fazendo 98

Download Fazendo 98

Post on 21-Jul-2016

230 views

Category:

Documents

1 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

 

TRANSCRIPT

  • 9 8 01 FAZENDO ***

    FAZENDO 98o boletim do que por c se faz

    vivam as low cost, morram as ilhas de baixo

    gratuito maro 2015

  • 9 8 0 2FAZENDO * **

    Sumrio Ficha Tcnica

    Msicamarujos de corao aberto por fernando nunes.9804

    Cincia Tartarugas nos Aorespor helen rost martins.9810

    CinemaBalaoupor toms melo.9811

    Sociedadeum Valzinho por nina soulimant.9812

    HistriaOUSS LST -228por jos luis neto e pedro parreira.9816

    CrnicaViver num paraso com gradespor gabriela silva.9822

    1998

    Directoresaurora ribeiro

    toms melo

    Coordenadoresfernando nunes

    rita mendesmelina lvaro

    silvia lino

    Colaboradoresana lcia almeida

    assuno melobruno da ponte

    carlos alberto machadocarlos bessa

    gabriela silvahelen rost martins

    jos luis netomiguel costa

    nina soulimantpedro parreira

    ruth barthenschlager

    Revisosara soares

    Caparaquel vila

    Paginaoraquel vila

    Projecto GrficoilhasCook

    p r o p r i e d a d e assoc cultural fazendos e d e rua conselheiro medeiros n 19

    9900 hortap e r i o d i c i d a d e mensal

    t i r a g e m 500 exemplaresi m p r e s s o o telgrapho

    registado na erc com o n125988

    ilust

    ra

    o Ra

    quel

    Vila

  • 9 8 0 3 FAZENDO ***

    CapaRaquel Vila

    1998 o Ano Internacional do Oceano e da rea-lizao, em Lisboa, da Expo 98. A Orques-tra Regional Lira Aoriana, constituda por um conjunto de msicos recrutados das vrias filarmnicas do arquiplago aoriano, participa no evento com um re-pertrio diversificado de msica ligeira e erudita. Um forte sismo abala as ilhas do Faial, Pico e So Jorge, com a magnitude 5,6 richter com epicentro a NNE da ilha do Faial, provocando grandes desaba-mentos de falsias costeiras e origina o desalojamento de 1700 pessoas, a morte de 8 pessoas e 150 feridos. O msico ter-ceirense Carlos Medeiros edita o disco O Cantar na mIncomoda, reinterpretan-do alguns temas do esplio tradicional

    Diuen que si escoltes aquesta can et transformes en un sque el cel es torna groc i et surt pl per sobre del teu cosque s en aquest moment quan comena a transfromar-tequan comena a transformar-te

    I de cop el cel es torna groci et surt pl per sobre del teu cos,et sents lliure como un s al bosci tots els teus amics sn animals petits i tu noms vols transformar-tetu noms vols transformar-te

    Fernando Nunes

    FAZENDO 98

    do arquiplago aoriano: Rema, San-tiana, Marujo, oriundos das Flores e reinventa outras canes da tradio oral, como o Caracol, popularizado por Jos da Lata e gravado por Artur dos Santos em 1952. Anbal Raposo grava o CD Mar Cheia, registado durante trs anos, incluindo quinze originais do au-tor compostos entre 1988 e 1998. Mar Cheia um disco que merece, de facto, ser ouvido em todo o pas escreve o Cartaz do Jornal Expresso. Zeca Medeiros edita

    I tots junts flotem contents pel boscentens lunivers per primer copla gent sn ossets petitsi surt el sol de niti sc un s felique no pot parar de ballar tan lliure enmig del bosc.

    o lbum 7 Cidades, a Lenda do Arcebis-po. A escritora micaelense Madalena Frin publica pela editora Salamandra: Po e Absinto e o Instituto Aoriano de Cultura publica a obra Paula Rego. O romancista Jos Saramago galardoado com o prmio Nobel e tommos conheci-mento de que haviam 420 lnguas quase extintas. Portugal constri a ponte Vasco da Gama, que passa a ser considerada a maior ponte da Europa..

    LA IAIA in On s la Mgia

    Ls

    Ilust

    ra

    o da

    Olg

    a C

    apde

    vila

    A Ra

    quel

    Vila

    ser

    esta

    gir

    ia n

    o Fa

    zend

    o pe

    los p

    rxi

    mos

    mes

    es, c

    ontri

    buin

    do c

    om a

    sua

    cria

    tivid

    ade

    e im

    agin

    ao

    par

    a en

    rique

    cer o

    jo

    rnal

    e tu

    do o

    que

    por

    c

    se fa

    z.

  • 9 8 0 4FAZENDO * **

    msica

    E um Navio interior a viajar por entre memrias, carrega-do de luz e esperana, ainda que para trs fiquem ausn-cias, desaparecimentos.

    Fernando Nunes

    Conta-me um pescador que todas as manhs, muito cedo, vai alimentar um cagarro com uma asa ferida no por-to da Horta. Diz-me isso no incio do ms de Maro, com alegria, em suave comoo e o brilho dos olhos que eu no consigo descrever com exactido. Porventura, at sei, mas a realidade que este facto real supera em larga medida a fico. Tudo isto se passa num pequeno caf, apelidado de Vinte, com uma vista to ou mais bela para a Baa de Porto Pim, como a histria deste bi-logo inventado. um conhecedor pro-fundo de aves marinhas, que se podia fundir com todos os outros seres que ha-bitam no fundo do mar, j que carrega consigo uma voz que semelhante ao som de um bzio.

    Por vezes, ao fim da tarde, confirmo com clareza quando me sada e , tal e qual, como se fosse a primeira vez a conhecer-mo-nos. Aquela voz parece vir do fundo dos tempos, um eco to antigo que me produz uma lembrana imediata de ve-lhos amigos ou familiares de outras his-trias e pocas. Ouo as suas histrias e, por isso desato a recordar imediatamente o Cantar Na mIncomoda, edita-do em 1998, pelo msico terceiren-se Carlinhos Medeiros e produzido pelo Lus Gil Bettencourt. Foram ra-ras as vezes em que ouvi os temas desse seminal disco, essencialmente o Rema,Santiana, ou, concretamen-te, o Marujo, oriundas do cancionei-

    ro tradicional da Ilha das Flores, em que no me devolvesse, por instantes, a vida difcil desta gente ou que de sbito me reavivasse os seus dias duros e dif-ceis da faina martima e dolorosa exis-tncia destes homens enquanto vivem e baloiam no alto mar. No raras vezes tambm atravs do som do mar, no que este tem de mais instintivo, primitivo e primordial, que se misturam em mim as suas vozes com a dos cagarros num linguajar imperceptvel entre homens e aves marinhas, impossvel de distinguir.

    E de cada vez que as oio, lembro-me do pescador Isauro, um corvino que apren-deu a nadar muito cedo, devia ter entre 6 e 7 anos na sua pequena ilha, disposta ao lado da ilha mais ocidental do arquipla-go aoriano: as Flores. certo, o Isauro natural do Corvo. Oriundo de uma fam-lia de 8 irmos, filho de um cabouqueiro, comeou a pescar aos 14 anos. O Isauro pescador, agora na Ilha do Faial, h quarenta e quatro anos. Uma existncia inteira que se confunde com o mar, pos-suidor de um rosto carregado de rugas, a certeza e trao de uma expresso rubri-cada por uma vida cheia, onde se sente esse rumor dos ventos, do sol, da chuva e das tempestades. Foi, ele prprio, quem me disse um dia que no h nada melhor do que permanecer no mar mais do que trs dias sozinho, desafiar a vida, impri-mir coragem e aventura aos dias e s noites, sentir apenas a presena e o ba-rulho das ondas, perder a noo do tem-po e das horas, esquecer diferentes fases do dia, da manh, da tarde, da noite, e, quem sabe, at das estaes. Tenho, por isso, uma admirao inde-fectvel por estes homens que tm o con-do de fazer sonhar, homens corajosos,

    aventureiros, nem sempre rudes, como dizem. O Isauro doce. Admiro-os a eles e s suas reduzidas palavras, arrancadas com um anzol do tamanho da sinceri-dade. Eu vejo se uma pessoa honesta pelo seu olhar- revelou um dia. Desde pequeno que os ouo, s vezes com toda a ateno do mundo, apaixonante. como se o tempo se condensasse numa nica frase meldica, num singular tim-bre inaudito, criptado, assustador, numa articulao de sons que ficaro eterna-mente por desvendar.

    Escuto, entretanto, o lbum Mar Aberto, fixo-me na cano Navio, elaborada pelos msicos Carlos Medeiros e Pedro Lucas, e , tal e qual, este sentimento, este abalo afectivo que nutro, este encantamento crescente dentro desta aconchegante identificao. um Navio interior a viajar por entre me-mrias, carregado de luz e esperana, ainda que para trs fiquem ausncias, desapareci-mentos. A cano e a guitarra ficam em per-manente escuta num incansvel baloio por entre tantas dores verdadeiras, escritas ou imaginadas, navegando em pleno mar alto atravs dos sons e do canto que se ouve sem cessar. So marinheiros de alma grande e de corao bem aberto. So tambm asas feri-das que cavam fundo a dor de querer voar.

    Marujos de corao aberto

    Ilustrao Rodrigo Freitas

  • 9 8 0 5 FAZENDO ***

    NA

    VIO

    No porto deserto

    S h um navio

    J triste e cansado

    O resto vazio

    No velho costado

    O mar escreveu

    Com algas e bzios

    O que ele sofreu

    O que ele passou

    Sulcando oceanos

    Cruis temporais

    Por anos e anos

    Nas horas sem fim

    Por noites e dias

    Das rotas distantes

    E das calmarias

    Navio parado

    Em frente do mar

    Que bom partir

    Que triste ficar

    Mistrio de longe

    Chamando, chamando

    Adeus que me vou

    Deus sabe at quando.

    Arm

    ando

    Cr

    tes

    Rodr

    igue

    s, in

    M

    ar A

    berto

    (Car

    linho

    s M

    edei

    ros

    e Pe

    dro

    Luca

    s, fa

    ixa

    n11

    , N

    avio

    )

  • 9 8 0 6FAZENDO * **

    Onde SoPara Tios Aores

    algures no mundoalgum

    convidado a fazer

    um retrato das nossas ilhas.

    Um novo espao para as artes nos AoresCarlos Bessa

    Re.act refunction gallery

    Transitoriedade, urbanidade, singularidade poderiam ser maneiras de designar uma nova galeria, a RE.Act, inaugura-da a 21 de Fevereiro deste ano na ilha Terceira. Desde logo por se tratar da ocupao de um espao devoluto num lugar central da Praia da Vitria, localidade que h muito via o seu casco histrico padecer de grave anemia. Num claro gesto de interveno urbana, como se um pequ