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boletim do que por cá se faz

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  • capa Super-Vencedora de Isabel Melo + equilibrismos de Pedro Lucas + a falta de verdura dos Aores por Pedro Namorado + a fiandeira de nuvens picarota por Cristina Lourido + as avestruzes de cabeas enterradssimas + uma catrefada de eventos culturais do Pico + uma lenda narrada por Lia Goulart + teatrices de Zeca Medeiros + dragoeiros + restantes capas + agenda e + e + e +

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    O BOLETIM DO QUE POR CA SE FAZQUINZENAL 22 DEZ 2011 A 5 JAN 2012 DISTRIBUIO GRATUITA

    70

  • 1 de Dezembro de 2011

    Faialenses como AvestruzesO problema do lixo que no vemos porque no queremos...

    ~INteRVENCAO

    ,

    ConsideraesEquilibristasCroni

    ca

    2 FAZENDO + 22 DEZ 2011 A 5 JAN 2012

    Ofcio:TricotarNuvens

    Os Aoresno so Verdes

    Sempre admirei aquelas pessoas com a capacidade de se envolverem de corpo, alma e cronologia numa determinada e delimitada actividade ou filo.As perspectivas, abordagens, teorias, teses e tcnicas de vlido interesse para muitos e diferentes fazeres e pensares (por vezes completamente antagnicos) so tantas, que escolher uma mais me parece acto de f que de lgica.Assim, e como homem de muito superficiais conhecimentos sobre a teoria quntica, comecei a achar que mais fcil singrar numa carreira ou filosofia do que escolh-la.No que a poltica diz respeito, e para efeitos de anlise superficial, vou polarizar o conjunto de escolhas possveis em duas grandes tendncias, cujas caracterizaes devem ser tomadas como extremos no limiar da caricatura. So elas: 1) a dos que acreditam piamente que no passamos de animais evoludos (ou super-animais) e que, mais ou menos mascarado, todo o acto levado a cabo por instinto e 2) a dos que acreditam que somos seres de lgica e que, apesar de ancorados na nossa natureza animal podemos ultrapassar essas barreiras atravs da razo.A ttulo de pura representao, e porque em matria de anlise se deve dar nome s coisas, vou chamar-lhes capitalistas e comunistas.Aos capitalistas vou-os ligar mais ao lado egosta da natureza do

    3 FAZENDO + 22 DEZ 2011 A 5 JAN 2012

    Todo o poder provm de uma disciplina e corrompe-se a partir do momento em que se descuram os constrangimentos.

    Roger Caillois

    Dantes, num tempo muito antigo, dizia-se em dias de bruma que uma artes fabricava nuvens com as prprias mos, na montanha do Pico. Como se assasse castanhas, baforadas doces deslizavam pela encosta. Acreditava- -se ser das suas mos rudes que partiam as neblinas finas, enchendo a ilha de sombras transparentes.As mos da artes de nuvens, alm de rudes, eram speras, entalhadas de rvores e razes, como pedras esculpidas e decididas, as unhas rodas at ao sabugo e calos nas pontas dos dedos firmes.Creio que lhe bastaria bater palmas, estalar os dedos, ou esfregar uma mo na outra para as nuvens se libertarem dos seus gestos. No precisaria de mais do que das mos para fabricar nuvens, esta mulher.Imaginava o rosto da artes de nuvens, no bonito, mas afvel, meigo e simples como uma tarde de Outono.De quando em vez uma romaria de curiosos ascendia ao Piquinho para ver, fotografar, filmar e eventualmente entrevistar a mulher, que parecia assar castanhas e, afinal, tricotava nuvens. um trabalho to til como outro qualquer, este. Poderia talvez fazer coisas igualmente delicadas e perfeitamente prescindveis fossem soprar ventos, costurar o manto da noite, acender estrelas, aguar ribeiras, agitar ondas, soltar pssaros no ar ou inspirar poetas. Podia, se quisesse. Mas gostava de fabricar nuvens.

    De decidir se hoje faria dessas nuvens tipo algodo-doce, que vo fixar-se toa no cu azul, se uma bruma densa e esponjosa, se um tecto opaco do qual, mais tarde, haveria de chover. Tem de ser, s vezes.Percebia-se que a bordadeira de nuvens no gostava de chuva, mas chover parte do trabalho que faz. Preferia, no entanto, inventar nevoeiros e salpicar neles o perfume da maresia, ou pintar legos para as nuvens que brincam no cu. Nos dias de dar nuvens de chuva ao mundo, a artes desce a montanha na sua bicicleta sinfnica e vai pedalar rente ao mar. De um lado para o outro, percorre a marginal que no Inverno as ondas vm lamber. Vai e volta. E, pelo caminho, espalha msica e sorrisos. No parece habitar neste mundo, a mulher.Os sons semeados pela sua bicicleta escutam-se ao longe, roufenhos e festivos, a artes de nuvens gesticula, regendo a imaginria orquestra de minsculos msicos encavalitados na aparelhagem sonora.Presumo que seja uma pessoa feliz, cheia dessa felicidade que apenas as pequenas coisas proporcionam, belos e subtis prazeres; algum que se empenha em escandalizar suavemente o mundo com a msica da sua alegria.Tudo sem pressas e sem tempo, com os gestos que tm as pessoas cintilantes, as quais no correm para lado nenhum, nem fogem de coisa alguma. Brinda- -nos com o seu sorriso e ns sorrimos com ela nessa doce insensatez do Desejo. Cristina Lourido

    O dia da alvorada foi a data escolhida para um grupo de jovens tentarem acordar a populao para o problema do lixo gerado por cada um. Tal como a noite de Natal que se aproxima, o Duque de vila e de Bolama recebeu um monte de presentes: caixas de papelo que representavam as quantidades de lixo que 1 ou mais pessoas produzem por dia. Objectivo? Que as pessoas percebessem que o lixo ocupa espao e no desaparece quando o pomos no contentor. Mas como ningum gosta de ver o lixo em lugar de destaque, quando a cidade acordou j todas as caixas tinham sido retiradas. O problema que, tal como essas caixas, o lixo no desapareceu...apenas saiu da nossa frente!Grupo de EcoArteIn(ter)veno da Horta

    Quando me propuseram o interessante tema de pensar sobre um stio onde nunca tinha estado, tinha acabado de ler o Velho e o Mar de Ernest Hemingway. No pude deixar de fazer um paralelismo entre a histria que tinha lido e o tema sobre o qual me proposto pensar. Todo o imaginrio da histria transporta-nos ao largo de Havana pelo Golfo do Mxico. O mar o lugar principal onde se desenrola a aco, um lugar com vida, onde h sempre algo a acontecer.Nos Aores o vazio entre as ilhas o seu lugar central, d-lhes o espao infinito, os sons, o reflexo da luz, o nascer, o final do dia e a noite, o frio e a chuva quente. em torno do mar que vejo os Aores como pequenos navios de pesca nessa solido acompanhada como se j os conhecesse.

    homem e apreciar-lhes a franqueza desarmante com que o admitem. Aos comunistas enalteo-lhes muito a inteno altrusta, apesar de amide dada a contradies e incoerncias. Curiosamente os primeiros, defensores de um sistema mais pragmtico e darwinista de organizao social e econmica, so normalmente homens de f dados a acreditar nos desgnios de Deus, enquanto os segundos, defensores de um sistema idealista, so homens de lgica que preferem medir o destino em escala antropomtrica.O conservadorismo e o progressismo esto presentes em ambos os grupos, se bem que aplicados de forma diferente. Os capitalistas promovem

    um progressismo tcnolgico e ao servio da economia liberal, ao dispor de qualquer pessoa, ao passo que os comunistas apoiam o progresso ideolgico e ao servio da filosofia, ao dispor de qualquer colectivo de pessoas. Uns defendem um conservadorismo assente nas tradies culturais e ligado a valores de Deus, Ptria e Famlia (em ordem crescente de valor dos valores) e os outros o so mais prudentes no que diz respeito a novas conquistas da tcnica, assentando os seus valores em Marx, Estado e Camaradas (ordem decrescente de valor dos valores). O capitalista defende a competio como motor do progresso e caminho para a realizao do potencial humano. Aqui so a necessidade e o impulso

    individual a alicerar o desenvolvimento civilizacional. O comunista defende que todas as condies bsicas de vida devem estar asseguradas a priori e que a homogeneidade social deve estar na base do sucesso de uma civilizao. Os primeiros preferem esquecer que a organizao colectiva e a cooperao so (e foram na nossa espcie) factores evolutivos essenciais, e os segundos optam por uma obliterao cega do instinto individual, na base de muitas das conquistas que pauteiam a nossa civilizao. Ambos os sistemas se fundam numa f benevolente (e preguiosa) em instituies dos homens - uns no mercado e os outros no estado - e como sabido o homem tem imperfeies. Os comunistas no comem criancinhas, apesar de as quererem cozinhar, os capitalistas no so selvagens, apesar de no se importarem de comer criancinhas. Para que qualquer ideologia funcione na prtica a cidadania no pode ser s um cartaz avenida abaixo quando as coisas correm mal - tem de estar l sempre, atenta. Abdicar preguiosamente do nosso dever enquanto cidados na esperana que outro o faa desinteressadamente estpido, e a estupidez, e a preguia, pagam-se. Conhecimento no um fim, uma arma, e questionar um acto de disparo, e at o papo tem medo do barulho das pistolas.Pedro Lucas

    Sempre pensava no mar como la mar, que o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. s vezes, aqueles que gostam do mar falam mal dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam bia por flutuadores e tm barcos a motor, comprados quando os fgados de tubaro davam muito dinheiro, dizem el mar, que masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, at um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque no podia deixar de as fazer.A lua influi no mar como as mulheres, pensava ele. Pedro Namorado

    A capa do Fazendo o rosto do jornal. A sua cara. O Fazendo no um jornal de notcias, no tem jornalistas contratados e a sua capa no tem manchetes. Desde a primeira edio que o rosto do Fazendo uma imagem, a cores, ilustrada por uma frase. Algo nessa imagem ter