práticas em psicologia sumário e políticas pú .de questões abertas e de um roteiro de anamnese,

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  • Prticas em Psicologia e Polticas Pblicas

    N . 1

    Prticas Emergentes e Inovadoras de psiclogos(as) no campo

    das DST/aids

    Centro de Referncia Tcnica em Polticas Pblicas (CREPOP)

    Conselho Federal de Psicologia (CFP) Braslia, 2009

    Sumrio

    O uso do "Kit Revelao Diagnstica" no trabalho com crianas e jovens portadores de HIV/aids Eliana Galano Pg. 6

    O aconselhamento como acolhimento: a experincia da Associao Brasileira Interdisciplinar de aids (ABIA) Marclei da Silva Guimares Pg. 29

  • Prticas em Psicologia e Polticas Pblicas N 1

    Diretoria Humberto Cota Verona Presidente Ana Maria Pereira Lopes Vice-Presidente Clara Goldman Ribemboim Secretria Andr Isnard Leonardi Tesoureiro Conselheiros efetivos Elisa Zaneratto Rosa Secretria Regio Sudeste Maria Christina Barbosa Veras Secretria Regio Nordeste Deise Maria do Nascimento Secretria Regio Sul Iolete Ribeiro da Silva Secretria Regio Norte Alexandra Ayach Anache Secretria Regio Centro-Oeste

    Conselheiros suplentes Accia Aparecida Angeli dos Santos Andra dos Santos Nascimento Anice Holanda Nunes Maia Aparecida Rosngela Silveira Cynthia R. Corra Arajo Ciarallo Henrique Jos Leal Ferreira Rodrigues Jureuda Duarte Guerra Marcos Ratinecas Maria da Graa Marchina Gonalves Psiclogos convidados Aluzio Lopes de Brito Roseli Goffman Maria Luiza Moura Oliveira Psiclogos convidados Aluzio Lopes de Brito Roseli Goffman Maria Luiza Moura Oliveira

    Plenrio responsvel pela publicao Conselho Federal de Psicologia - XIV Plenrio

    Gesto 2008 2010

    Prticas inovadoras / Conselho Federal de Psicologia (CFP) / Centro de Referncia Tcnica em Polticas Pblicas (CREPOP)

    n.1 (2009). Braslia, CFP / CREPOP, 2009.

    Periodicidade: quadrimestral

    1. Psicologia 2. Polticas pblicas I. Conselho Federal de Psicologia

    CDD 150

    Os textos podem ser reproduzidos livremente desde que seu contedo no seja alterado. Para publicaes, a fonte deve ser citada.

    Conselho Federal de Psicologia SRTVN Q 702 Ed. Braslia Rdio Center sl. 4038 Cep:70719900 - Baslia/DF Site: www.pol.org.br

    Pesquisa: CEAPG/FGV Coordenao tcnica: CREPOP/CFP Reviso: Ascom/ CFP Diagramao e Projeto Grfico: CI/ CFP

  • Prticas em Psicologia e Polticas Pblicas N 1

    Prticas Emergentes e Inovadoras de psiclogos(as) no campo das DST/aids

    A publicao Prticas em Psicologia e Polticas Pblicas

    tem por objetivo dar visibilidade a aes desenvolvidas

    pelos psiclogos que tragam inovaes para as prticas

    cotidianas.

    O CREPOP apresenta, neste primeiro nmero, dois relatos

    de prticas emergentes e inovadoras no campo de

    DST/aids desenvolvidas por psiclogos e psiclogas.

    O primeiro relato diz respeito a um trabalho voltado para

    crianas, adolescentes e suas famlias frente necessidade

    de revelao do diagnstico. fruto das atividades de uma

    psicloga, em conjunto com a equipe de sade, no

    municpio de So Paulo.

    O segundo uma experincia relatada por um psiclogo,

    em uma Organizao No Governamental na cidade do Rio

    de Janeiro, voltada para o aconselhamento em DST e aids.

    A descrio das prticas dos psiclogos produto da

    pesquisa realizada pelo Centro de Referncia Tcnica em

    Polticas Pblicas e Psicologia do Conselho Federal de

    Psicologia (CREPOP/CFP), em parceria com o Centro de

    Estudos em Administrao Pblica e Governo da Fundao

    Getlio Vargas (CEAPG/FGV-SP).

    O modo como se deu a escolha das experincias

    publicadas est descrito no documento intitulado A

    identificao das prticas emergentes e inovadoras.

    Os textos so de responsabilidade de seus autores, que

    autorizaram a publicao dos mesmos.

    4 5

    http://www2.pol.org.br/downloads/a_identificaca_de_experiencias_inovadoras.pdfhttp://www2.pol.org.br/downloads/a_identificaca_de_experiencias_inovadoras.pdf

  • O uso do Kit Revelao Diagnstica no trabalho com crianas e jovens portadores de

    HIV/aids

    Autora: Eliana Galano1

    Revelar ou no o diagnstico para uma criana com aids?

    Como revel-lo? Por quem? Como faz-lo? Essas so

    questes que no havia imaginado antes de iniciar meu

    trabalho no ambulatrio de pediatria do Centro de

    Referncia e Treinamento em DST/aids (CRT-SP). Como a

    maioria dos profissionais, tambm acreditava que omitir a

    verdade sobre a doena s crianas soropositivas seria

    uma forma de preserv-las de preocupaes

    desnecessrias. Mas a prtica cotidiana com esta

    populao foi me dizendo o contrrio: a criana deve saber

    a verdade sobre sua vida e sobre a sua doena, para poder

    cuidar de si e construir recursos para lidar com os desafios

    implicados em ter HIV/aids na sociedade atual.

    1 Psicloga do Centro de Referncia e Treinamento em DST/Aids

    e colaboradora na Universidade Federal de So Paulo UNIFESP.

    Autoria do Projeto: Eliana Galano; Orientadores: Dra. Daisy Maria Machado e Dr.

    Mrio Alfredo de Marco.

    Um dos primeiros casos que acompanhei de uma criana

    soropositiva, e que possibilitou que minha viso mudasse,

    foi quando realizei uma consulta de rotina com um menino

    de 14 anos que sabia ser portador do HIV. Ele tomava as

    medicaes corretamente e era aderente ao tratamento. O

    garoto foi com o av na consulta e quando perguntei o que

    queria ser quando crescesse, ele comeou a chorar sem

    parar. Pedi ao av que nos deixasse a ss e, nesse

    momento, o garoto confidenciou que ser um cientista

    porque j havia descoberto a cura da aids. Contou tambm

    que ele sabia ser portador do HIV desde os 7 anos de idade

    porque, s escondidas, tentava precariamente ler as bulas

    do AZT e acabou fazendo associao com a informao

    dada pela televiso sobre a aids.

    Ele sabia que no podia conversar sobre este assunto com

    ningum, nem com os avs, pois existia um pacto de

    segredo sobre a doena na famlia. Relata que foram anos

    difceis e de muita solido e a maneira que encontrou para

    aliviar seu sofrimento foi inventando a Mquina de Cura da

    aids. Naquele momento, sentiu-se muito emocionado

    porque pela primeira vez em sua vida estava falando com

    algum sobre suas descobertas.

    7 6

  • Se, por um lado, esse foi um dos atendimentos mais difceis

    e dolorosos at ento vivenciados em minha experincia

    como terapeuta de crianas, por outro, no h dvidas de

    que este criativo garoto nos ajudou a redimensionar a forma

    como conduzamos equivocadamente o atendimento em

    aids peditrica, em especial no que dizia respeito ao

    proceso da revelao diagnstica. A partir desse momento

    nos conscientizamos sobre a importncia das crianas

    saberem a verdade sobre suas vidas.

    O que acontece quando as crianas desconhecem sua

    condio sorolgica? Diferentemente do que os adultos

    imaginam, elas sabem que existe um segredo, porque

    percebem que h algo diferente acontecendo em seus

    corpos e em seu cotidiano. Na realidade, mesmo as

    menores observam suas idas e vindas ao hospital, ouvem

    os adultos conversando e, conseqentemente, pensam e

    imaginam muitas histrias. Sobra, para as crianas, uma

    solido e um vazio, um espao onde se criam muitas

    fantasias e medos.

    Saber o diagnstico importante tambm para melhorar a

    adeso ao tratamento. H momentos em que as crianas

    no querem mais tomar remdio e perguntam para as mes

    at quando e por que tomam tantas medicaes,

    diferentemente dos irmos ou dos colegas da escola.

    Freqentemente, as mes respondem que elas tm um

    probleminha no sangue. Como esperar que a criana

    participe do tratamento ou se comprometa com algo da

    ordem do desconhecido? Temos identificado que esse

    quadro muda com a Revelao Diagnstica, pois quando as

    crianas compreendem sua doena e a importncia das

    medicaes elas colaboram com o tratamento e comeam a

    ter uma aderncia melhor. A possibilidade de conversar

    sobre isso melhora muito.

    Porm, no so todas as crianas que esto preparadas

    para receber o diagnstico naquele momento. Algumas

    esto muito fragilizadas, outras no sabem guardar

    segredo. Guardar segredo condio fundamental para a

    revelao diagnstica, pois h muito preconceito na

    sociedade atual em torno das questes do HIV/aids e j

    tivemos situaes em que crianas foram vtimas de

    preconceitos e expulsas de suas escolas por esta razo,

    entre outras vivncias complicadoras.

    Assim, fomos criando - em meio s conversas entrecortadas

    de um grupo de profissionais que compartilhava, no final do

    8 9

  • dia, suas principais angstias e preocupaes sobre esse

    tema - e a partir da prtica - com as dicas que as crianas e

    os pais nos davam -, uma metodologia que facilitasse a

    revelao diagnstica procurando responder s questes de

    como, por que, quando e por quem revelar o diagnstico de

    uma criana com condio sorolgica positiva para HIV2

    A prtica da revelao diagnstica ainda mostra-se muito

    incipiente nos servios que assistem a essas crianas e/ou

    jovens soropositivos para o HIV/aids. Por outro lado, as

    referncias bibliogrficas preconizam a importncia de se

    conversar com essa populao, mas no h estudos que

    consigam contemplar a diversidade de fatores que se

    encontram envolvidos nesse processo. Foi diante dessa

    realidade que nos sentimos impelidos na tarefa de pensar

    em critrios rigorosos para compreender, intervir