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Bruno Godoi Barroso
(Fernandópolis/SP – 1955-1975)
Bruno Godoi Barroso
(Fernandópolis/SP – 1955-1975)
Mestrado em História
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial à obtenção do título de Mestre em História, sob a orientação da Professora Doutora Maria Izilda Santos de Matos.
São Paulo 2019
4
Para Nelson e Vilma, meus amores eternos. Para Claire, Ana, Heitor e Jake, razão de viver.
5
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de
Financiamento 001. Nº do Processo: 88887.148411/2017-00.
6
AGRADECIMENTOS
A conclusão deste mestrado é a realização de um sonho, idealizado desde o
final da graduação. Em meio ao trajeto que me conduziu até aqui, senti-me
amparado pelas mãos divinas, da mesma maneira que por companheiros de
caminhada, sem os quais nada disso seria possível.
Reverencio a memória de meus amados pais, Nelson e Vilma, meus
“progenitores caipiras”, por todo o amor e dedicação doados a mim desde a infância,
por empreenderem um esforço descomunal para que eu chegasse ao ensino
superior, custando inúmeras bolhas nos braços de minha mãe, que apurava no seu
tacho, em alta temperatura, doces em compota que eram vendidos por meu pai, com
o fim de auxiliar no pagamento das mensalidades do curso de História na Fundação
Educacional de Fernandópolis.
companheira, amiga e interlocutora, por todo o incentivo e paciência dispensados,
por me tomar nos braços, literalmente, nos momentos mais difíceis. Sem o seu amor
e respaldo eu não reuniria forças para chegar até esse momento.
À minha doce e amada filha Ana Laura, agradeço por toda a sua doçura e
afeto, pela sua compreensão frente à minha ausência nos momentos de lazer e
diversão; agradeço pelos “cafunés” enquanto me empenhava na escrita desta
dissertação, o seu toque de amor me aliviava.
Ao meu pequeno Heitor, que neste momento está a caminho, um presente
de Deus para coroar essa conquista tão almejada por todos nós.
Agradeço aos meus professores da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, dos quais serei eternamente tributário. Ao longo desses cinco anos, entre o
Lato Sensu e o Stricto Sensu, recebi incontáveis contribuições de pesquisadores da
mais alta competência: Maria Izilda Santos de Matos, Yvone Dias Avelino, Heloísa
de Faria Cruz, Maria do Rosário da Cunha Peixoto, Olga Brites, Estefânia Knotz
Canguçu Fraga, Jurema Mascarenhas Paes, Amailton Magno Azevedo, Antônio
Rago Filho, Luiz Antônio Dias e Maria Auxiliadora Guimarães Guzzo (Lilia, in
memoriam).
Agradeço à minha orientadora, Dr. Maria Izilda Santos de Matos, pelo
respaldo dado a mim durante toda a caminhada, auxiliando pacientemente da
7
elaboração do projeto à escrita desta dissertação, contribuindo com o seu vasto
conhecimento na área da pesquisa em História.
Aos colegas dos créditos cursados, pelo carinho e cooperação nos
momentos de “divisão das angústias”, em especial ao meu amigo, o “caipira de
Sorocaba”, Fernando Miramontes Forrattini.
Venho demonstrar gratidão à Coordenadora do Centro de Documentação e
Pesquisa da Fundação Educacional de Fernandópolis, que também foi minha
professora na graduação, Rosa Costa, querida Rosinha. Gentilmente me atendeu
nas dependências do CDP e na sua própria residência, auxiliando-me no “garimpo”
de documentos para a elaboração desta pesquisa. Do mesmo modo, agradeço à
Valdenice Pereira Santana (Nicinha), coordenadora do Museu Municipal Edward
Coruripe Costa, na cidade de Votuporanga-SP, pela amabilidade demonstrada para
com este estudo, cedendo o acesso ao acervo de imagens da referida instituição.
Agradeço aos meus colegas professores da EMEF Carlos Augusto de
Queiroz Rocha por todo o incentivo, em especial aos meus diretores Geraldo
Guedes Fagundes e Shirley Pereira.
Aos meus amados familiares, minha irmã Selma, meus sobrinhos João
Pedro, Davi, Fefê, Pam, Ricardo e à minha segunda mãe, Aparecida.
Dedico um agradecimento todo especial àqueles que ocupam a centralidade
neste estudo, “meus caipiras fernandopolenses”. Farei agradecimentos nominais a
Darci Romão Liberato, meu sogro, que ocupou a função de mediador entre o
pesquisador e os personagens desse universo musical caipira, a José Luiz Liberato
Inocêncio, Geraldo Ricco, Antônio Sanchez, Mauro André, Adonai César Mendonça,
Jorge Spósito Ribeiro, Eunice Maria da Silva, Miguel e João Ferreira de Souza, ou
Quintino e Quirino, dupla que orgulha a nós fernandopolenses. Agradeço a tantos
outros que de uma forma ou de outra passaram pelos registros de áudio e vídeo que
foram objetos de análise.
À “Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior”
(CAPES), por ter subsidiado, através da concessão de uma bolsa, a produção deste
trabalho.
Agradeço ao Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), nas figuras de seus coordenadores
Profa. Dra. Carla Reis Longhi e Prof. Dr. Luiz Antonio Dias.
8
Assim definido, o narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio. Pois pode recorrer ao acervo de toda uma vida (uma vida que não inclui apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia. O narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo que sabe por ouvir dizer).1
1 BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura.
Obras escolhidas. Vol. 1. 3ª. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987, p.221.
9
RESUMO
BARROSO, Bruno Godoi. “Moda boa”: música caipira e cotidiano (Fernandópolis/SP – 1955-1975). Dissertação (Mestrado em História), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2018.
O presente estudo examina as dimensões de produção e atuação do gênero musical
caipira na cidade de Fernandópolis entre as décadas de 1950 e 1970, sobretudo
diante da sua relevância na trama de laços identitários e na mobilização de emoções
variadas, operados por meio da construção de práticas e representações do
cotidiano rural e urbano que são narradas nas letras das canções. A apreensão
desse universo de produção da música caipira na cidade de Fernandópolis se dá por
meio da análise das canções compostas por músicos da cidade, por vezes em
parceria com colegas de outros municípios que constituem a região, assim como
mediante depoimentos desses compositores, intérpretes e de apreciadores do
gênero musical caipira. Nesse cenário, destaca-se o papel da Rádio Cultura AM de
Fernandópolis como fomentadora dessa cultura, assim como no incentivo à
formação de duplas locais e regionais (por meio de festivais de viola) e na
divulgação da produção fonográfica de duplas, na época, de renome nacional,
conectando os ouvintes por meio do entretenimento e da prestação de serviços,
questão última que fez dessa emissora, no período, o principal meio de
comunicação entre o campo e a cidade nessa região do Noroeste Paulista. Por
intermédio dessas canções delineiam-se representações que permitem capturar as
tensões entre campo e cidade em meio às paisagens sonoras; a representatividade
do violeiro como cronista da cena cultural caipira; a dimensão masculina dos amores
e paixões; a natureza como materialização do sagrado. Aspectos marcantes que
atuam na configuração da cultura caipira fernandopolense.
Palavras-chave: História e Música, cultura caipira, práticas e representações, urbano
e rural, Fernandópolis, radiodifusão, religiosidade, cotidiano, identidade.
10
ABSTRACT
BARROSO, Bruno Godoi. “Moda boa”: bumpkin and everyday music (Fernandópolis/SP/Brazil - 1955-1975). Dissertation (Master in History), Pontifical Catholic University of São Paulo, São Paulo, 2018.
The present study examines the dimensions of production and performance of the
“caipira” musical genre in the city of Fernandópolis between the 1950s and 1970s,
especially due to its relevance to the formation of identity ties and to the mobilization
of varied emotions, both operated through the construction of rural and urban daily
routines practices and representations, which are described in the songs lyrics. The
apprehension of this universe of bumpkin music production in the city of
Fernandópolis occurs through the analysis of songs composed by city musicians,
sometimes in partnership with colleagues from other municipalities from the region,
as well as through testimonies of these composers, performers, and lovers of this
musical genre. In this scenario, we highlight the role of Fernandópolis radio station,
“Rádio Cultura AM”, as a promoter of this culture, as a supporter for the formation of
local and regional duets (through viola festivals), and as a disseminator of these
duets music production, which ate the time were of national renown, connecting the
listeners through entertainment and service provision. Those characteristics
transformed, at the time, this station in the main means of communication between
the countryside and the city in the Northwest of the state of São Paulo. Through
these songs are depicted representations that capture the tensions between the
countryside and the city in the midst of the soundscapes; the representativeness of
the viola player as a chronicler of the bumpkin cultural scene; the masculine
dimension of loves and passions; the nature as the materialization of the sacred.
Important aspects that act in the configuration of Fernandópoliss bumpkin culture.
Keywords: History and Music, bumpkin culture, practices and representations, urban
and rural, Fernandópolis, broadcasting, religiosity, daily life, identity.
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SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO................................................................................................. 14
I – A “VILA PEREIRA” EM EBULIÇÃO: FERNANDÓPOLIS NOS ANOS 1960... 22
1.1 NA ROTA DE EXPANSÃO PARA O NOROESTE PAULISTA........................ 23
1.2 RURALIDADE E URBANIDADE...................................................................... 39
RADIODIFUSÃO E SONORIDADES.................................................................... 69
2.2 RÁDIO CULTURA AM: O RANCHO DOS CANÁRIOS................................... 84
2.3 PAISAGENS SONORAS NA CIDADE............................................................. 100
RELIGIOSIDADE E NATUREZA.......................................................................... 110
3.2 NO LIMIAR ENTRE AMORES E DORES........................................................ 123
3.3 ENTRE O SAGRADO E A NATUREZA........................................................... 135
CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................. 152
13
14
APRESENTAÇÃO
Seria um equívoco pensar a pesquisa em História a partir de uma
perspectiva de negação dos laços que unem o objeto e o historiador. Ambos estão
conectados por anseios, angústias e inquietações que colocam em curso o diálogo
entre o presente e o passado. O resultado desse movimento é externado nos
questionamentos que surgem da composição desse “enlace”, sob o entendimento de
que tais indagações são prerrogativas do historiador na prática de seu ofício, que
também é dotada de temporalidade, em outras palavras, “seu presente”, no qual se
formulam e do qual partem essas perguntas.
O interesse pelo estudo da música caipira2 na cidade Fernandópolis vem no
encalço das dimensões de atuação dessa música na cidade, sobretudo quando
pensada na sua função de catalizadora de emoções3 variadas e criadora de laços
identitários que operam na construção das representações do campo e da cidade,
assim como das representações do cotidiano rural presentes nas narrativas das
canções e na fala dos produtores e intérpretes dessas letras e melodias, trazendo à
cena também a perspectiva dos apreciadores dessa música.
Essas inquietações estão ligadas à minha infância, no encontro com as
minhas vivências no interior do estado de São Paulo, no chamado “Sertão do
Noroeste Paulista”4. Na cidade de Fernandópolis convivi com as modas de viola
caipira ouvidas pelos meus pais e avós, com os relatos de suas experiências de uma
“vida na roça”, das histórias contadas pelo meu avô materno, que animava com o
seu acordeom os bailes que ocorriam na sede da fazenda de seu pai, localizada
2 O termo “música caipira” é utilizado nesta dissertação para designar as canções apreciadas pelos
sujeitos entrevistados no decorrer da pesquisa. Estes fizeram menção a essa música a partir de variadas referências, como: caipira, moda, sertaneja. Cabe ressaltar que a análise dessas falas, assim como da produção e recepção dessas músicas, indica que o cerne está na ligação com a memória rural desses indivíduos, no potencial socializador dessa música, como poderá ser observado mais adiante. A questão da distinção entre música caipira e a sua variante moderna, a música sertaneja, suscitou extensos debates teóricos. Para uma análise mais profunda, ver: GUTEMBERG, Jaqueline Souza. No limiar entre a música sertaneja e a música caipira: o perfil da dupla Zé Furtuna e Pitangueira na vertente moderna da música sertaneja. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História da Associação Nacional de História. São Paulo, 2011, p.1-16. Disponível em: <http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300892880_ARQUIVO_textoanpuh.pdf>. Acesso em: abril/2018. 3 MATOS, Maria Izilda Santos de. Âncora de Emoções: corpos, subjetividades e sensibilidades.
Bauru: EDUSC, 2005, p.91-92. 4 PESSOTA, A. J. (et al.). Fernandópolis: nossa história, nossa gente. Fernandópolis: Bom Jesus,
1996, p.10-17.
entre os municípios de Cardoso e Riolândia5, e em outras propriedades do entorno.
Espaços onde se reuniam familiares e moradores das colônias, revelando registros
importantes do papel exercido pela música na constituição dos laços de
sociabilidade, materializados nessas atividades de lazer6 presentes nas áreas rurais
do Noroeste Paulista.
É também pelo intermédio da música que os homens e as mulheres do lugar se reúnem e se organizam para fazer que os ritos de celebração da vida e realizações pessoais sejam manifestos.7
Não obstante, essas canções trazem à cena também indícios das tensões
que marcam o processo histórico das relações de trabalho no campo brasileiro8,
temática que se insere nas letras do cancioneiro caipira. A prática da exploração da
mão de obra dos trabalhadores rurais, como foi o meu pai ainda adolescente
acompanhando seus tios e avós na colheita do café na região de Lins-SP9,
apresentava-se em uma dimensão complexa para um adolescente que tinha
naquele momento outras preocupações. Todavia, os episódios que encaminhavam
os assuntos para a recuperação dessas memórias da sua infância e juventude
geravam em mim um incômodo profundo, principalmente por perceber a sua tristeza.
Esses elementos presentes nas memórias dos meus familiares edificaram
um elo afetivo entre eu e as formas de expressão da cultura caipira10, não somente
5 São dois municípios do Noroeste Paulista que compõem a mesorregião de São José do Rio Preto.
Estão localizados às margens da confluência entre os Rios Grande e Turvo. 6 CANDIDO, Antonio. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação
dos seus meios de vida. 10ª. ed. São Paulo: Editora 34, 2003, p.157. 7 VILELA, Ivan. Cantando a própria história: música caipira e enraizamento. São Paulo: EDUSP,
2015, p.59. 8 MOREIRA, Vagner José; NARDOQUE, Sedeval; PERINELLI NETO, Humberto (Orgs.). Noroeste
Paulista: práticas e movimentos sociais, trabalhadores e experiências. São Paulo: Outras Expressões, 2013, p.11-16. 9 A cidade de Lins está localizada na região centro-oeste do estado de São Paulo, compondo a
mesorregião de Bauru. 10
Cabe mencionar, como princípio norteador desta dissertação, que todo conceito deve ser historicizado, como no caso do conceito de caipira, que passou por inúmeros processos e reelaboração de modelos. Um dos modelos que ganhou espaço na literatura brasileira foi o constructo lobatiano, presente originalmente na crônica “A Velha Praga”, publicada no jornal O Estado de S. Paulo em 1914, e que quatro anos mais tarde daria forma à publicação de um compilado de 14 contos sob o título “Urupês”: “O Caipira preguiçoso estereotipado no „Jeca Tatu de Monteiro Lobato contrasta radicalmente com a profunda valorização do trabalho entre as populações caipiras do Alto Paraíba, nas vizinhanças da mesma região montanhosa em que Lobato trabalhou como promotor público e fixou as impressões que definiram este personagem [...] As observações deste autor estão diretamente fundadas na valorização do modo de vida urbano contra o tradicionalismo agrário, o que constitui um dos núcleos da ideologia da modernização que se
16
pela escuta dos discos tão apreciados pelo meu pai, que me apresentou artistas
como Bambico, Tião Carreiro e Pardinho, Belmonte e Amarai, Abel e Caim, entre
outros, como também pela frequente participação, ao lado dos meus pais, nas
chegadas de Santos Reis e nas visitas aos sítios de tios e primos maternos.
Episódios que compõem a minha memória individual11, resultado de experiências
variadas que me levaram ao gosto pelos elementos da cultura caipira, considerando
as especificidades que resultam das múltiplas variações do que aqui nomeamos
como cultura caipira. Nesse sentido, uma definição mais adequada, ou “menos
arriscada”, para o conceito de cultura seria “culturas”, no viés da pluralidade que
opera nos vários pontos de contato, configurando assim um processo híbrido12 e
contínuo que supera algumas crenças como originalidade e imutabilidade de uma
determinada expressão cultural.
O meu ingresso no curso de Pós-Graduação Lato Sensu em História,
Sociedade e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a partir do
segundo semestre de 2013, possibilitou que as ideias ganhassem contornos mais
concretos, sobretudo pelo contato com as disciplinas e seus respectivos professores
que na ocasião ampliaram o meu horizonte no tocante à pesquisa em História, a
partir do diálogo com autores assentados no arcabouço da História Cultural13. Assim,
posso afirmar de maneira incisiva que esse processo marcou um divisor de águas
na minha formação.
estrutura no país ao menos desde o início do século e que veio a ser um dos componentes básicos do extensionismo rural do Brasil.” MARTINS, José de Souza. Capitalismo e Tradicionalismo. São Paulo: Pioneira, 1975. Apud: VILELA, Ivan. Contando a própria história: música caipira e enraizamento. São Paulo: EDUSP, 2015, p.167. Cabe ressaltar ainda que neste estudo o caipira é entendido sob outra perspectiva, convergente com os elementos de resistência desses sujeitos históricos, na operação dos rearranjos frente às transformações ocorridas no Brasil, especificamente nas relações de trabalho no campo entre as décadas de 1950 e 1960, como será desdobrado no primeiro capítulo desta dissertação. 11
Faço aqui a reconstrução da minha memória pessoal, que difere da memória social, contudo, essa memória autobiográfica está, segundo Halbwachs, apoiada na memória histórica, pois “toda a história da nossa vida faz parte da história geral”. HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice, 1990, p.55. 12
CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas. 4ª. ed. São Paulo: EDUSP, 2015, p.18-23. 13
As perspectivas da História Cultural são norteadoras deste estudo, sob o entendimento de que as práticas culturais, na sua pluralidade, são registros repletos de significados que constituem um terreno fértil de investigação para o historiador. “Trata-se, antes de tudo, de pensar a cultura como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo. A cultura é ainda uma forma de expressão e tradução da realidade que se faz de forma simbólica, ou seja, admite-se que os sentidos conferidos às palavras, às coisas, às ações e aos atores sociais se apresentem de forma cifrada, portando já um significado e uma apreciação valorativa”. PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e História Cultural. 3ª. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2012, p.15.
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Depois de receber o convite, via COGEAE14, para participar de uma “Oficina
de Elaboração de Projetos de Mestrado em História”, organizada pelo Programa de
Pós-Graduação em História Social da PUC-SP, em 17 de agosto de 2013, tive o
privilégio de conhecer a Professora Olga Brites e o Professor Fernando Torres-
Londoño, este que na ocasião estava à frente da coordenação do Programa que
promovia a oficina. Ambos ministraram o curso nesse dia oportunizando a abertura,
em um dado momento da Oficina, para que os participantes compartilhassem suas
aspirações em relação a possíveis temas que poderiam se desdobrar em futuras
pesquisas.
Assim como todos os colegas presentes, apresentei o meu interesse pelo
estudo do tema que me proponho a abordar nesta dissertação. De maneira muito
gentil e solícita, no momento do intervalo, o Professor Londoño me abordou
enaltecendo as possibilidades de pesquisa com História e Música. Na sequência,
destacou as atividades da Professora Maria Izilda Santos de Matos, sua vasta
produção acerca do tema e o seu papel como docente na PUC-SP, tanto no Stricto
Sensu como no Lato Sensu, em que eu acabara de ingressar.
Os primeiros contatos com a Professora Maria Izilda se deram durante o
curso de Especialização, especialmente a partir da disciplina “História, Sociedade,
Cotidiano e Poder”, ministrada pela referida professora e que, na ocasião, fez parte
do quarto módulo do curso em questão. Para além da sala de aula, o processo de
consolidação da orientação se constituiu por contatos estabelecidos com a
professora em outros espaços da universidade e trocas de e-mails, caminhos pelos
quais surgiram as primeiras indicações de leituras e discussões acerca dos
delineamentos do tema. Os incentivos por parte da orientadora, presentes desde as
primeiras conversas, encaminharam-me para a conclusão do curso de
especialização e a motivação para o ingresso no curso…