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  • 9 7 01 FAZENDO ***

    FAZENDO 97o boletim do que por c se faz

    matando uns, salvando outros

    gratuito fevereiro 2015

  • 9 7 0 2FAZENDO * **

    Sumrio Ficha Tcnica

    CrnicaVeni Vidi Vici entrevista ao outdrico.9504

    IntervenoNos Aores com Ral Brando por paulo lisboa.9506

    Msica Muma, Msica em Maropor miguel machete.9511

    CinemaExtenso do festival CineEcopor carla dmaso.9517

    CinciaA Vida dos Cachalotes por claudia oliveira.9518

    DanaQuem Dana Mais Felizpor teresa cerqueira.9520

    Artes PlsticasEm Concretopor carlos bessa.9522

    Directoresaurora ribeiro

    toms melo

    Coordenadoresfernando nunes

    rita mendesmelina lvaro

    silvia lino

    Colaboradoresagnes juten

    ana lcia almeidacarlos bessa

    claudia oliveiradieter ludwigisabel mateus

    miguel machetepaulo lisboa

    pedro afonsorenato pinheiro

    rogrio sousasara soares

    teresa cerqueira

    Revisocarla dmaso

    Capadieter ludwig

    Paginaotoms melo

    Projecto GrficoilhasCook

    p r o p r i e d a d e assoc cultural fazendos e d e rua conselheiro medeiros n 19

    9900 hortap e r i o d i c i d a d e mensal

    t i r a g e m 500 exemplaresi m p r e s s o o telgrapho

    registado na erc com o n125988

  • 9 7 0 3 FAZENDO ***

    CapaDieter Ludwig

    1997 o ano da criao na cidade da Horta, Ilha do Faial, do Conselho Mundial das Casas dos Aores formado pelas diver-sas Casas dos Aores disseminadas pelo mundo, criadas com o intuito de servir as comunidades em que se encontram e cooperar com as diversas entidades aorianas no sentido de promover os valores e a cultura da Regio Autnoma dos Aores. D-se, na Primavera, a erup-o submarina no banco D. Joo de Cas-tro, entre o mar da Ilha Terceira e a Ilha de So Miguel e, em Outubro, ocorre o trgico escorregamento de terras na Ri-beira Quente, na encosta do Outeiro das Freiras. O Instituto Aoriano de Cultura publica a obra Gravura de Humberto Maral. Executa-se o restauro de todas as imagens existentes nas vrias cape-las da S Catedral de Angra, Angra do Herosmo, que retomam os seus lugares anteriores. Joo Leal torna pblico o tra-balho Aorianidade: literatura, poltica, etnografia (1880 1940) . Zeca Medei-ros grava Encontros com Joo Loio.

    No me consigo lembrar do cheiro. Ami-gos meus dizem-me que era horrvel. Que no podias respirar o ar pungente, era impossvel. No me recordo que fos-se assim. Muito tnue, nas traseiras da minha memria h um cheiro de como quando se entra num talho numa tarde quente. Mas no tenho a certeza abso-luta.

    E ento: o som do partir da espinha, de-capitando a besta. A cabea do gigante perto do corpo que desaparece deva-gar. Dentro da caveira, o maior crebro do planeta. Pele preta a envolver um toucinho cremoso, feixes de msculos vermelho-escuro, o corao, o fgado, as entranhas. Cortados por homens ocupa-

    Fernando Nunes

    FAZENDO 97

    ilustrao: Pedro Valim

    O poeta Emanuel Flix publica o livro de poemas Habitao das Chuvas, que contm o poema As raparigas l de Casa- (Como eu amei as raparigas l de casa/discretas fabricantes da penum-bra.). Mrio Mendes realiza o telefilme A Viagem, contando com o argumento de Armando Medeiros, reconhecido ci-nfilo micaelense. criado o Instituto Portugus de Arqueologia. No cinema nacional, Pedro Costa apresenta o fil-me Ossos no Festival Internacional de Veneza. Morre, aos 87 anos, o maior oceangrafo e divulgador do fundo dos mares: Jacques Yves Cousteau. O poeta portugus Al Berto desaparece do nosso convvio, tornando-se imortal com a sua poesia, ao legar-nos versos como estes: h-de flutuar uma cidade no creps-culo da vida /pensava eu...como seriam felizes as mulheres / beira mar debru-adas para a luz caiada/remendando o pano das velas espiando o mar /e a lon-gitude do amor embarcado.

    dos a trabalhar contra o tempo e o apo-drecimento no meio de uma carne ain-da morna, a fumegar no sol da manh.

    Tornozelos que se afundam no sangue e na gordura. A arrastar os despojos para os paneles de cozedura, para o calor que derrete a baleia em leo precioso, em cinzas polvorentas.

    O whale watching era diferente nessa altura. Podia ver-se a baleia uma vez, depois ela desaparecia da nossa vista para regressar como vitaminas, leos, farinhas e adubos.

    Nada era desperdiado. Nada, excepto a vida da baleia.

    Nada era desperdiado. Nada,excepto a vida da baleia.

  • 9 7 0 4FAZENDO * **

    VerEstranhasFormasa PensarAgnes Juten ir expor, a partir do dia 20 de Fevereiro at 10 de Abril, esculturas e desenhos na Casa Manuel de Arriaga, na cidade da Horta, Ilha do Faial. So desenhos e esculturas muito recentes, alguns trabalhos realizados para o efei-to, intitulados de Novas Obras, que a artista elaborou, imaginou e concebeu no seu atelier da rua de Santana, n7. H quase meio sculo que o seu gesto escultrico se repete, confirmando e re-novando o seu percurso de artista visual a partir de objetos que quotidianamente cria, (re) inventa e constri. Agnes Juten uma artista plstica, holandesa, radi-cada na Horta, com um longo percurso e pergaminhos, os quais mais uma vez teremos a oportunidade de apreciar neste conjunto considervel da sua vas-ta obra.

    Numa sala algo minscula, amontoada de materiais de outras exposies ou ob-jetos, provavelmente espera de serem usados, ela vai tambm desenhando, realizando esboos e outras intenes que se concretizaro enquanto combi-nao de materiais e formatos, ou sim-

    plesmente desenhando traos, revelan-do as figuras e formas de um conjunto de objetos espera da arte final ou tra-balho conceptual. Este trabalho dirio de agregar tcnicas e moldar objetos faz com que sejam vrios os objetos que se disponibilizam s suas mos, se subme-tam sua inventividade, curiosidade, e ainda ao enorme rigor criativo envol-vido da sua parte. Desta relao com os materiais constam essencialmente o fer-ro, a madeira, o arame, alguns invlu-cros de produtos, peges e afins. Agnes ousa assim romper com a normalidade, com o frgil equilbrio que nos susten-ta, da que cada vez que usa um nome para um objeto, atira-nos com nomes como Suporte, Movimento, Deita-do, Declive, Avalanche, Pego ou outras estruturas sujeitas a limites como Linha Vermelha ou mesmo Ilha. Permiti-se mesmo iluminar a escurido por detrs de si, interrogando os cami-nhos da arte, do seu tempo, evidencian-do num primeiro risco ou trao, um pri-mevo olhar sobre a forma e os objetos, fruto de uma revelao interior.

    Agnes Juten vai, no entanto, deleitando--se com as pequenas narrativas que ou-tros seres fazem acerca destes objectos artsticos depois de usados em exposi-es, muito embora para si tenham o condo de ser duradouros, dado o ape-go e pertena que ainda hoje por estes manifesta, tem conscincia do carcter efmero e voltil que estes simbolizam para o pblico espectador. Ironiza, in-clusive, com a necessidade alheia de

    utilizar as suas esculturas para repre-sentar qualquer situao ou objecto do mundo real. Agnes Juten sabe que ali est a representao do seu prprio mundo, o seu pensamento, o escult-rico gesto que vibra com o desenrolar do tempo e da vida (quase meio sculo dedicada escultura e ao desenho). E o que fazer dessa necessidade permanen-te em satisfazer o desafio de criar ima-gens, representaes, significados, sem pensar na utilidade da arte?

    Na verdade, as esculturas de Agnes Ju-ten respiram sobriedade, leveza for-mal, assentam no pendor criativo na ilustrao dos vrios estados de alma que percorrem qualquer ser pensan-te. So esculturas que se do trabalho ao pensar, estranheza que convida e cultiva a introspeo, que imploram interioridade, ao recolhimento. Do mesmo lado, os seus desenhos evocam simples gestos, movimentos, cruza-mentos, clausura, os ns e os laos que estabelecemos enquanto o silncio vai esculpindo a persona de que somos feitos. Estamos, portanto, perante uma sensibilidade inquieta, inabitual modo sereno de nos fazer cogitar, essa curiosi-dade permanente pelos opostos existen-ciais. Que luzes ou sombras, que caos ou o mundo harmonioso nos sustenta este equilbrio que julgamos habitar? Dessa hospitaleira resposta aqui fica o convite ao desassossego formal, estranheza e, essencialmente, ao prazer de poder ver novamente os seus trabalhos expostos. Inquietemo-nos.

    Fernando Nunes

    a Esculturae os Desenhosde Agnes Juten

    at 10 de Abril Casa Manuel de Arriaga

    tera a sexta 9 - 12.30 e 14 - 17.30

    escultura

  • 9 7 0 5 FAZENDO ***

    crnicaVeniVidiVici

    Ol Outdrico, ests in?Ainda estou a aterrar.

    De onde vens?Venho da China.

    Porque que vieste aqui parar? Sabes que vais apanhar muito salitre? Contrataram-me para emitir imagens e informar a populao. Por isso que estou perto do mar, na avenida mais movimentada da cidade.

    s uma rvore? Um salgueiro?No. Sou muito mais moderno do que isso. Muito melhor e muito mais frente do que uma rvore.

    Qual o teu lema?Passa passa passageiro, Passo imagens sem parar, J viste que coisa mais linda? Ainda te vais estampar.

    Como que vieste aqui parar?Eu ia a caminho de Lloret del Mar, mas o avio foi desviado.

    O que que comeste ao pequeno almoo?Duas torradas de po bimbo com manteiga e um galo de pacote antes de embarcar.

    Gostas de estar aqui, o que achas das vistas?Sim, excelente, uma natureza deslumbrante, acho at que para a semana vou comear a passar imagens do Pico. S para as pessoas que passam de carro no terem que olhar para o lado.

    E anuncios da Salsior?Isso so segredos a desvendar num futuro prximo. No estou autorizado a revelar.

    Os Outdricos chegaram ao Faial

    e o Fazendo foi entrevistar o

    Outdrico Dabneyda

    Ah, *%$#$%%, j perdi a lancha para o Pico. Espera a, eu tenho aqui os horrios! Mas estou programado para os passar s daqui a uma hora, depois destas magnficas imagens azuis da baa que