os contextos em que as descries surgem no so informaes relevantes a serem levadas em considerao por outros plantonistas. Raramente necessrio explicitar as circunstncias em que os relatos foram produzidos para que seu sentido seja compreendido por outros membros da comunidade. O suposto o de que ali est encoberta uma srie de prticas que so do domnio comum dos membros do Servio, de tal forma que detalhes indxicos so abstrados.5Podemos dizer que as prticas de glosa se constituem em formas

    4. Existem posies tais como a do prprio Garfinkel, e discutidas extensivamente por B. Barnes e 1. Law, "Whatever should ... ", op. cit., para quem a indexicalidade universal e os reparos uma atividade interminvel. Em um sentido lgico e abstrato isto verdade. Entretanto, estou tratando da "Igica:em-uso" dos plantonistas no intuito de mostrar como esta lgica utiliza glosas como estratgia para conferir objetividade s suas descries. Esta me parece ser uma discusso natural derivada de H. Garfinkel e J. Sacks, "On Formal Structures ofPractical Actions", in McKinney e Tyriakian, Theoretical Sociology: Perspectives and Development, Nova Iorque, Appleton-Century Crofts, 1970, pp. 338-66, conforme veremos adiante.

    5. A idia de prticas que so dissimuladas surge da prpria raiz etimolgica do termo glosa, que em grego quer dizer "termo obscuro". O termo refere-se a uma nota explicativa de um texto que necessariamente no aparece no corpo do prprio texto. No caso, o que est implcito uma srie de procedimentos apreendidos mediante a socializao profissional.

  • 44 PHYSIS Revista Sade Coletiva Vol. 4, Nmero ,1994

    abreviadas o reconhecimento e compreenso do como, por quem e para quem dito. So, portanto, mtodos para compn::endcrmos eventos como observveis e reportveis, isto , como relatos.

    fichas mdicas representam uma interessante ilustrao utilizao de glosas no sentido de o texto ser apreciado independentemente do contexto especfico em que foi gerado. Embora tais contextos sejam decisivos na elahorao relatos, no necessitam ser explicitados para que outros membros da comunidade os compreendam. Os relatos surgem da interao de duas formas cognitivas: o conhecimento "declarativo" e o conhecimento "processual O primeiro diz respeito orientaes gerais da disciplina mdica e constitui a essncia da formao educacional da profisso. O segundo, em hora seja um componente ativo na socializao profissional, um conhecimento gerado a de situaes contextos especficos. Os elementos indxicos constitutivos desses contextos e situaes so abstrados pelos outros memhros do planto, cm uma estratgia denominada como uma prtica glosa Esta possibilidade de ahstrao elementos cos um aspecto fundamental que faz com que a atividade dos mdicos plan tonistas seja distinta da outros profissionais. Alis, planto cm hospitais constitui-se cm uma instncia decisiva na socializao profissional dos mdicos, cujo objetivo a vivncia prtica. Esta que possibilita a operao das prticas de glosa, permitindo que os relatos sejam concebidos como descries "objetivas" a respeito das condies dos pacientes:

    associa

  • Prticas de Glosa e Anamnese 45

    simples fato de no sennos membros da comunidade profissional. Para os plantonistas, entretanto, eles constituem declaraes transparentes, precisas e universais sobre as condies dos pacientes. Sua objetividade, alm disso, destaca o carter "ocasionado" das formulaes contidas nas descries.7

    A relao entre a descrio, os eventos e os objetos particulares descritos explicita-se no relato a partir das atividades de glosa, que tornam possvel que os elementos indxicos da descrio sejam abstrados. a esta intensa e contnua atividade interpretativa que Garfinkel denomina como o "trabalho" realizado pela descrio, querendo com isso ressaltar o carter dinmico e ativo do empreendimento de transformar fenmenos sociais em relatos. Neste sentido, este artigo pretende ser justamente uma discusso a respeito do "trabalho" dos mdicos.

    Elaborar fonnulaes, portanto, uma forma de se restabelecer as propriedades indxicas das descries. nesse momento que as prticas de glosa se constituem em uma estratgia crucial para a confeco de relatos. Como relatos so "fenmenos essencialmente contextualizados", que exigem o reconhecimento de quem, para que, quando e para quem so feitos, a tarefa de resgate de indexicalidades virtualmente paralisaria as atividades dos plantonistas, em favor de uma pesquisa incessante do sentido exato dos elementos descritivos contidos na ficha de atendimento. Assim, o exame dos elementos indxicos transformar-se-ia em uma regresso infinita, posto que a cada conjunto de expresses indxcas examinadas surgiria um novo contexto, o que levaria a um no